segunda-feira, 12 de março de 2018

A Preguiça


    O Catecismo ensina que a preguiça se instala no coração por falta de humildade e de práticas de fé: "Outra tentação, cuja porta é aberta pela presunção, é a acídia (chamada também 'preguiça'). Os Padres Espirituais entendem esta palavra como uma forma de depressão devida ao relaxamento da ascese, à diminuição da vigilância, à negligência do coração... O doloroso desânimo é o inverso da presunção. Quem é humilde não se surpreende com sua miséria. Passa então a ter mais confiança, a perseverar na constância." CIC 2733
    O Catecismo também dá o conceito de presunção, que dá ensejo à preguiça: "Há duas espécies de presunção: ou o homem presume de suas capacidades (esperando poder salvar-se sem a ajuda do alto), ou então presume da onipotência ou da Misericórdia de Deus (esperando obter Seu perdão sem conversão e a Glória sem mérito)." CIC 2092
    Segundo o livro dos Provérbios, esse mal é uma forma de entorpecimento: "A preguiça cai no torpor: a indolente alma terá fome." Pr 19,15
    Em seguida, o autor sagrado torna a apontá-la como razão da pobreza material: "Não sejas amigo do sono, para que não te tornes pobre: abre os olhos e terás pão à vontade." Pr 20,13
    Idem: "... o beberrão e o comilão empobrecem, e o dorminhoco veste-se com trapos." Pr 23,21
    Em sentido contrário, segundo esse mesmo livro, a mulher virtuosa é aquela que: "... procura lã e linho e trabalha com mão alegre. Levanta-se, ainda de noite, distribui a comida à sua casa e a tarefa às suas servas. Estende os braços ao infeliz e abre a mão ao indigente. Ela não teme a neve em sua casa, porque toda sua família tem vestes duplas. Vigia o andamento de sua casa e não come o pão da ociosidade." Pr 31,13.15.20.21.27
    O Eclesiástico, por sua vez, acusa os pecados que a preguiça traz: "... a ociosidade ensina muita malícia." Eclo 33,29
    Para ele, o beberrão está em seus braços: "Não é um pouco de vinho suficiente para um homem bem-educado? Assim não terás sono pesado, e não sentirás dor." Eclo 31,22
    E o preguiçoso sonega caridade espiritual: "Não tenhas preguiça de visitar um doente, pois é assim que te firmarás na caridade." Eclo 7,39
    O Profeta Ezequiel, vale notar, diz que os pecados de Sodoma não eram os escândalos sexuais. Estes eram consequências de outros graves erros: "O crime da tua irmã Sodoma era este: opulência, glutoneria, indolência, ociosidade..." Ez 16,49
    Jesus exorta a que sejamos pessoas de atitude, avessos aos falatórios, à lisonja e às vazias promessas: "Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, disse-lhe: 'Meu filho, vai trabalhar hoje na vinha.' Respondeu ele: 'Não quero.' Mas, em seguida, tocado de arrependimento, foi. Dirigindo-se depois ao outro, disse-lhe a mesma coisa. O filho respondeu: 'Sim, pai!' Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?" Mt 21,28-31
    Tomando como referência o agir de Deus Pai, sempre cioso da obra da Salvação, Ele denuncia aqueles que não fazem uso de seus talentos para a construção do Reino dos Céus: "Mau e preguiçoso servo! Sabias que colho onde não semeei e que recolho onde não espalhei." Mt 25,26
    E reclamou daqueles cujas consciências demoram em reconhecer a Verdade, como se portaram dois de Seus discípulos no Domingo da Ressurreição: "Jesus disse-lhes: 'Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo que anunciaram os Profetas!'" Lc 24,25
    São Paulo também vai reclamar dos coríntios: "A vós, irmãos, não vos pude falar como a homens espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo. Eu vos dei leite a beber, e não alimento sólido que ainda não podíeis suportar. Nem ainda agora o podeis, porque ainda sois carnais. Com efeito, enquanto entre vós houver ciúmes e contendas, não será porque sois carnais e procedeis de um modo totalmente humano?" 1 Cor 3,1-3
    Os seguidores de sua tradição também farão duras críticas a essa postura de quase indiferença perante as coisas de Deus: "Teríamos muita coisa a dizer sobre isso, e coisas bem difíceis de explicar, dada vossa lentidão em compreender... A julgar pelo tempo, já devíeis ser mestres! Contudo, ainda necessitais que vos ensinem os primeiros rudimentos da Palavra de Deus; e tornastes-vos tais que precisais de leite em vez de alimento sólido!" Hb 5,11-12
    Baseando-se no exemplo dos Santos, eles vão exortar: "Desejamos, apenas, que ponhais todo empenho em guardar intacta vossa esperança até o fim, e que, longe de tornardes negligentes, sejais imitadores daqueles que pela fé e paciência tornam-se herdeiros das promessas." Hb 6,11-12
    Invocam, por fim, a multidão que compunha a Igreja e o próprio exemplo do Salvador: "Desse modo, cercados como estamos de tal nuvem de testemunhas, desvencilhemo-nos das cadeias do pecado. Corramos com perseverança ao combate proposto, com o olhar fixo no Autor e Consumador de nossa fé: Jesus. Em vez de gozo que se Lhe oferecera, Ele suportou a Cruz e está sentado à direita do trono de Deus. Considerai, pois, atentamente Aquele que tantas contrariedades sofreu dos pecadores, e não vos deixeis abater pelo desânimo." Hb 12,1-2
    São Tiago Menor, conforme o próprio Jesus, falou da importância do testemunho através da forma de agir. Ele diz expressamente que devemos ser ativos cumpridores dos preceitos bíblicos: "Mas aquele que procura meditar com atenção a Lei perfeita da liberdade e nela persevera - não como ouvinte que facilmente se esquece, mas como cumpridor fiel do preceito -, este será feliz em seu proceder." Tg 1,25
    E São Paulo, pedindo que os fiéis se afastassem dos preguiçosos, invoca o exemplo que dava de disposição para todos trabalhos: "Irmãos, em Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo ordenamos: afastai-vos de todo irmão que vive sem nada fazer e não segue a Tradição que recebeu de nós. Vós sabeis como deveis imitar-nos: nós não ficamos ociosos quando estivemos entre vós, nem pedimos a ninguém o pão que comemos; pelo contrário, trabalhamos com fadiga e esforço, noite e dia, para não sermos de peso para nenhum de vós. Não porque não tivéssemos direito a isso, mas porque nós quisemos ser um exemplo a imitar. De fato, quando estávamos entre vós, demos esta norma: quem não quer trabalhar, também não coma." 2 Ts 3,6-10
    Lembra também nossa imagem de representantes de Cristo para aqueles que não são da Igreja: "Procurai viver com serenidade, ocupando-vos de vossas próprias coisas e trabalhando com vossas mãos, como vo-lo temos recomendado. É assim que vivereis honrosamente em presença dos de fora e não sereis pesados a ninguém." 1 Ts 4,11-12
    Menciona nossa condição de luz do mundo, como indicou Jesus: "Fazei todas as coisas sem murmurações nem críticas, a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes, íntegros filhos de Deus no meio de uma depravada e maliciosa sociedade, onde brilhais como luzeiros no mundo, a ostentar a Palavra da Vida." Fl 2,14-15
    Com efeito, seus exemplos não foram poucos. Como ministro do Evangelho, suas responsabilidades levaram-no a difíceis momentos, dos quais ele não se arrependia: "Mas em todas as coisas apresentamo-nos como ministros de Deus, por uma grande constância nas tribulações, nas misérias, nas angústias, nos açoites, nos cárceres, nos tumultos populares, nos trabalhos, nas vigílias, nas privações..." 2 Cor 6,4-5
    E advertindo os efésios das obras das trevas, ele recomenda: "Vigiai, pois, com cuidado sobre vossa conduta: que ela não seja conduta de insensatos, mas de sábios que ciosamente aproveitam o tempo, pois os dias são maus." Ef 5,15-16


VIGÍLIAS E ORAÇÕES

    Chamando a atenção para o momento em que prestaremos contas a Deus, Nosso Salvador insiste que abandonemos os hábitos que nos levam à vacilação e ao pecado: "Vigiai, pois, porque não sabeis nem o dia nem a hora." Mt 25,13
    Contra todas as fraquezas, Ele repetidamente recomendou constância nas vigílias e orações : "Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca." Mt 26,41
    E deixava claro que esse recado não era só para os Apóstolos ou líderes de Sua Igreja: "O que vos digo, digo a todos: vigiai!" Mc 13,37
    Pois só os puros de coração e de alma escaparão dos tormentos da grande tribulação, e estarão de prontidão no Dia de Sua Volta: "Vigiai, pois, em todo o tempo e orai, a fim de que vos torneis dignos de escapar a todos estes males que hão de acontecer, e de apresentar-vos de pé diante do Filho do Homem." Lc 21,36
    Ele afirmou que só a perseverança nos valores firmados nas Escrituras, exatamente o contrário da preguiça espiritual, pode fazer-nos dar frutos para o Reino de Deus: "A (semente) que caiu na terra boa são os que ouvem a Palavra com coração reto e bom, retêm-na e dão fruto pela perseverança." Lc 8,15
    Pois acolher as Escrituras é permanecer em Comunhão com Ele, única condição de sermos úteis: "Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: tampouco podeis dar fruto se não permanecerdes em Mim. Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanecer em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer." Jo 15,4-5
    Ele garantia a recompensa: "O que ceifa já recebe seu salário e junta frutos para a Vida Eterna." Jo 4,36a 
    E mais que qualquer coisa, Ele pediu perseverança no Seu amor: "Como o Pai Me ama, também Eu vos amo. Perseverai no Meu amor." Jo 15,9
    Movido pela mesma certeza, o Eclesiástico já se perguntava: "Pois quem foi abandonado após ter perseverado em Seus Mandamentos? Quem é aquele cuja oração foi desprezada?" Eclo 2,12
    Nossa Senhora, junto aos Apóstolos, deu um grande exemplo de à nascente Igreja, aguardando em plena vigília de oração a vinda do Espírito Santo prometido por Jesus: "Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos d'Ele." At 1,14


PERSEVERANÇA

    Como pregavam São Paulo e São Barnabé, a perseverança na fé é de total importância porque as tribulações são uma certeza na vida do cristão, justamente por contrariar o mundo imerso no pecado: "Confirmavam as almas dos discípulos e exortavam-nos a perseverar na fé, dizendo que é necessário entrarmos no Reino de Deus por meio de muitas tribulações." At 14,22
    O próprio Jesus havia dito: "No mundo haveis de ter aflições. Coragem!" Jo 16,33
    São Paulo firmou três emblemáticas metas para o cristão: "Sede alegres na esperança, pacientes na tribulação e perseverantes na oração." Rm 12,12
    E lembrando as aflições que passou, garante que seus esforços não foram pequenos: "Trabalhos e fadigas, repetidas vigílias, com fome e sede, frequentes jejuns, frio e nudez! Além de outras coisas, minha cotidiana preocupação, a solicitude por todas igrejas!" 2 Cor 11,27-28
    Por isso ele tem total autoridade para conclamar-nos contra a grande indolência atual, que é uma forma de preguiça espiritual e ameaça a Unidade da Igreja, a qual só é possível através da obediência ao Espírito Santo: "Sede solícitos em conservar a unidade do Espírito no vínculo da Paz." Ef 4,3
    Em carta a São Tito, ele faz lembrar o Batismo e o compromisso com a caridade: "... Ele salvou-nos, mediante o Batismo da regeneração e renovação, pelo Espírito Santo que nos foi concedido em profusão por meio de Cristo, Nosso Salvador... Certa é esta Doutrina e quero que a ensines com constância e firmeza, para que aqueles que abraçaram a fé em Deus esforcem-se por aperfeiçoarem-se na prática do bem. Isto é bom e útil aos homens." Tt 3,5b-6.8
    Lembra aos gálatas que o tempo é curto, o Juízo aproxima-se e devemos servir à Igreja, que é o principal instrumento de Salvação: "Onde está agora aquele vosso entusiasmo? Não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo colheremos, se não relaxarmos. Por isso, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos os homens, mas particularmente aos irmãos na fé." Gl 4,15a;6,9-10
    Distingue os não cristãos exatamente pela indolência, ou pela malícia do crime: "Portanto, eis o que digo e conjuro no Senhor: não persistais em viver como os pagãos, que andam à mercê de suas frívolas idéias. Têm o entendimento obscurecido. Sua ignorância e o endurecimento de seu coração mantêm-nos afastados da Vida de Deus. Indolentes, entregaram-se à dissolução, à prática apaixonada de toda espécie de impureza. Vós, porém, não foi para isto que vos tornastes discípulos de Cristo, se é que O ouvistes e d'Ele aprendestes, como convém à Verdade em Jesus. Renunciai à vida passada, despojai-vos do velho homem, corrompido por enganadoras concupiscências. Renovai sem cessar o sentimento de vossa alma, e revesti-vos do novo homem, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade. Por isso, renunciai à mentira. Não deis lugar ao demônio. Quem era ladrão não torne a roubar, antes trabalhe seriamente por realizar o bem com suas próprias mãos, para ter com que socorrer os necessitados." Ef 4,17-25a.27-28
    E nos momentos de dificuldade, longe de arrefecer nas orações e nas vigílias, o Apóstolo dos Gentios exorta-nos a intensificá-las: "Intensificai vossas invocações e súplicas. Orai em toda circunstância, pelo Espírito, no Qual perseverai em intensa vigília de súplica por todos cristãos." Ef 6,18
    Também pede frequentes ações de graças, das quais a principal é a Santa Eucaristia, ápice de nossas Santas Missas: "Sede perseverantes, sede vigilantes na oração, acompanhada de ações de graças." Cl 4,2
    Por desejar-nos a perfeição da santidade, conclamava: "Orai sem cessar." 1 Ts 5,17
    Pois a persistência na fé é a única maneira de permanecermos ao lado de Cristo: "Antes é preciso que o lavrador trabalhe com afinco, se quer boa colheita. Se soubermos perseverar, com Ele reinaremos." 2 Tm 2,6-7.12
    Ele garante: "Por conseqüência, meus amados irmãos, sede firmes e inabaláveis, aplicando-vos cada vez mais à obra do Senhor. Sabeis que vosso trabalho no Senhor não é em vão." 1 Cor 15,58
    E assim nos estimula: "... estejam prontos para qualquer obra boa..." Tt 3,1
    São Pedro, falando do novo céu e da nova terra, também exortava à santidade: "Portanto, caríssimos, esperando estas coisas, esforçai-vos em ser por Ele achados sem mácula e irrepreensíveis na Paz." 2 Pd 3,14
    São Tiago Menor, no mesmo sentido, conclama-nos a vencer todas fraquezas, entre as quais a preguiça é uma das maiores: "Mas é preciso que a paciência efetue sua obra, a fim de serdes perfeitos e íntegros, sem fraqueza alguma." Tg 1,4
    Diz ainda o Catecismo da Igreja: "... Esse incansável ardor só pode provir do amor. Contra nossa pesada lentidão e preguiça, o combate da oração é o do humilde, confiante e perseverante amor. Esse amor abre nossos corações para três evidências de fé, luminosas e vivificantes:
    Orar é sempre possível...
    Orar é uma vital necessidade...
    Oração e vida cristã são inseparáveis... " CIC 2742, 2743, 2744, 2745
    Referindo-se às ofensas ao amor de Deus, o Catecismo registra: "... A tibieza é uma hesitação ou uma negligência em responder ao divino amor, podendo implicar a recusa de entregar-se ao dinamismo da caridade. A acídia ou preguiça espiritual chega a recusar até a alegria que vem de Deus e a ter horror ao bem divino..." CIC 2094
    E falando sobre uma prática muito corriqueira mundo afora, de pessoas que admitem a existência de Deus mas não buscam sinceramente encontrar-se com Ele, o Catecismo aponta as faltas de uma preguiçosa ou mesmo atrofiada consciência moral: "O agnosticismo pode, às vezes, conter certa busca de Deus, mas igualmente pode representar um indiferentismo, uma fuga da pergunta última sobre a existência e uma preguiça da consciência moral. Com muita frequência o agnosticismo equivale a um ateísmo prático." CIC 2128

    "Tornai viva nossa fé, nossa esperança!"