quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Santo Amaro


    Filho de Eutíquio, senador romano, e de uma fidalga, Júlia, Santo Mauro, seu verdadeiro nome, nasceu em Roma no ano de 512, e num sonho aos 12 anos ouviu uma voz pedindo que entregasse sua vida a Cristo.
    Seu pai era muito amigo de São Bento, fundador da ordem beneditina e em todo mundo venerado como o pai dos monges do Ocidente. Maurus não poderia ter sido confiado a alguém mais próximo de Deus. Ainda mais precoce, com apenas 7 anos, São Plácido, seu primo, acompanhou-o. Foram levados ao hoje mundialmente famoso Mosteiro Subiaco, a uns 70 quilômetros a leste de Roma, onde, numa pequena gruta, São Bento havia começado a viver seu ermitério.


    Não foi um casual encontro: apesar da idade, Santo Amaro, como se tornou popularmente conhecido, viria a ser o braço-direito de São Bento. Ainda em Subiaco, nosso Santo começou a alcançar grandes milagres por suas orações. E quando São Bento partiu para fundar a sudeste de Roma o Mosteiro de Monte Cassino, que viria a ser a casa símbolo dos beneditinos, Santo Amaro foi indicado por ele como o primeiro abade, ou seja, pai, supervisor, do Mosteiro Subiaco. Pouco mais tarde, iria chamá-lo para se juntar a ele na nova casa.


    As qualidades que São Bento admirava nele são realmente essenciais a qualquer cristão: a obediência e a humildade.


    No ano de 535, quando surgiu a oportunidade para fundar a primeira casa em Gália, área hoje em maior parte terras de França, o indicado por São Bento mais uma vez foi Santo Amaro. Foi um pedido do Bispo de Le Mans, que queria um mosteiro com a Regra de São Bento em sua região, e para isso lhe mandou enviados em Monte Cassino. Essa viria a ser a Abadia de Glanfeuil, na comuna de Le Thoureil, centro-oeste de França.


    No longo caminho em viagem, Santo Amaro iria curar muitos enfermos e realizar vários milagres para o bem de necessitados.
    Nessa missão estava acompanhado de quatro monges, entre eles Fausto, que escreveria sua história no célere livro 'Vida de Amaro, Abade'. No século VI, também seria citado por São Gregório Magno, em seus 'Diálogos'. Ele conta o famoso milagre pelo qual nosso Santo salvou São Plácido, que se afogava, arrastado pela correnteza em sua tarefa de coletar água. Do lugar onde rezava, São Bento viu e mandou Santo Amaro para o salvar, e em sua pressa ele terminou correndo também sobre as águas. Porém, atribuiu esse prodígio às orações do próprio São Bento, enquanto acompanhava o resgate.


    Tão bem sucedido foi sua missão em Gália, que a abadia de Saint-Pierre-des-Fossés, fundada no século VII, acabou renomeada para o homenagear. Ela fica numa comuna que cresceu a sua volta e também leva seu nome, Saint-Maur-des-Fossés, a poucos quilômetros a sudeste de Paris. Isso deu-se por força das invasões vikings na região de Glanfueil no século IX , quando suas relíquias aí foram guardadas e viriam a fazer milagres no século XII, atraindo multidões de toda Europa em peregrinação para pedir por sua intercessão contra gota, que ficou conhecida como 'doença de Santo Amaro'. Assim o culto a seu nome espalhou-se pelo continente. Em ruínas desde o século XVII, mas mostrando-se muito sólido, este mosteiro resistiu à secularização de Europa, à estupida Revolução Francesa e aos tempos.


    No século XVIII, o já muito tradicional e importante culto a Santo Amaro foi transferido para a Abadia de Saint-Germain-des-Prés, em Paris, que é beneditina, fundada no século VI. E aí suas relíquias foram dispersas pelas ensandecidas multidões durante a Revolução Francesa.


    Segundo Fausto, Santo Amaro foi acometido pela peste, que através dos anos já havia levado à morte muitas pessoas em Gália, entre elas quase cem religiosos, muitos deles cativados pelo carisma de nosso Santo. Depois de renunciar ao abadiato em 581 para viver em oração e reclusão, bem ao modo do próprio São Bento, ele faleceu em 15 de janeiro de 584, heroicamente resistindo por vários meses de sofrimentos. Foi intitulado 'Apóstolo' dos Beneditinos em Gália, que até o século V havia sido província do Império Romano. Aí ainda se usa um ditado: "Se fizer frio no dia de Santo Amaro, metade do inverno já passou." Há séculos, ele é invocado para todos casos de doenças, bem como situações de dificuldade e perigo.


    Seu corpo foi sepultado na capela de São Martinho de Tours, da Abadia de Glanfueil, que também passou a levar seu nome, Abadia de Saint-Maur-sur-le-Loire, da comuna que igualmente o homenageia, Saint-Maur-sur-le-Loire, a noroeste da comuna de Orleans e a sudoeste de Paris. Sua restauração é do século XVII, onde seu sarcófago ainda pode ser visto.


    Uma cruz feita de corações, de sua inspiração, e por isso leva seu nome, também pode ser vista em várias paredes da igreja da abadia, que são originais, dos tempos da fundação.


    Anos mais tarde, por sua grande relevância para os beneditinos, parte de seus restos mortais foram levados de volta a Itália, à então capela, hoje Catedral de Santa Maria Assunta e São Bento Abade, do mosteiro de Monte Cassino.


    Uma congregação beneditina francesa criada no século XVII, importante centro de formação de monges e reconhecida por alta erudição, fez-lhe homenagem adotando seu nome, a Ordem de São Mauro. Extinta durante a Revolução Francesa, quando o superior-geral foi executado, eram conhecidos como os mauristas e estavam entre os principais intelectuais do Reino de França. Sua sede era a Abadia de Saint-Germain-des-Prés.
    Ainda no século XI, uma belíssima urna foi confeccionada em Florennes, atualmente em sul de Bélgica, para guardar suas relíquias junto às de São Timóteo e São João Batista. A Abadia de Florennes, porém, também foi destruída durante a Revolução Francesa, mas a urna foi preventivamente resgatada e levada por cristãos para um castelo de terras que viriam a ser Tchecoslováquia, país desmembrado em 1993.


    A única relíquia que dele ainda se tem, hoje está exposta na Igreja de Santa Eufemia da comuna italiana de Santo Mauro La Bruca, assim nomeada em sua homenagem, na província de Salerno, no sul de Itália, onde se ergueu um pequeno monastério que semelhantemente levava seu nome. Além de vários grandes milagres atribuídos a ele, como uma aparição sua que salvou quase todos operários, menos os teimosos, de um soterramento na galeria ferroviária em 1889, em 1969 deu-se aí um Milagre Eucarístico.


    Santo Amaro, rogai por nós!