quarta-feira, 23 de maio de 2018

Deus dá Condições


    Nas várias fraquezas humanas, sempre está o pecado como principal motivo, e invariavelmente como fonte de tristeza. É quando se percebe nossa total carência dos socorros de Deus para uma efetiva libertação, como ensinou Jesus: "Portanto, se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres." Jo 8,36
    De fato, só Ele pode reconduzir-nos a tão salutares alegria e esperança. Nossa Senhora diz no Magnificat: "... meu espírito exulta de alegria em Deus, Meu Salvador..." Lc 1,47
    Contudo, devemos melhor entender o agir do Pai, Sua regência, como São Paulo pregou aos colossenses: "Por isso... não cessamos de orar por vós e pedir a Deus que vos conceda pleno conhecimento da Sua vontade, perfeita Sabedoria e penetração espiritual, para que vos comporteis de maneira digna do Senhor, em tudo procurando agradar-Lhe, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus. Para que, em tudo confortados por Seu glorioso poder, tenhais a paciência de tudo suportar com longanimidade." Cl 1,9-11
    Alguns não acreditam na existência de Deus justamente porque esbarram e param nessa pergunta: 'Se Ele tem poder e controle sobre tudo, como pode haver tanta coisa errada?' O próprio Jesus teria afirmado essa aparente permissividade: "... pois Ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos." Mt 5,45b
    Mas é demasiadamente primário achar que Deus deveria ter criado não pessoas à Sua imagem e semelhança, mas robôs, que tudo fizessem apenas conforme Sua vontade, sem nenhuma capacidade de decisão própria nem liberdade. São Paulo argumenta: "Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não abuseis, porém, da liberdade como pretexto para carnais prazeres. Pelo contrário, fazei-vos servos uns dos outros pela caridade, porque toda a Lei se encerra num só preceito: 'Amarás teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18).'" Gl 3,13-14
    Também não é sensato pensar que Deus deveria ser imediatista e punitivo, instantaneamente fulminando qualquer pessoa que sequer pensasse em praticar algum mal. Seu amor expressa exatamente o contrário, como se lê na Sabedoria: "Tendes compaixão de todos porque Vós podeis tudo, e para que se arrependam, fechais os olhos aos pecados dos homens. Porque amais tudo que existe, e não odiais nada do que fizestes, porquanto se o odiásseis não o teríeis feito de modo algum. Como poderia subsistir qualquer coisa, se não o tivésseis querido, e conservar a existência, se por Vós não tivesse sido chamada? Mas poupais todos os seres, porque são todos Vossos, ó Senhor, que amais a vida." Sb 11,23-26
    Nosso Pai, pois, não é nem ausente, nem autoritário! São Pedro bem percebeu Seus planos: "O Senhor não retarda o cumprimento de sua promessa, como alguns pensam, mas usa da paciência para convosco. Não quer que alguém pereça; ao contrário, quer que todos se arrependam." 2 Pd 3,9
    E além de tudo que já nos deu, como a vida, a Criação, a vida de Seu Filho, o Espírito Santo, a Virgem Mãe, os anjos, os Santos, a Igreja, os Sacramentos e as Escrituras, Ele continua oferecendo as mais apropriadas condições para que realizemos nossos maiores sonhos. Jesus prometeu aos Apóstolos: "Em verdade, em verdade, digo-vos: o que pedirdes ao Pai em Meu Nome, Ele vo-lo dará. Pedi e recebereis, para que vossa alegria seja perfeita." Jo 16,23b.24b
    Sonhos, aliás, por Ele mesmo inspirados, pois não nos entrega a obra acabada, por Si só realizada, mas faz-nos sonhar e ajuda a realizá-la, como atestou o Eclesiástico: "Ele não deu ordem a ninguém para fazer o mal, e a ninguém deu licença para pecar, pois não deseja uma multidão de filhos infiéis e inúteis. Neles criou a ciência do Espírito, encheu-lhes o coração de Sabedoria, e mostrou-lhes o bem e o mal." Eclo 15,21-22;17,6
    E fora decisivos momentos, nos quais tudo resolve sozinho por livramentos ou milagres, na maioria das vezes, para quem pede Sua Luz, na hora certa Ele concede espiritual e material apoio. São Paulo diz aos coríntios, especificamente sobre a luta espiritual: "Não vos sobreveio tentação alguma que ultrapassasse as forças humanas. Deus é fiel: não permitirá que sejais tentados além de vossas forças, mas com a tentação Ele dar-vos-á os meios de suportá-la e dela sairdes." 1 Cor 10,13
    Aos tessalonicenses, ele disse-o de outra forma: "Mas o Senhor é fiel, e há de dar-vos forças e preservar-vos do Mal." 2 Ts 3,3
    Ora, não sabemos nem mesmo de que realmente precisamos, como ele afirma aos romanos: "Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza. Porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com inefáveis gemidos." Rm 8,26
    São Tiago Menor é ainda mais contunde: "Donde vêm as lutas e as contendas entre vós? Não vêm elas de vossas paixões, que combatem em vossos membros? Cobiçais, e não recebeis; sois invejosos e ciumentos, e não conseguis o que desejais; litigais e fazeis guerra. Não obtendes, porque não pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, com o fim de satisfazerdes vossas paixões." Tg 4,1-3
    E o Apóstolo dos Gentios explica aos filipenses: "Porque é Deus, segundo Seu beneplácito, Quem realiza em vós o querer e o executar." Fl 2,13
    Assim, em nome de nossa total entrega a Seus desígnios, rezavam seus seguidores para que Deus "... queira dispor-vos ao bem e conceder-vos que cumprais Sua vontade, realizando Ele próprio em vós o que é agradável a Seus olhos..." Hb 13,21a
    A verdade é que não percebemos algo muito simples sobre os desígnios de Deus: mesmo considerando todos sonhos humanos, Seu principal intuito é convidar-nos para trabalhar na construção do Reino dos Céus, vale dizer, na Salvação das almas. São Tiago Menor, neste sentido, exorta à santidade e ao pleno acolhimento da Palavra: "Rejeitai, pois, toda impureza e todo vestígio de malícia e recebei com mansidão a Palavra em vós semeada, que pode salvar vossas almas." Tg 1,21
    O próprio Jesus está constantemente acenando para a eternidade: "Meu Reino não é deste mundo." Jo 18,36a
    E prometeu: "Em verdade, em verdade, digo-vos: se alguém guardar Minha Palavra, jamais verá a morte." Jo 8,51
    Assim, nossos projetos precisam ser suficientemente amadurecidos e bons para encaixar-se nessa grande obra da verdadeira e definitiva família humana. Se eles estiverem realmente fundamentados no bem comum, podemos estar certo que, ao longo do tempo, Ele vai colaborar com todos benefícios e contra todas dificuldades. É o que nos garante São João Evangelista: "A confiança que n'Ele depositamos é esta: em tudo quanto Lhe pedirmos, se for conforme Sua vontade, Ele atender-nos-á." 1 Jo 5,14
    Também diz São Paulo: "Aliás, sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo Seus desígnios." Rm 8,28
    É que as 'armas' desta batalha são outras, e Deus não retém só para Si o exercício de todos poderes. Aí estão, tantas vezes vistos e comprovados na vida dos Santos, os dons do Espírito Santo, verdadeiros instrumentos da construção do Reino dos Céus: "Ao contrário, o fruto do Espírito é caridade, alegria, Paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança. Contra estas coisas não há Lei. Pois aqueles que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências." Gl 5,22-24
    E Jesus afirma: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Cosso Pai Celestial dará o Espírito Santo aos que LhO pedirem." Lc 11,13
    São Paulo corrigia os coríntios: "Não são carnais as armas com que lutamos. São poderosas, em Deus, capazes de arrasar fortificações. Nós aniquilamos todo raciocínio e todo orgulho que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento e reduzimo-lo à obediência a Cristo." 2 Cor 10,4-5
    Pois bem: Nosso Pai Celeste quer partilhá-las com todos Seus filhos, entre os quais colocou Cristo, modelo de toda Criação. Ele não nos obriga a praticar o Bem. Ele inspira-nos para o Bem! Contudo, o tempo urge e Sua obra é avassaladora, como diz Gamaliel ao Sinédrio quando os Apóstolos foram presos pela primeira vez: "Agora, pois, eu aconselho-vos: não vos metais com estes homens. Deixai-os! Se seu projeto ou sua obra provém de homens, por si mesma se destruirá. Mas se provier de Deus, não podereis desfazê-la. Vós vos arriscaríeis a entrar em luta contra o próprio Deus." At 5,38-39a
    E foi exatamente essa a sentença que Santo Estevão proferiu contra este mesmo Sinédrio, pouco antes de ser apedrejado: "Homens de dura cerviz, e de incircuncisos corações e ouvidos! Vós sempre resistis ao Espírito Santo." At 7,51a
    Também foi o que aconteceu com São Paulo, enquanto era fariseu e perseguia a Igreja, pois Jesus não lhe reclama de perseguição à Igreja, mas a Ele mesmo: "Durante a viagem, estando já perto de Damasco, subitamente cercou-o uma luz resplandecente vinda do Céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: 'Saulo, Saulo, por que Me persegues?' Saulo disse: 'Quem és, Senhor?' Respondeu Ele: 'Eu sou Jesus, a Quem tu persegues. Duro é debater-te contra as esporas.'" At 9,4-5
    Mas, salvo alguns episódios, ainda assim Ele age com total respeito à nossa liberdade. É o livre arbítrio, cabendo a nós a decisão de mudar nossos planos a qualquer hora, e para melhor. Não encontramos as coisas prontas, mas as ferramentas se realmente estivermos a caminho do bom trabalho. Ao enviar os Apóstolos pela primeira vez, Jesus disse-lhes: "Não leveis nem ouro, nem prata, nem dinheiro em vossos cintos, nem mochila para a viagem, nem duas túnicas, nem calçados, nem bastão. Pois o operário merece seu sustento." Mt 10,9-10
    É por isso que esse Seu modo mais frequente de agir é chamado de Divina Providência. Jesus ensina: "Considerai os corvos: eles não semeiam, nem ceifam, nem têm despensa, nem celeiro; entretanto, Deus sustenta-os. Quanto mais valeis vós que eles? Mas qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida? Se vós, pois, não podeis fazer nem as mínimas coisas, por que estais preocupados com as outras? Considerai os lírios, como crescem; não fiam, nem tecem. Contudo, digo-vos: nem Salomão em toda sua glória jamais se vestiu como um deles. Se Deus, portanto, assim veste a erva que hoje está no campo e amanhã lança-se ao fogo, quanto mais a vós, homens de pequenina fé!" Lc 12,24-28
    A finalidade, porém, é sempre vencer o pecado, como reza São Pedro: "... Graça e Paz sejam-vos dadas em abundância por um profundo conhecimento de Deus e de Jesus, Nosso Senhor! O divino poder deu-nos tudo que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude. Por elas, temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de por este meio tornar-vos participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo." 2 Pd 1,2-4
   Em Sua infinita Sabedoria, Deus deu-nos dois especialíssimos presentes: a responsabilidade e a autoridade. O primeiro, muito mais que mera obrigação prestar contas, é, na verdade, a capacidade de responder aos fatos ponderando circunstâncias, mas visando o Sumo Bem. A responsabilidade, portanto, determina o melhor ou pior nexo que se estabelece entre a situação que se vive e a solução adotada. Somos constantemente convidados a responder, a exercer a liberdade ponderando sobre questões que nos motivam ao aperfeiçoamento.
    Tanto quanto estivermos realmente melhorando nossas respostas, não iremos frustrar, mas estimular nossos irmãos e alegrar Nosso Pai. Jesus contou essa parábola: "Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, disse-lhe: 'Meu filho, vai trabalhar hoje na vinha.' Respondeu ele: 'Não quero.' Mas, em seguida, tocado de arrependimento, foi. Dirigindo-se depois ao outro, disse-lhe a mesma coisa. O filho respondeu: 'Sim, pai!' Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?" Mt 21,28b-31a
    O segundo presente, a autoridade, que também muita gente confunde com o poder, é nossa capacidade de ser autores, de criar. Hoje se usa o termo autoria, mas é a autoridade, de fato, o vínculo entre quem fez e a coisa feita. Somos, portanto, como filhos de Deus Criador, convidados a criar o mundo em que vivemos. Que nós então tenhamos boas obras a mostrar, para que nem desanimemos nossos irmãos nem entristeçamos Nosso Pai. É o que diz São Paulo a São Timóteo: "Antes é preciso que o lavrador trabalhe com afinco, se quer boa colheita." 2 Tm 2,6
    Esses 'brinquedos', entretanto, que alguns julgam perigosos de mais, nem sempre são usados corretamente, como bem se pode constatar. De toda forma, não podemos dizer que a culpa é de Deus. São Tiago Menor argumenta: "Feliz o homem que suporta a tentação, porque depois de sofrer a provação receberá a Coroa da vida que Deus prometeu aos que O amam. Ninguém, quando for tentado, diga: 'É Deus Quem me tenta.' Deus é inacessível ao Mal e não tenta a ninguém. Cada um é tentado por sua própria concupiscência, que o atrai e alicia. A concupiscência, depois de conceber, dá à luz o pecado, e o pecado, uma vez consumado, gera a morte. Não vos iludais, pois, amados irmãos meus. Toda boa dádiva e todo perfeito dom vêm de cima: descem do Pai das luzes, no Qual não há mudança, nem mesmo aparência de instabilidade. Por Sua vontade é que nos gerou pela Palavra da Verdade, a fim de que sejamos como que as primícias de Suas criaturas." Tg 1,12-18
    Por isso, conclui-se, Ele não deve tomar estes dons de volta, como alguns, na prática, sugerem. Nós é que temos que aprender a usá-los, eis o problema! Sempre que tivermos em vista o verdadeiro bem comum, muitas vezes em detrimento de certos 'bens' particulares, estaremos sendo autores de belas obras de e agradavelmente respondendo à inspiração do Espírito Santo. São Paulo ensina que devemos trabalhar na obra da Salvação: "Assim, uma vez que aspirais aos dons espirituais, procurai tê-los em abundância para edificação da Igreja." 1 Cor 14,12


PARA A SALVAÇÃO DAS ALMAS

    O Papa São João Paulo II, falando sobre nossa natural vocação para formar sociedade, fez menção à imprescindível hierarquia de valores, que determina a superioridade das coisas que são espirituais e interiores sobre as que são materiais e instintivas. Jesus, com efeito, pregava abertamente a excelência dos dons espirituais: "Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, Vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Antes buscai o Reino de Deus e Sua justiça, e todas estas coisas ser-vos-ão dadas em acréscimo." Mt 6,31-33
    Sem dúvida, entendamos ou não, Deus tem o controle de tudo, como viu o salmista, e bem sabe o que faz: "Ó Senhor, quão variadas são Vossas obras! Feitas, todas, com Sabedoria, a terra está cheia das coisas que criastes. Eis o mar, imenso e vasto, onde, sem conta, agitam-se grandes e pequenos animais. Todos esses seres esperam de Vós que lhes deis de comer a seu tempo. Vós dai-lhes e eles recolhem-no, abris a mão e fartam-se de bens. Se desviais o rosto, eles perturbam-se. Se retirais-lhes o sopro, expiram e voltam ao pó donde saíram." Sl 103,24-25.27-29
    Assim, a injustiça social, que é na maioria das vezes a causa primeira do sofrimento humano, precisa ser enfrentada por intensa participação do cristão nas instituições de sua sociedade. Não por acaso, Jesus vai acusar no Dia do Juízo: "Porque tive fome e não Me destes de comer; tive sede e não Me destes de beber; era peregrino e não Me acolhestes; nu e não Me vestistes; enfermo e na prisão e não Me visitastes." Mt 25,42-43
    Pois precisamos achar o estreito caminho entre a covardia, que faz calar, e a violência, que aumenta e agrava o sofrimento. E esse é o caminho da caridade, seja material ou, principalmente, espiritual, que através do amor, da prudência e da paciência liberta o ser humano do Mal. Avisando das dificuldades em segui-Lo, Jesus garantia seu mais frequente socorro: "Referi-vos essas coisas para que em Mim tenhais a Paz. No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo." Jo 16,33
    Mas, como visto, precisamos ter a liberdade para agir, porque uma 'participação preestabelecida', convenhamos, não faria o menor sentido. Que teríamos? Uma 'história' de roteiro e final conhecidos? Jesus deu este exemplo: "Qual de vós, tendo um servo ocupado em lavrar ou em guardar o gado, quando voltar do campo lhe dirá: Vem depressa sentar-te à mesa? E não lhe dirá, ao contrário: Prepara-me a ceia, cinge-te e serve-me, enquanto como e bebo, e depois disto comerás e beberás tu? E se o servo tiver feito tudo que lhe ordenara, fica o senhor devendo-lhe alguma obrigação? Assim também vós, depois de terdes feito tudo que vos foi ordenado, dizei: 'Somos inúteis servos. Fizemos apenas o que devíamos fazer.'" Lc 17-7-10
    Por isso, Ele exortava os Apóstolos: "Os Apóstolos disseram ao Senhor: 'Aumenta-nos a fé!' Disse o Senhor: 'Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: arranca-te e transplanta-te no mar, e ela obedecer-vos-á.'" Lc 17,5-6
    Quer mesmo que abracemos as maiores obras: "A outro disse: 'Segue-Me.' Mas ele pediu: 'Senhor, primeiro permite-me ir enterrar meu pai.' Mas Jesus disse-lhe: 'Deixa que os mortos enterrem seus mortos. Tu, porém, vai e anuncia o Reino de Deus.'" Lc 9,59-60
    Notemos, pois, que a caridade, que é o mais elevado mandamento social, também é inspirada pela Divina Graça. Não é, igualmente, algo que nos é dado pronto e acabado. Ela é inspirada no coração do cristão. O jovem rico que buscou Jesus até tinha algum apreço pela santidade, mas teria que dar mais largo passo para realmente alcançá-la: "Respondeu Jesus: 'Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me!'" Mt 19,21
    Assim o cristão sente a vontade de praticar a caridade, mas precisa perseverar, crendo no comando de Deus, para que não desanime diante dos desafios que vão surgindo. Ao pedir a Jesus que fosse liberto de um 'espinho na carne', por exemplo, São Paulo não foi atendido: "Mas Ele disse-me: 'Basta-te Minha Graça, porque é na fraqueza que Minha força se revela totalmente.' Portanto, prefiro gloriar-me de minhas fraquezas, para que em mim habite a força de Cristo. Eis porque sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo. Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte." 2 Cor 12,9-10
    Então vem à cena a solidariedade, expressão maior da caridade espiritual, que tão bem representa o agir de Deus e o espírito cristão. Diferente de um deus interventor, temos Deus solidário que nos auxilia para muito além das nossas necessidades materiais. Não foi isso o que Jesus veio fazer entre nós? Viver conosco as dificuldades humanas, mostrar-nos o caminho para vencer o pecado e reconciliar-nos com o Pai? São Tiago Menor ensina: "A religião pura e sem mácula, aos olhos de Deus e Nosso Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas em suas aflições, e conservar-se puro da corrupção deste mundo." Tg 1,27
    E São Paulo diz da infinda busca pela transcendência, desde sempre fomentada por Deus: "Ele fez nascer de um só homem todo o gênero humano, para que habitasse sobre toda a face da terra. Fixou aos povos os tempos e os limites de sua habitação. Tudo isso para que procurem a Deus e esforcem-se por encontrá-Lo como que às apalpadelas, pois na verdade Ele não está longe de cada um de nós. Porque é n'Ele que temos a vida, o movimento e o ser..." At 17,26-28a
    Devemos fazer o mesmo que Jesus, então: apoiar, dedicar nosso conhecimento e nosso tempo convivendo e consolando os mais carentes nas mais difíceis realidades. Quando perguntado se Ele era realmente o Messias, Ele deu essa resposta aos discípulos de São João Batista: "... aos pobres é anunciado o Evangelho." Lc 7,22
    A solidariedade já é um imperativo moral e ético em qualquer sociedade. E a Igreja, enquanto Corpo Místico de Cristo, ou seja, Sacerdotes e fiéis, tem o sério compromisso de a todos prover essa especial esperança. São Paulo prega ao Efésios: "Exorto-vos, pois, - prisioneiro que sou pela causa do Senhor -, que leveis uma vida digna da vocação à qual fostes chamados, com toda humildade e amabilidade, com grandeza de alma, suportando-vos mutuamente com caridade. Sede solícitos em conservar a unidade do Espírito no vínculo da Paz. Sede um só corpo e um só espírito, assim como fostes chamados pela vossa vocação a uma só esperança." Ef 4,1-4
    Ora, esse é o sentido da Revelação, como ele diz aos romanos: "Ora, tudo quanto outrora foi escrito, foi escrito para nossa instrução, a fim de que, pela perseverança e pela consolação que dão as Escrituras, tenhamos esperança." Rm 15,4
    Porque as relações interpessoais da Santíssima Trindade, ou seja, entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, são para nós modelo de sociedade e de interação, e isso também nada tem de predeterminados papéis ou autoritarismo. Jesus diz dos renascidos da Igreja: "O vento sopra onde quer. Ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito." Jo 3,8
    Lembremos o momento da Transfiguração de Jesus, quando Ele conversou com Moisés e Elias sobre Sua Paixão. É uma mostra de como as obras de Deus são construídas passo a passo. Aí a humanidade, e, mais especificamente, a Igreja por nascer, representada por São Pedro, São Tiago e São João, testemunhou as três Pessoas da Santíssima Trindade manifestando-se simultânea e harmoniosamente: Jesus transfigura-Se, o Espírito Santo apresenta-Se como nuvem e Deus Pai fala.
    A perfeita Comunhão entre Eles é nosso sumo exemplo de convivência em harmonia. Diz São João Evangelista: "Quem é o vencedor do mundo senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus? Ei-lo, Jesus Cristo, Aquele que veio pela Água e pelo Sangue; não só pela Água, mas pela Água e pelo Sangue. E o Espírito é Quem dá testemunho d'Ele, porque o Espírito é a Verdade." 1 Jo 5,5-7
    Pois como ensinou Jesus, amar a Deus é inseparável de amar ao próximo. Ele chamou-os de Mandamentos semelhantes: "'Amarás o Senhor Teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todas tuas forças.' Este é o maior e o primeiro Mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: 'Amarás teu próximo como a ti mesmo.'" Mt 22,37-39
    Esse é o projeto de Nosso Deus, caridoso e solidário, para nossa convivência. Essa é Sua mais frequente forma de agir: cooperar, oferecendo exemplos e condições. Jesus dizia: "Não credes que estou no Pai, e que o Pai está em Mim? As palavras que vos digo, não as digo de Mim mesmo, mas o Pai, que permanece em Mim, é que realiza Suas próprias obras." Jo 14,10
    E é assim que podemos realizar nossos mais preciosos sonhos. O Reino de Deus, enfim, é essa família que cabe a nós construir, como Jesus afirmou: "Todo aquele que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus, esse é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe." Mt 12,50

    "Tornai viva nossa fé, nossa esperança!"