quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Santa Rosa de Lima


    Filha de colonizadores espanhóis no Peru, Isabel Flores y Oliva levou praticamente toda vida em contemplação. Tamanha era sua disposição, mesmo fazendo os mais humildes trabalhos, que parecia estar em permanente contato com o Reino de Deus. Era mística 'por natureza', desde tenra idade, e tinha o dom de profetizar.
    Era menina quando fez voto de virgindade, pois tinha profunda devoção a Santa Catarina de Sena. E já adolescente, enquanto rezava diante da imagem da Virgem Maria, decidiu entregar toda sua vida a Cristo.
    Ainda muita jovem, viu o pai, que era rico, perder tudo que tinha. Mas ela não demonstrava abalar-se, a não ser com o sofrimento alheio. Para ajudar a família, trabalhava intensa e resignadamente como agricultora e costureira. Era a terceira de 11 irmãos, e aproveitava o jardim de sua casa para plantar flores, que vendia no mercado. Tão bonita, e por ser exímia florista, sua mãe começou a chamar-lhe de Rosa.
    Fazia muito bem todo trabalho de casa, tocava com perfeição viola e harpa, e tinha encantadora voz. Foi pretendida por muitos ricos jovens de Lima, mas rejeitava a todos. Dizia: "O prazer e a felicidade que o mundo pode me oferecer são simplesmente uma sombra em comparação ao que sinto."
    Por esses anos, nossa Santa realizava ativos serviços de caridade, socorrendo pobres, índios e negros em suas enfermidades, e dizia à sua mãe: "Não tenha medo de que meus vestidos se manchem com as chagas dos pobres, pois mais horrivelmente mancharam o rosto de Cristo. Quando servimos aos enfermos, é a Jesus que servimos."
    Em 1606, aos 20 anos, ingressou na Ordem Terceira de São Domingos, cujo carisma é anunciar Jesus e viver em mendicância. Seguia, portanto, mais um passo do exemplo de vida de Santa Catarina de Sena. Ao vestir o hábito, adotou o nome Rosa de Santa Maria, por sua grande devoção à Mãe de Deus. E tão exemplar era sua vida que conseguiu permissão para proferir seus votos em casa, não no convento.
    Nos fundos do quintal, havia construído uma rústica cela, onde passou a viver como penitente e de modo ainda mais humilde. Comia muito pouco e quase não bebia água. Para ajudar sua família, fazia rendas e bordados, e conseguiu de seu diretor espiritual e confessor que daí não mais saísse, a não ser para receber a Eucaristia.
    Com grande fervor, bordava roupas litúrgicas. Viveu profundas experiências místicas. Sempre tinha consigo uma Cruz, com a qual pedia a Cristo que com ela partilhasse Seus sofrimentos.


    Dormia sobre duas tábuas e com frequência usava um aro com farpas, imitando uma coroa de espinhos, para sofrer com Jesus em Suas dores e humilhações. Sobre os tormentos que veio a sentir, disse: "Eu não acreditava que uma criatura pudesse ser acometida de tão grandes sofrimentos." E completou: "Só posso explicá-los com o silêncio." Contudo, da contemplação da Santa Cruz concluiu: "Senhor, Vossa Cruz é muito mais cruel que a minha!"
    Um dia, Jesus apareceu-lhe em Sua figura de Menino, e, em lugar da coroa de espinhos, ofereceu-lhe uma grinalda de rosas.
    De suas reflexões, ela deixou:
    "O amor é difícil, mas é nossa essência. É isso que nos eleva acima das demais criaturas."
    "Se não posso fazer as grandes coisas, então farei as pequenas, mas bem feitas."
    "Quando servimos os pobres e os doentes, servimos a Jesus. Não devemos deixar de ajudar nossos próximos, porque neles servimos a Jesus."
    "Não quero, Esposo Meu, mais riquezas que te adorar; nem outro desejo senão te servir! Mas como o farei sem Teu amparo?"
    "Rosário contém todo mérito da oração vocal e toda virtude da oração mental."
    "Se os homens soubessem o que é viver a Graça, não se assustariam com nenhum sofrimento e de bom grado padeceriam qualquer pena, porque a Graça é fruto da paciência."
    "Se vós soubésseis a beleza que á uma alma sem pecado, estaríeis dispostos a sofrer qualquer martírio para manter a alma na Graça de Deus!"
    "Olhe a cruz que hoje tu tens nos ombros, seja qual for. Busque nela a vontade de Deus, não para tormentar, senão para elevar-te acima de tuas debilidades e quedas. Pensa se não é esta a Graça que Deus pôs hoje em ti."
    "Oh, que daria eu por anunciar o Evangelho! Atravessaria cidades pregando a penitência, com os pés descalços, o crucifixo na mão e o corpo envolvido num espantoso cilício. Caminharia durante a noite gritando: 'Deixai vossas iniquidades! Até quando sereis como aturdidos rebanhos diante dos demônios? Fugi dos eternos castigos! Pensai que há só um instante entre a vida e o inferno!'"
    "Senhor Salvador levantou a voz e com incomparável majestade disse: 'Saibam todos que depois da tribulação se seguirá a Graça; reconheçam que sem o peso das aflições não se pode chegar ao cimo da Graça; entendam que a medida dos carismas aumenta em proporção da intensificação dos trabalhos. Acautelem-se os homens contra o erro e o engano; é esta a única verdadeira escada do paraíso, e sem a cruz não há caminho que leve ao Céu.'
    Ouvindo estas palavras, penetrou-me um forte ímpeto de colocar-me no meio da praça e bradar a todos, de qualquer idade, sexo e condição: 'Ouvi, povos! Ouvi, gentes! A mandado de Cristo, repetindo as palavras saídas de seus lábios, quero exortar-vos: Não podemos obter a Graça, se não sofrermos aflições; cumpre acumular trabalhos sobre trabalhos, para alcançar a íntima participação da divina natureza, a Glória dos filhos de Deus e a perfeita felicidade da alma.'
    O mesmo aguilhão impelia-me a publicar a beleza da Divina Graça; isto me oprimia de angústia e fazia-me transpirar e ansiar. Parecia-me não poder mais conter a alma na prisão do corpo, sem que, quebradas as cadeias, livre, só e com a maior agilidade fosse pelo mundo, dizendo: 'Quem dera que os mortais conhecessem o valor da Divina Graça, como é bela, nobre, preciosa; quantas riquezas esconde em si, quantos tesouros, quanto júbilo e delícia!' Sem dúvida, eles então empregariam todo empenho e cuidado para encontrar penas e aflições! Iriam todos pela terra a procurar, em vez de fortunas, os embaraços, moléstias e tormentos, a fim de possuir o inestimável tesouro da Graça. É esta a compra e o lucro final da paciência. Ninguém se queixaria da cruz nem dos sofrimentos que talvez lhe adviriam, se conhecessem a balança, onde são pesados para serem distribuídos aos homens."

    Acometida de grave enfermidade aos 31 anos, foi recolhida à casa de sua benfeitora, Maria de Uzátegui, que mais tarde se tornaria o Mosteiro de Santa Rosa, e aí se cumpriu a profecia que ela mesma fez de sua morte. De fato, todos os anos passava em oração o dia de São Bartolomeu, pois dizia: "Este é o dia de minhas eternas núpcias." E assim perseverou até morrer, exatamente no dia 24 de agosto, no ano de 1617.
    Foi incompreendida e até perseguida pela mais importante gente da sociedade, mas, na inabalável fé que viveu, deu testemunho até o último momento, quando disse: "Jesus está comigo!"
    A começar pelos mais pobres, seu sepultamento foi muito concorrido, uma grande comoção popular, o que terminou pondo de joelho todo Vice-Reino do Peru, como seu país era chamado. À sua intercessão, logo em seguida, foram atribuídos muitos milagres, curas e conversões.
    Foi a primeira Santa das Américas, e por isso recebeu uma bela homenagem na forma de um altar, na Catedral de São Patrício, em Nova Iorque.


  . É a Padroeira da América Latina, das Índias Ocidentais, atuais Ilhas do Caribe, e das Filipinas, bem como dos jardineiros e dos floristas.
    Seu rosto foi reconstituído por recentes técnicas forenses.


    Em 1986, o então Cardeal Ratzinger disse sobre ela: "De certa forma, essa mulher é uma personificação da Igreja da América Latina: imersa em sofrimentos, desprovida de significativos meios materiais e de um poder, mas tomada pelo íntimo ardor causado pela proximidade de Jesus Cristo."
    Suas relíquias são veneradas na Basílica de Nossa Senhora do Rosário, em Lima.


    Santa Rosa, rogai por nós!