quarta-feira, 1 de julho de 2026

Textos para Celular

 
Anuário de Leituras Bíblicas

Acesso: dizemasescrituras.blogspot.com

Deus excede Todo Entendimento


    Em auxílio a nossas naturais limitações cognitivas, Deus apressou-Se em revelar, ainda que o amor não seja menos ignorado, Sua mais luminosa face: Deus de amor. A despeito, porém, daqueles que O negam, ou julgam conhecê-Lo muito bem, a verdade é que Ele é muito mais que podemos imaginar. Emblematicamente, já nos primeiros tempos de convívio com Jesus, conforme o Evangelho Segundo São Mateus, os Apóstolos vão perguntar-se: "Quem é este Homem a Quem até os ventos e o mar obedecem?" Mt 8,27
    E Nosso Senhor logo advertiu Nicodemos do poder do Espírito Santo, agindo sobre os filhos de Deus, ou seja, de Maria Santíssima (cf. Ap 12,17), da Igreja Católica. É leitura do Evangelho Segundo São João: "Não te maravilhes de que Eu te tenha dito: 'Necessário é-vos nascer de novo.' O vento sopra onde quer. Ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito." Jo 3,7-8
    Por isso, para posicionar os Apóstolos perante os poderes de Deus, mesmo no exame da consciência em face da Salvação, Jesus foi bem claro: declarou sobre Sua onipotência. O Evangelho Segundo São Marcos traz: "... para Deus tudo é possível." Mc 10,27
    Aliás, como São Gabriel Arcanjo havia dito a Nossa Senhora sobre a gravidez da idosa e estéril Santa Isabel, para gerar São João Batista: "... porque a Deus nenhuma coisa é impossível." Lc 1,37
    Mas o Divino Mestre seguia respeitando nossas fragilidades, e dedicava especial atenção aos Apóstolos: "Jesus anunciava-lhes a Palavra usando muitas parábolas como estas, de acordo com o que podiam compreender. E só lhes falava por meio de parábolas. Mas, quando estava sozinho com os discípulos, explicava tudo." Mc 4,33-34
    Pois, no Livro de Jó, como um de seus amigo disse, por muitas vezes os desígnios de Deus estão muito além de nossa compreensão: "Oh! Se Deus pudesse falar, e abrir Seus lábios para te responder, te revelar os mistérios da Sabedoria que são ambíguos a nosso espírito..." Jó 11,5-6a
    De fato, mesmo em momento de grande inspiração, e precisamente graças a ela, a Carta de São Paulo aos Romanos vai suspirar: "Ó abismo de riqueza, de Sabedoria e de ciência em Deus! Quão impenetráveis são Seus juízos, e inexploráveis, Seus caminhos!" Rm 11,33
    E ainda que pressintamos a eternidade, o Livro de Eclesiastes revela que só enxergamos alguns momentos da Criação: "Além disso, no coração do homem Ele pôs a inteira duração, sem que ninguém possa compreender a divina obra de um extremo a outro." Ecl 3,11
    No Livro de Salmos, absolutamente perplexo em suas reflexões, o rei Davi também já cantava: "Ó Deus, como são insondáveis para mim Vossos desígnios! E quão imenso é o número deles! Como os contar? São mais numerosos que a areia do mar. Se pudesse chegar ao fim, ainda seria com Vossa ajuda." Sl 138,17-18
    Profundamente agradecido, ele já havia atestado: "Senhor, Meu Deus, são maravilhosas Vossas inumeráveis obras e ninguém Vos assemelha nos desígnios para conosco. Eu quisera anunciá-los e divulgá-los, mas são mais que se pode contar." Sl 39,6
    O Livro de Eclesiástico chegou a mesma conclusão: "Quem será capaz de relatar Suas obras? Quem poderá compreender Suas maravilhas? Quem poderá descrever todo poder de Sua grandeza? Quem empreenderá a explicação de Sua Misericórdia? Nada há a subtrair, nada a acrescentar às maravilhas de Deus. Elas são incompreensíveis. Quando o homem tiver acabado, então estará no começo, e quando cessar a pesquisa, ficará perplexo." Eclo 18,2-6
    E questiona-se: "Que podemos nós fazer para O glorificar? Pois o Todo-Poderoso está acima de todas Suas obras. O Senhor é terrível e soberanamente grande. Seu poder é maravilhoso. Glorificai o Senhor quanto puderdes, e Ele sempre ficará acima porque Sua grandeza é admirável. Bendizei o Senhor, exaltai-O com todas vossas forças, pois Ele está acima de todo louvor. Enaltecendo-O, reuni todas vossas forças. Não desanimeis, jamais chegareis ao fim. Quem poderá contar o que d'Ele viu? Quem é capaz de O louvar como Ele é desde os primórdios? Muitos segredos são maiores que tudo isso. Só vemos um pequeno número de Suas obras." Eclo 43,30-36
    Certamente após longas e profundas observações, Davi afirmou a perfeição de Seus planos: "Grande é o Senhor e sumamente louvável, insondável é Sua grandeza. Cada geração apregoa à outra Vossas obras, e proclama Vosso poder. Elas falam do esplendoroso brilho de Vossa Majestade, e publicam Vossas maravilhas. Vosso Reino é Reino Eterno, e Vosso Império subsiste em todas gerações. O Senhor é fiel em Suas Palavras, e Santo em tudo que faz." Sl 144,3-5.13
    Ora, Deus mesmo havia dito aos israelitas no Livro do Profeta Isaías: "'Pois Meus pensamentos não são os vossos, e vosso modo de agir não é o Meu', diz o Senhor; 'mas tanto quanto o céu domina a Terra, tanto é superior à vossa Minha conduta, e Meus pensamentos ultrapassam os vossos.'" Is 55,8-9
    Pudera! Como nós, limitadas criaturas, poderíamos compreender Deus, Aquele que tudo fez? A Primeira Carta de São João foi sucinta: "... Deus é maior que nossa consciência, e conhece todas coisas." 1 Jo 3,20b
    E São Pedro, por sua intimidade com Jesus, recorreu-se de Sua divina Onisciência em defesa da veracidade da confissão de amor a Ele, que acabava de fazer: "Senhor, Tu sabes tudo..." Jo 21,17
    Não sem alguma dificuldade, os demais Apóstolos também haviam percebido tal poder. Na noite em que ia ser entregue, enquanto lhes dizia as últimas palavras, eles declararam: "Agora sabemos que conheces todas coisas, e não necessitas que alguém Te pergunte. Por isso, cremos que saíste de Deus." Jo 16,30
    São João Evangelista, por sinal, já havia registrado um flagrante de Sua onisciência, logo na primeira Páscoa em Jerusalém, após iniciada Sua vida pública: "Enquanto Jesus celebrava em Jerusalém a festa da Páscoa, muitos creram em Seu Nome, à vista dos sinais que fazia. Mas Jesus mesmo não Se fiava neles, porque os conhecia a todos. Não necessitava que alguém desse testemunho de nenhum homem, pois Ele bem sabia o que havia no homem." Jo 2,23-25
    E igualmente nas proximidades da segunda Páscoa, quando em Cafarnaum ofereceu Sua Carne e Seu Sangue como o Pão do Céu e muitos se escandalizaram: "Pois desde o princípio Jesus sabia quais eram aqueles que não criam, e quem havia de O trair." Jo 6,64b
    Essa, aliás, era a expectativa de todo povo de Israel, inclusive dos samaritanos, como a viúva e adúltera que estava junto ao poço de Jacó falou: "Respondeu a mulher: 'Sei que deve vir o Messias, que Se chama Cristo. Pois, quando vier, Ele nos fará conhecer todas coisas.'" Jo 4,25
    Era uma promessa de Deus, cantada num Salmo do Profeta Asaf: "Escuta, ó Meu povo, Minha Doutrina. Às palavras de Minha boca presta atenção. Abrirei os lábios, pronunciarei sentenças, desvendarei os mistérios das origens." Sl 77,1-2
    E Jesus cumpriu muito bem Sua Missão, comunicando-nos toda essência da Boa nova como afirmou pouco antes do início de Sua Paixão: "... pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de Meu Pai." Jo 15,15
    É o que São João Apóstolo confirma, referindo-se ao Sacramento da Crisma: "Vós, porém, tendes a Unção do Santo e sabeis todas coisas." 1 Jo 2,20
    E também a Segunda Carta de São Paulo a São Timóteo: "O Senhor há de te dar inteligência em tudo." 2 Tm 2,7b
    Com efeito, a Segunda Carta de São Pedro atestou: "O divino poder deu-nos tudo que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude. Por elas, temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de vos tornar por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo." 2 Pd 1,3-4
    Quanto aos desígnios de Deus, ou seja, como Ele vai executar Seus projetos, Moisés já havia dito no Livro de Deuteronômio, destacando Seus Mandamentos: "O que está oculto pertence ao Senhor, Nosso Deus. O que foi revelado é para nós e para nossos filhos, para sempre, a fim de que ponhamos em prática todas palavras desta Lei." Dt 29,29
    Sobre o fim dos tempos, por exemplo, Jesus vai dizer aos Onze, no Livro de Atos dos Apóstolos: "Assim reunidos, eles interrogavam-nO: 'Senhor, é porventura agora que ides instaurar o reino de Israel?' Respondeu-lhes Ele: 'Não vos pertence saber os tempos nem os momentos que o Pai manteve em Seu poder.'" At 1,6-7
    O rei Salomão, que a Deus só pediu Sabedoria, até via aí a maior honraria, conforme o Livro de Provérbios: "Se a Glória de Deus é ocultar uma coisa, a glória dos reis é sondá-la." Pr 25,2
    Mas Nosso Senhor bem sabia que nossas tíbias capacidades também seriam um difícil obstáculo. O próprio Nicodemos, que era um dos principais do judeus, demonstrou suas limitações: "Disse Jesus: 'És doutor em Israel e ignoras estas coisas? Se vos tenho falado das terrenas coisas e não Me credes, como crereis se vos falar das celestiais?'" Jo 3,10-12
    E ao falar aos Apóstolos sobre o celibato, Nosso Senhor aferiu: "Nem todos são capazes de compreender o sentido desta Palavra, mas somente aqueles a quem foi dado. Quem puder compreender, compreenda." Mt 19,11.12b
    Mas também exigirá dos discípulos, como daqueles que se frustraram com a Crucificação e partiram de Jerusalém sem acreditar em Sua Ressurreição, como o Evangelho Segundo São Lucas registrou: "Jesus disse-lhes: 'Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo que os Profetas anunciaram! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse em Sua Glória?'" Lc 24,25-26
    Pois eles foram chamados exatamente para testemunhar Suas obras, que não podem ser tratadas com desprezo. Este erro foi a razão do castigo que recairia sobre as populações que viviam à margem do mar de Galileia: "Depois Jesus começou a censurar as cidades, onde tinha feito grande número de Seus milagres, por se terem recusado a se arrepender: 'Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas ter-se-iam arrependido sob o cilício e a cinza. Por isso, digo-vos: no Dia do Juízo, haverá menor rigor para Tiro e para Sidônia que para vós! E tu, Cafarnaum, serás elevada até o Céu? Não! Serás atirada ao inferno! Porque se Sodoma tivesse visto os milagres que foram feitos dentro de teus muros, subsistiria até este dia. Por isso, digo-te: no Dia do Juízo, haverá menor rigor para Sodoma que para ti!'" Mt 11,20-24
    Nesse sentido, no Templo de Jerusalém perante os judeus, Ele chegou a apelar para que cressem ao menos em Suas obras: "Se Eu não faço as obras de Meu Pai, não Me creiais. Mas se as faço, e se não quiserdes crer em Mim, crede em Minhas obras, para que saibais e reconheçais que o Pai está em Mim e Eu no Pai." Jo 10,37-38
    Porque também denunciou os líderes religiosos, que procuravam um modo de O matar: "Por que não compreendeis Minha linguagem? É porque não podeis ouvir Minha Palavra. Vós sois do Diabo, vosso pai, e quereis fazer os desejos de vosso pai. Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na Verdade, porque a Verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira." Jo 8,43-44
    E assim, na noite em que iniciaria Sua Paixão, Ele começou a preparar os Apóstolos: "Ainda tenho muitas coisas a vos dizer, mas não sois capazes de as compreender agora." Jo 16,12
    Falou-lhes da Vinda do Espírito Santo, que esclareceria todos detalhes de Sua Missão e do projeto da Salvação, ou seja, a obra da Santa Igreja Católica. Nela dar-se-ia a plena manifestação da Terceira Pessoa de Deus, Supremo Guia da Revelação e da Igreja Apostólica pelos séculos: "Quando o Paráclito, o Espírito da Verdade vier, ensiná-vos-á toda Verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir e anunciá-vos-á as coisas que virão." Jo 16,13
    Prometeu mais: Ele fá-lhes-ia lembrar cada Palavra Sua: "Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em Meu Nome, ensiná-vos-á todas coisas e recordá-vos-á tudo que vos tenho dito." Jo 15,26
    Também garantiu que o Espírito de Deus para sempre estaria com a Igreja Una, sem a abandonar por um instante sequer, e assim para Vida Eterna: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele dá-vos-á outro Paráclito, para que eternamente fique convosco." Jo 14,16
    De fato, exclusivamente estaria com a Igreja Viva, pois, ainda segundo Jesus, o mundo não pode conhecê-Lo: "É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber porque não O vê nem O conhece. Mas vós conhecê-Lo-eis, porque convosco permanecerá e em vós estará." Jo 14,17
    Fica, portanto, mais uma questão: como poderíamos compreender Um que é Três, ou Três que são Um? Esse é o Mistério da Santíssima Trindade. E é o que é: Mistério. Ponto final. Acaso nós, que não conhecemos nem a nós mesmos, poderíamos saber tudo? E mesmo sem compreender, devemos aceitar esta revelação, pois foi assim que as coisas aconteceram e nos foram comunicadas. Neste ponto, pois, faz-se necessário o exercício da virtude da prudência, além da obediência e da humildade. Devemos apenas confiar. Jesus claramente falava de Três Pessoas: "Quando vier o Paráclito, que Vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade... Ele dará testemunho de Mim." Jo 15,26
    E claramente tratou o Divino Paráclito como uma Pessoa igual a Ele mesmo e ao Pai, quando mandou que batizássemos "... em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo." Mt 28,19
    Bem como não explicou como ressuscitaria a filha de Jairo, apenas lhe disse: "Não temas! Crê somente." Mc 5,36b
    Ou quando anunciou aos Apóstolos a iminência de Seu Sacrifício: "Não se perturbe vosso coração. Credes em Deus, também crede em Mim." Jo 14,1


O MISTÉRIO DE CRISTO

    Jesus, por Si só, já é um grande enigma para nossa compreensão. Apesar de ter vindo como Ser Humano, Ele era perfeito. O próprio povo, que com Ele esteve, constatava: "E tanto mais se admiravam, dizendo: 'Ele fez bem todas coisas. Fez ouvir os surdos e falar os mudos!'" Mc 7,37
    Também quando Ele ressuscitou o filho da viúva de Naim: "Apoderou-se de todos o temor, e glorificavam a Deus, dizendo: 'Um Grande Profeta surgiu entre nós: Deus voltou os olhos para Seu povo.'" Lc 7,16
    Era Sua Unidade com o Pai e o Espírito Santo, porém, que Lhe possibilitava operar maravilhas, como pregou numa festa na Cidade Santa: "Jesus tomou a Palavra e disse-lhes: 'Na Verdade, na Verdade, digo-vos: de Si mesmo o Filho não pode fazer coisa alguma. Ele só faz o que vê o Pai fazer. E tudo que o Pai faz, semelhantemente faz o Filho. Pois o Pai ama o Filho e Lhe mostra tudo que faz. E maiores obras que esta Lhe mostrará, para que fiqueis admirados.'" Jo 5,19-20
    Falando de Sua Comunhão com o Pai, dizia que Ele partilhava Consigo o controle de todas coisas. Ou seja, assim como o Pai, Jesus também é Onipotente. Ele declarou: "Todas coisas foram-Me entregues por Meu Pai." Jo 10,22
    Pouco antes de Sua Ascensão, disse algo parecido: "Toda autoridade foi-Me dada no Céu e na Terra." Mt 28,18
    Já havia dito: "Tudo que é do Pai é Meu." Jo 16,15a
    Mais: "Eu e o Pai somos Um." Jo 10,30
    E ainda: "E quem Me vê, vê Aquele que Me enviou.” Jo 12,45
    Desta forma, ciente da carência que temos de Comunhão com Deus, mas também atestando Seu poder, a Carta de São Paulo aos Filipenses garantia: "Tudo posso n'Aquele que me fortalece." Fl 4,13
    Há, entretanto, mais um importante detalhe sobre as revelações das Três Pessoas de Deus: o pouco que podemos conhecer a respeito de Deus, depende da própria vontade de Jesus, que disse: "Ninguém conhece Quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho quiser revelá-Lo." Jo 10,22
    Por isso, São João Evangelista vai afirmar: "Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi Quem O revelou." Jo 1,18
    E apontando para Jesus, a Carta de São Paulo aos Efésios reafirma a exclusividade desse Caminho para que cheguemos a Deus, e, oportunamente, aí inclui a imprescindível ajuda do Espírito Santo: "É por Ele que todos nós, judeus e pagãos, temos acesso a Deus, num só Espírito." Ef 2,18
    Isto é, até para simplesmente reconhecer Jesus como o Salvador, ou seja, como Deus, já se faz necessária a intervenção do Divino Espírito. A Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios é terminativa: "... ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, senão sob a ação do Espírito Santo." 1 Cor 12,3
    Ou, o que pela Comunhão da Santíssima Trindade representa o mesmo, para tal conclusão se faz necessária a ajuda do Pai, como o próprio Jesus disse: "Ninguém pode vir a Mim se o Pai, que Me enviou, não o atrair..." Jo 6,44
    Todavia, conhecendo-O muito ou pouco, não podemos esquecer o objetivo de Sua manifestação entre nós: que cheguemos à obediência da fé. Aos católicos romanos, São Paulo prega "... Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério, guardado em segredo durante séculos, mas agora manifestado por ordem do Eterno Deus e, por meio das proféticas Escrituras, dado a conhecer a todas nações, a fim de as levar à obediência da fé..." Rm 16,25-26
    Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios esclarece nossa real condição de convertidos: "Andamos na fé e não na visão." 2 Cor 5,7
    Assim, baseando-se na Revelação e a despeito de todo mistério, desde os tempos do Antigo Testamento todo ser humano tem a obrigação de refletir sobre as coisas de Deus. Jesus fez-nos lembrar o Deuteronômio: "Amarás o Senhor, Teu Deus... com todo teu entendimento! (Dt 6,5)" Mt 22,37
    Porque Deus tanto quer fazer-Se racionalmente conhecido que de todas formas tenta instruir-nos, como um amigo de Jó argumentou: "Responderei que nisto foste injusto, pois Deus é maior que o homem. Por que O acusas de não dar nenhuma resposta a teus discursos? Porque Deus fala de uma maneira e de outra, e não prestas atenção. Por meio dos sonhos, das noturnas visões, quando um profundo sono pesa sobre os humanos, enquanto o homem está adormecido em seu leito, então abre seu ouvido e o assusta com Suas aparições, a fim de o desviar do pecado e de o preservar do orgulho, para lhe salvar a alma do fosso, e sua vida, da mortífera seta. Pela dor também é instruído o homem em seu leito, quando todos seus membros são agitados, quando recebe o alimento com desgosto e já não pode suportar as mais deliciosas iguarias. Sua carne some aos olhares, seus membros emagrecidos desvanecem-se, sua alma aproxima-se da sepultura, e sua vida, daqueles que estão mortos." Jó 33,12-22
    Porque Ele é amoroso Pai, e sempre está buscando nossas melhoras. Os seguidores da tradição de São Paulo ensinam na Carta aos Hebreus, citando Provérbios: "Estais esquecidos da Palavra de animação que vos é dirigida como a filhos: 'Filho meu, não desprezes a correção do Senhor. Não desanimes quando repreendido por Ele, pois o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por Seu filho' (Pr 3,11s). Estais sendo provados para vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige? Mas se permanecêsseis sem a correção que é comum a todos, seríeis bastardos e não legítimos filhos. Aliás, temos na Terra nossos pais que nos corrigem e, no entanto, olhamo-los com respeito. Com quanto mais razão havemos de nos submeter ao Pai de nossas almas, o Qual nos dará a Vida? Os primeiros educaram-nos para pouco tempo, segundo sua própria conveniência, ao passo que Ele o faz para nosso bem, para nos comunicar Sua santidade. É verdade que toda correção parece, de momento, antes motivo de pesar que de alegria. Mais tarde, porém, granjeia, àqueles que por ela se exercitaram, o melhor fruto de Justiça e de Paz." Hb 12,5-11
    Se persistirmos, pois, um dia sê-nos-ão mais claros os desígnios de Deus, como Jesus disse a São Pedro por ocasião do Lava-Pés: "Agora não entendes o que estou fazendo. Mais tarde compreenderás." Jo 13,7
    Ou como o sagrado autor do Livro de Sabedoria diz: "Aqueles que n'Ele põem sua confiança, compreenderão a Verdade, e aqueles que são fiéis habitarão com Ele no amor. Porque Seus eleitos são dignos de favor e Misericórdia." Sb 3,9
    Ele também versou sobre aqueles que morrem em Cristo: "Mas as almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará. Aparentemente estão mortos, aos olhos dos insensatos. Seu desenlace é julgado como uma desgraça, e sua morte, como uma destruição, quando na verdade estão na Paz! Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, a esperança deles era portadora de imortalidade, e por terem sofrido um pouco, receberão grandes bens, porque Deus, que os provou, os achou dignos de Si. Ele provou-os como ouro na fornalha, e acolheu-os como holocausto." Sb 3,1-6
    Nos Céus, por fim, como São Paulo declarou, tudo nos será revelado, e conheceremos plenamente a Deus: "Hoje vemos como por um espelho, confusamente, mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte, mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido." 1 Cor 13,12
    Ora, se as obras de Deus na Terra já são admiráveis, que se dirá dos Céus? Ele cita o Profeta Isaías: "É como está escrito: 'Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou' (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que O amam." 1 Cor 2,9
    E São João Evangelista acrescenta: "Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto O veremos como Ele é." 1 Jo 3,2


PALAVRAS PARA EXPRIMIR DEUS?

    Pois nem mesmo os Evangelhos, arrematadas obras da Revelação, conseguem traduzir a plena grandeza de Deus, que a tudo transcende. Por isso, São Paulo pedia: "E também rezai por mim, para que me seja dado corajosamente anunciar o mistério do Evangelho..." Ef 6,19
    Os relatos dos Apóstolos, portanto, embora nos comuniquem tudo de que precisamos saber, têm reconhecidamente sérias limitações para traduzir tudo que representa o Criador, o Salvador e o Autor da Graça (cf. Hb 10,29). Assim, apesar de todo poder da palavra escrita, devemos vislumbrar Deus muito maior que ela. Este Apóstolo explica o Sacerdócio da Santa Madre Igreja: "Tal é a convicção que temos em Deus por Cristo. Não que sejamos capazes por nós mesmos de ter algum pensamento, como de nós mesmos. Nossa capacidade vem de Deus. Ele é que nos fez aptos para sermos Ministros da Nova Aliança, não a da letra, e sim a do Espírito. Porque a letra mata, mas o Espírito vivifica." 2 Cor 3,4-6
    Seus discípulos vão dizer o mesmo sobre o Antigo Testamento: "A Lei, por ser apenas a sombra dos futuros bens, não sua real expressão..." Hb 10,1
    E assim também quanto às celebrações, nas quais os judeus persistem, como eles apontam citando o Livro de Êxodo: "O culto que estes celebram é, aliás, apenas a imagem, sombra das celestiais realidades, como foi revelado a Moisés quando estava para construir o Tabernáculo: 'Olha', foi-lhe dito, 'faze todas coisas conforme o modelo que te foi mostrado no monte (Êx 25,40).'" Hb 8,5
     Não por acaso, em elogio ao comportamento dos pagãos, São Paulo finda por afirmar que nem tudo sobre Deus pode ser conhecido neste mundo: "Porquanto o que se pode conhecer de Deus, eles leem-no em si mesmos, pois Deus lhos revelou com evidência. Desde a criação do mundo, as invisíveis perfeições de Deus, Seu sempiterno poder e divindade, tornam-se visíveis à inteligência por Suas obras..." Rm 1,19,20
    O Eclesiástico até adverte para que não nos entreguemos a nossa própria 'sabedoria', e que devemos deter-nos no que foi revelado: "Não procures o que é por demais elevado para ti, não procures penetrar o que está acima de ti, mas pensa sempre no que Deus te ordenou. Não tenhas a curiosidade de conhecer um demais elevado número de Suas obras, pois não é preciso que com teus olhos vejas Seus segredos. Acautela-te de uma exagerada busca de inúteis coisas, e de uma excessiva curiosidade nas numerosas obras de Deus, pois a ti foram reveladas muitas coisas, que ultrapassam o alcance do espírito humano. Muitos foram enganados pelas próprias opiniões. Seu sentido reteve-os na vaidade." Eclo 3,22-26
    E diz: "Quem é aquele que compreende os caminhos de Deus, e a tempestade que escapa aos olhos do homem? Com efeito, a maior parte de Suas obras está oculta. Quem anunciará, quem poderá suportar os efeitos de Sua Justiça? Pois as divinas sentenças estão longe do pensamento de muitos, e o exame geral só se realizará no Último Dia. O homem de mesquinho coração só pensa em vaidades. O imprudente e o extraviado só se ocupam de loucuras." Eclo 16,21-23
    Sem dúvida, um dos amigos de Jó já havia lembrado um importante detalhe: "Deus é grande demais para que possamos conhecê-Lo. O número de Seus anos é incalculável." Jó 36,26
    E contemplando as forças da natureza, o próprio Jó vai dizer: "Eis que tudo isso não é mais que o contorno de Suas obras, e se percebemos apenas um fraco eco dessas obras, quem compreenderá o trovão de Seu poder?" Jó 26,14
    Assim o Cristo igualmente continua sendo Mistério. Meras palavras sem a divina inspiração não conseguem exprimir nem lampejo de Sua Glória, e por isso a Carta de São Paulo aos Colossenses também pede orações: "Pedi a Deus que dê livre curso a nossa palavra, para que possamos anunciar o Mistério de Cristo." Cl 4,3
    Ele bem sabia que sem o Divino Paráclito nada poderia fazer, como está na Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses: "Nosso Evangelho foi-vos pregado não somente por palavra, mas também com poder, com o Espírito Santo e com plena convicção." 1 Ts 1,5
    E faz um esclarecedor comentário sobre a dificuldade que muitas pessoas encontram: "Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem pode compreendê-las, porque é pelo Espírito que devem ponderá-las." 1 Cor 2,14
    São João Apóstolo, pois, ressalta a moção do Espírito Santo, dizendo de Cristo: "Quem observa Seus Mandamentos, permanece em Deus e Deus nele. É nisto que reconhecemos que Ele (Deus) permanece em nós: pelo Espírito que nos deu." 1 Jo 3,24
    Mas tudo que São Paulo sabia ainda era tão somente seu entendimento. E era isso, no entanto, que com toda humildade oferecia: "... foi por revelação que tive conhecimento do Mistério, como acima o expus em poucas palavras. Lendo-me, podeis perceber o entendimento que tenho do Mistério de Cristo, às gerações e aos homens do passado, Ele não foi dado a conhecer, como agora foi revelado pelo Espírito a Seus Santos Apóstolos e profetas." Ef 3,3-5
    De toda forma, também exigia: "Se nosso Evangelho ainda estiver encoberto, está encoberto para aqueles que se perdem, para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a Luz do Evangelho, onde resplandece a Glória de Cristo, que é a imagem de Deus." 2 Cor 4,3,4
    Faz, contudo, a devida ponderação, citando o Livro de Gênesis: "De fato, não pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo, o Senhor. Quanto a nós, consideramo-nos vossos servos por amor a Jesus. Porque Deus que disse: 'Do meio das trevas brilhe a luz (Gn 1,3)', também é Aquele que fez brilhar Sua Luz em nossos corações, para que irradiássemos o conhecimento do esplendor de Deus, que se reflete na face de Cristo. Porém, temos este tesouro em vasos de barro, para que claramente transpareça que este extraordinário poder provém de Deus e não de nós." 2 Cor 4,5-7
    Pois o amor de Jesus por nós, muito bem demonstrado em Sua Paixão, vai muito além de qualquer parâmetro. Ele segue: "... o amor de Cristo, que supera qualquer conhecimento... tem o poder de realizar, por Sua força agindo em nós, infinitamente mais que tudo que possamos pedir ou pensar..." Ef 3,19a.20b
    Ou seja, para que não nos enganássemos mais, Jesus veio revelar-nos a verdadeira face de Deus, como São João Evangelista afirma: "Sabemos que o Filho de Deus veio e nos deu inteligência para conhecermos o Verdadeiro." 1 Jo 5,20
    Como sinal de Seu amor, Nosso Senhor deixou-nos Sua Paz. E segundo Suas próprias palavras, quem a conhece não se engana: "Deixo-vos a Paz, dou-vos Minha Paz. Não vo-la dou como o mundo a dá." Jo 14,27
    E como perfeita amostra do poder de sua fonte, esta Paz é igualmente indizível. Diz o Apóstolo dos Gentios: "E a Paz de Deus, que excede toda inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus." Fl 4,7
    Por essa razão, esforçaram-se os Apóstolos em seus testemunhos, como ele mesmo fez para que tivéssemos a Luz na escuridão: "Tudo sofro para que seus corações sejam reconfortados e que, estreitamente unidos pelo amor, sejam enriquecidos de uma plenitude de inteligência, para conhecerem o Mistério de Deus, isto é, Cristo, no Qual estão escondidos todos tesouros da Sabedoria e da ciência." Cl 2,2
    E assim ele se apresenta entre os membros da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, profundamente agradecido por receber tão grandiosa missão: "A mim, o mais insignificante dentre todos santos, coube a Graça de anunciar entre os pagãos a inexplorável riqueza de Cristo..." Ef 3,8
    A Igreja Católica Apostólica Romana, portanto, mesmo sem compreender tudo sobre Deus, tem, por obrigações de ofício e de fé, que comunicar o que lhe foi revelado. É o testemunho, como São Paulo afirmou em últimas palavras aos anciãos de Éfeso: "Vós sabeis como não tenho negligenciado, como não tenho ocultado coisa alguma que vos podia ser útil. Preguei e instruí-vos, publicamente e dentro de vossas casas. Preguei aos judeus e aos gentios a conversão a Deus e a fé em Nosso Senhor Jesus." At 20,20-21
    Por isso, ele reza pela Graça dos Sacramentos: "Que os homens nos considerem, pois, como simples operários de Cristo, e administradores dos Mistérios de Deus." 1 Cor 4,1
    E mesmo com todos defeitos de sua parcela humana, por ele nos foi revelado que a Igreja de Deus Vivo "... é Seu Corpo (Cristo), o receptáculo d'Aquele (Deus) que sob todos aspectos enche todas coisas." Ef 1,23
    Porque até os anjos, diz ele citando duas ordens, dela dependem para ter uma ideia dos sutis planos de Deus: "Assim, de ora em diante, as celestes dominações e potestades podem conhecer, pela Igreja, a multiforme Sabedoria de Deus, de acordo com o eterno desígnio que Deus realizou em Jesus Cristo, Nosso Senhor." Ef 3,10-11
    Afirmativamente, ela é santa, o Corpo Místico de Cristo: "... Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela, para a santificar, purificando-a pela Água do Batismo com a Palavra, para a apresentar a Si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito, mas santa e irrepreensível. Este Mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja." Ef 5,25b-28.32
    E Ele ininterruptamente segue cuidando dela pelos séculos: "Ninguém jamais odiou sua própria carne. Ao contrário, alimenta-a e dela cuida, como Cristo faz com Sua Igreja." Ef 5,29
    Ora, sabendo que Jesus é Deus de amor, já sabemos o bastante. Então, que nos unamos a Ele "... segundo as riquezas de Sua Graça que (Deus Pai) profusamente derramou sobre nós, em torrentes de Sabedoria e de prudência. Ele manifestou-nos o misterioso desígnio de Sua vontade, que em Sua benevolência formara desde sempre, para o realizar na plenitude dos tempos. Desígnio de reunir em Cristo todas coisas, aquelas que estão nos Céus e aquelas que estão na Terra." Ef 1,7-10
    E como a Primeira Carta de São Paulo a São Timóteo recomendou a nossos diáconos, antes que conhecimento temos o Precioso Depósito (cf. 2 Tm 1,14), a Sagrada Tradição para zelar: "... guardem o mistério da fé numa pura consciência." 1 Tm 3,9

    "Alegrai-nos, ó Pai, com Vossa Luz!"

terça-feira, 30 de junho de 2026

Primeiros Santos Mártires de Roma


    No quente verão do ano 64 de nossa era, abrindo espaço para seus megalômanos projetos urbanísticos, Nero criminosamente mandou atear fogo em algumas construções no centro de Roma, que eram em maioria de madeira e palha, e acabou queimando até às cinzas boa parte do centro da cidade durante seis dias. Para se eximir das acusações, que logo vazariam por revoltados inconfidentes, ele culpou os cristãos, a maior e mais transformadora novidade que se dava na capital do Império Romano àqueles tempos, aos quais cultuava ódio por não lhe reverenciarem como deus.
    Assim ele deflagrou a primeira grande perseguição à Santa Igreja Católica, ordenando o massacre de todos seguidores com maior emprego de crueldade possível, e apressou-se para assassinar São Pedro, por inveja de seu carisma e por ser o representante máximo de Cristo na Terra, e pouco depois também São Paulo, insigne e renomado Apóstolo, fatos que incontestavelmente fizeram de Roma uma cidade apostólica.
    Milhares de católicos entregaram suas almas a Deus nesse período, e padecendo bestiais brutalidades: as mulheres eram ultrajadas dos mais infames modos; nem mesmo crianças e idosos tiveram suas vidas poupadas. Para tornar o 'espetáculo' ainda mais apelativo, todas formas de execução foram permitidas.
    Mas todos morriam sem renegar a em Cristo, fato que, em favor dos argumentos de Nero, ajudou a difundir entre os romanos que os cristãos 'não gostavam de viver' e 'odiavam o ser humano'.
    Essa fervorosa fé dos cristãos de Roma, porém, não era exatamente uma novidade no mundo cristão. A própria Carta de São Paulo aos Romanos, escrita uns 7 anos antes do início dos martírios, logo no início deixou um precioso registro do fogo do Espírito Santo que já os abrasava havia mais de duas décadas: "Primeiramente, dou graças a Meu Deus, por meio de Jesus Cristo, por todos vós, porque em todo mundo é celebrada vossa fé." Rm 1,8
    E os fiéis eram muitos, ou não teriam incomodado o imperador, e certamente formavam várias comunidades, nossas paróquias, ainda segundo registro deste Apóstolo: "... a todos vós que estais em Roma..." Rm 1,7a
    Tão expressivo rebando que o próprio São Paulo, mesmo sabendo ser domínio de São Pedro, se programava para ir lá. E mais uma vez ele ressalta a fé que eles tinha: "Ardentemente desejo ver-vos, a fim de vos comunicar alguma Graça espiritual, com que sejais confirmados, ou melhor, para juntamente convosco me encorajar em vossa e minha fé que nos é comum. Pois não quero que ignoreis, irmãos, como muitas vezes me tenho proposto ir ter convosco. Eu queria recolher algum fruto entre vós, como entre outros pagãos, mas até agora tenho sido impedido. Sou devedor a gregos e a bárbaros, a sábios e a simples. Daí o ardente desejo que sinto de também anunciar Evangelho a vós, que habitais em Roma." Rm 1,11-15
    De fato, ele mesmo divulgava o respeito às dioceses de outros Apóstolos, como escreveu aos próprios romanos: "E empenhei-me por anunciar o Evangelho onde ainda não havia sido anunciado o Nome de Cristo, pois não queria edificar sobre fundamento lançado por outro." Rm 15,20
    A Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios já o havia dito, expressamente falando em domínio: "Assim esperamos levar o Evangelho às regiões que ficam além de vós, sem nos gloriarmos das obras realizadas por outros dentro do domínio reservado a eles." 2 Cor 10,16
    E por isso, ao fim da Carta aos Romanos, ele deixou claro que aí estaria apenas 'de passagem': "... espero ver-vos de passagem, quando eu for à Espanha. Também espero ser conduzido por vós até lá, depois que tiver satisfeito, ao menos em parte, meu desejo de estar convosco." Rm 15,24
    Contudo, poucos anos mais tarde, o próprio Jesus determinou que ele fosse a Roma, quando ele foi preso em Jerusalém após causar tumulto por sua presença, como cristão, no Templo. Está no Livro de Atos dos Apóstolos: "Na noite seguinte, apareceu-lhe o Senhor e disse-lhe: 'Coragem! Deste testemunho de Mim em Jerusalém, assim também importa que o dês em Roma.'" At 23,11


    Os jardins, pois, onde o imperador Calígula havia construído um 'circo', também passaram a ser usados por Nero para um espetáculo 'circense' com os mais horrendos sacrifícios, mas agora como uma 'festa' popular de massivas execuções que se estenderiam por três tenebrosos anos: flecha após flecha, os cristãos eram alvejados deixando por último artérias e órgãos vitais; eram dilacerados e mutilados a golpes de espadas para lentamente morrerem, ou simplesmente decapitados; feridos e esmagados com pesadas e bizarras armas letais; destroçados por cavalos e bigas de guerra em alta velocidade; soltos na arena para o ataque de furiosos touros, famintos leões e outros grandes felinos; mortos na fogueira ou por armas em brasa; hediondas torturas, crucificações e as insanas 'tochas humanas', quando eram untados com piche para arder em chamas 'iluminando' a noite.
    À luz do dia, as vítimas eram banhadas em sangue e revestidos com peles de animais para o escárnio e espancamento pelos cidadãos romanos nas ruas, e depois serem atacadas por cachorros sem donos. Para presenciar e incitar tais atrocidades, o próprio Nero misturava-se ao povo, disfarçado, ou ensandecidamente conduzindo sua própria biga, dando voltas na arena dos jardins.


    Os praticantes do paganismo, como os líderes romanos eram, realmente não tinham o menor embaraço em imolar os praticantes de outras religiões, como o próprio Evangelho Segundo São Lucas narrou uma atrocidade que comunicaram a Jesus: "Neste mesmo tempo, contaram-Lhe alguns o que tinha acontecido a certos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com seus sacrifícios." Lc 13,1
    E a Segunda Carta São Paulo a São Timóteo, escrita em suas últimas semanas, deixou um registro do medo e da resignação entre os cristãos durante seu julgamento na capital do Império, por força dos abomináveis espetáculos que estavam em curso: "Em minha primeira defesa, ninguém me assistiu, todos abandonaram-me. Que isto não lhes seja levado em conta. Mas o Senhor veio em meu auxílio e deu-me forças. Assim, pude completar a proclamação da mensagem, para que todas nações a ouçam. E eu fui libertado da boca do leão." 2 Tm 4,17
    Ora, cerca de dez anos antes, a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios parecia prever esses martírios, porque esse tipo de brutalidade já era praticada: "... ainda que eu entregasse meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada valeria!" 1 Cor 13,3b
    Até exortou os próprios romanos, dizendo da condição de todo cristão por citação de um sagrado autor no Livro de Salmos. Estaria profetizando? "Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? Realmente, está escrito: 'Por causa de ti somos entregues à morte todo dia, somos tratados como ovelhas destinadas ao matadouro (Sl 43,23).'" Rm 8,35-36
    E os seguidores de sua tradição, na Carta aos Hebreus, realmente chegaram a exortar os demais cristãos baseando-se nos exemplos destes mártires de Roma: "Ainda não tendes resistido até o sangue na luta contra o pecado." Hb 12,4
    Com efeito, o Livro do Apocalipse de São João, que foi escrito ao fim do século I, menciona esses mártires: "Então um dos anciãos (querubins?) falou comigo e me perguntou: 'Esses, que estão revestidos de brancas vestes, quem são e de onde vêm?' Respondi-lhe: 'Meu Senhor, tu o sabes!' E ele disse-me: 'Esses são os sobreviventes da grande tribulação. Lavaram suas vestes e alvejaram-nas no Sangue do Cordeiro.'" Ap 7,13-14
    Mas foi-lhes dito que a perseguição não se encerraria por aí, apesar da intercessão destes Santos. De fato, ainda que não constantemente, essas atrocidades continuariam por mais dois séculos: "Quando abriu o quinto selo, debaixo do Altar vi as almas dos homens imolados por causa da Palavra de Deus, e por causa do testemunho de que eram depositários. E clamavam em alta voz, dizendo: 'Até quando Tu, que és o Senhor, o Santo, o Verdadeiro, ficarás sem fazer Justiça e sem vingar nosso sangue contra os habitantes da Terra?' Então foi dada a cada um deles uma branca veste, e lhes foi dito que aguardassem ainda um pouco, até que se completasse o número dos companheiros e irmãos que com eles estavam para serem mortos." Ap 6,9-10
    Ficou evidente, contudo, que pelo martírio eles chegaram à santidade, o que igualmente fez de Roma a cidade da cristandade por excelência, pois nas pessoas de vários imperadores se viram malignos impérios, as bestas de Apocalipse, mas semelhantemente aí se estabeleceu o Reino de Sacerdotes de Nosso Senhor: "Também vi tronos, sobre os quais se sentaram aqueles que receberam o poder de julgar: eram as almas dos que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, e todos aqueles que não tinham adorado a besta ou sua imagem, que não tinham recebido seu sinal na fronte nem nas mãos. Eles viveram uma Nova Vida e com Cristo reinaram por mil anos." Ap 20,4
    O Amado Discípulo mencionou, da mesma forma, os sacrifícios de São Pedro e São Paulo, porém usando termos codificados, como fez em todo Livro de Apocalipse para que não fosse censurado e destruído, pois as perseguições continuavam. Jesus disse-lhe: "Mas incumbirei a Minhas duas testemunhas, vestidas de saco, de profetizarem por mil duzentos e sessenta dias. São eles as duas oliveiras e os dois candelabros que se mantêm diante do Senhor da Terra. Entretanto, depois de terem integralmente terminado seu testemunho, a besta que sobe do abismo fá-lhes-á guerra, vencê-los-á e matá-los-á. Seus cadáveres jazerão na rua da grande cidade que espiritualmente se chama Sodoma e Egito, onde Seu Senhor foi crucificado. Muitos dentre os povos, tribos, línguas e nações virão para os ver por três dias e meio, e não permitirão que sejam sepultados. Os habitantes da Terra alegrar-se-ão por causa deles, mutuamente se felicitarão e mandarão presentes uns aos outros, porque esses dois Profetas tinham sido seu tormento." Ap 11,3-4.7-10


    O termo 'protomártires', em grego, designa esses primeiros mártires cristãos, sacrifícios que séculos mais tarde muitas nações também viriam a padecer, como durante a invasão da Terra Santa, pelos muçulmanos, a Reforma Protestante, patrocinada por príncipes e nobres, e ainda pelas mãos de alguns movimentos ditos 'humanistas' como a torpe Revolução Francesa, a abjeta Guerra Civil Espanhola, a praga do Socialismo pelo mundo e a aberração do Comunismo, iniciada em Rússia mas amplamente replicada pelo mundo, todas levadas a cabo pelo ateísmo militante.
    E todos mártires cristãos têm no diácono Santo Estevão o primeiríssimo exemplo, cujo sacrifício se deu ainda no tempo dos Apóstolos, pouco depois do Pentecostes, e que em breve seria seguido por São Tiago Maior, primeiro Apóstolo a ser martirizado, assim como mais tarde foram todos demais, à exceção de São João, exatamente como Jesus profetizou. De fato, no Evangelho Segundo São João, por força dos questionamentos de São Pedro a Nosso Senhor sobre o destino do Amado Discípulo, Ele também o interrogou: "Respondeu-lhe Jesus: 'Que te importa se Eu quero que ele fique até que Eu venha? Segue-Me tu.' Correu, por isso, o boato entre os irmãos de que aquele discípulo não morreria. Mas Jesus não lhe disse: 'Não morrerá', mas: 'Que te importa se quero que ele fique assim até que Eu venha?'" Jo 21,22-23
    Essa carnificina perpetrada por Nero, em específico, que durou de 64 até sua morte, em 67, explica, pelo absoluto caos que instalou entre os cristãos, os poucos registros que atestam Roma como a sede da Igreja Una, a Primazia de São Pedro como líder de todos Bispos e cristãos, além dos próprios sacrifícios dele e de São Paulo. Com efeito, como prova de um desmonte quase total do cerne da Igreja Apostólica, o Livro de Atos dos Apóstolos, escrito por São Lucas, simplesmente para no tempo, é uma obra inacabada.
    Eis porque São Clemente, que foi o quarto Papa entre os anos de 88 e 97, vai atestar o 'martírio', que é o sentido original da palavra 'testemunho' ou 'testamento', como original destino de um cristão, a própria inspiração de nossa Santa Missa: "Encontramo-nos na mesma arena e combatemos o mesmo combate. Deixemos as inúteis preocupações e os vãos cuidados e voltemo-nos para a gloriosa e venerável regra de nossa tradição. Consideremos o que é belo, o que é bom e o que é agradável a Nosso Criador."
    Ora, Santo Inácio de Antioquia, terceiro Bispo desta diocese depois de São Pedro e Evódio, e que seria martirizado no ano 100 ou 107 de nossa era, cujas cartas são preciosos registros da História da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, atestou a continuação dessas perseguições ainda a seu tempo: "Agora começo a ser discípulo. Nenhuma visível ou invisível criatura me atrai para si, até que eu esteja em Jesus Cristo. Fogo e cruz, fileiras de feras, lacerações, esquartejamento, ruptura dos ossos, mutilação dos membros, trituração de todo corpo, todos cruéis tormentos do Diabo caiam sobre mim, desde que eu chegue à posse de Jesus Cristo."
    Autêntico mártir, ele não aceitou ser poupado da boca dos leões, e, como Bispo de Roma, deu exemplo àqueles que iriam ser sacrificados no mesmo dia, para que morressem na fé. Assim se despediu: "Adeus! Sejam fortes até o fim no sofrer por Cristo."
    É a partir dos primeiros santos mártires, portanto, que surgem as catacumbas subterrâneas de Roma, muitas delas atribuídas a São Calisto, que eram construídas ao longo dos lados das estradas com objetivo de secretamente, com os devidos cerimoniais, sepultar os cristãos e mais tarde possibilitar as rezas e as Santas Missas junto a seus túmulos, práticas que se perpetraram até as primeiras décadas do século IV, quando o Catolicismo finalmente foi permitido no Império Romano. Algumas dessas catacumbas chegam a ter cinco andares e dezenas de quilômetros. São evidências de um costume judeu, que depositavam os corpos de seus mortos em largos sepulcros escavados em rochas ou encostas, com espaço para entes de toda família. Aliás, como foi o próprio Santo Sepulcro de Nosso Senhor.


    Inversamente, porém, tamanha era a crueldade de Nero, bem como o grande destemor e o exemplo de fé dos católicos ao longo daqueles anos, que terminaram por conquistar a compaixão e a alma da grande maioria dos romanos, que vieram a conhecer o Evangelho e se maravilharam com a resignação e o amor a Deus demonstrados pelos fiéis. Sem dúvida, só Deus e a firme convicção a respeito da Vida Eterna poderiam consolar e animar aquelas almas.
    Por isso, concluiu Tertuliano, historiador e apologista cristãos que viveu entre os anos de 160 e 220: "O sangue dos mártires é a semente dos cristãos."
    E o próprio Jesus havia anunciado esse 'testemunho', que se iniciaria ainda em Israel, no Evangelho Segundo São Mateus: "Cuidai-vos dos homens. Eles levá-vos-ão a seus tribunais e açoitá-vos-ão com varas em suas sinagogas. Sereis por Minha causa levados diante dos governadores e dos reis: servireis assim de testemunho para eles e para os pagãos." Mt 10,17-18
    Eram patentes sacrifícios, como se veem ainda hoje: "Então sereis entregues aos tormentos, matá-vos-ão e sereis por Minha causa objeto de ódio para todas nações." Mt 24,9
    E chegaria ao seio familiar, como flagrantemente se viu no Comunismo: "Sereis entregues até por vossos pais, vossos irmãos, vossos parentes e vossos amigos, e matarão muitos de vós. Por todos sereis odiados por causa do Meu Nome." Lc 21,16-17
    Esse era o 'batismo' que Nosso Salvador havia profetizado aos Apóstolos São Tiago Maior e São João, quando estes Lhe pediram o privilégio de se sentarem a Sua direita e a Sua esquerda em Sua Glória. Está no Evangelho Segundo São Marcos: "Vós bebereis o cálice que Eu devo beber, e sereis batizados no batismo em que Eu devo ser batizado." Mc 10,39
    Toda essa horrenda perseguição dos primeiros séculos, no entanto, sinalizava, como Jesus sentenciou, o rompimento do Cristianismo com o Judaísmo, perante o qual os Apóstolos cumpriram missão tentando reformá-lo, bem como os últimos sacrifícios das pagãs e politeístas religiões de Europa, além de, através dos séculos, os massacres perpetrados pelos muçulmanos: "Expulsá-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que todo aquele que vos tirar a vida julgará prestar culto a Deus. Procederão deste modo porque não conheceram o Pai, nem a Mim." Jo 16,2-3
    Estabelecia-se assim, a modo da própria Paixão de Cristo, por esse batismo e pelo sangue dos primeiros mártires, a gloriosa Igreja Católica Apostólica Romana, pois é edificada pelo próprio Jesus (cf. Mt 16,18), como prova de Sua passagem entre nós e do amor de Deus. Na noite em que ia ser entregue, Ele rezou ao Pai pelos Apóstolos, discípulos e seguidores, bem como por nós (cf. Jo 17,20), na Oração da Unidade: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam Um, como Nós somos Um: Eu neles e Tu em Mim. Para que sejam perfeitos na Unidade, e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,22-23

    Santos Protomártires, rogai por nós!

segunda-feira, 29 de junho de 2026

São Pedro


    São Pedro é o único dos Doze Apóstolos de quem se tem uma história nos Evangelhos. Só de Jesus e de São João Batista têm-se mais completos relatos ou informações. Considerando todo Novo TestamentoSão Paulo, só convocado após a Ressurreição de Cristo, acompanha-o de perto graças a maiores registros do Livro de Atos dos Apóstolos, e seu perfil é fortemente complementado por suas próprias Cartas. No entanto, entre os Doze, aí incluído São Matias, a São Pedro é dado um lugar de incomparável destaque, enquanto os demais apenas recebem circunstanciais citações.
    No Evangelho Segundo São Mateus, o mais judeu e conservador dos Apóstolos, da tribo que trouxera no sangue a tradição de sacerdotes e da indicação do sumo sacerdote, a dos levitas, ao mencionar a lista dos Apóstolos não hesita em declarar que São Pedro era o primeiro: "Eis os nomes dos Doze Apóstolos: o primeiro, Simão, chamado Pedro, depois André, seu irmão. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Filipe e Bartolomeu. Tomé e Mateus, o publicano. Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, que foi o traidor." Mt 10,2-4
    Nosso Santo foi o único Apóstolo a quem Nosso Senhor atribuiu um novo nome, uma tradição iniciada por Deus para com Abrão, a quem deu o nome de Abraão, passou por Jacó, que se tornou Israel, perpetuou-se entre os rabinos e inclui o próprio São Paulo, que antes de se converter se chamava Saulo. E, vale notar, o novo nome de São Pedro, conforme o Evangelho Segundo São João, privilegiada testemunha ocular, foi dado já no primeiro encontro com Jesus, dois dias após o Batismo do Senhor, que lhe disse logo ao ser trazido por Santo André: "Tu és Simão, filho de João. Serás chamado Cefas (que quer dizer pedra)." Jo 1,42
    Além do nome de seu pai, por especial deferência mencionado por Nosso Salvador, sabemos que ele era um fiel cumpridor das Sagradas Escrituras, como vemos em sua declaração sobre a estrita alimentação dos judeus, dada durante a visão que teve em Jope, pouco antes do 'Pentecostes dos Gentios', que não por acaso presidiu. Está no Livro de Atos dos Apóstolos: "De nenhum modo, Senhor, pois jamais comi coisa alguma profana ou impura." At 10,14b
    Ele também era sempre o primeiro do pequeno grupo dos três Apóstolos mais íntimos de Jesus, que compunha com São Tiago Maior e São João Evangelista. Assim, a Segunda Carta de São Pedro faz especial citação à Transfiguração do Senhor vista por estes três, um indizível privilégio, pois antecipadamente Cristo lhes revelava a plenitude de Sua Glória: "Na realidade, não é baseando-nos em hábeis fábulas que nós vos temos feito conhecer o poder e a Vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas por termos visto Sua Majestade com nossos próprios olhos. Porque Ele recebeu de Deus Pai honra e Glória, quando do seio da magnífica Glória Lhe foi dirigida esta voz: 'Este é Meu Amado Filho, em Quem tenho posto todo Meu afeto.' Esta mesma voz, que vinha do Céu, nós ouvimo-la quando com Ele estávamos no Monte Santo." 2 Pd 1,16-18
    Ou seja, no último dia 'útil' da semana em que São Pedro declarou Jesus como o Messias, ele obteve essa confirmação. Já não dependia de milagre, de testemunho ou das Escrituras para o atestar, pois ele mesmo O tinha visto: "Seis dias depois, Jesus tomou Consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e conduziu-os à parte a uma alta montanha. Lá Se transfigurou na presença deles: Seu rosto brilhou como o sol, Suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que apareceram Moisés e Elias, conversando com Ele." Mt 17,1-3
    E mesmo entre os mais próximos, era nosso Santo o interlocutor com Jesus, pois vai dizer: "Pedro tomou então a palavra e disse-lhe: 'Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias.'" Mt 17,4a
    Como parte deste seletíssimo grupo, pois, ele também viu a ressurreição da filha de Jairo. O Evangelho Segundo São Marcos apontou: "Ainda falava, quando chegaram alguns da casa do chefe da sinagoga, dizendo: 'Tua filha morreu. Por que ainda perturbas o Mestre?' Jesus, porém, tendo ouvido a palavra que acabava de ser pronunciada, disse ao chefe da sinagoga: 'Não temas! Crê somente.' E não permitiu que ninguém O acompanhasse, senão Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago." Mc 5,35-37
    De tamanha intimidade com Jesus, dos Apóstolos é São Pedro, e só ele, que vai tentar andar sobre as águas: "Pedro tomou a palavra e falou: 'Senhor, se és Tu, manda-me ir sobre as águas até junto a Ti!' Ele disse-lhe: 'Vem!' Pedro saiu da barca e caminhava sobre as águas ao encontro de Jesus." Mt 14,28-29
    Só a ele Jesus Se associa para pagar o imposto do Templo, pois é a ele, dentre todos Apóstolos, que vão cobrá-lo: "Logo que chegaram a Cafarnaum, aqueles que cobravam o imposto da didracma aproximaram-se de Pedro e perguntaram-lhe: 'Teu Mestre não paga a didracma?' 'Paga sim', respondeu Pedro. Mas quando chegaram à casa, Jesus antecipou-Se-lhe, dizendo: 'Que te parece, Simão? Os reis da Terra, de quem recebem os tributos ou os impostos? De seus filhos ou dos estrangeiros?' Pedro respondeu: 'Dos estrangeiros.' Jesus replicou: 'Os filhos, então, estão isentos. Mas não convém escandalizá-los. Vai ao mar, lança o anzol, e ao primeiro peixe que pegares abrirás a boca e encontrarás um estáter. Toma-o e dá-o por Mim e por ti.'" Mt 17,24b-26
    E enquanto líder natural entre os Doze, é ele que vai advogar pelos Apóstolos quando Jesus perguntou se eles também não gostariam de O abandonar, porque muitos se escandalizaram quando ofereceu Sua Carne e Seu Sangue como alimento da Vida Eterna. E ainda mais forte que a declaração descrita por São Mateus, como veremos, nessa cena o observador e místico São João relata São Pedro chamando Jesus de 'Santo de Deus'! Com efeito, as Escrituras dizem que só Deus é Santo (cf. Ap 15,4): "Então Jesus perguntou aos Doze: 'Vós também quereis retirar-vos?' Respondeu-Lhe Simão Pedro: 'Senhor, a quem iríamos nós? Vós tendes as palavras da Vida Eterna. E nós cremos e sabemos que Vós sois o Santo de Deus!'" Jo 6,67-69
    Aliás, tão clara era sua ciência da santidade de Jesus desde os primeiríssimos dias, que, mais uma vez antes dos Apóstolos e de qualquer um, nosso Santo vai ser o primeiro a lançar mão da Confissão perante Ele, atitude que se tornaria Sacramento. Foi logo em seguida à primeira miraculosa pesca, no Evangelho Segundo São Lucas: "Vendo isso, Simão Pedro caiu aos pés de Jesus e exclamou: 'Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador." Lc 5,8
    Com a mesma desenvoltura de protagonista, sempre muito zeloso de cada detalhe dos ensinamentos de Jesus, interrogou-O, ao d'Ele ouvir a profecia sobre a destruição do Templo de Jerusalém: "E estando sentado no monte das Oliveiras, defronte do Templo, perguntaram-Lhe à parte Pedro, Tiago, João e André: 'Dize-nos, quando hão de suceder essas coisas? E por qual sinal se saberá que tudo isso vai realizar-se?'" Mc 13,3-4
    E ainda enquanto membro do pequeno grupo mais próximo do Mestre, não poderia estar ausente num dos mais difíceis momentos, durante a agonia de Jesus no Monte das Oliveiras, na última noite antes da Crucificação: "Levou Consigo Pedro, Tiago e João, e começou a ter pavor e a Se angustiar. Disse-lhes: 'Minha alma está numa tristeza mortal. Ficai aqui e vigiai.'" Mc 14,33
    Foi exclusivamente dele, aliás, que Jesus cobrou vigília nesta noite: "E foi ter com os discípulos e os encontrou dormindo. E disse a Pedro: 'Então não pudestes vigiar uma hora Comigo?'" Mt 26,40
    Dos Apóstolos, ele é único mencionado pelo anjo que mandou um recado através de Santa Maria Madalena, quando ela foi ao Santo Sepulcro: "Entrando no Sepulcro, viram, sentado do lado direito, um jovem, vestido de brancas vestes, e assustaram-se. Ele falou-lhes: 'Não tenhais medo. Buscais Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ele ressuscitou, já não está aqui. Eis o lugar onde O depositaram. Mas ide, dizei a Seus discípulos e a Pedro que Ele vos precede em Galileia. Lá O vereis, como vos disse.'" Mc 16,5-7
    E na versão de São João Evangelista, que não fala de anjo, também é a ele que Santa Maria Madalena primeiro vai avisar: "Correu e foi dizer a Simão Pedro e ao outro discípulo a quem Jesus amava: 'Tiraram o Senhor do Sepulcro, e não sabemos onde O puseram!'" Jo 20,2
    Ora, nosso Santo formou dupla com este evangelista, já que estavam entre os três mais íntimos de Nosso Senhor, e talvez desde o primeiro envio dois a dois (cf. Mc 6,7). Essa parceira durou muitos anos e foi sacramentada por Cristo mesmo, quando os enviou para preparar a Santa Ceia em Jerusalém: "Raiou o dia dos pães sem fermento, em que se devia imolar a Páscoa. Jesus enviou Pedro e João, dizendo: 'Ide e preparai-nos a ceia da Páscoa.'" Lc 22,7-8
    Não obstante, repara-se uma clara reverência que o Amado Discípulo tinha para com o Príncipe dos Apóstolos, como se viu na manhã do Domingo da Ressurreição do Senhor e foi registrada por ele mesmo, quando vemos que São Pedro também foi o primeiro dos Apóstolos a entrar no Sepulcro vazio: "Então saiu Pedro com aquele outro discípulo, e foram ao Sepulcro. Corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao Sepulcro. Inclinou-se e ali viu os panos no chão, mas não entrou. Chegou Simão Pedro que o seguia, entrou no Sepulcro e viu os panos postos no chão. Também viu o Sudário, que estivera sobre a cabeça de Jesus. Não estava, porém, com os panos, mas enrolado num lugar à parte. Então também entrou o discípulo que havia chegado primeiro ao Sepulcro. Viu e creu." Jo 20,3-8

AS CHAVES DO REINO DOS CÉUS

    Realmente inspirado por Deus Pai, São Pedro foi o primeiro a afirmar com plena convicção Quem Jesus é: "Vós sois o Cristo, o Filho de Deus vivo!" Mt 16,16
    Inspiração, aliás, que o próprio Jesus confirmou, quando São Mateus dá outro nome a seu pai: "Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas Meu Pai que está nos Céus." Mt 16,17
    Como portador de divinas revelações, portanto, São Pedro ouviu de Jesus a declaração de sua Primazia como pedra fundamental da Santa Igreja Católica, que o próprio Cristo constrói e lhe garante a vitória contra o Maligno: "E Eu declaro-te: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei Minha Igreja. As portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18
    Essa liderança e destaque desde sempre foi respeitada pelos demais Apóstolos, como São Mateus atestou acima. Mas, humildemente, a Primeira Carta de São Pedro partilha com todos nós a responsabilidade de ser Igreja Una: "... e quais outras vivas pedras, vós também vos tornais os materiais deste espiritual edifício, um santo sacerdócio..." 1 Pd 2,5
    A Carta de São Paulo aos Efésios, reverente a essa hierarquia, também convidava os fiéis a tomar parte nessa edificação, mas deixava evidente que a Igreja de Deus Vivo tem os Apóstolos como alicerce: "Consequentemente, já não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois concidadãos dos Santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos Apóstolos e profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus." Ef 2,19-20
    É São Pedro, pois, o sábio e fiel administrador a quem Jesus confiou Sua Igreja, o solícito encarregado de distribuir o Pão da Vida ao povo de Deus: "'Estai, pois, preparados, porque, à hora em que não pensais, o Filho do Homem virá.' Disse-Lhe Pedro: 'Senhor, propões esta parábola só a nós ou também a todos?' O Senhor replicou: 'Qual é o sábio e fiel administrador que o Senhor estabelecerá sobre Seus operários, para em oportuno tempo lhes dar a medida de trigo? Feliz daquele servo que o Senhor assim achar procedendo, quando vier! Na Verdade, digo-vos: confiá-lhe-á todos Seus bens.'" Lc 12,40-44
    Porque, desde os tempos de Moisés, Deus havia instituído um sumo sacerdote entre os israelitas, a quem cabia fazer a oferta do sacrifício no altar. Este posto inicialmente coube a Aarão, bisneto de Levi, um dos doze patriarcas, e daí o termo 'levita', cuja tradição foi mantida até a destruição de Jerusalém, no ano 70 de nossa era. É leitura do Livro de Êxodo: "Este será um perpétuo direito devido a Aarão e seus filhos pelos israelitas. Esta é uma reservada oferta, aquela que os israelitas terão de tomar de seus pacíficos sacrifícios, uma reserva que devem ao Senhor. Os sagrados ornamentos de Aarão, depois dele, servirão a seus filhos, que os vestirão quando se lhes der a unção e forem empossados. Aquele que dentre seus filhos for sumo sacerdote em seu lugar, e que penetrar na Tenda de Reunião para o serviço do santuário, levá-los-á durante sete dias." Êx 29,28-30
    E como também prescrito por Deus no Livro de Levítico, a primazia do sumo sacerdote é perfeitamente clara: "O sumo sacerdote, superior a seus irmãos, sobre cuja cabeça se derramou o óleo de unção, e que foi estabelecido para revestir as sagradas vestes, não descobrirá sua cabeça, e não rasgará suas vestes." Lv 21,10
    Porém, irrefletidos alegam que, desde a Nova Aliança, Jesus é Nosso Sumo Sacerdote, ou Pontífice, o que os seguidores da tradição de São Paulo teriam escrito na Carta aos Hebreus: "Portanto, irmãos santos, participantes da vocação que vos destina à herança do Céu, considerai o mensageiro e Sumo Sacerdote da  que professamos, Jesus." Hb 3-1
    Ora, por algumas vezes Jesus disse-Se Profeta (cf. Mc 6,4 e Lc 13,33), e foi dito Anjo (cf. Ml 3,1) e Sacerdote: "... Deus o proclamou Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque." Hb 5,10b
    Mas devemos ter presente que Ele está no Céu, segundo estes mesmo autores: "Temos, portanto, um eminente Sumo Sacerdote que entrou nos Céus, Jesus, Filho de Deus." Hb 4,14a
    E nós precisamos de um sumo sacerdote na Terra, como o próprio Jesus foi, para o bem do Nome de Deus, para a Unidade da Igreja e para a proteção contra Satanás. Com efeito, pouco antes do início de Sua Paixão, na Oração da Unidade Ele 'devolveu' os Apóstolos aos cuidados do Pai: "Manifestei Vosso Nome aos homens que do mundo Me destes. Eram Vossos e deste-los a Mim, e guardaram Vossa Palavra. Pai Santo, guardai-os em Vosso Nome... a fim de que sejam um como Nós. Enquanto Eu estava com eles, Eu guardava-os em Vosso Nome... que Vós os guardeis do Maligno" Jo 17,6.11-12.15b
    Sem dúvida, ainda nos primeiros séculos do cristianismo, a favor da Primazia de São Pedro na Igreja Apostólica testemunharam inspirações da grandeza de São Clemente, Santo Irineu e São Nicolau Magno, além de, pouco mais tarde, excepcionais teólogos como Santo Ambrósio, Santo Atanásio, São João Crisóstomo e Santo Agostinho. Quem seria mais próximo aos fatos, mais estudioso, mais inspirado ou mais Santo que eles, para os contestar?
    E a clara prova de sua vital importância para a Igreja é que Jesus, prevendo as tentações do inimigo aos Apóstolos, e assim a Sua Igreja, optou por reforçar a fé de São Pedro. Ora, como mais próximo Apóstolo, ele não podia falhar: a própria credibilidade do Evangelho estava em suas mãos. Por isso, Nosso Senhor expressamente rezou ao Pai por ele, e diretamente lhe pediu que servisse de fortaleza para os demais Apóstolos, bem como para discípulos e seguidores: 'Simão, Simão, eis que Satanás insistentemente pediu para vos peneirar como o trigo. Mas Eu roguei por ti, para que tua fé não desfaleça. Quando, porém, te converteres, confirma teus irmãos.'" Lc 22,32
    Ademais, São Pedro foi o primeiro Apóstolo a quem Jesus apareceu após ressuscitar. E certamente  tratou de o "converter" como havia dito. Está registrado: "Todos diziam: 'O Senhor verdadeiramente ressuscitou, e apareceu a Simão.'" Lc 24,34
    A Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios também traz essa informação: "... foi sepultado, e ressurgiu ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu a Cefas, e em seguida aos Doze." 1 Cor 15,4-5
    Por Sua Divina Sabedoria, Jesus escolhia-o com perfeição, pois era São Pedro o Apóstolo que mais O amava. É o que vemos quando Ele o inqueriu, mais uma vez e pertinentemente invocando a pessoa de seu pai, como um sinal de juramento: "... 'Simão, filho de João, amas-Me mais que estes?' Ele respondeu-Lhe: "Sim, Senhor, Vós sabeis que Vos amo.'" Jo 21,15


    Assim, pois, ele recebeu a missão de apascentar todo rebanho de Cristo, de cordeiros a ovelhas, ou seja, de fiéis a Sacerdotes: "Apascenta Meus cordeiros... Apascenta Minhas ovelhas." Jo 21,15.17
    Esta cena foi presenciada por ninguém menos que dois estudiosos Apóstolos, São Tomé e São Bartolomeu, além de dois outros, não menos letrados, que faziam parte do grupo mais íntimo do Mestre, ou seja, os filhos de Zebedeu, São Tiago Maior e São João, que por isso tratou de a registrar em seu Evangelho. Tal fato bem explica porque nenhum Apóstolos jamais contestou a liderança do Santo pescador de Galileia: "Depois disso, tornou Jesus a Se manifestar a Seus discípulos junto ao lago de Tiberíades. Manifestou-Se deste modo: Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael, que era de Caná de Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois de Seus discípulos." Jo 21,1-2
    E o poder dado por Jesus a São Pedro aqui na Terra, para decidir a respeito de assuntos de Doutrina e de Comunhão, era total, porque Ele lhe disse ao apontá-lo como pedra fundamental de Sua Igreja: "... tudo que ligares na Terra será ligado nos Céus, e tudo que desligares na Terra será desligado nos Céus." Mt 16,19b
    Não por acaso, ele foi o único Apóstolo a receber de Jesus as Chaves dos Céus, ou seja, a inspiração para nas Escrituras reconhecer as palavras-chaves que indicam a verdadeira vontade de Deus: "Eu dá-te-ei as Chaves do Reino dos Céus..." Mt 16,19a
    Chaves, aliás, que estiveram nas mãos dos doutores da Lei, ainda que não integralmente, pois lhes faltava o Advento do Salvador, que não acolheriam. Mas eles pervertidamente usaram-nas para manter o povo refém de suas consultas, não franqueando a si mesmos nem ao povo de Deus a entrada nos Céus. Jesus acusou-os: "Ai de vós, doutores da Lei, que tomastes a chave da ciência, e vós mesmos não entrastes e impedistes àqueles que vinham para entrar." Lc 11,52
    Mas Chaves não só para as Escrituras, senão também para, nos fatos do dia-a-dia e pelos séculos, perceber a Moção do Espírito Santo. De fato, na noite em que ia ser entregue, Jesus falou aos Apóstolos de "toda a Verdade" e das "coisas que virão": "Quando o Paráclito, o Espírito da Verdade vier, ensiná-vos-á toda a Verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir e anunciá-vos-á as coisas que virão." Jo 16,13
    Ora, o poder dessas chaves já estava prefigurado no Livro do Profeta Isaías, pela promessa que Deus fez a Eliaquim, administrador do rei Ezequias, após a libertação de Jerusalém do domínio assírio: "Porei sobre seus ombros a chave da casa de Davi. Se ele abrir, ninguém fechará, se fechar, ninguém abrirá. Fixá-lo-ei como prego em firme lugar, e ele virá a ser um trono de Glória para a casa de seu pai." Is 22,22
    Prefigura porque, diferente da Igreja Católica Apostólica Romana, tal poder claramente seria temporário: "Porém, um belo dia', diz o Senhor dos Exércitos, 'o prego, fincado em firme lugar cederá, arrancar-se-á e cairá, e toda carga que ele sustentava será feita em pedaços.' Palavra do Senhor." Is 22,25
    A Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios, ademais, vai exaltar esse divino diferencial em comparação ao Antigo Testamento: "Ele (Deus) é que nos fez aptos para sermos Ministros da Nova Aliança, não a da letra, e sim a do Espírito. Porque a letra mata, mas o Espírito vivifica. Ora, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, se revestiu de tal Glória que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos no rosto de Moisés, por causa do resplendor de sua face, embora transitório, quanto mais glorioso não será o Ministério do Espírito?" 2 Cor 3,6-7
    Desde o dia de Pentecostes, portanto, o Espírito de Deus tem permanentemente estado com a Igreja Apostólica, e, lógico, em especial está com São Pedro, assim como com seus sucessores, dando plena vida à Sagrada Tradição, como Jesus prometeu: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele dá-vos-á outro Paráclito, para que eternamente fique convosco. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber porque não O vê nem O conhece. Mas vós conhecê-Lo-eis, porque convosco permanecerá e em vós estará." Jo 14,16-17
    Abrindo caminho para a sucessão apostólica, ademais, e para sua própria como Papa, foi nosso Santo que propôs e liderou a substituição de Judas Iscariotes para recompor o Colégio dos Doze. Para isso, ele inspiradamente evocou as Escrituras: "Num daqueles dias, levantou-se Pedro em meio a seus irmãos, na assembleia reunida que constava de umas cento e vinte pessoas, e disse: 'Irmãos, convinha que se cumprisse o que o Espírito Santo predisse na Escritura pela boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam Jesus. Pois está escrito no Livro de Salmos: 'Fique deserta sua habitação, e não haja quem nela habite'; e ainda mais: 'Que outro receba seu encargo.' (Sl 68,26; 108,8). Convém que destes homens que têm estado em nossa companhia todo tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, a começar do Batismo de João até o dia em que de nosso meio foi arrebatado, um deles se torne conosco testemunha de Sua Ressurreição.'" At 1,15-16.20-22
    E desde então vamos ver São Pedro sempre tomando a palavra, à frente do Colégio dos Apóstolos. É ele quem preside a assembleia quando se deu o Pentecostes, às nove da manhã, momento em Deus Espírito Santo fez nascer a Igreja Católica (cf. At 1,8): "Pedro, então, pondo-se de pé em companhia dos Onze, com forte voz disse-lhes: 'Homens de Judeia e vós todos que habitais em Jerusalém: seja-vos isto conhecido e prestai atenção a minhas palavras. Estes homens não estão embriagados, como vós pensais, visto que esta é apenas a terceira hora do dia. Mas cumpre-se o que foi dito pelo Profeta Joel: Acontecerá nos últimos dias, é Deus Quem fala, que derramarei de Meu Espírito sobre todo ser vivo! Profetizarão vossos filhos e vossas filhas. Vossos jovens terão visões, e vossos anciãos terão sonhos. (Jl 3,1-5)'" At 2,14-17
    É ele quem fala ao coxo de nascença à porta do Templo de Jerusalém, onde sempre se reuniam para rezar, quando realizou um estrondoso milagre que inflamou o povo da cidade: "Pedro, porém, disse: 'Não tenho nem ouro nem prata, mas o que tenho eu dou-te: em Nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda!' E tomando-o pela mão direita, levantou-o. Imediatamente, os pés e os tornozelos firmaram-se-lhe. De um salto pôs-se de pé, e andava. Todo povo viu-o andar e louvar a Deus. Reconheceram ser o mesmo coxo que se sentava para mendigar à porta Formosa do Templo, e encheram-se de espanto e pasmo pelo que lhe tinha acontecido." At 3,6-7.9-10
    É ele quem responde com autoridade ao sinédrio, o conselho dos judeus de Jerusalém, quando justificou o milagre do paralítico: "Então Pedro, cheio do Espírito Santo, respondeu-lhes: 'Chefes do povo e anciãos, ouvi-me: se hoje somos interrogados a respeito do benefício feito a um enfermo, e em que Nome foi ele curado, ficai sabendo todos vós e todo povo de Israel: foi em Nome de Jesus Cristo Nazareno, que vós crucificastes, mas que Deus ressuscitou dos mortos. Por Ele é que esse homem se acha são, em pé, diante de vós.'" At 4,8-10
    O mesmo aconteceu quando questionaram as ordens que deles receberam, em inspirado testemunho: "Responderam-lhes Pedro e João: 'Julgai-o vós mesmos, se diante de Deus é justo obedecermos a vós mais que a Deus. Não podemos deixar de falar das coisas que temos visto e ouvido.'" At 4,19-20
    E após serem capturados no Templo, enquanto anunciavam o Cristo, de novo ele contesta os superiores dos judeus, anuncia o Sacramento da Confissão e diz como se pode receber o Santo Paráclito: "Pedro e os Apóstolos replicaram: 'Importa obedecer antes a Deus que aos homens. O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, que vós matastes, suspendendo-O num madeiro. Deus elevou-O pela mão direita como Príncipe e Salvador, a fim de dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados. Destes fatos, nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem.'" At 5,29-32
    É ele quem, sempre notoriamente à frente dos Apóstolos, defende os bens da Santa Madre Igreja quando os cristãos já possuíam tudo em comum, e mais essa ocasião revela-se em perfeita Comunhão com o Divino Espírito: "Então Pedro disse: 'Ananias, por que Satanás tomou conta de teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo e enganasses acerca do valor do campo? Acaso não o podias conservar sem o vender? E depois de vendido, não podias livremente dispor dessa quantia? Por que imaginaste isso em teu coração? Não foi aos homens que mentiste, mas a Deus.'" At 5,3-4
    E é ele quem o Espírito Santo instrui para a conversão do primeiro grupo de não judeus, o 'Pentecostes dos Gentios' que citamos: "Enquanto Pedro refletia sobre a visão, disse-lhe o Espírito: 'Eis aí três homens que te procuram. Levanta-te! Desce e vai com eles sem hesitar, porque sou Eu Quem os enviou.'" At 10,19-20
    Pois durante sua pregação, o Divino Paráclito derramou-Se sobre o centurião Cornélio, sua família e amigos, e a Igreja confirmou-se como 'Católica', que em grego significa 'Universal': "Ainda estando Pedro a falar, o Espírito Santo desceu sobre todos que ouviam a Palavra. Os fiéis da circuncisão, que tinham vindo com Pedro, profundamente se admiraram, vendo que o dom do Espírito Santo também era derramado sobre os não judeus. Então Pedro tomou a palavra: 'Porventura pode-se negar a Água do Batismo a estes que receberam o Espírito Santo como nós?' E mandou que fossem batizados em Nome de Jesus Cristo." At 10,44-45.47-48


UNGIDO COM PODER

    Como sabemos, os Apóstolos foram ungidos com poder: "Jesus reuniu Seus Doze discípulos. Conferiu-lhes poder de expulsar os espíritos imundos, e de curar todo mal e toda enfermidade." Mt 10,1
    E pouco antes de Sua Ascensão, Ele prometeu outros dons: "... falarão novas línguas, manusearão serpentes, e se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal." Mc 16,17b
    Mas o caso de São Pedro realmente ia além: vivendo em verdadeira santidade, bastava sua sombra para curar enfermos: "Cada vez mais aumentava a multidão dos homens e mulheres que acreditavam no Senhor. De maneira que traziam os doentes para as ruas e os punham em leitos e macas, a fim de que, quando Pedro passasse, ao menos sua sombra cobrisse alguns deles. Das cidades vizinhas de Jerusalém também afluía muita gente, trazendo os enfermos e os atormentados por imundos espíritos, e todos eles eram curados." At 5,14-16
    Ele tinha plena consciência da missionária função da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, e por isso deixou a comunidade de Jerusalém aos cuidados de São Tiago Menor, partindo com seu grande companheiro para ministrar o Sacramento da Crisma aos primeiros cristãos em Samaria. Era o 'Pentecostes dos Samaritanos', e assim vemos que nosso Santo esteve presidindo os 'três': "Os Apóstolos que se achavam em Jerusalém, tendo ouvido que a Samaria recebera a Palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João. Estes, assim que chegaram, fizeram oração pelos novos fiéis, a fim de receberem o Espírito Santo, visto que não havia descido ainda sobre nenhum deles, mas somente tinham sido batizados em Nome do Senhor Jesus. Então os dois Apóstolos lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito Santo." At 8,14-17
    E foi aonde pôde, principalmente em Judeia,  para levar a Igreja Viva: "A Igreja gozava então de Paz por toda Judeia, Galileia e Samaria. Estabelecia-se ela caminhando no temor ao Senhor, e a assistência do Espírito Santo fazia-a crescer em número. Pedro, que caminhava por toda parte, de cidade em cidade, também desceu aos fiéis que habitavam em Lida." At 9,31-32
    Nesta cidade ele curou Eneias, que também estava paralítico: "Ali achou um homem chamado Eneias, que havia oito anos jazia paralítico num leito. Disse-lhe Pedro: 'Eneias, Jesus Cristo te cura! Levanta-te e faze tua cama.' E imediatamente se levantou. Viram-no todos que habitavam em Lida e em Sarona, e converteram-se ao Senhor." At 9,33-35
    E por grande Graça operou uma ressurreição. Foi Tabita, também chamada de Dorcas, uma caridosa cristã: "Ora, como Lida fica perto de Jope, os discípulos, ouvindo dizer que Pedro aí se encontrava, enviaram-lhe dois homens, rogando-lhe: 'Não te demores em vir ter conosco.' Pedro atendeu e foi com eles. Logo que chegou, conduziram-no ao quarto de cima. Cercavam-no todas viúvas, chorando e mostrando-lhe as túnicas e os vestidos que Dorcas lhes fazia enquanto viva. Pedro, então tendo feito todos sair, pôs-se de joelhos e rezou. Voltando-se para o corpo, disse: 'Tabita, levanta-te!' Ela abriu os olhos e, vendo Pedro, sentou-se. Ele fê-la levantar-se, estendendo-lhe a mão. Chamando os irmãos e as viúvas, entregou-lha viva. Este fato espalhou-se por toda Jope, e muitos creram no Senhor." At 9,38-42
    Ele também esteve em Antioquia quando de sua primeira viagem a Roma, pois junto a esta capital e a Alexandria eram as maiores cidades do Império, embora aí tenha pregado apenas aos judeus. Isso ocorreu tempos depois da primeira dispersão dos cristãos, que massivamente tiveram que partir de Jerusalém: "Entretanto, aqueles que foram dispersados pela perseguição que houve no tempo de Estêvão chegaram até a Fenícia, Chipre e Antioquia, pregando a Palavra só aos judeus." At 11,19
    E em Roma ficou até a expulsão pelo imperador Cláudio no ano de 49, fato registrado pelo Amado Médico: "Depois disso, saindo de Atenas, Paulo dirigiu-se a Corinto. Ali encontrou um judeu chamado Áquila, natural do Ponto, e sua mulher Priscila. Pouco antes, eles haviam chegado de Itália, por Cláudio ter decretado que todos judeus saíssem de Roma." At 18,1-2a
    Ainda a caminho de Roma, também se deteve por bom tempo em Corinto, outra importante cidade, e fez muitos fiéis bem antes de São Paulo, que registrou a preferência de alguns por seu carisma: "Pois acerca de vós, irmãos meus, fui informado pelos que são da casa de Cloé, que há contendas entre vós. Refiro-me ao fato de que entre vós se usa esta linguagem: 'Eu sou discípulo de Paulo. Eu, de Apolo. Eu, de Cefas. Eu, de Cristo.'" 1 Cor 1,11-12
    Não é justa, portanto, a rudeza que se atribui a sua pessoa, como se assim fossem todos pescadores apenas por força do trabalho. A inspiração de São Pedro, como atestou o próprio Jesus, era absolutamente divina. E sua santidade, já como líder da Igreja, era amplamente reconhecida. Suas reflexões e mística, por tudo que viu e ouviu do Cristo, alçaram os mais altos voos, coisas de sábio e grande Santo. Ora, ele foi o escolhido por Jesus! E, como visto, aclamado pelos cristãos. Não deve restar dúvida!
    Em outra Carta, temos um registro do que seria o caminho ascético por ele descoberto, cujos graus de espiritualidade, de cada dom, são mesmo imprescindíveis. Ele exorta: "Por estes motivos, esforçai-vos quanto possível por unir a vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o fraterno amor, e ao fraterno amor a caridade. Se estas virtudes abundantemente se acharem em vós, não vos deixarão inativos nem infrutuosos no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque quem não tiver estas coisas é míope, cego: esqueceu-se da purificação de seus antigos pecados." 2 Pd 1,5-9
    Ora, a Carta de São Paulo aos Gálatas respeitosamente cita-o pelo nome de ofício, Pedro em grego, como ele era chamado na Igreja, o nome que o próprio Jesus lhe atribuiu: "Tiago, Cefas e João, que são considerados as colunas..." Gl 2,9
    Após sua conversão, aliás, logo que pôde São Paulo fez questão de ir conhecer e estar com São Pedro. Para tanto, expôs-se a risco de morte indo à Cidade Santa, pois era procurado pelos judeus: "Três anos depois subi a Jerusalém para conhecer Cefas, e com ele fiquei quinze dias." Gl 1,18
    Buscou-o outra vez para tirar dúvidas sobre a Sã Doutrina, fato que também confirma que a Igreja sempre teve uma sede: inicialmente a própria Cidade Santa, até sua destruição, depois Roma: "Catorze anos mais tarde, subi outra vez a Jerusalém com Barnabé, comigo também levando Tito. E subi em conseqüência de uma revelação. Expus-lhes o Evangelho que prego entre os pagãos, e isso particularmente aos que eram de maior consideração, a fim de não correr ou de não ter corrido em vão." Gl 2,1-2
    E enxergando um 'Ministério' entre os cristãos advindos do paganismo, abertamente reconhecia a São Pedro a chefia sobre os demais Apóstolos: "Ao contrário, viram que a evangelização dos incircuncisos me era confiada, como a dos circuncisos a Pedro, porque Aquele Cuja ação fez de Pedro o Apóstolo dos circuncisos, também fez de mim o dos pagãos." Gl 2,7-8
    Ele buscou seu apoio em Jerusalém, confiante que era em sua inspiração, para dirimir a primeira grande controvérsia doutrinária da Igreja: a questão da circuncisão, levantada em Antioquia. Fato que mais uma vez revela que a Santa Igreja sempre teve um centro de decisões: "Alguns homens, descendo de Judeia, puseram-se a ensinar aos irmãos o seguinte: 'Se não vos circuncidais, segundo o rito de Moisés, não podeis ser salvos.' Originou-se, então, grande discussão de Paulo e Barnabé com eles, e resolveu-se que estes dois, com alguns outros irmãos, fossem tratar desta questão com os Apóstolos e os anciãos em Jerusalém." At 15,1-2
    São Pedro, que já havia batizado não judeus, como vimos, de fato não o desapontou, e seu luminoso voto decidiu o Primeiro Concílio da Igreja. Nesta fala, na qual não se vê nenhuma rudeza, ele diz de sua vida missionária até 'os confins do mundo', como Jesus pediu (cf. At 1,8), e de seu protagonismo como 'escolhido por Deus' dentre os Apóstolos para abrir a Igreja aos não judeus, segmento que Paulo 'assumiria': "Ao fim de uma grande discussão, Pedro levantou-se e disse-lhes: 'Irmãos, vós sabeis que já há muito tempo Deus me escolheu dentre vós, para que de minha boca os pagãos ouvissem a Palavra do Evangelho e cressem. Ora, Deus, que conhece os corações, testemunhou a seu respeito, dando-lhes o Espírito Santo da mesma forma que a nós. Nem fez distinção alguma entre nós e eles, pela fé purificando seus corações. Por que, então, agora provocais a Deus, impondo aos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós pudemos suportar? Nós cremos que pela Graça do Senhor Jesus seremos salvos, exatamente como eles.' Toda assembleia silenciosamente o ouviu." At 15,7-12
    Em seguida, São Tiago Menor, que já era o Bispo de Jerusalém pois nosso Santo 'caminhava por toda parte' (cf. At 9,32), vai corroborar seu voto: "Depois de terminarem, Tiago tomou a palavra: 'Irmãos, ouvi-me', disse ele. 'Simão narrou como Deus começou a olhar para as pagãs nações, para delas tirar um povo que trouxesse Seu Nome." At 15,13-14
    E ao decidirem escrever uma carta ao antioquenos, São Tiago Menor menciona o Espírito Santo como inspirador de São Pedro e da Igreja: "Com efeito, bem pareceu ao Espírito Santo e a nós não vos impor outro peso além do indispensável seguinte..." At 15,28
    Pouco depois, ele retornou em segunda viagem a Roma, e de passagem por Antioquia vai ouvir uma reclamação de São Paulo, que o acusou de dissimulação por comer com pagãos, mas abandoná-los com a chegada de cristãos advindos do judaísmo (cf. Gl 2,11). O impulsivo São Paulo queria mais uma grande mudança, que o prudente São Pedro preferia esperar, em vista do recente embate sobre a circuncisão. Mas depois, sob perseguição dos judeus quando voltou a Jerusalém, São Paulo mesmo vai dissimular não ser contra a própria circuncisão, uma questão bem menos importnate que a alimentação dos cristãos, e por sugestão de São Tiago Menor: "Eles têm ouvido dizer de ti que ensinas os judeus, que vivem entre os gentios, a deixarem Moisés, dizendo que não devem circuncidar seus filhos nem observar os costumes mosaicos. Temos aqui quatro homens que têm um voto. Toma-os contigo, faze com eles os ritos da purificação e paga por eles a obrigatória oferta, para que rapem a cabeça. Então Paulo acompanhou aqueles homens no dia seguinte..." At 21,21.23b-24a.26
    E chegando a Roma, São Pedro vai ratificar a fundação do mais importante bispado, que se tornaria a Sede da Igreja. Ele cita-o em sua carta: "A igreja escolhida de Babilônia saúda-vos, como também Marcos, meu filho." 1 Pd 5,13
    De lá preparou a Igreja Apostólica Romana para seguir através dos tempos, sempre contando com a instrução do próprio Jesus, que lhe aparecia. Ele registrou em carta a revelação de seu martírio: "Portanto, irmãos, cada vez mais cuidai em assegurar vossa vocação e eleição. Procedendo deste modo, jamais tropeçareis. Assim vos será largamente aberta a entrada no Reino Eterno de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Eis porque não cessarei de vos trazer à memória essas coisas, embora estejais instruídos e confirmados na presente Verdade. Tenho por meu dever, enquanto estiver neste tabernáculo, manter-vos vigilantes com minhas admoestações. Porque sei que em breve terei que o deixar, como Nosso Senhor Jesus Cristo me fez conhecer. Mas cuidarei para que, ainda depois de meu falecimento, possais sempre conservar a lembrança dessas coisas." 2 Pd 1,10-15
    Igreja que é sua barca, a nova Arca de Noé, escolhida pelo próprio Jesus para a Salvação das almas: "Estando Jesus um dia à margem do lago de Genesaré, o povo comprimia-se em redor d'Ele para ouvir a Palavra de Deus. Vendo duas barcas estacionadas à beira do lago, pois os pescadores haviam descido delas para consertar as redes, subiu a uma das barcas, que era a de Simão, e pediu-lhe que a afastasse um pouco da terra. E sentado, ensinava da barca o povo." Lc 5,1-3
    Barca cuja rede, apesar da tempestade, do revolto mar e da grande quantidade de almas, não se arrebenta, como na segunda miraculosa pesca, dada após a Ressurreição do Senhor: "Subiu Simão Pedro e puxou a rede para a terra, cheia de cento e cinqüenta e três peixes grandes. Apesar de serem tantos, a rede não se rompeu." Jo 21,11

UM FIEL PESCADOR DE ALMAS

    Nosso Santo exercia o ofício de pescador, como São Marcos relata o reencontro após as tentações que o Senhor passou no deserto, onde mais uma vez ele é o primeiro a ser chamado pelo Mestre, antes da convocação dos Doze: "E, passando à beira do Mar de Galileia, Jesus viu Simão e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores." Mc 1,16
    Como seu irmão, ele era de Betsaida, povoado no norte de Israel, também próximo à margem do Mar de Galileia, cujo nome significa 'casa da pesca': "Filipe era natural de Betsaida, cidade de André e Pedro." Jo 1,44
    Em Cafarnaum, cidade vizinha e mais próxima ao Mar de Galileia, fazia parte de uma cooperativa de pesca com Zebedeu e seus filhos: "Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão..." Lc 5,10a
    São Lucas até havia usado um termo mais apropriado, referindo-se a estes irmãos e a mais alguns pescadores: "Acenaram aos sócios, que estavam na outra barca, para que viessem ajudar." Lc 5,7a
    E desde a primeira pesca miraculosa, quando nosso Santo se confessou diante de Nosso Senhor, Ele fez dele, perante os religiosos São Tiago Maior e São João, e igualmente Santo André, um pescador de almas: "Então Jesus disse a Simão: 'Não temas! De hoje em diante, tu serás pescador de homens.'" Lc 5,10b
    Aliás, nesta ocasião ele passou a ser o único a receber chamado para ser pescador de homens por uma segunda vez, pois Nosso Senhor já o havia convidado, junto ao irmão, logo que retornou a Galileia depois das tentações: "Passando ao longo do Mar de Galileia, viu Simão e André, seu irmão, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Jesus disse-lhes: 'Vinde após Mim. Eu fá-vos-ei pescadores de homens.' Eles, no mesmo instante, deixaram as redes e seguiram-nO." Mc 1,16-19
    Depois de contrair Matrimônio, porém, São Pedro tinha deixado Betsaida e ido morar em Cafarnaum, assumindo o dote e levando consigo seu irmão. Não se tem registro, contudo, de sua esposa ou de possíveis filhos após começar a seguir Jesus, apenas de sua sogra, mas a casa que Nosso Senhor vai escolher para ficar nessa cidade é a de São Pedro: "Dirigiram-se para Cafarnaum. Assim que saíram da sinagoga, dirigiram-se com Tiago e João à casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama, com febre, e sem tardar Lhe falaram a respeito dela. Aproximando-Se Jesus, tomou-a pela mão e levantou-a. Imediatamente a febre deixou-a, e ela pôs-se a servi-Los." Mc 1,21a.29-31
    Aliás, depois que deixou Nazaré para morar em Cafarnaum (cf. Mt 4,13), o povo mesmo dizia que a casa de São Pedro era Sua casa: "Alguns dias depois, Jesus novamente entrou em Cafarnaum e souberam que Ele estava em casa." Mc 2,1
    São Paulo relata que uma mulher acompanhava São Pedro em suas missões, embora não se saiba se se tratava de sua esposa, de uma filha ou simplesmente de uma mera ajudante, como tantas que seguiram Jesus. De fato, o Apóstolo dos Gentios, que era celibatário (1 Cor 7,7) e absolutamente não estava reclamando direito de se casar, argumentava tão somente sobre custos das comunidades que recebiam missões: "Acaso não temos nós direito de deixar que nos acompanhe uma mulher cristã, a exemplo dos outros Apóstolos, dos irmãos do Senhor e de Cefas?" 1 Cor 9,5
    Pode ter sido apenas uma ajudante, pois logo após Jesus desafiar o rico jovem a deixar tudo para O seguir, nosso Santo, sempre falando em nome dos Apóstolos, vai alegar: "Pedro começou a Lhe dizer: 'Eis que deixamos tudo e Te seguimos.'" Mc 10,28
    Segundo São Lucas, esta demonstração de fidelidade deu-se logo após a primeira miraculosa pesca: "E atracando as barcas à terra, deixaram tudo e seguiram-nO." Lc 5,11
    Ou, ainda que fosse sua esposa, com ela manteria apenas uma relação de irmãos, como São Paulo recomendava: "O que importa é que aqueles que têm mulher vivam como se a não tivessem..." 1 Cor 7,29b
    Exatamente como nosso Santo dava testemunho de si e dos Apóstolos, e Nosso Senhor garantia: "Pedro então disse: 'Vê, nós tudo abandonamos e seguimo-Te.' Jesus respondeu: 'Na Verdade, declaro-vos: ninguém há que tenha abandonado, por amor do Reino de Deus, sua casa, sua mulher, seus irmãos, seus pais ou seus filhos, que não receba muito mais neste mundo e a Vida Eterna no vindouro." Lc 18,28-30
    Porque é simplesmente impossível que o Príncipe dos Apóstolos não tenha prestado atenção numa das mais importantes recomendações de vida espiritual dada por Jesus. De fato, ao desaprovar a carta de divórcio tolerada por Moisés, e reafirmar a indissolubilidade do Sacramento do Matrimônio, Nosso Salvador vai exaltar o celibato entre aqueles que se dedicam às coisas de Deus: "Seus discípulos disseram-Lhe: 'Se tal é a condição do homem a respeito da mulher, é melhor não se casar!' Respondeu Ele: 'Nem todos são capazes de compreender o sentido desta Palavra, mas somente aqueles a quem foi dado. Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda.'" Mt 19,10-12
    Por fim, muito se fala de que ele tenha negado Jesus, afetadamente até usam dizer que ele 'O traiu', mas quase não se observa as circunstâncias em que tudo se deu, nem a real motivação com que agia. Com efeito, se O negou com palavras, com atitudes expressava exatamente o contrário: todo seu incondicional amor pelo Mestre. Que dizer de sua coragem para entrar no pátio da casa sumo sacerdote naquela fatídica noite? E ele havia recém-decepado a orelha de um de seus guardas! Em sua estratégia, portanto, não O teria negado, mas apenas usava de dissimulação para se aproximar do Palácio e assim acompanhar o que se passava com Jesus.
    E ainda maior é a desinformação, ou a malícia, daqueles que o acusam de covardia, pois, com a mesma prontidão com que prometia seguir Jesus até a morte, ele reagiu logo que Judas Iscariotes se aproximou com os guardas no Horto das Oliveiras para prender Nosso senhor, e só se deteve porque Ele assim o ordenou: "Simão Pedro, que tinha uma espada, puxou dela e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco. Mas Jesus disse a Pedro: 'Enfia tua espada na bainha! Não hei de beber Eu o cálice que o Pai Me deu?'" Jo 18,10-11
    Aliás, instantes antes, o próprio Jesus já havia pedido aos guardas que O prendiam para que dispensassem os Apóstolos: "'Se é, pois, a Mim que buscais, deixai ir estes.' Assim se cumpriu a Palavra que Ele mesmo havia dito: 'Daqueles que Me deste, não perdi nenhum' (Jo 17,12)." Jo 18,8b-9
    Mais: fora São João Evangelista, que sabidamente não corria nenhum perigo, provavelmente por seu pai São Zebedeu ser sacerdote, São Pedro foi o único Apóstolo a acompanhar de perto o pré-julgamento de Jesus feito por membros do sinédrio, quando o galo cantou três vezes: "Simão Pedro seguia Jesus, e mais outro discípulo. Este discípulo era conhecido do sumo sacerdote e entrou com Jesus no pátio da casa do sumo sacerdote, porém Pedro ficou de fora, à porta. Mas o outro discípulo, que era conhecido do sumo sacerdote, saiu e falou à porteira, e esta deixou Pedro entrar." Jo 18,15-16
    São Mateus assim explicou porque ele usava desta estratégia: "Entrou e sentou-se junto aos criados, para ver como terminaria aquilo." Mt 26,58b
    E São Lucas, bem como São Marcos (Mc 14,54), não deixou de anotar a coragem de nosso Apóstolo: "Pedro seguia-O de longe." Lc 22,54
    Mas tão ligado era ele à figura do Mestre, como talvez não suspeitasse, que facilmente foi reconhecido! E por simples gente do povo: a própria porteira do pátio: "A porteira perguntou a Pedro: 'Também não és acaso tu dos discípulos desse Homem?'" Jo 18,17a
    E uma criada: "Acenderam um fogo no meio do pátio, e sentaram-se em redor. Pedro veio sentar-se com eles. Uma criada percebeu-o sentado junto ao fogo, encarou-o de perto e disse: 'Este homem também estava com Ele.'" Lc 22,55-56 
    Quanto a sua promessa de seguir Jesus até a morte, que tantos usam para o acusar, deve-se observar que ele não foi o único a se comprometer. Está escrito: "Mas Pedro repetia com maior ardor: 'Ainda que seja preciso morrer Convosco, não Vos renegarei.' E todos disseram o mesmo." Mc 14,31
    Tal registro não foi feito apenas por São Marcos. São Mateus confirmou: “E todos os outros discípulos diziam-Lhe o mesmo." Mt 26,36
    Ora, por que São Tomé, especificamente, não é acusado da mesma covardia? São João diz que ele já havia feito tal promessa quando Nosso Senhor resolveu voltar a Judeia para ressuscitar São Lázaro: "A isso Tomé, chamado Dídimo, disse a seus condiscípulos: 'Também vamos nós, para com Ele morrermos.'" Jo 11,16
    Ademais, Jesus bem sabia que seria 'abandonado', e não apenas por São Pedro, mas por todos Apóstolos. Assim eram planos de Deus quando Se pronunciou no Livro do Profeta Zacarias, embora nosso Santo relutasse: "Disse-lhes então Jesus: 'Esta noite serei para todos vós uma ocasião de queda. Porque está escrito: Ferirei o Pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersadas (Zc 13,7). Mas, depois de Minha Ressurreição, Eu precedê-vos-ei em Galileia.' Pedro interveio: 'Mesmo que sejas para todos uma ocasião de queda, para mim jamais o serás.'" Mt 26,31-33
    O Evangelho Segundo São Marcos, em conclusão, pode ser considerado o Evangelho Segundo São Pedro, como Santo Irineu afirmou, pois em grande parte se compõe de seus relatos. A extrema simplicidade e objetividade do texto são tocantes retratos da pureza da alma do pescador de Galileia, que muito influenciou São Marcos. Muito mais que o próprio São Paulo, um brilhante intelectual que a quem muito serviu. E se São Marcos não atribuiu a São Pedro nenhum especial destaque, além do que é patente, foi justamente porque ele nunca o suscitou entre as longas conversas que teve consigo e com São Silvano, nem o permitiria.
    E certamente por clara instrução sua, também é neste Evangelho, que serviu de base para o de São Mateus, de São Lucas e até de São João, que temos a cena em que Jesus o chamou de 'Satanás', logo após sua inspirada declaração de que Ele era o Messias. De fato, nosso Santo ingenuamente refutou o primeiro anúncio que Nosso senhor fez de Sua Paixão: "Então Pedro tomou Jesus à parte e começou a O recriminar. Ele, porém, voltou-Se, olhou para os discípulos e repreendeu a Pedro, dizendo: 'Afasta-te de Mim, Satanás! Tu não pensas as coisas de Deus, e sim as dos homens.'" Mc 8,32b-33
    Aliás, nenhuma maior dureza ou novidade, pois exatamente isso havia sido pedido por nosso próprio Santo por ocasião da primeira miraculosa pesca, como visto: "Vendo isso, Simão Pedro caiu aos pés de Jesus e exclamou: 'Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador." Lc 5,8
    Ademais, assim como Jesus, São Pedro morreu de forma brutal. A Sagrada Tradição conta que, ao saber que ia ser crucificado, em sua sincera humildade não se permitiu morrer como Jesus. Simplesmente não se achava digno. Pediu que o crucificassem de cabeça para baixo! E tão sangrenta foi a perseguição iniciada por Nero nestes tempos, e tão desnorteada ficou toda a comunidade cristã pelo amor que tinha ao Príncipe dos Apóstolos, que nenhum registro escrito foi feito logo após seu martírio. É um vácuo, um gritante silêncio da História! O próprio São Lucas bruscamente para seus relatos nos Atos dos Apóstolos, sem adicionar nenhuma linha sobre esse fato. Estariam esperando, já então, o fim dos tempos?
    Mas não é necessário recorrer a Sagrada Tradição para ter certeza desses acontecimentos. Basta lembrar que sua crucificação foi predita pelo próprio Jesus, após Sua Paixão, quando recebe mais uma distinção entre os Apóstolos: foi o único chamado a O seguir por uma segunda vez. E significativamente após Sua Ressurreição: "'Na Verdade, na Verdade, digo-te: quando eras mais moço, cingias-te e andavas aonde querias. Mas quando fores velho, estenderás tuas mãos, e outro cingi-te-á e levá-te-á aonde não queres.' Por estas palavras, Ele indicava o gênero de morte com que havia de glorificar a Deus. E depois de assim ter falado, acrescentou: 'Segue-Me!'" Jo 21,18-19
    Aliás, foi o único a ser chamado ainda mais uma vez, a terceira, pois ao ouvir isso tentou saber do destino de São João Evangelista, seu inseparável companheiro: "Respondeu-lhe Jesus: 'Que te importa se Eu quero que ele fique até que Eu venha? Segue-Me tu'." Jo 21,22
    E sobre seu martírio, São Pedro bem sabia do que Jesus estava falando. Eles já haviam conversado sobre isso na noite da Santa Ceia: "Perguntou-Lhe Simão Pedro: 'Senhor, para onde vais?' Jesus respondeu-lhe: 'Para onde vou agora, não podes seguir-Me. Mas, mais tarde, seguir-Me-ás.' Jo 13,36
    Inclusive foi informado, e também pelo próprio Jesus, como visto, da proximidade de sua hora. Ele registrou em sua carta esta revelação particular: "Porque sei que em breve terei que o deixar, como Nosso Senhor Jesus Cristo me fez conhecer." 2 Pd 1,14


    Tão amado era nosso Santo, e já desde Jerusalém, que foram preservadas as correntes com que o prenderam por ordem de Herodes. Claro, o fato de ter sido miraculosamente libertado por seu Anjo da Guarda estarreceu a guarda romana na Cidade Santa, o que muito concorreu para que elas fossem veneradas como relíquias. E assim para elas foi erguida um Basílica em Roma, que tem o nome de São Pedro Ad Vincula (acorrentado).
    Este episódio, em si, é bastante conhecido: "Ora, quando Herodes estava para o apresentar, naquela mesma noite dormia Pedro entre dois soldados, ligado com duas cadeias. Os guardas, à porta, vigiavam o cárcere. De repente, apresentou-se um anjo do Senhor e uma luz brilhou no recinto. Tocando no lado de Pedro, o anjo despertou-o: 'Levanta-te depressa', disse ele. Caíram-lhe as cadeias das mãos. O anjo ordenou: 'Cinge-te e calça tuas sandálias. Ele assim fez. O anjo acrescentou: 'Cobre-te com tua capa e segue-me.' Pedro saiu e seguiu-o, sem saber se era real o que se fazia por meio do anjo. Julgava estar sonhando. Passaram o primeiro e o segundo postos da guarda. Chegaram ao portão de ferro, que dá para a cidade, o qual se lhes abriu por si mesmo. Saíram e tomaram juntos uma rua. Em seguida, de súbito, o anjo desapareceu. Então Pedro tornou a si e disse: 'Agora vejo que o Senhor verdadeiramente mandou Seu anjo, e me livrou da mão de Herodes e de tudo que esperava o povo dos judeus.'" At 12,6-11
    E pela punição dada aos guardas, como se fazia em caso de fuga do prisioneiro, sabemos qual a sentença que Herodes reservava para São Pedro, pois já havia mandado matar São Tiago Maior: "Logo que amanheceu, houve um pouco comum sobressalto entre os soldados a respeito do que acontecera a Pedro. Herodes, procurando-o e não o achando, instaurou um processo contra os guardas e mandou executá-los." At 12,18-19


    O dia de São Pedro faz desta data o dia do Papa. É o Padroeiro dos pescadores, de Roma e dos Papas.
    Na rádio-mensagem de Natal de 1950, após minuciosos exames científicos, o venerável Papa Pio XII anunciou a confirmação de que o túmulo de São Pedro, assim como alguns de seus ossos, realmente estão sob o Altar da Basílica de São Pedro, diante de sua Cátedra. De fato, entre outros antiquíssimos escritos na lápide, claramente consta: "Pedro está aqui."


    São Pedro, rogai por nós!