sábado, 28 de abril de 2018

São Luís Maria Montfort


    No fim do século XVII, quando em todo mundo se pregava abertamente a abolição da escravatura, um sacerdote francês convidava todos à escravidão à Nossa Senhora, através de uma das maiores obras da Mariologia na atualidade, da qual é um dos precursores: 'O Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria'.
    Nasceu no ano de 1673, em Montfort-sur-Meu, na Bretanha francesa. Sua mãe era fervorosa católica e enviou-o, aos 12 anos, ao Colégio Jesuíta São Thomas Becket, em Rennes, cidade mais próxima. Desde então nosso Santo já sentia o chamado à vida sacerdotal, e aí mesmo começou a estudar Teologia e Filosofia. Conheceu o padre local, que vivia como missionário itinerante, e percebeu que seu coração haveria de ser entregue a serviço dos mais pobres. E ao ouvir sobre o trabalho dos missionários da Companhia dos Padres de São Sulpício, que evangelizavam no Canadá, quis oferecer-se.
    Com esse intuito, em 1693 foi enviado a Paris, para o Seminário de São Sulpício, uma escola de referência para a espiritualidade francesa. Mas o dinheiro dado por seu benfeitor não era suficiente, e por dois anos ele contentou-se em viver entre os mais pobres e mendigos, enquanto frequentava as palestras de Teologia na Universidade de Sorbonne.
    Sem os devidos cuidados, adoeceu gravemente, mas foi internado e, apesar de algumas sequelas, convalesceu. Alguém do Seminário de São Sulpício soube de sua história e deu-lhe um emprego de bibliotecário, de modo a custear seus estudos, e durante as horas de trabalho ele dedicou-se a conhecer em profundidade as principais obras do Catolicismo, dando especial atenção aos assuntos referentes à Virgem Mãe do Céu.
    Em 1700 foi ordenado e enviado a Nantes, porém queira mesmo era pregar aos pobres, dos quais, desde a chegada a Paris, não mais se havia afastado. E para maior contrariedade, deu-se conta que toda a comunidade sacerdotal local era adepta do jansenismo, heresia de um bispo holandês, para quem, na prática, o ser humano é um mero objeto: já nasce predestinado ou ao inferno ou à Salvação. Seus seguidores recusavam-se a absolver os pecados de quem confessasse reincidência, e, com tamanha exigência de contrição, a 'comunhão espiritual' seria para eles mais importante que a própria Comunhão Eucarística.
    Sua perfeita instrução doutrinária, claro, não sucumbiu a esses absurdos. E opondo-se frontalmente a esses desvios, vai ser perseguido por toda a vida. Como uma das consequências, foi enviado a Poitiers, na condição de capelão do hospital, e, para servir aos mais pobres enfermos, começou a trabalhar com a Beata Marie Louise Trichet, de apenas 17 anos, com quem em 1715 fundaria a Congregação das Filhas da Sabedoria.


    Contudo, não desistiu de pregar e tanto quanto pôde viveu em missão por toda a região da Bretanha, entre cidades e aldeias, levando ao povo mais humilde o mais puro Catecismo Católico. Seu amor à Nossa Senhora era encantador, tocava o coração de toda a gente. Aí começou a ser conhecido como o 'bom padre de Montfort'. Em Pontchateau, chegou a reunir milhares de pessoas para construir uma grande Via Sacra, mas terminou sendo expulso pelo bispo não só do hospital como também da diocese de Nantes.
    Tristemente compungido, vai a pé até Roma, aconselhar-se com o Papa, pedir-lhe para ser enviado ao Canadá, como era seu antigo sonho. Porém será enviado pelo Santo Padre de volta a França justamente para fazer frente ao jansenismo, e agora com o título de Missionário Apostólico. Continuará, entretanto, sendo violentamente combatido em paróquias e dioceses. Tentaram matá-lo por envenenamento, o que agravou ainda mais seus problemas de saúde.
    Mas ele não retrocedia. Vai escrever o 'Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria', 'O Segredo de Maria' e 'O Segredo do Rosário', assim como as regras para a Companhia de Maria, que fundaria em 1712, e para a Congregação das Filhas da Sabedoria.


    Nas proximidades de Montfort, na gruta Mervent, em São Lázaro, ele vai recolher-se por várias vezes, por muitos meses, quatro anos ao todo durante sua vida, revigorando sua vida espiritual e contemplativa.
    A Marie Louse Trichet, vai escrever de Paris: "Sou-vos infinitamente grato. Estou sentindo o efeito de vossas orações, já que, hoje mais que nunca, vejo-me empobrecido, crucificado, humilhado. Homens e demônios desta grande cidade de Paris movem-me uma guerra que me é amável e suave. Que me caluniem, que me ridicularizem, que destruam minha reputação, que cheguem até a prender-me. Que preciosos dons! Que deliciosos manjares! Que encantadoras grandezas! São os indispensáveis séquito e companhia que a divina Sabedoria envia à casa daqueles onde deseja habitar. Quando me será dado possuir essa amável e desconhecida Sabedoria?"
    Foi muito criticado por sua 'falta de prudência', mas uma vez respondeu em carta a um amigo: "Dais-me como exemplo pessoas muito prudentes e de grande virtude a quem ninguém pensa em censurar. Mas há duas espécies de prudência: a própria dos cristãos que vivem em sociedade, e outra que vai melhor aos missionários e homens apostólicos. Os primeiros, para prudentemente procederem, só têm que observar as regras e costumes de uma santa casa; os outros veem-se frequentemente obrigados a desprezar a própria glória para buscar a de Deus, e, para isso, têm que se lançar em mais de uma empresa que choca e até escandaliza. Não é de estranhar que se deixe em paz aos primeiros e se ataque os segundos. Quando os homens de ação são bem acolhidos pelo mundo, é sinal de que o inferno não os teme. Se a prudência consistisse simplesmente em não dar que falar, os Apóstolos não precisariam ter saído de Jerusalém, nem São Paulo teria sido obrigado a fazer tantas viagens, nem São Pedro porque fincar a cruz no Capitólio. Com uma prudência assim não se teria sobressaltado a sinagoga, mas também não se teria conquistado o mundo."
    Para ele, como afirmou São Paulo, a Sabedoria está na loucura da Cruz: "Se fizermos qualquer coisa para não correr riscos por Deus, nunca iremos fazer algo de grande por Ele."
    O último Apóstolo ensinava: "Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o Evangelho; e isso sem recorrer à habilidade da arte oratória, para que não se desvirtue a Cruz de Cristo. A linguagem da Cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma divina força. Já que o mundo, com sua sabedoria, não reconheceu a Deus na Divina Sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura de Sua mensagem. Os judeus pedem milagres, os gregos reclamam sabedoria. Nós, porém, pregamos Cristo Crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos. Mas, para os eleitos - quer judeus quer gregos -, força de Deus e Sabedoria de Deus." 1 Cor 1,17-18.21-24
    E completou: "Ninguém se engane a si mesmo. Se alguém dentre vós se julga sábio à maneira deste mundo, faça-se louco para tornar-se sábio, porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus..." 1 Cor 3,18-19a
    Os escritos de São Luís Maria Montfort sobre Mariologia vieram a influenciar fortemente a devoção de quatro Papas, em especial, que a ela fizeram várias menções em suas encíclicas. São eles Papa Leão XIII, Papa São Pio X, Papa Pio XII e o Papa São João Paulo II.


    Devoção à Nossa Senhora, ele justifica por dois princípios:
    1 - Deus quis servir-se de Maria para a Encarnação do Cristo; e,
    2 - Deus quer servir-se de Maria para a santificação das almas.
    Essa devoção tem cinco características:
    1 - é interior, ou seja, vem do espírito e do coração, fundamentando-se na correta visão do fulgurante papel representado por Maria no plano da Redenção, e num amor coerente a essa visão;
    2 - é terna, gerando na alma uma grande confiança, que faz recorrer a Maria em todas suas necessidades, como uma criança recorre a sua mãe;
    3 - é Santa, isto é, faz com que se evite todo pecado e imitem-se as virtudes da Santíssima Virgem;
    4 - é constante, consolidando a alma no bem e fazendo com que não abandone facilmente o caminho iniciado; e,
    5 - é desinteressada, inspirando a alma a buscar mais a Glória de Deus que suas próprias vantagens.

    São luzes de sua inspiração:
    "Digo que devemos pertencer a Jesus Cristo e servi-Lo, não como mercenários servos, mas como amorosos escravos, que por efeito de um grande amor se dedicam a servi-Lo como escravos, pela exclusiva honra de pertencer-Lhe."
    "Jesus Cristo, Nosso Salvador, Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem, deve ser o fim último de todas nossas devoções."
    "Os pobres e as crianças seguiam-nO por toda parte, considerando-O um entre elas. Viam nesse Querido Salvador tanta simplicidade, benignidade, condescendência e caridade que se acotovelavam à Sua volta para d’Ele aproximarem-se."

    "Deem preferência às aldeias mais que às cidades, aos pobres mais que aos ricos."
    "Jamais a Cruz sem Jesus, nem Jesus sem a Cruz!"
    "Tome sua cruz! E não deverá arrastá-la, sacudi-la, reduzi-la ou escondê-la. Pelo contrário, leve-a bem erguida em suas mãos, sem impaciência, nem azedume, nem murmurações... Enfim, sem qualquer vergonha ou respeito humano..."
    "O Senhor não considera tanto o sofrimento em si mesmo, mas sim a maneira como se sofre."
    "O conhecimento da eterna Sabedoria não é apenas o mais nobre e o mais doce, mas ainda o mais útil e o mais necessário, já que a Vida Eterna consiste em conhecer a Deus e Seu Filho Jesus Cristo."
    "Só Deus é minha ternura, só Deus é meu sustentáculo, só Deus é todo meu bem, minha vida e minha riqueza."
    "Deus ama tanto as crianças que as coloca como prioridade do Reino dos Céus. Por isso, quando temos um coração de criança que é dócil a Palavra de Deus e busca praticar o que Jesus ensinou, acabamos por escolher o mais fácil caminho para chegar a Salvação: o caminho da pequenez."

    "Oh! Espírito Santo, concede-me uma grande devoção e uma grande inclinação para Maria, um sólido apoio sobre seu materno seio e um assíduo recurso à sua misericórdia, para que, nela, Tu possas formar Jesus dentro de mim."
    "Sendo Maria a criatura mais conforme a Jesus Cristo, tem-se como resultado que, entre todas as devoções, a que consagra e conforma mais uma alma a Nosso Senhor é a devoção a Maria, Sua Santa Mãe."
    "Deus, vendo que somos indignos de receber Suas Graças diretamente de Suas divinas mãos, dá-as a Maria, a fim de por ela obtermos o que Ele quer dar-nos."

    "Se examinarmos atentamente o resto da vida de Jesus, veremos que foi por Maria que Ele quis começar Seus milagres."
    "É por Maria que procuro e que vou encontrar Jesus; que eu esmagarei a cabeça da serpente e vencerei todos meus inimigos e a mim mesmo, para a maior Glória de Deus."
    "Quem encontrar Maria, encontrará a Vida (Jesus Cristo)."
    "Mil graças a Maria! Este Jesus que eu possuo é, com efeito, seu fruto, e sem ela eu jamais O teria."
    "Quanto mais uma alma estiver consagrada a Maria, tanto mais estará consagrada a Jesus Cristo."
    "Eu sou todo Teu, e tudo o que é meu Te pertence, Meu amável Jesus, por meio de Maria, Tua Santa Mãe."
    "Ela (Maria) é de tal forma transformada em Ti pela Graça, que não vive mais, não existe mais. És unicamente Tu, Meu Jesus, que nela vives e reinas..."
    "A Virgem Maria 'ama-Te (Jesus) mais ardentemente e glorifica-Te mais perfeitamente que todas as outras criaturas juntas.'"
    "Saúdo-te Maria, predileta do Pai Eterno! Saúdo-te Maria, admirável mãe do Filho! Saúdo-te Maria, fidelíssima esposa do Espírito Santo!"
    "Ser vosso devoto, ó Santíssima Virgem, é uma arma de Salvação que Deus dá àqueles que quer salvar."
    "Ó fiel Virgem, tornai-me em todas as coisas um perfeito discípulo, imitador e escravo da Sabedoria Encarnada, Jesus Cristo, vosso Filho."
    "Que todos os homens, os estudiosos e os simples, os justos e os pecadores, os maiorais e os pequenos, louvem e honrem a Jesus e a Maria, dia e noite, através da oração do Santíssimo Rosário."
    "Peço que estejam atentos, a fim de não pensarem que o Rosário é de pouca importância, como dizem os ignorantes e alguns grandes intelectuais do orgulho. Longe de insignificante, o Rosário é um tesouro de incalculável valor e inspirado por Deus."
    "É lamentável ver como a maioria das pessoas rezam o Santo Rosário, extremamente rápido e murmurando, fazendo com que as palavras não sejam pronunciadas claramente."
    "O cristão que não medita sobre os mistérios do Rosário é muito ingrato a Nosso Senhor, e mostra o quão pouco se preocupa por tudo que o Divino Salvador sofreu para salvar o Mundo."
    "Reconhecerão que ela (Maria) é o mais seguro, mais fácil, mais rápido e mais perfeito meio de chegar a Jesus Cristo, e se lhe entregarão de corpo e alma, sem restrições, para assim também pertencerem a Jesus Cristo."
    "(Maria) É tão caridosa que a ninguém repele dos que imploram sua intercessão, ainda que seja um pecador. Pois, como dizem os Santos, nunca se ouviu dizer, desde que o mundo é mundo, que alguém que tenha recorrido à Santíssima Virgem, com confiança e perseverança, tenha sido desamparado ou repelido."
    "Confesso com toda a Igreja que Maria é uma pura criatura, saída das mãos do Altíssimo. Comparada, portanto, à Infinita Majestade ela é menos que um átomo, é , antes um nada, pois que só Ele é 'Aquele que é (Ex 3,14).'"
    "Tudo que convém a Deus pela Natureza, convém a Maria pela Graça."
    "Maria é um santo lugar, o Santo dos Santos, em que se formam e modelam os Santos."
    "Só Maria achou Graça diante de Deus (Lc 1,30) sem auxílio de qualquer outra criatura."
    "O espírito desta devoção é tornar a alma interiormente dependente e escrava da Santíssima Virgem, e de Jesus por meio dela."
    "Quanto mais ganhares a benevolência desta venerável Princesa e fiel Virgem, tanto mais teu comportamento de vida estará inspirado pela pura fé."
    "Através da devoção a Maria, o próprio Jesus 'alarga o coração com uma santa confiança em Deus, fazendo com que Ele seja visto como Pai e inspirando terno e filial amor.'"
    "Minha querida e amadíssima Mãe, se for possível, faz com que eu não tenha outro espírito a não ser o teu para conhecer Jesus Cristo e Seus divinos desejos; que não tenha outra alma a não ser a tua para louvar e glorificar o Senhor; que não tenha outro coração a não ser o teu para amar Deus com pura e ardente caridade como tu."
    "Aprouve a Deus, atendendo a seus pedidos (de Maria) de ocultação, empobrecimento e humildade, esconder sua concepção, seu nascimento, sua vida, seus mistérios, sua ressurreição e sua assunção aos olhos de quase toda criatura humana."
    "Sua humildade (Maria) foi tão profunda, que na terra nada a seduziu mais poderosa ou mais continuamente que se esconder de si própria e de toda as criaturas, para que só Deus a conhecesse."
    "Maria manteve-se muito escondida durante toda sua vida. Por isso, o Espírito Santo e a Igreja chamaram-na 'Alma Mater': Mãe escondida e secreta."
    "Tal é a vontade de Deus, que tudo tenhamos por Maria! E assim pelo Altíssimo será enriquecida, elevada e honrada aquela que, em toda sua vida, quis ser pobre, humilde e escondida até ao nada."

    "Como é feliz uma alma quando... está totalmente arrebatada e guiada pelo espírito de Maria, que é um espírito doce e forte, zeloso e prudente, humilde e corajoso, puro e fecundo."

    Em 1716, durante uma missão em Saint-Laurent-sur-Sèvre, nas imediações de Nantes, com apenas 
43 anos e a saúde bastante fragilizada, nosso Santo deixou esse mundo. Milhares de fieis acorreram ao seu funeral, realizado aí mesmo, e logo surgiram relatos de milagres junto a seu sepulcro.
    Em 1892, sobre a igreja dedicada a São Lourenço, do século XI, nesta pequena cidade foi concluída uma Basílica toda em granito para a devoção a ele, que é visitada por milhares de peregrinos todos os anos. Nela há também uma estátua de seu último gesto, quando a gente do lugar, ao saber do frágil estado de saúde, acorreu para pedir-lhe uma última benção. E num esforço que lhe era característico, ele abençoou-os com o crucifixo.



    São Luís Maria Montfort, rogai por nós!