terça-feira, 3 de abril de 2018

As Tentações


    Antes que meros impulsos humanos, portanto naturais, São Tiago Menor ensina que somos tentados por nossas próprias propensões para o pecado, ou seja, inequívocos sinais de desregradas paixões. "Ninguém, quando for tentado, diga: 'É Deus Quem me tenta.' Deus é inacessível ao mal e não tenta a ninguém. Cada um é tentado por sua própria concupiscência, que o atrai e alicia." Tg 1,13-14
    Mas se as tentações não vêm de Deus, devemos saber que Ele as permite, como vemos na história de Tobit, pai de Tobias, pois assim é Sua obra da Salvação das almas: "Deus permitiu que lhe acontecesse essa prova, para que sua paciência, como a do santo homem Jó, servisse de exemplo à posteridade. Como sempre havia temido a Deus desde sua infância, e guardado Seus Mandamentos, ele não se afligiu nem murmurou contra Deus por ter sido atingido pela cegueira. Mas perseverou firme no temor de Deus, e continuou a dar-Lhe graças em todos os dias de sua vida." Tb 2,12-14
    Porque também existe a obra do inimigo, aquele que, conhecedor dessas fraquezas, quer arrastar-nos à perdição. São Paulo diz aos tessalonicenses: "... pois receava que o tentador vos tivesse seduzido, e resultasse em nada nosso trabalho." 1 Ts 3,5
    E fala expressamente a São Timóteo dos que caem nos: "... laços do Demônio, que os mantém cativos e submetidos a seus caprichos." 2 Tm 2,26b
    Sabemos, porém, que, por força da Graça de Deus, manifesta na proteção de nosso Anjo da Guarda, a dominação do Maligno não se dá de uma só vez. Foi o que relatou São João Evangelista sobre Judas: "Durante a Ceia, quando o Demônio já tinha lançado no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de traí-Lo..." Jo 13,2
    Contudo, como disse São Paulo, ela pode ser total. São João Evangelista registrou ainda durante a Santa Ceia: "Nesse momento, depois do Pão, Satanás entrou em Judas." Jo 13,27

OS TRÊS ESTÁGIOS DA TENTAÇÃO

    São:
    1º - Sugestão - o tentador, conhecedor de nossos pecados, usa de ideias, ou de coisas ou de pessoas que manipula, para sugerir o pecado; (Já lemos de São Tiago: "Cada um é tentado por sua própria concupiscência, que o atrai e alicia." Tg 1,14)
    2º - Prazer - em resposta, porque desprovido da Graça ou por reincidente fraqueza, o tentado deleita-se tão somente em imaginar o pecado sugerido; (Segundo Jesus, aí o pecado já aconteceu: "... todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou em seu coração." Mt 5,28; No mesmo sentido, São Tiago afirma: "A concupiscência, depois de conceber, dá à luz o pecado..." Tg 1,15a)
    3º - Assentimento - o pecador, enfim, consente em pecar, e a tentação torna-se um pecado consumado. (Segundo São Tiago, nesse momento voluntariamente abraçamos o caminho da perdição: "... e o pecado, uma vez consumado, gera a morte." Tg 1,15b)

    Segundo São João Evangelista, a propensão ao pecado age em nós através da exacerbação das necessidades fisiológicas, da cobiça e da vaidade: "Porque tudo que há no mundo - a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida - não procede do Pai, mas do mundo." 1 Jo 2,16
    Porém, para que ninguém se engane atribuindo demasiado poder às tentações, São Paulo avisa: "Não vos sobreveio tentação alguma que ultrapassasse as forças humanas. Deus é fiel: não permitirá que sejais tentados além de vossas forças, mas, diante da tentação, Ele vos dará os meios de suportá-la e sairdes dela." 1 Cor 10,13
    Foi o que Deus disse a Caim, momentos antes de ele matar Abel: "Se precederes mal, o pecado estará à tua porta, espreitando-te; mas, tu deverás dominá-lo." Gn 4,7b
    Por isso, São Tiago elogia e garante: "Feliz o homem que suporta a tentação. Porque, depois de sofrer a provação, receberá a coroa da Vida que Deus prometeu aos que O amam." Tg 1,12

JESUS FOI TENTADO

    Ao ser tentado, Jesus prontamente tudo rejeitava quando ainda eram sugestões.


    Na primeira tentação, foi-Lhe oferecido comida, pois estava jejuando no deserto. Além de uma necessidade básica, porém, nesse caso a comida representa também os mundanos prazeres, como a gula:
    "Disse-Lhe então o Demônio:
    - Se és o Filho de Deus, ordena a esta pedra que se torne pão.
    Jesus respondeu:
    - Está escrito: 'Não só de pão vive o homem, mas de toda Palavra de Deus' (Dt 8,3)." Lc 4,3-4


    Na segunda, o diabo, mentiroso, mesmo sem ser dono de nada, oferece-Lhe riquezas e poder em troca da negação de Deus. Quer dizer, aí estão três das mais sérias e recorrentes ilusões no ideário humano: o ouro, o poder e o ateísmo:
    "O Demônio levou-O em seguida a um alto monte e mostrou-Lhe num só momento todos os reinos da terra, e disse-Lhe:
    - Dar-Te-ei todo este poder e a glória desses reinos, porque me foram dados, e dou-os a quem quero. Portanto, se Te prostrares diante de mim, tudo será Teu.
    Jesus disse-lhe:
    - Está escrito: 'Adorarás o Senhor Teu Deus, e a Ele só servirás (Dt 6,13).'" Lc 4, 5-8


    Na terceira, usando maliciosamente do conhecimento das Escrituras, o diabo propõe que Jesus teste, de modo suicida, os poderes de Deus. Aqui também estão representadas algumas exigências meramente humanas, que, sem a inspiração do Espírito Santo, ignoram a real natureza da Divina Providência e menosprezam o projeto de Deus:
    "O Demônio levou-O ainda a Jerusalém, ao mais alto ponto do Templo, e disse-Lhe:
    - Se és o Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo. Porque está escrito: 'Ordenou aos Seus anjos a teu respeito que te guardassem. E que te sustivessem em suas mãos, para não ferires teu pé nalguma pedra' (Sl 90,11s.).
    Jesus disse:
    - Foi dito: 'Não tentarás o Senhor Teu Deus' (Dt 6,16)." Lc 4, 9-12

    Destas passagens, fica mais um importante detalhe: o inimigo, que não sabe o que pensamos mas vê o que fazemos, e tem o poder de 'sussurrar' ideias e palavras diretamente à nossa mente, procura ocasiões oportunas para tentar-nos. De fato, ainda sobre as tentações de Jesus no deserto, São Lucas relata: "Depois de tê-Lo assim tentado de todos os modos, o Demônio d'Ele apartou-se até outra ocasião." Lc 4,13

CONSELHOS E PROTEÇÃO DE DEUS

    No Pai Nosso, que, mais que diária, deve ser uma frequente oração, Jesus ensinou-nos a pedir: "... e não nos deixeis cair em tentação..." Mt 6,13
    Contudo, caso caiamos, na mesma oração Ele também ensinou a pedir a Pai que nos livrasse do completo domínio das garras do Maligno: "... mas (caso isso aconteça) livrai-nos do Mal." Idem
    Ora, Jesus descreveu-o como muito perigoso: "Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na Verdade, porque a Verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira." Jo 8,44
    Referindo-Se a seu modo dissimulado, mas igualmente perverso, disse mais: "O ladrão não vem senão para furtar, matar e destruir." Jo 10,10a
    E descreveu assim como ele tem minado o projeto da Criação: "Jesus propôs-lhes outra parábola: 'O Reino dos Céus é semelhante a um homem que tinha semeado boa semente em seu campo. Na hora, porém, em que os homens repousavam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e partiu.'" Mt 13,24-25
    Sabendo que ele tentaria destruir Sua Igreja, inicialmente representada pelos Apóstolos, Jesus avisou a São Pedro: "Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para peneirar-vos como o trigo..." Lc 22,31
    E avisou: "Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca." Mt 26,41
    Mas garantiu que a Igreja seria nosso indestrutível refúgio: "E Eu declaro-te: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei Minha Igreja. As portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18
    E estabeleceu uma sucinta, porém marcante distinção: "Quem é de Deus ouve as palavras de Deus, e se vós não as ouvis é porque não sois de Deus." Jo 8,47
    Não deixou de explicar, no entanto, como o inimigo age e distrai os mal-ouvidos: "Aqueles que estão à beira do caminho são aqueles que ouvem; mas depois vem o Demônio e tira-lhes a Palavra do coração, para que não creiam nem se salvem." Lc 8,12
    São João Evangelista, da mesma forma, percebia os que realmente creem em Deus pelo comportamento: "Aquele que diz conhecê-Lo e não guarda Seus Mandamentos é mentiroso, e a Verdade não está nele. Aquele, porém, que guarda Sua Palavra, nele o amor de Deus é verdadeiramente perfeito. É assim que conhecemos se estamos n'Ele: aquele que afirma permanecer n'Ele também deve viver como Ele viveu." 1 Jo 2,4-6
    Grande místico, ele não tinha dúvida: "... o mundo todo jaz sob o Maligno." 1 Jo 5,19b
    Porque com a chegada de Jesus ao Céu, junto ao Pai temos nosso vitorioso defensor, mas o diabo, o acusador, foi precipitado à Terra: "Eu ouvi no Céu uma forte voz que dizia: 'Agora chegou a Salvação, o poder e a realeza de Nosso Deus, assim como a autoridade de Seu Cristo, porque foi precipitado o acusador de nossos irmãos, que os acusava, dia e noite, diante do Nosso Deus.'" Ap 12,10
    Uma vez aqui na Terra, desde então ele tem perseguido os filhos de Nossa Mãe Celeste, ou seja, a Igreja: "Este, então, irritou-se contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de seus filhos, aos que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus." Ap 12,17
    Por isso, São Pedro exorta-nos a resistir, lembrando que Deus nos concede o dom da fortaleza: "Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o Demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar. Resisti-lhe fortes na . Vós sabeis que vossos irmãos, que estão espalhados pelo mundo, sofrem os mesmos padecimentos que vós. O Deus de toda Graça, que vos chamou em Cristo à Sua eterna Glória, depois que tiverdes padecido um pouco, aperfeiçoar-vos-á, tornar-vos-á inabaláveis, fortificar-vos-á." 1 Pd 5,8-10
    Denunciando a cobiça e suas consequentes aflições, São Paulo recomenda a prática de virtudes a São Timóteo: "Mas tu, ó homem de Deus, foge desses vícios e com todo empenho procura a piedade, a fé, a caridade, a paciência, a mansidão." 1 Tm 6,11    
    Condena também as ilusões e os vãos debates, aconselhando as boas companhias dos verdadeiros religiosos: "Foge das paixões da mocidade, empenha-te em buscar a justiça, a fé, a caridade, a Paz, com aqueles que invocam o Senhor com pureza de coração. Rejeita as tolas e absurdas discussões, visto que geram contendas." 2 Tm 2,22-23
    Pede cuidado no trato com os que estão em pecados: "Irmãos, se alguém for surpreendido numa falta, vós, que sois animados pelo Espírito, admoestai-o em espírito de mansidão. E tem cuidado de ti mesmo, para que não caias também em tentação!" Gl 6,1-2
    E explica: "Não quero que sejamos vencidos por Satanás, pois não ignoramos suas maquinações." 2 Cor 2,11
    São Tiago Menor, tal e qual São João Evangelista, aponta como definitiva solução a perfeita obediência aos Mandamentos de Deus: "Sede submissos a Deus. Resisti ao Demônio, e ele fugirá para longe de vós." Tg 4,7
    Com efeito, São Pedro afirma que só pela obediência a Deus é dado receber o Santo Espírito: "Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem." At 5,32
    E São João Evangelista só atestou a santidade através da Unção do Espírito Santo, a Quem chama de 'germe de Deus', que nos é concedida pela Graça dos Sacramentos e manifesta-se na virtude da temperança: "Todo aquele que é nascido de Deus não peca, porque o germe divino nele reside... ... o que é gerado de Deus se acautela, e o Maligno não o toca." 1 Jo 3,9a;5,18b
    Ele diz que este é o grande diferencial do cristão: "Quem observa Seus Mandamentos permanece em Deus e Deus nele. É nisto que reconhecemos que Ele permanece em nós: pelo Espírito que nos deu." 1 Jo 3,24
    São Paulo explica assim o feito do Pentecostes: "A Lei do Espírito de Vida libertou-me, em Jesus Cristo, da Lei do pecado e da morte. O que era impossível à Lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus o fez. Enviando, por causa do pecado, Seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne a fim de que a justiça prescrita pela Lei fosse realizada em nós, que vivemos não segundo a carne, mas segundo o Espírito." Rm 8,2-4
    Segundo ele, os que vivem os Mandamentos sufocaram até mesmo as propensões ao pecado: "Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências. Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito." Gl 5,24-25
    Essa, contudo, não será a tendência dos tempos finais. Diz São Pedro: "Antes de tudo, sabei o seguinte: nos últimos tempos virão escarnecedores cheios de zombaria, que viverão segundo suas próprias concupiscências." 2 Pd 3,3
    Cientes de nossa falibilidade, portanto, e da difícil luta contra os pecados, é consolador sabermos que em Jesus temos uma nova chance. São João Evangelista disse em sua Primeira Epístola: "No entanto, se alguém pecar, temos junto do Pai um Defensor: Jesus Cristo, o Justo." 1 Jo 2,1

    "Santificai e reuni Vosso povo!"