terça-feira, 21 de agosto de 2018

São Pio X


    Humilde mas enérgico, foi destemido defensor da Doutrina da Igreja contra as heresias acobertadas sob o nome de 'modernismo'. Dócil e amável, não abdicava de sua autoridade diante dos ataques e das maquinações do inimigo, que chegava como propostas de 'renovações' até mesmo pela alta hierarquia do Clero.
    Seu papado, de 1903 a 1914, foi num turbulento período da História, pois o ateísmo e, mais uma vez, a prosperidade material, como se viu no surgimento da burguesiaeram moda em vários segmentos sociais, que deslumbradamente se julgavam inovadores. Nas universidades, a tendência era rever tudo pela ótica do naturalismo, e até a seria algo simplesmente natural. A psicologia e a sociologia prometiam respostas para tudo, mas, em flagrante contradição, nenhuma dessas bandeiras de 'um mundo melhor' evitou a Primeira e, pouco mais tarde, a Segunda Guerra Mundial. Até acirraram-nas, pois abriram espaço, cedendo "argumentos" para doentias correntes de "pensamento" como o darwinismo social e o racismo científico. A própria e aclamada filosofia, em ares não menos delirantes, debatia-se entre o relativismo moral e o niilismo.


    Essas 'novidades' chegavam também às portas dos seminários e às correntes de Teologia, entretanto encontraram o firme pulso de Giusepe Sarto, italiano, filho de humildes agricultores e zeloso padre das Tradições da Igreja. Em meio a tantas tribulações, ele, que não queria ser Papa, veio para consolidar uma gama de procedimentos e formalidades que ainda hoje sustentam o Catolicismo. Para citar um dos mais importantes, ele precisou de todo seu papado para reordenar e codificar todo Direito Canônico, que se tornara um grande emaranhado de leis.
    O Secretário de Estado do Vaticano de seu tempo, o renomado Cardeal Merry del Val, enumerou algumas de suas contribuições de suma importância: "A reforma da Cúria Romana; a fundação do Instituto Bíblico; a construção de seminários centrais e a promulgação de leis para a melhor disciplina do Clero; a nova disciplina referente à Primeira Comunhão e à frequente Comunhão; o restabelecimento da música sacra; a vigorosa resistência movida contra os fatais erros do chamado modernismo e a corajosa defesa da liberdade da Igreja na França, Alemanha, Portugal, Rússia e outros países, sem aludir a outros atos de governo..."


    Não vacilava ao pronunciar-se em defesa da Santa Igreja perante os chefes de estados, e foi sua crítica e decisiva postura contra espúrios interesses políticos que acelerou a separação entre o Estado e Igreja na França. Várias vezes contrariou a aristocracia européia, levantando a voz em defesa da dignidade humana dos trabalhadores, que eram tratados como mais uma mercadoria durante o surto de industrialização e de inchaço dos centros urbanos no continente.
    Ficou conhecido como o Papa da Eucaristia, pelo sumo valor que com toda razão lhe atribuía: "A devoção à Eucaristia é a mais nobre de todas devoções, porque tem o próprio Deus por objeto; é a mais salutar porque nos dá o próprio Autor da Graça; é a mais suave, pois suave é o Senhor. Se os anjos pudessem sentir inveja, invejar-nos-iam porque podemos comungar."
    Tornou o rito do Santíssimo Sacramento mais frequente prática, diária, e também mais acessível às camadas populares. Também abriu às crianças o caminho à Comunhão, tão logo chegassem à 'idade da razão', do discernimento.
    Fiel filho de Nossa Senhora, sempre procurava seus auxílios: "O Rosário é a mais bela e a mais rica em Graças de todas orações, é a oração que mais toca o Coração da Mãe de Deus... e se vós desejais que a Paz reine em vossos lares, recitai o Rosário da família."
    Ele dizia de sua força: "Dai-me um exército que reze o Rosário, e vencerei o mundo."
    E ia ainda mais longe: "Se houvesse um milhão de famílias orando o Rosário todos os dias, o mundo inteiro seria salvo."


    Na Carta Apostólica Notre Charge Apostolique, escrita aos bispos franceses em 1910, ele afirma: "Nosso cargo apostólico impõe-nos a obrigação de zelar pela pureza da fé, pela integridade da disciplina católica e de preservar os fiéis dos perigos do erro e do mal, principalmente quando o erro e o mal se apresentam com uma atraente linguagem que, encobrindo a ambiguidade das ideias e o equívoco das expressões com o ardor do sentimento e a sonoridade das palavras, pode inflamar os corações no amor de coisas sedutoras, mas funestas."
    E acusa religiosos católicos que acintosamente se afastam da Doutrina da Igreja: "Bem sabemos que se jactam de levantar a dignidade humana e a condição, há muito menosprezada, das classes trabalhadoras [...] seu sonho consiste em trocar as bases naturais e tradicionais, e prometer uma cidade futura edificada sobre outros princípios, que ousam declarar mais fecundos, mais benfazejos que os princípios sobre os quais repousa a atual sociedade cristã."
    Foi oportunamente contundente: "... formaram um conceito especial da dignidade humana, da liberdade, da justiça e da fraternidade, e, para justificar seus sonhos sociais, apelam ao Evangelho interpretado à sua própria maneira e, o que é mais grave, a um Cristo desfigurado e diminuído."
    E arrematou: "Não, Veneráveis Irmãos – e é preciso energicamente reconhecer nestes tempos de anarquia social e intelectual – a cidade não será construída de outra forma senão aquela pela qual Deus a construiu; a sociedade não se edificará se a Igreja não lhe lançar as bases e não dirigir os trabalhos; não, a civilização não mais está para ser inventada nem a nova cidade para ser construída nas nuvens. Ela existiu e existe; é a civilização cristã, é a cidade católica. Trata-se apenas de instaurá-la e restaurá-la, sem cessar, sobre seus naturais e divinos fundamentos contra os ataques sempre renovados da utopia malsã, da rebeldia e da impiedade: omnia instaurare in Christo."
    Pio IX, arguto observador da sociedade e crítico de insanas ideologias desde suas nascentes, cujo papado durou de 1846 a 1878, já havia denunciado: "Socialismo religioso, socialismo cristão, são termos contraditórios: ninguém pode ao mesmo tempo ser bom católico e verdadeiro socialista."
    São Pio X manteve atentamente esta vigília! Na encíclica Pascendi Dominici Gregis, de 1907, ele apôs o ostensivo subtítulo: "Carta Encíclica do Papa Pio X sobre os erros do modernismo". O modernismo católico, firmou, é uma "síntese de todas heresias" recentes, nomeadamente: evolucionismo, relativismo, criptomarxismo, cientificismo e psicologismo.


    Homem de vibrante fé e autêntica compaixão, nosso 'Pai dos órfãos e dos abandonados' não alimentava aversão ou sequer desprezo por estas correntes que atacam a Igreja. Ao contrário, pedia caridade por "... aqueles que se nos opõem e perseguem, vistos, talvez, como piores que realmente são."
    Falava da conversão dos opositores na esperança "... de que a chama da caridade Cristã, paciente e afável, dissipará as trevas de suas almas e trará a Luz e a Paz de Deus."
    Mesmo para com ferrenhos renitentes, por ele excomungados, sua atitude era de compreensão, jamais de abominação. Num caso específico, chegou a recomendar a um bispo: "Se tiver a oportunidade, trate-o com gentileza; e se ele der um passo em sua direção, dê dois na direção dele."
    E se houvesse arrependimento, a recomendação era ainda mais efusiva: "Recebei-o de braços abertos. Digo ao senhor que ele, meu filho, irá voltar."
    Veio mesmo a pagar pensão mensal a quem deles estivesse em graves dificuldades financeiras.


    Zeloso pelo rebanho, escreveu ele mesmo um catecismo simples e objetivo, de perguntas e respostas, que bem resumia o Catecismo Romano visando popularizar o conhecimento teológico básico. Segundo ele mesmo, usou de "linguagem clara e concisa". E segundo nosso saudoso Bento XVI, "... o Catecismo de São Pio X conserva sempre seu valor. O que pode mudar é a maneira de transmitir os conteúdos da fé." Como características, ele ressalta "... a simplicidade de exposição e a profundidade de conteúdos."
    Verdadeiramente Santo, tinha o dom da cura, que várias pessoas obtiveram tão somente por estar em sua presença.
    O lema de seu papado, como visto na Carta Apostólica acima citada, era: "Restaurar todas as coisas em Cristo." Levou uma vida de extrema simplicidade e trabalhou dedicadamente para o bem maior dos cristãos e da Igreja.
    São suas palavras:
    "A diária adoração ou visita ao Santíssimo Sacramento é a prática que é a fonte de todas obras devocionais."
    "A Santa Comunhão é o mais curto e seguro caminho para o Céu. Há outros: inocência, mas isso é para pequenas crianças; penitência, mas disso temos medo; enfática resistência às provações da vida, mas quando elas vêm nós choramos e pedimos para passar. O mais seguro, mais fácil e mais curto caminho é a Eucaristia."
    "Estamos verdadeiramente passando por desastrosos tempos, quando bem podemos fazer nossa a lamentação do Profeta: 'Não há verdade, e não há misericórdia, e não há conhecimento de Deus na terra (Os 4,1).' No entanto, em meio a essa maré do mal, a Misericordiosa Virgem surge diante de nossos olhos como um arco-íris, como o árbitro da Paz entre Deus e o homem."
    "Deixe a tempestade enfurecer-se e o céu escurecer - não por isso seremos consternados. Se confiarmos como deveríamos em Maria, reconheceremos nela a Mais Poderosa Virgem, 'que com o virginal pé esmagou a cabeça da Serpente.'"
    "O que te custará, ó Maria, ouvir nossa oração? Quanto te vai custar salvar-nos? Jesus não colocou em tuas mãos todos os tesouros da Sua Graça e Misericórdia? Tu senta-te, Coroada Rainha, à direita de teu filho: teu domínio atinge tão longe quanto os céus e a ti estão sujeitas a terra e todas as criaturas que nela moram. Teu domínio atinge até o abismo do inferno, e somente tu, ó Maria, salva-nos das mãos de Satanás."
    "Entre todas as devoções aprovadas pela Igreja, nenhuma foi tão favorecida por tantos milagres como a devoção do Santíssimo Rosário."
    "Nós pomos grande confiança no Santo Rosário para a cura dos males que afligem nossos tempos."
    "Somente a Igreja, sendo a Noiva de Cristo e tendo todas as coisas em comum com seu Divino Esposo, é a depositária da Verdade."
    "Sendo Deus a infinita beleza, a alma unida a Cristo atrai sobre si o admirado e terno olhar dos anjos, os quais, fossem eles capazes de qualquer paixão, ficariam com inveja de sua sorte."
    "Nada nos agradaria mais que ver nossos amados filhos formarem o hábito de ler os Evangelhos. Não apenas de tempos em tempos, mas todos os dias."
    "Eu aceito com sincera convicção a Doutrina da Fé que nos foi transmitida desde os Apóstolos através dos Padres da ortodoxia, sempre no mesmo sentido e com a mesma interpretação."
    "Longe, longe do clero seja o amor pela novidade!"

    "É um erro acreditar que Cristo não ensinou um determinado corpo de doutrina aplicável a todos os tempos e a todos os homens, mas sim que Ele inaugurou um movimento religioso conveniente ou adaptado a diferentes tempos e diferentes lugares."
    "A proposição de que os principais artigos do Credo dos Apóstolos não têm o mesmo significado para os cristãos dos primeiros tempos como para os cristãos de nosso tempo, é condenada e proscrita como errônea."
    "... o grande movimento de apostasia está sendo organizado em todos países para o estabelecimento de uma Igreja Mundial que não terá nem dogmas, nem hierarquia, nem disciplina para a mente, nem refrear as paixões, e que, sob o pretexto de humanas liberdade e dignidade, trariam de volta ao mundo (se tal Igreja pudesse prosperar) o reino da astúcia e da força legalizadas, a opressão dos fracos e de todos aqueles que trabalham e sofrem."
    "Os verdadeiros amigos do povo não são nem revolucionários, nem inovadores, mas tradicionalistas."
    "É permitido que os católicos estejam presentes ou participem de convenções, reuniões, encontros ou sociedades de não-católicos que visam associar, sob um único acordo, a todos que, de qualquer forma, reivindicam o nome de cristão? Negativo! ... É claro, portanto, porque esta Sé Apostólica nunca permitiu que seus súditos participassem das assembleias de não-católicos. Há uma maneira pela qual a unidade dos cristãos pode ser fomentada, e isto é promovendo o retorno à única e verdadeira Igreja de Cristo para aqueles que estão separados dela."
    "É impossível aprovar, em católicas publicações, um estilo inspirado por uma infundada novidade, que parece ridicularizar a piedade dos fiéis e que reside na introdução de uma nova ordem de vida cristã, sobre novas direções da Igreja, sobre novas aspirações da moderna alma, sobre uma nova vocação do clero, sobre uma nova civilização cristã."
    "Mas desde que os modernistas (como são comumente e corretamente chamados) empregam muito inteligente artifício, a saber, apresentar suas doutrinas sem ordem ou sistemático arranjo em um todo, dispersas e desarticuladas umas das outras, de modo a parecer estar em dúvida e na incerteza, embora na realidade sejam firmes e resolutas, será vantajoso, Veneráveis Irmãos, aqui reunir seus ensinamentos em um tomo e apontar a conexão entre eles, e assim passar a um exame das fontes dos erros e prescrever remédios para evitar o mal."
    "Para curar a ruptura entre ricos e pobres, é necessário distinguir entre justiça e caridade."
    "Pobre nasci, pobre vivi, pobre desejo morrer."
    "O maior obstáculo ao apostolado da Igreja é a timidez, ou antes a covardia dos fiéis."


    Morreu em 1914, aos 79 anos, extremamente contrariado com o início da Primeira Grande Guerra.


    Logo após sua morte, deu-se uma série de milagres atribuídos à sua intercessão.
    É o padroeiro dos peregrinos enfermos.
    Em 1970, em sua memória o arcebispo francês Marcel Lefebvre fundou a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, de vida apostólica, ativa defensora das tradições católicas.
    Recebeu homenagens por todo mundo, principalmente em institutos para a preservação da autêntica fé cristã.


    Foi homenageado com uma expressiva estátua na Basílica de São Pedro.


    Suas relíquias, como o solidéu, também estão aí, sob o altar da Capela da Apresentação de Nossa Senhora.


    São Pio X, rogai por nós!