quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

São Silvestre


    São muitas as razões pelas quais a Igreja Católica Apostólica Romana celebra a santidade do Papa São Silvestre I desde o ano de 336, apenas um ano após sua morte. Era a esse cristão que Constantino I ouvia, e a ele devemos o fato de este imperador ter publicado no ano de 314, poucos dias antes de São Silvestre ser eleito papa, o Édito de Milão, concedendo ao Catolicismo liberdade de culto em terras do Império Romano.
    Não se pode esquecer, porém, que para esse feito também contribuíram a influência de Santa Helena, mãe do imperador e de família fortemente cristã, e o sonho que ele próprio teve, na noite anterior a uma decisiva batalha em 312, quando viu uma Cruz na qual estava escrito: "Sob este símbolo vencerás." De fato, na manhã seguinte ele mandou que pintassem a Santa Cruz nos escudos de seus soldados, e assim obteve uma grande vitória na Batalha de Ponte Milvio, uma das mais importantes sobre o Rio Tibre, localizada em Saxa Rubra, arredores de Roma.


    Filho de Rufino e Justa, nascido em Roma no ano de 280, Silvester foi ordenado bispo após a morte do Papa São Melquíades. É ele o paciente conversor de Constantino, de forte personalidade, que só em seus últimos dias pediu o Batismo, quando já estava com a sede do Império Romano em Bizâncio, que chamou de Constantinopla. Não obstante, levou tão correta vida aos olhos de Deus, graças aos frequentes conselhos de sua mãe e de nosso Santo Papa, que também chegou a ser tratado como Santo.
    Foi igualmente por velada sugestão de São Silvestre que Constantino I convocou o Primeiro Concílio de Niceia em 325, o primeiro ecumênico da História, onde foi debatida e afastada, entre outras, a heresia do arianismo, de sede em Alexandria, Egito, e depois expandida ao Oriente. É deste Concílio que temos o Símbolo, ou Credo Niceno-Constantinopolitano. Nosso Santo não pôde estar presente por condições da idade, mas tomou parte nas tratativas por meio de Legados Papais, os presbíteros Vito e Vicente, pessoalmente por ele instruídos.
    Sábio, nosso Santo tudo fazia com humilde discrição para não dar ocasião à discórdia. Soube ser o Papa dos primeiros anos da Igreja Católica livre, após, como romano, por algumas décadas ter sido testemunha ocular de brutais perseguições e martírios. Ora, o próprio Pilatos, por força da religião pagã que praticava, já usava de extrema violência para com os judeus. O Evangelho Segundo São Lucas registrou: "Neste mesmo tempo, contavam alguns o que tinha acontecido a certos galileus, cujo sangue Pilatos misturara a seus sacrifícios." Lc 13,1
    Com efeito, Silvester havia convocado o Primeiro Sínodo de Arles, em 314, no qual se examinou e foi banida a heresia criada por Donato, chamada donatismo, muito atuante no norte de África, que não admitia que a Santa Igreja perdoasse pecados cometidos após o Batismo no caso de adultos. Mas esse Sínodo terminou provocando uma das primeiras divisões da Igreja, levando São Silvestre a provocar Constantino para que convocasse o referido Concílio de Niceia, que seguiu debelando outras heresias.
    É de seu tempo, e com uma grande ajuda do imperador, a construção da primeira Basílica de São Pedro, no mesmo lugar da atual, sobre o monte Vaticano, onde o Príncipe dos Apóstolos foi crucificado e sepultado, pois era lugar de um antigo cemitério pagão. Nessa ocasião, nosso Santo Papa tratou de dar aos restos do Príncipe dos Apóstolos uma sarcófago de bronze.
    Ainda de seu tempo é a construção da Basílica de São João de Latrão, a Catedral do Papa, e a Basílica de São Paulo (Extra-Muros). que também contaram com prestimosos auxílios de Constantino I. E Santa Helena teve seu pleno apoio para construir em Roma a Basílica da Santa Cruz, como abrigo da terça parte das relíquias do Santo Madeiro encontradas em Jerusalém, a Basílica do Santo Sepulcro na Cidade Santa, bem como a Basílica dos Santos Apóstolos em Constantinopla. Enfim, várias igrejas sobre túmulos de mártires na Via Salária, próximas às Catacumbas de Santa Priscila, também são obras suas.


    Entre outras coisas de grande valor, como a estátua de Roma Eterna, o imperador ainda doou o Palácio Lateranense para servir de moradia ao clero. Com todos esses monumentos, os cristãos saíram de pequenas e escondidas 'capelas' espalhadas por toda Roma, assim como das catacumbas, para abertamente viver a em edificações dignas de louvor a Deus.
    Apesar de a mãe do imperador ser católica, era São Silvestre quem pregava e dava teológicos embasamentos que cada vez mais convenciam Constantino I da Verdade da manifestação de Cristo, através da inspiração e do poder de oratória que o Espírito Santo lhe concedia, além de seu testemunho de vida, de evidente e tocante simplicidade.


    Teve um longo papado, de 21 anos, entrando para a História da Igreja como um homem de profunda espiritualidade e hábil conciliador, apesar de todos heréticos movimentos que surgiram durante os anos em que esteve na Cátedra de São Pedro. Expressivamente contribuiu para o desenvolvimento da Liturgia, inclusive criando a escola romana de Canto Litúrgico, e é de seu papado o primeiro martirológio romano. Tão exemplarmente Santo, é o primeiro Papa venerado sem ter sofrido martírio. Foi o Padroeiro da Ordem de Cavalaria Milícia Dourada, criada por Constantino, até 1841, quando dela foi separada a Ordem do Papa São Silvestre. Também é venerado como Santo pelas igrejas 'ortodoxa', luterana e anglicana.
    Foi sepultado numa basílica que passou a levar seu nome, construção iniciada por ele mesmo a partir da casa de uma família cristã, cujos subterrâneos foram escavados para abrigar um oratório devotado aos primeiros mártires da Igreja e usado por muitos cristãos que, às escondidas, aí se encontravam para reviver e atualizar a Paixão de Cristo, celebrando o Santíssimo Sacramento no rito da Santa Missa. O primeiro altar dedicado a nosso Santo ainda pode ser visto.


    A atual construção é do Império Carolíngio, ou seja, do século IX, mas suas colunas são originais, do século V, quando foi concluída. Nela também foram depositados os restos mortais do venerado Papa São Martinho I, e no século XVI foi concluída pelo padre São Carlos, que ativamente trabalhou em suas feitorias, melhoramentos e adornos.


    São Silvestre, rogai por nós!