sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Sois Deuses


    Num mundo tão levado por futilidades e consumismo, é realmente difícil olhar para o céu e acreditar em algo maior que uma cômoda existência, a qual os meios de comunicação e o cultuado jogo da aparência persistentemente induzem-nos a imaginar. Estamos tristemente satisfeitos com a flagrante ilusão de que seríamos capazes de prover-nos tudo de que necessitamos. Não 'precisamos' mais de Deus.
    A decadência moral, por exemplo, e com ela um mar de gritantes injustiças, é apenas mais uma realidade que relutamos em admitir. E tão somente falar dela já seria coisa de gente radical, extremista, sonhadora, no mais gentil dos julgamentos. Dizer que somos filhos de Deus, então... nem pensar! Talvez como força de expressão, e mesmo assim só para reclamar algum direito.
    Mas, e se foi Jesus que nos lembrou uma passagem dos Salmos: "Vós sois deuses..."? Jo 10,34
    Mesmo entre aqueles que n'Ele dizem crer, o normal é que se vá rapidamente à procura de um interpretação 'racional', 'plausível', que justifique esse possível 'exagero'. 'Uma metáfora, por certo!' 'Deve estar fora de contexto...' 'É um versículo de difícil interpretação...'
    No entanto, o sentido é exatamente o que se lê: essas palavras dizem o que dizem. Ou, como os fariseus, iríamos negar até mesmo que Jesus é o Filho de Deus? Pois diante de tão tacanha formação espiritual, Ele próprio viu-se obrigado a argumentar: "Se a Lei chama deuses àqueles a quem a Palavra de Deus foi dirigida - ora, a Escritura não pode ser desprezada -, como acusais de blasfemo Aquele a Quem o Pai santificou e enviou ao mundo, porque Eu disse: 'Sou o Filho de Deus?'" Jo 10,25-26
    A Verdade é que, acostumados a rastejar nesse mundo, atrás de tão pequenas coisas, de fato, terminantemente recusamo-nos a olhar para o céu.
    Resta, porém, uma maior provocação: o que Deus quis dizer ao falar em fazer o ser humano à Sua semelhança? Se nesses tempos de vaidade, exibicionismo e ostentação, quando diária e acintosamente manipulamos a realidade, ser imagem d'Ele deixou de ter qualquer significado, o que dizer então da semelhança de Deus? Está lá no Gênesis: "Então Deus disse: "Façamos o homem à Nossa imagem e semelhança." Gn 1,26
    Não é cabível, pois, imaginar outra coisa! São Paulo advertia os atenienses: "Se, pois, somos da raça de Deus, não devemos pensar que a divindade é semelhante ao ouro, à prata ou à pedra lavrada por arte e gênio dos homens." At 17,29
    Alguns alegariam: 'Que semelhança, se morremos? Deus é eterno e nós, não!' Mas, sabemos mesmo o que é a alma? Jesus questionava nossa mundaneidade: "Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros, e não buscais a Glória que é só de Deus?" Jo 5,44
    E desta nossa pretensa sabedoria, podemos seguir em frente menosprezando as manifestações de Deus, a Revelação? Como Jesus mesmo acusou, a ignorância da Escrituras é fonte de perdição: "Errais, não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus." Mt 22,29
    Ora, alertando da nossa condição espiritual, Ele afirmou: "Deus é Espírito, e Seus adoradores devem adorá-Lo em espírito e Verdade." Jo 4,24
    Também sustentou a imortalidade da alma, assim como a futura Ressurreição da carne: "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes temei Aquele que pode precipitar a alma e o corpo no inferno." Mt 10,28
    De fato, morremos, ao menos corporalmente, mas não sem causa. Deus havia avisado a Adão: "Deu-lhe este preceito: 'Podes comer do fruto de todas árvores do jardim, mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal. Porque no dia em que dele comeres, indubitavelmente morrerás.'" Gn 2,16-17
    Poder-se-ia objetar: 'E que temos nós com Adão e Eva? Pagamos só pela descendência?' Não seria verdade, porém, que continuamos nos recusando a obedecer a Deus e querendo por nós mesmos decidir, a despeito de Suas revelações, 'o que é certo e o que é errado'? Não foi esse o pecado original? Não perdemos a Comunhão com Deus? Não perdemos Seu Santo Espírito? "O Senhor então disse: 'Meu espírito não permanecerá para sempre no homem, porque todo ele é carne, e a duração de sua vida será de cento e vinte anos.'" Gn 6,3
    Destituídos, portanto, ao menos parcialmente, da Graça de Seu Espírito, tivemos que seguir outro caminho. Deus determinou: "Comerás teu pão com o suor de teu rosto até que voltes à terra de que foste tirado, porque és pó, e pó hás de tornar-te." Gn 3,19
    Amoroso Pai, porém, Ele continuou acompanhando nossa saga, embora sem deixar de atribuir-nos o dever de lutar contra o erro. Foi Seu conselho a Caim: "Se praticares o bem, sem dúvida alguma poderás reabilitar-te. Mas se precederes mal, o pecado estará à tua porta, espreitando-te. Tu, porém, deverás dominá-lo." Gn 4,7
    Caim, contudo, não o aceitou. Deixou-se levar pelo pecado da inveja e assim matou seu irmão, Abel. Por isso, sua situação na terra foi ainda mais agravada: "Quando a cultivares, ela negar-te-á seus frutos. E tu serás peregrino e errante sobre a terra." Gn 4,12
    Mas Deus continuou assistindo a Caim, mesmo em seus descaminhos: "O Senhor pôs em Caim um sinal, para que, se alguém o encontrasse, não o matasse." Gn 4,15
    Assim como todo povo de Israel, como o Profeta Neemias registrou: "Vossa paciência para com eles durou muitos anos. Vós fazíeis-lhes admoestações pela inspiração de Vosso Espírito, que animava Vossos Profetas." Ne 9,30a


NATUREZA, GLÓRIA E ESPÍRITO DE DEUS

    A humanidade, no entanto, cansada de tanta desventura ao longo da História, clamou pelo Santo Espírito de Deus, do Qual havia sido deserdada. O salmista canta: "Se enviais, porém, Vosso Espírito, eles revivem e renovais a face da terra." Sl 103,30
    E recusando a sabedoria mundana, aquela mesma que nos tirou e ainda tira do paraíso, pediu pela Divina Sabedoria, que só o Divino Paráclito pode conceder: "E quem conhece Vossas intenções, se Vós não lhe dais a Sabedoria, e se do mais alto dos Céus Vós não lhe enviais Vosso Espírito Santo?" Sb 9,17
    Assim, e conforme as profecias, viveu-se à espera do Messias, que reconciliaria a humanidade com o Pai e devolver-lhe-ia a perdida semelhança. A presença de Deus entre os homens seria anunciada 'até os confins da terra', pois Ele quer Seus filhos à Sua volta, como disse São Paulo: "... também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Este seja o primogênito entre uma multidão de irmãos. E aos que predestinou, também chamou; e aos que chamou, também justificou; e aos que justificou, também glorificou." Rm 8,29-30
    É isso mesmo: Ele quer restituir-nos a Glória, Sua Glória. E assim fez Jesus, quando rezou ao Pai para que a Igreja preserve a União com o Espírito Santo e o mundo n'Ele veja o Salvador. A Igreja Unida, sem divisões, portanto, é a marca de Sua Glória: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam um como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim. Para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e amaste-os, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    Por isso, São João Evangelista, ainda que se referindo à definitiva Volta de Cristo, confiantemente fala na semelhança a ser recuperada: "Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto O veremos como Ele é." 1 Jo 3,2
    Os seguidores da tradição de São Paulo, sem esquecer o Sacrifício da Cruz, vão dizer o mesmo: "Aquele para Quem e por Quem todas as coisas existem, desejando conduzir à Glória numerosos filhos, deliberou elevar à perfeição, pelo sofrimento, o Autor da Salvação deles, para que Santificador e santificados formem um só todo. Por isso, Jesus não hesita em chamá-los Seus irmãos..." Hb 2,10-11
    Essa é a Graça que estava prevista pelas promessas de Deus: que abandonando a vida mundana pela Confissão dos peados, tomemos mais uma vez parte de Sua natureza divina, como diz São Pedro: "... temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo." 2 Pd 1,4
    São Paulo disse algo parecido aos tessalonicenses: "Nós, porém, sentimo-nos na obrigação de incessantemente dar graças a Deus a respeito de vós, irmãos queridos de Deus, porque desde o princípio Deus vos escolheu para dar a Salvação, pela santificação do Espírito e pela fé na Verdade. E pelo anúncio de nosso Evangelho chamou-vos para tomardes parte na Glória de Nosso Senhor Jesus Cristo." 2 Ts 2,13-14
    Ele assim explica essa condição aos coríntios: "Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar. O homem espiritual, ao contrário, julga todas as coisas e não é julgado por ninguém." 1 Cor 2,14-15
    Menciona nestes termos nossa unidade com Cristo, através da conversão e da participação no Sacrifício Pascal da Santa Missa: "... fomos feitos o mesmo ser com Ele, por uma morte semelhante à Sua..." Rm 6,5
    E diz que a santidade nada mais é que a restauração da imagem, ou mais propriamente, da semelhança de Deus: "Vós despistes-vos do velho homem com seus vícios, e revestistes-vos do novo, que constantemente vai restaurando-se à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento." Cl 3,9b-10
    É nesse sentido que nos exorta Jesus, fazendo-nos recordar nossa divina filiação: "Portanto, sede perfeitos, assim como Vosso Pai Celeste é perfeito." Mt 5,48
    Ele disse-o mais de uma vez, como repetiu a Santa Maria Madalena em Sua primeira aparição no Domingo da Ressurreição: "Disse-lhe Jesus: 'Não Me retenhas, porque ainda não subi a Meu Pai, mas vai a Meus irmãos e dize-lhes: Subo para Meu Pai e Vosso Pai, Meu Deus e Vosso Deus.'" Jo 20,17
    De fato, o Pai é Seu constante referencial: "Sede misericordiosos, como também Vosso Pai é misericordioso." Lc 6,36
    É d'Ele que devemos esperar nossa herança: "Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto a Vosso Pai que está no Céu." Mt 6,1
    Até fez uma rápida comparação entre a paternidade mundana e a celestial: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Vosso Pai Celestial dará o Espírito Santo aos que LhO pedirem." Lc 11,13
    Pois também nós devemos viver a santidade para a Salvação de nossos irmãos: "Guardai-vos de menosprezar um só destes pequenos, porque Eu vos digo que seus anjos contemplam sem cessar a face de Meu Pai que está nos Céus. Assim é a vontade de Vosso Pai Celeste, que não se perca um só destes pequeninos." Mt 18,10-14
    Ele assim justificava Seu proceder: "Jesus tomou a palavra e disse-lhes: 'Em verdade, em verdade, digo-vos: de Si mesmo, o Filho não pode fazer coisa alguma. Ele só faz o que vê fazer o Pai, e tudo o que o Pai faz, semelhantemente faz o Filho.'" Jo 5,19
    Pregava: "Tendes ouvido o que foi dito: 'Amarás teu próximo e poderás odiar teu inimigo.' Eu, porém, digo-vos: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo, sereis os filhos de Vosso Pai do Céu, pois Ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos." Mt 5,43-45
    E em mais uma graciosa concessão, desde que O sigamos, Ele compartilha conosco Sua condição de Luz do mundo: "Vós sois a luz do mundo." Mt 5,14
    Tal condição autoriza São Paulo a dizer aos coríntios: "Tornai-vos meus imitadores, como eu o sou de Cristo." 1 Cor 11,1
    Ou, noutro desdobramento, perante os efésios: "Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados." Ef 5,1
    Ora, o Apóstolo dos Gentios faz-nos lembrar a determinante missão da Igreja: "Por isso, a criação ansiosamente aguarda a manifestação dos filhos de Deus... com a esperança de também ser libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus." Rm 8,19.21


FILHOS PARA OBEDECER

    Pois basta que sejamos obedientes e confiemos, porque tudo isso está muito além de nossas capacidades para que tentemos compreender cada detalhe ou a integridade do Divino Projeto. Ou seja, fora o que nos foi dado conhecer pela Revelação, devemos tão somente crer, como reza São Paulo: "Àquele que, pela virtude que em nós opera, pode fazer infinitamente mais que tudo quanto pedimos ou entendemos..." Ef 3,20
    Só por essa ótica fazem sentido estas palavras de Jesus: "Em verdade, em verdade, digo-vos: aquele que crê em Mim também fará as obras que Eu faço. E ainda maiores que estas fará, porque vou para junto do Pai." Jo 14,12
    Ele prometeu: "E tudo que pedirdes ao Pai em Meu Nome, vo-lo farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Qualquer coisa que Me pedirdes em Meu Nome, vo-lo farei." Jo 14,13-14
    E garantiu: "Em verdade, digo-vos: se tiverdes , como um grão de mostarda, direis a esta montanha: 'Transporta-te daqui para lá', e ela irá. E nada vos será impossível." Mt 17,20
    São Paulo explica tal poder: "Porque é Deus, segundo Seu beneplácito, Quem realiza em vós o querer e o executar." Fl 2,13
    Sem dúvida, Jesus havia dito desta Comunhão: "Quem permanecer em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto. Porque sem Mim nada podeis fazer." Jo 15,5b
    E nosso conhecimento, sem a Luz de Deus, é pura cisma, precisamente o pecado cometido por Eva. Ora, o pleno conhecimento, sem que seja necessário ouvir a Deus, foi a oferta que lhe fez a Serpente: "Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos abrir-se-ão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal." Gn 3,5
    Na verdade, nós devemos sim desejar a perfeição, mas aquela oferecida por Deus, que é conforme a Revelação, como foi dado a São Pedro reconhecer o Cristo no Nazareno: "Então lhe disse Jesus: 'Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas Meu Pai que está nos Céus.'" Mt 16,17
    Para tanto Jesus edificou a Igreja, que nos comunica Sua divina maturidade. São Paulo ensina aos efésios: "A uns Ele constituiu Apóstolos; a outros, Profetas; a outros, evangelistas, pastores, doutores, para o aperfeiçoamento dos cristãos, para o desempenho da tarefa que visa à construção do Corpo de Cristo, até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo." Ef 4,11-13
    E nela devemos aguardar o cumprimento dos planos do Pai, como diz ele aos coríntios: "Pois nosso conhecimento é limitado; limitada também é nossa profecia. Mas, quando vier a perfeição, desaparecerá o que é limitado." 1 Cor 13,9-10
    Por essa razão foi dada à Igreja a unção do Divino Paráclito: "... fostes selados com o Espírito Santo que fora prometido, que é o penhor de nossa herança, enquanto esperamos a completa Redenção daqueles que Deus adquiriu para o louvor da Sua Glória." Ef 1,13b-14
    Pois o Cristo, por toda vida terrena, deve ser nossa reflexão e contemplação, além de exclusiva fonte de Sabedoria. O último Apóstolo confidencia aos colossenses: "Tudo sofro para que seus corações sejam reconfortados e que, estreitamente unidos pela caridade, sejam enriquecidos de uma plenitude de inteligência, para conhecerem o mistério de Deus, isto é, Cristo, no Qual estão escondidos todos tesouros da Sabedoria e da ciência." Cl 2,2-3
    Temos, portanto, o imenso amor de Deus para diariamente experimentar, sentir e vivenciar: "Que Cristo habite pela fé em vossos corações, arraigados e consolidados na caridade, a fim de que possais, com todos cristãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, isto é, conhecer a caridade de Cristo, que desafia todo conhecimento..." Ef 3,17-19a
    São Paulo deseja-nos muito mais que entender: "... sejais cheios de toda plenitude de Deus." Ef 3,19b
    E garante: "... pois todos que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus." Rm 8,14
    Porque obedecendo aos Mandamentos temos o precioso auxílio do Espírito Santo, como afirmou São Pedro perante o Sinédrio: "Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem." At 5,32
    Invocando a mesma citação feita por Jesus, ele exorta-nos à sincera obediência: "À maneira de obedientes filhos, já não vos amoldeis aos desejos que antes tínheis, no tempo de vossa ignorância. A exemplo da santidade d'Aquele que vos chamou, também sede vós santos em todas vossas ações, pois está escrito: 'Sede santos, porque Eu sou Santo' (Lv 11,44). Se invocais como Pai Aquele que, sem distinção de pessoas, julga cada um segundo suas obras, vivei com temor durante o tempo de vossa peregrinação." 1 Pd 1,14-17
    Por Sua unção, segundo São Paulo, passamos a outra condição: "... aquele se une ao Senhor, com Ele torna-se um só Espírito." 1 Cor 6,17
    Ora, foi isso que São Lucas atestou em Antioquia, logo após a chegada de São Barnabé, que crismou os novos fiéis: "Assim uma grande multidão uniu-se ao Senhor." At 11,24
    São João Evangelista diz da instrução que recebemos do Santo Paráclito: "Vós, porém, tendes a unção do Santo e sabeis todas as coisas. E não tendes necessidade de que alguém vos ensine, mas, como Sua unção vos ensina todas as coisas, assim é ela verdadeira e não mentira. Permanecei n'Ele, como ela vos ensinou." 1 Jo 2,20.27b
    E a Comunhão Espiritual é a razão de toda pregação dos Apóstolos: "O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com nossos olhos, o que temos contemplado e nossas mãos têm apalpado no tocante ao Verbo da Vida, porque a Vida se manifestou e nós a temos visto, damos testemunho e anunciamo-vos a Vida Eterna, que estava no Pai e que se nos manifestou. O que vimos e ouvimos nós anunciamo-vos, para que vós também tenhais comunhão conosco. Ora, nossa comunhão é com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo. Se, porém, andamos na Luz como Ele Mesmo está na Luz, temos comunhão recíproca uns com os outros, e o Sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, purifica-nos de todo pecado." 1 Jo 1,1-3.7
    Essa é a ajuda do 'germe' de Deus, que nos capacita para vencer o pecado: "Todo aquele que é nascido de Deus não peca, porque o germe divino nele reside. E não pode pecar, porque nasceu de Deus." 1 Jo 3,9
    Ele assegura: "E todo aquele que n'Ele tem esta esperança, torna-se puro como Ele é puro." 1 Jo 3,3
    Do contrário, jamais poderíamos ser representantes de Cristo para nossos irmãos. E São João Evangelista também referiu-se ao exercício dessa nova condição já nesta vida: "Nisto é perfeito em nós o amor: que tenhamos confiança no Dia do Julgamento, pois, como Ele é, assim também nós o somos neste mundo." 1 Jo 4,17
    Foi o que disse o Arcanjo Gabriel a Nossa Senhora: "Entrando, o anjo disse-lhe: 'Ave, cheia de Graça, o Senhor é contigo.'" Lc 1,28
    Era o que dizia São Paulo: "Eu vivo, mas já não sou eu. É Cristo que vive em mim." Gl 2,20a
    Foi o que Jesus prometeu através da Santa Eucaristia: "Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue, permanece em Mim e Eu nele. Assim como vive o Pai que Me enviou, e Eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer Minha Carne viverá por Mim." Jo 6,56-57
    E ensinou a Nicodemos: "O vento sopra onde quer. Ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito." Jo 3,8
    Nesse ministério empenhou São Paulo sua vida, e escreveu aos gálatas: "Filhinhos meus, por quem de novo sinto dores de parto até que Cristo seja formado em vós..." Gl 4,19
    De fato, São Pedro afirma que Deus nos dispôs tudo de que realmente precisamos para viver Sua própria santidade: "O divino poder deu-nos tudo que contribui para a Vida e a Piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude." 2 Pd 1,3
    E mesmo em nossa condição carnal, o salmista canta que Ele já nos entregou todas as coisas: "Que é o homem, digo-me então, para nele pensardes? Que é um filho de Adão, para que com ele vos ocupeis? Entretanto, Vós fizeste-lo pouco menos que um deus, de Glória e honra coroaste-lo. Destes-lhe poder sobre as obras de Vossas mãos, Vós submeteste-lhe todo universo." Sl 8,5-7
    Isso explica porque São Paulo dizia não olhar mais para o ser humano como um mero vivente, mas como um legítimo filho de Deus, creditando-lhe a Graça original: "Por isso, daqui em diante nós a ninguém conhecemos de um modo humano. Muito embora tenhamos considerado Cristo dessa maneira, agora já não O julgamos assim." 2 Cor 5,16
    É o mesmo que reclama São Tiago Menor, ao falar das armadilhas em que cai nossa língua: "Com ela bendizemos o Senhor, Nosso Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus." Tg 3,9
    Na Carta aos Filipenses, São Paulo exultava: "Nós, porém, somos cidadãos dos Céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante a Seu Corpo glorioso..." Fl 3,20-21
    Pois, segundo ele, Jesus fez-Se carne para demonstrar nossa dignidade perante Deus: "Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos. Cada qual tenha em vista não seus próprios interesses, e sim os dos outros. Dedicai-vos mutuamente a estima que se deve em Cristo Jesus. Sendo Ele de condição divina, não Se prevaleceu de Sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-Se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-Se ainda mais, tornando-Se obediente até a morte, e morte de Cruz." Fl 2,3-8
    Ora, assim Jesus foi reconhecido pela humilde gente de Israel, como na ocasião em que curou o paralítico descido pelo telhado em Cafarnaum: "Vendo isto, a multidão encheu-se de medo e glorificou a Deus por ter dado tal poder aos homens." Mt 9,8
    Sem vacilar, portanto, São Paulo convida os romanos à plena Comunhão: "Pois como pusestes vossos membros a serviço da impureza e do mal para cometer a iniquidade, assim agora ponde vossos membros a serviço da justiça para chegar à santidade." Rm 6,19
    Com efeito, como diz a Carta aos Hebreus, ela é essencial para que se alcance a Vida Eterna: "Procurai a Paz com todos e ao mesmo tempo a santidade, sem a qual ninguém pode ver o Senhor." Hb 12,14
    Por ela temos acesso ao pleno Reino de Deus: "Mas agora, libertados do pecado e feitos servos de Deus, tendes por fruto a santidade; e o termo é a Vida Eterna." Rm 6,22
    É a vida nas santas virtudes, pois, que nos permite vencer a morte. São Paulo prega a São Timóteo: "Deus salvou-nos e chamou-nos para a santidade, não em atenção às nossas obras, mas em virtude de Seu desígnio, da Graça que desde a eternidade nos destinou em Cristo Jesus, e agora manifestou-nos mediante a aparição de Nosso Salvador Jesus Cristo, que destruiu a morte e suscitou a Vida e a imortalidade pelo Evangelho..." 2 Tm 1,9-10
    E, sem dúvida, esse é o caminho contrário ao proposto pelo mundo: "Pois Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santidade." 1 Ts 4,7
    O mundo, aliás, nada conhece da Glória de Deus, como diz o livro da Sabedoria: "... eles desconhecem os segredos de Deus, não esperam que a santidade seja recompensada e não acreditam na glorificação das almas puras." Sb 2,22
    Por isso, Jesus disse do Espírito Santo àqueles que formariam Sua Igreja: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele dar-vos-á outro Paráclito, para que fique eternamente convosco. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece. Mas vós O conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós." Jo 4,16-17
    E é também por isso que o Pai Celeste nos corrige: "Nossos pais humanos, por pouco tempo, corrigiam-nos como melhor lhes parecia. Deus, porém, corrige-nos para nosso bem, a fim de que sejamos participantes da Sua própria santidade." Hb 12,10
    O salmista, citado por Jesus, dizia: "Sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo." Sl 81,6

    "Santificai-nos pelo dom de Vosso Espírito!"