sábado, 24 de março de 2018

A Vida Espiritual


    Mesmo entre as pessoas mais superficialistas, é simplesmente injustificável o desprezo para com os ensinamentos de Jesus, e assim para com o conjunto da Revelação. A Verdade é que fingem não perceber a profundidade de Suas Palavras, e não é por falta contundência. Ele reclamava de Nicodemos, um dos principais dos judeus: "Se vos tenho falado das coisas terrenas e não Me credes, como crereis se vos falar das celestiais?" Jo 3,12
    E acusou os religiosos de Jerusalém: "Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros, e não buscais a Glória que é só de Deus?" Jo 5,44
    O ponto central dessa dificuldade é que a realidade anunciada por Jesus deve ser experimentada no íntimo da alma, como Ele disse à samaritana no poço de Jacó: "Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e Verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito, e Seus adoradores devem adorá-Lo em espírito e Verdade." Jo 4,23-24
    E tal realidade não é nem um pouco vulgar. Ele exortava: "Portanto, sede perfeitos, assim como Vosso Pai celeste é perfeito." Mt 5,48
    Falava de um renascer: "Não te maravilhes de que Eu te tenha dito: Necessário é-vos nascer de novo. O vento sopra onde quer; ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito." Jo 3,7-8
    De outra Vida: "Assim como vive o Pai que Me enviou, e Eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer Minha Carne viverá por Mim." Jo 6,57
    Fazia uma clara distinção, em debate com os judeus: "Vós sois cá de baixo, Eu sou lá de cima. Vós sois deste mundo, Eu não sou deste mundo." Jo 8,23b
    Exigia, pois, plena fidelidade a Deus: "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os mais importantes preceitos da Lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade." Mt 23,23a
    Ele também havia apontado a razão dessa incapacidade: falta ao mundo o Espírito da Promessa, que foi derramado sobre a Igreja: "É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece, mas vós O conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós." Jo 14,17
    São Paulo entendeu muito bem o grande diferencial que representou o Pentecostes: "Ora, nós não recebemos o espírito do mundo, mas sim o Espírito que vem de Deus, que nos dá a conhecer as Graças que Deus nos prodigalizou e que pregamos numa linguagem que nos foi ensinada não pela sabedoria humana, mas pelo Espírito, que exprime as coisas espirituais em termos espirituais. Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar." 1 Cor 2,12-14
    Ele explica: "A Lei do Espírito de Vida libertou-me, em Jesus Cristo... O que era impossível à Lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus o fez. Enviando, por causa do pecado, Seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne, a fim de que a justiça prescrita pela Lei fosse realizada em nós que vivemos não segundo a carne, mas segundo o Espírito. Vós, porém, não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito, se realmente o Espírito de Deus habita em vós. Se alguém não possui o Espírito de Cristo, este não é d'Ele." Rm 8,2a.3-4.9
    De fato, respondendo aos Seus parentes que O provocavam a 'manifestar-Se' na Judeia, onde já corria risco de ser assassinado pelos religiosos, Jesus explicou: "O mundo não vos pode odiar, mas odeia-Me, porque Eu testemunho contra ele que suas obras são más." Jo 7,7
    E referindo-Se à missão dos Apóstolos, e assim da Igreja, Ele rezou ao Pai: "Dei-lhes Tua Palavra, mas o mundo odeia-os, porque eles não são do mundo, como também Eu não sou do mundo." Jo 17,14
    Contudo, ainda que antes do Pentecostes, Ele também reclamou dos discípulos, dois deles, que partiram de Jerusalém para Emaús no Domingo da Ressurreição: "Jesus disse-lhes: 'Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os Profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse em Sua Glória?'" Lc 24,25-26
    Aliás, por vezes teve que reclamar dos próprios Apóstolos, quando, por exemplo, de Sua Ressurreição: "Por fim apareceu aos Onze, quando estavam sentados à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e dureza de coração, por não acreditarem naqueles que O tinham visto ressuscitado." Mc 16,14
    Os seguidores de São Paulo, no mesmo sentido, reclamavam dos cristãos: "Teríamos muita coisa a dizer sobre isso, e coisas bem difíceis de explicar, dada vossa lentidão em compreender... A julgar pelo tempo, já devíeis ser mestres! Contudo, ainda necessitais que vos ensinem os primeiros rudimentos da Palavra de Deus; e tornastes-vos tais, que precisais de leite em vez de sólido alimento! Mas o sólido alimento é para os adultos, para aqueles que a experiência já exercitou na distinção do bem e do mal." Hb 5,11-12.14
    E assim também procedeu o próprio Apóstolo dos Gentios, na Primeira Carta aos Coríntios: "A vós, irmãos, não vos pude falar como a homens espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo. Eu dei-vos leite a beber, e não sólido alimento que ainda não podíeis suportar. Nem ainda agora o podeis, porque ainda sois carnais. Com efeito, enquanto houver entre vós ciúmes e contendas, não será porque sois carnais e procedeis de um modo totalmente humano?" 1 Cor 3,1-3
    Sem dúvida, a visão que ele tinha da humanidade era absolutamente singular: "Por isso, nós daqui em diante a ninguém conhecemos de um modo humano. Muito embora tenhamos considerado Cristo dessa maneira, agora já não O julgamos assim. Todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura. Passou o que era velho; eis que tudo se fez novo!" 2 Cor 5,16-17
    Por isso recomendava as práticas religiosas a São Timóteo: "Exercita-te na piedade. Se o exercício corporal traz algum pequeno proveito, a piedade, esta sim, é útil para tudo, porque tem a promessa da presente e da futura Vida. Eis uma Verdade absolutamente certa e digna de fé: se nos afadigamos e sofremos ultrajes, é porque pusemos nossa esperança em Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, sobretudo dos fiéis. " 1 Tm 4,8-10
    Não vacilava: "Sabemos que todo tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor." 2 Cor 5,6b
    Dizia: "Porque não miramos as coisas que se vêem, mas sim as que não se vêem . Pois as coisas que se vêem são temporais, e as que não se vêem são eternas." 2 Cor 4,17b
    E era incisivo: "Andamos na fé e não na visão." 2 Cor 5,7
    Ele bem conhecia a fonte das Sagradas Escrituras: "É, porventura, o favor dos homens que eu procuro, ou o de Deus? Por acaso tenho interesse em agradar aos homens? Se quisesse ainda agradar aos homens, não seria servo de Cristo. Asseguro-vos, irmãos, que o Evangelho pregado por mim não tem nada de humano. Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma revelação de Jesus Cristo." Gl 1,10-12
    Mas também tinha a exata medida das condições em que se dava a transmissão da Sã Doutrina: "Porém, temos este tesouro em vasos de barro, para que transpareça claramente que este poder extraordinário provém de Deus e não de nós." 2 Cor 4,7
    De toda forma, não se permitia acomodar: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação de vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada e o que é perfeito." Rm 12,2
    Ele exortava: "Vivei como filhos da Luz. E o fruto da Luz chama-se: bondade, justiça, Verdade. Discerni o que agrada ao Senhor, e não tenhais cumplicidade nas infrutíferas obras das trevas; pelo contrário, condenai-as abertamente." Ef 5,8b-11
    Para ele, o sentido da vida era bem claro: "Deus fez, a partir de um só homem, todo o gênero humano, para habitar em toda a face da Terra; e fixou a sequência dos tempos e os limites para sua habitação, a fim de que os homens procurem a Deus e esforcem-se por encontrá-Lo, mesmo tateando, embora não Se encontre longe de cada um de nós. Porque é n'Ele que temos a vida, o movimento e o ser..." At 17,26-28a
    Em sua profunda Comunhão com Deus, dizia-se pronto para deixar essa vida: "Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro. Mas, se o viver no corpo é útil para meu trabalho, não sei então o que devo preferir. Sinto-me pressionado dos dois lados: por uma parte, desejaria desprender-me para estar com Cristo - o que seria imensamente melhor-, mas, de outra parte, continuar a viver é mais necessário, por causa de vós..." Ef 1,21-24
    E como testemunha da Ressurreição, afirmava: "Se é só para esta vida que temos colocado nossa esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os mais dignos de lástima." 1 Cor 15,19
    Tinha plena ciência da efemeridade desta vida: "Pois enquanto permanecemos nesta tenda, gememos oprimidos: desejamos ser não despojados, mas revestidos com uma nova veste por cima da outra, de modo que o que há de mortal em nós seja absorvido pela Vida. Aquele que nos formou para este destino é Deus mesmo, que nos deu por penhor Seu Espírito. Por isso, estamos sempre cheios de confiança." 2 Cor 5,4-6a
    Explicou assim em que consistia a realidade espiritual vivida pelos Apóstolos, por ele mesmo e pelos reais seguidores do Messias: "Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as más paixões e concupiscências." Gl 5,24
    E o que representa a Santa Missa: "Eu exorto-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em vivo, santo e agradável sacrifício a Deus: é este vosso culto espiritual. Não relaxeis vosso zelo. Sede fervorosos de espírito. Servi ao Senhor." Rm 12,1.11
    Era assim, como Jesus havia prescrito, que ele se apresentava, como vemos no início da Carta aos Romanos: "Deus, a Quem sirvo em meu espírito anunciando o Evangelho de Seu Filho..." Rm 1,9a
    É também o que diz São Pedro, ao descrever o único modo de ser Igreja: "Achegai-vos a Ele, Pedra Viva que os homens rejeitaram, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus; e quais outras pedras vivas, vós também vos tornais os materiais deste edifício espiritual, um santo sacerdócio, para oferecer vítimas espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo." 1 Pd 2,4-5
    Não por acaso, São Paulo dizia com todas as letras contra quem se travam as verdadeiras e decisivas batalhas: "Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste tenebroso mundo, contra as forças espirituais do mal espalhadas nos ares." Ef 6,12
    Batalhas essas que duram por toda vida: "Irmãos, para que a extraordinária grandeza das revelações não me envaidecesse, foi espetado na minha carne um espinho, que é como um anjo de Satanás a esbofetear-me, a fim de que eu não me exalte demais. A esse propósito, roguei três vezes ao Senhor que o afastasse de mim. Mas Ele disse-me: 'Basta-te Minha Graça, pois é na fraqueza que a força se manifesta.' Por isso, de bom grado, eu me gloriarei de minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim. Eis porque me comprazo nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias sofridas por amor a Cristo. Pois quando eu me sinto fraco, é então que sou forte." 2 Cor 12.7-10
    E dava detalhes de como armar-se, defender-se e lutar: "Tomai, por tanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento de vosso dever. Ficai alerta, à cintura cingidos com a Verdade, o corpo vestido com a couraça da justiça, e os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da Paz. Sobretudo, embraçai o escudo da , com que possais apagar todos inflamados dardos do Maligno. Tomai, enfim, o capacete da Salvação e a espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus. Intensificai vossas invocações e súplicas. Orai em toda circunstância, pelo Espírito, no Qual perseverai em intensa vigília de súplica por todos cristãos." Ef 6,13-18
    Valendo-se de seu próprio exemplo, ele recomendava: "Sustentais o mesmo combate que me tendes visto travar, e no qual sabeis que eu continuo agora." Fl 1,3
    E o fazia com frequência: "Desejo realmente que estejais informados do árduo combate que sustento por amor de vós e dos de Laodiceia, assim como de todos que ainda não me viram pessoalmente!" Cl 2,1
    Ensinava o mesmo às pessoas mais próximas: "Eis aqui uma recomendação que te dou, meu filho Timóteo, de acordo com aquelas profecias que foram feitas a teu respeito: amparado nelas, sustenta o bom combate, com fidelidade e boa consciência, pois alguns desprezaram e naufragaram na fé." 1 Tm 1,18-19
    Pois o projeto de Deus vai muito além das visíveis criaturas: "N'Ele (Cristo) foram criadas todas as coisas nos Céus e na terra, as visíveis e as invisíveis criaturas. Tronos, dominações, principados, potestades: tudo foi criado por Ele e para Ele." Cl 1,16
    Seus seguidores, entretanto, iriam ainda mais longe ao falar em resistência, acenando para o próprio Sacrifício de Cristo: "Considerai, pois, atentamente Aquele que sofreu tantas contrariedades dos pecadores, e não vos deixeis abater pelo desânimo. Ainda não tendes resistido até o sangue, na luta contra o pecado." Hb 12,3-4
    Nada era, porém, que Jesus mesmo não houvesse previsto: "Expulsar-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que todo aquele que vos tirar a vida julgará prestar culto a Deus." Jo 16,2
    Mas Ele garantia que tudo está efetivamente sob pleno o controle de Deus: "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes Aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena. Não se vendem dois passarinhos por um asse? No entanto, nenhum cai por terra sem a vontade de Vosso Pai. Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois! Bem mais que os pássaros valeis vós. Portanto, quem der testemunho de Mim diante dos homens, também Eu darei testemunho dele diante de Meu Pai que está nos Céus." Mt 10,28-32
    Acaso poderíamos esconder nossos talentos? Jesus ensinou: "Veio, por fim, o que recebeu só um talento: 'Senhor', disse-Lhe, 'sabia que és um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, tive medo e fui esconder Teu talento na terra. Eis aqui, toma o que Te pertence.' Respondeu-lhe Seu Senhor: 'Mau e preguiçoso servo! Sabias que colho onde não semeei e que recolho onde não espalhei. Devias, pois, levar Meu dinheiro ao banco e, à Minha volta, Eu receberia com juros o que é Meu. Tirai-lhe este talento e dai-o ao que tem dez. Dar-se-á ao que tem e terá em abundância. Mas ao que não tem, tirar-se-á mesmo aquilo que julga ter. E a esse inútil servo, jogai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.'" Mt 25,24-30
    Poderia, sem estes talentos, prosperar a Igreja? São Paulo foi taxativo: "Assim, uma vez que aspirais aos dons espirituais, procurai tê-los em abundância para edificação da Igreja." 1 Cor 14,12
    Em nome de um claro sacrifício pela Salvação do próximo, pois, nosso dever é renegar toda e qualquer realização exclusivamente pessoal: "Em seguida, Jesus disse a Seus discípulos: 'Se alguém quiser vir Comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua Cruz e siga-Me.'" Mt 16,24
    Esse é o maior exemplo do próprio Cristo, que pregou: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá sua vida por seus amigos." Jo 15,13
    Por isso São João Evangelista replicava: "Nisto temos conhecido o amor: Jesus deu Sua vida por nós. Também nós devemos dar nossa vida pelos nossos irmãos." 1 Jo 3,16
    E dizia: "No amor não há medo. Ao contrário, o perfeito amor lança fora o medo, pois o medo implica castigo, e aquele que tem medo não chegou à perfeição do amor." 1 Jo 4,18


ORAÇÕES E PENITÊNCIAS

    Sob vários aspectos a vida de Jesus era muito restritiva. Logo no início de Sua vida pública, após o Batismo por São João, deram-se as tentações do deserto: "Em seguida, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio. Jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois, teve fome." Mt 4,1-2
    Sua fonte de vida, contudo, era sobrenatural: "Entretanto, os discípulos pediam-Lhe: 'Mestre, come.' Disse-lhes Jesus: 'Meu alimento é fazer a vontade d'Aquele que Me enviou, e cumprir Sua obra.'" Jo 4,31.34
    Suas orações eram muito intensas, como vimos na noite que antecedeu a escolha dos Apóstolos: "Naqueles dias, Jesus retirou-Se a uma montanha para rezar, e passou aí toda a noite orando a Deus." Lc 6,12
    Ou na noite em que foi entregue por Judas, no Horto das Oliveiras: "Ele entrou em agonia e orava ainda com mais instância, e Seu suor tornou-se como gotas de sangue a escorrer pela terra." Lc 22,44
    Por isso recomendava constante vigilância: "Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca." Mt 26,41
    E usou de vários modos para demonstrá-lo: "Propôs-lhes Jesus uma parábola para mostrar que é necessário orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo." Lc 18,1
    Em muitos momentos, Sua vida lembrava mesmo a de um eterno penitente: "Respondeu Jesus: 'As raposas têm suas tocas e as aves do céu, seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça.'" Mt 8,20
    Embora, entre tantas adversidades, Ele e os Apóstolos não pudessem conduzir-se sempre de modo tão extremo: "Ora, os discípulos de João e os fariseus jejuavam. Por isso, foram-Lhe perguntar: 'Por que jejuam os discípulos de João e os dos fariseus, mas Teus discípulos não?' Jesus respondeu-lhes: 'Podem porventura jejuar os convidados das núpcias, enquanto está com eles o Esposo? Enquanto têm consigo o esposo, não lhes é possível jejuar. Dias virão, porém, em que o Esposo lhes será tirado, e então jejuarão." Mc 2,18-20
    De toda forma, não viviam de banquetes, como demonstra a situação em que estavam quando Jesus foi informado da morte de São João Batista: "Ele disse-lhes: 'Vinde à parte, para algum lugar deserto, e descansai um pouco.' Porque eram muitos os que iam e vinham e nem tinham tempo para comer.'" Mc 6,31
    E assim foi desde o princípio: "Atravessava Jesus os campos de trigo num dia de sábado. Seus discípulos, tendo fome, começaram a arrancar as espigas para comê-las." Mt 12,1
    O Batista, sim, o último dos Profetas, era um absoluto penitente: "João andava vestido de pelo de camelo e trazia um cinto de couro em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre." Mc 1,6
    Aliás, desde a infância: "O menino foi crescendo e fortificava-se em espírito, e viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel." Lc 1,80
    Entre outros dons, tal condição conferia-lhe grande autoridade, obrigando toda a gente à confissão e às penitências: "Pessoas de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a circunvizinhança do Jordão vinham a ele. Confessavam seus pecados e eram batizados por ele nas águas do Jordão. Ao ver, porém, que muitos dos fariseus e dos saduceus vinham a seu batismo, disse-lhes: 'Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera vindoura? Dai, pois, frutos de verdadeira penitência.'" Mt 3,5-8
    Jesus atestou sua santidade: "João veio a vós no Caminho da justiça e não crestes nele. Os coletores, porém, e as prostitutas creram nele. E vós, vendo isto, nem fostes tocados de arrependimento para crerdes nele." Mt 21,32
    Há outros exemplos de absoluta ascese nos Evangelhos, como a viúva do Templo de Jerusalém, vista no dia da Apresentação de Jesus: "Havia também uma Profetisa chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser; era de avançada idade. Depois de ter vivido sete anos com seu marido desde sua virgindade, ficara viúva, e agora com oitenta e quatro anos não se apartava do Templo, noite-e-dia servindo a Deus em jejuns e orações. Chegando ela à mesma hora, louvava a Deus e falava de Jesus a todos aqueles que em Jerusalém esperavam a libertação." Lc 2,36-38
    Vivia também assim a pobre viúva observada por Jesus, que se abandonava por completo à Divina Providência: "Levantando os olhos, viu Jesus os ricos que deitavam suas ofertas no cofre do Templo. Viu também uma pobrezinha viúva deitar duas pequeninas moedas, e disse: 'Em verdade, digo-vos: esta pobre viúva pôs mais que os outros. Pois todos aqueles lançaram nas ofertas de Deus o que lhes sobra; esta, porém, deu, de sua indigência, tudo que lhe restava para o sustento.'" Lc 21,1-4
    Grande penitente, porém, e do qual pouco lembramos, era o próprio São Paulo. Seus registros são de grande contundência: "O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por Seu Corpo que é a Igreja." Cl 1,24
    E explicava: "... porque a vós é dado não somente crer em Cristo, mas ainda por Ele sofrer." Fl 1,29
    Essa prática ele trazia do judaísmo, e usou-a logo após a aparição de Jesus, quando de sua conversão: "Saulo levantou-se do chão. Abrindo, porém, os olhos, não via nada. Tomaram-no pela mão e introduziram-no em Damasco, onde esteve três dias sem ver, sem comer nem beber." At 9,8-9
    Ele ensinava: "Mortificai, pois, vossos membros no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria." Cl 3,5
    E declarou: "Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra. Porque estais mortos e vossa vida está escondida com Cristo em Deus." Cl 3,1-3
    Pois Jesus garantia: "Não vos inquieteis com o que haveis de comer ou beber; e não andeis com vãs preocupações. Porque os homens do mundo é que se preocupam com todas estas coisas. Mas Vosso Pai bem sabe que precisais de tudo isso. Antes buscai o Reino de Deus e sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo." Lc 12,29-31
    Em que consistiria ser cristão, pois, senão em participar de Seu Sacrifício, como nos oferecemos na Santa Missa? São Paulo rezava: "Anseio pelo conhecimento de Cristo e do poder da Sua Ressurreição, pela participação em Seus sofrimentos, tornando-me semelhante a Ele na morte, com a esperança de conseguir a Ressurreição dentre os mortos." Fl 3,10-11
    Dessas agruras, ele tratou em quase todas suas cartas: "Trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus para que também a Vida de Jesus se manifeste em nosso corpo. Embora estando vivos, somos a toda hora entregues à morte por causa de Jesus, para que também a Vida de Jesus apareça em nossa carne mortal." 2 Cor 4,10-11
    Viveu situações realmente difíceis, de grandes flagelações físicas: "Ali fomos maltratados desmedidamente, além de nossas forças, a ponto de termos perdido a esperança de sair com vida. Sentíamos dentro de nós mesmos a sentença de morte, para que aprendêssemos a pôr a nossa confiança não em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos." 2 Cor 1,8b-9
    Chegou a listar: "Mas em todas as coisas apresentamo-nos como ministros de Deus, por uma grande constância nas tribulações, nas misérias, nas angústias, nos açoites, nos cárceres, nos tumultos populares, nos trabalhos, nas vigílias, nas privações..." 2 Cor 6,4-5
    E a contar: "Muitas vezes vi a morte de perto. Cinco vezes recebi dos judeus os quarenta açoites menos um. Três vezes fui flagelado com varas. Uma vez apedrejado. Três vezes naufraguei, uma noite e um dia passei no abismo. Viagens sem conta, exposto a perigos nos rios, perigos de salteadores, perigos da parte de meus concidadãos, perigos da parte dos pagãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos entre falsos irmãos! Trabalhos e fadigas, repetidas vigílias, com fome e sede, frequentes jejuns, frio e nudez! Além de outras coisas, minha cotidiana preocupação, a solicitude por todas as igrejas!" 2 Cor 11,23b-28
    O Profeta Sofonias era ainda mais rigoroso, pois nem na pobreza garantia a completa indulgência da parte de Deus: "Procurai Javé, todos pobres da terra; vós que obedeceis a Seus Mandamentos, procurai a justiça, procurai a pobreza. Talvez, assim, acheis refúgio no Dia da ira de Javé." Sf 2,3
    Foi essa condição, no entanto, que Jesus propôs ao jovem rico, que se julgava Santo: "Respondeu Jesus: 'Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me!'" Mt 19,21
    E os vocacionados a seguir Jesus não tinham direito sequer às pequenas obras de fé, ou a familiares apegos: "A outro disse: 'Segue-Me.' Mas ele pediu: 'Senhor, permite-me ir primeiro enterrar meu pai.' Mas Jesus disse-lhe: 'Deixa que os mortos enterrem seus mortos; tu, porém, vai e anuncia o Reino de Deus.'" Lc 9,59-60
    Resolutamente, o Mestre não deixava dúvidas: "Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a Mim, não é digno de Mim. Quem ama seu filho mais que a Mim, não é digno de Mim." Mt 10,37
    Proclamando-Se Deus, ainda que indiretamente, nestes termos Ele apenas exigia o cumprimento do primeiro Mandamento, que fala de amor a Deus sobre todas as coisas: "Amarás o Senhor, Teu Deus, de todo teu coração e com toda tua alma, com toda tua força e com todo teu entendimento..." Mt 22,37
    Tal desapego, porém, não ficaria sem a devida recompensa espiritual. Ele assegurou: "E todo aquele que por Minha causa deixar irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras ou casa receberá o cêntuplo e possuirá a Vida Eterna." Mt 19,29


PERTO DE DEUS

    A Doutrina de Jesus, portanto, prima pelo mais prudente comedimento espiritual: "Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram." Mt 7,13
    E enquanto perfeito exemplo, Ele aponta para Si mesmo como baliza: "Jesus tornou a dizer-lhes: 'Em verdade, em verdade, digo-vos: Eu sou a Porta das ovelhas.'" Jo 10,7
    Alertou para o perigo da escravidão do pecado, deixando claro que só Ele pode conceder-nos a verdadeira liberdade: "Respondeu Jesus: 'Em verdade, em verdade, digo-vos: todo homem que se entrega ao pecado é seu escravo. Se, portanto, o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres.'" Jo 8,34-36
    Mas mesmo depois de anos de convertido, e de toda sua fortaleza espiritual, São Paulo seguia reconhecendo em si mesmo a concupiscência, isto é, a propensão ao pecado, cujo enfrentamento requer nossa perene vigília e os frequentes auxílios da Graça de Deus: "Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita o bem, porque o querer o bem está em mim, mas não sou capaz de efetuá-lo. Não faço o bem que quereria, mas faço o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que faço, mas sim o pecado que em mim habita. Homem infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte?... " Rm 7,18-20.24
    Por isso dizia: "Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia. Não só ela, mas também nós que temos as primícias do Espírito, gememos em nós mesmos aguardando a adoção, a redenção do nosso corpo. Porque pela esperança é que fomos salvos. Ora, ver o objeto da esperança já não é esperança; porque o que alguém vê, como é que ainda o espera? Nós que esperamos o que não vemos, é em paciência que o aguardamos. Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com inefáveis gemidos. E Aquele que perscruta os corações sabe o que deseja o Espírito, o Qual intercede pelos Santos, segundo Deus. Aliás, sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo Seus desígnios." Rm 8,22-28
    E assim ele lutou até o fim, quando avisou da proximidade de sua definitiva libertação: "Quanto a mim, estou a ponto de ser imolado e o instante da minha libertação aproxima-se. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé." 2 Tm 4,6-7
    O salmista já rezava: "Eu reconheço toda minha iniquidade, diante de mim está sempre o meu pecado." Sl 50,5
    Porque os pecados são muitos, como apontava Jesus: "Dizei somente: Sim, se é sim; não, se é não. Tudo o que passa além disto vem do Maligno." Mt 5,37
    E muitas também são nossas responsabilidades, principalmente para com os mais novos: "Guardai-vos de menosprezar um só destes pequenos, porque vos digo que seus anjos no Céu contemplam sem cessar a face de Meu Pai, que está nos Céus." Mt 18,10
    De fato, há horríveis possessões: "Vendo Jesus de longe, correu e prostrou-se diante d'Ele, gritando em alta voz: 'Que queres de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-Te por Deus, que não me atormentes.' É que Jesus lhe dizia: 'Espírito imundo, sai deste homem!' Perguntou-lhe Jesus: 'Qual é teu nome?' Respondeu-Lhe: 'Legião é meu nome, porque somos muitos.'" Mc 5,6-9
    A escravidão pode custar anos ou décadas: "Ouvistes que foi dito aos antigos: 'Não cometerás adultério.' Eu, porém, digo-vos: todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração." Mt 5,27-28
    Ou representar, ainda nessa vida, as próprias trevas: "Se teu olho estiver em mau estado, todo teu corpo estará nas trevas. E se a luz que está em ti são trevas, quão espessas deverão ser as trevas!" Mt 6,23
    E mais uma vez a 'solução' oferecida por Jesus parece radical: "Se teu olho direito é para ti causa de queda, arranca-o e lança-o longe de ti, porque te é preferível perder-se um só de teus membros, a que teu corpo todo seja lançado na geena. E se tua mão direita é para ti causa de queda, corta-a e lança-a longe de ti, porque te é preferível perder-se um só de teus membros, a que teu corpo inteiro seja atirado na geena." Mt 5,29-30
    Pois sem o socorro do Cordeiro de Deus, o verme do pecado sobreviverá mesmo no inferno: "Se teu pé for para ti ocasião de queda, corta-o fora; melhor te é entrares coxo na Vida Eterna do que, tendo dois pés, seres lançado à geena do fogo inextinguível, onde seu verme não morre e o fogo não se apaga." Mc 9,45-46
    São Paulo, por sinal, chegou a desistir da vida terrena de um fiel da igreja de Corinto, guardando suas esperanças para as penas do Purgatório: "Em Nome do Senhor Jesus -, reunidos vós e meu espírito, com o poder de Nosso Senhor Jesus -, seja esse homem entregue a Satanás, para mortificação de seu corpo, a fim de que sua alma seja salva no Dia do Senhor Jesus." 1 Cor 5,4-5
    Quem for agraciado com uma cura da alma, portanto, melhor que não torne a pecar. Jesus advertiu assim o cego de nascença que Ele havia curado: "Mais tarde, Jesus achou-o no Templo e disse-lhe: 'Eis que ficaste são; já não peques, para não te acontecer coisa pior.'" Jo 5,14
    Quem registrou as graves consequências de uma recaída em pecado foi São Mateus, anotando as Palavras de Jesus: "Quando o espírito impuro sai de um homem, ei-lo errante por áridos lugares à procura de um repouso que não acha. Diz ele, então: 'Voltarei à casa donde saí.' E, voltando, encontra-a vazia, limpa e enfeitada. Vai, então, buscar sete outros espíritos piores que ele, e entram nessa casa e estabelecem-se aí; e o último estado daquele homem torna-se pior que o primeiro." Mt 12,43-45a
    Certos exorcismos, então, não são nada fáceis. Requerem vida de verdadeira piedade, como Jesus ensinou aos Apóstolos: "Quanto a esta espécie de demônio, só se pode expulsar à força de oração e de jejum." Mt 17,20b
    Por isso São Paulo alertou sobre o respeito aos Sacramentos: "Na qualidade de colaboradores de Deus, exortamo-vos a que não recebais Sua Graça em vão." 2 Cor 6,1
    Ele cuidava zelosamente do rebanho de Cristo, e dizia porquê: "Não quero que sejamos vencidos por Satanás, pois não ignoramos suas maquinações." 2 Cor 2,11
    Esse também era o empenho de São Pedro: "Portanto, irmãos, cuidai cada vez mais em assegurar vossa vocação e eleição. Procedendo deste modo, não tropeçareis jamais. Eis porque não cessarei de trazer-vos à memória essas coisas, embora estejais instruídos e confirmados na presente Verdade. Tenho por meu dever, enquanto estiver neste tabernáculo, de manter-vos vigilantes com minhas admoestações." 2 Pd 1,10.12-13
    Como grande trunfo nessa batalha, Jesus exalta a obediência diante dos religiosos judeus: "Quem é de Deus ouve as Palavras de Deus, e se vós não as ouvis é porque não sois de Deus." Jo 8,47
    E denunciava: "Vós tendes como pai o Demônio e quereis fazer os desejos de vosso pai. Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na Verdade, porque a Verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira." Jo 8,44
    A postura dos cristãos diante do Mal, todavia, exige força espiritual: "Eu, porém, vos digo: não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém te citar em justiça para tirar-te a túnica, cede-lhe também a capa. Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, anda dois mil. Dá a quem te pede e não te desvies daquele que quer pedir-te emprestado. Tendes ouvido o que foi dito: 'Amarás teu próximo e poderás odiar teu inimigo.' Eu, porém, digo-vos: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo sereis os filhos de Vosso Pai do Céu, pois Ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos." Mt 5,39-45
    Pois, antes de tudo, o seguimento do Cristo é um profundo exercício de antecipação para a Paz: "Se estás, portanto, para fazer tua oferta diante do altar e lembrar-te que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa diante do altar tua oferta e primeiro vai reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer tua oferta." Mt 5,23-24
    Tal resignação, porém, não é nada meramente humano. Ao contrário, só é possível com os divinos auxílios, quando Ele mesmo assume todo comando sobre nós. Os seguidores de São Paulo rezavam: "E o Deus da Paz... queira dispor-vos ao bem e conceder-vos que cumprais Sua Vontade, realizando Ele próprio em vós o que é agradável a Seus olhos, por Jesus Cristo..." Hb 13,20a.21a
    São Paulo, de fato, sustentava esse argumento: "Porque é Deus, segundo Seu beneplácito, Quem em vós realiza o querer e o executar." Fl 2,13
    E convidada a contemplar as coisas do alto: "Sede contentes e agradecidos ao Pai, que vos fez dignos de participar da herança dos Santos na Luz. Ele arrancou-nos do poder das trevas e introduziu-nos no Reino de Seu amado Filho, no Qual temos a Redenção, a remissão dos pecados. Ele é a imagem de Deus invisível, o Primogênito de toda Criação. E também a vós, que, há bem pouco tempo, eram alheios a Deus e inimigos por vossos pensamentos e más obras, eis que agora Ele vos reconciliou pela morte de Seu Corpo humano, para que possais apresentar-vos santos, imaculados, irrepreensíveis aos olhos do Pai. Para isto, é necessário que permaneçais fundados e firmes na fé, inabaláveis na esperança do Evangelho que ouvistes, que foi pregado a toda criatura que há debaixo do Céu, e do qual eu, Paulo, fui constituído ministro." Cl 1,12-15.21-23
    Ora, não foi assim que se deixou conduzir Nossa Senhora diante da Anunciação de São Gabriel Arcanjo? Não deveríamos viver esta mesma entrega? "Então disse Maria: 'Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo tua palavra.'" Lc 1,38a
    Uma das mostras de sua espiritualidade é a reação que teve nesta aparição, pois não a estranhou: "Entrando, o anjo disse-lhe: 'Ave, cheia de Graça, o Senhor é contigo.' Perturbou-se ela com estas palavras, e pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação." Lc 1,28-29
    Quando, enfim, iremos entender a profundidade do silêncio de Nossa Mãe Celeste? "Maria conservava todas estas palavras, meditando-as em seu coração." Lc 2,19
    Pois confirmando o que ensina São Paulo, Jesus afirmou que a partir de um determinado momento é Deus Quem assume o comando de nosso crescimento espiritual: "... e todo ramo que dá fruto, Ele limpa-o, para que dê ainda mais frutos." Jo 15,2b
    E prometeu Sua real presença entre os membros da Igreja: "Porque onde dois ou três estão reunidos em Meu Nome, aí estou Eu no meio deles." Mt 18,20
    Assim, muitos de nós já vivem concretamente uma especial proximidade de Deus: "Vendo Jesus que ele falara sabiamente, disse-lhe: 'Não estás longe do Reino de Deus.'" Mt 12,34a
    São Paulo afirma: "... quem se une ao Senhor torna-se com Ele um só Espírito." 1 Cor 6,17
    E diz: "Consequentemente, já não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois concidadãos dos Santos e membros da família de Deus." Ef 2,19
    Mais: "... somos cidadãos dos Céus." Fl 3,20a

    "Santificai e reuni Vosso povo!"