segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus


    Nas Escrituras, Santa Isabel é a primeira a afirmar Nossa Senhora como Mãe de Deus. Foi por ocasião da visita que ela lhe fez, logo após a Anunciação do Arcanjo Gabriel, quando o Espírito Santo demonstrou que sempre estaria com ela: "Ora, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu em seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. E exclamou em alta voz: 'Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o Fruto de teu ventre. Donde me vem esta honra, de vir a mim a Mãe do Meu Senhor?'" Lc 1,41-43
    De fato, ao anunciar que ela conceberia do Espírito Santo, o Arcanjo São Gabriel não diz que Deus 'está' ela, ou seja, um condição momentânea, mas que Ele 'é' com ela: "No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi, e o nome da virgem era Maria. Entrando, o anjo disse-lhe: 'Ave, cheia de Graça, o Senhor é contigo.'" Lc 1,26-28
    Mas, claro, quem primeiro soube que ela seria a Mãe do Salvador foi o divino São José: "Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, Sua mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo. José, seu esposo, que era homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente. Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e disse-lhe: 'José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois Aquele que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho, a Quem porás o Nome de Jesus, porque Ele salvará Seu povo de seus pecados.'" Mt 1,18-21
    O título de Mãe de Deus foi oficialmente reconhecido pela Igreja em 431, no terceiro Concílio Ecumênico, o primeiro realizado em Éfeso, justamente a cidade onde Nossa Senhora viveu seus últimos anos em companhia de São João Apóstolo, e onde ele foi bispo. Inscrevia-se o primeiro Dogma Mariano.
    Nesse Concílio, no qual brilhou para o mundo a grandiosa inspiração de São Cirilo de Alexandria, também foram decretadas as naturezas humana e divina de Jesus, que são inseparáveis. A esse respeito, o Evangelho de São João é determinante: "E o Verbo fez-Se carne..." Jo 1,14
    Foi, portanto, exclusivamente através da carne de Maria que Deus Se fez carne, pois, como disse o próprio São João referindo-se a Jesus: "... o Verbo era Deus." Jo 1,1
    Os opositores a esse Dogma diziam que Maria era apenas Mãe do Cristo, mas não Mãe de Deus. Como se pode negar, porém, por um instante sequer, a Divindade de Cristo? Como vimos acima, o Verbo é Deus, então Maria é Mãe do Verbo, logo, Mãe de Deus.
    E como Mãe de Deus, ela tornou-se também Mãe da Igreja, ou seja, Mãe dos seguidores de Jesus, como no livro do Apocalipse registrou São João as celestiais revelações que teve: "Cheio de raiva por causa da Mulher, o Dragão começou a combater o resto de seus filhos, aqueles que observam os Mandamentos de Deus e guardam o testemunho de Jesus." Ap 12,17
    Essa celestial maternidade já havia sido profetizada nos Salmos, inclusive indicando-a como Rainha, que seus filhos, os Santos e os Sacerdotes, reinariam sobre a terra, e que seu nome jamais seria esquecido: "Vosso trono, ó Deus, é eterno. De equidade é Vosso cetro real. ... posta-se à Vossa direita a Rainha, ornada de ouro de Ofir. Ouve, filha, vê e presta atenção: esquece teu povo e a casa de teu pai. De tua beleza encantar-Se-á o Rei. Ele é Teu Senhor, rende-Lhe homenagens. Tomarão teus filhos o lugar de teus pais, tu estabelecê-lo-ás príncipes sobre toda a terra. Celebrarei teu nome através das gerações. E os povos louvar-te-ão eternamente." Sl 44,7.10b-12.17-18
    Pois desde Sua primeira Páscoa em vida pública, Jesus havia dito a Nicodemos que para entrar no Céu o ser humano precisa nascer de novo: "Jesus replicou-lhe: 'Em verdade, em verdade, digo-te: quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus.' Nicodemos perguntou-Lhe: 'Como pode um homem renascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no seio de sua mãe e nascer pela segunda vez?' Respondeu Jesus: 'Em verdade, em verdade, digo-te: quem não renascer da Água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus. Aquele que nasceu da carne é carne, e aquele que nasceu do Espírito é espírito.'" Jo 3,3-6
    E em Seus últimos instantes na Cruz, Jesus determinou a São João Evangelista a essencial maternidade de Maria a todos Seus discípulos: "Quando Jesus viu Sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à Sua mãe: 'Mulher, eis aí teu filho.' Depois disse ao discípulo: 'Eis aí tua mãe.'" Jo 19,26-27a
    Ora, a mãe carnal de São João Evangelista era Salomé, e também assistia a crucificação: "Havia ali também algumas mulheres que de longe olhavam; tinham seguido Jesus desde a Galileia para servi-Lo. Entre elas achavam-se Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu." Mt 27,55-56
    São Marcos, que narrou a mesma cena, deu seu nome: "Achavam-se ali também umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé, que O tinham seguido e haviam-nO assistido quando Ele estava na Galileia; e muitas outras que junto a Ele haviam subido a Jerusalém." Mc 15,40-41
    E o único que, até então, havia nascido do Espírito Santo e de Maria era o próprio Jesus: "Maria perguntou ao anjo: 'Como se fará isso, pois não conheço homem?' Respondeu-lhe o anjo: 'O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te envolverá com Sua sombra. Por isso, o Ente Santo que de ti nascer será chamado Filho de Deus." Lc 1,34-35
    Temos mais uma vez, portanto, que benditos são aqueles gerados pelo Espírito de Deus, como apontou Jesus, e, parafraseando Santa Isabel, no ventre espiritual de Maria, quer dizer, na Igreja: "E exclamou em alta voz: 'Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o Fruto do teu ventre.'" Lc 1,42
    Foi exatamente isso que aconteceu com Apóstolos, discípulos e seguidores no Pentecostes, pois lá estava Nossa Mãe Celeste: "Voltaram eles então para Jerusalém do monte chamado das Oliveiras, que fica perto de Jerusalém, distante uma jornada de sábado. Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Todos eles perseveravam unanimemente na oração, junto às mulheres, entre elas Maria, Mãe de Jesus, e os irmãos d'Ele. Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um impetuoso vento, e encheu toda a casa onde se encontravam. Então lhes apareceu línguas como de fogo, que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem." At 1,12-13a.14;2,1-4
    E é isso que se dá pelo Sacramento da Crisma, inicialmente ministrado pelos Apóstolos e em seguida pelos Bispos da Igreja, como é até hoje: "Os Apóstolos que se achavam em Jerusalém, tendo ouvido que a Samaria recebera a Palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João. Estes, assim que chegaram, fizeram oração pelos novos fiéis, a fim de receberem o Espírito Santo, visto que ainda não havia descido sobre nenhum deles, mas tinham sido somente batizados em Nome do Senhor Jesus." At 8,14-16
    São João Evangelista vai dizer de nossa adesão à Igreja, fundada por Jesus: "Mas a todos aqueles que O receberam, aos que creem em Seu Nome, deu-lhes o poder de tornarem-se filhos de Deus, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus." Jo 1,12-13
    E afirmou, como vimos, que a Igreja é feita pelos filhos de Maria, e por isso ela é o principal alvo do Demônio: "Cheio de raiva por causa da Mulher, o Dragão começou a combater o resto de seus filhos, aqueles que observam os Mandamentos de Deus e guardam o testemunho de Jesus." Ap 12,17
    No ventre de Maria, pois, onde Jesus, não gerado espiritualmente, nasceu da carne, nós, nascidos da carne, somos gerados espiritualmente. Assim é o projeto de Deus, como diz São Paulo: "Aqueles que Ele de antemão distinguiu, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Este seja o Primogênito entre uma multidão de irmãos." Rm 8,29
    Ele deu mais detalhes, ainda que indiretos, desta nova gestação. Sem dúvida, se da costela de Adão surgiu Eva, da carne da Nova Eva surgiu o Novo Adão, e assim a nova humanidade: "Como está escrito: 'O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente (Gn 2,7)'; o Segundo Adão é Espírito vivificante. Mas não é o espiritual que vem primeiro, e sim o animal; o espiritual vem depois. O primeiro homem, tirado da terra, é terreno; o segundo veio do Céu. Qual o homem terreno, tais os homens terrenos; e qual o Homem Celestial, tais os homens celestiais. Assim como reproduzimos em nós as feições do homem terreno, precisamos reproduzir as feições do Homem Celestial." 1 Cor 15,45-49
    E por isso, em Cristo, ele desdenhava de qualquer outro rito, seja do judaísmo seja do paganismo: "Porque a circuncisão e a incircuncisão de nada valem, mas sim a nova criatura." Gl 6,15
    É esta gestação e parto, operados por Deus, que o salmista, falando pelo Cristo, exalta: "Sim, fostes Vós que Me tirastes das entranhas de Minha mãe e, seguro, fizestes-Me repousar em seu seio. Fui-Vos entregue desde Meu nascer, desde o ventre de Minha mãe Vós sois Meu Deus." Sl 21,9-11
    São Tiago Menor também falou deste renascer de sua geração, que era os primeiros rebentos da Igreja: "Toda boa dádiva e todo perfeito dom vêm de cima: descem do Pai das luzes, no Qual não há mudança, nem mesmo aparência de instabilidade. Por Sua vontade é que nos gerou pela Palavra da Verdade, a fim de que sejamos como que as primícias de Suas criaturas." Tg 1,17-18
    Igualmente São Pedro: "Como crianças recém-nascidas, desejai com ardor o leite espiritual que vos fará crescer para a Salvação, se é que tendes saboreado quão suave é o Senhor (Sl 33,9)." 1 Pd 2,2-3
    Ademais, como não aceitar a maternidade de Maria se aceitamos a paternidade dos Padres, nossos Sacerdotes, como reclamava São Paulo aos coríntios? "Com efeito, ainda que tivésseis dez mil mestres em Cristo, não tendes muitos pais; ora, fui eu que vos gerei em Cristo Jesus pelo Evangelho." 1 Cor 4,15


APRESENTAR JESUS AO MUNDO

     A Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, pois, foi a primeira festa mariana da Igreja de Roma, celebrada desde o século IV, antes do referido Concílio. Com justiça, devemos a Nossa Senhora a Encarnação do Cristo. Ao responder ao Arcanjo Gabriel, ela que aceitou submeter-se aos desígnios de Deus: "Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo tua palavra." Lc 1,38
    Desígnios, aliás, nem sempre tão gloriosos, como previu um religioso durante a Apresentação do Menino Jesus no Templo de Jerusalém: "Simeão abençoou-Os e disse a Maria, Sua mãe: 'Eis que este Menino está destinado a ser causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará tua alma.'" Lc 2,34-35
    Contudo, mesmo ciente de todos percalços, a maior realização de Maria é apresentar Seu Filho, Nosso Salvador, ao mundo. E é isso o que ela vem fazendo desde o primeiro momento de Sua concepção, quando foi visitar Santa Isabel: "Naqueles dias, Maria levantou-se e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel." Lc 1,39-40
    Não foi ela que 'precipitou' o 'início' da vida pública de Jesus, instando-O a transformar água em vinho nas bodas de Caná? "Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-Lhe: 'Eles já não têm vinho.' Respondeu-lhe Jesus: 'Mulher, que há entre Mim e ti? Minha hora ainda não chegou.' Disse, então, Sua mãe aos serventes: 'Fazei tudo que Ele vos disser.'" Jo 2,3-5
    Ora, aí refulgiu a Glória de Deus entre os homens: "Este foi o primeiro milagre de Jesus; realizou-o em Caná da Galileia. Manifestou Sua Glória, e Seus discípulos creram n'Ele." Jo 2,11
    Como se nota, São João e São Lucas expressam um cristianismo 'mais evoluído' em relação a São Mateus e São Marcos. E não só por serem-lhes posteriores. João, sem dúvida, vê-se plenamente renascido de Maria, que ele vai ver coroada nos Céus. São 15 anos em sua companhia, da Paixão do Senhor à Assunção de Nossa Senhora, vivendo a espiritualidade mariana, fato que evidentemente concorreu para tornar mais teológico e mais místico o Amado Discípulo. Levado à contemplação, ele meditou em profundidade sobre o silêncio e o sofrimento da Mãe de Deus.
    E São Lucas detectou o início da veneração mariana, registrando o Magnificat, a atenção de Nossa Senhora para com as palavras dos pastores de Belém, a Apresentação do Menino Jesus no Templo, o episódio da Páscoa aos 12 anos, no qual registra a Sagrada Família como composta apenas Jesus, Maria e José, ou seja, deixando evidente que Maria não teve nenhum outro filho. Ora, essas informações ele conseguiu junto à comunidade cristã, em ambientes marianos, que por sua vez obtiveram-nas de Maria ou de seus parentes, e tal cultura é apenas mais um evidente sinal do pronto acolhimento dado a Jesus como o Messias. É também patente que o terceiro Evangelho é o que, de longe, mais menções faz ao Espírito Santo.
    Até mesmo os Apócrifos indicam veneração à Maria, assim como a história de São Joaquim e Santa Ana.
    Segundo os Mandamentos da Igreja, portanto, a Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus é um 4 dos dias de preceito no Brasil, junto à celebração da Imaculada Conceição de Maria, do Natal de Jesus e do Corpus Christi. E abre o calendário da Igreja de Todos os Santos, iniciando o ano litúrgico em louvação ao mais perfeito ser puramente humano gerado por Deus: Aquela que viveu toda vida guardando com perfeição a divina semelhança, pois foi 'concebida sem pecado'.

    Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores!