quinta-feira, 18 de abril de 2019

A Quinta-Feira Santa

    São Mateus assim narrou a última quinta-feira de Jesus:

'A SANTA CEIA'


    "No primeiro dia dos Ázimos, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-Lhe:
    - Onde queres que preparemos a ceia pascal?
    Respondeu-lhes Jesus:
    - Ide à cidade, à casa de um tal, e dizei-lhe: O Mestre manda dizer-te: Meu tempo está próximo. É em tua casa que celebrarei a Páscoa com Meus discípulos.
    Os discípulos fizeram o que Jesus tinha ordenado, e prepararam a Páscoa.
    Ao declinar da tarde, pôs-Se Jesus à mesa com os Doze discípulos. Durante a ceia, disse:
    - Em verdade, digo-vos: um de vós há de trair-Me.
    Com profunda aflição, cada um começou a perguntar:
    - Sou eu, Senhor?
    Respondeu Ele:
    - Aquele que Comigo pôs a mão no prato, esse Me trairá. O Filho do Homem vai, como d'Ele está escrito. Mas ai daquele homem por quem o Filho do Homem é traído! Para esse homem seria melhor que jamais tivesse nascido!
    Judas, o traidor, tomou a palavra e perguntou:
    - Mestre, serei eu?
    - Sim, disse Jesus.
    Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-O, partiu-O e deu-O aos discípulos, dizendo:
    - Tomai e comei, isto é Meu Corpo.
    Depois tomou o Cálice, rendeu graças e deu-lhO, dizendo:
    - Bebei dele todos, porque isto é Meu Sangue, o Sangue da Nova Aliança, derramado em favor de muitos para a remissão dos pecados. Digo-vos: doravante não beberei mais desse fruto da vinha, até o dia em que convosco o beberei de novo no Reino de Meu Pai.
    Depois do canto dos Salmos, dirigiram-Se eles para o Monte das Oliveiras. Então lhes disse Jesus:
    - Esta noite, para todos vós serei uma ocasião de queda. Porque está escrito: 'Ferirei o Pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersadas' (Zc 13,7). Mas, depois da Minha Ressurreição, Eu preceder-vos-ei na Galileia.
   Pedro interveio:
    - Mesmo que para todos sejas uma ocasião de queda, para mim jamais o serás.
    Disse-lhe Jesus:
    - Em verdade, digo-te: nesta mesma noite, antes que o galo cante, três vezes negar-Me-ás.
    Respondeu-Lhe Pedro:
    - Mesmo que seja necessário Contigo morrer, jamais Te negarei!
    E todos outros discípulos diziam-Lhe o mesmo.

'A AGONIA NO ORTO DAS OLIVEIRAS'


   Retirou-Se Jesus com eles para um lugar chamado Getsêmani, e disse-lhes:
    - Assentai-vos aqui, enquanto Eu vou ali orar.
    E Consigo tomando Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-Se e a angustiar-Se. Disse-lhes, então:
    - Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai Comigo.
    Adiantou-Se um pouco e, prostrando-Se com a face por terra, assim rezou:
    - Meu Pai, se é possível, afasta de Mim este cálice! Contudo, não se faça o que Eu quero, mas sim o que Tu queres.
    Depois foi ter com os discípulos e encontrou-os dormindo. E disse a Pedro:
    - Então não pudestes vigiar uma hora Comigo?... Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca.
    Pela segunda vez afastou-se e orou, dizendo:
    - Meu Pai, se não é possível que passe este cálice sem que Eu o beba, faça-se Tua vontade!
    Ainda voltou e novamente encontrou-os dormindo, porque seus olhos estavam pesados. Deixou-os e foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras.
    Então retornou a Seus discípulos e disse-lhes:
    - Dormi agora e repousai!
    Mas, após alguns instantes, disse-lhes:
    - Chegou a hora: o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores... Levantai-vos, vamos! Aquele que Me trai está perto daqui.

'A TRAIÇÃO'


    Jesus ainda falava, quando veio Judas, um dos Doze, e com ele uma multidão de gente armada de espadas e varas, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo. O traidor combinara com eles este sinal:
    - Aquele que eu beijar, é Ele. Prendei-O!
    Imediatamente aproximou--se de Jesus e disse:
    - Salve, Mestre.
    E beijou-O.
    Disse-lhe Jesus:
    - Então é para isso que aqui vens?
    Em seguida, adiantaram-se eles e lançaram mão em Jesus para prendê-Lo. Mas um dos companheiros de Jesus desembainhou a espada e feriu um servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha. Jesus, no entanto, disse-lhe:
    - Embainha tua espada, porque todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão. Crês tu que não posso invocar Meu Pai e prontamente Ele não Me enviaria mais de doze legiões de anjos? Mas como então se cumpririam as Escrituras, segundo as quais é preciso que assim seja?
    Depois, voltando-Se para a turba, falou:
    - Saístes armados de espadas e varas para prender-Me, como se Eu fosse um malfeitor. Mas todos dias estava Eu sentado entre vós, ensinando no Templo, e não Me prendestes. Tudo isto aconteceu porque era necessário que se cumprissem os oráculos dos Profetas.
    Então os discípulos abandonaram-nO, e fugiram.

'O JULGAMENTO'


    Aqueles que haviam prendido Jesus, levaram-nO à casa do sumo sacerdote Caifás, onde estavam reunidos os escribas e os anciãos do povo. Pedro seguia-O de longe, até o pátio do sumo sacerdote. Entrou e sentou-se junto aos criados, para ver como aquilo terminaria.
    Enquanto isso, os príncipes dos sacerdotes e todo Sinédrio procuravam um falso testemunho contra Jesus, a fim de levarem-nO à morte. Mas não o conseguiram, embora muitas falsas testemunhas se apresentassem.
    Por fim, apresentaram-se duas testemunhas que disseram:
    - Este homem disse: 'Posso destruir o Templo de Deus e reedificá-lo em três dias.'
    Levantou-se o sumo sacerdote e perguntou-Lhe:
    - Nada tens a responder ao que essa gente depõe contra Ti?
    Jesus, no entanto, permanecia calado. Disse-Lhe o sumo sacerdote:
    - Por Deus vivo, conjuro-Te que nos digas se és o Cristo, o Filho de Deus?
    Jesus respondeu:
    - Sim. Além disso, Eu declaro-vos que doravante vereis o Filho do Homem sentar-Se à direita do Todo-poderoso, e voltar sobre as nuvens do Céu!
    A estas palavras, o sumo sacerdote rasgou suas vestes, exclamando:
    - Que necessidade ainda temos de testemunhas? Acabastes de ouvir a blasfêmia! Qual é vosso parecer?
    Eles responderam:
    - Merece a morte!
    Cuspiram-Lhe, então, na face, bateram-Lhe com os punhos e deram-Lhe tapas, dizendo:
    - Adivinha, ó Cristo: quem Te bateu?
    Enquanto isso, Pedro estava sentado no pátio. Aproximou-se dele uma das servas, dizendo:
    - Tu também estavas com Jesus, o Galileu!
    Mas ele publicamente negou, nestes termos:
    - Não sei o que dizes.
    Dirigia-se ele para a porta, a fim de sair, quando outra criada o viu e disse aos que lá estavam:
    - Este homem também estava com Jesus de Nazaré!
    Pedro, pela segunda vez, negou com juramento:
    - Eu nem conheço tal homem.
    Pouco depois, os que ali estavam aproximaram-se de Pedro e disseram:
    - Sim, tu és daqueles. Teu modo de falar dá-te a conhecer.
    Então Pedro começou a fazer imprecações, jurando que nem sequer conhecia tal homem. E neste momento cantou o galo. Pedro recordou-se do que Jesus lhe dissera:
    - Antes que o galo cante, três vezes negar-Me-ás.
    E saindo, amargamente chorou."                                                              Mt 26,17-75


'O LAVA-PÉS' 


    Este acontecimento, que se tornou um importante ritual da Igreja, também se deu neste dia, e foi narrado por São João Evangelista:

    "Durante a ceia, quando o demônio já tinha lançado no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de traí-Lo, sabendo Jesus que o Pai tudo Lhe dera nas mãos, e que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-Se da mesa, depôs Suas vestes e, pegando duma toalha, cingiu-Se com ela.
    Em seguida, deitou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido. Chegou a Simão Pedro. Mas Pedro disse-Lhe:
    - Senhor, queres lavar-me os pés?!...
   Respondeu-lhe Jesus:
    - O que faço, não compreendes agora, mas em breve compreendê-lo-ás.
    Disse-Lhe Pedro:
    - Jamais me lavarás os pés!...
    Respondeu-lhe Jesus:
    - Se Eu não tos lavar, Comigo não terás parte.
    Então exclamou Simão Pedro:
    - Senhor, pois não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça.
    Disse-lhe Jesus:
    - Aquele que tomou banho não tem necessidade de lavar-se. Está inteiramente puro. Ora, vós estais puros, mas nem todos!...
    Pois sabia quem O havia de trair. Por isso, disse:
    - Nem todos estais puros.
    Depois de lavar-lhes os pés e tomar Suas vestes, novamente sentou-Se à mesa e perguntou-lhes:
    - Sabeis o que vos fiz? Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque EU SOU. Logo, se Eu, Vosso Senhor e Mestre, lavei-lhes os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como Eu vos fiz, também façais vós. Em verdade, em verdade, digo-vos: o servo não é maior que Seu Senhor, nem o enviado é maior que Aquele que o enviou. Se compreenderdes estas coisas, sereis felizes, sob condição de praticá-las."
                                        Jo 13,2-17

    Depois disso Jesus rezou ao Pai por todos aqueles que ouviriam a Palavra anunciada pelos Apóstolos, pedindo pela União na Igreja, e como sinal dela derramou Sua Glória sobre os Onze: "Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que por sua palavra hão de crer em Mim. Para que todos sejam um, assim como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti, para que também eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu Me enviaste. Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim. Para que sejam perfeitos na Unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e os amastes, como amaste a Mim." Jo 17,20-23
    São Lucas relata que, após a Santa Ceia, Jesus mais uma vez colocou São Pedro à frente do Colégio dos Apóstolos: "Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou, para peneirar-vos como o trigo. Mas Eu roguei por ti, para que tua confiança não desfaleça. E tu, por tua vez, confirma teus irmãos." Lc 22,31-32
    E ainda segundo São João Evangelista, os Apóstolos não teriam abandonado Jesus e fugido do Getsêmani, como anotou São Mateus, mas foram liberados por um pedido do próprio Jesus: "'Se é, pois, a Mim que buscais, deixai ir estes.' Assim se cumpriu a Palavra que Ele disse: 'Dos que Me deste, não perdi nenhum (Jo 17,12).'" Jo 18,8b-9
    São Pedro, aliás, muito diferente do covarde que desinformados divulgam, foi aquele que sacou a espada para defender o Mestre. E assim reagiu logo em seguida a esse pedido de Jesus, para que os guardas os deixasse partir: "Simão Pedro, que tinha uma espada, puxou-a e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco. Mas Jesus disse a Pedro: 'Enfia tua espada na bainha! Não hei de beber Eu o Cálice que o Pai Me deu?' Então a coorte, o tribuno e os guardas dos judeus prenderam Jesus e ataram-nO. Primeiro conduziram-nO a Anás, por ser sogro de Caifás, que era o sumo sacerdote daquele ano." Jo 18,10-13
    E conforme São Lucas, enfim, Jesus curou a orelha de Malco: "Mas Jesus interveio: 'Deixai, basta.' E tocando na orelha daquele homem, curou-o." Lc 22,51

A INSTITUIÇÃO DA EUCARISTIA

    Muito antes desta noite, ainda na sinagoga de Cafarnaum, Jesus já havia avisado que instituiria este que é o mais importante dos Sacramentos: "Eu sou o Pão Vivo que desceu do Céu. Quem comer deste Pão viverá eternamente. E o Pão que Eu hei de dar é Minha Carne, para a Salvação do mundo." Jo 6,51
    E quanto à sua importância, Ele foi contundente: "Então lhes disse Jesus: 'Em verdade, em verdade, digo-vos: se não comerdes a Carne do Filho do Homem, e não beberdes Seu Sangue, não tereis a Vida em vós mesmos. Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue tem a Vida Eterna, e Eu ressuscitá-lo-ei no Último Dia. Pois Minha Carne é verdadeiramente comida e Meu Sangue, verdadeiramente bebida.'" Jo 6,53-55
    Mais: por ele firmou um vínculo de pertença, a Comunhão Espiritual: "Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue permanece em Mim e Eu nele." Jo 6,56
    Expressamente disse que este é o cerne de Sua Missão: "Chegada que foi a hora, Jesus pôs-Se à mesa, e com Ele os Apóstolos. Disse-lhes: 'Ardentemente tenho desejado comer convosco esta Páscoa, antes de sofrer. Pois digo-vos: não tornarei a comê-la, até que ela se cumpra no Reino de Deus.'" Lc 22,14-16
    Definitivamente, pois, a Eucaristia não é apenas um ritual. Tanto que, após ressuscitado, em Sua primeira aparição aos discípulos, em Emaús, Jesus fez-Se reconhecer exatamente ao partir o Pão: "Aconteceu que, estando conjuntamente sentados à mesa, Ele tomou o pão, abençoou-O, partiu-O e serviu-lhO. Então se lhes abriram os olhos e reconheceram-nO... mas Ele desapareceu. E diziam um para o outro: 'Não se nos abrasava o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?'" Lc 24,30-32
    E essa era a piedosa prática dos Apóstolos, assim como da primeira grande leva de seguidores cativada pela Igreja, logo após o Pentecostes, através da pregação de São Pedro: "Aqueles que receberam sua palavra foram batizados. E naquele dia elevou-se a mais ou menos três mil o número dos adeptos. Perseveravam eles na Doutrina dos Apóstolos, na reunião em comum, na fração do Pão e nas orações." At 2,41-42
    A Comunhão, pois, tornou-se o símbolo da unidade da Igreja: "Unidos de coração, todos dias frequentavam o Templo. Partiam o Pão nas casas e tomavam a Comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo povo. E cada dia o Senhor ajuntava-lhes outros que estavam a Caminho da Salvação." At 2,46-47
    Sustentando que só existe uma Eucaristia, São Paulo vai argumentar: "Uma vez que há um único Pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só Corpo, porque todos nós comungamos do mesmo Pão." 1 Cor 10,17
    E tomando como marco o Dia da Ressurreição de Cristo, assim como os de Suas primeiras aparições, honrosamente faziam-no aos domingos: "No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para partir o Pão, Paulo, que no seguinte dia havia de viajar, conversava com os discípulos e prolongou a palestra até a meia-noite." At 20,7
    Enquanto só o Evangelho de São Mateus estava escrito, e em aramaico, São Paulo e os demais Apóstolos cuidavam de repassar, oralmente e por carta, os relatos desse grandioso evento: "Eu recebi do Senhor o que vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, depois de ter dado graças, partiu-O e disse: 'Isto é Meu Corpo, que é entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim.' Do mesmo modo, depois de haver ceado, também tomou o Cálice, dizendo: 'Este Cálice é a Nova Aliança em Meu Sangue. Todas vezes que O beberdes, fazei-o em memória de Mim.' Assim, todas vezes que comeis desse Pão e bebeis desse Cálice, lembrais a Morte do Senhor, até que venha." 1 Cor 11,23-26
    Entre os que vacilavam na , participando de rituais alheios à Igreja, ele questionava com veemência, cobrando a devida reverência a Deus: "O Cálice de Bênção, que benzemos, não é a Comunhão do Sangue de Cristo? E o Pão, que partimos, não é a Comunhão do Corpo de Cristo?" 1 Cor 10,16
    E coberto de razão, exigia respeito ao Santíssimo Sacramento, para o Qual todos demais Sacramentos convergem: "Não podeis beber ao mesmo tempo o Cálice do Senhor e o cálice dos demônios. Não podeis participar ao mesmo tempo da Mesa do Senhor e da mesa dos demônios. Ou queremos provocar a ira do Senhor? Acaso somos mais fortes que Ele?" 1 Cor 10,21-22
    Em sinal de compromisso com Cristo, ele exorta a comermos com deferência o verdadeiro Pão do Céu: "Pois nossa Páscoa, Cristo, foi imolada. Celebremos, pois, a festa, não com o velho fermento nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os pães sem fermento, de pureza e de Verdade." 1 Cor 5,8
    Ameaçando com graves punições, ele avisava da impreterível penitência que deve ser feita antes da Comunhão: "Portanto, todo aquele que indignamente comer o Pão ou beber o Cálice do Senhor, será culpável do Corpo e do Sangue do Senhor. Que cada um examine a si mesmo, e assim coma desse Pão e beba desse Cálice. Aquele que O come e bebe sem distinguir o Corpo do Senhor, come e bebe sua própria condenação. Esta é a razão porque entre vós há muitos adoentados e fracos, e muitos mortos." 1 Cor 11,27-30
    De fato, nem todos entendiam propriamente o mistério que envolvia esse Sacramento, que passou de uma refeição coletiva para um sagrado ritual. Aqui temos um registro dos rudimentos do que viriam a ser a Santa Missa: "Desse modo, quando vos reunis, já não é para comer a Ceia do Senhor, porquanto, mal vos pondes à mesa, cada um se apressa a tomar sua própria refeição, e, enquanto uns têm fome, outros se fartam. Porventura não tendes casa onde comer e beber? Ou menosprezais a Igreja de Deus, e quereis envergonhar aqueles que nada têm? Que vos direi? Devo louvar-vos? Não! Nisto não vos louvo... Portanto, irmãos meus, quando vos reunis para a Ceia, esperai uns pelos outros. Se alguém tem fome, coma em casa. Assim vossas reuniões não vos atrairão a condenação. As demais coisas eu determinarei quando for ter convosco." 1 Cor 11,20-22.33-34
    E assim crescia a consciência da condição espiritual com que cada fiel participava do Santíssimo Sacramento, como pregavam os seguidores da tradição de São Paulo: "Por esse motivo, irmãos, temos ampla confiança de poder entrar no Eterno Santuário, em virtude do Sangue de Jesus, pelo novo e vivo Caminho que nos abriu através do véu, isto é, o Caminho de Seu próprio Corpo. E dado que temos um Sumo-Sacerdote estabelecido sobre a Casa de Deus, a Ele acheguemo-nos com sincero coração, com plena firmeza da fé, o mais íntimo da alma isento de toda mácula de pecado e o corpo lavado com a purificadora Água do Batismo. Não abandonemos nossa Assembléia, como é costume de alguns, mas mutuamente admoestemo-nos... " Hb 10,19-22-25a
    Como confirmação da realização deste sublime projeto de Deus, prefigurado nas profecias, no Antigo Testamento há analogia da aplicação desse ritual. E desde então se vê a necessária purificação dos que dele participam: "O Senhor disse a Aarão: 'Dou-te o que se reserva de tudo que é separado para Mim, dentre todas coisas consagradas dos israelitas: dou-o a ti e a teus filhos em virtude de uma perpétua lei, por causa da unção que recebeste. Tu comê-las-ás em santíssimo lugar. Todo membro de tua família que estiver puro, comerá dessas coisas.'" Nm 18,8.10a.11b
    A própria ceia da Páscoa impunha aos judeus algumas restrições, de não entrar em casa de estrangeiros, por exemplo, como a atitude dos líderes religiosos na ocasião em que Jesus foi levado a Pilatos: "Da casa de Caifás, conduziram Jesus ao pretório. Era de manhã cedo. Mas os judeus não entraram no pretório, para não se contaminarem e poderem comer a Páscoa. Saiu, por isso, Pilatos para ter com eles, e perguntou: 'Que acusação trazeis contra Este Homem?'" Jo 18,28
    O próprio povo chegava a Jerusalém com antecipação, para cumprir os rituais de purificação e assim comer a Páscoa. São João Evangelista registrou: "Estava próxima a Páscoa dos judeus, e muita gente de todo país subia a Jerusalém antes da Páscoa para purificar-se." Jo 11,55
    É na Missa da Quinta-Feira Santa, enfim, também chamada Missa da Unidade, que são abençoados e consagrados os Santos Óleos, usados nos Sacramentos do Batismo, da Crisma e da Unção dos Enfermos.

    "Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e eu serei salvo!"