sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Ser Cristão


    A imagem do Cristo crucificado, que deve ser divulgada (cf. Gl 3,1) para que saibamos o quanto a Santa Igreja Católica custou (cf. At 20,28), realmente retrata muita violência. Mas é o melhor símbolo do que significa ser cristão. A Santa Cruz, como prova de total e incondicional entrega mesmo diante da má vontade e da mundana incompreensão, é, e continuará sendo até a Definitiva Volta de Jesus, uma inevitável consequência do convite ao verdadeiro amor. Nosso lado desumano, apesar dos 'avanços' da civilização, constantemente segue resistindo ao Pai, ao Sumo Bem.
    Falando sobre o fim dos tempos, e claramente apontando a trajetória da humanidade através dos séculos, Nosso Salvador afirmou em últimas pregações, no Evangelho Segundo São Mateus: "E ante o crescente progresso da iniquidade, o amor de muitos esfriará." Mt 24,12
    Contudo, contra todas adversidades, a caridade, seja material ou espiritual, continua sendo o maior dever de todo cristão. No Evangelho Segundo São Marcos, Jesus mesmo anunciou em Jerusalém, após o Domingo de Ramos: "O primeiro de todos Mandamentos é este: 'Ouve, Israel, o Senhor Nosso Deus é o Único Senhor: amarás o Senhor Teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma, de todo teu entendimento e de toda tua força (Dt 6,5).' Eis aqui o segundo: 'Amarás teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18). Não existe Mandamento maior que estes." Mc 12,29b-31
    Ou seja, não pediu em Deus. Pediu muito mais, pediu amor a Ele, sintetizando todo Antigo Testamento não em 10, mas em apenas 2 Mandamentos, e ambos falam exclusivamente de amor. "Nesses dois Mandamentos resumem-se toda a Lei e os Profetas." Mt 22,40
    E ainda mais sintetizou esses 2 em apenas 1 novo Mandamento, que chamou de "Seu Mandamento" e também se resume em amar. Mas deixou a medida: o amor que Ele mesmo sentia. É do Evangelho Segundo São João, em Sua última noite entre os Apóstolos: "Dou-vos um novo Mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como Eu vos tenho amado, assim vós também deveis amar-vos uns aos outros. Este é Meu Mandamento..." Jo 13,34;15,12
    Assim, aparentemente teria esquecido do Mandamento que fala em amar a Deus. Mas uma explicação, dada na Primeira Carta de São João, deixa bem claro a dimensão que há no amor ao próximo como Ele mesmo amou: "Se alguém disser: 'Amo a Deus', mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a Quem não vê." 1 Jo 4,20
    Pois, sem dúvida, o amor tem origem: "Mas amamos porque primeiro Deus nos amou." 1 Jo 4,19
    A Carta de São Paulo aos Romanos foi específica ao revelar a Pessoa da Santíssima Trindade que no-lo traz: "Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado." Rm 5,5b
    E cita o exemplo dos exemplos: "Mas eis aqui uma brilhante prova do amor de Deus por nós: quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós." Rm 5,8
    Ora, Jesus mesmo já o tinha afirmado: "Ninguém tem maior amor que aquele que dá sua vida por seus amigos." Jo 15,13
    São João Evangelista, dizendo de Nosso Senhor, assim explana sobre o salvífico amor: "Eis como sabemos que O conhecemos: se guardamos Seus Mandamentos. Aquele que diz conhecê-Lo e não guarda Seus Mandamentos, é mentiroso e nele não está Verdade. Aquele, porém, que guarda Sua Palavra, nele o amor de Deus é verdadeiramente perfeito. Assim é que conhecemos se estamos n'Ele: aquele que n'Ele afirma permanecer, também deve viver como Ele viveu." 1 Jo 2,3-6
    Ele sintetiza, dizendo da missão de todo fiel: "Nisto temos conhecido o amor: (Jesus) deu Sua vida por nós. Nós também devemos dar nossa vida por nossos irmãos." 1 Jo 3,16
    O amor, portanto, é a marca da Igreja Católica, e assim do cristão. Jesus expressamente disse depois da Santa Ceia: "Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." Jo 13,35
    Ele havia feito mais uma magistral síntese ainda nas primeiras pregações, referindo-Se a tudo que as Escrituras representam, indicando qual deve ser a essência de nossa mentalidade e comportamento: a mutualidade. É a chamada Lei de Ouro: "Tudo que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles. Esta é a Lei e os Profetas." Mt 7,12
    Assim recomendou, em despedida dos Apóstolos, que fôssemos constantes e perseverantes em Seu exemplo de amor, que nos salva: "Se guardardes Meus Mandamentos, sereis constantes em Meu amor, como Eu também guardei os Mandamentos de Meu Pai e persisto em Seu amor." Jo 15,10
    Na mesma ocasião, disse sobre o sofrimento de Sua Paixão: "O mundo, porém, deve saber que amo o Pai e procedo como o Pai Me ordenou." Jo 14,31a
    E isso nada mais é que humildade, pois ainda mandou que rezássemos, no Evangelho Segundo São Lucas: "E se o servo tiver feito tudo que lhe fora mandado, acaso fica o Senhor devendo-lhe alguma obrigação? Assim vós, depois de terdes feito tudo que vos foi ordenado, também dizei: 'Somos inúteis servos. Apenas fizemos o que devíamos fazer.'" Lc 17,9-10
    Àqueles que se mantiverem fiéis, Ele prometeu o amor do Pai, e que a estes pessoalmente Se manifestaria: "Aquele que tem e guarda Meus mandamentos, esse é que Me ama. E aquele que Me ama será amado por Meu Pai, e Eu amá-lo-ei e a ele manifestar-Me-ei." Jo 14,21
    Com efeito, a História tem revelado que Jesus, enquanto Pessoa, não Se tem manifestado indiscriminadamente, mas àqueles a quem pretende converter e aos membros de Sua Igreja, ou seja, àqueles que fazem tudo que Ele mandou (cf. Mt 28,20): "Porque onde dois ou três estão reunidos em Meu Nome, aí estou Eu em meio a eles." Mt 18,20
    E na noite em que ia ser entregue, prometeu-o pela Comunhão dos Santos: "Ainda um pouco de tempo e o mundo já não Me verá. Vós, porém, tornareis a ver-Me, porque Eu vivo e vós vivereis. Naquele dia, conhecereis que estou em Meu Pai, e vós em Mim e Eu em vós." Jo 14,19-20
    Pois havia dito sobre o Santíssimo Sacramento, após multiplicar pães e peixes: "Assim como o Pai, que Me enviou, vive, e Eu vivo pelo Pai, assim aquele que comer Minha Carne também viverá por Mim." Jo 6,57
    No Livro de Atos dos Apóstolos, São Pedro testificou o cumprimento dessa promessa na casa de Cornélio, um centurião romano, a instantes do 'Pentecostes dos Gentios': "Mas Deus ressuscitou-O no terceiro dia, concedendo-Lhe manifestar-Se não a todo povo, mas às testemunhas que Deus havia escolhido..." At 10,40-41a
    São Paulo também, pregando aos judeus na sinagoga de Antioquia de Pisídia: "Durante muitos dias apareceu àqueles que com Ele subiram de Galileia a Jerusalém, os quais até agora são Suas testemunhas junto ao povo." At 13,31
    Aliás, foi o que São Lucas apontou desde o início deste Livro, referindo-se aos Apóstolos: "E a eles manifestou-Se vivo depois de Sua Paixão, com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas do Reino de Deus." At 1,3
    E Nosso Senhor prometeu que viria com o Pai, o que pela Comunhão da Santíssima Trindade também inclui o Espírito Santo, para viver no coração de Seus verdadeiros seguidores. Tudo por intermédio do amor: "Se alguém Me ama, guardará Minha Palavra e Meu Pai o amá-lo-á. E Nós viremos a ele e nele faremos Nossa morada." Jo 14,23


A PRÁTICA DO AMOR MAIOR

    Mas, e nós? Realmente confiamos que as coisas podem ser assim? Confiamos nos ensinamentos do Cristo? Como poderíamos ser cristãos sem acolher Sua Igreja (cf. Mt 18,17), sem guardar Sua Palavra? Como disse aos judeus da Cidade Santa que acreditaram n'Ele, precisamos estar em Comunhão com Ele: "Se permanecerdes em Minha Palavra, sereis Meus verdadeiros discípulos..." Jo 8,31
    Por isso, desde o início de Suas prédicas, Ele reclamava de nossa incoerência: "Por que Me chamais: 'Senhor, Senhor...' e não fazeis o que digo?" Lc 6,46
    Na nova comunidade que formava, mais uma vez mencionou Seu exemplo como base da conduta cristã, revelando bem diferente modo de relacionamento e de autoridade: "Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, faça-se vosso servo. E aquele entre vós que quiser tornar-se o primeiro, faça-se vosso escravo. Assim como o Filho do Homem veio não para ser servido, mas para servir e dar Sua vida em resgate por uma multidão." Mt 20,25-28
    Ora, Nosso Redentor ensinou-o por práticos exemplos: "Logo, se Eu, Vosso Senhor e Mestre, lavei-vos os pés, vós também deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como Eu vos fiz, também façais vós. Se compreenderdes estas coisas sereis felizes, sob condição de praticá-las." Jo 13,14-15.17
    E falou da verdadeira estatura e da exaltação do ser humano, na semana de preparação de Sua última Páscoa: "O maior dentre vós será vosso servo. Aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado." Mt 23,11-12
    Por suas materialistas e vaidosas ambições, é notório que o mundo não se prepara para conviver harmoniosamente. Por isso, a missão do católico é longa e difícil, cada vez mais enfrentando maiores obstáculos. Antes de partir para o Jardim das Oliveiras, onde seria preso, Jesus disse aos Apóstolos: "Se fôsseis do mundo, o mundo amá-vos-ia como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo escolhi-vos, o mundo odeia-vos." Jo 15,19
    E apesar de prometer a Vitória, Ele nunca prometeu vida fácil a ninguém. Já pregava no Sermão da Montanha: "Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e falsamente disserem todo mal contra vós por causa de Mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande vossa recompensa nos Céus, pois assim perseguiram os Profetas que vieram antes de vós." Mt 5,11-12
    Entretanto, mesmo sabendo da completa aversão a Seu Nome em muitos ambientes, Ele pediu-nos serena perseverança: "Sereis odiados de todos por causa de Meu Nome, mas aquele que perseverar até o fim será salvo." Mt 10,22
    Não por acaso, todos Apóstolos, a exceção de São João, foram martirizados. E isso Ele também profetizou: "Então sereis entregues aos tormentos, matá-vos-ão e por Minha causa sereis objeto de ódio para todas nações." Mt 24,9
    Mas não aconteceu só com Jesus e os Apóstolos. Como Ele advertiu, já acontecia com os Profetas que Lhe antecederam, inclusive São João Batista. Ele bem explanava sobre as Escrituras: "Por isso, também disse a Sabedoria de Deus: 'Enviá-lhes-ei Profetas e Apóstolos, mas eles darão a morte a uns e perseguirão a outros." Lc 11,49
    Assim, nossa obrigação de cristãos é oferecer ação de graças pelo Sacrifício de Cristo, ou seja, participar da Santa Missa (cf. Jo 9,31) e comungar para celebrar Sua memória (cf. Lc 22,19), além, claro, de também entrar nas fileiras daqueles que destemidamente anunciam Seu amor, mesmo enfrentando toda adversidade (cf. Mt 10,38). Também devemos beber desse 'cálice', como Ele predisse o futuro dos irmãos São Tiago Maior e São João Apóstolo: "Vós bebereis o cálice que Eu devo beber e sereis batizados no batismo em que Eu devo ser batizado." Mc 10,39
    Quanto à ignorância e à violência em si, sempre que possível temos que nos posicionar e agir de modo a não aumentá-las. Ele também ensinou no Sermão da Montanha: "Eu, porém, digo-vos: não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, também lhe oferece a outra. Se alguém te citar em justiça para te tirar a túnica, também lhe cede a capa. Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, anda dois mil. Dá a quem te pede e não te desvies daquele que quer pedir-te emprestado." Mt 5,39-42
    E aqui está o mais profundo Mandamento de Cristo, que nos foi comunicado neste mesmo Sermão: o verdadeiro cristão deve amar seus inimigos! Esse é o maior exemplo, o da extrema paciência e Misericórdia, que é incessantemente dado pelo próprio Pai: "Eu, porém, digo-vos: amai vossos inimigos, fazei bem àqueles que vos odeiam, rezai por aqueles que vos maltratam e perseguem. Deste modo, sereis os filhos de Vosso Pai do Céu, pois Ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. Portanto, sede perfeitos como Vosso Pai Celeste é perfeito." Mt 5,44-45.48
    Pois Nosso Salvador não só assim ensinava: Ele fazia. Mesmo sendo surrado, humilhado e crucificado, não Se entregava à ira contra Seus algozes. E em Seus últimos suspiros na Cruz, rezou: "Pai, perdoa-lhes. Porque não sabem o que fazem." Lc 23,34
    E a missão do católico, segundo Ele mesmo, não é nem um pouco amena: "Eu envio-vos como ovelhas em meio aos lobos." Mt 10,16a
    Quanto ao exemplo do Pai, Jesus, mesmo quando Se referia aos milagres que realizava, enquanto ser humano descrevia Sua passagem entre nós como uma imitação de Deus (cf. Ef 5,1): "Em Verdade, em Verdade, digo-vos: de Si mesmo o Filho não pode fazer coisa alguma. Ele só faz o que vê o Pai fazer. E tudo que o Pai faz, semelhantemente faz o Filho." Jo 5,19


REPRESENTANTES DE CRISTO

    Mas tamanha transformação espiritual, ou seja, verdadeiramente abraçar o amor de salvação, que nos leva do legítimo ódio ao sincero amor pelos inimigos, não é possível sem os auxílios do Espírito Santo, que nos revigora pelo fogo da . Os Apóstolos, ante a obrigação de infinitamente perdoar, pediam ajuda a Jesus: "Aumentai-nos a fé!" Lc 17,5
    Ele ensinava o perdão como o único modo de abrir caminho ao amor. No episódio da pecadora que lavou Seus pés com lágrimas e os enxugou com os cabelos, na casa do fariseu Simão, disse: "... seus numerosos pecados foram-lhe perdoados porque ela tem demonstrado muito amor. Mas àquele que pouco se perdoa, pouco ama." Lc 7,47
    Pois nesta questão, Ele também pedia para seguir o exemplo do Pai: "Sede misericordiosos como Vosso Pai é misericordioso." Lc 6,36
    De fato, havendo arrependimento, a Misericórdia de Deus é ilimitada (cf. Êx 34,6), e assim, para sermos autênticos filhos de Deus, temos que seriamente abraçar Seus ensinamentos: "Se teu irmão pecar, repreende-o. Se se arrepender, perdoa-lhe. Se sete vezes no dia pecar contra ti, e sete vezes no dia vier procurar-te, dizendo: 'Estou arrependido', perdoá-lhe-ás." Lc 17,3-4
    Sua Doutrina, portanto, é essencialmente de mansidão e humildade, pois não prometeu comodidades materiais, mas tão somente conforto a nossas almas: "Tomai Meu jugo sobre vós e recebei Minha Doutrina, porque Eu sou manso e humilde de coração, e achareis repouso para vossas almas." Mt 11,29
    Muitos, porém, tinham e têm medo de Jesus por n'Ele verem um mero denunciador de pecados, mas isso é um erro. Com efeito, mesmo patentes a veracidade e o poder de Sua Palavra, e, ressalte-se, diante de todos nossos pecados, Sua Missão é de Salvação: "Se alguém ouve Minhas palavras e não as guarda, Eu não o condenarei, porque não vim para condenar o mundo, mas para o salvar." Jo 12,47
    Ele explicou aos líderes judeus, que já planejavam matá-Lo, durante Sua segunda festa em Jerusalém: "Não julgueis que hei de acusar-vos diante do Pai. Há quem vos acusa: Moisés, em quem colocais vossa esperança." Jo 5,45
    E ainda há pior acusador, como o Livro de Apocalipse de São João anotou: o mesmo que alicia e escraviza! Mas a vitória de Jesus já se concretizou, Ele já ofereceu Seu Sangue por nossa remissão: "Eu ouvi no Céu uma forte voz que dizia: 'Agora chegou a Salvação, o poder e a realeza de Nosso Deus, assim como a autoridade de Seu Cristo, porque foi precipitado o acusador de nossos irmãos, que dia e noite os acusava diante de Nosso Deus.'" Ap 12,10
    O Amado Discípulo, pois, anuncia: "Filhinhos meus, isto escrevo-vos para que não pequeis. Mas se alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo. Ele é a expiação por nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo mundo." 1 Jo 2,1-2
    De fato, noutra situação, instado por São Tiago Maior e São João para punir os samaritanos de um povoado com fogo do Céu, porque não os acolheram, "Jesus voltou-Se e severamente repreendeu-os: 'Não sabeis de que Espírito sois animados. O Filho do Homem não veio para perder as vidas dos homens, mas para as salvar.'" Lc 9,55-56
    E tal como agia, também ensinava, desde as primeiras exortações públicas: "Não julgueis, e não sereis julgados. Não condeneis, e não sereis condenados. Perdoai, e sereis perdoados. Dai, e dá-se-vos-á." Lc 6,37-38
    700 anos antes, o Livro do Profeta Isaías havia prescrito esse emblemático comportamento do Cristo: "Ele não grita, nunca eleva a voz, não clama nas ruas. Não quebrará o caniço rachado, não extinguirá a mecha que ainda fumega. Anunciará com toda franqueza a verdadeira religião. Não desanimará nem desfalecerá até que tenha estabelecido a verdadeira religião sobre a Terra, e até que as ilhas desejem Seus ensinamentos." Is 42,2-4
    Contudo, Jesus não deixou de alertar àqueles que se apegam às coisas do mundo, cultuando apenas comportamentos de interesses. E, de novo, o divisor de águas está em amar ou não a Cristo, como afirmou perante religiosos de Jerusalém: "Se Deus fosse vosso pai, vós amá-Me-íeis, porque Eu saí de Deus." Jo 8,42
    Tinha sido taxativo: "Aquele que não honra o Filho, não honra o Pai, que O enviou." Jo 5,23a
    E mais uma vez vinculando a Palavra ao amor de Deus, Ele tinha-os acusado: "... permanentemente não tendes em vós Sua Palavra, pois não credes n'Aquele que Ele enviou. Não espero Minha Glória dos homens, mas sei que não tendes em vós o amor de Deus." Jo 5,38.41-42
    Mas, mesmo para estes, Ele tinha um conselho: "Eu digo-vos: fazei-vos amigos com a injusta riqueza, para que, no dia em que ela vos faltar, eles vos recebam nos Eternos Tabernáculos." Lc 16,9
    E aferiu, na primeira passagem por Jerusalém em vida pública, perante o notável fariseu Nicodemos que viria a ser Seu discípulo, a exata diferença entre o mundano amor e Sua Vinda: "Ora, este é o Julgamento: a Luz veio ao mundo, mas os homens mais amaram as trevas que a Luz, pois suas obras eram más." Jo 3,19
    Em Sua Onisciência, de fato, Jesus bem sabe em que condição se encontram as almas pelo mundo. Não por acaso, Suas primeiras palavras, ao iniciar Seu Ministério, foram um convite ao arrependimento e à piedade: "Depois que João foi preso, Jesus dirigiu-Se para Galileia. Pregava o Evangelho de Deus, e dizia: 'Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Fazei penitência e crede no Evangelho.'" Mc 1,14-15
    Por isso, convida a tornarmo-nos Seus legítimos discípulos. Notemos, porém: ninguém se torna discípulo da noite para o dia. Os próprios Apóstolos, apesar de estarem com Jesus mais de três anos, vendo e ouvindo tudo viram e ouviram, ainda se viam por converter-se. Foi o que Ele disse a São Pedro pouco antes do início de Sua Paixão: "Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo. Mas Eu roguei por ti, para que tua fé não desfaleça. Quando, porém, te converteres, confirma teus irmãos." Lc 22,31-32
    Ora, eles ainda careciam da unção do Espírito Santo, como Ele disse a instantes de Sua Ascensão aos Céus: "Eu mandá-vos-ei o Prometido de Meu Pai. Entretanto, permanecei na cidade até que sejais revestidos da força do alto." Lc 24,49
    Enfim, em exatas palavras, a Comunhão é necessariamente a condição de agir do cristão: "Se permanecerdes em Mim, e Minhas Palavras permanecerem em vós, pedireis tudo que quiserdes e sê-vos-á feito. Nisto é glorificado Meu Pai, para que deis muito fruto e vos torneis Meus discípulos." Jo 15,7-8
    Propriamente, a Comunhão Eucarística celebrada na Santa Missa: "Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue, permanece em Mim e Eu nele." Jo 6,36
    Afinal, assim Ele fez Seu último pedido: que, fielmente guardando Seu exemplo em constante missão, levemos a cristandade à humanidade sem o Sacramento do Batismo: "Ide por todo mundo e pregai o Evangelho a toda criatura." Mc 16,15
    E a Carta de São Paulo aos Filipenses pede que também nos disponhamos a sacrifícios por Ele: "Cumpre, somente, que em vosso proceder vos mostreis dignos do Evangelho de Cristo. Quer eu vá ter convosco quer permaneça ausente, desejo ouvir que estais firmes em um só espírito, unanimemente lutando pela fé do Evangelho, sem vos deixardes intimidar em nada por vossos adversários. Isto para eles é motivo de perdição, mas para vós, de Salvação. E é a vontade de Deus, porque vos é dado não somente crer em Cristo, mas também sofrer por Ele." Fl 1,27-29
    Na Carta aos Hebreus, os seguidores de sua tradição vão ainda mais longe: "Atentamente considerai, pois, Aquele que tantas contrariedades sofreu dos pecadores, e não vos deixeis abater pelo desânimo. Ainda não tendes resistido até o sangue na luta contra o pecado." Hb 12,3-4
    E ele próprio, na Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios, não nega que este testemunho de vida seja o verdadeiro sentido de ser cristão: "Sempre trazemos em nosso corpo os traços da morte de Jesus, para que a Vida de Jesus também se manifeste em nosso corpo. Embora estando vivos, somos a toda hora entregues à morte por causa de Jesus, para que a vida de Jesus também apareça em nossa carne mortal." 2 Cor 4,10-11
    Ora, se ainda não compreendemos, ser cristão é plenamente representar o Cristo, o Martirizado, o Servo Sofredor. São Suas palavras: "Em Verdade, em Verdade, digo-vos: se o grão de trigo caído na terra não morrer, fica só. Se morrer, produz muito fruto. Quem ama sua vida, perdê-la-á, mas quem odeia sua vida neste mundo, conservá-la-á para a Vida Eterna. Se alguém quer servir-Me, siga-Me, e onde Eu estou, ali também estará Meu servo. Se alguém Me serve, Meu Pai honrá-lo-á." Jo 12,24-26
    E assim exorta, transferindo-nos Sua luz: "Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha, nem se acende uma vela para a colocar debaixo de um caixote, mas sim para a colocar sobre o candeeiro, a fim de que brilhe para todos que estão em casa. Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem Vosso Pai que está nos Céus." Mt 5,14-16

    "Fazei de nós uma perfeita oferenda!"