quinta-feira, 17 de maio de 2018

A Moralidade das Paixões


    A palavra 'paixão' é do vocabulário cristão, e significa forte emoção ou sensibilidade. É uma das mais importantes funções da psique humana. Em muitos casos, independente da real necessidade, é ela que nos leva a agir ou omitir-nos. E é objeto da paixão que vai determinar se ela é boa ou má, porque, como elo entre a vida sensível e a vida espiritual, seus impulsos necessariamente passam pelo crivo da consciência moral, da nossa formação social, e é aí, movida pela intenção, que ela se inclina para o bem ou para o mal. Nestes termos, pois, entende-se o Amor de Salvação, em seu ápice representado pela Paixão de Cristo: "Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara Sua hora de passar deste mundo ao Pai, como amasse os Seus que estavam no mundo, até o extremo os amou." Jo 13,1
    Ou o próprio amor do Pai que O levou à Cruz, nas palavras do próprio Jesus: "Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo que lhe deu Seu único Filho, para que todo aquele que n'Ele crer não pereça, mas tenha a Vida Eterna. Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que por Ele o mundo seja salvo." Jo 3,16-17
    As paixões são muitas. Com seus correspondentes opostos, as principais são amoródio, desejo e medo, e alegria e tristeza. Tomando à parte o amor, por ser natural fundamento de toda vida, vê-se mais propriamente que ele é a própria atração pelo bem. Diz-se aqui do bem como valor absoluto. De fato, quem poderia relativizar a importância da Paz, da justiça, do alimento, do companheirismo ou do bem-estar? O bem que atrai e provoca o amor, portanto, é o bem absoluto, que, embora possa ser representado pelos mais belos bens materiais e espirituais criados por Deus, é melhor compreendido como Ele próprio, por Suas Pessoas.
    O amor, quando conhecido, causa o desejo do bem e a esperança de alcançá-lo, e assim, quando se realiza esse anseio, experimenta-se o prazer e a alegria mais conhecidos. As paixões, portanto, são boas quando o bem é real, ou más quando o bem é ilusório.
    Jesus apontava o coração como fonte das paixões, pois é o exato lugar onde se combinam os elementos da sensibilidade e da consciência, e geram a vontade: "O bom homem tira boas coisas do bom tesouro de seu coração, e o mau homem tira más coisas de seu mau tesouro, porque a boca fala daquilo de que o coração está cheio." Lc 6,45
    O Divino Mestre, portanto, tratava de revelar os verdadeiros tesouros, e onde nós os guardamos: "Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no Céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furtam nem roubam. Porque onde está teu tesouro, lá também está teu coração." Mt 6,19-21
    Pois assim como as boas paixões, que embora mais conhecidas não são cultuadas com a devida atenção, Ele fazia questão de ressaltar o coração como fonte das más paixões: "Porque é do coração que provêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias." Mt 15,16
    E exemplificou: "Ouvistes que foi dito aos antigos: 'Não cometerás adultério.' Eu, porém, digo-vos: todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração." Mt 5,27-28
    Contudo, apesar de brotar no coração, a paixão é inegavelmente regulada pela razão e pela vontade, que jamais podem ser desativadas. Ninguém se engane: quando é mau o objeto da paixão, a natureza primeira do coração vacila em simultâneo com o impulso que nele insurge, e nega-se a consentir, só se deixando vencer se for acintosa e fortemente combatida por más razões e maus exemplos. É nesse momento que, mesmo que a trancos e barrancos, o objeto da paixão invariavelmente passa pelo escrutínio da consciência moral, que nada mais é que o mecanismo natural que pondera, sob a ótica dos valores pessoais, as informações processadas.
    Em condições normais, por exemplo, não se questiona se os pais devem ou não dar alimento à criança recém-nascida. Devem muito mais: devem dar amor. Mas isso só se pode afirmar por força da apreciação moral. Por ela, nada desobriga um ser de dar amor a uma indefesa criatura fruto de sua carne, não importando em que condições a criança foi gerada. Ora, isso faz parte de uma consciência instintiva, verificável mesmo entre os animais.
    Outro exemplo: o que nos obriga a não destruir o meio ambiente? Não é apenas por razões econômicas, mas principalmente porque sabemos que estamos aniquilando nossas chances de sobrevivência e de nossos descendentes. Vale dizer, só contrariando a formação moral poderíamos continuar dando continuidade a atividades ecologicamente nocivas.
    A Constituição Pastoral da Igreja inspiradamente ensina: "Na intimidade da consciência, o ser humano descobre uma lei." GS 16
    É a mais pura Verdade: fazendo bom uso da consciência, não conseguimos determinar-nos a agir pelo mal. Obedecemos, pois, a uma lei muito mais profunda que nossa mera formação ou experiências de vida. A importância da formação moral, porém, está na consolidação dos escrúpulos, que nos ajudam a enxergar essa lei nas mais diversas situações. Reza o salmista: "... fazer Vossa vontade, Meu Deus, é o que me agrada, porque Vossa Lei está no íntimo de meu coração." Sl 39,9
    São Paulo assim explicava a existência dessa lei, dessa consciência moral: "Os pagãos, que não têm a Lei, fazendo naturalmente as coisas que são da Lei. Embora não tenham a Lei, a si mesmos servem de lei; eles mostram que o objeto da Lei está gravado em seus corações, dando-lhes testemunho sua consciência, bem como seus raciocínios, com os quais mutuamente se acusam ou se escusam." Rm 2,14-15
    Bem como atesta a Lei de Deus: "Desde a criação do mundo, as invisíveis perfeições de Deus, Seu sempiterno poder e divindade, tornam-se visíveis à inteligência por Suas obras, de modo que não se podem escusar." Rm 1,20
    Por isso, diz: "Sabemos que a Lei é espiritual, mas eu sou carnal, vendido como escravo ao pecado. Eu sei que em mim, isto é, em minha carne, não habita o bem, porque o querer o bem está em mim, mas não sou capaz de efetuá-lo. Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que faço, mas sim o pecado que em mim habita. Eu deleito-me na Lei de Deus, no íntimo de meu ser, mas em meus membros percebo outra lei que luta contra a lei da minha razão, e acorrenta-me à lei do pecado que está em meus membros." Rm 7,14.18-20.22-23
    Assim se tem que a paixão não é o único elemento determinante, pois compõe com a razão e a vontade a motivação de nossas boas e más ações. E a consciência moral, ou seja, a razão, é que examina e decide qual será nossa vontade diante de uma determinada paixão. Por isso, disseram os anjos que anunciaram o Nascimento de Jesus: "... Paz na terra aos homens de boa vontade." Lc 2,14


A OBEDIÊNCIA

    O próprio Jesus, por obediência, cumpria estritamente a vontade do Pai: "... porque não busco Minha vontade, mas a vontade d'Aquele que Me enviou." Jo 5,30
    É o que Ele vai dizer momentos antes da crucificação: "Pai, se é de teu agrado, afasta de Mim este cálice! Porém não se faça Minha vontade, mas sim a Tua." Lc 22,42
    São Paulo testemunhou esse feito: "Sendo Ele de condição divina, não Se prevaleceu de Sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-Se aos homens." Fl 2,6-7
    Por isso, o último Apóstolo exorta: "Esta é a vontade de Deus: vossa santificação! Que eviteis a impureza; que cada um de vós saiba possuir santa e honestamente seu corpo, sem se deixar levar por desregradas paixões, como os pagãos que não conhecem a Deus." 1 Ts 4,3-5
    Diante das tentações que surgem antes da idade da razão, sua recomendação a São Timóteo era simples porém sábia: fugir, buscar a companhia daqueles que realmente são Igreja: "Foge das paixões da mocidade, busca com empenho a justiça, a , a caridade, a Paz, com aqueles que invocam o Senhor com pureza de coração." 2 Tm 2,22
    E diz aos gálatas: "Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as más paixões e concupiscências." Gl 5,24
    Com contundência, ele critica os hedonistas, que por tal comportamento nunca conseguem perceber propriamente as coisas santas, o sagrado: "... amigos dos prazeres e não de Deus, ostentarão a aparência de piedade, mas desdenharão a realidade. Dessa gente, afasta-te! Deles fazem parte os que se insinuam jeitosamente pelas casas e enfeitiçam mulherzinhas carregadas de pecados, atormentadas por toda espécie de paixões, sempre a aprender sem nunca chegar ao conhecimento da Verdade." 2 Tm 3,4b-7
    Diz mais: que as más paixões levarão muita gente a renegar Jesus, e a buscar 'religiões' que tolerem seus pecados: "Porque virá tempo em que os homens já não suportarão a Sã Doutrina da Salvação. Levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustarão mestres para si." 2 Tm 4,3
    E resume a Missão de Jesus numa exortação contrária à vida da dissolução: "Veio para ensinar-nos a renunciar à impiedade e às mundanas paixões, e a viver neste mundo com toda sobriedade, justiça e piedade..." Tt 2,12
    São Pedro denuncia os falsos mestres exatamente porque renegam a autoridade da Igreja, e assim levam uma vida afundada na prática de perversões: "... aqueles que com impuros desejos correm atrás dos prazeres da carne e desprezam a autoridade. Audaciosos, arrogantes, não temem falar injuriosamente das Glórias... quais brutos destinados pela lei natural para a presa e para a perdição, injuriam o que ignoram... Encontram suas delícias entregando-se em pleno dia às libertinagens. Homens pervertidos e imundos, sentem prazer em enganar... Têm os olhos cheios de adultério e são insaciáveis no pecar. Seduzem por seus atrativos as almas inconstantes; têm o coração acostumado à cobiça; são filhos da maldição. Com palavras tão vãs quanto enganadoras, atraem pelas paixões carnais e pela devassidão aqueles que mal acabam de escapar dos homens que vivem no erro. Prometem-lhes a liberdade, quando eles mesmos são escravos da corrupção, pois o homem é feito escravo daquele que o venceu. Com efeito, se aqueles que renunciaram às corrupções do mundo pelo conhecimento de Jesus Cristo, Nosso Senhor e Salvador, nelas de novo se deixam enredar e vencer, seu último estado torna-se pior do que o primeiro." 2 Pd 2,10.12a.13a.14.18-20
    No comportamento desses deturpadores da Doutrina, São Judas Tadeu vai pontualmente denunciar a luxúria, causada pela ausência da Unção do Espírito de Deus, e ao cabo faz uma exortação à verdadeira fé: "No fim dos tempos virão impostores, que viverão segundo suas ímpias paixões; homens que semeiam a discórdia, homens sensuais que não têm o Espírito. Mas vós, caríssimos, edificai-vos mutuamente sobre o fundamento da vossa santíssima fé. Orai no Espírito Santo." Jd 1,18-20
    São Paulo, na Carta aos Romanos, registrou consequências ainda mais graves para os que renegam a religiosidade, e assim ao próprio Criador: "A ira de Deus manifesta-se do alto do Céu contra toda impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a Verdade. Porque, conhecendo a Deus, não O glorificaram como Deus, nem Lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e obscureceu-se-lhes o insensato coração. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos. Mudaram a majestade de Deus incorruptível em representações e figuras de homem corruptível, de aves, quadrúpedes e répteis. Por isso, Deus entregou-os aos desejos de seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. Trocaram a Verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém! Por isso, Deus entregou-os a vergonhosas paixões: suas mulheres mudaram as relações naturais em relações contra a natureza. Do mesmo modo, os homens, deixando o uso natural da mulher, arderam em desejos uns para com os outros, cometendo homens com homens a torpeza, e recebendo em seus corpos a paga devida a seu desvario. Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Ele entregou-os a depravados sentimentos, e daí seu procedimento indigno. São repletos de toda espécie de malícia, perversidade, cobiça, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade. São difamadores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, soberbos, altivos, inventores de maldades, rebeldes contra os pais. São insensatos, desleais, sem coração, sem misericórdia. Apesar de conhecerem o justo decreto de Deus, que considera dignos de morte aqueles que fazem tais coisas, não somente as praticam, como também aplaudem aqueles que as cometem." Rm 1,18.21-32
    Falando sobre a Verdade, isto é, sobre a mais crua realidade, ou ainda, sobre essa lei maior que encontramos em nossas consciências, São Pedro coloca a obediência como bússola que deve nortear nossa vontade e nossa paixão: "Em obediência à Verdade, tendes purificado vossas almas para praticardes um sincero amor fraterno. Amai-vos, pois, uns aos outros, ardentemente e do fundo do coração." 1 Pd 1,22
    E convida-nos ao Sacramento da Confissão e às penitências, que verdadeiramente nos liberta: "Assim, pois, como Cristo padeceu na carne, armai-vos também vós deste mesmo pensamento: quem padeceu na carne rompeu com o pecado, a fim de que, no tempo que lhe resta para o corpo, já não viva segundo as humanas paixões, mas segundo a vontade de Deus. Baste-vos que no tempo passado tenhais vivido segundo os caprichos dos pagãos, em luxúrias, concupiscências, embriaguez, orgias, bebedeiras e criminosas idolatrias." 1 Pd 4,1-3
    Por fim, São Tiago Menor denuncia as más inclinações como fonte de todo mal: "Donde vêm as lutas e as contendas entre vós? Não vêm elas de vossas paixões, que combatem em vossos membros? Cobiçais, e não recebeis; sois invejosos e ciumentos, e não conseguis o que desejais; litigais e fazeis guerra. Não obtendes, porque não pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, com o fim de satisfazerdes vossas paixões. Adúlteros, não sabeis que o amor ao mundo é abominado por Deus? Todo aquele que quer ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus." Tg 4,1-4
    As paixões em si, portanto, enquanto pura sensibilidade, não são nem boas nem más. Quando motivadas por imoral razão ou má vontade, tornam-se desordenadas e pervertem-se em vícios, mas, quando motivadas para o bem, tornam-se virtudes.

    "Confirmai na caridade Vosso povo!"