sexta-feira, 6 de abril de 2018

A Purificação do Coração


    No Sermão da Montanha, Jesus indicou o Caminho para aqueles que realmente querem ser felizes já aqui na Terra, e assim na Vida Eterna. E afirmou que uma das qualidades de Seus seguidores deve ser a pureza de coração: "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!" Mt 5,8
    Ele aponta o coração como fonte dos pecados com os quais desastrosamente consentimos, portanto espelho de nossa índole moral: "Porque é do coração que provêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias." Mt 15,19
    E deu um prático exemplo: "Eu, porém, digo-vos: todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração." Mt 5,28
    Por estranho que pareça, principalmente nesses tempos de racionalismo, Ele disse que é do coração vem tudo que falamos: "Porque a boca fala do que lhe transborda do coração." Mt 12,34
    E que pecamos por más palavras, más intenções, mentiras: "... aquilo que sai da boca provém do coração, e é isso o que mancha o homem." Mt 15,18
    Por Sua Onisciência, Ele flagrava os escribas: "Jesus, penetrando-lhes os pensamentos, perguntou-lhes: 'Por que pensais mal em vossos corações?'" Mt 9,4
    É também pelo coração que Ele mede nossa , bem como nosso conhecimento das coisas de Deus, e assim vai reclamar dos discípulos que partiram para Emaús no Domingo da Ressurreição: "Jesus disse-lhes: 'Ó gente insensata! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os Profetas!'" Lc 24,25
    Dizia que é do coração que vem a má vontade em aceitar os Mandamentos, como o Sacramento do Matrimônio: "Jesus respondeu-lhes: 'É por causa da dureza de vosso coração que Moisés havia tolerado o repúdio das mulheres; mas no começo não foi assim.'" Mt 19,8
    Dele vem também a má vontade em perceber as obras de Deus, como disse Ele citando Isaías: "... porque o coração deste povo se endureceu: taparam seus ouvidos e fecharam seus olhos... (Is 6,10)" Mt 13,15
    É dele, ainda conforme Jesus, que o inimigo nos rouba os dons de Deus: "... mas depois vem o Demônio e tira-lhes a Palavra do coração..." Lc 8,12
    Não por acaso, é exatamente esse o exemplo dado por Nossa Senhora, desde os primeiros relatos dos sinais que se deram no Natal: "Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração." Lc 2,19
    Ou quando Jesus afirmou, ainda aos doze anos, que haveria de estar na 'Casa de Seu Pai': "Em seguida, desceu com eles a Nazaré e era-lhes submisso. Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração." Lc 2,51
    E como escreveu São João Evangelista, é igualmente no coração que o inimigo lança suas más sementes e suas garras: "... o Demônio já tinha lançado no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de traí-Lo..." Jo 13,2
    Por isso exorta São Tiago Menor: "Sede submissos a Deus. Resisti ao Demônio, e ele fugirá para longe de vós. Aproximai-vos de Deus, e Ele Se aproximará de vós. Lavai as mãos, pecadores, e purificai vossos corações, ó homens de dupla atitude." Tg 4,7-8
    Pois só um coração previamente tocado por Deus está apto para acolher Sua Palavra e dar frutos, como Jesus explicou na parábola do semeador: "A que caiu na terra boa são os que ouvem a Palavra com reto e bom coração, retêm-na e dão fruto pela perseverança." Lc 8,15
    Ele diz que nosso coração reflete as coisas às quais nos apegamos: "Pois onde estiver vosso tesouro, ali também estará vosso coração." Lc 12,34
    Porque a pureza de coração só pode existir na humildade, como ensinou ainda no Sermão da Montanha: "Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!" Mt 5,3
    Esse é o exemplo que Ele deu através de Seu viver: "Tomai Meu jugo sobre vós e recebei Minha Doutrina, porque Eu sou manso e humilde de coração, e achareis o repouso para vossas almas." Mt 11,29
    Sem dúvida, Deus quer nosso coração por inteiro, e não apenas parte dele: "Jesus respondeu-lhe: 'O primeiro de todos Mandamentos é este: Ouve, Israel, o Senhor Nosso Deus é o único Senhor; amarás ao Senhor teu Deus de todo teu coração..." Mt 12,29-30a
    Nosso Salvador vaticinava contra a cobiça, entre outros desvios: "Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza." Mt 6,24
    Ele advertiu das inquietações e desordens dos vacilos da fé, que, em momentos de dificuldade, claramente se fazem notar por seus batimentos: "Não se perturbe vosso coração. Credes em Deus, crede também em Mim." Jo 14,1
    Firmou, por fim, a pureza de uma criança como parâmetro: "Em verdade, declaro-vos: se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus." Mt 18,3
    Ora, segundo o religioso Simeão, que estava no Templo de Jerusalém quando da Apresentação do Menino Jesus, a Missão do Salvador poria em cheque nossos corações: "Simeão abençoou-os e disse a Maria, Sua mãe: 'Eis que este Menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações.'" Lc 2,34-35a
    Essa era uma promessa feita por Deus através de Moisés, quando em Seu povo realizaria muito mais efetiva circuncisão: "O Senhor, Teu Deus, circuncidar-te-á o coração e o de tua descendência, para que ames o Senhor de todo teu coração e de toda tua alma, a fim de que possas viver." Dt 30,6
    E o Profeta Jeremias, indicando seu cumprimento na Vinda do Messias, descreveu-a como um irrefutável testemunho do Espírito Santo sobre o Salvador: "Mas esta é a Aliança que estabelecerei com a Casa de Israel depois daqueles dias: imprimirei Minhas leis em seu espírito e as gravarei em seu coração. Eu serei Seu Deus, e eles serão Meu povo. Ninguém mais terá que ensinar a seu concidadão, ninguém a seu irmão, dizendo: 'Conhece o Senhor', porque todos Me conhecerão, desde o menor até o maior." Jr 31,33-34
    São Paulo, com propriedade, indica a falta de culto a Deus como causa da devassidão no mundo: "Porque, conhecendo a Deus, não O glorificaram como Deus nem Lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e obscureceu-se-lhes o insensato coração. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos. Por isso, Deus entregou-os aos desejos de seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. Trocaram a Verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém!" Rm 1,21-22.24-25
    E a São Timóteo ele recomenda fugir das tentações, buscando as coisas do alto em companhia dos que participavam das primícias da Santa Missa: "Foge das paixões da mocidade, busca com empenho a justiça, a fé, a caridade e a Paz, junto àqueles que invocam o Senhor com pureza de coração." 2 Tm 2,22
    Segundo São Pedro, é abraçando voluntariosamente as penitências, ou seja, revivendo nelas o Sacrifício de Cristo, exatamente como fazemos na Santa Missa, e aceitando com resignação as provações que se alcança a santidade: "Se fordes zelosos do bem, quem vos poderá fazer mal? E até sereis felizes, se alguma coisa padecerdes por causa da justiça! Portanto, não temais suas ameaças e não vos turbeis. Antes santificai em vossos corações Cristo, o Senhor." 1 Pd 3,13-15a
    Do contrário, segundo São Paulo, o ser humano está simplesmente fadado à perdição: "Mas pela tua obstinação e impenitente coração, vais acumulando ira contra ti para o Dia da Cólera e da Revelação do justo Juízo de Deus, que a cada um retribuirá segundo suas obras: a Vida Eterna aos que, perseverando em fazer o bem, buscam a Glória, a honra e a imortalidade; mas ira e indignação aos contumazes, rebeldes à Verdade e seguidores do Mal." Rm 2,5-8
    Pois é o coração o foco de todo Julgamento: "Por isso, não julgueis antes do tempo; esperai que venha o Senhor. Ele porá às claras o que se acha escondido nas trevas. Ele manifestará as intenções dos corações. Então cada um receberá de Deus o louvor que merece." 1 Cor 4,5
    Ele rezava: "Que o Senhor vos faça crescer e avantajar na mútua caridade e para com todos os homens, como é o nosso amor para convosco. Que Ele confirme vossos corações, e torne-os irrepreensíveis e santos na presença de Deus, Nosso Pai..." 1 Ts 3,12-13a
    E fala da garantia que é Espírito Santo: "Ora, Quem confirma a nós e a vós em Cristo, e consagrou-nos, é Deus. Ele marcou-nos com Seu selo, e deu aos nossos corações o penhor do Espírito." 2 Cor 1,21-22
    O Príncipe dos Apóstolos apregoa esta ascese, provavelmente a ele revelado em suas práticas de fé: "Por estes motivos, esforçai-vos quanto possível por unir à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o amor fraterno, e ao amor fraterno a caridade. Se estas virtudes se acharem abundantemente em vós, elas não vos deixarão inativos nem infrutuosos no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque quem não tiver estas coisas é míope, cego: esqueceu-se da purificação de seus antigos pecados." 2 Pd 1,5-9
    Pois era essa humilde condição, propícia à Unidade, que animava os fieis nos primeiros anos da Igreja, permitindo seu franco crescimento: "Unidos de coração, frequentavam todos os dias o Templo. Partiam o Pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia lhes ajuntava outros que estavam a Caminho da Salvação." At 2,46-47
    De fato, havia muito que essa era uma preocupação dos judeus, e que naqueles tempos se dava pelo batismo de São João Batista: "Ora, surgiu uma discussão entre os discípulos de João e um judeu, a respeito da purificação." Jo 3,25
    E o salmista, inspiradamente, já se advertia de muitos pecados dos quais nem tinha consciência: "Ainda que vosso servo neles atente, guardando teus juízos com todo cuidado, quem pode, entretanto, ver as próprias faltas? Purificai-me das que me são ocultas." Sl 18,12-13
    Ele sabia que essa era uma condição para manter-se perto de Deus, e assim de Sua Casa: "Quem será digno de subir ao monte do Senhor? Ou de permanecer no Seu lugar santo? Aquele que tem as mãos limpas e o coração puro, cujo espírito não busca as vaidades nem perjura para enganar seu próximo. Este terá a bênção do Senhor, e a recompensa de Deus, Seu Salvador. Tal é a geração dos que O procuram, dos que buscam a face do Deus de Jacó." Sl 23,3-6
    E em reconhecimento, cantava: "De fato, Deus, o Senhor, é bom para Israel, para os corações puros!" Sl 72,1
    Não esqueceu, no entanto, além de penitenciar-se, de pedir a Deus forças para mantê-lo puro: "Lavai-me totalmente de minha falta, e purificai-me de meu pecado. Ó Meu Deus, criai em mim um coração puro, e renovai-me com um espírito de firmeza. Meu sacrifício, ó Senhor, é um contrito espírito, um arrependido e humilhado coração, ó Deus, que não haveis de desprezar." Sl 50,4.12.19
    Como tal pureza significa fortaleza, ele recomendava: "Espera no Senhor e sê forte! Fortifique-se teu coração e espera no Senhor!" Sl 26,14
    Os Provérbios já avisavam da necessidade de bem guardá-lo, e do manancial que dele transborda: "Guarda teu coração acima de todas outras coisas, porque dele brotam todas as fontes da Vida." Pr 4,23
    E disse o vidente Hanani veio a Asa, rei de Judá: "Os olhos do Senhor percorrem toda a terra, para sustentar aqueles cujo coração Lhe é totalmente devotado." 2 Cro 16,9a
    Com efeito, convidando-nos à perfeita Comunhão com Ele, Jesus avisou de um 'retoque final' que só o Pai pode realizar naqueles que confiantemente se entregam em Suas mãos: "... e todo ramo que dá fruto, Ele o limpa, para que dê ainda mais frutos." Jo 15,2b
    Assim, o coração deve ser a fortaleza de resistência contra o Mal. E sua purificação, ou a manutenção dela, é a meta de todo cristão e só pode ser alcançada com a ajuda do Espírito de Deus, que abrasa nossos corações pelo dom da fé. Disse São Pedro sobre o 'Pentecostes dos Pagãos': "Ora, Deus, que conhece os corações, testemunhou a seu respeito dando-lhes o Espírito Santo, da mesma forma que a nós. Nem fez distinção alguma entre nós e eles, purificando pela fé seus corações." At 15,8-9

FÉ VIVA

     Segundo o Catecismo da Igreja Católica, a verdadeira fé faz-se notar através da:
    - virtude e dom da castidade, que propiciam um verdadeiro amor;
    - pureza de intenção, que é desejar o que verdadeiramente é o bem;
    - pureza do olhar, que reflete a disciplina dos sentimentos e da imaginação; e,
    - regular e frequente oração.

    Em 3 qualidades cristãs, portanto, a pureza reflete-se mais intensamente, e a elas devemos estar bem atentos. Em palavras de Jesus, elas são:
    1) Caridade: "... amarás ao Senhor teu Deus... Amarás teu próximo como a ti mesmo." Mc 12,30-31
    2) Castidade: "... todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração." Mt 5,28
    3) Verdade: "Todo aquele que é da Verdade ouve Minha voz." Jo 18,37
  
    A purificação como fruto da Caridade é bastante conhecida. Sob seu aspecto espiritual, Jesus bem exaltou o amor salvífico enquanto testemunho que damos para a Salvação de nossos semelhantes: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos." Jo 15,13
    Sob seu aspecto material, Ele ensinou: "... dai em esmola do que possuís, e para vós tudo será purificado." Lc 11,41
    Os seguidores de São Paulo, aliás, vão confirmar tais gestos como forma de penitência: "Não negligencieis a beneficência e a liberalidade. Estes são sacrifícios que agradam a Deus!" Hb 13,16
    Então vejamos a purificação como fruto da Castidade e da Verdade.

PELA CASTIDADE

    O pudor é um sinal da presença de Deus no coração. Ele expressa-se desde o jeito de olhar e de vestir. Escravos da concupiscência carnal, a falsa cultura e os meios de comunicação, em ensandecida busca pela atenção pública, agindo por mera cobiça, não têm compromisso com a decência. E a intimidade, sempre que exposta, inevitavelmente será causa de transtornos pessoais.
    As deletérias correntes ideológicas de comportamento e a indústria da moda também nada têm a ver com modéstia ou discrição, nem auxiliam a tranquilidade nem o silêncio. Assim, o que com frequência assistimos são escândalos, banalização da sexualidade, erotismo e ilusão. Como advertiu Nossa Senhora do Bom Sucesso, às crianças é sonegado um ambiente sadio e propício à inocência, que lhes deveria ser característica. Para elas, na atualidade torna-se quase impossível formular o conceito de pudor. Não existe mais a esfera da privacidade, e, com doentia frequência, a da intimidade é violentamente invadida.
    A vida cristã, portanto, para que se torne realidade, depende quase que intrinsecamente da purificação do meio social em que se vive, pois em muitos ambientes a permissividade e o histrionismo afrontam os bons costumes chegando às raias do ridículo e do absurdo.
    Mas o que nos ensina a Igreja sobre a castidade?
    Desde os primórdios, o livro do Êxodo já corrigia: "Não cometerás adultério." Ex 20,14
    E fá-lo com toda propriedade, pois a identidade sexual manifesta-se em todos os aspectos da personalidade e deve harmonizar-se com a vontade de Deus. Ou seja, ou o ser humano adquire o autocontrole, o domínio de si, ou será subjugado por suas paixões, sendo sufocado pela solidão e pela infelicidade. Para alguns segmentos sociais, porém, esse amadurecimento já se tornou um esforço de contracultura, dada a insana proliferação dos 'prazeres' da vida urbana.
    Para a Igreja, a castidade, seja virginal ou celibatária, para os consagrados, ou ainda conjugal, para os casados, e a de continência, para os demais, é a única possibilidade de uma verdadeira e desinteressada amizade entre as pessoas. Qualquer outro comportamento consiste em pecado contra a castidade. E a lista é extensa.
    Para começar, não há como negar que a luxúria escandaliza, trata o próximo como um objeto, é um conflituoso e desregrado prazer, leva ao vício e à compulsão, e, ainda pior, ao vazio da constante insatisfação.
    A masturbação, outro ato de deformação moral, é fruto da corrupção de adolescentes e jovens que sofreram prematura exposição à pornografia, a escândalos ou à despudorada vida de adultos, muitas vezes da própria família. É mero impuro uso da imaginação, e em muitos casos representa os primeiros passos para a compulsão sexual e a tara.
    A fornicação é a união carnal de pessoas livres, mas sem a unção do Matrimônio. Trata-se de permissividade e de nenhuma vontade de assumir as responsabilidades da vida adulta, que levam contemplar a integridade das dimensões da natureza humana como Deus as criou. A família, a paternidade, a maternidade, a filiação, o amor conjugal, a própria honra e a dos pais e a espiritualidade são acintosamente renegados.
    A pornografia, ato de divulgar imagens da intimidade sexual, não passa de objeto da indústria e do comércio do sexo, ou de instrumento de alienação. É igualmente uma violenta supressão do amor ao próximo. Atores, comerciantes e público prestam-se a vãs fantasias que aviltam o respeito e a formação moral, e propagam um animalesco e ilusório mundo, reles fonte de perversão e angústia.
    A prostituição é um verdadeiro flagelo social, fortemente associado à ignorância e à pobreza. Só subsiste por meio da deterioração dos valores morais nos centros urbanos, da abjeta falta de caráter ou de amor próprio, no plano pessoal, da exploração e do escapismo da miséria, e, o mais grave, da exploração de menores.
    A homossexualidade não realiza plenamente o ser humano, nem complementa afetivamente os parceiros. O resultado geral é muita instabilidade emocional, tristeza e solidão, frutos de relacionamentos exclusivamente baseados na vida sexual. Essa conduta com frequência esconde quadros de abusos sofridos na infância, além da ausência, rejeição ou substituição da figura paterna, bem como casos de pedofilia, aliciação de menores, conveniências econômicas e prostituição. A Igreja convida à oração e ao celibato, ou, em caso de mudança de comportamento, ao casamento.
    Salvaguardando, através da castidade no Matrimônio, a família como projeto de Deus, o Arcanjo São Gabriel resumiu assim a missão de São João Batista: "... para reconduzir os corações dos pais aos filhos..." Lc 1,17
    E ressaltou, com a mesma sutileza, o exemplo de temperança deste eremita: "... e os rebeldes à Sabedoria dos justos..." Idem


PELA VERDADE

    E não se pode amar a Deus sem vivenciar a Verdade. Jesus sentenciou: "Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja." Jo 4,23
    Ele é a própria Verdade: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida..." Jo 14,6
    Essa Verdade está expressa no Evangelho que nos purifica, como Ele garantiu aos Apóstolos: "Vós já estais puros pela Palavra que vos tenho anunciado." Jo 15,3
    Sem dúvida, os discípulos que partiram para Emaús, e ouviram Suas explicações sobre a necessidade de Sua Paixão, atestaram esse fogo purificador: "Diziam então um para o outro: 'Não nos abrasava o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e explicava as Escrituras?'" Lc 24,32
    A Carta aos Hebreus confirma: "Porque a Palavra de Deus é viva, eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes e atinge até a divisão da alma e do corpo, das juntas e medulas, e discerne os pensamentos e as intenções do coração. Nenhuma criatura é-Lhe invisível. Tudo é nu e descoberto aos olhos d'Aquele a Quem havemos de prestar contas." Hb 4,12-13
    Para fugir do torpor das ilusões, o salmista pedia a Deus: "Que meu coração seja perfeito na observância de Vossas leis, a fim de que eu não seja confundido." Sl 118,80
    Autor da Graça, o Espírito do Santo foi chamado por Jesus de 'Espírito da Verdade', e só está disponível àqueles que O seguem: "É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem o conhece, mas vós O conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós." Jo 14,17
    E como guia da Igreja, é Ele que a tem iluminado através dos séculos e a cada novo desafio. Jesus garantiu: "Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a Verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão." Jo 16,13
    Por isso, São Paulo chama a Igreja de sustentáculo da Verdade: "Todavia, se eu tardar, quero que saibas como deves portar-te na Casa de Deus, que é a Igreja de Deus vivo, coluna e sustentáculo da Verdade." 1 Tm 3,15
    E recomendou a São Tito que corrigisse os desvios da Sã Doutrina: "Portanto, repreende-os severamente para que se mantenham sãos na fé, e não deem ouvidos a fábulas judaicas nem a preceitos de homens avessos à Verdade." Tt 1,13b-14
    Exaltando os puros, ele denuncia os maliciosos: "Para os puros todas as coisas são puras. Para os corruptos e descrentes nada é puro: até sua mente e consciência são corrompidas. Proclamam que conhecem a Deus, mas na prática O renegam, detestáveis que são, rebeldes e incapazes de qualquer boa obra." Tt 1,15-16
    Aos coríntios, ele sentenciou: "De fato, não podemos nada contra a Verdade, mas somente a favor da Verdade." 2 Cor 13,8
    Afirmou também que o Divino Paráclito é a confirmação da nossa divina filiação, e nosso coração, Seu sacrário: "A prova de que sois filhos é que Deus enviou a vossos corações o Espírito de Seu Filho..." Gl 4,6
    E divulgar a Verdade, para que ela seja manifestamente expressa através da caridade, é a inafastável função da Igreja: "Não há dúvida de que vós sois uma carta de Cristo, redigida por nosso ministério e escrita, não com tinta, mas com o Espírito de Deus Vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, em vossos corações." 2 Cor 3,3
    Nessa condição profética, ela levará os corações à Confissão e será reconhecida com legítima representante de Cristo: "Se, porém, todos profetizarem, e entrar ali um infiel ou um homem simples, por todos é convencido, por todos é julgado; os segredos de seu coração tornam-se manifestos. Então, prostrado com a face em terra, adorará a Deus e proclamará que Deus está realmente entre vós." 1 Cor 14,24-25
    Contudo, este também é seu grande desafio de fidelidade: "Mas como Deus nos julgou dignos de nos confiar o Evangelho, falamos, não para agradar aos homens, e sim a Deus, que sonda nossos corações." 1 Ts 2,24
    Jesus instou os Apóstolos a não se acanharem em seus testemunhos: "Se guardaram Minha Palavra, também hão de guardar a vossa." Jo 15,20b
    E aos que se recusam a ouvir a Igreja, Ele determinou: "Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se também recusar ouvir a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano." Mt 18,17
    Não há, portanto, como estar em Comunhão com Deus sem a devida Confissão, isto é, sem purificar-se pela Verdade. E por isso Jesus delegou esse Sacramento aos Apóstolos: "Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.'" Jo 20,22-23
    Como Divina Lei, expressa nos 10 Mandamentos, ou mesmo mera convenção entre seres humanos, a Verdade é essencial à boa convivência: "Não levantarás falso testemunho contra teu próximo." Ex 20,16
    Ela é elementar ao respeito às pessoas e à depuração social, e por isso 3 atitudes constituem-lhe ofensas:
    1) o juízo temerário: quando se fala de graves assuntos sem a devida fundamentação;
    2) a maledicência: quando se divulga defeitos ou faltas dos outros sem motivação importante;
    3) a calúnia: quando se prejudica a reputação de alguém com mentiras ou quando se promove ocasião para falsos juízos.
    No mesmo sentido, não podemos permitir-nos viver na ilusão. A preguiçosa consciência é um pecado, é indiferença à manifestação do Cristo, que disse: "É para dar testemunho da Verdade que nasci..." Jo 18,37
    De fato, Ele veio dar-nos motivos para acreditar: "... todo aquele que crer em Mim não ficará nas trevas." Jo 12,46
    Da mesma forma, a Cartas aos Hebreus diz: "... sem é impossível agradar a Deus..." Hb 11,6
    Como poderíamos então acreditar, se não buscamos a Verdade? Como poderíamos nos livrar do pecado vivendo na escravidão do erro? Jesus prega: "... conhecereis a Verdade e ela vos libertará." Jo 8,32
    A Verdade está na Bíblia, e toda ela nos fala de Jesus, como Ele mesmo afirmou: "Vós perscrutais as Escrituras, julgando nelas encontrar a Vida Eterna. Pois bem! São elas mesmas que dão testemunho de Mim." Jo 5,39
    E através da Verdade devemos buscar a Unidade da Igreja, onde encontramos nosso refúgio espiritual e nossos pecados são perdoados, como ensina São João Evangelista: "A Boa Nova que d'Ele temos ouvido e anunciamo-vos é esta: Deus é Luz e n'Ele não há treva alguma. Se dizemos ter Comunhão com Ele, mas andamos nas trevas, mentimos e não seguimos a Verdade. Se, porém, andamos na Luz como Ele mesmo está na Luz, temos Comunhão recíproca uns com os outros e o Sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, purifica-nos de todo pecado." 1 Jo 1,5-7
    Pois para o Amado Discípulo, devemos diligentemente aguardar a definitiva condição de filhos de Deus: "E todo aquele que n'Ele tem esta esperança torna-se puro, como Ele é puro." 1 Jo 3,3
    São Paulo diz: "... quem se une ao Senhor torna-se com Ele um só Espírito." 1 Cor 6,17
    E contra todas as maquinações do inimigo, a vontade de Deus é que Consigo tenhamos a verdadeira Comunhão. O último Apóstolo suspira: "... até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo." Ef 4,13

    "Santificai-nos pelo dom do Vosso Espírito!"