terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus


    Nas Escrituras, Santa Isabel é a primeira a afirmar Nossa Senhora como Mãe de Deus. Aconteceu por ocasião da visita que a Santíssima Virgem lhe fez, logo após a Anunciação do Arcanjo São Gabriel, quando o Espírito Santo demonstrou que sempre está com ela: "Ora, Isabel apenas ouviu a saudação de Maria e a criança estremeceu em seu seio. E Isabel ficou cheia do Espírito Santo, exclamando em alta voz: 'Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o Fruto de teu ventre. Donde me vem esta honra, de vir a mim a Mãe de Meu Senhor?'" Lc 1,41-43
    De fato, pela saudação de Nossa Senhora dava-se a unção do Santo Paráclito, além da própria Santa Isabel, sobre São João Batista, como São Gabriel Arcanjo prometeu ao sacerdote Zacarias, seu pai: "Ele será para ti motivo de gozo e alegria, e muitos se alegrarão com seu nascimento porque será grande diante do Senhor. Ele não beberá vinho nem cerveja, e desde o ventre de sua mãe será cheio do Espírito Santo." Lc 1,14-15
    Pois ao anunciar que ela conceberia do Espírito Santo, o Arcanjo São Gabriel não diz que Deus 'está' ela, ou seja, um momentânea condição, mas que Deus 'é' com ela: "No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi, e o nome da virgem era Maria. Entrando, o anjo disse-lhe: 'Ave, cheia de Graça, o Senhor é contigo.'" Lc 1,26-28
    Mas, claro, quem primeiro soube que ela seria a Mãe do Salvador foi o Divino São José, como São Mateus narrou: "Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, Sua mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo. José, seu esposo, que era homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente. Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e disse-lhe: 'José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois Aquele que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho, a Quem porás o Nome de Jesus, porque Ele salvará Seu povo de seus pecados.'" Mt 1,18-21
    O título de Mãe de Deus foi oficialmente reconhecido pela Igreja em 431, no terceiro Concílio Ecumênico, o primeiro realizado em Éfeso, justamente a cidade onde Nossa Senhora viveu seus últimos anos em companhia de São João Apóstolo, e onde ele foi bispo. Inscrevia-se, assim, o primeiro Dogma Mariano.
    Nesse Concílio, quando para o mundo brilhou a inspiração de São Cirilo de Alexandria, também foram decretadas as naturezas humana e divina de Jesus, que são inseparáveis. A esse respeito, o Evangelho de São João é determinante: "E o Verbo fez-Se carne..." Jo 1,14
    Foi, portanto, exclusivamente através da carne de Maria, que era da casa de Davi, que Deus Se fez carne. São Paulo escreveu aos romanos: "... acerca de Seu Filho Jesus Cristo, Nosso Senhor, descendente de Davi quanto à carne..." Rm 1,3
    E referindo-se a Jesus, o próprio São João Evangelista vai dizer: "... o Verbo era Deus." Jo 1,1
    Os opositores a esse Dogma diziam que Maria era apenas Mãe do Cristo, mas não Mãe de Deus. Como se pode negar, porém, por um instante sequer, a Divindade de Cristo? Como vimos acima, o Verbo é Deus, então Maria é Mãe do Verbo, logo, Mãe de Deus.
    E como Mãe de Deus, ela também se tornou Mãe da Igreja, ou seja, Mãe dos seguidores de Jesus, como no livro do Apocalipse registra São João as celestiais revelações que teve: "Cheio de raiva por causa da Mulher, o Dragão começou a combater o resto de seus filhos, aqueles que observam os Mandamentos de Deus e guardam o testemunho de Jesus." Ap 12,17
    Essa celestial maternidade já havia sido profetizada nos Salmos, inclusive indicando-a como Rainha, que seus filhos, os Santos e os Sacerdotes, reinariam sobre a terra, e que seu nome jamais seria esquecido: "Vosso trono, ó Deus, é eterno. De equidade é Vosso cetro real. ... posta-se à Vossa direita a Rainha, ornada de ouro de Ofir. Ouve, filha, vê e presta atenção: esquece teu povo e a casa de teu pai. De tua beleza encantar-Se-á o Rei. Ele é Teu Senhor, rende-Lhe homenagens. Tomarão teus filhos o lugar de teus pais, tu estabelecê-lo-ás príncipes sobre toda a terra. Celebrarei teu nome através das gerações. E os povos louvar-te-ão eternamente." Sl 44,7.10b-12.17-18
    Ora, Nossa Mãe confirmou e replicou essa profecia, cujo cumprimento, pela devoção que tem espalhada pelo mundo, ninguém pode negar: "Por isto, desde agora todas gerações proclamar-me-ão bem-aventurada, porque em mim realizou maravilhas Aquele que é poderoso, e Cujo Nome é Santo." Lc 1,48a-19
    Ademais, desde Sua primeira Páscoa em vida pública, Jesus havia dito a Nicodemos que para entrar no Céu o ser humano precisa nascer de novo: "Jesus replicou-lhe: 'Em verdade, em verdade, digo-te: quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus.' Nicodemos perguntou-Lhe: 'Como pode um homem renascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no seio de sua mãe e nascer pela segunda vez?' Respondeu Jesus: 'Em verdade, em verdade, digo-te: quem não renascer da Água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus. Aquele que nasceu da carne é carne, e aquele que nasceu do Espírito é espírito.'" Jo 3,3-6
    E em Seus últimos instantes na Cruz, através de São João Evangelista determinou Jesus a essencial maternidade de Maria a todos Seus discípulos: "Quando Jesus viu Sua mãe, e junto a ela o discípulo que amava, disse à Sua mãe: 'Mulher, eis aí teu filho.' Depois disse ao discípulo: 'Eis aí tua mãe.'" Jo 19,26-27a
    Ora, a mãe carnal de São João Evangelista era Salomé, e ela igualmente assistia a crucificação: "Ali também havia algumas mulheres que de longe olhavam. Tinham seguido Jesus desde a Galileia para servi-Lo. Entre elas achavam-se Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu." Mt 27,55-56
    São Marcos, que narrou a mesma cena, deu seu nome: "Ali também se achavam umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé, que O tinham seguido e haviam-nO assistido quando Ele estava na Galileia. E muitas outras que junto a Ele haviam subido a Jerusalém." Mc 15,40-41
    E o único que, até então, havia nascido do Espírito Santo e de Maria era o próprio Jesus: "Maria perguntou ao anjo: 'Como se fará isso, pois não conheço homem?' Respondeu-lhe o anjo: 'O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo envolver-te-á com Sua sombra. Por isso, o Ente Santo que de ti nascer será chamado Filho de Deus." Lc 1,34-35
    Mais uma vez temos, portanto, que benditos são aqueles gerados pelo Espírito de Deus, como apontou Jesus, e, parafraseando Santa Isabel, no espiritual ventre de Maria, quer dizer, na Igreja: "E exclamou em alta voz: 'Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o Fruto de teu ventre.'" Lc 1,42
    Foi exatamente isso que aconteceu com Apóstolos, discípulos e seguidores no Pentecostes, pois lá estava Nossa Mãe Celeste: "Voltaram eles para Jerusalém, então, do monte chamado das Oliveiras, que fica perto de Jerusalém, distante uma jornada de sábado. Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Todos eles unanimemente perseveraram na oração, e com eles as mulheres, entre elas Maria, Mãe de Jesus, e os irmãos d'Ele. Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um impetuoso vento, e encheu toda a casa onde se encontravam. Então lhes apareceu línguas como de fogo, que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem." At 1,12-13a.14;2,1-4
    E é isso que se dá pelo Sacramento da Crisma, inicialmente ministrado pelos Apóstolos e, depois deles, pelos Bispos da Igreja, como é até hoje: "Os Apóstolos que se achavam em Jerusalém, tendo ouvido que a Samaria recebera a Palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João. Estes, assim que chegaram, fizeram oração pelos novos fiéis, a fim de receberem o Espírito Santo, visto que ainda não havia descido sobre nenhum deles, mas apenas tinham sido batizados em Nome do Senhor Jesus." At 8,14-16
    São João Evangelista, enfim, vai dizer de nossa adesão à Igreja, fundada por Jesus: "Mas a todos aqueles que O receberam, aos que creem em Seu Nome, deu-lhes o poder de tornarem-se filhos de Deus, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus." Jo 1,12-13
    E afirmou, como vimos, que a Igreja se compõe dos filhos de Maria, e por isso é ela o principal alvo do Demônio: "Cheio de raiva por causa da Mulher, o Dragão começou a combater o resto de seus filhos, aqueles que observam os Mandamentos de Deus e guardam o testemunho de Jesus." Ap 12,17
    No ventre de Maria, pois, onde Jesus, não gerado espiritualmente, nasceu da carne, nós, nascidos da carne, somos gerados espiritualmente. Assim é o projeto de Deus, como diz São Paulo: "Aqueles que Ele de antemão distinguiu, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Este seja o Primogênito entre uma multidão de irmãos." Rm 8,29
    E apontando para o Sacrifício Pascal, isto é, a Comunhão que é celebrada na Santa Missa e é a razão de ser da Igreja, seus seguidores dizem o mesmo: "Aquele para Quem e por Quem todas as coisas existem, desejando conduzir à Glória numerosos filhos, deliberou elevar à perfeição, pelo sofrimento, o Autor da Salvação deles, para que Santificador e santificados formem um só todo. Por isso, Jesus não hesita em chamá-los Seus irmãos..." Hb 2,10-11
    São João Evangelista vai no mesmo sentido, e através do Sacramento do Crisma confirma os verdadeiros fiéis: "Quanto a vós, a unção que d'Ele recebestes permanece em vós. Se sabeis que Ele (Cristo) é justo, também sabei que todo aquele que pratica a justiça d'Ele é nascido." 1 Jo 2,27.29
    Fala do amor a Deus que se expressa pelo amor à Igreja, e é a própria Unidade do Corpo de Cristo: "Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus." 1 Jo 4,7
    Exaltando o Ministério do Espírito Santo, pois, São Paulo diz da Igreja: "De fato, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer. Mas se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis, pois todos que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus." Rm 8,13
    E deu mais detalhes, ainda que indiretos, desta nova gestação. Sem dúvida, se da costela de Adão surgiu Eva, da carne da Nova Eva surgiu o Novo Adão, e assim a nova humanidade: "Como está escrito: 'O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente (Gn 2,7)'. O Segundo Adão é Espírito vivificante. Mas não é o espiritual que vem primeiro, e sim o animal. O espiritual vem depois. O primeiro homem, tirado da terra, é terreno, o segundo veio do Céu. Qual o homem terreno, tais os homens terrenos, e qual o Homem Celestial, tais os homens celestiais. Assim como em nós reproduzimos as feições do homem terreno, precisamos reproduzir as feições do Homem Celestial." 1 Cor 15,45-49
    É evidente que Eva é a mãe da humanidade, como está no Gênesis: "Adão pôs à sua mulher o nome de Eva, porque ela era a mãe de todos viventes." Gn 3,20
    Mas mãe meramente carnal, como disse Jesus: "Aquele que nasceu da carne é carne, e aquele que nasceu do Espírito é espírito.'" Jo 3,6
    Com efeito, tempos depois o próprio Deus vai restringir Seu povo aos filhos de Raquel, esposa de Isaac, que também era prefigura de Maria, como falou através do Profeta Jeremias: "Eis o que diz o Senhor: 'Ouve-se em Ramá uma voz, lamentos e amargos soluços. É Raquel que chora seus filhos, recusando-se ser consolada porque já não existem.'" Jr 31,15
    Antes de Raquel, porém, Ele havia dito que Sara, mais luminosa prefigura da Santíssima Virgem porque mãe da promessa, seria mãe de nações, rainha de povos, ou seja, para muito além das fronteiras de Israel: "Disse Deus a Abraão: 'Não mais chamarás tua mulher Sarai, e sim Sara. Eu abençoá-la-ei e dela dar-te-ei um filho. Eu abençoá-la-ei e ela será a mãe de nações, dela sairão reis de povos.'" Gn 17,15-16
    De fato, comparando Sara e Agar, que geraram filhos de Abraão, São Paulo diz-se filho de Sara, a matriarca do povo de Deus: "Como Isaac, irmãos, vós sois filhos da promessa. Como naquele tempo o filho da natureza perseguia o filho da promessa, o mesmo se dá hoje. Que diz, porém, a Escritura? 'Lança fora a escrava e seu filho, porque o filho da escrava não será herdeiro com o filho da livre (Gn 21,10).' Pelo que, irmãos, não somos filhos da escrava, mas sim da que é livre." Gl 4,28-31
    E se sua teologia ainda não a relacionava com Maria, inspiradamente vai relacioná-la com a Jerusalém Celestial, ou seja com a Igreja: "A Escritura diz que Abraão teve dois filhos: um da escrava e outro da livre. O da escrava, filho da natureza, e o da livre, filho da promessa. Nestes fatos há uma alegoria, visto que aquelas mulheres representam as duas Alianças... Mas a Jerusalém lá do alto é livre, e esta é nossa mãe..." Gl 4,222-24a.26
    Pois em Cristo o Último Apóstolo desdenha de qualquer outro rito, seja do judaísmo ou do paganismo: "Porque a circuncisão e a incircuncisão de nada valem, mas sim a nova criatura." Gl 6,15
    E finaliza: "Todos vós, que fostes batizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo. Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus. Ora, se sois de Cristo, então verdadeiramente sois a descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa." Gl 3,27-29
    É esta gestação e parto, obras de Deus, que o salmista, falando pelo Cristo, exalta: "Sim, fostes Vós que Me tirastes das entranhas de Minha mãe e, seguro, fizestes-Me repousar em seu seio. Fui-Vos entregue desde Meu nascer, desde o ventre de Minha mãe Vós sois Meu Deus." Sl 21,9-11
    São Tiago Menor também falou deste renascer que se deu em sua geração, os primeiros rebentos da Igreja: "Toda boa dádiva e todo perfeito dom vêm de cima: descem do Pai das luzes, no Qual não há mudança, nem mesmo aparência de instabilidade. Por Sua vontade é que nos gerou pela Palavra da Verdade, a fim de que sejamos como que as primícias de Suas criaturas." Tg 1,17-18
    São Pedro, do mesmo modo: "Como recém-nascidos, com ardor desejai o leite espiritual que vos fará crescer para a Salvação, se é que tendes saboreado quão suave é o Senhor (Sl 33,9)." 1 Pd 2,2-3
    Ademais, como rejeitar a maternidade de Maria se prontamente aceitamos a paternidade dos Padres, nossos Sacerdotes, como reclama São Paulo aos coríntios? "Com efeito, ainda que tivésseis dez mil mestres em Cristo, não tendes muitos pais. Ora, fui eu que em Cristo Jesus vos gerei pelo Evangelho." 1 Cor 4,15


APRESENTAR JESUS AO MUNDO

     A Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, pois, foi a primeira festa mariana da Igreja em Roma, celebrada desde o século IV, antes do referido Concílio. Com justiça, devemos a Nossa Senhora a Encarnação do Cristo, porque ao responder ao Arcanjo Gabriel aceitou submeter-se aos desígnios de Deus: "Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo tua palavra." Lc 1,38
    Desígnios, aliás, nem sempre tão gloriosos, como previu um religioso durante a Apresentação do Menino Jesus no Templo de Jerusalém: "Simeão abençoou-Os e disse a Maria, Sua mãe: 'Eis que este Menino está destinado a ser causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará tua alma.'" Lc 2,34-35
    Contudo, mesmo ciente de todos percalços, a maior realização de Maria é apresentar Seu Filho, Nosso Salvador, ao mundo. E é isso o que ela vem fazendo desde o primeiro momento de Sua concepção, quando foi visitar Santa Isabel: "Naqueles dias, Maria levantou-se e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel." Lc 1,39-40
    Não foi ela que 'precipitou' o 'início' da vida pública de Jesus, instando-O a transformar água em vinho nas bodas de Caná? "Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-Lhe: 'Eles já não têm vinho.' Respondeu-lhe Jesus: 'Mulher, que há entre Mim e ti? Minha hora ainda não chegou.' Disse, então, Sua mãe aos serventes: 'Fazei tudo que Ele vos disser.'" Jo 2,3-5
    Ora, aí refulgiu a Glória de Deus entre os homens: "Este foi o primeiro milagre de Jesus. Realizou-o em Caná da Galileia. Manifestou Sua Glória, e Seus discípulos creram n'Ele." Jo 2,11
    Como se nota, São João e São Lucas expressam 'mais evoluído' Catolicismo em relação a São Mateus e São Marcos. E não só por serem posteriores. João, sem dúvida, vê-se plenamente renascido de Maria, que ele viu coroada nos Céus. São 15 anos em sua companhia, da Paixão do Senhor à Assunção de Nossa Senhora, vivendo a espiritualidade mariana, fato que evidentemente concorreu para tornar mais teológico e mais místico o Amado Discípulo. Levado à contemplação, ele meditou em profundidade sobre o silêncio e o sofrimento da Mãe de Deus.
    E São Lucas detectou o início da veneração mariana, registrando o Magnificat, a atenção de Nossa Senhora para com as palavras dos pastores de Belém, a Apresentação do Menino Jesus no Templo, o episódio da Páscoa aos 12 anos, no qual registra a Sagrada Família como composta apenas Jesus, Maria e José, ou seja, deixando evidente que Maria não teve nenhum outro filho. Ora, ele conseguiu essas informações junto à comunidade cristã, em ambientes marianos, que por sua vez as obtiveram de Maria e de seus parentes, e tal cultura é apenas mais um evidente sinal do pronto acolhimento dado a Jesus como o Messias. Também é patente que o terceiro Evangelho é o que, de longe, mais menções faz ao Espírito Santo, fato que explicita, para que sejamos verdadeiros filhos de Deus, o vínculo entre Nossa Mãe e o Santo Paráclito, fundante detalhe da Igreja.
    São Paulo reverbera a autoridade da Barca de São Pedro: "Por conseguinte, desprezar estes preceitos é desprezar não a um homem, mas a Deus, que nos infundiu Seu Santo Espírito." 1 Ts 4,9
    Ora, até mesmo os Apócrifos indicam veneração à Maria, entre eles a história de São Joaquim e Santa Ana.
    Segundo os Mandamentos da Igreja, portanto, a Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus é um dos quatro dias de preceito no Brasil, junto à celebração da Imaculada Conceição de Maria, do Natal de Jesus e do Corpus Christi. E abre o calendário da Igreja de Todos os Santos, iniciando o ano litúrgico em louvação ao mais perfeito ser puramente humano gerado por Deus: Aquela que viveu toda vida guardando com perfeição a divina semelhança, pois foi 'concebida sem pecado'.

    Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores!