sexta-feira, 24 de agosto de 2018

São Bartolomeu Apóstolo


    Foi um dos primeiros Apóstolos, precedido apenas por Santo André, São Pedro, São Filipe e, muito provavelmente, São João Evangelista. E teria sido este último quem narrou o encontro de São Bartolomeu, a quem chamava de Natanael, com Jesus, dois dias depois de Seu fulgurante Batismo por São João Batista, nas águas do Jordão:

    "No dia seguinte, tinha Jesus a intenção de dirigir-Se a Galileia. Encontra Filipe e diz-lhe:
    - Segue-Me.
    (Filipe era natural de Betsaida, cidade de André e Pedro.) Filipe encontra Natanael e diz-lhe:
    - Achamos Aquele de Quem Moisés escreveu na Lei e que os Profetas anunciaram: é Jesus de Nazaré, filho de José.
    Respondeu-lhe Natanael:
    - Pode, porventura, vir boa coisa de Nazaré?
    Filipe retrucou:
    - Vem e vê.
    Jesus vê Natanael, que Lhe vem ao encontro, e diz:
    - Eis um verdadeiro israelita, no qual não há falsidade.
    Natanael pergunta-Lhe:
    - Donde me conheces?
    Respondeu Jesus:
    - Antes que Filipe te chamasse, Eu vi-te quando estavas debaixo da figueira.
    Falou-Lhe Natanael:
    - Mestre, Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel.
    Jesus replicou-lhe:
    - Crês só porque te disse: 'Eu vi-te debaixo da figueira'? Verás coisas maiores que esta.
    E ajuntou:
    - Em verdade, em verdade, digo-vos: vereis o Céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem." Jo 1,45-51


    Natanael é o nome hebraico equivalente a Bartolomeu, que é o usado nos Evangelhos sinóticos quando se menciona a relação dos Apóstolos. Como visto acima, após uma demonstração de clarividência de Jesus, São João Evangelista apresenta-o como o primeiro a declará-Lo como o Filho de Deus, precedendo o próprio São Pedro, mas é provável, tanto quanto a própria afirmação do Filipe, que tenha sido só por espanto, sem uma perfeita consciência do que falava.
    O próprio São João Evangelista, a relatar a transformação da água em vinho nas Bodas de Caná, vai afirmar que então os Apóstolos acreditaram em Jesus: "Este foi o primeiro milagre de Jesus. Realizou-o em Caná da Galileia. Manifestou Sua Glória, e Seus discípulos creram n'Ele." Jo 2,11
    E ainda no primeiro encontro, Jesus prometeu-lhe muito mais que mera clarevidência: uma singular demonstração de que Ele é a própria manifestação de Deus na terra, invocando a imagem da escada vista em sonho por Jacó, dado no lugar onde Abraão armou sua tenda e ergueu o primeiro altar: "E teve um sonho: via uma escada, que, apoiando-se na terra, com o cimo tocava o Céu, e anjos de Deus subiam e desciam pela escada. No alto estava o Senhor, que lhe dizia: 'Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão, teu pai e o Deus de Isaac. A ti e à tua descendência darei a terra em que estás deitado. Estou contigo, para guardar-te onde quer que fores, e reconduzir-te-ei a esta terra. E não te abandonarei sem ter cumprido o que te prometi.' Jacó, despertando de seu sono, exclamou: 'Em verdade, o Senhor está neste lugar e eu não o sabia!' E cheio de pavor, ajuntou: 'Quão terrível é este lugar! É nada menos que a Casa de Deus; é aqui, a Porta do Céu.'" Gn 28,12-13.15-17
    Nessa mesma passagem, vemos que São Bartolomeu, como a maioria dos judeus à época, alimentava um declarado preconceito contra a Galileia ou qualquer de suas cidades, como Nazaré. Mesmo sendo ele mesmo galileu. Era, de fato, um lugar muito pobre, depois da Samaria, habitado também por sírios e gregos, e de maioria pagã. Era pejorativamente conhecida como 'das nações', como vemos na profecia de Isaías, anotada por São Mateus: "A terra de Zabulon e de Neftali, região vizinha ao mar, a terra além do Jordão, a Galileia das nações, este povo, que jazia nas trevas, viu resplandecer uma grande Luz, e surgiu uma aurora para os que jaziam na região sombria da morte (Is 9,1)." Mt 4,15-16
    Mas foram exatamente esses motivos pelos quais Deus enviou Seu Filho para lá. O Messias, apresentando-Se como alguém de uma gente pobre e de costumes 'corrompidos', era certamente um "... sinal de contradição...' Lc 2,34
    Ademais, aí temos outro sinal: Deus sempre esteve e vai estar junto aos mais pobres. E além de lugar escolhido por Nossa Senhora, para a Sagrada Família era ideal refúgio de uma possível perseguição dos filhos de Herodes, que seriam seus sucessores, pois ele mesmo já havia tentado matar Jesus no episódio conhecido como o martírio dos inocentes de Belém.
    O preconceito de São Bartolomeu, porém, não o impediu de chamar Jesus de Salvador, ainda que ele o tenha feito de um ímpeto.
    São João Evangelista também teve o cuidado de identificar o local de nascimento de São Bartolomeu. É na cena da pesca miraculosa, que ele narra como tendo acontecido depois da Ressurreição de Jesus: "Estavam juntos Simão Pedro, Tomé (chamado Dídimo), Natanael (que era de Caná da Galileia), os filhos de Zebedeu e outros dois dos Seus discípulos." Jo 21,2
    Tal registro reflete a distinção com que São Bartolomeu era tratado, e como São João Evangelista o conhecia e estimava. Foi feito por ocasião da solene investidura do Pontificado de São Pedro, quando Jesus lhe confiou, de cordeiros a ovelhas, todo Seu rebanho. Portanto, junto aos bem letrados filhos do sacerdote Zebedeu, sempre íntimos de Jesus, e ao intelectual São Tomé, São Bartolomeu foi privilegiada testemunha, digna da importância do fato. Assim segue a narrativa:
    "Disse-lhes Simão Pedro:
    - Vou pescar.
    Responderam-lhe eles:
    - Nós também vamos contigo.
    Partiram e entraram na barca.
    Chegada a manhã, Jesus estava na praia. Esta já era a terceira vez que Jesus Se manifestava a Seus discípulos, depois de ter ressuscitado.
    Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro:
    - Simão, filho de João, amas-Me mais que a estes?
    Respondeu ele:
    - Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo.
    Disse-lhe Jesus:
    - Apascenta Meus cordeiros. Apascenta Minhas ovelhas." Jo 20,3a.4a.14-15.17b

    Leitor e observador das Escrituras, São Bartolomeu era contemplativo e seguia São João Batista antes do início da vida pública de Nosso Senhor, como mostra o Evangelho: estava em retiro espiritual em sua área de atuação, sentado debaixo de uma figueira às margens do Jordão. E já havia conquistado a companhia e o coração de São Filipe, que também era estudioso e contemplativo, além de exigente e pragmático. Por fim, o melhor testemunho sobre nosso Santo é do próprio Jesus, que nele viu um "... verdadeiro israelita, no qual não há falsidade." Jo 1,47
    A Sagrada Tradição conta que São Bartolomeu, com a virtude da fortaleza dada pelo Espírito Santo, foi pregar o Evangelho na Índia, um lugar religiosamente caótico, de muitas seitas, idolatrias e primitivismo. Também esteve na Armênia, possivelmente na companhia de São Judas Tadeu, parente próximo de Jesus, onde conseguiu converter o rei, a família real e muitos nobres. Contudo, tendo despertado a inveja dos sacerdotes pagãos, foi cruelmente martirizado: mandaram que o amarrassem e com facas arrancassem sua pele para sangrar até a morte.


    Além do destemor, outro grande exemplo deixado por São Bartolomeu foi o sincero, simples e discreto modo com que serviu a Jesus. Estava sempre presente, mas sem se arrogar posição ou tomar a palavra. Não bastaria ver e ouvir o Mestre? Sua capacidade para perceber a Verdade e sua honestidade intelectual eram tão grandes, como afirmara o próprio Jesus, que tudo testemunhava em total recolhimento, falando apenas o estritamente necessário. Ao modo de Nossa Senhora, sempre guardando profundo silêncio, satisfazia-se plenamente com a divina presença do Mestre e com Sua Palavra. E, de tão verdadeiro, para saber o que pensava, bastava olhar-lhe nos olhos ou em sua expressão.
    Por obra da piedade dos cristãos que ele converteu, suas relíquias foram muito bem guardadas, e mais tarde levadas a Roma, onde foram sepultadas e sobre elas ergueram uma basílica. A bacia usada para até lá transportar seus restos mortais ainda é preservada.



    Seu crânio é venerado, entre outras relíquias, na Capela dal Pozzo, no Camposanto Monumentale, ao lado da Catedral da Assunção de Nossa Senhora, na cidade italiana de Pisa.


    São Bartolomeu, rogai por nós!