sábado, 16 de maio de 2026

Textos para Celular

 
Anuário de Leituras Bíblicas

Acesso: dizemasescrituras.blogspot.com

O Escapulário


    Na manhã de 16 de julho de 1251, Nossa Senhora do Carmo apareceu a São Simão Stock, um frade carmelita inglês, e disse: "Recebe, meu filho, este Escapulário de tua Ordem, como distintivo sinal de minha Confraria e selo do privilégio que obtive para ti e para todos carmelitas: aquele que com ele morrer, não padecerá o eterno fogo. Este é um sinal de Salvação, uma salvaguarda nos perigos e prenda de eternas Paz e aliança."
    Quando a Santíssima Virgem disse "não padecerá o eterno fogo", queria dizer que a pessoa que o usasse, evidentemente seguindo todas recomendações que ela prescreveu (ver abaixo), não iria, sob hipótese algum, para o inferno.
    Cumpria-se, portanto, a profecia de São Domingos, que décadas antes havia afirmado: "Um dia, através do Rosário e do Escapulário, Nossa Senhora salvará o mundo."
    A palavra 'escapulário' vem do latim 'scapula', que nessa língua designa o osso que chamamos omoplata. Originalmente, é uma veste contra o frio, que recobre as costas, os ombros e o peito, como essa usada por Santo Antão na pintura abaixo, ou no antigo desenho de um Padre carmelita.


    Hoje, com o uso dessa veste quase restrito aos religiosos, questões de clima local e a grande devoção popular por todo mundo, ele é conhecido apenas como o colar, embora continue sendo um sacramental, isto é, o mesmo instrumento de proteção e símbolo de , mas com duas imagens: de Jesus e de Nossa Mãe Celeste.


    Ou o mais tradicional, mostrando a imagem de São Simão Stock recebendo o escapulário de Maria Santíssima e com a inscrição da Promessa em inglês.


    Em 3 de março de 1322, Nossa Senhora apareceu ao Papa João XXII e prometeu uma Graça ainda maior àqueles que usarem o Escapulário: "Eu, vossa Mãe, graciosamente baixarei ao Purgatório no sábado seguinte a vossa morte, lavá-los-ei daquelas penas e levá-los-ei ao Monte Santo da Vida Eterna."
    Esse é o conhecido Privilégio Sabatino. Ou seja, quem usar o Escapulário como ela prescreveu e, por algum posterior pecado, tiver que passar pelo Purgatório, será libertado das chamas da purificação já no primeiro sábado após a morte. É necessário, porém, que o Escapulário seja bento por um Sacerdote e que o católico esteja sob a Graça de todos Sacramentos da verdadeira Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, o que significa ser batizado, crismado e casado na Igreja Católica Apostólica Romana e, ao menos uma vez ao ano, confessar-se e comungar.
    Na última das Aparições de Fátima, no dia 13 de outubro de 1917, Nossa Mãe do Céu apresentou-se com a imagem de Nossa Senhora do Carmo, com o Escapulário nas mãos. Foi perguntado a Lúcia, uma dos três videntes, qual mensagem ela queria passar com esse gesto. Ela respondeu: "É que Nossa Senhora quer que todos usem o Escapulário."

    "Oh Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós!"

São Simão Stock


    Simon nasceu em 1165, de nobre família do condado de Kent, Inglaterra, e desde cedo revelou ser dotado de incomum inteligência: aprendeu a ler ainda muito novo e serenamente rezava com os pais o Pequeno Ofício de Nossa Senhora.
    A partir dos 7 anos, foi estudar Belas Artes no colégio de Oxford, e tão fortemente impressionava professores e Sacerdotes por sua maturidade que logo foi considerado apto para receber o Santíssimo Sacramento. Realmente tinha especial gosto pelas coisas de Deus: a Santa Igreja Católica, a Santa Missa, o Evangelho, o Catecismo, as orações, as santas imagens.
    Por uma dificuldade de saúde de sua mãe, ainda no ventre foi consagrado a Maria Santíssima. Antes de lhe amamentar ao seio, sua mãe sempre rezava uma Ave Maria. Quando o esquecia, o pequeno São Simão recusava-se a mamar. E quando por algum motivo ele chorava, bastava entregar-lhe qualquer sagrado objeto, como um crucifixo, ou colocar-lhe à vista uma imagem de Jesus ou da Santíssima Virgem para que rapidamente se acalmasse.
    Ainda com apenas 12 anos, por sua inclinação espiritual que rejeitava a vida na riqueza, após várias contendas com o irmão mais velho, que lhe tinha inveja, São Simão fugiu para uma floresta e por 20 anos viveu dentro de um tronco de carvalho, e daí vem seu apelido Stock, que significa tronco em inglês antigo, dado pelo próprio povo da região que muito o admirava e divulgava sua piedosa história.
    Aí, além do lugar de deitar, só havia espaço para um pequeno e improvisado altar, onde ficava um crucifixo, e, num singelo nicho feito de pedras, repousava a imagem de Nossa Mãe do Céu e a Bíblia. Era sua casa e seu oratório.


    Porém, como aconteceu a Santo Antão, Satanás não lhe dava descanso. Foi atormentado por tenebrosos remorsos por renegar a família e se afastar dos Sacramentos da Igreja Apostólica. Mas confiava nos exemplos dos Santos eremitas que bem conhecia, e tinha certeza que Deus não o abandonaria. De fato, era atendido com indizíveis consolações do Espírito Santo e a proteção da Virgem Maria.
    Acabou retornando à vida urbana, contudo, depois de uma visão que teve de Nossa Senhora do Carmo, anunciando a vontade de o ver fazer parte de uma congregação de monges que vinham da Terra Santa, mais propriamente do Monte Carmelo, onde viviam consagrados a Mãe de Deus. Inicialmente, ele retornou à casa dos pais, abraçou os estudos de Teologia, recebeu o Sacramento da Ordenação Presbiteral e levou vida de mendicante pregador, em especial visitando enfermos e pobres.
    Em 1213, aos 48 anos, chegaram dois carmelitas a seu condado, e ele prontamente os reconheceu como os monges designados por Nossa Senhora. Foi de imediato admitido entre eles e sentia-se profundamente realizado. Em 1215, porém, como sua santidade já era amplamente reconhecida, foi chamado para ser coadjutor de São Brocardo, que era o Segundo Geral Latino da Ordem. E em 1226, por fim, foi nomeado Vigário Geral de todas províncias de Europa.


    A Ordem do Carmo, no entanto, sofria uma forte perseguição dentro do próprio Clero. Pediam sua extinção por contrariar o IV Concílio de Latrão, que proibia a instituição de novas ordens, embora os carmelitas já fossem muito antiga Ordem. São Simão enviou delegados a Roma para que resolvessem a questão e, após muitas contrariedades, Nossa Senhora apareceu ao Papa Honório III e ordenou-lhe que aprovasse a Regra do Carmo, confirmasse Ordem e assumisse sua proteção.
    Em 1237 foi realizado o Capítulo Geral da Ordem na Terra Santa, porque eram os tempos das Cruzadas, os muçulmanos estavam prestes a dominar toda região, os monges de lá certamente seriam assassinados e os conventos, destruídos. Alguns queriam ficar, mesmo sob risco de martírio, mas São Simão, como muitos outros, era a favor da retirada. Como a catequização ali era impossível, pois a grande maioria da população era de origem árabe e estava sob ameaças de morte dos islamistas em caso de conversão ao Cristianismo, ele não via proveito nesses heroicos atos, que sequer seriam testemunhados, e julgava muito mais frutuoso catequizar as terras de Europa. Como principal argumento, recorria-se de uma passagem do Evangelho Segundo São Mateus, na qual Jesus diz: "Se vos perseguirem numa cidade, fugi para outra." Mt 10,23
    E não estava errado, pois, por vontade de Deus, mesmo antes que São Simão pudesse voltar para Europa, o Mar Mediterrâneo foi dominado pelos árabes e ele teve que se refugiar no Monte Carmelo. Aí reviveu seus tempos de adolescente, jovem e adulto, levando vida de eremita numa gruta por mais de 6 anos em absoluta solidão. Só quando foi procurado por outros monges, e informado que havia cruzados ingleses preparando-se para voltar, mais uma vez decidiu-se por servir a sua Ordem.
    Com efeito, no capítulo realizado em 1245 foi eleito Prior Geral da Ordem do Carmelo, apesar de seus 80 anos de idade. Mas não por acaso: continuavam as perseguições aos carmelitas pelos Clérigos, mesmo após a Bula Papal de Honório III. E ele teve que as sofrer mais alguns anos até que em 1251, quando fervorosamente rezava a Nossa Senhora pedindo-lhe uma ajuda para manter a Ordem, ela lhe apareceu e ofereceu o Escapulário.


    Disse-lhe: "Recebe, meu filho, este Escapulário de tua Ordem, como distintivo sinal de minha Confraria e selo do privilégio que obtive para ti e para todos carmelitas: aquele que com ele morrer, não padecerá o eterno fogo. Este é um sinal de Salvação, uma salvaguarda nos perigos e prenda de eternas Paz e aliança."


    Também lhe deu instruções para mandar delegados ao Papa Inocêncio IV, de quem obteve a definitiva aprovação da Ordem em 1252. A partir daí, São Simão alterou a tradição, quando os membros da Ordem passaram de eremitas a mendicantes, ou apostólicos, e abriu vários mosteiros, principalmente nas grandes cidades onde surgiam as primeiras universidades de Europa, que atraíam muitos e os mais estudiosos jovens. Foi assim que fundou casas carmelitas em Cambridge, no ano de 1249, Oxford, em 1253, Paris, em 1254, e Bolonha, em 1260.
    Nosso Santo compôs esse lindo hino a Nossa Senhora do Carmo:

"Flor do Carmelo,
Vinha florida,
Esplendor do Céu,
Virgem fecunda e singular.
Mãe bondosa e intacta,
aos Carmelitas dai privilégios.
Estrela do mar!"

    A tradição do Escapulário rapidamente se espalhou por todo continente, e os milagres da Santíssima Virgem confirmavam sua maternal proteção.


    Nosso Santo morreu no mosteiro de Bordeaux, França, a 16 de maio de 1265, quase centenário, quando estava de viagem a Toulouse para novo Capítulo da Ordem. Já havia, então, mais de 500 mosteiros carmelitas nas mais diversas nações do continente. É o Santo Padroeiro da Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, atualmente chamada de Ordem do Carmo, e também Padroeiro da Província dos Carmelitas Descalços de Inglaterra, Ordem oriunda da reforma na Ordem do Carmo feita por Santa Teresa d'Ávila e São João da Cruz em 1593.



    Em 1951, suas relíquias, ossos do crânio, foram trasladadas para o mosteiro carmelita da vila de Aylesford, em Kent, sua terra natal em Inglaterra.


    São Simão Stock, rogai por nós!

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Comunhão com os Pobres


    As ações de caridade deveriam ser levadas muito mais a sério. Se buscamos a Comunhão com Deus, portanto também com nossos irmãos, devemos compreender o que ela significa e sua real dimensão, porque é evidente a preferência do Pai pelo socorro aos mais pobres. No Livro de Salmos, o rei Davi canta: "Entretanto, Vós vedes tudo: observais aqueles que penam e sofrem, para tomar a causa deles em Vossas mãos. É a Vós que se abandona o infortunado, sois Vós o amparo do órfão." Sl 9,35
    Diz que Ele é Deus de Justiça e Misericórdia: "... faz Justiça aos oprimidos, e dá pão àqueles que têm fome. O Senhor livra os cativos. O Senhor protege os peregrinos, ampara o órfão e a viúva, mas transtorna os desígnios dos pecadores." Sl 145,7.9
    E o rei Salomão, demonstrando sua Sabedoria, assim pede a Deus pelo rei de Israel, o que valia para si mesmo, mas em especial para o Esperado Messias: "... para que Ele governe Vosso povo com Justiça, e Vossos pobres conforme o direito. ... salve os filhos do indigente e esmague seus opressores. Porque Ele liberta o indigente que clama, e o pobre que não tem protetor. Tem compaixão do fraco e do indigente, e salva a vida dos necessitados. Ele livra-os da astúcia e da violência, o sangue deles é precioso a Seus olhos." Sl 71,3.4b.12-14
    Em síntese, a Comunhão é a união de comuns, união de iguais, e assim, se buscamos comungar com Deus, estar unidos a Ele, estamos pedindo que Ele partilhe conosco Sua santidade e Sua divindade. Pode parecer absurdo, mas é isso mesmo: a vontade de Deus é oferecer-nos Suas qualidades, que recuperemos Sua semelhança. Na Carta aos Hebreus, os seguidores da tradição de São Paulo disseram: "Nossos pais humanos, por pouco tempo, corrigiam-nos como melhor lhes parecia. Deus, porém, corrige-nos para nosso bem, a fim de que sejamos participantes de Sua própria santidade." Hb 12,10
    E a Segunda Carta de São Pedro testemunha: "... temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de vos tornar, por este meio, participantes da natureza divina..." 2 Pd 1,4
    Essa era a missão dos Apóstolos, da Santa Igreja Católica: através dos Sacramentos, levar as pessoas à Comunhão com a Santíssima Trindade. Diz a Primeira Carta de São João: "... o que vimos e ouvimos nós anunciamo-vos, para que vós também tenhais Comunhão conosco. Ora, nossa Comunhão é com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo." 1 Jo 1,3
    Mas explica que, ao verdadeiramente seguir Jesus, também entramos em Comunhão entre nós mesmos aqui na Terra, e só assim alcançamos a purificação: "Se, porém, andamos na Luz como Ele mesmo está na Luz, estamos em Comunhão uns com os outros, e o Sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, purifica-nos de todo pecado." 1 Jo 1,7
    Desta forma, se aos pobres negamos a devida consideração, também lhes negamos a Comunhão, pois nos colocamos acima deles e não em condição de iguais. E assim não pode haver Comunhão, não há Eucaristia. Isso é gravíssimo! Se não nos fazemos iguais a eles, estamos negando o próprio testemunho da Encarnação de Cristo, que sendo Deus Se fez Homem para que entre Ele e nós fosse possível a união de comuns. O Hino Cristológico, recitado na Carta de São Paulo aos Filipenses, canta: "Sendo Ele de condição divina, não Se prevaleceu de Sua igualdade com Deus, mas aniquilou a Si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-Se aos homens." Fl 2,6-7
    E se negamos, ainda que só pelas atitudes, a Encarnação de Cristo, estamos bem próximos de uma deplorável condição de seres humanos, nos termos da Segunda Carta de São João: "Muitos sedutores têm saído pelo mundo afora, os quais não proclamam Jesus Cristo que encarnou. Quem assim proclama é o Sedutor, o Anticristo." 2 Jo 1,7
    Porque assim estamos negando Sua entrega de amor, o Santíssimo Sacramento, como dissemos, quando, no Evangelho Segundo São Lucas, Ele pediu exatamente o contrário: "Isto é Meu Corpo, que é dado em favor de vós. Fazei isto em memória de Mim." Lc 22,19
    Ora, o Livro de Eclesiástico dizia do agir de Deus: "O Senhor não faz acepção de pessoa em detrimento do pobre, e ouve a oração do ofendido. Não despreza a oração do órfão, nem os gemidos da viúva. As lágrimas da viúva não correm por sua face, e seu grito não é contra aquele que a faz derramá-las? Pois de sua face sobem até o Céu. O Senhor, que a ouve, não Se compraz em a ver chorar." Eclo 35,16-19
    O próprio Moisés, no Livro de Deuteronômio, havia falado de Seu exemplo: "... o Senhor, Vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e temível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita presentes. Ele faz Justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, ao qual dá alimento e vestuário." Dt 10,17-18
    O que nos impede, então, que nos façamos iguais aos mais necessitados? Por que razão Nosso Senhor Se tornou Humano senão para conosco comungar? Seu exemplo vale para todos, sem exceção. Não só os Santos devem empenhar-se na Comunhão do salvífico amor. Jesus fez-Se igual a nós, amou-nos e pediu-nos que dedicássemos uns aos outros um amor igual ao que Ele demonstrou. É do Evangelho Segundo São João: "Como Eu vos tenho amado, vós também deveis amar-vos uns aos outros." Jo 13,34b
    Essa é Sua mais ardorosa recomendação: "Este é Meu Mandamento: amai-vos uns aos outros, como Eu vos amo." Jo 15,12
    E essa é a verdadeira Comunhão. Negar que somos capazes desse amor é acusar Jesus de propor uma utopia, é negar a Vinda do Salvador. E negar esse amor aos pobres é negá-lo ao próprio Jesus, é condenar-se, como Ele disse sobre a caridade no Evangelho Segundo São Mateus: "Na Verdade, Eu declaro-vos: todas vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a Mim que o deixastes de fazer." Mt 25,45
    Pela mesma razão, a Salvação será dada àqueles que têm o coração aberto para aqueles que sofrem, em cujas pessoas Jesus nos implora compaixão: "Então o Rei dirá àqueles que estão à direita: 'Vinde, benditos de Meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a Criação do mundo, porque tive fome e Me deste de comer, tive sede e Me deste de beber, era peregrino e Me acolheste, nu e Me vestiste, enfermo e Me visitaste, estava na prisão e viestes a Mim.'" Mt 25,34-36
    Foi esta a confirmação que Ele deu aos seguidores de São João Batista, que os mandou perguntar, dado que se portava de demasiado humano modo, se Ele era realmente o Cristo. E como resposta Jesus fez menção a um sinal das Escrituras, que o Batista muito bem conhecia, deixando claro a quem se dirige a mensagem de esperança dada por Deus: "Ide e contai a João o que ouvistes e o que vistes: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e o Evangelho é anunciado aos pobres..." Mt 11,4-5
    O próprio São João Batista havia abraçado uma vida de pobreza: "João usava uma vestimenta de pelos de camelo e um cinto de couro em volta dos rins. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre." Mt 3,4
    E pregava a 'radical' prática da partilha: "Quem tem duas túnicas dê uma ao que não tem. E quem tem o que comer, faça o mesmo." Lc 3,11
    Não por acaso, no discurso inaugural de Sua Missão, Nosso Redentor havia lido no Livro do Profeta Isaías exatamente a passagem com a qual responderia aos discípulos de São João Batista. Nela está a especial atenção que Deus quer que tenhamos para com os pobres: "O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu. E enviou-Me para anunciar a Boa Nova aos pobres..." Is 61,1
    A Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, então representada pela pessoa de São Pedro e dos Apóstolos, seguia fielmente esta diretriz, como vemos no momento em que instruíram São Barnabé e São Paulo, ainda no começo de seu Ministério, segundo seu próprio relato. Diz a Carta de São Paulo aos Gálatas: "Tiago, Pedro e João, que são considerados as colunas... Recomendaram-nos apenas que nos lembrássemos dos pobres, o que precisamente era minha intenção." Gl 2,9a.10b
    É de São Paulo mesmo, aliás, que temos o melhor exemplo do missionário esforço para sempre estar em Comunhão com os mais pobres: "Não é minha penúria que me faz falar. Aprendi a me contentar com o que tenho. Sei viver na penúria e também sei viver na abundância. Estou acostumado a todas vicissitudes: a ter fartura e a passar fome, a ter abundância e a padecer necessidade." Fl 4,11-12
    A Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios até traz uma lista: "Três vezes naufraguei, uma noite e um dia passei no abismo. Viagens sem conta, exposto a perigos nos rios, perigos de salteadores, perigos da parte de meus concidadãos, perigos da parte dos pagãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos entre falsos irmãos! Trabalhos e fadigas, repetidas vigílias, com fome e sede, frequentes jejuns, frio e nudez! Além de outras coisas, minha cotidiana preocupação, a solicitude por todas igrejas!" 2 Cor 11,25b-28
    E, no mesmo sentido, a Primeira Carta de São Paulo a São Timóteo vai instruir: "Aqueles que ambicionam tornar-se ricos, caem nas armadilhas do Demônio e em muitos insensatos e nocivos desejos, que precipitam os homens no abismo da ruína e da perdição. Exorta os ricos deste mundo a que não sejam orgulhosos nem ponham sua esperança em volúveis riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas coisas para delas fruirmos." 1 Tm 6,9.17
    Ora, Deus sempre dedicou especial atenção aos mais carentes. Tanto que, no Livro do Profeta Amós, decretou uma grave sentença contra a nação de Israel, na proporção de seus pecados: "Ouvi isto, vós que engolis o pobre, e fazeis perecer os humildes da Terra, dizendo: 'Quando passará a lua nova, para vendermos nosso trigo, e o sábado, para abrirmos nossos celeiros, diminuindo a medida e aumentando o preço, e falseando a balança para defraudar? Compraremos os infelizes por dinheiro, e os pobres por um par de sandálias. Venderemos até o refugo do trigo.' O Senhor jurou por causa da soberba de Jacó: 'Jamais esquecerei algum de seus atos.'" Am 8,4-7
    Pois Moisés ordenou como deveria ser a vida entre os israelitas na Terra Santa: "Não deverá haver pobres em meio a ti, porque o Senhor, Teu Deus, certamente te abençoará na Terra que te dá como posse hereditária. Se houver em meio a ti um pobre entre teus irmãos, em uma de tuas cidades, na Terra que o Senhor, Teu Deus, te dá, não endurecerás teu coração e não fecharás a mão diante de teu irmão pobre, mas abri-lhe-ás a mão e emprestá-lhe-ás segundo as necessidades de sua indigência." Dt 15,4.7-8
    Como punição por essa desobediência, Israel veio a padecer a miséria da Palavra de Deus: "'Virão dias', Oráculo do Senhor Javé, 'em que enviarei fome sobre a Terra. Não uma fome de pão, nem uma sede de água, mas fome e sede de ouvir a Palavra do Senhor. Andarão errantes de um mar a outro, vaguearão do norte ao oriente, correrão por toda parte buscando a Palavra do Senhor, e não a encontrarão.'" Am 8,11-12
    Com toda propriedade, portanto, São João Evangelista vai perguntar: "Quem possuir bens deste mundo, e vir seu irmão sofrer necessidade, mas fechar-lhe seu coração, como pode estar nele o amor de Deus?" 1 Jo 3,17
    Ainda mais grave é a situação dos avarentos que angariaram riqueza por meio de injustiças! Na parábola do infiel administrador, Jesus vai aconselhar-lhes, referindo-Se aos pobres que chegarão aos Céus: "Eu digo-vos: fazei amigos com a injusta riqueza, para que, no dia em que ela vos faltar, eles vos recebam nos eternos tabernáculos." Lc 16,9


    Pois ninguém está oculto aos olhos de Deus, tampouco nossa índole, como um Salmo do rei Davi atesta: "Sim, excelso é o Senhor! Ele vê o humilde, e de longe percebe os soberbos." Sl 137,6
    Ora, Deus já deu vários e gritantes exemplos nesse sentido, conforme outros salmistas: "Ele levanta do pó o indigente, e tira do monturo o pobre para o fazer sentar entre os príncipes, junto aos grandes de Seu povo." Sl 112,7-8
    Seu trato para com a Criação é um grande exemplo: "Ó Senhor, quão variadas são Vossas obras! Feitas todas com Sabedoria, a Terra está cheia das coisas que criastes. Eis o mar, imenso e vasto, onde, sem conta, se agitam grandes e pequenos animais. Todos esses seres esperam de Vós que lhes deis de comer em seu tempo. Vós dai-lhes, e eles recolhem-no, abris a mão, e fartam-se de bens." Sl 103,24-25.27-28
    Jesus mesmo, garantindo a Divina Providência, invocou essa realidade: "Olhai as aves do céu: não semeiam, nem ceifam, nem recolhem em celeiros. E Vosso Pai Celeste alimenta-as." Mt 6,26
    Por isso, a Carta de São Tiago denunciou deploráveis imposturas dentro da própria Santa Missa, citando o Livro de Levítico: "Meus irmãos, em vossa em Nosso Glorioso Senhor Jesus Cristo, guardai-vos de toda consideração de pessoas. Suponde que um homem com anel de ouro e ricos trajes entre em vossa reunião, e também entre um pobre de degastados trajes. Se atenderdes àquele que está magnificamente trajado e disserdes: 'Senta-te aqui, neste lugar de honra', e disserdes ao pobre: 'Fica ali de pé', ou: 'Senta-te aqui junto ao estrado de meus pés', não é verdade que fazeis distinção entre vós, e que sois juízes de iníquos pensamentos? Mas vós desprezastes o pobre! Não são porventura os ricos aqueles que vos oprimem e arrastam aos tribunais? Não blasfemam eles o belo nome que trazeis? Se cumprirdes a régia Lei da Escritura: 'Amarás teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18)', sem dúvida fazeis bem. Mas se vos deixais levar por distinção de pessoas, cometeis uma falta e sereis condenados pela Lei como transgressores." Tg 2,1-4.6-9
    Por isso, diz: "Haverá Juízo sem Misericórdia para aquele que não usou de Misericórdia. A Misericórdia triunfa sobre o Julgamento. De que aproveitará, irmãos, a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se a um irmão ou a uma irmã faltarem roupas e o cotidiano alimento, e algum de vós lhes disser: 'Ide em Paz, aquecei-vos e fartai-vos', mas não lhes der o necessário para o corpo, de que lhes aproveitará? Assim a fé, se não tiver obras, também é morta em si mesma." Tg 2,13-17
    E provoca: "Ouvi, meus caríssimos irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres deste mundo para que fossem ricos na fé e herdeiros do Reino, prometido por Deus àqueles que O amam?" Tg 2,5
    São Paulo, de fato, dizia que a religiosidade deve andar de mãos dadas com o voto de pobreza, com a total confiança na Divina Providência: "Sem dúvida, grande fonte de proveito é a piedade, porém quando acompanhada de espírito de desprendimento. Porque nada trouxemos ao mundo, tampouco nada poderemos levar. Tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isto." 1 Tm 6,6-8
    Pois Nosso Salvador diz que os verdadeiros religiosos já chegaram aonde e a Quem precisavam chegar, quem está em efetiva Comunhão com Ele, não precisa de mais nada: "Jesus replicou: 'Eu sou o Pão da Vida: aquele que vem a Mim não terá fome, e aquele que crê em Mim jamais terá sede.'" Jo 6,35
    Ora, além dos Céus, Nosso Senhor prometeu-nos a definitiva saciação: "Então Ele ergueu os olhos para Seus discípulos e disse: 'Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o Reino de Deus! Bem-aventurados vós que agora tendes fome, porque sereis saciados!" Lc 6,20-21a
    E assim, os religiosos devem repassar todos seus bens aos pobres, como recomendou aos fariseus, tão preocupados com a purificação: "Antes dai em esmola o que possuís, e todas coisas ser-vos-ão limpas." Lc 11,41
    Sobre Seus Sacerdotes, Ele vai determinar: "Assim, pois, qualquer um de vós que não renuncia a tudo que possui não pode ser Meu discípulo." Lc 14,33 
    Realmente falava de outra 'Família', de outra 'Vida', como o Evangelho Segundo São Marcos apontou: "Jesus respondeu: 'Na Verdade, declaro-vos: ninguém há que tenha abandonado, por amor ao Reino de Deus, sua casa, sua mulher, seus irmãos, seus pais ou seus filhos, que não receba muito mais neste tempo, e no vindouro mundo a Vida Eterna.'" Lc 18,29-30
    E foi terminativo: "Antes buscai o Reino de Deus e Sua Justiça, e todas estas coisas sê-vos-ão dadas por acréscimo. Não temais, pequeno rebanho, porque foi do agrado de Vosso Pai dar-vos o Reino. Vendei o que possuís e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se gastam, um inesgotável tesouro nos Céus, aonde o ladrão não chega e a traça não o destrói. Pois onde estiver vosso tesouro, ali também estará vosso coração." Lc 12,31-34
    Afirmativamente, Ele rezou logo após a primeira e muito bem sucedida missão dos 72 discípulos: "Naquele mesma hora, Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse: 'Pai, Senhor do Céu e da Terra, Eu dou-Te graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, bendigo-Te porque assim foi de Teu agrado." Lc 10,21
    O Eclesiástico já havia dito: "Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que Ele revela Seus mistérios. Pois grande é o poder do Senhor, mas é pelos humildes que Ele é glorificado." Eclo 3,20b-21
    E mesmo sem pedir total consagração, Tobit ensinou no Livro de Tobias, seu filho: "Dá esmola de teus bens, e não te desvies de nenhum pobre, pois, assim fazendo, tampouco Deus Se desviará de ti. Sê misericordioso segundo tuas posses. Se tiveres muito, dá abundantemente. Se tiveres pouco, dá desse pouco de bom coração. Assim acumularás uma boa recompensa para o dia da necessidade, porque a esmola livra do pecado e da morte, e preserva a alma de cair nas trevas. Para todos que a praticam, a esmola será um motivo de grande confiança diante do Deus Altíssimo." Tb 4,7-12
    Essa era a segunda grande obra, depois da oração, do primeiro não judeu, junto a sua família, a receber o Espírito Santo. É o 'Pentecostes dos Gentios', como está no Livro de Atos dos Apóstolos: "Este homem claramente enxergou numa visão, pela nona hora do dia, aproximar-se dele um anjo de Deus e chamá-lo: 'Cornélio!' Cornélio fixou nele os olhos e, possuído de temor, perguntou: 'Que há, Senhor?' O anjo replicou: 'Tuas orações e tuas esmolas subiram à presença de Deus como uma oferta de lembrança.'" At 10,3-4
    Assim como a da mulher que São Pedro ressuscitou: "Em Jope havia uma discípula chamada Tabita, em grego, Dorcas. Esta era rica em boas obras e esmolas que dava. Aconteceu que adoecera naqueles dias e veio a falecer. Pedro imediatamente se levantou e foi com eles. Logo que chegou, conduziram-no ao quarto de cima. Cercavam-no todas viúvas, chorando e mostrando-lhe as túnicas e os vestidos que Dorcas lhes fazia enquanto era viva." At 9,36-37a.39
    Santo Agostinho inspiradamente ensina que os pobres são os fiscais de Deus, que aí estão para nos cobrar os impostos que devemos ao Pai, de tantas e tão grandes dádivas que Ele nos concede. Então, ao menos quanto àquilo que possuímos em excesso ou por injustos meios, diligentemente deveríamos agir como Zaqueu, que prometeu diante de Jesus: "Senhor, vou dar a metade de meus bens aos pobres e, se tiver defraudado alguém, restituirei o quádruplo." Lc 19,8
    Mas, sem dúvida, ainda mais forte é o exemplo da pobre viúva de Jerusalém, observado por Jesus diante do tesouro do Templo, que voluntariamente vivia a plena e evangélica pobreza: "Na Verdade, digo-vos: esta pobre viúva pôs mais que os outros. Pois todos aqueles lançaram, nas ofertas de Deusa daquilo que lhes sobra. Esta, porém, de sua indigência deu tudo que lhe restava para o sustento." Lc 21,3-4
    Ora, ao enviar os Apóstolos em primeira missão, Jesus recomendou austera simplicidade: "Não leveis nem ouro, nem prata, nem dinheiro em vossos cintos, nem mochila para a viagem, nem duas túnicas, nem calçados, nem bastão, pois o operário merece seu sustento." Mt 10,9-10
    Porque Ele mesmo assim vivia, como afirmou: "As raposas têm covas e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça." Lc 9,58
    Aliás, desde que nasceu, como se vê pelas oferendas de São José e Nossa Senhora na Apresentação do Menino Jesus no Templo de Jerusalém. Aí Nossa Mãe Celeste concluiu sua purificação, embora não precisasse, pois foi concebida sem pecado (cf. Jó 14,4), assim como Nosso Senhor Se deixou batizar por São João Batista, embora também não precisasse (cf. Mt 3,14): "Concluídos os dias de sua purificação (Maria) segundo a Lei de Moisés, levaram-nO a Jerusalém para O apresentar ao Senhor, conforme o que está escrito na Lei do Senhor: 'Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor (Êx 13,2)', e para oferecerem o sacrifício prescrito pela Lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos." Lc 2,22-24
    Suas posses, de fato, não lhes permitiam oferecer um cordeiro, como Livro de Levítico previa (cf. Lv 12,6): "... quando uma mulher der à luz um menino, será impura durante sete dias como nos dias de sua menstruação. Se suas posses não lhe permitirem trazer um cordeiro, tomará duas rolas ou dois pombinhos: uma para o holocausto e outro para o sacrifício pelo pecado. O sacerdote fará por ela a expiação, e será purificada." Lv 12,2.8
    Condição essa que perdurou por toda Sua vida em Nazaré, como os líderes judeus O viram em Jerusalém durante a Festa dos Tabernáculos: "Lá pelo meio da festa, Jesus subiu ao Templo e pôs-Se a ensinar. Os judeus admiravam-se e diziam: 'Este Homem não fez estudos. De onde Lhe vem, pois, este conhecimento das Escrituras?'" Jo 7,14-15
    Como também viam os Apóstolos, quando duas das colunas da Igreja (cf. Gl 2,9) foram presas pela primeira vez e levados ao Sinédrio: "Vendo eles a coragem de Pedro e de João, e considerando que eram homens sem estudo e sem instrução, admiravam-se." At 4,13a
    Os fariseus até achavam que tal condição era uma maldição, como disseram do povo que ouvia Jesus ao fim da Festa das Tendas, quando Ele ofereceu Água Viva: "Este poviléu que não conhece a Lei é amaldiçoado!" Jo 7,49
    Mas o conhecimento de Deus não depende de instrução humana, como Jesus disse acima e a Carta de São Paulo aos Colossenses reafirmou se referindo ao Advento de Cristo: "Aí não há mais grego nem judeu, nem inculto nem selvagem, nem escravo nem livre, mas Cristo é tudo em todos." Cl 3,11
    É obra do Espírito de Cristo, nas palavras da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios: "Em um só Espírito fomos batizados todos nós, para formar um só Corpo, judeus ou gregos, escravos ou livres e todos fomos impregnados de um só Espírito." 1 Cor 12,13
    Ora, assim Nosso Senhor quer a Igreja Apostólica, pois cristãos devem representar o próprio Cristo, como o Evangelho Segundo São Marcos apontou: "Jesus chamou-os e deu-lhes esta lição: "Sabeis que aqueles que são considerados chefes das nações dominam sobre elas, e seus intendentes exercem poder sobre elas. Entre vós, porém, não será assim: todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, seja vosso servo, e todo aquele que entre vós quiser ser o primeiro, seja escravo de todos. Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar Sua Vida em Redenção por muitos."" Mc 10,42-45
    E a pobreza como estado de espírito, que nos permite estar em Comunhão com os pobres, é uma das virtudes que Ele declarou no Sermão da Montanha: "Bem-aventurados aqueles que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!" Mt 5,3
    Essa era a condição recomendada no Livro do Profeta Sofonias: "Curvai-vos, curvai-vos, gente sem pudor, antes que nasça a sentença e o dia passe como a palha. Antes que caia sobre vós o ardor da ira do Senhor. Antes que caia sobre vós o Dia da indignação do Senhor! Buscai o Senhor, vós todos, humildes da Terra, que observais Sua Lei. Buscai a Justiça e a humildade! Talvez assim estareis ao abrigo no Dia da cólera do Senhor." Sf 2,1-3
    O Eclesiástico, de fato, anotou: "A oração do humilde penetra as nuvens." Eclo 35,21a
    E Davi cantava: "Ó vós, humildes, olhai e alegrai-vos! Vós que buscais a Deus, reanime-se vosso coração porque o Senhor ouve os necessitados..." Sl 68,33-34a
    Jesus, enfim, ensinou-nos a vivermos na humildade, sem ambições nem mundanas preocupações, a agradecermos pelo que já recebemos e a confiarmos na Divina Providência: "Portanto, eis que vos digo: não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais que o alimento, e o corpo não é mais que as vestes?" Mt 6,25
    Com efeito, muitos não observam, mas esse ensinamento está no próprio Pai Nosso, quando Ele nos mandou pedir em oração, além do Pão da Vida Eterna, tão somente o alimento do presente dia, ou seja, sem estoque, sem acumular provisão: "O Pão Nosso de cada dia dai-nos hoje." Mt 6,11
    Ensinou que a avareza é um pecado capital: "E propôs-lhe esta parábola: 'Havia um rico homem cujos campos produziam muito. E ele refletia consigo: 'Que farei? Porque não tenho onde recolher minha colheita.' Então disse ele: 'Farei o seguinte: derrubarei meus celeiros, e construirei maiores. Neles recolherei toda minha colheita e meus bens. E direi a minha alma: ó minha alma, tens muitos bens em depósito para muitíssimos anos. Descansa, come, bebe e regala-te!' Deus, porém, disse-lhe: 'Insensato! Ainda nesta noite exigirão de ti tua alma. E as coisas que ajuntaste, de quem serão?' Assim acontece ao homem que entesoura para si mesmo e não é rico para Deus." Lc 12,16-21
    Denunciou a vaidade, principalmente entre religiosos, o que é um verdadeiro acinte diante da miséria de tantos: "Os escribas e os fariseus sentaram-se na cadeira de Moisés. Fazem todas suas ações para serem vistos pelos homens, por isso trazem largas faixas e longas franjas em seus mantos. Gostam dos primeiros lugares nos banquetes e das primeiras cadeiras nas sinagogas. Gostam de ser saudados nas praças públicas e de ser chamados de rabi pelos homens." Mt 23,2.5-7
    Igualmente apontou a gula, também entre religiosos, que também é grave pecado num mundo de milhões de famintos: "Guardai-vos dos escribas, que querem andar de compridas roupas, e gostam das saudações nas praças públicas, das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos primeiros lugares dos banquetes. Que devoram as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Eles receberão mais rigoroso castigo." Lc 20,47
    Mas, da mesma forma, denunciou a vaidade entre os fiéis: "Quando, pois, dás esmola, não toques a trombeta diante de ti como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Na Verdade, digo-vos: já receberam sua recompensa. Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que a direita fez. Assim tua esmola se fará em segredo, e Teu Pai, que vê o escondido, recompensá-te-á." Mt 6,2-4
    E mandou esta séria mensagem à diocese de Laodiceia, no Livro de Apocalipse de São João: "Conheço tuas obras: não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te. Pois dizes: 'Sou rico, faço bons negócios, de nada necessito!' E não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que de Mim compres ouro provado ao fogo, para ficares rico, alvas roupas para te vestir, a fim de que não apareça a vergonha de tua nudez, e um colírio para ungir os olhos, de modo que possas ver claro. Eu repreendo e castigo aqueles que amo. Reanima teu zelo, pois, e arrepende-te." Ap 3,15-19
    Ora, não estaria o desprezo pelos pobres precisamente num povo que 'não quer sofrer', na aversão às penitências, que, aliás, foi o primeiro Sacramento recomendado por Nosso Senhor? "Desde então, Jesus começou a pregar: 'Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo.'" Mt 4,17
    De fato, muita gente acha-se muito correta diante de Deus, mas sabemos que ainda falta uma coisa, e é nos conventos e nas paróquias que estão a grande maioria daqueles se empenham para cumprir esses preceitos. E é sempre bom recordar, foi o próprio Jesus que fez essa proposta a um rico jovem que se julgava justo: "Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres, e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me!" Lc 19,21
    No mínimo, no mundo falta a devida compaixão, como Ele pregou no Sermão da Montanha: "Dá a quem te pede, e não te desvies daquele que quer pedir-te emprestado." Mt 5,42
    E para nossa mais profunda reflexão, a triste profecia foi renovada por Jesus, pondo por terra todas nossas pretensões de soluções políticas e materialistas, além de alertar para a obrigação de constante busca de Comunhão com os mais necessitados: "Pois convosco sempre tereis os pobres..." Jo 12,8
    Ela havia sido proferida por Moisés, quando determinou ao povo de Israel uma regra que deveria valer em toda Terra Santa: "Nunca faltarão pobres na Terra, e por isso dou-te esta ordem: abre tua mão a teu irmão necessitado ou pobre que vive em tua Terra." Dt 15,11
    Enfim, além do pobre lugar e da pobre condição em que viveu (cf. Lc 2,24), temos de Nosso Senhor mesmo duas expressivas indicações: Betânia significa 'casa dos pobres', e foi num lugar chamado Betânia que Ele começou Sua vida pública, deixando-Se batizar por São João Batista: "João respondeu: 'Eu batizo com água, mas em meio a vós está Quem vós não conheceis.' Este diálogo passou-se em Betânia-além-do-Jordão, onde João estava batizando. No dia seguinte, João viu Jesus que vinha a ele e disse: 'Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.'" Jo 1,26.28-29
    E foi noutro lugar, também chamado Betânia, que Ele ascendeu aos Céus. Ou seja, Jesus iniciou e terminou Sua Missão em lugares que emblematicamente eram nominados 'dos pobre': "Depois os (Apóstolos) levou para Betânia e, levantando as mãos, os abençoou. Enquanto os abençoava, separou-Se deles e foi arrebatado ao Céu." Lc 24,50-51


    "Santificai e reuni Vosso povo!"

quinta-feira, 14 de maio de 2026

São Matias Apóstolo


    Dentre os 14 Apóstolos de Jesus, é de quem temos menos registros, o que não significa que teve menos ativo Ministério. Pelo contrário, há várias indicações de sua presença em muitos lugares e seu martírio é testemunhado pela Sagrada Tradição, embora não se sabia exatamente onde ou como tenha acontecido. Ou seja, tanto suas muitas viagens como sua morte atestam intensa atividade e efetivo anúncio do Evangelho, ou não teria sido reconhecido como um líder cristão, e por isso assassinado.
    Seu nome aparece no Livro de Atos dos Apóstolos após a proposta de São Pedro, liderando a embrionária Igreja para que alguém fosse indicado para o lugar de Judas Iscariotes, que traiu Nosso Salvador e acabou cometendo suicídio; "Num daqueles dias, levantou-se Pedro em meio a seus irmãos, na assembleia reunida que constava de umas cento e vinte pessoas, e disse: 'Irmãos, convinha que se cumprisse o que o Espírito Santo predisse na Escritura pela boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam Jesus. Ele era um dos nossos e teve parte em nosso Ministério. Este homem adquiriu um campo com o salário de seu crime. Depois, tombando para frente, arrebentou-se pelo meio, e todas suas entranhas derramaram-se.'" At 1,15-18
    Para embasar sua inspiração, digna do amor do Eterno Pai (cf. Mt 16,17), o Príncipe dos Apóstolos citou dois versos do rei Davi, que também era Profeta (cf. At 2,29-30): "Por que está escrito no Livro de Salmos: 'Fique deserta sua morada, e não haja quem nela habite (Sl 68,26)'; e: 'Que outro receba seu encargo (Sl 108,8).'" At 1,20
    Ainda segundo o Primeiro Papa, o critério a ser usado para recompor o Colégio dos Doze deveria basear-se em específicas qualidades. Nos primeiríssimos anos da Igreja, com efeito, o anúncio dos Apóstolos essencialmente se constituía em testemunhar a Ressurreição de Jesus. Suas aparições eram a definitiva prova de que Ele realmente é o Cristo, Revelação que eles sempre proclamavam fazendo referência às profecias do Antigo Testamento. Depois também passaram a narrar os detalhes de Sua Paixão, e só pouco mais tarde Seus ensinamentos. Nesse linha, as narrativas de toda Sua história, incluindo genealogia, Nascimento e infância, só se tornaram praxe passadas quase duas décadas, quando se fez necessário pôr por escrito os Evangelhos.
    Com efeito, esse vai ser o testemunho do próprio Apóstolo dos Gentios, e mesmo muitos anos depois de sua conversão. Está na Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, que igualmente defende a Tradição Oral: "Eu lembro-vos, irmãos, o Evangelho que vos preguei e que tendes acolhido, no qual estais firmes. Por ele sereis salvos, se o conservardes como vo-lo preguei. De outra forma, em vão teríeis abraçado a . Eu primeiramente vos transmiti o que eu mesmo havia recebido: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado, e ressurgiu ao terceiro dia..." 1 Cor 15,1-4a
    São Pedro, portanto, queria uma testemunha ocular, como os Onze eram, para o lugar de Judas Iscariotes. Principalmente da Ressurreição, como vimos, mas também de toda vida pública de Jesus. O que não era difícil de achar por aqueles tempos, porque muita gente O havia seguido, apesar de nesta reunião em Jerusalém, que o escolheu, estivessem apenas cerca de cento e vinte pessoas, acima citadas. Nosso Papa vai determinar: "Convém que, destes homens que têm estado em nossa companhia todo tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, a começar do Batismo de João até o dia em que de nosso meio foi arrebatado, um deles se torne conosco testemunha de Sua Ressurreição." At 1,21-22
    É nessa circunstância que aparece o nome de nosso Apóstolo: "Propuseram dois: José, chamado Barsabás, que tinha por sobrenome Justo, e Matias." At 1,23
    Em seguida, eles voltaram-se ao próprio Jesus: "E oraram nestes termos: 'Ó Senhor, que conheces os corações de todos, mostra-nos qual destes dois Tu escolheste para tomar neste Ministério e Apostolado o lugar de Judas, que se transviou para ir para seu próprio lugar.'" At 1,24-26
    E logo após esta oração, "Deitaram sorte e caiu em Matias, que foi incorporado aos Onze Apóstolos." At 1,26
    Isso aconteceu depois da Ascensão do Senhor e antes do Dia de Pentecostes, ou seja, São Matias estava presente no dia do Nascimento da Santa Igreja Católica, quando sobre ela foi derramado Deus Espírito Santo. De fato, no capítulo imediatamente posterior, logo no primeiro versículo, o Amado Médico diz que todos Apóstolos estavam no Cenáculo: "Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar." At 2,1
    E como São Matias acompanhou Jesus desde Seu Batismo, estava entre os 72 discípulos por Ele enviados para predispor o povo a Sua pregação, conforme o Evangelho Segundo São Lucas: "Depois disso, designou o Senhor ainda setenta e dois outros discípulos e mandou-os, dois a dois, adiante de Si, por todas cidades e lugares aonde Ele tinha que ir." Lc 10,1
    Além do título de Apóstolo, ele também é tido como o Primeiro Bispo da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo fato de ter sido o primeiro constituído pelos Apóstolos para suceder um deles. Ora, o nome de Apóstolo coube apenas àqueles pessoalmente chamados por Jesus, como era seu caso pois estava entre os 72, e este título, que significa 'enviado', foi exclusivamente conferido pelo próprio Senhor: "Naqueles dias, Jesus retirou-Se a uma montanha para rezar, e aí passou toda noite orando a Deus. Ao amanhecer, chamou Seus discípulos e escolheu Doze dentre eles, que chamou de Apóstolos." Lc 6,12-13
    São Paulo, um deles, pois também pessoalmente foi chamado e enviado por Jesus (cf. At 26,16), apesar de em início ter considerado São Barnabé um Apóstolo (cf. 1 Cor 9,5s), no que influenciou São Lucas (cf. At 14,14), corrige-se e vai restringir o uso desse título: "São todos Apóstolos?" 1 Cor 12,29a
    E nesta mesma Carta vai referir-se ao Colégio Apostólico como a um grupo formado, definido, enquanto se acusava: "Porque eu sou o menor dos Apóstolos, e não sou digno de ser chamado Apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus." 1 Cor 15,9
    A São Matias, pois, é atribuído a introdução do cristianismo em Egito, que mais tarde, mesmo com a memorável evangelização de São Marcos, seria desvirtuado pela corrente 'gnóstica' de misticismo. Heréticos até escreveram um evangelho que atribuíram a este nosso Santo Apóstolo, mas logo foi reconhecido como apócrifo. Por suas estreitas relações com São Filipe e São Tomé, há indícios de sua presença em Etiópia, onde teria sido crucificado, embora os cristãos coptas, baseados em escritos atribuídos a São Filipe, apontem-no evangelizando em terras bem distantes daí, no norte de África.
    Sua presença também é plausivelmente indicada em Macedônia, província romana no norte de Grécia, onde teria chegado junto a quatro Apóstolos. Ainda se levantou a possibilidade de que ele, e não São Mateus, tenha morrido em Pérsia sob perseguição dos judeus, mas deve-se lembrar que, pela semelhança dos nomes, frequentemente eles eram confundidos. Semelhantemente há relatos de suas pregações em Capadócia, terras de atual Turquia, e no litoral do Mar Cáspio, ainda mais a leste, regiões hoje de Irã ou de Azerbaidjão.
    A terceira e mais provável hipótese de seu martírio aponta para a região de Cólquida, atual Geórgia, no Cáucaso, onde teria sido crucificado. Aí se têm, na fortaleza romana de Gonio-Apsaros, em Adjara, costa do Mar Negro, uma pequena capela dedicada a ele e um marco histórico indicando sua sepultura.


    Todavia se relata sua presença e atividade em Judeia, onde se aventa ter sido apedrejado e decapitado por um golpe de machado. Aqui, mais um vez, a autoria do assassinato é atribuída aos judeus, pois no início os Apóstolos intensamente trabalharam visando reformar o judaísmo (cf. At 4,8s;5,28s).
    Tal versão explicaria o traslado de suas relíquias de Judeia para Itália, realizado no século IV por Santa Helena, mãe do Imperador Constantino. Uma antiga tradição diz que parte delas teria ficado em Roma, sob o altar da Basílica de Santa Maria Maior.


    Por remontar tantos séculos, e desde então não mais haver registros dessa parte guardada em Roma, presume-se como igualmente certa a medieval tradição que localiza a maior parte suas relíquias na Basílica de Santa Justina, na comuna de Pádua, nordeste de Itália, onde já estavam os restos mortais de São Lucas. De fato, aí há uma bela urna em mármore dedicada a São Matias.


    Ainda no século IV, a outra parte teria sido levada para Trier, atual Alemanha, onde em 1127 foi reencontrada durante a reconstrução de uma antiga igreja do século X, erguida em sua homenagem. Essas relíquias são veneradas numa belíssima cripta.


    São Matias, rogai por nós!