sexta-feira, 18 de maio de 2018

Padre Manuel da Nóbrega, Pai do Brasil


    Suas grandezas já se revelavam em Portugal, bem antes de vir ao Brasil, mas é na Terra de Santa Cruz que se deu sua história de consagração como homem de Deus. Ela também é a história do nascimento do país. Não é nenhum exagero dar-lhe o título de Pai do Brasil; tanto pela destacada liderança que com zelo exerceu, e a serviço de todo povo nos primeiríssimos anos da colonização, como pelas cartas que primeiro contam da organização da vida social, sob todos os aspectos, nestas terras.
    A pedido do rei de Portugal, chegou em Salvador com Tomé de Souza, e os primeiros padres jesuítas, para o estabelecimento do Governo Geral em 1549, portanto quinze anos após a divisão em capitanias hereditárias, que representou o início da ocupação do território.
    Na viagem de 8 semanas, fazia confessarem-se os do navio, e uma vez em terra, logo tratou de rezar a Santa Missa com a presença dos nativos, mas antes buscou obter a Confissão dos homens dos outros navios. Irá demonstrar grande amor aos índios, porém os desafios entre eles seriam enormes, dados os costumes guerreiros, de poligamia e de canibalismo. Catequizava preferencialmente as crianças, que mais fácil aprendiam a língua e os ensinamentos de Cristo, e de heroico modo tentava às escondidas batizar índios de tribos rivais aprisionados que seriam devorados, pois os inimigos achavam que o Batismo tirava o sabor de suas carnes.
    Na primeira viagem a Pernambuco, confrontou padres que ensinavam ser lícito capturar índios e abusar de escravas, das primeiras levas de negros, ainda não massivas, que começavam a chegar da África. E como os desafiava abertamente, assim como os portugueses que praticavam tais desmandos, foi violentamente perseguido e só sobreviveu graças a ajuda de importante gente local. Os índios daí admiravam-no e convidavam-no às suas aldeias.
    Em 1552, tornou-se vice-provincial dos jesuítas no Brasil, respondendo ao provincial em Portugal. Construiu seminário para os filhos dos índios, que aprendiam a ler, escrever, contar, cantar, ajudar nas Santas Missas e na divulgação da Sã Doutrina entre os índios adultos.


    Na capitania de São Vicente, homenagem a São Vicente de Saragoça, equivalente a terras do atual estado de São Paulo, entrou pela mata para pregar aos índios, valendo-se do fato de estarem longe dos maus exemplos do convívio com os portugueses. Entre eles estava Tibiriçá, chefe da tribo tupiniquim, que se tornou um grande amigo, de prestimosos serviços. Os índios chamavam o Padre Nóbrega de Homem Santo, pois claramente percebiam sua devoção, e retidão moral.
    Em 1553, indo Thomé de Sousa ao sul da costa, fez questão de consigo levar nosso padre. No mesmo ano chegava Duarte da Costa, o novo governador, trazendo um jovem irmão jesuíta, que mais tarde se tornaria São José de Anchieta. Padre Manuel da Nóbrega é feito provincial do Brasil e passa a responder diretamente a Santo Inácio de Loyola.


    Em 1554, em suas incursões pelo interior, funda o Colégio de São Paulo de Piratininga, lugar que se tornaria a atual capital de São Paulo, a 12 léguas da costeira Vila de São Vicente, onde logra eliminar o canibalismo e batizar muitos silvícolas.
    Em 1556 volta a Bahia a chamado do governador. Sua presença evitou uma grande guerra, pois as mentiras, os abusos e as traições dos portugueses irritavam os índios. Muito assustada, a população branca não os queria nem por perto nem agrupados, mas nosso padre pede ao governador terras para grandes aldeias e material para construir escolas e igrejas entre as tribos já batizadas. Toda a população era contra, mas ele atendeu-o e isso resultou em grande paz. Os filhos dos índios já ensinavam aos pais tudo que aprendiam, e era belo vê-los participando no coral das igrejas. Assim nosso padre pôs fim ao canibalismo também aí.
    Em 1558 inspira Mem de Sá, o novo governador, que instituiu várias leis favoráveis aos índios. Fazer guerra contra eles, só com a autorização do Governo Geral. As grandes aldeias consolidam-se, apesar de os portugueses achá-las perigosas, mas boa parte dos índios só exigia respeito e paz. Para o padre e companheiros, além da pacificação, elas facilitavam a comunicação e o Catecismo. Realizavam-se muitas conversões e batismos. Também foi proibido escravizar índios, a não ser em caso de irreconciliáveis inimigos de guerra. Os que já haviam sido capturados deveriam ser libertados. Com isso, os indígenas mostraram uma grande satisfação e forte motivação para com a ordem e a paz.
    Houve, porém, contratempos: alguns de uma tribo mais afastada atacaram e mataram índios cristãos. Estes recorreram ao governador que, depois de ouvir o padre Nóbrega, pede a entrega dos culpados. Como não assentiram, Mem de Sá entrou pelas matas, atacou e dispersou chefes de 200 aldeias daquela nação. Por essa atitude, o governador ganhou respeito de todas nações indígenas. A nação rebelde, reconhecendo o inconveniente, entregou os culpados e pediu para ser catequizada pelo padre Nóbrega e sua Companhia.


    Em 1559, doente, nosso tenaz Sacerdote deixa o cargo de provincial, mas com seu cajado continuou visitando a pé as aldeias.


    Em Porto Seguro, enquanto ele rezava a Santa Missa na capela de Nossa Senhora d'Ajuda, no arraial de mesmo nome, milagrosamente surgiu uma fonte. Com os relatos de milagres, e a grande devoção à imagem que com ele e os demais jesuítas viera de Portugal, aí surgiu o primeiro santuário mariano do Brasil, e a procissão é uma vívida tradição.
    Em 1560 os franceses tomam o Rio de Janeiro, era a França Antártica, e a rainha Catarina dá ordem para expulsá-los. Mem de Sá vacila, manda chamar nosso padre para aconselhar-se e por ele foi persuadido. Ainda o acompanha até o Rio, porém o governador vai dispensá-lo contra sua vontade, mandando-o a São Vicente em razão de sua frágil condição de saúde. De lá, no entanto, ele mobiliza pessoal, arsenal e mantimentos e envia-os à guerra. Vencedor, o governador vai a Vila de Santos para encontrá-lo, que o ajuda no socorro aos enfermos, a reequipar a armada e a decidir litígios e prisões. Aí nosso padre começou a ser chamado de Pai dos Necessitados.
    Por seus conselhos, Mem de Sá mudou a Vila de Santo André para Piratininga, e o colégio de Piratininga para a Vila de São Vicente. Essa mudança viu-se muito proveitosa para portugueses, padres e índios. Sugeriu também uma estrada entre São Vicente e Piratininga, por causa das espreitas dos tamoios, uma tribo rebelde que continuava fiel aos franceses e praticando o canibalismo. Mesmo muito enfermo, o 'homem de preto', como lhe chamavam a maioria dos índios, trabalhava bastante.
    Por esses tempos, os portugueses capturaram um capitão tamoio e entregaram-no para ser devorado pelos índios. Nóbrega viu nisso todos seus trabalhos desfeitos. De fato, acirrou-se a ira dos tamoios. Nosso padre rezou por dois anos pedindo a Deus, até resolver ir aos rebeldes na companhia do então irmão Anchieta. Era 1563. Os dois foram prontamente reconhecidos pelos silvícolas e fez-se trégua. Aí ficariam para tratar de paz e, em troca, 12 índios foram levados a São Vicente para ficar em companhia de outros padres, como garantia por suas vidas.


    Entre eles, Padre Nóbrega rezou a Santa Missa todos os dias, conquistando-lhes admiração e respeito. Anchieta, dotado de grandes dons espirituais, doutrinava. Desestimularam a poligamia e o canibalismo e podiam visitar todas aldeias. Aí nosso amado padre começou a ser chamado de Pai dos Índios. Em gesto de confiança, os tamoios confessaram o plano que tinham em curso para destruir a Vila de São Vicente. Entre todos nações indígenas, correu a notícia da destemida presença do padre e do irmão, e só os tamoios do Rio de Janeiro não gostaram. Alguns destes guerreiros foram até lá para matá-los, mas quando os conheceram e ouviram o padre falar, sentiram-se desarmados. De imediato perceberam que aquele homem não podia ser um traidor, como admitiram mais tarde.
    Os tamoios tomaram tanto gosto em conviver com eles que lhes ofereciam as filhas em casamento, e ao saberem do voto de celibato, ficaram ainda mais admirados. Nossos jesuítas aí ficaram dois meses e às Santas Missas atraiam todos da aldeia, que as ouvia com muito gosto e devoção a Deus que se tornou Pão. Outros índios do Rio de Janeiro vieram conhecê-lo, e após feitas às pazes não queriam mais que se fossem. Padre Nóbrega foi então a São Vicente, enquanto o Irmão Anchieta ficou só na aldeia por mais três meses, a pedido dos índios e por própria vontade. Os tamoios iam livremente a São Vicente e lá eram bem recebidos, e abraçavam-se com índios das outras nações.
    Voltaram os franceses a invadir o Rio de Janeiro e incitaram mais uma vez os tamoios. A rainha manda de Portugal o capitão-mor Estácio de Sá, sobrinho de Mem de Sá, para expulsá-los. Em 1564, o governador envia-o à capitania usurpada, mas primeiro manda buscar o padre Nóbrega em São Vicente, com recomendações de aconselhar-se com ele e até de obedecer-lhe. Chegaram a atacar, contudo o inimigo mostrou-se forte, não lhes dando condições de estabelecer-se em terra. Voltaram, então, a São Vicente para melhor armarem-se. Muitas vozes levantaram-se contra a empreita, porém nosso padre sobremaneira persuadia. A pé, ia visitar o capitão-mor com frequência em outra vila, onde se encontrava, para animá-lo. Trouxe-o à sua casa. Garantiu que se explicaria à rainha pessoalmente caso o intento falhasse, assumindo toda culpa. Mobilizou índios, mestiços e portugueses; mandou navios à capitania do Espírito Santo para buscar armas e mantimentos; tomou dinheiro do imposto devido ao rei; resolveu assuntos de justiça prometendo perdão, entre outras providências.


    Em 1565, partiu a armada levando também o irmão Anchieta. Durante a guerra, enviaram-no a Bahia para tomar ordens do governador. De São Vicente, nosso padre enviava navios, mantimentos e homens. Como a guerra demorava, o governador Mem de Sá veio pessoalmente tomar parte da luta. Venceram, mas Estácio morre de ferimento de guerra um mês depois. De passagem por aqui, o Visitador do Brasil foi com o governador ao encontro do padre Nóbrega em São Vicente. Trouxeram-no ao Rio de Janeiro para fundar o Colégio, ao qual o rei dava um dote bastante para 50 religiosos. Mesmo enfermiço, Nóbrega foi instituído o superior. O governador volta a Bahia, porém deixa aí outro sobrinho, como sempre pedindo aconselhamento e obediência ao padre. Índios do Espírito Santo voluntariamente vieram viver à sombra dos cuidados do nosso jesuíta, e a partir de então formaram forte defesa contra tamoios, franceses e ingleses.
    Aí muito humildemente viveu três anos, passando um pouco melhor quando lhe mandavam esmolas de São Vicente. Foi tido como Pai da nova cidade. Já era aclamado o Pai dos Cristãos de todo Brasil. Muitas aldeias choraram sua morte. São José de Anchieta deixou muitos escritos que bem atestam sua santidade: de como repreendia os portugueses por enganar e escravizar os índios; como os condenava pelos maus exemplos de conduta; como repreendia os maus padres por distorções doutrinárias, leniências, regalias e maus comportamentos; como amava os índios e esforçava-se por salvar-lhes as almas – era sua missão como cristão e tarefa que o rei lhe havia confiado; como tinha gosto na Salvação de todas as almas, chegando a oferecer-se para fazer penitência por aqueles que estavam prestes a morrer em troca de uma simples Confissão; como enfrentava os poderosos locais em Nome de Jesus, mesmo correndo risco de morte; como era querido do rei, que familiarmente lhe escrevia e dele tomava conselho.
    Em seu zelo pela Companhia de Jesus, modesto e vivendo de esmola, fazia cumprir os jejuns determinados pela Igreja e ainda por toda quaresma, como forma de economizar mantimentos. Não matava as vacas doadas, nem nas mais difíceis situações, pois queria-lhes o leite e as crias para os futuros alunos dos colégios. Era o grande incentivador das pregações nas línguas indígenas. São José de Anchieta não teria alcançado tanta repercussão por suas obras sem o apoio, os ensinamentos e o exemplo de nosso padre.
    Apesar de grande orador e hábil pregador, que com frequência levava os ouvintes à comoção e à devoção, era gago. Tão ativo, as últimas horas antes de morrer dedicou a escrever suas sugestões à Companhia de Jesus, aos cristãos e a tudo que importasse para o bem comum nestas terras. É dele a belíssima obra "Diálogo sobre a conversão do gentio", onde relata seu sacerdócio e convívio entre os índios.


     Tão frágil era seu corpo que quando chovia não podia caminhar de batina, pois molhada pesava-lhe demais. Nessas ocasiões, como não queria ser carregado, ia só de camisola. Sua batina era sempre a mesma, até os últimos remendos possíveis. Seus aposentos eram igualmente de pobreza. Escondia do governador que não tinha camisa, enrolando um lenço ao pescoço. Carinhosamente chamava esse lenço de ‘minha hipocrisia’.

    "Em Comunhão com toda a Igreja aqui estamos!"