quarta-feira, 19 de março de 2014

São José


    São José era justo (cf. Mt 1,19), e ser chamado de justo não é muito frequente nas Escrituras. O profeta Miqueias, por exemplo, já havia reclamado: "Não há sequer um justo no nosso país; nenhum homem íntegro." Mq 7,2
    Também São Paulo, ao sustentar que tudo nos foi dado não por merecimento, mas pela Graça de Deus, buscou uma passagem dos Salmos para dizer algo parecido: "Não há nenhum justo, não há sequer um." Rm 3,10
    Os quatro Evangelhos, porém, não nos deixaram muita informação sobre o pai adotivo de Jesus. Evidentemente se tinha muito o que falar do Salvador, foco de todas as atenções, e, admitamos, o que já era bastante complicado. Em tão grandioso tempo, todos estavam absolutamente atônitos com a Pessoa de Jesus: "... Deus veio visitar o Seu povo." Lc 7,16b
    Sabemos que José era natural de Belém e descendente da tribo do rei Davi: "Também José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi... " Lc 2,4
    Também não existe nenhuma sombra de dúvida sobre sua profissão. Quando o povo começou a admirar a sabedoria e os poderes de Seu Filho, dizia: "Não é este o Filho do carpinteiro?" Mt 13,55

A GRAVIDEZ DE MARIA

    Os relatos bíblicos que contam a história de José, começam aqui: "Ora, a origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, Sua mãe, estava prometida em casamento a José e, antes de passarem a conviver, ela encontrou-se grávida pela ação do Espírito Santo." Mt 1,18
    Maria, contrita, não tinha como explicar sua gravidez a José, e, prudentemente, esperou que Deus cuidasse do possível 'embaraço' que essa gestação causaria. Ele, homem de muita correção, percebendo sua gravidez, não quis julgá-la. A traição conjugal era punida com apedrejamento. "José, seu esposo, sendo justo e não querendo denunciá-la publicamente, pensou em despedi-la de modo secreto. Mas, no que lhe veio esse pensamento, apareceu-lhe em sonho um anjo do Senhor, que lhe disse: 'José, Filho de Davi, não tenhas receio de receber Maria, tua esposa; O que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho, e tu lhe porás o Nome de Jesus, pois Ele vai salvar o Seu povo dos seus pecados.'" Mt 1,19-21


    O anjo, portanto, incumbiu José da paternidade adotiva de Jesus e o importante papel de pôr-Lhe o nome, o que ele iria cumprir com toda obediência que lhe era característica. "Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor tinha mandado e acolheu sua esposa." Mt 1,24

O NASCIMENTO DO SALVADOR

    José, homem santo que despertou o amor puro de Maria, não teve nenhuma dificuldade para abraçar, de imediato, o celibato. "E, sem que tivessem mantido relações conjugais, ela deu à luz o Filho. E ele Lhe pôs o Nome de Jesus." Mt 1,25
    Humilde, mas sereno e confiante, São José não se perturbou quando não encontrou hospedagem para sua esposa grávida em Belém. "E deu à luz Seu filho primogênito, e, envolvendo-O em faixas, reclinou-O num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria." Lc 2,7
    E velou noite adentro junto com Maria. Os pastores que foram avisados por anjos o testemunharam. "Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o Menino deitado na manjedoura." Lc 2,16 
    Os reis magos também foram visitar o Salvador, e confiaram os caros presentes a São José, que por tudo velava. "Depois de partida deles, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: 'Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o Menino para o matar.'" Mt 2,13
    Prudente e de santa disposição, "José levantou-se durante a noite, tomou o Menino e Sua mãe e partiu para o Egito. Ali permaneceu até a morte de Herodes para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: 'Do Egito Eu chamei Meu Filho' (Os 11,1)." Mt 2,14-15
    Apesar desse relato indicando uma súbita retirada para o Egito, é certo que José e Maria, confiantes em Deus e obedientes à Lei, tenham ido primeiro à Jerusalém para cumprir os mandamentos da Purificação de Maria e da apresentação do primogênito, mesmo sob todos os riscos da perseguição de Herodes. E o fizeram em evidente condição de pobreza, como comprova o valor do sacrifício que ofereceram. É o que nos conta São Lucas: "Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o Menino, foi-Lhe posto o Nome de Jesus, como Lhe tinha chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno. Concluídos os dias da sua purificação segundo a Lei de Moisés, levaram-nO a Jerusalém para o apresentar ao Senhor, conforme o que está escrito na lei do Senhor: 'Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor' (Ex 13,2); e para oferecerem o sacrifício prescrito pela Lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos." Lc 2,21-24

File:Saint Joseph with the Infant Jesus by Guido Reni, c 1635.jpg

A FUGA PARA O EGITO E A ESCOLHA DE NAZARÉ

    Assim como São José do Egito, um dos patriarcas judeus, São José também gozava de grandes privilégios perante Deus. Era um homem cujos sonhos eram repletos de anjos e revelações divinas. Esses são mais detalhes que demonstram sua inquestionável santidade. "Com a morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egito, e disse: 'Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe e retorna à terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do Menino.' José levantou-se, tomou o Menino e Sua mãe e foi para a terra de Israel. Ao ouvir, porém, que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de seu pai Herodes, não ousou ir para lá. Avisado divinamente em sonhos, retirou-se para a província da Galileia e veio habitar na cidade de Nazaré, para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas: 'Será chamado Nazareno.'" Mt 2,19-23

SUA INTIMIDADE COM JESUS

    São José viveu grande intimidade com Jesus. O povo estava acostumado a vê-los sempre juntos, fato que deu ao Nazareno uma identidade: "Quando Jesus começou o Seu ministério, tinha cerca de trinta anos, e era tido por filho de José..." Lc 3,23



    A profissão que Jesus escolheu ilustra muito bem o amor que tinha por Seu pai terreno. É de Sua gente admirada que sabemos o que Ele fez durante toda a vida adulta, afastando qualquer especulação a respeito do que Ele teria feito antes de começar a pregar: "Não é Ele o carpinteiro?..." Mc 6,3
    E quando as pessoas de Sua terra viram brilhar as primeiras luzes do Salvador, ainda lembravam com respeito e doçura de Seu amoroso tutor. "Todos Lhe davam testemunho e se admiravam das palavras de graça, que procediam da Sua boca, e diziam: 'Não é este o filho de José?'" Lc 4,22
    Os próprios Apóstolos também identificaram Jesus pela boa e respeitosa consideração que o povo tinha por Seu pai terreno: "Filipe encontra Natanael e diz-lhe: 'Achamos aquele de quem Moisés escreveu na Lei e que os profetas anunciaram: é Jesus de Nazaré, filho de José.'" Jo 1,45
    Mas Jesus foi ficando cada vez mais difícil de ser identificado. Permanecia, contudo, o respeito que Lhe tinham os galileus por causa da boa conduta dos Seus pais: "E perguntavam: 'Porventura não é Ele Jesus, o filho de José, Cujo pai e mãe conhecemos? Como, pois, diz Ele: 'Desci do Céu'?" Jo 6,42

PAI DIVINO

    Há indícios claros nas Escrituras, aliás confirmados pela Sagrada Tradição, de que José já tinha falecido bem antes de Jesus começar Sua vida pública. Nessa passagem narrada por São Marcos, de fatos acontecidos após iniciada Sua ida pública, Jesus já é identificado apenas como Filho de Maria: "Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria?..." Mc 6,3
    Com efeito, o último registro que temos de São José é quando, aos doze anos, Jesus ficou sozinho em Jerusalém por três dias, após a festa da Páscoa. Por certo, não esperavam que Seu Filho começasse tão novo a tratar dos assuntos de Seu Pai Celeste. Humilde, sabendo guardar muito bem seu lugar, São José esperou que Maria se dirigisse a Ele. Mas ela não ocultou a aflição de Seu bom pai terreno, tão cioso de suas obrigações para com Seu Filho e Salvador: "Meu Filho, que nos fizeste?! Eis que Teu pai e eu andávamos à Tua procura, cheios de aflição." Lc 2,48
    Homem escolhido por Deus, exemplo ímpar de santidade e celibato, São José foi castíssimo. E mesmo sendo apenas humano, é com muita propriedade e justiça que ele é chamado de Pai Divino. "Eis que sucumbe o que não tem a alma íntegra, mas o justo vive da ." Hab 2,4