terça-feira, 1 de maio de 2018

Maria na Bíblia


    A primeira referência bíblica à Nossa Senhora aparece já no Gênesis, logo após a queda por desobediência de Adão e Eva. Deus indica que uma mulher, descendente de Eva, esmagará a cabeça do inimigo, sedutor do mundo para o pecado: "Porei ódio entre ti e a mulher, entre tua descendência e a dela. Ela te esmagará a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar." Gn 3,15
    E antes mesmo da profecia da virgem que daria à luz, Jó afirmou a impureza do ser humano que nasce pecador, que após a Vinda de Jesus será lavada pela Água do Batismo. Com essa frase, no entanto, ele deu lugar para o entendimento de que o Filho de Deus haveria de nascer de uma mulher pura: "O homem nascido da mulher vive pouco tempo e é cheio de muitas misérias. Quem fará sair o Puro do impuro?" Jó 14,1.4
    De fato, em situação bem diferente da de Jesus, a humanidade reza com o salmista: "Eis que nasci na culpa, minha mãe concebeu-me no pecado." Sl 50,7
    Uma pré-figura de Maria, notadamente enquanto intercessora, é a rainha Ester, uma israelita que pede por seu povo ao esposo, o rei da Pérsia, cujo ministro, Amã, havia assinado um decreto condenando à morte toda a nação de Israel: "Se achei Graça a teus olhos, ó rei, e se ao rei lhe parecer bem: concede-me a vida, eis meu pedido! Salva meu povo, eis meu desejo!" Est 7,3
    Outra pré-figura, agora uma rainha-mãe, surge na história do rei Salomão. De fato, de tantas esposas que ele tinha, a rainha só poderia de ser sua mãe: "Betsabé foi, pois, ter com o rei... O rei levantou-se para ir-lhe ao encontro, fez-lhe uma profunda reverência e sentou-se no trono. Mandou colocar um trono para sua mãe, e ela sentou-se à sua direita..." 1 Rs 2,19
    E mais uma pré-figura aparece na forma de uma nuvem, que é símbolo do próprio Espírito Santo, porém de insignificante tamanho, quando por anos uma grande seca abatia Israel e não se via nem orvalho. Sem dúvida, Jesus, enquanto Redenção do povo de Deus, viria de uma pobre e humilde serva, como Maria atestará em seu cântico. Diz o Primeiro Livro de Reis: "Voltou Acab para comer e beber, enquanto Elias subiu ao cimo do Monte Carmelo, onde se encurvou por terra, pondo a cabeça entre os joelhos. Disse ao seu servo: 'Sobe um pouco, e olha para as bandas do mar.' Ele subiu, olhou e disse: 'Nada.' Por sete vezes, Elias disse-lhe: 'Volta e olha.' Na sétima vez, o servo respondeu: 'Eis que sobe do mar uma pequena nuvem, do tamanho da palma da mão.' Elias disse-lhe: 'Vai dizer a Acab que prepare seu carro e desça, para que a chuva não o detenha.'" 1 Rs 18,42-44
    Então vemos a profecia de Isaías, quando ele anuncia a Vinda do Salvador, nascido de uma Virgem, que pela argumentação de Jó já se pode deduzir como pura, sem pecado: "Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma Virgem conceberá e dará à luz um filho, e chamá-Lo-á Deus Conosco." Is 7,14
    Através do Profeta Miqueias, que também menciona a Virgem e que Jesus representaria a reconciliação do povo Consigo, Deus indica o lugar desse acontecimento: "'Mas tu, Belém-Efrata, tão pequena entre os clãs de Judá, é de ti que sairá para Mim Aquele que é chamado a governar Israel. Suas origens remontam aos tempos antigos, aos dias do longínquo passado.' Por isso, Deus os deixará, até o tempo em que der à luz aquela que há de dar à luz. Então o resto de Seus irmãos voltará para junto dos filhos de Israel. Ele levantar-Se-á para apascentá-los com o poder do Senhor, com a majestade do Nome do Senhor, Seu Deus." Mq 5,1-4a
    Em cumprimento a uma profecia de Jeremias, reconhecida por São Mateus, é Raquel que chora pelo Massacre dos Inocentes de Belém, perpetrado por Herodes na tentativa de assassinar o Menino Jesus. Mas sendo Maria a Nova Eva, como vai afirmar Jesus, sabe-se que desde então já é a Mãe Celeste quem realmente sofre com os massacres de seus filhos, pois, enquanto matriarca de Israel, Raquel também é pré-figura de Nossa Senhora: "Eis o que diz o Senhor: 'Ouve-se em Ramá uma voz, lamentos e amargos soluços. É Raquel que chora os filhos, recusando ser consolada, porque já não existem.'" Jr 31,15
    Através do próprio Jeremias, entretanto, Deus prometeu a restauração de Israel, o que só se deu após a redentora manifestação de Jesus. Então, nos versículos seguintes, também é Nossa Virgem Mãe que é consolada nessa profecia, ainda que apenas momentaneamente, pois tantas outras almas continuam se perdendo. Contudo, em Cristo a vitória final é certa: "Eis o que diz o Senhor: 'Cessa de gemer, enxuga tuas lágrimas! Tuas penas terão a recompensa' - Oráculo do Senhor. 'Voltarão teus filhos da terra inimiga. Desponta em teu futuro a esperança' - Oráculo do Senhor. 'Teus filhos voltarão à sua terra.'" Jr 31,16-17
    O salmista anteviu Maria como uma Rainha, e profetizou que, por sua perfeita piedade, seus filhos, Santos e Sacerdotes, reinariam sobre a terra e seu santíssimo nome seria eternamente celebrado: "Vosso trono, ó Deus, é eterno. De equidade é Vosso cetro real. ... posta-se à Vossa direita a Rainha, ornada de ouro de Ofir. Ouve, filha, vê e presta atenção: esquece teu povo e a casa de teu pai. De tua beleza encantar-Se-á o Rei. Ele é Teu Senhor, rende-Lhe homenagens. Tomarão teus filhos o lugar de teus pais, tu estabelecê-lo-ás príncipes sobre toda a terra. Celebrarei teu nome através das gerações. E os povos te louvarão eternamente." Sl 44,7.10b-12.17-18
    E enquanto pré-figura do próprio Jesus, o salmista anuncia Sua Paixão e Ressurreição, fazendo uma reverente deferência à Santíssima Mãe, nos termos com os quais ela irá identificar-se no Magnificat: a serva do Senhor: "Erguerei o Cálice da Salvação, invocando o Nome do Senhor. É penoso para o Senhor ver morrer Seus fiéis. Senhor, Eu sou Vosso Servo. Vosso Servo, Filho de Vossa serva. Quebrastes Meus grilhões. Oferecer-vos-ei um sacrifício de louvor, invocando o Nome do Senhor." Sl 115,4.6-8
    Nos Cânticos dos Cânticos, enfim, Maria aparece como a amada de Deus, a perfeita, a bem-aventurada, a bela, a radiante, a rainha entre as rainhas, mas também poderosa como um exército em prontidão para a luta contra o Mal: "Há sessenta rainhas, oitenta concubinas, e inumeráveis jovens mulheres. Uma, porém, é a Minha pomba, uma só a Minha perfeita. Ela é a única de sua mãe, a predileta daquela que a deu à luz. Ao vê-la, as donzelas proclamam-na bem-aventurada. Rainhas e concubinas louvam-na. Quem é esta que surge como a aurora, bela como a lua, brilhante como o sol, temível como um exército em ordem de batalha?" Ct 6,8-10


O NASCIMENTO E A INFÂNCIA DE JESUS

    O cumprimento dos tempos, segundo São Lucas, deu-se pela contagem de seis meses após a concepção de São João Batista por Santa Isabel, e ele afirma que na saudação o Arcanjo já identificava Nossa Senhora como agraciada, além da permanente presença Deus em sua alma: "No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de Davi e o nome da virgem era Maria. Entrando, o anjo disse-lhe: 'Ave, cheia de Graça, o Senhor é contigo.'" Lc 1,28
    Afeita às manifestações celestes, a Imaculada Virgem não estranhou a aparição do anjo, apenas se indagou a que se deviam aquelas palavras: "Perturbou-se ela com estas palavras e pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação." Lc 1,29
    Foi quando o Arcanjo São Gabriel declarou Sua mais nova e incomparável Graça: era plano de Deus que se desse em seu ventre a gestação do Rei, o Filho do Altíssimo: "O anjo disse-lhe: 'Não temas, Maria, pois encontraste Graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um Filho, e Lhe porás o Nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus dar-Lhe-á o trono de Seu pai Davi. Ele reinará eternamente na Casa de Jacó, e Seu Reino não terá fim." Lc 1,30-33
    Como era consagrada, voto com o qual concordara São José, ela não entendeu como poderia acontecer tal concepção: "Maria perguntou ao anjo: 'Como se fará isso, pois não conheço homem?'" Lc 1,34
    De fato, desposar não representa necessariamente conjunção carnal, a exemplo do Mistério que é a união entre Cristo e a Igreja: "Ora, assim como a Igreja é submissa a Cristo, assim também o sejam em tudo as mulheres a seus maridos. Maridos, amai vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e entregou-Se por ela... Este mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja." Ef 5,24-25.32
    Afirmativamente, Jesus evocou a imagem de matrimônio para com a Igreja, quando comparou Sua presença entre nós às núpcias: "Jesus respondeu-lhes: 'Porventura podem jejuar os convidados das núpcias, enquanto com eles está o Esposo? Enquanto têm consigo o Esposo, não lhes é possível jejuar. Dias virão, porém, em que o Esposo lhes será tirado, então jejuarão.'" Mc 2,19-20
    E como Maria é a esposa do Espírito Santo, São José, perfeito exemplo de Sacerdote, portou-se como o amigo do Esposo, como se referiu São João Batista a Jesus: "Aquele que tem a esposa é o Esposo. O amigo do Esposo, porém, que está presente e ouve-O, regozija-se sobremodo com a voz do Esposo. Nisso consiste minha alegria, que agora se completa." Jo 3,29
    O Arcanjo São Gabriel então explicou a Virgem de Nazaré a obra do Divino Paráclito, deixando claro que Jesus seria o próprio Filho Deus. Ou seja, que ela era a Virgem anunciada nas Escrituras: "Respondeu-lhe o anjo: 'O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com Sua sombra. Por isso, o Ente Santo que de ti nascer será chamado Filho de Deus.'" Lc 1,35
    Como ardorosamente aspirava a Salvação, Nossa Mãe Celeste logo se prontificou: "Então disse Maria: 'Eu sou a serva do Senhor.'" Lc 1,38a
    E disse o 'sim' pelo qual a humanidade ansiou, à espera de Deus andando entre Seu povo: "Faça-se em mim segundo tua palavra.'" Lc 1,38b
    Contudo, Maria não tinha como explicar tal gravidez a São José, por isso sequer tentou, gerando uma situação que São Mateus narrou assim: "Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, Sua mãe, estava desposada com José. Sem que coabitassem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo. José, seu esposo, que era homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente. Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e disse-lhe: 'José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois Aquele que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho, a Quem porás o Nome de Jesus, porque Ele salvará Seu povo dos pecados.'" Mt 1,18-21
    Esclarecida a situação, o caritativo espírito de Maria dispôs-se a visitar sua parenta na Judeia, para também com ela compartilhar tamanha felicidade. E lá chegando, tão somente por sua saudação Santa Isabel e São João Batista ficaram cheios do Espírito Santo: "Naqueles dias, Maria levantou-se e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Ora, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio. E Isabel ficou cheia do Espírito Santo." Lc 2,39-41
    Assim inspirada, Santa Isabel logo atinou o que se passava: era a Vinda do Salvador: "E exclamou em alta voz: 'Bendita és tu entre as mulheres! E bendito é o Fruto de teu ventre!'" Lc 1,42
    E exultante de alegria, deu-lhe o título que melhor traduz a indizível Graça de Maria: Mãe de Deus: "De onde me vem esta honra de vir a mim a Mãe de Meu Senhor?" Lc 1,43
    Santa Isabel explicou-se: "Pois assim que a voz de tua saudação chegou a meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria em meu seio." Lc 1,44
    É quando, em resposta, ouvimos seu cântico, o Magnificat, versos que só poderiam ser compostos por quem conhece as Escrituras e vive em profunda Comunhão com o Santo Espírito. Aí ela atestou sua humilde condição espiritual e física: "E Maria disse: 'Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, Meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva.'" Lc 1,46-48a
    Mas profetizou: "Por isto, desde agora, todas as gerações proclamar-me-ão bem-aventurada." Lc 1,48b
    E de fato falava em Nome de Deus, pois é notório que essa profecia vem se cumprindo através dos séculos. Esse critério foi estabelecido por Moisés: "Quando o Profeta tiver falado em Nome do Senhor, se o que ele disse não se realizar, é que essa palavra não veio do Senhor." Dt 18,22a
    Professou ainda as várias Graças com as quais vinha sendo cumulada, entre elas certamente sua Imaculada Conceição no ventre de Santa Ana, bem como a grande dádiva que lhe foram seus santos pais: "Porque em mim realizou maravilhas Aquele que é poderoso, e Cujo Nome é Santo." Lc 1,49
    Testemunhou também a efetividade da Divina Misericórdia: "Sua Misericórdia estende-se de geração em geração sobre aqueles que O temem." Lc 1,50
    Assim como o poder e a Justiça de Deus: "Manifestou o poder de Seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos." Lc 1,51-53
    E afirmou que nela se realizaria a Salvação do povo de Deus, conforme as promessas feitas através dos Profetas: "Acolheu a Israel, Seu servo, lembrado da Sua Misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre." Lc 1,54-55
    Tão agraciada senhora, porém, não descuidava da caridade que devia a seus semelhantes, servindo: "Maria ficou com Isabel cerca de três meses. Depois voltou para casa." Lc 1,56
    São Lucas dá as referências históricas que nos levam à época do Nascimento de Jesus: "Naqueles tempos apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda a terra. Este recenseamento foi feito antes do governo de Quirino, na Síria." Lc 2,1-2
    E relata o cumprimento da profecia que apontava Belém como a cidade natal do Salvador: "Todos iam alistar-se, cada um em sua cidade. Também José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, a Judeia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, para alistar-se com sua esposa Maria, que estava grávida." Lc 2,3-5
    Indicando a sobrelotação da casa dos parentes de São José, ele registrou o humilde lugar que deu berço a Deus feito homem: "Estando eles ali, completaram-se seus dias e ela deu à luz seu Filho primogênito. E envolvendo-O em faixas, reclinou-O num presépio, porque não havia lugar para eles na sala." Lc 2,6-7
    Avisado por anjos numa esplendorosa visão, os pastores em vigília naquela noite foram até lá, enquanto a Mãe Celeste atenciosamente recolhia os relatos referentes ao Seu Digníssimo Filho: "Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o Menino deitado na manjedoura. Vendo-O, contaram o que se lhes havia dito a respeito deste Menino. Todos que os ouviam admiravam-se das coisas que lhes contavam os pastores. Maria conservava todas estas palavras, meditando-as em seu coração." Lc 2,16-19
    São Mateus também relatou Seu Nascimento, anotando uma expressiva e não judaica manifestação, pela visita de três Reis Magos, que O buscaram inicialmente na Cidade Santa: "Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do Oriente a Jerusalém. Perguntaram eles: 'Onde está o Rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos Sua estrela no Oriente e viemos adorá-Lo.'" Mt 2,1-2
    E chegando a Belém guiados pela estrela, deram-Lhe generosos presentes dignos de um rei, porém reverenciaram-nO como Deus: "Entrando na casa, acharam o Menino com Maria, Sua mãe. Prostrando-se diante d'Ele, adoraram-nO. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-Lhe como presentes: ouro, incenso e mirra." Mt 2,11
    Após a purificação de Nossa Senhora, Jesus foi levado ao Templo de Jerusalém. E pelo sacrifício oferecido vemos a humilde condição do casal, que não lançou mão dos caros presentes dados a Jesus, antevendo as necessidades da viagem ao Egito, em fuga da perseguição de Herodes: "Concluídos os dias de sua purificação segundo a Lei de Moisés, levaram-nO a Jerusalém para apresentá-Lo ao Senhor, conforme o que está escrito na Lei do Senhor: Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor (Ex 13,2); e para oferecerem o sacrifício prescrito pela Lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos." Lc 2,22-24
    Aí o religioso Simeão profetizou o 'sinal de contradição' que Jesus é para o mundo, assim como as plangentes dores que padeceria Nossa Senhora: "Seu pai e Sua mãe estavam admirados das coisas que d'Ele se diziam. Simeão abençoou-Os e disse a Maria, Sua mãe: 'Eis que este Menino está destinado a ser causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará tua alma." Lc 2,33-35
    Visando demonstrar aos judeus o cumprimento das profecias na Pessoa de Jesus, São Mateus não mencionou esta passagem por Jerusalém, detendo-se na narrativa da fuga para o Egito logo após a partida dos Reis Magos: "Depois de sua partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: 'Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe e foge para o Egito. Fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o Menino para matá-Lo.' José levantou-se durante a noite, tomou o Menino e Sua mãe e partiu para o Egito. Ali permaneceu até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo Profeta: 'Do Egito Eu chamei Meu Filho' (Os 11,1)." Mt 2,13-15
    Voltando do Egito, porém, São José voltou a escolher Nazaré, reconfirmando a opção de Nossa Senhora por esse lugar desde sua orfandade, porque, apesar de ser de Jerusalém, conforme ensina a Tradição, aí ela tinha parentes: "Com a morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egito, e disse: 'Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe e retorna à terra de Israel, porque morreram aqueles que atentavam contra a vida do Menino.' José levantou-se, tomou o Menino e Sua mãe e foi para a terra de Israel. Ao ouvir, porém, que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de seu pai Herodes, não ousou ir para lá. Avisado divinamente em sonhos, retirou-se para a província da Galileia e veio habitar na cidade de Nazaré, para que se cumprisse o que foi dito pelos Profetas: 'Será chamado Nazareno.' (Jz 13,5)" Mt 2,19-23
    Sem dúvida, ela também tinha parentes na Judeia, como vimos nas palavras do Arcanjo Gabriel: "Também Isabel, tua parenta, até ela concebeu um filho na velhice. E já está no sexto mês aquela que é tida por estéril, porque a Deus nenhuma coisa é impossível. Naqueles dias, Maria levantou-se e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel." Lc 1,36-37.39-40
    Há várias referências a esses parentes de Nazaré nos Evangelhos, como nos últimos relatos da infância de Jesus, na peregrinação da Sagrada Família a Jerusalém por ocasião da Páscoa, quando aos doze anos Ele ficou em Jerusalém, foi dado como perdido por três dias e reencontrado no Templo, arguindo os religiosos: "Acabados os dias da festa, quando voltavam, ficou o Menino Jesus em Jerusalém, sem que Seus pais o percebessem. Pensando que Ele estivesse com Seus companheiros de comitiva, andaram caminho de um dia e buscaram-nO entre parentes e conhecidos. Mas não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à Sua procura." Lc 2,43-44
    Além de um registro de que Jesus não tinha irmãos, como veremos adiante, são indícios, junto à Anunciação do anjo, às datas das gestações, à Visitação a Santa Isabel, ao Magnificat, à Apresentação no Templo, à sua presença no Pentecostes etc, de que São Lucas teve contato com gente que devotadamente cultuava sua memória: "Todos que O ouviam estavam maravilhados da Sabedoria de Suas respostas. Quando eles O viram, ficaram admirados. E Sua mãe disse-Lhe: 'Meu filho, que nos fizeste?! Eis que Teu pai e eu andávamos à Tua procura, cheios de aflição.' Respondeu-lhes Ele: 'Por que Me procuráveis? Não sabíeis que devo estar na Casa de Meu Pai?' Eles, porém, não compreenderam o que Ele lhes dissera. Em seguida, desceu com eles a Nazaré e era-lhes submisso. Sua mãe guardava todas estas coisas em seu coração." Lc 2,47-51


VIDA PÚBLICA DE JESUS

    Após Seu Batismo por São João Batista, e voltar a Galileia, Jesus vai a Caná para um casamento. Com Ele está Sua mãe, que toma parte da família de amigos diante de um possível vexame e recorre a Seus milagres, com os quais já estava acostumada: "Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-Lhe: 'Eles já não têm vinho.'" Jo 2,3
    Apesar de ter dito que Sua hora ainda não havia chegado, Nossa Senhora não se demove, pois sabia que a vida pública de Jesus já havia iniciado, e vai aos serviçais, preparando-os para as 'estranhas ordens' que lhes daria: "Disse, então, Sua mãe aos serventes: 'Fazei o que Ele vos disser.'" Jo 2,5
    E assim ela sempre acompanhou Jesus, desde quando partiu de Nazaré: "Depois disso, desceu para Cafarnaum, com Sua mãe, Seus irmãos e Seus discípulos. E ali só demoraram poucos dias." Jo 2,12
    Tão íntimos eram Eles que, tempos depois, na única viagem de volta a Nazaré, Jesus vai ser identificado apenas como o Filho de Maria. E é por essa passagem que vão alegar que a Santíssima Virgem teria outros filhos e filhas, o que é totalmente desmentido com a devida identificação de sua parenta de Nazaré, também chamada Maria, nos episódios que envolvem a Crucificação: "Depois, Ele partiu dali e foi para Sua pátria, seguido de Seus discípulos. Quando chegou o dia de sábado, começou a ensinar na sinagoga. Muitos O ouviam e, tomados de admiração, diziam: 'Donde Lhe vem isso? Que sabedoria é essa que Lhe foi dada e como se operam por Suas mãos tão grandes milagres? Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Não vivem aqui entre nós também Suas irmãs? E ficaram perplexos a Seu respeito." Mc 6,1-3
    Após esta visita, quando Jesus leu a citação do Profeta Isaías na qual Se apresenta como o Ungido previsto nas Escrituras, mais uma passagem que é exclusiva de São Lucas, vê-se que eles já estavam radicados em Cafarnaum: "Desceu a Cafarnaum, cidade da Galileia, e ali ensinava-os aos sábados." Lc 4,31
    São Marcos chega a dizer que a casa de São Pedro era sua casa: "Alguns dias depois, Jesus entrou novamente em Cafarnaum e souberam que Ele estava em casa." Mc 2,1
    E em Suas peregrinações Maria sempre vai estar por perto, como quando Ele definiu a família de Deus: "Jesus falava ainda à multidão, quando veio Sua mãe e Seus irmãos e do lado de fora esperavam a ocasião para falar-Lhe. Disse-Lhe alguém: 'Tua mãe e Teus irmãos estão aí fora, e querem falar-Te.' Jesus respondeu-lhe: 'Quem é Minha mãe e quem são Meus irmãos?' E apontando com a mão para Seus discípulos, acrescentou: 'Eis aqui Minha mãe e Meus irmãos. Todo aquele que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus, esse é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe." Mt 12,46-50
    Pois, além de sua importantíssima função na Sagrada Família, ela também se encaixa neste ensinamento. São Lucas atestou no episódio dos pastores de Belém, na noite do Natal: "Maria conservava todas estas palavras, meditando-as em seu coração." Lc 2,19
    E, como visto, no dia em que O encontraram no Templo de Jerusalém, ainda aos 12 anos: "Sua mãe guardava todas estas coisas em seu coração." Lc 2,51
    Pois a divina maternidade, com que foi agraciada, era consequência de sua estrita obediência a Deus: "Enquanto Ele assim falava, uma mulher levantou a voz do meio do povo e disse-Lhe: 'Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que Te amamentaram!' Mas Jesus replicou: 'Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a Palavra de Deus e observam-na!'" Lc 11,27-28
    Em fidelidade ao voto de castidade, bem como em respeito à virgindade por Deus preservada antes e depois do Nascimento de Jesus, Nossa Senhora, após a morte de São José, guardou a viuvez até a morte. Não por acaso, Jesus exaltou os eunucos: "Seus discípulos disseram-Lhe: 'Se tal é a condição do homem a respeito da mulher, é melhor não se casar!' Respondeu Ele: 'Nem todos são capazes de compreender o sentido desta palavra, mas somente aqueles a quem foi dado. Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor ao Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda.'" Mt 19,10-12
    Essa, aliás, é a condição dos anjos nos Céus, e será a daqueles que vencerem esse mundo, dado que as criaturas angélicas não casam nem se dão em casamento, conforme ensina Jesus: "Na Ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos, mas serão como os anjos de Deus no Céu." Mt 22,30
    Pode-se afirmar, entretanto, que Jesus foi gerado da carne de Maria. Isto é, Deus fez-Se carne da carne e na carne de Maria: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós, e vimos Sua Glória, a Glória que o Filho único recebe do Seu Pai, cheio de Graça e de Verdade." Jo 1,1.14
    São Paulo, ao identificar a ascendência de Maria, vai dizer: "... acerca de Seu Filho Jesus Cristo, Nosso Senhor, descendente de Davi quanto à carne..." Rm 1,3
    Enfim, Nossa Senhora vai ser vista ao lado de Jesus até Seus últimos suspiros. E nesta cena vemos a verdadeira mãe dos 'irmãos' de Jesus: uma parente sua, esposa de Cléofas: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua mãe, a irmã de Sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena." Jo 19,25
    São Marcos, descrevendo a mesma cena, vai apontar dois destes 'irmãos' como filhos de Maria de Cléofas: "Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde O depositavam. Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ungir Jesus." Mc 15,47;16,1
    E ainda enquanto estava na Cruz, Jesus vai fazer de Maria mãe de todos Seus discípulos, declarando-a a Nova Eva: "Quando Jesus viu Sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à Sua mãe: 'Mulher, eis aí teu filho.' Depois disse ao discípulo: 'Eis aí tua mãe.'" Jo 19,26-27a
    Desde então São João Evangelista vai tomá-la sob seus cuidados, o que é mais uma evidente prova de que ela não tinha outros filhos, senão teria ido morar com algum deles: "E dessa hora em diante, o discípulo levou-a para sua casa." Jo 19,27b
    Assim Nossa Mãe do Céu continuou entre os Apóstolos e seguidores de Jesus, como se vê nos fatos que antecederam o Pentecostes, dia do nascimento da Igreja: "Todos eles perseveravam unanimemente na oração, acompanhado das mulheres. Entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos d'Ele." At 1,14
    E se os Apóstolos, que estiveram apenas 3 anos e meio em companhia de Jesus, foram purificados por Sua Palavra, que dizer de Maria, ainda que nascida sem pecado, pois, fora raras exceções, esteve ao Seu lado por toda Sua vida, isto é, por mais de 30 anos? Ele garantiu aos Apóstolos: "Vós já estais puros pela Palavra que vos tenho anunciado." Jo 15,3
    Mais: se os Apóstolos foram privilegiados pelo que viram, como disse Jesus, que dizer de Nossa Mãe? "Mas, quanto a vós, bem-aventurados vossos olhos, porque veem! Ditosos vossos ouvidos, porque ouvem! Eu declaro-vos, em verdade: muitos Profetas e justos desejaram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não ouviram." Mt 13,16-17
    Outra: se o manto que vestia Jesus operava milagre, que dizer do ventre de Maria, que O carregou por 9 meses: "Jesus percebeu imediatamente que saíra d'Ele uma força e, voltando-Se para o povo, perguntou: 'Quem tocou Minhas vestes?'" Mc 5,30


NO LIVRO DO APOCALIPSE

    Apesar da divisão que foi dada aos capítulos do livro do Apocalipse, vê-se que a aparição de Nossa Senhora Coroada nos Céus é imediatamente subsequente a aparição da Arca da Aliança, donde se conclui que Maria é a definitiva Arca da Aliança. O simbolismo aí é evidente: assim como a Arca guardou às Tábuas da Lei, Maria trouxe no ventre o próprio Verbo feito carne: "Abriu-se o Templo de Deus no Céu e apareceu, no Seu templo, a Arca do Seu testamento. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e forte saraiva. Em seguida apareceu um grande sinal no Céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo de seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas." Ap 11,19;12,1
    Embora não esteja expressamente descrita na Bíblia, é óbvio a Assunção de Nossa Senhora aos Céus deduzida da passagem acima. Aliás, este fato foi-nos perfeitamente comunicado através das visões que teve a Beata Catarina Emmerich. É importante conhecê-las.
    E para que entendamos a grandiosidade desta Rainha, a Nova Eva, os Apóstolos e tribos de Israel são retratados como meras estrelas em sua coroa: "... uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo de seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas." Ap 12,1b
    São João Evangelista também relata que o demônio esteve à espreita de Nossa Senhora durante sua gravidez, pois sabia que dela viria o Salvador. Para tanto, usou a pessoa de Herodes, o Grande, no brutal episódio do massacre dos inocentes: "Esse Dragão deteve-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de que lhe devorasse o Filho, quando ela desse à luz." Ap 12,4b
    Com as perseguições aos cristãos em Jerusalém, iniciadas após a morte de Santo Estevão, São João Apóstolo deixa de ser o parceiro de São Pedro para ir com Maria à área rural da cidade de Éfeso, um lugar escondido aos olhos dos judeus, um 'deserto' como ele mesmo relatou, onde cumpriria apenas um 'retiro' antes de sua Assunção: "A Mulher então fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um retiro para aí ser sustentada por mil duzentos e sessenta dias." Ap 12,6
    Com efeito, após a chegada de Jesus aos Céus, o inimigo voltou suas forças contra Nossa Senhora, que era na terra o maior sinal da passagem do Messias: "O Dragão, vendo que fora precipitado na terra, perseguiu a Mulher que dera à luz o Menino." Ap 12,13
    Diante disso, seguiram-se as sobrenaturais ajudas de Deus a Maria: "Mas à Mulher foram dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto, para o lugar de seu retiro, onde é alimentada por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente." Ap 12,14
    Entre tamanhos sofrimentos que teve, Nossa Mãe realmente foi animada de divina força, conforme as palavras do Profeta Isaías: "Até os adolescentes podem esgotar-se, e jovens robustos podem cambalear, mas aqueles que contam com o Senhor renovam suas forças. Ele dá-lhes asas de águia. Correm sem se cansar, vão para a frente sem se fatigar." Is 40,30-31
    Mas, mesmo no deserto, o demônio não deixou de persegui-la. Com tal registro, talvez São João queira indicar uma tentativa por parte de Herodes Antipas, após ter assassinado São Tiago Maior, de capturar e matar Nossa Senhora, já então celebrada como Bem-Aventurada Mãe de Deus: "A Serpente vomitou contra a Mulher um rio de água, para fazê-la submergir." Ap 12,15
    Nossa Mãe, contudo, jamais foi vencida pela serpente. Ao contrário, ela venceu-a, esmagando sua cabeça. Para tanto teve a ajuda das pessoas de São João Evangelista e dos demais cristãos que a auxiliaram na fuga e na permanência em Éfeso, até sua morte e Assunção aos Céus. Através da Igreja, correntes de orações haviam-se formado em intercessão pela Santíssima Virgem: "A terra, porém, acudiu à Mulher, abrindo a boca para engolir o rio que o Dragão vomitara." Ap 12,16
    E nestes termos, por fim, temos o registro de São João Evangelista apontando Maria como mãe dos seguidores de Jesus, quando o Dragão, tendo sua 'cabeça esmagada' pelas irretocáveis virtudes de seu Imaculado Coração, passou a perseguir a Igreja: "Este, então, irritou-se contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência, aos que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus." Ap 12,17
    Ademais, de todos relatos da vida do Cristo nas Escrituras, grita o constante silêncio de Maria, seja durante Sua vida pública, seja após Sua Ascensão. Era, de fato, uma mãe que se percebeu filha.

    "Oh Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós!"