quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O Pecado


    O pecado mais elementar é querer definir o que é certo e errado, desprezando os Mandamentos de Deus. Esse é o verdadeiro pecado original. Foi com essa proposta que a serpente enganou Eva, instigando-a a comer do fruto proibido: "De modo algum morrereis. Pelo contrário, Deus sabe que, no dia em que comerdes da árvore, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal." Gn 3,4-5
    Sob o aspecto da justiça, portanto, nossa passagem por esse mundo é uma constante luta contra o pecado, como alertou Deus a Caim: "O Senhor disse-lhe: 'Por que estás irado? E por que está abatido teu semblante? Se praticares o bem, sem dúvida poderás reabilitar-te. Mas se procederes mal, o pecado estará à tua porta, espreitando-te; tu, porém, deverás dominá-lo.'" Gn 4,6-7
    Ciente dos pecados em que se vivia, e em perfeita sintonia com o ministério da reconciliação com Deus, que Jesus iria promover, São João Batista anunciava a Vinda do Salvador convidando previamente todo povo ao arrependimento: "Naqueles dias, apareceu João Batista, pregando no deserto da Judeia. Dizia ele: 'Fazei penitência porque está próximo o Reino dos Céus.'" Mt 3,2
    E sentindo que os tempos já se haviam cumprido, o povo obedecia, indo ao deserto e confessando-lhe suas faltas: "E saíam para ir ter com ele toda Judeia, toda Jerusalém, e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando seus pecados." Mc 1,5
    Pois é senso comum que não é possível aproximar-se de Deus sem antes reconhecermos nossos erros, buscando a purificação da alma. Por isso as primeiras palavras de Jesus ao iniciar Sua vida pública, assim como as de São João Batista, eram um convite à penitência: "Desde então, Jesus começou a pregar: 'Arrependam-se, pois o Reino dos Céus está próximo.'" Mt 4,17
    O Arcanjo São Gabriel já havia avisado a São José qual seria a Missão da Criança que Maria trazia no ventre: "Ela dará à luz um Filho, a Quem porás o Nome de Jesus, porque Ele salvará o Seu povo de seus pecados." Mt 1,21


A NATUREZA DO PECADO E A LIBERTAÇÃO 

    Grande estudioso das Escrituras, movido por divina inspiração São Paulo afirmou: "Porque o salário do pecado é a morte..." Rm 6,23
    E explicou: "... como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todo gênero humano..." Rm 5,12
    De fato, foram nesse sentido as palavras que Jesus atribuiu ao pai na parábola do filho pródigo, quando se explicou ao irmão mais velho: "Convinha, porém, fazermos festa, pois este teu irmão estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado." Lc 15,32
    São João Evangelista diz os pecados apoderam-se do ser humano por três propensões à fraqueza: a exacerbação dos impulsos da carne, que se faz patente na luxúria; a cobiça por bens materiais, bem representada pela avareza e pela inveja; e a vaidade, invariavelmente instilada pela soberba: "Porque tudo que há no mundo - a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida - não procede do Pai, mas do mundo." 1 Jo 2,16
    Contudo, há pecados veniais, isto é, não tão graves, e pecados mortais, muito graves, que podem levar ao inferno se não devidamente confessados e penitenciados: "Se alguém vê seu irmão cometer um pecado que não o conduza à morte, reze, e Deus lhe dará a Vida; isto para aqueles que não pecam para a morte. Há pecado que é para morte; não digo que se reze por este (crendo que poderá salvá-lo). Toda iniquidade é pecado, mas há pecado que não leva à morte." 1 Jo 5,16-17
    Jesus foi claro ao falar da escravidão do pecado, pois em muitos casos essa situação se arrasta por anos e, na pior delas, o 'verme' causador não morrerá nem mesmo no inferno: "Se teu olho te leva a pecar, arranca-o! É melhor entrar no Reino de Deus com um só olho, que, tendo os dois, ser jogado no inferno, onde o verme deles não morre, e o fogo não se apaga." Mc 9,47-48
    Para o impenitente, então, a situação é ainda mais difícil. Diz o Eclesiástico: "Para o mal do orgulhoso não existe remédio, pois uma planta de pecado está enraizada nele, e ele não compreende." Eclo 3,30
    E, definitivamente, só através de Jesus temos alguma chance, como Ele declarou aos judeus no Templo de Jerusalém: "... se não crerdes que EU SOU, morrereis em vosso pecado." Jo 8,24
    Mas para n'Ele crer é necessário enxergar a loucura do mundo, cuja ilusão Ele denuncia: "Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros, e não buscais a Glória que é só de Deus?" Jo 5,44
    Essa insensatez tinha sido denunciada ainda no livro da Sabedoria, e seus correspondentes castigos começam neste mundo: "Mas os ímpios terão o castigo que merecem seus pensamentos, uma vez que desprezaram o justo e separaram-se do Senhor: e desgraçado é aquele que rejeita a Sabedoria e a disciplina! A esperança deles é vã, seus sofrimentos sem proveito, e as obras deles inúteis. Suas mulheres são insensatas e seus filhos malvados; a raça deles é maldita." Sb 3,10-12
    Deus já Se lamentava através do Profeta Isaías: "E farei vir sobre eles os males que temem, porque chamei sem que ninguém Me respondesse, falei sem que Me escutassem, porque fizeram aquilo que Eu considero um mal, e escolheram o que Me desagrada." Is 66,4
    E Tobit, pai de Tobias, não faz outra coisa senão reconhecer seus pecados e os de Israel, apesar de todos privilégios que Deus lhes proporcionou, pedindo apenas por sua alma: "Vós sois justo, Senhor! Vossos Juízos são cheios de equidade, e Vossa conduta é toda Misericórdia, Verdade e Justiça. Lembrai-vos, pois, de mim, Senhor! Não me castigueis por meus pecados e não guardeis a memória de minhas ofensas, nem das de meus antepassados. Se fomos entregues à pilhagem, ao cativeiro e à morte, e se nos temos tornado objeto de mofa e de riso para os pagãos entre os quais nos dispersastes, é porque não obedecemos às Vossas leis. Agora Vossos castigos são grandes, porque não procedemos segundo Vossos preceitos e não temos sido leais para Convosco. Tratai-me, pois, ó Senhor, como Vos aprouver; mas recebei minha alma em Paz, porque me é melhor morrer que viver." Tb 3,3-6
    Mesmo mencionando os mais graves pecados, entretanto, Deus dava sempre uma oportunidade para o arrependimento, como disse através do Profeta Malaquias: "Virei ter convosco para julgar vossas questões e serei pronta testemunha contra os mágicos, os adúlteros, os perjuros, contra os que retêm o salário do operário, que oprimem a viúva e o órfão, que maltratam o estrangeiro e não Me temem - diz o Senhor. Porque Eu sou o Senhor e não mudo; e vós, ó filhos de Jacó, não sois ainda um povo extinto. Desde os dias de vossos pais apartastes-vos de Meus Mandamentos e não os guardastes. Voltai a Mim, e Eu Me voltarei para vós - diz o Senhor dos Exércitos." Ml 3,5-7a
    Vigilante, e ciente das ações do inimigo, São Paulo recomendava: "Não quero que sejamos vencidos por Satanás, pois não ignoramos suas maquinações." 2 Cor 2,11
    E alertava de coisas aparentemente ingênuas: "Não vos deixeis enganar: más companhias corrompem bons costumes." 1 Cor 15,33
    Pois reconhece que, mesmo entregue à vida espiritual, seguia sentindo o peso da carne: "Sabemos, de fato, que a Lei é espiritual... Sinto em meus membros, porém, outra lei, que luta contra a lei de meu espírito e prende-me à lei do pecado, que está em meus membros." Rm 7,17.23
    Ele registrou nestes termos sua resignada resistência: "Ademais, para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para esbofetear-me e livrar-me do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim. Mas Ele disse-me: 'Basta-te Minha Graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente Minha força.' Portanto, prefiro gloriar-me de minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo." 2 Cor 12,7-9
    O salmista, aliás, havia muito já rezava: "Eu reconheço toda minha iniquidade, diante de mim está sempre meu pecado." Sl 50,5
    E por isso pedia: "Tende piedade de mim, Senhor, segundo Vossa bondade. E conforme a imensidade de Vossa Misericórdia, apagai minha iniquidade. Lavai-me totalmente de minha falta, e purificai-me de meu pecado." Sl 50,3-4
    Ora, essa é a postura de um autêntico cristão, pois sequer somos plenamente cientes de todos nossos pecados: "Ainda que Vosso servo neles atente, guardando Teus juízos com todo cuidado, quem pode, entretanto, ver as próprias faltas? Purificai-me das que me são ocultas." Sl 18,12-13
    E é evidente que a vida no pecado é por demais pesada: "Oprime-nos o peso de nossas faltas, mas Vós no-las perdoais." Sl 64,4b
    Precisamos da força do Espírito Santo agindo em nós, para vencermos as más inclinações. O Apóstolo do Gentios celebra a imensa dádiva do Pentecostes: "A Lei do Espírito de Vida libertou-me, em Jesus Cristo, da lei do pecado e da morte." Rm 8,2
    Com efeito, desde o anúncio do Evangelho a santidade é-nos amplamente franqueada, pois pelo Espírito de Deus o dom da prudência foi concedido à IgrejaSão João Evangelista afirma: "Sabemos que aquele que nasceu de Deus não peca; o que é gerado de Deus se acautela, e o Maligno não o toca." 1 Jo 5,18
    Em sua saudação, São Judas Tadeu garante: "Àquele que é poderoso para preservar-nos de toda queda e apresentar-nos diante de Sua Glória, imaculados e cheios de alegria..." Jd 24
    São Paulo diz o mesmo, e explica: "O pecado já não vos dominará, porque agora não estais mais sob a Lei, e sim sob a Graça." Rm 6,14
    Ao especificar a Missão de Jesus, São João acusa os insensatos: "Aquele que peca é do demônio, porque o demônio peca desde o princípio. Eis porque o Filho de Deus Se manifestou: para destruir as obras do demônio." 1 Jo 1,38
    E afirma: "O mundo passa com suas concupiscências, mas quem cumpre a vontade de Deus permanece eternamente." 1 Jo 2,17
    Jesus mesmo prometeu: "Aquele, pois, que ouve Minhas palavras e põe-nas em prática é semelhante a um homem prudente, que edificou sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela, porém, não caiu, porque estava edificada na rocha." Mt 7,244-25
    Ora, a Salvação só se tornou possível com a Vinda do Cristo, que nos oferece o perdão e o Espírito Santo, assinalando a divisão entre a vida espiritual e a carnal. São Paulo argumenta: "O que era impossível à Lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus o fez. Enviando, por causa do pecado, Seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne, a fim de que a justiça prescrita pela Lei fosse realizada em nós que vivemos não segundo a carne, mas segundo o espírito. Ora, a aspiração da carne é a morte, enquanto a aspiração do espírito é a Vida e a Paz. Porque o desejo da carne é hostil a Deus, pois a carne não se submete à Lei de Deus, e nem o pode. Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus. Vós, porém, não viveis segundo a carne, mas segundo o espírito, se realmente o Espírito de Deus habita em vós. Se alguém não possui o Espírito de Cristo, este não é d'Ele." Rm 8,3-4.6-9
    Isso explica as palavras de Jesus a Nicodemos, quando argumentou sobre a importância dos Sacramentos do Batismo e da Crisma: "Respondeu Jesus: 'Em verdade, em verdade, digo-te: quem não renascer da Água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus.'" Jo 3,5
    Ou quando falou sobre a Missão do Santo Paráclito neste mundo: "Ele o convencerá a respeito do Juízo, que consiste em que o príncipe deste mundo já está julgado e condenado." Jo 16,9-11
    Porque desde então o tribunal é perene, como advertia São João Batista: "O machado já está posto à raiz das árvores. E toda árvore que não der fruto bom será cortada e lançada ao fogo." Lc 3,9
    Nosso corpo, portanto, como nos oferecemos na Santa Missa, deve estar morto para o pecado. São Paulo ensina: "Ora, se Cristo está em vós, o corpo, em verdade, está morto pelo pecado, mas o espírito vive pela justificação." Rm 8,10
    Ele pede total ruptura com as coisas mundanas: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação de vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada e o que é perfeito." Rm 12,2
    E aconselha a consagração como a única forma de servir ao bem: "Não reine, pois, o pecado em vosso corpo mortal, de modo que obedeçais a seus apetites. Nem ofereçais vossos membros ao pecado, como instrumentos do mal. Oferecei-vos a Deus, como vivos, salvos da morte, para que vossos membros sejam instrumentos do bem a Seu serviço." Rm 6,12-13
    Para tanto São Pedro evoca a plena obediência aos Mandamentos: "À maneira de filhos obedientes, já não vos amoldeis aos desejos que antes tínheis, no tempo de vossa ignorância." 1 Pd 1,14
    E afirma que não há como vencer a concupiscência sem se penitenciar: "Assim, pois, como Cristo padeceu na carne, armai-vos também vós deste mesmo pensamento: quem padeceu na carne rompeu com o pecado, a fim de que, no tempo que lhe resta no corpo, já não viva segundo mundanas paixões, mas segundo a vontade de Deus. Baste-vos que no tempo passado tenhais vivido segundo os caprichos dos pagãos, em luxúrias, concupiscências, embriaguez, orgias, bebedeiras e criminosas idolatrias." 1 Pd 4,1-3
    Certos de nossas fraquezas, portanto, nosso dever é resistir, porque, também segundo São Tiago Menor, delas surgem os pecados: "Feliz o homem que suporta a tentação. Porque, depois de sofrer a provação, receberá a coroa da vida que Deus prometeu aos que O amam. Cada um é tentado por sua própria concupiscência, que o atrai e alicia. A concupiscência, depois de conceber, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte." Tg 1,12.14-15
    Ele esclarece: "Ninguém, quando for tentado, diga: 'É Deus Quem me tenta.' Deus é inacessível ao mal e não tenta a ninguém." Tg 1,13
    E devemos resistir contra todas adversidades, como exortavam os seguidores de São Paulo: "Ainda não tendes resistido até o sangue, na luta contra o pecado." Hb 12,4


A IGREJA RECEBEU DE JESUS O DOM DE PERDOAR

    Jesus, infinitamente misericordioso para com as almas em aflição, deixou claro que o perdão dos pecados é muito mais importante que a cura de uma deficiência física: "Eis que Lhe apresentaram um paralítico estendido numa padiola. Jesus, vendo a daquela gente, disse ao paralítico: 'Meu filho, coragem! Teus pecados te são perdoados.'" Mt 9,2
    Com razão, o ser humano cresce expondo-se aos achaques da carne e, sem Deus, deles pode se tornar completamente refém, como ensinou Jesus: "Em verdade, em verdade, digo-vos: todo homem que se entrega ao pecado é seu escravo." Jo 8,34
    E ainda segundo Ele, a dominação, quando se dá, é realmente completa: "Ninguém pode entrar na casa de um homem forte para roubar seus bens, sem antes o amarrar. Só depois poderá saquear sua casa." Mc 3,27
    Sua Paixão, portanto, tem como objetivo afastar-nos ou livrar-nos da escravidão do pecado, assim como de todos os males que afligem a alma e eventualmente o corpo. Foi o que disse no 'discurso inaugural' de Sua vida pública, lendo o livro do Profeta Isaías: "O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu. E enviou-Me para anunciar a Boa Nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os oprimidos, para publicar o ano da Graça do Senhor." Lc 4,18-19
    Ele promete a verdadeira liberdade dos filhos de Deus: "Se, portanto, o Filho libertar-vos, sereis verdadeiramente livres." Jo 8,36
    O Arcanjo São Rafael deu um exemplo de dominação a Tobias: o adultério: "Ouve-me, e eu te mostrarei sobre quem o demônio tem poder: são os que se casam, banindo Deus de seu coração e de seu pensamento, e entregam-se à sua paixão como o cavalo e o burro, que não têm entendimento. Sobre estes o demônio tem poder." Tb 6,16-17
    Mencionando o sofrimento e a necessária resistência espiritual, São Paulo foca na definitiva libertação: "Pois a criação foi sujeita à vaidade (não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou), todavia com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia. Não só ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos em nós mesmos, aguardando a adoção, a redenção de nosso corpo." Rm 8,20-23
    E diz: "... pois todos que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus." Rm 8,14
    Em sua arrebatada mística, São João Evangelista também não tem nenhuma dúvida de nossa divina filiação, bem como a estranheza que causamos: "Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato. Por isso, o mundo não nos conhece, porque não O conheceu." 1 Jo 3,1
    Ele assim explica a separação entre a Igreja e o mundo: "Eles são do mundo. É por isto que falam segundo o mundo, e o mundo ouve-os. Nós, porém, somos de Deus. Quem conhece a Deus, ouve-nos; quem não é de Deus, não nos ouve. É nisto que conhecemos o Espírito da Verdade e o espírito do erro." 1 Jo 4,5-6
    Ora, desde a primeira vez em que enviou os doze Apóstolos, Jesus deixou evidente que a missão da Igreja era a remissão dos pecados: "Eles partiram e pregaram o arrependimento." Mc 6,12
    Nesse sentido, ao Colégio dos Doze Ele delegou autoridade e responsabilidade pela Salvação das almas, investindo-lhes do Espírito Santo e do poder de perdoar: "Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.'" Jo 20,22-23
    E também deixou claro a obrigação de todo cristão de oferecer o perdão mediante o arrependimento: "Se pecar sete vezes no dia contra ti e sete vezes no dia vier procurar-te, dizendo: 'Estou arrependido', perdoar-lhe-ás." Lc 17,4
    Cioso do ministério de intercessão e reconciliação com o Pai, em Seus últimos momentos Ele deu mais um tocante exemplo. Do alto da Cruz, Jesus pediu a Deus por aqueles que O assassinavam: "Pai, perdoa-lhes. Porque não sabem o que fazem." Lc 23,34
    Aos fiéis uma vez arrependidos, no entanto, Ele pediu que não tornassem a pecar, como disse à mulher adúltera que esteve para ser apedrejada: "Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar." Jo 8,11
    Disse-o também ao paralítico que Ele curou próximo ao tanque de Betesda: "Mais tarde, Jesus achou-o no Templo e disse-lhe: 'Eis que ficaste são. Já não peques, para não te acontecer coisa pior.'" Jo 5,14
    E contou uma parábola para explicar a gravidade do estado dos que reincidem no pecado após o perdão: "Quando o espírito impuro sai de um homem, ei-lo errante por lugares áridos à procura de um repouso que não acha. Diz ele, então: 'Voltarei para a casa donde saí.' E, voltando, encontra-a vazia, limpa e enfeitada. Vai, então, buscar outros sete espíritos piores que ele, e entram nessa casa e estabelecem-se aí; e o último estado daquele homem torna-se pior que o primeiro." Mt 12,43-45a
    Tão grave é a reincidência, que os seguidores de São Paulo não viam mais solução: "Depois de termos recebido e conhecido a Verdade, se a abandonarmos voluntariamente, já não haverá sacrifício para expiar este pecado. Só teremos que esperar um tremendo juízo e o ardente fogo que há de devorar os rebeldes. Quanto pior castigo julgais que merece quem calcar aos pés o Filho de Deus, profanar o Sangue da Aliança, em que foi santificado, e ultrajar o Espírito Santo, Autor da Graça!" Hb 10,26,27.29
    São Pedro também tratou da questão: "Com efeito, se aqueles que renunciaram às corrupções do mundo pelo conhecimento de Jesus Cristo Nosso Senhor e Salvador, nelas deixam-se de novo enredar e vencer, seu último estado torna-se pior do que o primeiro. Melhor seria não terem conhecido o Caminho da justiça, que, depois de tê-lo conhecido, tornarem atrás, abandonando a Lei Santa que lhes foi ensinada. Aconteceu-lhes o que diz com razão o Provérbio: 'O cão voltou ao seu vômito' (Pr 26,11); e: 'A porca lavada volta a revolver-se no lamaçal.'" 2 Pd 20-22
    Por isso, São Paulo alertava: "Na qualidade de colaboradores de Deus, exortamo-vos a que não recebais Sua Graça em vão." 2 Cor 6,1
    Mas também acusava: "Porque, conhecendo a Deus, não O glorificaram como Deus, nem Lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o insensato coração. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos. Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Deus entregou-os a depravados sentimentos, e daí seu indigno procedimento. São repletos de toda espécie de malícia, perversidade, cobiça, maldade. Cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade. São difamadores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, soberbos, altivos, inventores de maldades, rebeldes contra os pais." Rm 1,21-22.28-30

DEUS DE PERDÃO

    Como não podia deixar de ser, Jesus instou-nos a pedir sempre mais uma vez também ao ensinar o Pai Nosso: "... perdoai-nos nossas ofensas..." Lc 11,4
    Aliás, pedia igualmente que sempre oferecêssemos o perdão antes das mais simples orações: "E quando vos puserdes de pé para orar, perdoai, se tiverdes algum ressentimento contra alguém, para que também Vosso Pai, que está nos Céus, perdoe vossos pecados. Mas se não perdoardes, tampouco Vosso Pai que está nos Céus perdoará vossos pecados." Mc 11,25-26
    E na Santa Ceia, quando instituiu o Santíssimo Sacramento, para que restasse evidente a razão de Seu Sacrifício, Ele declarou: "... porque isto é Meu Sangue, o Sangue da Nova Aliança, derramado em favor de muitas pessoas para a remissão dos pecados." Mt 26,28
    Por fim, após Sua Ressurreição, apareceu aos Apóstolos e explicou-lhes nestas palavras o sentido de Sua Encarnação, bem como a missão da Igreja: "Abriu-lhes então o espírito, para que compreendessem as Escrituras, dizendo: 'Assim é que está escrito, e assim era necessário que o Cristo padecesse, mas que ressurgisse dos mortos ao terceiro dia. E que em Seu Nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados a todas nações, começando por Jerusalém.'" Lc 24,45-47
    E assim sempre obedeceram os fiéis, confessando-se aos Apóstolos, como faziam perante São Paulo na cidade de Éfeso: "Muitos dos que haviam acreditado vinham confessar e declarar suas obras." At 19,18
    Em nome do Sacramento da Confissão, isto é, para obter o perdão dos pecado, São Tiago Menor aconselha a prática desse gesto de humildade até mesmo entre os fiéis, como forma de penitência e verdadeiro compromisso com a absolvição. Ou seja, nada de 'confessar só a Deus': "Confessai vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros para serdes curados. A oração do justo tem grande eficácia." Tg 5,16
    Ele admitia a difícil luta dos próprios líderes da Igreja, e advertia: "Meus irmãos, não haja muitos entre vós a arvorar-se em mestres. Sabeis que seremos mais severamente julgados, porque todos nós caímos em muitos pontos." Tg 3,1-2
    Mas era absolutamente restritivo quanto a quem se deve recorrer, quando menciona o Sacramento da Unção do Enfermos: "Está alguém enfermo? Chame os Sacerdotes da Igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo em Nome do Senhor." Tg 5,14
    Com o mesmo propósito, São João Evangelista garante: "Se confessarmos nossos pecados, Deus aí está fiel e justo para perdoar-nos e para purificar-nos de toda iniquidade." 1 Jo 1,9
    E avisa: "Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a Verdade não está em nós. Se pensamos não ter pecado, nós declaramos Deus mentiroso e Sua Palavra não está em nós." 1 Jo 1,8.10
    Realmente carentes dos auxílios de Deus, Jesus afirmou qual seria a principal função do Espírito Santo entre nós: "E, quando Ele vier, convencerá o mundo a respeito do pecado..." Jo 16,8
    Definiu, então, qual é o maior pecado: "... consiste em não crer em Mim." Jo 16,9
    E explicou assim o que representou Sua passagem entre nós: "Se Eu não viesse e não lhes tivesse falado, não teriam pecado; mas agora não há desculpa para seu pecado. Se Eu não tivesse feito entre eles obras, como nenhum outro fez, não teriam pecado..." Jo 15,22.24
    
    "Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós!"