sábado, 6 de abril de 2019

Mistérios


SINAIS DO INVISÍVEL

    A palavra 'mysterion', do grego, foi traduzida para o latim em duas palavras: sacramento e mistério. Assim, quando a Igreja celebra um Sacramento, é Deus que dele Se serve para firmar compromisso e derramar Suas Graças. Eles são, portanto, visíveis sinais de Suas invisíveis manifestações, isto é, continuam mesmo sendo mistérios, o que é muito adequado, pois a realidade que vivemos se dá nesse limiar: do visível para o invisível. Os seguidores da tradição de São Paulo dizem do ministério de Moisés: "Foi pela fé que ele deixou o Egito, não temendo a cólera do rei, com tanta segurança como estivesse vendo o invisível." Hb 11,27
    O Eclesiástico até adverte: "Nunca te glories de tuas vestes, nem te engrandeças no dia em que fores homenageado, pois só as obras do Altíssimo são admiráveis, dignas de Glória, misteriosas e invisíveis." Eclo 11,4
    De fato, mesmo com a Vinda de Jesus não é difícil constatar que nem tudo nos foi revelado. Ele mesmo avisou da tarefa que caberia ao Espírito Santo, logo após Sua Ascensão, numa nova fase, dos tempos finais, que se convencionou chamar de Tempo do Espírito Santo, da Igreja ou dos Sacramentos: "Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas agora não podeis suportá-las. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda Verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão." Jo 16,12-13
    E falou de três essenciais obras do Divino Espírito, que Ele realiza através da Igreja: demonstrar ao mundo a realidade do pecado, a Divindade de Jesus e a iminência do Juízo: "Entretanto, digo-vos a Verdade: a vós convém que Eu vá! Porque se Eu não for, o Paráclito não virá a vós, mas se Eu for, a vós enviar-Lo-ei. E quando Ele vier, convencerá o mundo a respeito do pecado, da justiça e do Juízo. Convencerá o mundo a respeito do pecado, que consiste em não crer em Mim. Ele convencê-lo-á a respeito da justiça, porque Eu Me vou para junto de Meu Pai e vós já não Me vereis. Ele convencê-lo-á a respeito do Juízo, que consiste em que o príncipe deste mundo já está julgado e condenado." Jo 16,5-11
    Mas sempre na linha de que nem tudo nos foi dado a saber, sobre o Dia do Juízo Final, ou mesmo de nosso Juízo Particular, que também são exemplos do mistério que nos envolve, Jesus disse aos Apóstolos: "Não vos pertence saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou por Seu poder." At 1,7
    E mesmo dentre o que foi revelado por Jesus e pelas Escrituras, ainda há muita coisa que ainda não entendemos. A verdade é que toda nossa vida é cercada de mistérios, assim como é o comando de Deus e Suas interferências. São Paulo, porém, não se incomodava com isso e até percebia a conveniência de que tudo assim continuasse. Extasiado, ele dizia: "Ó abismo de riqueza, de Sabedoria e de ciência em Deus! Quão impenetráveis são Seus juízos e inexploráveis Seus caminhos!" Rm 11,33
    Noutra situação, Jesus prometeu revelar alguns mistérios aos Apóstolos, mas intencionalmente deixou de fora pessoas que ainda tinham que meditar, como a semente que só brota se houver o devido cuidado: "A vós é concedido conhecer os mistérios do Reino de Deus, mas aos outros fala-se-lhes por parábolas, de forma que olhando não vejam, e ouvindo não entendam." Lc 8,10
    Quanto à meramente mundana lógica, Ele veio mesmo para subvertê-la: "Jesus então disse: 'Vim a este mundo para fazer uma discriminação: os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos.'" Jo 9,39
    Ora, também foi assim quando Ele enviou o Espírito Santo, no dia de Pentecostes. Era exclusivamente para a Igreja, para os que com Ele velavam: "Se Me amais, guardareis Meus Mandamentos. E Eu rogarei ao Pai, e Ele dar-vos-á outro Paráclito, para que fique eternamente convosco. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber porque não O vê nem O conhece. Mas vós conhecê-Lo-eis, porque convosco permanecerá e em vós estará." Jo 14,15-17
    Bem como Sua própria manifestação e a divina proteção, como Ele rezou ao Pai pela Unidade da Igreja: "Manifestei Teu Nome aos homens que do mundo Me deste. Eram Teus e deste-Mos e guardaram Tua Palavra. Pai Santo, guarda-os em Teu Nome, que Me encarregaste de fazer conhecer, a fim de que sejam um como Nós. Enquanto estava com eles, Eu guardava-os em Teu Nome, que Me incumbiste de fazer conhecido. Conservei os que Me deste, e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura." Jo 17,6.11b-12
    E falando sobre Sua Ressurreição, em exclusividade também lhes prometeu a compreensão da Comunhão: "Naquele dia conhecereis que estou em Meu Pai, e vós em Mim e Eu em vós." Jo 14,20
    Assim, a razão pela qual muitas pessoas continuam sem entender os mistérios revelados por Cristo também fica por conta dos desígnios de Deus, que aguarda uma verdadeira abertura de coração à Sua Palavra e manifestações. Jesus vai dizer: "Assim para eles se cumpre o que foi dito pelo Profeta Isaías: 'Ouvireis com vossos ouvidos e não entendereis, olhareis com vossos olhos e não vereis, porque o coração deste povo se endureceu: taparam seus ouvidos e fecharam seus olhos, para que seus olhos não vejam e seus ouvidos não ouçam, nem seu coração compreenda. Para que não se convertam de imediato, e Eu cure-os' (Is 6,9s)." Mt 13,14-15
    São Paulo, através de visões, também foi inspirado pelo Espírito Santo para colaborar nas obra da Revelação. Ele fala da Ressurreição da carne, prometida para a definitiva Vinda de Jesus, quando os mortos ressuscitarão e os vivos serão transformados: "Eis que vos revelo um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta, porque a trombeta soará. Os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. É necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que este corpo mortal se revista da imortalidade." 1 Cor 15,51-53
    E entre etapas da Revelação e revelações pessoais, o Eclesiástico já havia percebido: "Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que Ele revela Seus mistérios." Eclo 3,20b


CRISTO, MISTÉRIO MAIOR

    Na verdade, e em perfeita coerência, o próprio Cristo é um mistério que veio revelar-Se ao mundo, ainda que nossa capacidade e méritos sejam limitados. São Paulo dizia que sua missão era anunciar "... Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério, guardado em segredo durante séculos, mas agora manifestado por ordem do Eterno Deus e, por meio das Escrituras proféticas, dado a conhecer a todas nações, a fim de levá-las à obediência da ..." Rm 16,25-26
    Pois mesmo diante de nossos olhos, o Cristo só pode ser percebido por revelação de Deus Pai. Com efeito, quando São Pedro declarou que Jesus era o Messias, d'Ele ouviu essa resposta: "Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas Meu Pai que está nos Céus." Mt 16,17
    Falava da imprescindível participação do Pai para que acolhamos Sua Manifestação: "Ninguém pode vir a Mim se o Pai, que Me enviou, não o atrair." Jo 6,44
    E não apenas Jesus era precedido de 'um intercessor' para ser conhecido, como também o próprio Pai. Ou seja, conhecer Deus Pai ou Deus Filho, ou ainda Deus Espírito Santo, só é possível segundo os desígnios de algum d'Eles mesmos, pela Comunhão da Santíssima Trindade. Jesus disse: "... ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-Lo." Mt 11,27
    Também disse do Santo Espírito: "Quando vier o Paráclito, que vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, Ele dará testemunho de Mim." Jo 15,26
    Na esteira destas revelações através das Três Pessoas de Deus, São Paulo completa dizendo que só podemos perceber a divindade de Jesus por obra do Divino Paráclito: "... ninguém pode dizer: 'Jesus é o Senhor', senão sob a ação do Espírito Santo." 1 Cor 12,3
    E todas essas revelações só vieram acontecer em oportuna época, quando a humanidade já havia amadurecido, na 'plenitude dos tempos' como disse São Paulo, pois Jesus veio para em definitivo reconciliar a humanidade com Deus: "Deus manifestou-nos o misterioso desígnio de Sua vontade, que em Sua benevolência desde sempre formara, para realizá-lo na plenitude dos tempos: desígnio de em Cristo reunir todas coisas, as que estão nos Céus e as que estão na terra." Ef 1,9-10
    Entretanto, mesmo com todas essas particularidades sobre a Revelação, São Paulo garante que a Salvação é um projeto para todos, e que já estava prevista desde a eternidade: "... coube-me a Graça de anunciar entre os pagãos a inexplorável riqueza de Cristo, e a todos manifestar o salvador desígnio de Deus, mistério desde a eternidade oculto em Deus, que tudo criou." Ef 3,9
    Ele chama tal projeto de 'Mistério de Cristo', e esforçou-se para divulgar em suas cartas a revelação que recebeu: "Lendo-me, podereis entender a compreensão que me foi concedida do Mistério de Cristo, que em outras gerações não foi manifestado aos homens da maneira como agora tem sido revelado pelo Espírito a Seus santos Apóstolos e profetas." Ef 3,4-5
    O Evangelho, portanto, que é a Boa Notícia da Ressurreição de Jesus e da Vida Eterna, também é um mistério a ser revelado pessoa a pessoa. Humildemente pedia São Paulo: "E também orai por mim, para que me seja dado corajosamente anunciar o mistério do Evangelho..." Ef 6,19
    Mas ele sentiu na pele que não é fácil anunciar tão delicadas riquezas: "Tudo sofro para que seus corações sejam reconfortados e que, estreitamente unidos pela caridade, sejam enriquecidos de uma plenitude de inteligência, para conhecerem o Mistério de Deus, isto é, Cristo, no qual estão escondidos todos tesouros da Sabedoria e da ciência." Cl 2,2
    De fato, por seu empenho como Apóstolo, São Paulo foi preso várias vezes, embora persistisse: "Também orai por nós. Pedi a Deus que dê livre curso à nossa palavra para que possamos anunciar o Mistério de Cristo. É por causa deste Mistério que estou preso." Cl 4,3
    São Pedro confirma o quanto os antigos sábios e Profetas se esforçaram para entender como Deus iria redimir o mundo. E é certo que eles foram dignos de importantes revelações, mas, mesmo registrando-as, não as entendiam nem eram finais destinatários de muitas de suas próprias profecias: "Esta Salvação tem sido o objeto das investigações e das meditações dos Profetas, que proferiram oráculos sobre a Graça que vos era destinada. Eles investigaram a época e as circunstâncias indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava e que profetizava os sofrimentos do mesmo Cristo e as Glórias que deviam segui-los. Foi-lhes revelado que propunham não para si mesmos, senão para vós, estas revelações que agora vos têm sido anunciadas por aqueles que vos pregaram o Evangelho da parte do Espírito Santo, enviado do Céu. Revelações estas que os próprios anjos desejam contemplar." 1 Pd 1,10-12


7 SACRAMENTOS, RAZÃO DE SER DA IGREJA

   A Igreja é o que é, portanto, pelos Sacramentos, ou seja, pelos mistérios que Jesus mandou celebrar. E o primeiríssimo deles, pela importância, é o Santíssimo Sacramento, o Corpo e o Sangue de Cristo que Ele expressamente pediu que fosse celebrado em Sua memória: "Tomou em seguida o pão e depois de ter dado graças, partiu-O e deu-lhO, dizendo: 'Isto é Meu Corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de Mim.' Do mesmo modo tomou o cálice, depois de cear, dizendo: 'Este cálice é a Nova Aliança em Meu Sangue, que é derramado por vós.'" Lc 22,19-20
    E não por mera simbologia, como pretendem falsos mestres. Ele categoricamente afirmou: "Então lhes disse Jesus: 'Em verdade, em verdade, digo-vos: se não comerdes a Carne do Filho do Homem, e não beberdes Seu Sangue, não tereis a Vida em vós mesmos. Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue tem a Vida Eterna, e Eu ressuscitá-lo-ei no Último Dia. Pois Minha Carne é verdadeiramente uma comida e Meu Sangue, verdadeiramente uma bebida.'" Jo 6,53-55
    São Paulo, porém, avisou da necessária preparação para receber o Santíssimo Sacramento, ou seja, do Sacramento da Confissão: "Portanto, todo aquele que indignamente comer o Pão ou beber o Cálice do Senhor será culpável do Corpo e do Sangue do Senhor. Que cada um se examine a si mesmo, e assim coma desse Pão e beba desse Cálice. Aquele que O come e O bebe sem distinguir o Corpo do Senhor, come e bebe sua própria condenação. Esta é a razão porque entre vós há muitos adoentados e fracos, e muitos mortos." 1 Cor 11,27-30
    A Vida Eterna, pois, tem início no Batismo, que Jesus também expressamente ordenou pouco antes de Sua Ascensão: "Ide, pois, e ensinai a todas nações. Batizai-as em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo." Mt 28,19
    E Batismo desde a infância, como afirmou o Príncipe dos Apóstolos: "Pedro respondeu-lhes: 'Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em Nome de Jesus Cristo para remissão de vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vós, para vossos filhos e para todos que de longe ouvirem o apelo do Senhor, Nosso Deus.'" At 2,38-39
    Sem dúvida, assim agia São Paulo, como relatou ter feito em Corinto: "Aliás, também batizei a família de Estéfanas. Além destes, não me consta ter batizado ninguém mais." 1 Cor 1,16
    Em Filipos: "Uma mulher, chamada Lídia, da cidade dos tiatirenos, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava. O Senhor abriu-lhe o coração, para atender às coisas que Paulo dizia. Foi batizada junto à sua família..." At 16,14-15a
    E também com um carcereiro desta cidade: "Anunciaram-lhe a Palavra de Deus, a ele e a todos que estavam em sua casa. Então, naquela mesma hora da noite, ele cuidou deles e lavou-lhes as chagas. Imediatamente foi batizado, ele e toda sua família." At 16,32-33
    Depois do Batismo vem o Sacramento da Reconciliação, igualmente chamado de Arrependimento, Penitência ou Confissão, cuja autoridade para perdoar foi dada por Jesus exclusivamente à Igreja: "Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados. Àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.'" Jo 20,22-23
    Esse imprescindível ritual, mesmo no prefigurativo batismo de São João Batista, era cumprido por todos: "João usava uma vestimenta de pelos de camelo e um cinto de couro em volta dos rins. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. Pessoas de Jerusalém, de toda Judeia e de toda circunvizinhança do Jordão vinham a ele. Confessavam seus pecados, e eram batizados por ele nas águas do Jordão." Mt 3,5-6
    E ele não admitia que o fizessem por mero ritual, mas exigia sincera conversão: "Ao ver, porém, que muitos dos fariseus e dos saduceus vinham ao seu batismo, disse-lhes: 'Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da vindoura cólera? Dai, pois, frutos de verdadeira penitência.'" Mt 3,7-8
    Ora, o Sacramento da Penitência foi a primeira exigência de Jesus quando começou Sua vida pública: "Desde então, Jesus começou a pregar: 'Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo.'" Mt 4,17
    Também foi a primeira missão que Ele deu aos Apóstolos: "Então chamou os Doze e começou a enviá-los, dois a dois, e deu-lhes poder sobre os imundos espíritos. Eles partiram e pregaram a penitência." Mc 6,7.12
    E durante as pregações de Jesus, eles também ministravam o batismo usado por São João Batista, isto é, demandando prévia confissão de pecados: "Em seguida, foi Jesus com Seus discípulos para os campos da Judeia, e ali Se deteve com eles, e batizava. ... se bem que não era Jesus quem batizava, mas Seus discípulos..." Jo 3,22;4,2
    Isso continuou com São Paulo, como se viu em Éfeso: "Muitos dos que haviam acreditado vinham confessar e declarar suas obras." At 19-18
    Mais que apenas aos Sacerdotes da Igreja, São Tiago Menor recomendava a confissão de culpas entre irmãos, como forma de penitência e de sinceridade na luta contra os pecados. Ou seja, nada de 'confessar só a Deus': "Confessai vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros para serdes curados." Tg 5,16a
    Em seguida vem a Crisma, ou seja, o Sacramento da Confirmação do Batismo, prática desde os primeiros dias da Igreja e que só pode ser realizado pelos Bispos, isto é, os sucessores dos Apóstolos: "Os Apóstolos que se achavam em Jerusalém, tendo ouvido que a Samaria recebera a Palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João. Estes, assim que chegaram, fizeram oração pelos novos fiéis a fim de receberem o Espírito Santo, visto que não havia descido ainda sobre nenhum deles, mas apenas tinham sido batizados em Nome do Senhor Jesus. Então os dois Apóstolos impuseram-lhes as mãos e receberam o Espírito Santo." At 8,14-17
    Os recém-convertidos de Éfeso, noutro exemplo, primeiro vão ser batizados e só depois crismados por São Paulo: "'Recebestes o Espírito Santo, quando abraçastes a fé?' Responderam-lhe: 'Não, nem sequer ouvimos dizer que há um Espírito Santo!' 'Então em que batismo fostes batizados?', perguntou Paulo. Disseram: 'No batismo de João.' Então Paulo replicou: 'João só dava um batismo de penitência, dizendo ao povo que cresse n'Aquele que havia de vir depois dele, isto é, em Jesus.' Ouvindo isso, foram batizados em Nome do Senhor Jesus. E quando Paulo lhes impôs as mãos, o Espírito Santo desceu sobre eles, e falavam em línguas estranhas e profetizavam." At 19,2-6
    Em carta aos coríntios, o Último Apóstolo claramente distingue Batismo de Crisma: "Em um só Espírito fomos batizados todos nós, para formar um só Corpo, judeus ou gregos, escravos ou livres. E todos fomos impregnados do mesmo Espírito." 1 Cor 12,13
    Essa Graça já estava prevista desde o Profeta Isaías, e realizar-se-ia através de Jesus: "O Espírito do Senhor repousa sobre Mim, porque o Senhor Me consagrou pela Unção... para consolar todos aflitos, dar-lhes um diadema em vez de cinzas, o óleo da alegria em vez de vestidos de luto, cânticos de Glória em lugar de desespero." Is 61,1a.2b-3a
    O Sacramento da Unção dos Enfermos, que em caso de pacientes terminais é chamada de Extrema Unção, junto ao da Confissão é outro Sacramento de cura. Ele foi ministrado pelos Apóstolos desde que Jesus os enviou pela primeira vez: "Eles partiram e pregaram a penitência. Expeliam numerosos demônios, ungiam com óleo a muitos enfermos e curavam-nos." Mc 6,12-13
    Ele determinou-lhes: "Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei o que vos servirem. Curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: 'O Reino de Deus está próximo.'" Lc 10,8-9
    Segundo São Mateus, os poderes iam muito além de uma simples cura, quando também determinou absoluta gratuidade: "Por onde andardes, anunciai que o Reino dos Céus está próximo. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. Recebestes de graça, de graça dai!" Mt 10,7-8
    Mas note-se que também esse Sacramento só pode ser ministrado por um Sacerdote da Igreja, como exigia São Tiago Menor: "Está alguém enfermo? Chame os Sacerdotes da Igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo em Nome do Senhor. A oração da fé salvará o enfermo e o Senhor restabelecê-lo-á. Se ele cometeu pecados, ser-lhe-ão perdoados." Tg 5,14,15
    O Sacramento do Matrimônio, definitivamente insolúvel a despeito da prática de muitas 'igrejas', Jesus fez questão de mencionar como inalienável parte do projeto de Deus, desde a Criação: "Os fariseus vieram perguntar-Lhe para pô-Lo à prova: 'É permitido a um homem rejeitar sua mulher por um motivo qualquer?' Respondeu-lhes Jesus: 'Não lestes que o Criador, no começo, fez o homem e a mulher e disse: Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e unir-se-á à sua mulher. E os dois formarão uma só carne (Gn 2,24)? Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu.'" Mt 19,3-6
    E alertou do grave pecado do adultério: "Quem repudia sua mulher e casa-se com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher repudia o marido e casa-se com outro, comete adultério." Mt 10,11-12
    De fato, Ele mostrava muito atento a essa condição, como disse á samaritana no poço de Jacó: "Disse Jesus: 'Tens razão em dizer que não tens marido. Tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu. Nisto disseste a Verdade.'" Jo 4,17b-18
    Essa foi a causa da prisão e da morte do Último Profeta, o Arauto do Senhor, São João Batista, grande mártir da causa do Matrimônio: "Pois o próprio Herodes mandara prender João e acorrentá-lo no cárcere, por causa de Herodíades, mulher de seu irmão Filipe, com a qual se tinha casado. João tinha dito a Herodes: 'Não te é permitido ter a mulher de teu irmão.'" Mc 6,17-18
    Aliás, falando por Deus, Malaquias profetizou-o como Santo Protetor da família: "... e ele converterá o coração dos pais para os filhos, e o coração dos filhos para os pais, de sorte que não mais ferirei de interdito a terra." Ml 3,24
    Inspiradamente, São Paulo também via neste Sacramento o Caminho para a santidade: "Esta é a vontade de Deus: vossa santificação. Que vos aparteis da luxúria, que cada um de vós saiba tratar a própria esposa com santidade e respeito, sem se deixar levar por desregradas paixões como fazem os pagãos que não conhecem a Deus." 1 Ts 4,3-5
    E como Matrimônio via a relação entre Cristo e a Igreja: "Ora, assim como a Igreja é submissa a Cristo, também o sejam em tudo as mulheres a seus maridos. Maridos, amai vossas mulheres como Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela, para santificá-la..." Ef 5,24-26a
    O Sacramento da Ordem, enquanto serviço do mistério da Comunhão, é um dom de Deus pela Salvação dos irmãos. Foi o que Jesus pediu a São Pedro: "... Eu roguei por ti, para que tua confiança não desfaleça. E tu, por tua vez, confirma teus irmãos." Lc 22,32
    Como mostra da importância e da seriedade dessa unção, o próprio Jesus passou a noite em oração antes de escolher os Apóstolos: "Naqueles dias, Jesus retirou-Se a uma montanha para rezar, e aí passou toda a noite orando a Deus. Ao amanhecer, chamou Seus discípulos e dentre eles escolheu Doze, que chamou de Apóstolos..." Lc 6,12-13
    São pessoas, portanto, escolhidas por Deus, como afirmou Jesus aos Apóstolos, pois só assim a obra da Igreja pode prosperar: "Não fostes vós que Me escolhestes, mas Eu escolhi-vos e constituí-vos para que vades e produzais fruto, e vosso fruto permaneça. Eu assim vos constituí, a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em Meu Nome, Ele conceda-vos." Jo 15,16
    De fato, é por eles que as Graças de Deus se derramam sobre a humanidade. São Pedro exorta: "Como bons dispensadores das diversas Graças de Deus, cada um de vós ponha à disposição dos outros o dom que recebeu: a Palavra, para anunciar as mensagens de Deus, ou um Ministério, para exercê-lo com uma divina força, a fim de que em todas coisas Deus seja glorificado por Jesus Cristo. A Ele seja dada a Glória e o poder por toda eternidade! Amém." 1 Pd 4,10-11
    Elas são instituídas em condições e ritos muito especiais, desde os tempos dos Apóstolos até hoje: "Em cada igreja instituíram Anciãos e, após orações com jejuns, encomendaram-nos ao Senhor, em Quem tinham confiado." At 14-23
    O próprio São Pedro apresentava-se como um simples presbítero, ou seja, mais um Ancião: "Eis a exortação que dirijo aos Anciãos que estão entre vós, porque sou Ancião como eles, fui testemunha dos sofrimentos de Cristo e com eles serei participante daquela Glória que há de manifestar-se." 1 Pd 5,1
    São Paulo, escrevendo a São Timóteo, registrou mais detalhes das primeiras ordenações: "Não negligencies o carisma que está em ti e que te foi dado por profecia, quando a assembléia de Anciãos te impôs as mãos." 1 Tm 4,14
    Ainda este: "Conquista a Vida Eterna, para a qual foste chamado e fizeste aquela nobre profissão de fé perante muitas testemunhas." 1 Tm 6,12b
    E pede fidelidade ao Magistério da Igreja: "Recomenda esta Doutrina aos irmãos e serás bom Ministro de Jesus Cristo, alimentado com as palavras da fé e da Sã Doutrina, que até agora com exatidão seguiste." 1 Tm 4,6
    Ele atribuía esta unção ao Espírito de Cristo, como disse aos Bispos de Éfeso: "Cuidai de vós mesmos e de todo rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu Bispos para pastorear a Igreja de Deus, que Ele adquiriu com Seu próprio Sangue." At 20,28
    Atestou que este Sacramento, assim como os demais, não pode ser desfeito: "Pois os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis." Rm 11,29
    E pediu máximo respeito por todos eles: "Na qualidade de colaboradores seus, exortamo-vos a que não recebais em vão a Graça de Deus." 2 Cor 6,1


MAIS MISTÉRIOS

    A Divina Sabedoria, pois, enquanto condição de Sua Onisciência, não está ao nosso alcance. E assim muitos dos desígnios de Deus continuam sendo mistérios para nós, como São Paulo diz: "Pregamos a Sabedoria de Deus, misteriosa e secreta, que Ele predeterminou, antes de existir o tempo, para nossa glória." 1 Cor 2,7
    Contudo, mesmo operando coisas muito além de suas compreensões, por obediência os Apóstolos e os membros da Igreja continuaram celebrando os Sacramentos deixados por Jesus. O Último Apóstolo suspira: "Que os homens nos considerem, pois, como simples operários de Cristo e administradores dos mistérios de Deus." 1 Cor 4,1
    Pois a própria união de Cristo com a Igreja também é um mistério: "... Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela, para santificá-la, purificando-a pela Água do Batismo com a Palavra, para a Si mesmo apresentá-la toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito, mas santa e irrepreensível. Este mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja." Ef 5,25b-27.32
    E a Palavra de Deus, o Verbo Encarnado, ou seja, o Próprio Jesus é a maior Revelação de Deus à humanidade: "Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo em minha carne por Seu Corpo que é a Igreja. Dela fui constituído ministro em virtude da missão que Deus me conferiu, de anunciar em vosso favor a realização da Palavra de Deus, mistério este que esteve escondido desde a origem às gerações passadas, mas que agora foi manifestado a Seus Santos." Cl 1,24-26
    Por isso, a Vinda do Espírito Santo sobre quem obedece a Deus, trazendo o Cristo para habitar em sua alma, também é parte desse mistério. "A estes quis Deus dar a conhecer a riqueza e a Glória deste mistério entre os não-judeus: Cristo em vós, esperança da Glória!" Cl 1,27
    Jesus explicou a Nicodemos como se dá essa misteriosa unção: "Não te maravilhes de que Eu te tenha dito: 'Necessário é-vos nascer de novo.' O vento sopra onde quer. Ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito. Se vos tenho falado das coisas terrenas e não Me credes, como crereis se vos falar das celestiais?" Jo 3,7-8.12
    São Paulo, por fim, deixou-nos explicações a respeito da maldade que há no mundo, mesmo depois da instauração do Reino de Deus pela Manifestação do Cristo. É o chamado 'mistério do mal': "Porque o mistério da iniquidade já está em ação, apenas esperando que seja afastado aquele que o detém." 2 Ts 2,7
    Ele atesta: "Pois sabemos que toda Criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia. Não só ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos em nós mesmos aguardando a adoção, a Redenção de nosso corpo. Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza, porque não sabemos o que devemos pedir nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com inefáveis gemidos." Rm 8,22-23.26
    Para que aceitemos o mistério do mal, ele exalta o imenso amor de Deus em Jesus, que chama de 'mistério do bem': "Sim, é tão sublime, e unanimemente proclamamo-lo, o mistério da divina bondade: manifestado na carne, justificado no Espírito, visto pelos anjos, anunciado aos povos, acreditado no mundo, exaltado na Glória!" 1 Tm 3,16
    A fé, por fim, também é um mistério, como afirmam os seguidores de São Paulo: "A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê. Foi ela que fez a glória dos nossos antepassados. Pela fé reconhecemos que o mundo foi formado pela Palavra de Deus, e que as coisas visíveis se originaram do invisível." Hb 11,1-3
    Ela é uma Graça dada por Deus aos que dela precisam para viver porque rejeitam as coisas do mundo, como escreve o Apóstolo dos Gentios a São Timóteo: "Do mesmo modo, os diáconos sejam honestos, não de duas atitudes nem propensos ao excesso da bebida e ao espírito de lucro. Que guardem o mistério da fé numa pura consciência." 1 Tm 3,8-9
    Ele assim se refere à vida terrena: "Por isso, estamos sempre cheios de confiança. Sabemos que todo tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor. Andamos na fé e não na visão." 2 Cor 5,6-7
    E nesses termos explica a Salvação: "Porque pela esperança é que fomos salvos. Ora, ver o objeto da esperança já não é esperança, porque o que alguém vê, como é que ainda o espera? Nós, que esperamos o que não vemos, é em paciência que o aguardamos." Rm 8,24-25
    A gloriosa Volta de Jesus e a definitiva instalação do Reino de Deus, portanto, São João Evangelista tratou como sendo o último cumprimento do Mistério de Deus, ou seja, a absoluta vitória do bem: "... mas nos dias em que soasse a trombeta do sétimo anjo, cumprir-se-ia o Mistério de Deus, de acordo com a Boa Nova que confiou a Seus servos, os profetas." Ap 10,7
    Ele referia-se à completa tomada do poder de Deus sobre a Terra e ao Julgamento Final, que, como foi revelado, serão realizados por Jesus: "O sétimo anjo tocou a trombeta. Então ressoaram no Céu altas vozes que diziam: 'O império de Nosso Senhor e de Seu Cristo estabeleceu-se sobre o mundo, e Ele reinará pelos séculos dos séculos. Os pagãos tinham-se rebelado, mas chegou Tua ira e o tempo de julgar os mortos, de dar recompensa aos Teus servos, os Profetas, aos Santos e aos que temem o Teu Nome, pequenos e grandes, e o tempo de destruir os que destroem a Terra.'" Ap 11,15.18

    "Em Comunhão com toda a Igreja aqui estamos!"