sábado, 10 de março de 2018

Deus Amigo


    Com Sua Doutrina de renascimento espiritual, e assim de aperfeiçoamento das relações humanas, Nosso Senhor ensinou que entre os Apóstolos não haveria autoridade nos moldes da que vemos no mundo: "Jesus, porém, chamou-os e disse-lhes: 'Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, faça-se vosso servo. E aquele que quiser tornar-se entre vós o primeiro, faça-se vosso escravo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar Sua vida em resgate por uma multidão." Mt 20,25-28
    E para que isso ficasse bem claro, Ele deu um emblemático exemplo logo após a Santa Ceia, quando lavou os pés de todos, inclusive os de Judas: "Depois de lavar-lhes os pés e tomar Suas vestes, sentou-Se novamente à mesa e perguntou-lhes: 'Sabeis o que vos fiz? Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque Eu o sou. Logo, se Eu, Vosso Senhor e Mestre, lavei-vos os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como Eu vos fiz, assim façais também vós. Em verdade, em verdade, digo-vos: o servo não é maior que Seu Senhor, nem o enviado é maior que Aquele que o enviou. Se compreenderdes e praticardes estas coisas, sereis felizes. " Jo 13,12-17
    Outra grande inovação como Profeta foi Seu amigável modo de tratar a todos. Isso encantava quem O conhecia, pois realmente agia com naturalidade. E coerentemente recomendava: "... aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas." Mt 11,29
    Até nas acusações que Lhe faziam os falsos religiosos, Jesus era reconhecido por Seu proceder sempre amistoso com os mais afastados da . Diziam d'Ele: "É um comilão e beberrão, amigo dos cobradores de impostos e dos pecadores." Mt 11,19
    Ao paralítico, descido numa maca através do telhado, Ele vai curar-lhe primeiro a alma, o que também fez com docilidade: "Meu amigo, teus pecados são-te perdoados." Lc 5,20
    E a Paz que Ele derramou sobre Seus Apóstolos, para que a distribuíssem, carecia de reciprocidade: "Em qualquer casa em que entrardes, primeiro dizei: 'A Paz esteja nesta casa.' Se ali morar algum amigo da Paz, vossa Paz repousará sobre ele; senão, ela retornará a vós." Lc 10,5-6
    Na parábola dos trabalhadores, que chegam no fim do dia e recebem o mesmo salário dos que começaram o dia trabalhando, Ele cordialmente responde àquele que Lhe reclama de uma suposta injustiça: "Amigo, Eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que Me pertence?" Mt 20,13.15
    A um que reclamava do irmão sua parte da herança, com delicadeza Ele vai recusar a posição de autoridade: "Meu amigo, quem Me constituiu juiz ou árbitro entre vós?" Lc 12,14
    E àquele que numa parábola se comporta com humildade, sentando-se nos últimos lugares mesmo sendo importante pessoa, Jesus dirige-Se assim: "Amigo, vem mais para cima." Lc 14,10
    A alegria por um pecador que se salva, em analogia a de quem acha uma ovelha perdida, segundo Ele deve ser repartida entre amigos: "... e, voltando para casa, reúne os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: 'Regozijai-vos comigo, achei minha ovelha que se havia perdido.'" Lc 15,6
    E quando Lázaro faleceu, Jesus, numa das pouquíssimas vezes em que foi visto chorando, referiu-Se a ele com ternura: "Nosso amigo Lázaro adormeceu. Eu vou acordá-lo." Jo 11,11


    Ora, mesmo quando tratava das mais sérias questões, Jesus falava amistosamente à multidão: "Digo-vos a vós, Meus amigos: não tenhais medo daqueles que matam o corpo e depois disto nada mais podem fazer. Mostrar-vos-ei a Quem deveis temer: temei Àquele que, depois de matar, tem poder de lançar no inferno! Sim, eu vo-lo digo: temei a Este." Lc 12,4-5
    Pois, como ensinava, a construção do Reino de Deus resume-se em fazer amigos, mesmo que estejamos nas situações de maior pecaminosidade: "Eu digo-vos: fazei-vos amigos com a riqueza injusta, para que, no dia em que ela vos faltar, eles recebam-vos nos eternos tabernáculos." Lc 16,9
    Mesmo ao repreender o invasor das Núpcias do Cordeiro, Ele foi afável: "Meu amigo, como entraste aqui sem a veste nupcial?" Mt 22,12
    Mas, desiludindo avarentos e ambiciosos, deixava claro que não havia como enganar a Deus: "Ora, ouviam tudo isto os fariseus, que eram amigos do dinheiro, e zombavam d'Ele. Jesus disse-lhes: 'Vós procurais parecer justos aos olhos dos homens, mas Deus conhece-vos os corações. Pois o que é elevado aos olhos dos homens é abominável aos olhos de Deus.'" Lc 16,14-15
    Com essa mesma mansidão, não Se valia de Sua divindade e tratava os Apóstolos como amigos: "Vós sois Meus amigos, se fazeis o que vos mando." Jo 15,14
    E explicou: "Não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz Seu Senhor. Mas chamei-vos amigos, pois dei-vos a conhecer tudo quanto ouvi de Meu Pai." Jo 15,15
    Esse não era um trato aparente, ou só internamente usado. Ele vai falar em amigos até para os seguidores de São João Batista, ao afirmar Sua presença como Deus entre os homens: "Podem os amigos do Esposo afligir-se enquanto o Esposo está com eles? Dias virão em que lhes será tirado o Esposo, então eles jejuarão. Ninguém põe um remendo de novo pano em velha veste, porque arrancaria uma parte da veste e o rasgão ficaria pior. Nem tampouco se coloca novo vinho em velhos odres, do contrário os odres rompem-se, o vinho derrama-se e os odres perdem-se. Coloca-se, porém, o novo vinho em novos odres, e assim tanto um como outro se conservam." Mt 9,15-18
    Para nossa perfeita instrução, Ele deixou como parâmetro a dimensão de Seu amor: "Ninguém tem maior amor que Aquele que dá Sua vida por Seus amigos." Jo 15,13
    Não por acaso, Seu maior ensinamento trata exatamente de amor aos inimigos: "Tendes ouvido o que foi dito: 'Amarás teu próximo e poderás odiar teu inimigo.' Eu, porém, digo-vos: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo sereis os filhos de Vosso Pai do Céu, pois Ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos?" Mt 5,43-46
    Inimigo mesmo, Ele só considerava Satanás, como explicou na parábola do joio e do trigo: "O inimigo, que o semeia, é o Demônio. A colheita é o fim do mundo. Os ceifadores são os anjos." Mt 13,39
    De fato, pouco antes do momento em que ia ser traído, Jesus vai chamar o próprio Judas de amigo: "Amigo, faz já o que tens a fazer." Mt 26,50
    Esse proceder, São Paulo explicava assim aos tessalonicenses: "Se alguém não obedecer ao que ordenamos por esta carta, notai-o e, para que ele se envergonhe, deixai de ter familiaridade com ele. Porém, não deveis considerá-lo como inimigo, mas repreendê-lo como irmão." 2 Ts 3,14-15
    Ironicamente, como sempre se flagra nas ações do Demônio, contra Jesus os poderosos faziam as pazes: "Nesse dia, Herodes e Pilatos ficaram amigos, pois antes eram inimigos." Lc 23,12
    Mas Ele não se entregou à ira nem mesmo contra aqueles que O crucificavam: "E Jesus dizia: 'Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem.'" Lc 23,34
    Por fim, quando apareceu aos Apóstolos pela primeira vez, Jesus foi amável até para demonstrar-lhes que realmente havia ressuscitado na carne: "Amigos, não tendes acaso alguma coisa para comer?" Jo 21,5
    De São Pedro, pela extrema responsabilidade de toda a Igreja que lhe confiou, Ele cobrou a fidelidade de uma verdadeira amizade: "Pedro ficou triste, porque lhe perguntou pela terceira vez se era Seu amigo." Jo 21,17
    São Paulo também testemunhou a redentora amistosidade de Deus que Jesus encarnou: "Mas eis aqui uma brilhante prova do amor de Deus por nós: quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós. Se quando éramos ainda inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho, com muito mais razão, estando já reconciliados, seremos salvos por Sua vida." Rm 5,8-10
    O mesmo disse São Tiago Menor, que rememorou a fundação de Israel: "Assim se cumpriu a Escritura, que diz: 'Abraão creu em Deus e isto lhe foi tido em conta de justiça, e foi chamado amigo de Deus' (Gn 15,6)." Tg 2,23
    Isso foi percebido pelo Eclesiástico: "Nada é comparável a um fiel amigo, o ouro e a prata não merecem ser postos em paralelo com a sinceridade de sua fé. Um fiel amigo é um remédio de Vida e imortalidade; quem teme ao Senhor, achará esse amigo." Eclo 6,15-16
    Falando de maravilhas, que incluem os Anjos da Guarda, nossos divinos amigos, São Paulo garante: "É como está escrito: 'Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4)', tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que O amam." 1 Cor 2,9
    Jesus mencionou o próprio Santo Paráclito: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Vosso Pai Celestial dará o Espírito Santo àqueles que LhO pedirem." Lc 11,13
    E os Provérbios já sinalizavam para a recomendação que Ele fez de amar até mesmo nossos inimigos: "Tem teu inimigo fome? Dá-lhe de comer. Tem sede? Dá-lhe de beber. Assim amontoarás brasas ardentes sobre sua cabeça e o Senhor recompensar-te-á." Pr 25,21-22
    São Tiago Menor, porém, não deixava de denunciar as traições ao Pai: "Adúlteros, não sabeis que o amor ao mundo é abominado por Deus? Todo aquele que quer ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus!" Tg 4,4
    Diante de situações de grande afronta à Verdade, e assim ao Evangelho, São Paulo repreendeu severamente um mago que tentava perverter o procônsul da ilha de Pafos: "Filho do demônio, cheio de todo engano e de toda astúcia, inimigo de toda justiça, não cessas de perverter os retos caminhos do Senhor!" At 13,10
    O próprio Jesus havia deflagrado esse combate contra falsos religiosos: "Vós tendes como pai o demônio e quereis fazer os desejos de vosso pai. Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na Verdade, porque a Verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira. Quem é de Deus ouve a Palavra de Deus, e se vós não a ouvis é porque não sois de Deus." Jo 8,44-47
    Por isso, deu aos Apóstolos uma efetiva condição para essa batalha: "Eis que vos dei poder para pisar serpentes, escorpiões e todo o poder do inimigo." Lc 10,19
    E assim São Pedro avisa que o Juízo começará pela Igreja: "Porque vem o momento em que se começará o Julgamento pela Casa de Deus. Ora, se Ele começa por nós, qual será a sorte daqueles que são infiéis ao Evangelho de Deus?" 1 Pd 4,17
    Mas é certa a Vitória de Cristo, que se dará com decisiva a participação da Igreja, que é Seu Reino de Sacerdotes. São Paulo revelou: "Então virá o fim, quando entregar o Reino a Deus, ao Pai, depois de haver destruído todo principado, toda potestade e toda dominação. Porque é necessário que Ele reine, até que ponha todos inimigos debaixo de Seus pés. O último inimigo a derrotar será a morte, porque Deus sujeitou tudo debaixo de Seus pés." 1 Cor 15,24-26
    Com efeito, ainda que por vezes ela venha a ser reduzida a um pequeno resto, o próprio Jesus declarou que a Igreja é invencível: "E Eu declaro-te: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja. As portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18
    Pois é Ele mesmo, como se lê acima, que a edifica. E garante sua perenidade: "Não fostes vós que Me escolhestes, mas Eu escolhi-vos e constituí-vos para que vades e produzais fruto, e vosso fruto permaneça." Jo 15,16a
    Ora, sofrendo a hostilidade na própria pele, São Paulo, em questionamento aos gálatas, levanta a verdadeira razão de tantos ataques aos escolhidos de Deus: "Tornei-me, acaso, vosso inimigo, porque vos disse a Verdade?" Gl 4,16
    Contudo, primando por valores como paciência e mansidão, ele via aí o 'bom combate, como exortou a São Timóteo: "Mas tu, ó homem de Deus, foge desses vícios e procura com todo empenho a piedade, a fé, a caridade, a paciência, a mansidão. Combate o bom combate da fé." 1 Tm 6,11-12a
    Pois com amor esperava seu encontro com Jesus: "Combati o bom combate, terminei minha carreira, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, Justo Juiz, dar-me-á naquele Dia, e não somente a mim, mas a todos aqueles que aguardam com amor Sua Aparição." 2 Tm 4,7-8
    Ele deu detalhes desse combate, cujas armas são claramente espirituais: "Finalmente, irmãos, fortalecei-vos no Senhor, por Seu soberano poder. Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio. Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste tenebroso mundo, contra as forças espirituais do mal espalhadas nos ares. Tomai, por tanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos maus dias e manter-vos inabaláveis no cumprimento de vosso dever. Ficai alerta, à cintura cingidos com a Verdade, o corpo vestido com a couraça da justiça, e os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da Paz. Sobretudo, embraçai o escudo da fé, com que possais apagar todos inflamados dardos do Maligno. Tomai, enfim, o capacete da Salvação e a espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus. Intensificai vossas invocações e súplicas. Orai em toda circunstância, pelo Espírito, no Qual perseverai em intensa vigília de súplica por todos cristãos." Ef 6,10-18
    Pedia pelo dom da fortaleza, isto é, que não nos intimidássemos diante das ameaças à integridade do rebanho: "Cumpre, somente, que em vosso proceder vos mostreis dignos do Evangelho de Cristo. Quer eu vá ter convosco quer permaneça ausente, desejo ouvir que estais firmes em um só espírito, lutando unanimemente pela fé do Evangelho, sem vos deixardes intimidar em nada por vossos adversários. Isto para eles é motivo de perdição; para vós outros, de Salvação. E é a vontade de Deus, porque vos é dado não somente crer em Cristo, mas também por Ele sofrer." Fl 1,27-29
    Recomendava perseverança dentro da Igreja: "Foge das paixões da mocidade, busca com empenho a justiça, a fé, a caridade, a Paz, com aqueles que invocam o Senhor com pureza de coração." 2 Tm 2,22
    O Eclesiástico já dizia o mesmo: "Anda na companhia do povo santo, com os que vivem e proclamam a Glória de Deus." Eclo 17,25
    Para tanto, São Paulo fala em contrição e serenidade: "Rejeita as tolas e absurdas discussões, visto que geram contendas. Não convém a um servo do Senhor altercar. Bem ao contrário, seja ele condescendente com todos, capaz de ensinar, paciente em suportar os males. É com brandura que deves corrigir os adversários, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento e o conhecimento da Verdade, e voltem a si, uma vez livres dos laços do demônio, que os mantém cativos e submetidos a seus caprichos." 2 Tm 2,23-26
    Lembra a importância do amor para com os nossos Sacerdotes: "Suplicamo-vos, irmãos, que reconheçais aqueles que arduamente trabalham entre vós para dirigir-vos e admoestar-vos no Senhor. Tende para com eles singular amor, em vista do cargo que exercem. Conservai a Paz entre vós." 1 Ts 5,12-13
    Além, claro, de invocar a inspiração do Divino Espírito: "Procedei com Sabedoria no trato com os de fora. Sabei aproveitar todas circunstâncias. Que vossas conversas sejam sempre amáveis, temperadas com sal, e sabei responder a cada um devidamente." Cl 4,5-6

    A palavra amor é de origem egípcia. Os vocábulos que correspondem às nossas letras MR são encontrados entalhados em pedras, escritos em hieróglifos. Com o advento das vogais, chegou-se à forma como hoje a conhecemos. Daí vem a palavra amigo, que Jesus usou com especial distinção para exprimir Seu projeto do Reino dos Céus.
    Enquanto mais importante traço de Sua Personalidade, seja humana, seja divina, a amistosidade de Jesus é mais um sinal do Mandamento que Ele nos deixou: "Dou-vos um novo Mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como Eu vos tenho amado, vós deveis amar-vos uns aos outros. Este é Meu Mandamento..." Jo 13,34;15,12

    "Glória e louvor ao Pai, que em Cristo nos reconciliou!"