sábado, 19 de março de 2016

São José


    São Mateus deixou um simples mais veemente testemunho sobre o pai adotivo de Jesus: "José, seu esposo, era justo..." Mt 1,19
    Ser chamado de justo não é exatamente algo muito frequente nas Escrituras. Ao contrário, o profeta Miqueias já havia reclamado: "Não há sequer um justo no nosso país; nenhum homem íntegro." Mq 7,2
    Também São Paulo, ao sustentar que nada nos foi dado por merecimento, mas tão somente pela Graça de Deus, buscou uma passagem dos Salmos para dizer algo parecido: "Não há nenhum justo, nem um sequer (Sl 14,3b)." Rm 3,10
    Os quatro Evangelhos, porém, não nos deixaram muita informação sobre o pai adotivo de Jesus. Evidentemente muito se tinha que falar do Salvador, foco de todas as atenções, e, admitamos, o que já era bastante complicado. Em tão grandiosos anos, todos estavam absolutamente atônitos com a Pessoa de Jesus. O próprio povo dizia: "... Deus veio visitar o Seu povo." Lc 7,16b
    Sabemos que José era natural de Belém e descendente da tribo do rei Davi: "Também José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi... " Lc 2,4
    Também não existe nenhuma sombra de dúvida sobre sua profissão ou de seu renome, certamente uma indelével lembrança de sua marcante caridade. De fato, quando o povo começou a admirar a Sabedoria e os poderes de Seu Filho, costumava se perguntar: "Não é este o Filho do carpinteiro?" Mt 13,55

A GRAVIDEZ DE MARIA

    Os relatos bíblicos que contam a história de José, começam aqui: "Ora, a origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, Sua Mãe, estava prometida em casamento a José e, antes de passarem a conviver, ela encontrou-se grávida pela ação do Espírito Santo." Mt 1,18
    Maria, contrita, não tinha como explicar sua gravidez a José, e prudentemente esperou que Deus cuidasse do possível 'embaraço' que essa gestação causaria. Ele, homem de extremada correção, ao perceber sua gravidez não quis julgá-la. A traição conjugal àquele tempo era punida com apedrejamento. "José, seu esposo, sendo justo e não querendo denunciá-la publicamente, pensou em despedi-la de modo secreto. Mas, no que lhe veio esse pensamento, apareceu-lhe em sonho um anjo do Senhor, que lhe disse: 'José, Filho de Davi, não tenhas receio de receber Maria, tua esposa; O que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho, e tu lhe porás o Nome de Jesus, pois Ele vai salvar o Seu povo dos seus pecados.'" Mt 1,19-21


    O anjo, portanto, incumbiu José da paternidade de Jesus e o importante papel de pôr-Lhe o Nome, o que ele iria cumprir com a absoluta obediência que lhe era característica. "Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor tinha mandado e acolheu sua esposa." Mt 1,24

O NASCIMENTO DO SALVADOR E A FUGA PARA O EGITO

    Homem santo que despertou o puríssimo amor de Maria, José não teve nenhuma dificuldade para manter-se em celibato, condição que provavelmente havia muitos anos já abraçava: "E, sem que tivessem mantido relações conjugais, ela deu à luz o Filho. E ele Lhe pôs o Nome de Jesus." Mt 1,25
    Humilde, mas sereno e confiante, São José não se perturbou quando não encontrou hospedagem para sua esposa grávida em Belém. "E deu à luz Seu filho primogênito, e, envolvendo-O em faixas, reclinou-O num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria." Lc 2,7
    E velou noite adentro junto com Maria no Natal de Jesus. Os pastores que foram avisados por anjos testemunharam: "Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o Menino deitado na manjedoura." Lc 2,16
    Os reis magos que foram visitar o Messias, confiaram os preciosos presentes a São José, que por tudo velava. "Depois de partida deles, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: 'Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o Menino para o matar.'" Mt 2,13
    Prudente e de santa disposição, "José levantou-se durante a noite, tomou o Menino e Sua mãe e partiu para o Egito. Ali permaneceu até a morte de Herodes para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: 'Do Egito Eu chamei Meu Filho' (Os 11,1)." Mt 2,14-15
    Apesar desse relato indicando uma imediata retirada para o Egito, é certo que, confiantes em Deus e obedientes à Lei, José e Maria tenham passado primeiro em Jerusalém para cumprir os preceitos da Purificação de Maria e da apresentação do primogênito, mesmo sob os gravíssimos riscos da perseguição perpetrada por Herodes. E ocultando por evidente precaução os caros e inesperados presentes recebidos dos santos reis, fizeram a apresentação em sua real condição, ou seja, de pobreza, como comprova o pequeno valor das aves oferecidas em sacrifício. É o que nos conta São Lucas: "Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o Menino, foi-Lhe posto o Nome de Jesus, como Lhe tinha chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno. Concluídos os dias da sua purificação segundo a Lei de Moisés, levaram-nO a Jerusalém para o apresentar ao Senhor, conforme o que está escrito na lei do Senhor: 'Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor' (Ex 13,2); e para oferecerem o sacrifício prescrito pela Lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos." Lc 2,21-24


A ESCOLHA DE NAZARÉ

    Assim como São José do Egito, um dos patriarcas judeus, São José também gozava de grandes privilégios perante Deus. Era um homem cujos sonhos eram repletos de anjos e revelações divinas. Estes são mais detalhes que demonstram sua inquestionável santidade. E embora quisesse oferecer uma cômoda infância a Jesus, talvez em Jerusalém mesmo, o que sua valorosa profissão e estável parentela facilmente lhe possibilitariam, por mais uma divina intervenção acabou retornando ao pacato povoado de Nazaré: "Com a morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egito, e disse: 'Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe e retorna à terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do Menino.' José levantou-se, tomou o Menino e Sua mãe e foi para a terra de Israel. Ao ouvir, porém, que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de seu pai Herodes, não ousou ir para lá. Avisado divinamente em sonhos, retirou-se para a província da Galileia e veio habitar na cidade de Nazaré, para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas: 'Será chamado Nazareno.'" Mt 2,19-23

SUA INTIMIDADE COM JESUS

    São José viveu grande intimidade com Jesus, que sem dúvida lhe correspondia carinhosamente em cada gesto de amor. O povo estava acostumado a vê-los sempre juntos, fato que deu ao Nazareno Sua primeira identidade: "Quando Jesus começou o Seu ministério, tinha cerca de trinta anos, e era tido por filho de José..." Lc 3,23


    A profissão que Jesus escolheu ilustra muito bem o amor que tinha por Seu pai terreno. É de Sua gente admirada que sabemos o que Ele fez durante toda adolescência, juventude e vida adulta, afastando qualquer desrazoada especulação a respeito do que teria feito antes de começar a pregar: "Não é Ele o carpinteiro?..." Mc 6,3
    E quando as pessoas de Sua terra viram brilhar as primeiras luzes do Salvador, ainda lembravam com respeito e doçura de Seu amoroso tutor. "Todos Lhe davam testemunho e se admiravam das palavras de graça, que procediam da Sua boca, e diziam: 'Não é este o filho de José?'" Lc 4,22
    Os próprios Apóstolos, logo ao conhecê-Lo, também identificaram Jesus pela boa e respeitosa consideração que o povo tinha por Seu pai terreno: "Filipe encontra Natanael e diz-lhe: 'Achamos aquele de Quem Moisés escreveu na Lei e que os profetas anunciaram: é Jesus de Nazaré, filho de José.'" Jo 1,45
    Mas, por força da plena manifestação de Sua Divindade, Jesus foi ficando cada vez mais difícil de ser identificado. Permanecia, contudo, o respeito que Lhe tinham os galileus por causa da ilibada conduta dos Seus pais: "E perguntavam: 'Porventura não é Ele Jesus, o filho de José, Cujo pai e mãe conhecemos? Como, pois, diz Ele: 'Desci do Céu'?" Jo 6,42



DIVINO PAI

    Há indícios claros nas Escrituras, aliás confirmados pela Sagrada Tradição, de que São José já tinha falecido bem antes do início da vida pública de Jesus. Nessa passagem narrada por São Marcos, de fatos acontecidos quando já estava pregando, Ele é identificado apenas por sua profissão e como Filho de Maria: "Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria?..." Mc 6,3
    Com efeito, o último registro que temos de São José é quando, aos doze anos, Jesus ficou sozinho em Jerusalém por três dias, após a festa da Páscoa. Por certo não esperavam que Seu Filho começasse tão novo a tratar dos assuntos de Seu Pai Celeste. Humilde, sabendo muito bem guardar seu lugar, São José esperou que Maria se dirigisse a Ele. Mas ela não ocultou as preocupações de Seu bom pai terreno, sempre tão cioso de suas obrigações para com Seu Filho e Salvador: "Meu Filho, que nos fizeste?! Eis que Teu pai e eu andávamos à Tua procura, cheios de aflição." Lc 2,48
    Homem escolhido por Deus, exemplo ímpar de santidade e celibato, São José foi castíssimo. E mesmo sendo apenas humano, com muita propriedade e justiça ele é chamado de Pai Divino. "Eis que sucumbe o que não tem a alma íntegra, mas o justo vive da ." Hab 2,4


    São José, rogai por nós!