terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

O Escândalo

    A palavra 'escândalo' vem do grego 'skandalon', que significa obstáculo ou desvio. Alguns também traduzem como tropeço, ou ainda armadilha. O atual e corriqueiro sentido é de indecoroso comportamento, atitude que provoca indignação, que chama atenção pela agressão à moral e aos bons costumes.
    Mais precisamente, o Catecismo da Igreja  Católica ensina: "O escândalo é a atitude ou comportamento que leva outrem a fazer o mal. O escandaloso transforma-se em tentador de seu próximo; atenta contra a virtude e a retidão, podendo arrastar o irmão para a morte espiritual. O escândalo constitui uma grave falta se, por ação ou omissão, deliberadamente levar outra pessoa a cometer uma grave falta.
    O escândalo reveste-se de particular gravidade conforme a autoridade dos que o causam ou a fraqueza dos que dele são vítimas... O escândalo é grave quando causado por aqueles que, por natureza ou em virtude da função que exercem, têm a obrigação de ensinar e de educar os outros. Jesus censura-o nos escribas e fariseus, comparando-os a lobos disfarçados de cordeiros.
    O escândalo pode ser provocado pela lei ou pelas instituições, pela moda ou pela opinião. É assim que se tornam culpados de escândalo os que estabelecem leis ou estruturas sociais conducentes à degradação dos costumes e à corrupção da vida religiosa, ou a 'condições sociais que, voluntária ou involuntariamente, tornam difícil e praticamente impossível uma conduta cristã conforme os Mandamentos. O mesmo vale para chefes de empresas que fazem regulamentos que incitam à fraude, para professores que exasperam os alunos ou para aqueles que, manipulando a opinião pública, a fastam dos valores morais.
    Aquele que usa dos poderes de que dispõe, em condições que induzem a agir mal, torna-se culpado de escândalo e responsável pelo mal que, direta ou indiretamente, favorece." CIC § 2284-2287
    Na Bíblia, de onde se propagou, a interpretação do termo deve ser comedida.
    Jesus usou-o uma vez com sentido de descumprimento das leis religiosas, ou seja, desvio, e, nesse caso, por sonegação de tributos. Os religiosos que cobravam o imposto para a manutenção do Templo de Jerusalém, para ter uma acusação contra Jesus, perguntaram a São Pedro, certamente por perceberem sua liderança entre os Apóstolos, se Seu Mestre não achava correto essa cobrança. De fato, Nosso Senhor julgava que só se deveria cobrar dos estrangeiros, pois os locais já faziam frequentes oferendas. Contudo, Ele preferiu não afrontar, e mais uma vez alça o Príncipe dos Apóstolos a condição de líder, conduzindo-o a Si. É do Evangelho segundo São Mateus: "Mas para não provocar escândalo, vai ao mar e lança o anzol. Na boca do primeiro peixe que apanhares encontrarás uma moeda para pagar o imposto. Toma-o e dá-lho por Mim e por ti." Mt 17,27


    Também o usou para denotar desvio moral ou perversão, ao referir-Se a adultos que desencaminham crianças que n'Ele acreditam. Ele disse que, ante desviar uma inocente alma, melhor seria que essas pessoas padecessem a sofrida morte por afogamento no mar, que era um dos maiores pavores dos judeus: "Quem escandalizar um destes pequeninos que acreditam em Mim, melhor seria pendurar uma pedra de moinho ao pescoço e ser lançado ao fundo do mar." Mt 18,6
    Como falava a adultos, no Evangelho segundo São Lucas expressamente disse-lhes: "Tomai cuidado de vós mesmos." Lc 17,2
    Ele ainda o usou com sentido de grave e vexaminoso pecado, às vezes criminoso, como comportamento que gera comentário público, tumulto e delito, estimulando sua prática e tornando-o justificativa. É o caso de maus exemplos, como imposturas de celebridades que pervertem a boa formação dos mais jovens, ou de reais desvios de conduta, como desmandos e corrupção de autoridades em abuso de poder, disseminando delinquência e constituindo-se em obstáculos aos bens sociais, ou em verdadeiros promotores de barbárie. Jesus até reconhece que esses delitos e mazelas continuarão até o fim dos tempos, porém avisa: "Ai do mundo por causa dos escândalos! É inevitável que aconteçam escândalos, mas ai do homem que causa escândalo!" Mt 18,7
    Por tamanha gravidade, Ele diz que é melhor chegar ao Céu cego de um olho, ou sem uma mão ou sem um pé, que ter corpo e alma lançados no fogo do inferno. Ou seja, explicitamente diz que certos escândalos, ou a constante prática de alguns menores, são pecados mortais: "Se tua mão ou teu pé é para ti ocasião de escândalo, corta-o e lança-o para longe de ti. É melhor entrares na Vida sem uma das mãos ou sem um dos pés, que ter as duas mãos ou os dois pés e ser lançado no eterno fogo. E se teu olho é para ti ocasião de escândalo, arranca-o e lança-o para longe de ti. É melhor entrares na Vida com um só olho, que ter os dois olhos e ser lançado no inferno." Mt 18,8-9
    E já havia prometido que o novo céu e a nova Terra estariam livres de todos estes males: "Jesus respondeu: 'Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. O campo é o mundo. A boa semente são os filhos do Reino. O joio são os filhos do Maligno. O inimigo, que o semeia, é o Demônio. A colheita é o fim do mundo. Os ceifadores são os anjos. E assim como se recolhe o joio para jogá-lo no fogo, assim será no fim do mundo. O Filho do Homem enviará Seus anjos, que retirarão de Seu Reino todos escândalos e aqueles que praticam o mal, e lançá-los-ão na ardente fornalha, onde haverá choro e ranger de dentes.'" Mt 13,37-42
    Mas num mundo sem Deus, paradoxalmente é a própria Missão de Jesus que é tratada como um escândalo, como supostos religiosos entendiam: "Então aproximaram-se d'Ele Seus discípulos e disseram-Lhe: 'Sabes que os fariseus se escandalizaram com as palavras que ouviram?' Jesus respondeu: 'Toda planta que Meu Pai Celeste não plantou será arrancada pela raiz. Deixai-os. São cegos e guias de cegos. Ora, se um cego conduz a outro, ambos tombarão na mesma vala.'" Mt 15,12-14
    Chegaram ao extremo absurdo de acusá-Lo de ser o próprio Satanás, como Ele mesmo relatou enquanto preparava os Apóstolos: "Basta ao discípulo ser tratado como Seu Mestre, e ao servidor como Seu Patrão. Se chamaram de Beelzebul ao Pai de Família, quanto mais o farão às pessoas de Sua Casa!" Mt 10,25
    Por isso, usou esse termo no sentido de materialismo ou falta de espiritualidade, ao declarar que Seu Corpo seria dado como Pão, e Seu Sangue como Vinho, pois muitos reagiram com aversão e O abandonaram. O Evangelho segundo São João apontou: "'Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue permanece em Mim e Eu nele. Este é o Pão que desceu do Céu. Não como o maná que vossos pais comeram e morreram. Quem come deste Pão viverá eternamente.' Muitos de Seus discípulos, ouvindo-O, disseram: 'Isto é muito duro! Quem o pode admitir?' Sabendo Jesus que os discípulos murmuravam por isso, perguntou-lhes: 'Isso vos escandaliza?' Desde então, muitos de Seus discípulos retiraram-se e já não andavam com Ele." Jo 6,56.58.60-61.66
    Diante de tal situação, Ele vai questionar os próprios Apóstolos se também eles não gostariam de abandoná-Lo: "Então Jesus perguntou aos Doze: 'Quereis vós também vos retirar?'" Jo 6,67
    Inspirado por Deus, no entanto, São Pedro, sempre ele, reconhece em Jesus o Verbo Encarnado: "Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da Vida Eterna." Jo 6,68
    Entretanto, haveria outro obstáculo aos próprios Apóstolos: a Paixão de Cristo. E foi Jesus mesmo que os avisou desta frustração, citando palavras de Deus Pai no Livro do Profeta Zacarias, momentos antes do início de Seu Sacrifício: "Esta noite, todos vós escandalizá-vos-eis. Porque está escrito: 'Ferirei o Pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersadas (Zc 13,7).' Mas, depois de Minha Ressurreição, Eu precedê-vos-ei na Galileia." Mt 26,31-32
    Mas o Príncipe dos Apóstolos, em seu verdadeiro e grande amor por Jesus, não conseguiu conter-se, como se lê no Evangelho segundo São Marcos: "Entretanto, Pedro respondeu-Lhe: 'Ainda que todos se escandalizem de Ti, eu, porém, nunca!'" Mc 14,29
    Por fim, Jesus pediu, em despedida, que Seus discípulos d'Ele dessem fiel testemunho, e não se sentissem abandonados quando a Santa Igreja começasse a ser violentamente perseguida. Aqui o termo também tem o sentido de tropeço: "Disse-vos essas coisas para que não vos escandalizeis. Expulsá-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que todo aquele que vos tirar a vida julgará prestar culto a Deus. Procederão deste modo porque não conheceram nem o Pai nem a Mim." Jo 16,1-3
    Porque havia sentenciado: "Digo-vos: todo aquele que Me reconhecer diante dos homens, o Filho do Homem também o reconhecerá diante dos anjos de Deus. Mas quem Me negar diante dos homens, será negado diante dos anjos de Deus." Lc 12,8
    Já a Carta de São Paulo aos Romanos falou de escândalo com um novo sentido: não propriamente como um erro, mas afronta ou desrespeito à fragilidade de algumas consciências: "Por causa de um alimento, não destruas a obra de Deus! Certamente, tudo é puro, mas é errado comer alguma coisa dando escândalo." Rm 14,20
    E tratava as divisões dentro da Igreja e as heresias como tão grave pecado quanto um escândalo: "Rogo-vos, irmãos, que desconfieis daqueles que causam divisões e escândalos, apartando-se da Doutrina que recebestes. Evitai-os! Esses tais não servem a Cristo Nosso Senhor, mas ao próprio ventre. E com adocicadas palavras e lisonjeira linguagem enganam os simples de coração. Vossa obediência tornou-se notória em toda parte, razão porque me alegro a vosso respeito. Mas quero que sejais prudentes no tocante ao bem, e simples no tocante ao mal." Rm 16,17-19
    Ora, ele zelava pelo comportamento de cada um dos fieis, sempre pensando na credibilidade da Igreja. Está na Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios: "A ninguém damos motivo de escândalo, para que Nosso Ministério não seja desacreditado." 2 Cor 6,3
    Contudo, e principalmente, pensando na Salvação das almas, pois a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios já dizia: "Não vos torneis causa de escândalo, nem para os judeus, nem para os gentios, nem para a Igreja de Deus. Fazei como eu: em todas circunstâncias procuro agradar a todos. Não busco meus próprios interesses, mas os interesses dos outros, para que todos sejam salvos." 1 Cor 10,32-33


O CRUCIFICADO

    Enquanto Servo Sofredor previsto pelo Livro do Profeta Isaías, porém, Jesus acabou mesmo tornando-Se escândalo para os judeus. Para eles, apesar do que diziam as Escrituras, o Messias não poderia morrer. Não lhes faltou, entretanto, a advertência do próprio Jesus, que citou uma profecia do Livro dos Salmos e avisou que a Igreja viria a ser conduzida por não-judeus. Foi em Jerusalém falando publicamente à multidão, mas endereçando-Se aos líderes judeus depois do Domingo de Ramos: "Jesus acrescentou: 'Nunca lestes nas Escrituras: A Pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a Pedra angular. Isto é obra do Senhor, e é admirável a nossos olhos (Sl 117,22-23)? Por isso, digo-vos: sê-vos-á tirado o Reino de Deus, e será dado a um povo que produzirá os frutos d'Ele. Aquele que tropeçar nesta Pedra, far-se-á em pedaços, e aquele sobre quem ela cair, será esmagado.'" Mt 21,42-44
    E dissera noutra ocasião, nos primeiros tempos de Sua vida pública, na cidade de Cafarnaum, ao atestar a grande  que um centurião romano Lhe tinha, antes mesmo de convocar os Doze Apóstolos: "Por isso, Eu declaro-vos que multidões virão do Oriente e do Ocidente e assentar-se-ão no Reino dos Céus com Abraão, Isaac e Jacó, enquanto os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes." Mt 8,11-12
    O Apóstolo dos Gentios, também se valendo da imagem de uma pedra de tropeço, evocava outra profecia de Isaías para explicar a mesma questão: "Então que diremos? Que os gentios, que não buscavam a justiça, alcançaram a justificação, a que vem da fé, ao passo que Israel, que procurava uma lei que desse a justificação, não a encontrou? Por quê? Porque Israel a buscava não como fruto da fé, mas sim das obras. E tropeçou na Pedra do escândalo, como está escrito: 'Eis que em Sião ponho uma Pedra de escândalo, um rochedo que faz tropeçar. Quem n'Ele crer não será confundido' (Is 8,14;28,16)." Rm 9,30-33
    Por isso, a crucificação não lhe causava nenhuma contrariedade, e ele seguia anunciando o Salvador: "Nós, porém, proclamamos Cristo Crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos." 1 Cor 1,23
    E a Carta de São Paulo aos Filipenses denuncia: "Porque há muitos por aí, de quem repetidas vezes vos tenho falado e agora o digo chorando, que se portam como inimigos da Cruz de Cristo, cujo destino é a perdição, cujo deus é o ventre, para quem a própria ignomínia é causa de envaidecimento, e só têm prazer no que é terreno." Fl 3,18-19
    Ora, o próprio Jesus determinou logo depois do primeiro anúncio que fez de Sua Paixão: "Em seguida, convocando a multidão e juntamente Seus discípulos, disse-lhes: 'Se alguém quer seguir-Me, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-Me. Porque quem quiser salvar sua vida, perdê-la-á, mas quem perder sua vida por amor a Mim e do Evangelho, salvá-la-á." Mc 8,34-35
    E não deixou margem para dúvidas: "Quem não toma sua cruz e não Me segue, não é digno de Mim." Mt 10,38
    A crucificação, no entanto, por si só já era uma humilhação. O Livro de Deuteronômio especificamente falava de enforcamento, mas diz: "Quando um homem tiver cometido um crime que deve ser punido com a morte, e for executado por enforcamento numa árvore, aí não poderá ficar seu cadáver durante a noite, mas tu sepultá-lo-ás no mesmo dia, pois aquele que é pendurado é um objeto de divina maldição. Assim, não contaminarás a terra que o Senhor, Teu Deus, te dá por herança." Dt 21,22-23
    A própria Carta de São Paulo aos Gálatas admite, mencionando esta passagem: "Cristo remiu-nos da maldição da Lei, fazendo-Se por nós maldição, pois está escrito: 'Maldito todo aquele que é suspenso no madeiro' (Dt 21,23)." Gl 3,13
    Para ele, todavia, a Cruz foi consequência do amor que Ele tem à humanidade: "Com efeito, quando ainda éramos fracos, a Seu tempo Cristo morreu pelos ímpios. Em rigor, a gente aceitaria morrer por um justo, por um homem de bem, quiçá se consentiria em morrer. Mas eis aqui uma brilhante prova de amor de Deus por nós: quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós." Rm 5,6-8
    A Cruz, pois, foi uma trágica consequência da Verdade que Ele anunciava, mas assim, em Sacrifício, ofereceu-nos a Comunhão. Lê-se na Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses: "Porque todos vós sois filhos da Luz e filhos do dia. Não somos da noite nem das trevas. Não durmamos, pois, como os demais, mas vigiemos e sejamos sóbrios. Ele morreu por nós, a fim de que nós, quer em estado de vigília, quer de sono, vivamos em união com Ele." 1 Ts 5,5-6.10
    Ademais, Ele ressuscitou, e assim este Apóstolo apaixonadamente abraçou o 'Escândalo da Cruz'. E mesmo sob tão perniciosa perseguição, que até em suas intimidades os vigiava, entre a circuncisão como símbolo do judaísmo e a Cruz como símbolo do cristianismo, ele não tinha dúvida: "Quanto a mim, irmãos, se ainda pregasse a circuncisão, por que, então, seria perseguido? Pois, neste caso, estaria eliminado o escândalo da Cruz." Gl 5,11
    Esse 'escândalo', no entanto, não se resumiria à Cruz. Como profetizou o religioso Simeão, que viu a Apresentação do Menino Jesus no Templo de Jerusalém, toda Sua vida 'provocaria' os corações pelo mundo: "Simeão abençoou-Os e disse a Maria, Sua mãe: 'Eis que este Menino está destinado a ser causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações.'" Lc 2,34-35a
    Eis que a Segunda Carta de São Paulo a São Timóteo exorta: "Não te envergonhes, portanto, do testemunho de Nosso Senhor, nem de mim, Seu prisioneiro, mas sofre comigo pelo Evangelho, fortificado pelo poder de Deus." 2 Tm 1,8
    Com efeito, quando os discípulos de São João Batista foram até Jesus, perguntar-Lhe se Ele era realmente o Messias, receberam como resposta a realização de uma das profecias de Isaías: "Voltai e dizei a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa Notícia. E feliz aquele que não se escandaliza por causa de Mim!" Mt 11,4-6
    E disse, após São Pedro declarar que Ele era o Cristo de Deus: "Se alguém se envergonhar de Mim e de Minhas palavras, o Filho do Homem também se envergonhará dele quando vier em Sua Glória, na Glória de Seu Pai e dos santos anjos." Lc 9,26
    Fica, pois, a pergunta: o que realmente nos escandaliza? Cristo ou o mundo?

    "Jesus, dais a vida por todos nós!"