sábado, 15 de agosto de 2026

Textos para Celular

 
Anuário de Leituras Bíblicas

Acesso: dizemasescrituras.blogspot.com

Assunção de Nossa Senhora


    Em 1950, o Papa Pio XII oficialmente declarou que a Virgem Maria foi elevada aos Céus em corpo e alma. Embora, além das elucidativas visões que a Beata Anna Catarina Emmerich teve no século XVIII e início do XIX, os registros de sua Assunção só existam em apócrifos livros, e apenas recentemente tenha sido proclamada, a Santa Igreja Católica já a cultua desde os primórdios, pois está em perfeita conformidade com as Escrituras e é parte da Tradição dos Apóstolos.
    Pela Bíblia, em específico, no Livro de Apocalipse de São João temos o relato que, apesar de não tratar propriamente de sua Assunção, a aponta já nos Céus, e dá testemunho de sua transfiguração em corpo glorioso e de sua coroação: "Em seguida, apareceu no Céu um grande sinal: uma Mulher revestida do sol, tendo a lua debaixo de seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Ela deu à luz um Filho, um Menino, Aquele que deve reger todas pagãs nações com cetro de ferro. Mas Seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e de Seu trono." Ap 12,1.5
    E imediatamente antes dessa aparição, ao Amado Discípulo havia sido apresentada a Arca da Aliança (cf. Êx 25,10), ou seja, a portadora da Revelação, uma prefigura de Nossa Senhora, Sem dúvida, Nossa Mãe Celeste veio como aperfeiçoamento da Arca da Velha Aliança (cf. Jr 3,16), que guardava as Tábuas da Lei (cf. Êx 25,16), porque ela é a Arca da Nova e Eterna Aliança, a portadora do Verbo Encarnado (cf. Jo 1,14): "Abriu-se o Templo de Deus no Céu e apareceu, em Seu Templo, a Arca de Seu Testamento. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e forte saraiva." Ap 11,19
    Tais visões não se deram num momento qualquer: era o sinal da sétima trombeta, o terceiro 'ai', e assim os Céus revelavam como havia sido o início do Reinado de Cristo. Leia-se: Cristo é o ápice da Revelação, a própria Revelação de Deus (cf. Hb 1,3), Deus Vivo de Deus Vivo (cf. Jo 20,18), Caminho da humanidade (cf. Jo 14,6), realidade a ser vivida (cf. Cl 2,17), e Sua Mãe (cf. Lc 1,43) é a definitiva Arca da Aliança, Seu 'precioso veículo' para Se manifestar ao mundo.
    De fato, o desaparecimento da Arca da Velha Aliança já tinha sido anunciado por Deus havia séculos, ainda no Livro do Profeta Jeremias: "Quando vos multiplicardes e vos tornardes numerosos na Terra, naqueles dias, Oráculo do Senhor, não mais se falará da Arca da Aliança do Senhor nem mais se pensará nela, perdendo-se a lembrança e a saudade, nem a ela há de se referir." Jr 3,16
    Eis porque, no Livro de Salmos, o sagrado autor já cantava a Assunção de Nossa Senhora em momento posterior à Ressurreição e Ascensão de Jesus, pois só pela Graça de Nosso Senhor (cf. Jo 1,17) nos foi possibilitado prestar culto a Deus com toda Justiça, que é a Santa Missa celebrada pela Igreja Apostólica, Seu Reino de Sacerdotes: "Levantai-Vos, Senhor, para vir a Vosso repouso, Vós e a Arca de Vossa Majestade. Vistam-se de Justiça Vossos Sacerdotes, e jubilosos cantem de alegria Vossos fiéis." Sl 131,8-9
    Com efeito, com a promessa de nossa libertação dos pecados (cf. Jo 8,36), o culto perfeito (cf. Hb 10,14) foi profetizado pelo sacerdote São Zacarias, pai de São João Batista, logo após seu nascimento, como está no Evangelho Segundo São Lucas: "Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e resgatou Seu povo, e nos suscitou um Poderoso Salvador, na casa de Davi, Seu servo... segundo o juramento que fez a nosso pai Abraão: de nos conceder que, sem temor, libertados de mãos inimigas, possamos servi-Lo em santidade e Justiça, em Sua presença, todos dias da nossa vida." Lc 1,68-69.73-75
    Pois se a Carne e o Sangue de Cristo, que por Sua santidade e divindade nos concedem a Vida Eterna (cf. Jo 6,54), não vieram a se corromper, aliás, como muitos outros Corpos Santos, o corpo de Nossa Senhora, cuja carne e sangue geraram o Corpo de Nosso Senhor, porque São José não participou de Sua humana concepção, também não poderia corromper-se. Profetizando, o rei Davi cantou por Jesus, que assim Se dirigiu ao Pai: "Por isso, Meu Coração alegra-se, Minha alma exulta e Minha Carne repousa em segurança. Porque Vós não abandonareis Minha alma na habitação dos mortos, nem permitireis que Vosso Santo conheça a corrupção." Sl 15,9-10
    Ora, foi o próprio Cristo que prometeu, aos Apóstolos e a nós, preparar um lugar nos Céus. Acaso não faria o mesmo para Sua Santíssima Mãe? No Evangelho Segundo São João, Ele assegurou após a Santa Ceia: "Na casa de Meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, Eu tê-vos-ia dito, pois vou preparar-vos um lugar. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomá-vos-ei Comigo, para que, onde Eu estou, vós também estejais." Jo 14,2-3
    E ainda que não em seus corpos, os Santos já estão em alma no Céu, julgando e reinando como São João registrou, pois eles não se deixaram iludir pelo maligno império: "Também vi tronos, sobre os quais se sentaram aqueles que receberam o poder de julgar: eram as almas daqueles que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, e todos aqueles que não tinham adorado a besta ou sua imagem, que não tinham recebido seu sinal na fronte nem nas mãos. Eles viveram uma Nova Vida, e com Cristo reinaram por mil anos." Ap 20,4
    Assim, portanto, se deram os fatos, e assim temos que os acolher. Essa é a Verdade, a obra de Deus, as Glórias de Deus que tantos maldizem (cf. Jd 8). E com mais essa maravilha, Ele simplesmente deixou claro em maior grau, na pessoa da Santíssima Mãe, Sua feição de Amoroso Pai, como já fizera através da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, que sobremaneira reafirmou a Doutrina da Ressurreição da Carne, dizendo do Pai Eterno: "... Seu Mandamento é Vida Eterna." Jo 12,50a
    Ademais, depois de Jesus, São João Apóstolo, que recebeu essas revelações de Apocalipse, era a pessoa mais bem informada a respeito de Maria Imaculada, porque foi a ele que Nosso Senhor confiou a guarda de Sua Mãe. E mais: ela foi dada a este Apóstolo como sua própria Mãe, assim como também nossa, pois aí ele representava todos verdadeiros cristãos, e em nenhuma hipótese ele iria desobedecer-Lhe: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua Mãe, a irmã de Sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu Sua Mãe, e perto dela o discípulo que amava, disse a Sua Mãe: 'Mulher, eis aí teu filho.' Depois disse ao discípulo: 'Eis aí tua Mãe.' E dessa hora em diante o discípulo levou-a para sua casa." Jo 19,25-27
    Afirmativamente, é como filhos de Maria que São João se refere àqueles que testemunham Nosso Senhor, quando Satanás percebeu que não poderia vencê-la e se voltou contra a Igreja Católica Apostólica Romana: "Este, então, irritou-se contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência, àqueles que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus." Ap 12,17
    Tal condição de filhos é dada pela perfeita Comunhão que a Igreja Una tem com o Espírito prometido por Jesus (cf. At 1,8), como a Carta de São Paulo aos Romanos diz: "Todos aqueles que são conduzidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus." Rm 8,14
    E ele já se tinha mostrado taxativo: "Se alguém não possui o Espírito de Cristo, este não é d'Ele." Rm 8,8b
    Porque só os filhos de Deus obtêm a garantia do Santo Paráclito (cf. 2 Cor 1,22): "O Espírito mesmo dá testemunho a nosso espírito de que somos filhos de Deus." Rm 8,16
    A Primeira Carta de São João, nesse sentido, diz da Comunhão com Deus que nos é concedida através do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo: "Quem observa Seus Mandamentos, permanece em Deus e Deus nele. É nisto que reconhecemos que Ele permanece em nós: pelo Espírito que nos deu." 1 Jo 3,24
    E ainda que indiretamente, o Livro de Eclesiástico já atestava o insubstituível papel de Nossa Mãe Celeste nos planos de Deus: "Deus honra o pai nos filhos, e sobre eles confirma a autoridade da mãe." Eclo 3,2
    Este sagrado autor menciona o tesouro no Céu, de que Jesus falou (cf. Mc 10,21): "Quem honra sua mãe, é semelhante àquele que acumula um tesouro." Eclo 3,4
    Pois, se somos filhos dos Sacerdotes da Igreja, que são nossos pais espirituais como o Apóstolo dos Gentios abaixo reclama, como não haveríamos de ser filhos de Maria, a Nova Eva, que gerou o próprio Cristo para a Salvação da humanidade? Por isso, zelando pela Tradição Oral, também chamada Sagrada Tradição, e assim pela Unidade da Igreja de Deus Vivo, a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios corrigia: "Não vos escrevo estas coisas para vos envergonhar, mas admoesto-vos como meus amados filhos. Com efeito, ainda que tivésseis dez mil mestres em Cristo, não tendes muitos pais. Ora, fui eu que vos gerei em Cristo Jesus pelo Evangelho. Por isso, conjuro-vos a que sejais meus imitadores. Para isso é que vos enviei Timóteo, meu amado e fiel filho no Senhor. Ele recordá-vos-á minhas normas de conduta, tais como as ensino por toda parte, em todas igrejas." 1 Cor 4,14-17


    Pois a sensata pergunta a ser feita é: se os 'lenços e outros panos' de São Paulo (cf. At 19,11), a 'sombra' de São Pedro (cf. At 5,15) e a 'orla do manto' de Jesus (cf. Lc 8,44) realizavam milagres enquanto relíquias, que dizer do próprio corpo de Nossa Senhora que por nove meses teve Deus em seu ventre? Poderia corromper-se o receptáculo da Absoluta Graça? Deus não o permitiu nem à Santa Casa de Nazaré, que por anjos foi levada a Loreto, em Itália!
    Ora, se a própria Igreja fundada por Jesus, apesar de alguns de seus membros (lembrar Judas Iscariotes!), é incorruptível (cf. Mt 16,18b; Ef 5,25b-27), como não o seria o ventre de Maria Santíssima, do qual a humanidade deve renascer pelo Espírito Santo para ser Igreja Católica? Antecipando os Sacramentos do Batismo e da Crisma, Nosso Senhor revelou ao fariseu Nicodemos: "Na Verdade, na Verdade, digo-te: quem não renascer da Água e do Espírito, não poderá entrar no Reino de Deus. Aquele que nasceu da carne, é carne, e aquele que nasceu do Espírito, é espírito." Jo 3,5b-6
    O próprio Jesus foi gerado pelo Espírito Paráclito, como o Evangelho Segundo São Mateus apontou: "Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: 'José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois Aquele que nela foi concebido vem do Espírito Santo.'" Mt 1,20
    Por isso, Santa Isabel diz a Nossa Senhora, tanto de si como de Seu Filho: "Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o Fruto de teu ventre." Lc 1,42
    Dito que claramente se estende a nós, como São Paulo escreveu: "Aqueles que Ele (Deus) de antemão distinguiu, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Este seja o primogênito entre uma multidão de irmãos." Rm 8,29


    Porque se, após sua morte, o corpo de Nossa Senhora realmente tivesse permanecido num sepulcro, tal fato e tal lugar jamais seriam ignorado pela considerável multidão de fiéis de então, e assim logo seriam divulgados e se tornariam Tradição da Santa Igreja, pois, desde as Bodas de Caná de Galileia, ela sempre esteve presente na vida pública de Jesus, junto aos Apóstolos: "Depois disso, desceu para Cafarnaum, com Sua Mãe, Seus irmãos e Seus discípulos, e ali só demoraram poucos dias. Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém." Jo 2,12-13
    E assim foi mesmo após a Ascensão do Senhor, nas atividades da nascente Igreja, como está no Livro de Atos dos Apóstolos: "Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o zelota, e Judas, irmão de Tiago. Todos eles unanimemente perseveravam na oração, acompanhados das mulheres, entre elas Maria, Mãe de Jesus, e os irmãos d'Ele." At 1,13-14
    Os Apóstolos, ademais, que já tinham a Ressurreição do Senhor como o grande trunfo para testificar o Advento do Salvador, não precisavam 'inventar' mais esse grandioso episódio, o da Assunção de Maria. Seria um capítulo a mais, como mais tarde se veria, em oportuno tempo, a ser incorporado às revelações do Precioso Depósito (cf. 2 Tm 1,14), o que àqueles tempos certamente dificultaria o próprio anúncio da Encarnação de Cristo.
    Por outro lado, a inspiração do Espírito Santo foi especialmente decisiva para a proclamação desse Dogma pelo Papa, assim como foi para a sustentação de sua Tradição, mantida pelos membros da Igreja através dos séculos. Com efeito, Jesus havia prometido a Apóstolos, discípulos e seguidores que o Divino Paráclito instruiria a Santa Igreja Católica anunciando 'as coisas que virão': "Quando o Paráclito vier, o Espírito da Verdade, ensiná-vos-á toda a Verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir e anunciá-vos-á as coisas que virão." Jo 16,13
    Da mesma forma, o Papa, os Cardeais, os Bispos, os Presbíteros e Diáconos católicos são Ministros da Nova Aliança, movidos pelo Espírito de Deus, e como tais também não falam por si mesmos, mas em Nome de Deus, como Jesus disse do Paráclito: "... porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir." Idem
    A Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios, de fato, já havia atestado, rejeitando qualquer mera literalidade das Escrituras: "Não que sejamos por nós mesmos capazes de ter algum pensamento, como de nós mesmos. Nossa capacidade vem de Deus. É Ele que nos fez aptos para sermos Ministros da Nova Aliança, não a da letra, e sim a do Espírito. Porque a letra mata, mas o Espírito vivifica." 2 Cor 3,6
    E havia cravado a condição da nova criatura (cf. 2 Cor 5,17): "... quem se une ao Senhor, com Ele torna-se um só Espírito." 1 Cor 6,17
    É, portanto, pela moção do Divino Espírito que temos a Igreja Viva, capaz de testemunhar as obras do Reino dos Céus em Nome de Jesus, que disse: "O Espírito é que vivifica... As palavras que vos tenho dito são Espírito e Vida." Jo 6,63
    Por isso, atestando a importância da instituição eclesial, pessoalmente fundada por Nosso Salvador, a Carta de São Paulo aos Efésios afirma sua santidade: "... Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela, para a santificar, purificando-a pela Água do Batismo com a Palavra, para a apresentar a Si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito, mas santa e irrepreensível. Este mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja." Ef 5,25-27.32
    Bem ao modo da Igreja Viva, por fim, e da constante presença do Espírito de Deus entre nós, sobre a Assunção de Nossa Senhora temos a sobrenaturais revelações feitas à Santa Brígida, que viveu no século XIV. A Santíssima Virgem mesmo disse-lhe: "Depois, quando o curso de minha vida se cumpriu, Meu Filho primeiro elevou minha alma, por ter sido a dona do corpo, a um mais eminente lugar que os demais, perto da Glória de Sua divindade, e depois meu corpo, de forma que nenhum outro corpo de criatura esteja tão perto de Deus como o meu." (Livro I Capítulo IX)
    E lamentou: "Existem pessoas, entretanto, que maliciosamente negam que eu tenha sido assunta em corpo e alma, e existem outras que simplesmente não tem maior conhecimento. Mas a verdade disso é certa: fui elevada até a Gloria de Deus em corpo e alma!" (Idem)
    Assim como temos os extraordinários relatos da Bem-Aventurada Anna Catarina Emmerich, que em 2004 foi beatificada por São João Paulo II. Eles detalham os últimos anos da vida de Nossa Senhora na proximidades de Éfeso, em sudoeste de atual Turquia, onde com São João Evangelista se recolheu das perseguições dos judeus, ainda mais violentas após o apedrejamento de Santo Estevão (cf. At 8,1), e que Jesus havia profetizado: "Expulsá-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que todo aquele que vos tirar a vida, julgará prestar culto a Deus. Procederão deste modo porque não conheceram o Pai, nem a Mim." Jo 16,2-3

    
    Em místicos termo, o Amado Discípulo cita essa retirada para Éfeso em Apocalipse. E também fala da cabeça da Serpente, que ela esmagaria. Aliás, fora a própria sentença de Deus no Livro de Gênesis prometendo esse feito (cf. Gn 3,15), essa é única menção à cabeça da Serpente em toda Bíblia: "Mas à Mulher foram dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto, para o lugar de seu retiro, onde é alimentada por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente." Ap 12,14
    O Livro do Profeta Isaías já previra essa revigorante dádiva de Deus, uma angelical condição (cf. Êx 25,20), o alento que tornou humanamente suportáveis as 'espadas' que traspassaram a alma de Nossa Senhora da Dores: "Até os adolescentes podem esgotar-se, e robustos jovens podem cambalear, mas aqueles que contam com o Senhor, renovam suas forças, Ele dá-lhes asas de águia. Correm sem se cansar, vão para a frente sem se fatigar." Is 40,30-31
    Ora, nas visões que teve desde a infância, a Beata Anna Catarina Emmerich conta que a Virgem Maria havia memorizado a Via Sacra, ou seja, a Paixão e Morte de Nosso Senhor, que a repetiu diariamente em Jerusalém enquanto lá pôde viver, e, já em Éfeso, escolheu lugares parecidos em volta do campo onde morava. Aí, entre orações e lágrimas, Nossa Mãe Celeste repetia dia após dia as 14 estações.
    Nossa Beata também viu, nesse mesmo lugar, os últimos dias da Imaculada Mãe, quando convocou todos Apóstolos para lhes dizer suas últimas palavras e se despedir. Também viu seus últimos instantes, o local onde ela foi sepultada, que ainda não foi encontrado, e o momento, minutos depois, em que ela foi elevada aos Céus em grande luz diante dos olhos dos Apóstolos.
    As igrejas 'ortodoxa' e anglicana também professam que Maria Santíssima foi elevada aos Céus.


    Oh Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós!

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

São Maximiliano Maria Kolbe


    No maior campo de concentração da Segunda Guerra Mundial, um capuchinho ofereceu-se para morrer no lugar de um pai que chorava muito, pois não iria mais ver seus filhos e esposa. E aproveitou para consolar e ajudar a salvar as almas dos outros nove que com ele foram trancados, todos desnudos, numa cela subterrânea para morrerem de fome. São Maximiliano convidou-os a recitar o Santo Rosário, fazer exame de consciência, confessar-se e cantar hinos religiosos. A cela tornou-se uma capela: liderados por ele, rezavam e louvavam, e eram acompanhados pelos presos das celas vizinhas.
    Como após três semanas quatro deles ainda estavam vivos, decidiram aplicar-lhes uma letal injeção venosa. Depois dos três sobreviventes estendidos ao chão diante de si, o Santo polonês, sentado, encostado à parede, braços desfalecidos sobre o corpo, graciosamente ofereceu o braço e recebeu o fenol, um ácido carbônico, e assim faleceu. Logo restou inerte, cabeça inclinada para o lado e olhos abertos. Seu corpo nu e esquelético foi levado ao crematório do campo. Junto a Santa Edith Stein, era mais um mártir, mais um a morrer em santidade num campo de concentração do demoníaco nazismo. Um guarda disse que seu rosto estava impressionantemente sereno, bonito e 'radiante'.


    Rajmund Kolbe nasceu a 8 de janeiro de 1894 na cidade de Zduńska Wola, nas proximidades de Lódz, centro de Polônia, e era o segundo filho de Juliusz Kolbe e Marianna née Dąbrowska, tecelões por profissão e muito católicos, integrantes da Ordem Terceira de São Francisco, que é feita de leigos. Aos 10 anos de idade viu uma aparição de Nossa Senhora que para sempre marcou sua vida. Segredo que guardou, foi revelado por sua mãe em carta aos confrades depois de sua morte: "Tremia pela emoção, e com lágrimas nos olhos disse-me: 'Naquela noite, perguntei à Mãe de Deus o que devia ser de mim, um filho da . Então, ela veio até mim segurando duas coroas, uma branca e outra vermelha. Ela perguntou-me se eu estava disposto a aceitar uma dessas coroas. O branco significava que eu deveria perseverar na pureza, e o vermelho que eu deveria tornar-me um mártir. Eu disse que aceitaria as duas. Então Nossa Senhora me olhou com doçura e desapareceu!'"
    Em 29 de Junho de 1902, Rajmund recebeu a Primeira Comunhão em Pabianice, onde sua família foi morar, e aí também, em 18 de agosto de 1907, recebeu o Sacramento da CrismaClandestinamente cruzou a fronteira com o irmão Franciszek para entrar num recém-aberto mosteiro da Ordem dos Frades Menores Conventuais na cidade de Lwóv, então em território austro-húngaro, atualmente Ucrânia. Três anos depois, decidiram deixar o seminário para se alistar no exército polonês para a Primeira Guerra Mundial, mas no dia que iam falar com o reitor, sua mãe chegou como o irmão Józef, que também havia decidido ser Frade e se tornaria o Padre Alfons. Para eles foi um sinal dos Céus, e Rajmund iniciou o noviciado adotando o nome de Maksymilian.


    Em Roma, aonde tinha ido estudar e fez votos perpétuos, acrescentando o nome de Maria, ficou escandalizado com o ateísmo e com as infâmias dirigidas à Santa Igreja Católica. Doutorou-se em Filosofia e prontamente fundou, junto aos irmãos, a Milícia de Maria Imaculada. Era 1917, ano da Aparição de Nossa Senhora em Fátima. Esse jovem de 23 anos era parte dos planos da Santíssima Virgem, que apenas três meses antes havia anunciado à pastorinha Lúcia, nesta aparição em Portugal, que Seu Imaculado Coração iria triunfar. Nosso Santo ainda nem tinha recebido o Sacramento da Ordenação e já se reunia com outros seis jovens para, com a ajuda de Maria Santíssima, converter pecadores e inimigos da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, além de buscar a santidade dos membros da Milícia.
    Tão ciente das dificuldades que enfrentava, desde que celebrou sua primeira Santa Missa, ordenado em 28 de abril de 1918, tratou de expressar sua disposição para defender a Igreja Apostólica até o martírio, como prometera a Nossa Senhora. Também se doutorou em Teologia, voltou a Polônia e rapidamente mobilizou mais de 300 pessoas para fundar o Jornal Cavaleiro da Imaculada, que na primeira edição já saia com 5 mil cópias. No dia anterior ao lançamento, reuniu a todos para jejuar e rezar, passando a noite em adoração ao Santíssimo Sacramento e orando à Virgem Maria.



    Em 1927, o príncipe polonês, reconhecendo como evidente o poder de Deus em São Maximiliano, doou-lhe um terreno a 40 quilômetros da capital, Varsóvia. Aí ele funda a Cidade da Imaculada, Niepokalanów em polonês, mais conhecida com a Cidade de Maria, com um convento iniciado com 2 Padres e 19 irmãos, que se tornaria enorme, instalações para o jornal e posteriormente três revistas mensais para crianças. De onde viria tanto dinheiro? Ele sabia que Nossa Senhora estava com ele. E tinha razão: em 1939, o jornal chegava a 1 milhão de exemplares, além de 17 pequenas publicações impressas. Eram mais de 700 pessoas vivendo lá, uma verdadeira cidade cristã com mecânicos, bombeiros, médicos e agricultores.




    Sua dedicação e piedade contagiavam a todos. Apaixonado pela Santa Eucaristia, instituiu na Cidade da Imaculada a Adoração Perpétua. Ele nada começava antes de adorar a Cristo, e queria uma Cidade de Maria em cada país.
    Como sinal de Deus que se antecede aos fatos, foi enviado como missionário ao Japão e fundou um mosteiro na cidade onde Santa Madalena de Nagasaki viveu, sobre a qual explodiria a segunda bomba atômica no ano de 1945, pondo fim à Segunda Guerra Mundial. Porém, a encosta por ele escolhida para o 'Jardim da Imaculada,' contrariando sugestões que o queriam no centro da cidade, protegeu-o totalmente da explosão.
    E sabendo do pequeno número de católicos neste país, ardorosamente trabalhou de 1930 a 1936. Chegou a publicar 60 mil exemplares do jornal mariano no ano de 1934, quando fundou a Cidade da Imaculada japonesa. Ele dizia: "Eu vejo Maria em toda parte. Eu não vejo dificuldades."


    Estava em Polônia no ano de 1939, quando a Segunda Grande Guerra começou, e a Cidade de Maria já tinha usina de energia, estação de rádio para todo país e teletipo, um telégrafo mais moderno, além de avançados projetos para estação de televisão, estúdio de cinema e aeroporto. Em setembro de 1939, enquanto era guardião, Niepokalanów tornou-se o mais numeroso mosteiro católico do mundo: passava de 700 monges.
    Mas mandou que todos, inclusive leigos, se refugiassem em insuspeitos lugares, pois sabia da perseguição aos católicos, e ficou na Cidade de Maria com apenas 40 essenciais voluntários. Por pura descriminação aos religiosos, logo foram levados presos pelos invasores nazistas. Mas num grande sinal da Mãe de Deus, no dia 8 de dezembro, quando se celebra a Imaculada Conceição, foram libertados, porque não havia mesmo nenhuma acusação contra eles.


    Presos mais uma vez em 1941, quando o Demônio já manifestava seu ódio mortal, foi levado para o terrível campo de concentração de Auschwitz, que os alemães mantinham em Polônia. Ao perceber que ele era religioso, pois se recusava a tirar o hábito capuchinho, o oficial humilhou e esbofeteou São Maximiliano várias vezes, perguntando se ele realmente acreditava em Cristo. Humildemente, ele apenas respondia que sim.


    Mas, tanto quanto pôde, aí não se manteve quieto. Cuidava de animar a fé e oferecer o Sacramento da Confissão a quem encontrava. Estimulava para que a tudo enfrentassem dignamente, sem desespero ou medo. Ainda obteve mais uma grande Graça de Nossa Senhora: apesar de lhes tomarem tudo e de usarem apenas o uniforme numerado, o guarda que lhe fazia frequentes revistas inacreditavelmente não lhe tomava o Santo Rosário.


    Ele dizia com frequência: "Para ser Santo, basta querer."
    Deixou veementes exortações:

    "Não é possível derramar mais água numa taça já cheia. Assim Deus também não pode verter Suas Graças numa alma cheia de distrações e frivolidades."
    "O ódio não é uma força criativa. Somente o amor o é."
    "O mais mortal veneno de nosso tempo é a indiferença. E isso acontece, embora o louvor a Deus não deva conhecer limites. Vamos esforçar-nos, portanto, para O louvar na maior extensão de nossas capacidades."
    "A lembrança do Céu deve estimular-te a grandes virtudes."
    "Imita o que vês de bom nos outros."
    "Pode ter mais méritos o ardor em pouco tempo que o medíocre serviço a Deus durante muitos anos."
    "Seja católico: quando tu te ajoelhares diante de um altar, faça isso de modo que os outros possam reconhecer que tu sabes diante de Quem te ajoelhas."
    "Ninguém no mundo pode mudar a Verdade. O que podemos fazer e devemos fazer é buscar a Verdade, e a ela atender quando a descobrimos. O real conflito é o conflito interior. Além dos exércitos da ocupação e das hecatombes dos campos de extermínio, há dois irreconciliáveis inimigos na profundidade de cada alma: o bem e o mal, o pecado e o amor. E de que servem as vitórias no campo de batalha se nós mesmos somos derrotados em nosso mais íntimo eu?"
    "O fruto de nosso apostolado depende da oração. Se falamos de oração, não se deve entender que seja preciso ocupar muitas horas em estar de joelhos e em oração, mas que sejam feitos atos internos."
    "Os modernos tempos são dominados por Satanás, e ainda mais serão no futuro. O conflito contra o inferno não pode ser encampado pelos homens, mesmo os mais inteligentes. Só a Imaculada tem de Deus a promessa de vitória sobre Satanás. No entanto, Assunta ao Céu, a Mãe de Deus agora requer nossa cooperação. Ela procura almas que inteiramente se consagrarão a ela, as quais em suas mãos se tornarão efetivos instrumentos para a derrota de Satanás e a propagação do Reino de Deus sobre a Terra."
    "Deus, que nos deu livre vontade, quer que livremente O sirvamos como instrumentos, ajustando nossa vontade à Sua, do mesmo modo que Sua Santíssima Mãe, quando diz: 'Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo tua palavra.'"
    "A expressão 'faça-se em mim' constantemente deve ressoar em nossos lábios, pois entre a vontade da Imaculada e a nossa deve existir uma completa harmonia. Então, que devemos fazer? Deixemo-nos conduzir por Maria e nada teremos a temer."
    "Da divina maternidade promanam todas Graças concedidas à Santíssima Virgem Maria, e a primeira é a Imaculada Conceição."
    "Deus vê a mais perfeita criatura, a Imaculada, ama-a e assim Jesus nasce, Homem-Deus, Filho de Deus e Filho do Homem. Nela, depois, têm início os graus de semelhança dos filhos de Deus e dos homens, dos membros de Jesus."
    "Deixemo-nos entregar à Imaculada. Deixe-a preparar-nos, que ela receba Jesus na Sagrada Comunhão. Esta é a mais perfeita e agradável maneira para o Senhor Jesus, e traz-nos grandes frutos. Porque a Imaculada conhece o segredo como nos unir totalmente ao Coração do Senhor Jesus... Nós não nos limitamos a amar. Queremos amar o Senhor Jesus com o Coração dela, ou melhor, que ela ame o Senhor com nosso coração."
    "A oração é poderosa além dos limites quando nos voltamos para a Imaculada, que é Rainha até do coração de Deus."
    "Deus não apenas sabe e pode, mas, especialmente pela Imaculada, faz o que é melhor para ti e para os outros."
    "Se alguém não quiser Maria Imaculada como Mãe, não terá Cristo como irmão."
    "A Cidade da Imaculada é um lar como o de Nazaré. O pai é Deus Pai, a mãe e a patroa da casa é a Imaculada, o Filho Primogênito e Nosso irmão é Jesus no Santíssimo Sacramento do altar. Todos mais novos irmãos tentam imitar o mais velho irmão, por amor e em honra a Deus e à Imaculada, nossos pais comuns. E, através da Imaculada, eles tentam amar o mais velho e divino irmão, o ideal de santidade que Se dignou a descer do Céu para nela Se encarnar e conosco morar no Tabernáculo..."
    "O mundo inteiro é uma grande Cidade da Imaculada, onde o pai é Deus, a mãe é a Imaculada, o irmão mais velho é o Senhor Jesus em todos tabernáculos do mundo, e os irmãos mais novos é o povo."
    "Meu objetivo é instituir perpétua adoração, pois esta é a mais importante atividade. Se metade dos irmãos trabalhasse e a outra metade rezasse, isso não exigiria muito."
    "Na união do Espírito Santo com Maria, o amor não une apenas estas duas Pessoas, mas o primeiro amor é todo amor da Santíssima Trindade, enquanto o segundo, o de Maria, é todo amor da Criação. E assim, em tal união, o Céu se une à Terra, todo amor incriado com o amor criado... É o vértice do amor."
    "Jesus honrou-a (Maria) antes de todos séculos e honrá-la-á por todos séculos. Ninguém vem a Ele, nem mesmo perto d'Ele, ninguém é salvo ou santificado, se também não a honrar. Este é o destino dos anjos e dos homens."
    "Por Jesus Cristo, estou preparado para sofrer ainda mais."


    O pai de família, Franciszek Gajowniczek, que São Maximiliano livrou da morte, sobreviveu ao campo de concentração, deu testemunho de seu piedoso ato e estava presente na Praça de São Pedro em 1982, quando São João Paulo II, também polonês, o canonizou. Este Papa várias vezes chamou-o de o 'Santo de nosso difícil século'. É o Padroeiro dos jornalistas, dos operadores de rádio amador, dos presos políticos e dos dependentes químicos. A igreja anglicana reverenciou-o como mártir na abadia de Westminster, em 1998.
    A cela em que ele morreu foi especialmente preservada.

    
    São Maximiliano Maria Kolbe, rogai por nós!

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Santa Dulce dos Pobres


    Aos 13 anos, Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes foi com uma tia materna visitar os pobres atendidos num convento de Freiras. Nesse dia, ela decidiu-se: "Quero ser Freira e dedicar minha vida aos pobres." Assim começava a vida espiritual do 'Anjo Bom de Bahia', nascida em São Salvador a 26 de maio de 1914, filha de Augusto Lopes Pontes, que era muito católico, e Dulce Maria de Souza Brito, sendo a segundo de cinco filhos. Nossa Santa recebeu a Primeira Comunhão em 1922, na Igreja de Santo Antonio Além do Carmo, junto aos irmãos Augusto e Dulcinha.
    Quando conheceu Irmã Rosa Schüller em 1929, que pela primeira vez lhe falou sobre a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, pertencente à Ordem Terceira Regular de São Francisco, logo quis entrar no Convento de Santa Clara dos Desterros, mas foi recusada por ser muito jovem. Esse fato, porém, não a impediu de começar a ajudar os mais carentes, pois com a permissão dos pais começou a fazer de sua casa um ponto de apoio para mendigos, doentes e necessitados. Em 20 de agosto de 1932, recebeu o Sacramento da Crisma pelas mãos do Arcebispo Augusto Álvaro da Silva.
    E em 15 de janeiro de 1933, aos 18 anos, matriculou-se na Ordem Terceira Franciscana, recebendo o nome de Irmã Lúcia, obteve o diploma de professora do primário, mas em 9 de fevereiro ingressou para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, no convento de Nossa Senhora do Carmo da cidade de São Cristóvão, estado de Sergipe. Um ano e meio depois, a 15 de agosto, já fazia sua profissão de votos e adotava o nome de Irmã Dulce, em homenagem a sua mãe, que havia perdido aos 6 anos de idade. Venerava Santa Teresinha do Menino Jesus, e como ela queria colocar um gesto de amor em cada um de seus atos. Tinha pequeno corpo e de frágil aparência, porém sua obra iria mostrar do que é capaz uma alma tomada pela e pelo amor a Cristo e ao próximo.


    Iniciou o noviciado a 15 de agosto de 1934, e em setembro foi enviada à cidade de São Salvador, ao Hospital Espanhol, para desempenhar funções de sacristã, porteira, enfermeira e chefe do setor de radiologia. Em 1935 deu aulas história e geografia no Colégio Santa Bernadette, de sua Congregação, mas aproveitava todo tempo restante para visitar e ajudar as mais pobres comunidades, como as de Alagados e Itapagipe. Em pouco mais de dois anos, trabalhando com seu pai espiritual, Frei Hildebrando Kruthaup, um franciscano, em 1937 já haviam fundado a União Operária São Francisco, primeiro movimento cristão de trabalhadores de Bahia, que se tornou o Círculo Operário de Bahia, uma escola de ofícios, mantido por 3 cinemas populares que ela e o Frade construíram com doações. O objetivo era criar mais cooperativas, que promovessem social e culturalmente os trabalhadores e defendessem seus direitos.


    Em 1939, abriu o Colégio Santo Antonio para os trabalhadores e seus filhos. Destemida, invadiu cinco casas abandonadas na Ilha dos Ratos, para que servissem de abrigo para os enfermos que recolhia das ruas. Ao ser expulsa, improvisou vários lugares por mais de 10 anos até ter que os abrigar, por falta de opção, no galinheiro do Colégio Santo Antonio, e por isso foi muito criticada: não seria um lugar digno. Mas, além do apoio de sua superiora, ela estava quase só numa luta aparentemente inglória em defesa dos abandonados. Contava apenas com a ajuda da própria comunidade de pobres onde morava.
    Contudo, não desistia: ia aonde podia pedir alimentos, remédios, assistência médica de colaboradores e ajuda financeira. Na maioria das vezes, só era atendida por pequenos comerciantes e amigos, que se comoviam com seus esforços. Para seguir trabalhando, em 8 de janeiro de 1941 obteve diploma de farmacêutica e, alguns anos depois, também se tornou enfermeira. Em 1946, fez uma campanha para entronizar o Sagrado Coração de Jesus nas fábricas de Itapagipe, e em 11 de junho de 1947, com Irmã Plácida e Irmã Hilária, fundou o Convento de Santo Antônio, anexo ao Círculo Operário de Bahia, e foi eleita superiora.
    Em 26 de maio de 1959 fundou a Associação Obras Sociais, que reunia todas suas iniciativas, para angariar fundos internacionais. Igualmente fundou um orfanato numa pequena cidade, Simões Filho, muito carente, vizinha a Salvador, em 1964, que chamou de Centro Educacional Santo Antonio, nome recorrente de suas obras sociais. Era o Santo a quem ela tanto rezava enquanto adolescente, pedindo que lhe mostrasse se deveria casar-se ou ser Freira. Esse Centro hoje funciona como escola para 300 alunos, de 3 aos 17 anos, e ministra cursos profissionalizantes. Enfim, com o auxílio de várias voluntárias, em 17 de janeiro de 1984 fundou o Instituto das Filhas de Maria Servas dos Pobres, para seguir oferecendo o mesmo carisma aos mais necessitados.
    Seu grande empenho, pois, não foi em vão. Depois de anos de diária e caridosa dedicação, aos poucos veio o reconhecimento: o galinheiro hoje é o Hospital Santo Antonio, com 11 núcleos de especialidades médicas e capacidade para 700 pacientes e 200 casos ambulatoriais. Gratuitamente atende mais de 1 milhão de pessoas por ano. Desde o início, ela dizia: "Quando nenhum hospital quiser aceitar algum paciente, nós aceitaremos. Essa é a última porta, e por isso eu não posso fechá-la."
    Ainda em 1980, de visita a Brasil, o Papa São João Paulo II fez questão de a receber e publicamente reconheceu seu tocante trabalho pelos pobres.
    Em 1988, sua indicação foi aceita para o prêmio Nobel da Paz.


    Em 1991, recebeu uma especial deferência do Papa São João Paulo II, que em segunda visita a Brasil fez questão de a visitlar no hospital, pois já estava bastante enferma e fragilizada.
    Ela ensinou:

    "Ame simplesmente, porque nada nem ninguém pode acabar com um amor sem explicação!"
    "O que fazer para mudar o mundo? Amar. O amor pode, sim, vencer o egoísmo."
    "No coração de cada homem, por mais violento que seja, sempre há uma semente de amor prestes a brotar."
    "Miséria é a falta de amor entre os homens."
 
    "Sempre que puder, fale de amor e com amor para alguém. Faz bem aos ouvidos de quem ouve e à alma de quem fala."
    "Tudo seria melhor se houvesse mais amor."
    "Se houvesse mais amor, o mundo seria outro. Se nós amássemos mais, haveria menos guerra. Tudo está resumido nisso: dê o máximo de si em favor de seu irmão, e, assim sendo, haverá paz na Terra."
    "O amor supera todos obstáculos, todos sacrifícios. Por mais que fizermos, tudo é pouco diante do que Deus faz por nós."
    "As pessoas que espalham amor não têm tempo nem disposição para jogar pedras."
    "Minha política é a do amor ao próximo."
    "Não entro na área política, não tenho tempo para me inteirar das implicações partidárias. Meu partido é a pobreza."
    "A preocupação com os bens materiais é natural, faz parte da vida humana. Mas o importante, o que de fato valoriza a vida são os gestos que rendem juros e correção na conta aberta em nome de cada um de nós no banco do Céu."
    "O importante é fazer caridade, não falar de caridade. Compreender o trabalho em favor dos necessitados como missão escolhida por Deus."
    "É preciso que todos tenham fé e esperança em um futuro melhor. O essencial é confiar em Deus. O amor constrói e solidifica."
    "Tudo se torna mais fácil quando se tem fé. Não uma fé oscilante, mas uma fé firme n'Aquele que tudo pode e tudo nos concede."
    "Não existe estado mais sublime que o da pessoa que consagra sua vida a Deus. Devemos ser ricos Evangelhos, uma aliança no amor mútuo, uma comunhão íntima entre a alma consagrada e Deus."
    "Nós, portadores de Cristo, devemos dar às pessoas testemunho de vida dedicada a Deus na pessoa do pobre."
    "Se Deus viesse a nossa porta, como seria recebido? Aquele que bate a nossa porta, em busca de conforto para sua dor, para seu sofrimento, é outro Cristo que nos procura."
    "Deus transmite-nos todas Graças de que necessitamos para bem executar nosso trabalho de amor e dedicação sem reserva a nossos irmãos sofredores: os pobres."
    "É certo que a vida de doação exige grandes sacrifícios, mas a felicidade íntima de que se desfruta, a tranquilidade e a Paz interior, conhecida tão somente por aqueles que fizeram uma doação, são seus frutos."
    "Devemos levar uma vida edificante e santa, principalmente na comunidade, na vida fraterna, na família, na qual devemos olhar as virtudes de nossos irmãos e irmãs, e não seus defeitos."
    "Procuremos viver em união, em espírito de caridade, perdoando uns aos outros nossas pequenas faltas e defeitos. É necessário saber desculpar para viver em Paz e união."
    "O corpo é um templo sagrado, a mente, o altar. Então, devemos cuidá-los com o maior zelo. Corpo e mente são o reflexo de nossa alma, a forma como nos apresentamos ao mundo e um cartão de visitas para nosso encontro com Deus."
    "Nós somos como um lápis com que Deus escreve os textos que Ele quer ditos aos corações dos homens."
    "Toda nossa vida deve ser em função do amor a Deus. Amemos, amemos com um amor sem limites a nosso Amado Jesus."
    "No amor e na fé encontraremos as forças necessárias para nossa missão."
    "Há momentos em que nos sentimos abandonados porque nos esquecemos da onipotência de Deus. Ele tudo vê. Então é preciso acreditar e ter a certeza que nada é impossível aos olhos d'Ele."
    "Habitue-se a ouvir a voz de seu coração. É através dele que Deus fala conosco e nos dá a força de que necessitamos para seguirmos em frente, vencendo os obstáculos que surgem em nossa estrada."
    "Se não gosto de cozinha, por exemplo, e me mandam para lá, eis uma boa ocasião de oferecer um sacrifício, realizar uma boa ação, fazer por amor a Deus."
    "Devemos confiar incondicionalmente na Providência. Nunca me preocupei em saber como iria sustentar tanta gente, tantos doentes, pagar funerais, médicos, remédios etc."
    "Os benfeitores, a quem eu nunca conseguirei agradecer plenamente, não se sintam completamente seguros: ainda haverá outras ocasiões em que bateremos às portas de seus generosos corações para pedir mais ajuda."
    "Obra de Deus não se interrompe, porque Ele não permite. Se foi Deus Quem construiu o hospital, por que haveria de sofrer interrupção? Eu nada fiz, porque nada sou. Quem faz tudo é Deus, nunca se esqueça disso."
    "Foi nosso povo, com sua fé, sob inspiração de Deus, que construiu toda essa obra."
    "Após mais de quarenta longos anos de serviço para Deus e para os pobres, sei que me resta pouco tempo de vida. Minha saúde, abalada constantemente, faz-me relembrar que meu prazo de permanência neste mundo é muito curto."

    Em 1992, aos 77 anos, o Anjo Bom de Bahia foi para a casa do Pai.
    Serviu ao povo carente por mais de 50 anos. Viveu tão somente para fazer caridade e assim se via muito feliz: "Se fosse preciso, começaria tudo outra vez, do mesmo jeito, andando pelo mesmo caminho de dificuldades, pois a fé, que nunca me abandona, me daria forças para ir sempre em frente."
    Santa Teresa de Calcutá era grande admiradora de seu trabalho.


    Em sua homenagem e para atender constantes visitas de agradecidos peregrinos, fez-se um memorial em Salvador.


    Santa Dulce dos Pobres, rogai por nós!