quinta-feira, 29 de junho de 2017

São Paulo Apóstolo


    Um jovem religioso e radical ajudou na execução de Santo Estevão, segurando os mantos dos que o apedrejavam. Seu nome era Saulo. Tinha assistido ao belíssimo e contundente sermão deste Santo diácono, no qual responsabilizava o Sinédrio pela Crucificação de Jesus, mas não lhe deu razão e acabou concordando com sua brutal punição. Na verdade, como era fariseu, já havia algum tempo que ele alimentava raiva contra os cristãos, e anos depois, usando da influência de seu grupo, vai encampar uma verdadeira guerra aos seguidores de Cristo: "... devastava a Igreja. Entrando pelas casas, arrastava para fora homens e mulheres e entregava-os à prisão." At 8,3
    Tamanho era seu ódio, que São Lucas vai dizer que ele "... só respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor." At 9,1
    Numa viagem que fazia para capturar discípulos, porém, "... estando já perto de Damasco, subitamente cercou-o uma Luz resplandecente vinda do Céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe acusava de estar perseguindo não a Igreja, mas o próprio Jesus: "Saulo, Saulo, por que Me persegues? Eu sou Jesus... Levanta-te, entra na cidade. Aí te será dito o que deves fazer." At 9,4-6
    Quando levantou-se, no entanto, percebeu que estava cego. Mas dias depois foi miraculosamente curado por um discípulo enviado por Jesus. Ou seja, apesar da grande importância que São Paulo viria a ter, Jesus submete-o à Igreja: "Ananias foi. Entrou na casa e, impondo-lhe as mãos, disse: 'Saulo, meu irmão, o Senhor, esse Jesus que te apareceu no caminho, enviou-me para que recobres a vista e fiques cheio do Espírito Santo.' No mesmo instante caíram dos olhos de Saulo umas como escamas, e recuperou a vista. Levantou-se e foi batizado." At 9,17-18
    De perseguidor então passou a ser perseguido, pois pregando com poder demonstrava que Jesus era o Cristo, o que despertou a ira dos judeus. E foi jurado de morte ainda na cidade de Damasco. "Mas os discípulos, tomando-o de noite, fizeram-no descer pela muralha da cidade dentro de um cesto." At 9,25
    Retornando à Cidade Santa três anos mais tarde, a princípio os Apóstolos e discípulos tinham-lhe medo. Mas depois de explicada sua conversão por São Barnabé, "... permaneceu com eles, saindo e entrando em Jerusalém, e pregando, destemidamente, o Nome do Senhor." At 9,28
    Antioquia era a maior cidade da região, e no Império Romano menor apenas que Roma e Alexandria. Saulo foi enviado para lá porque os judeus de Jerusalém também tinham decidido matá-lo, pois sua devoção e Sabedoria chamavam atenção e provocavam muitas conversões. Ora, noutra ocasião o próprio Espírito Santo vai destacá-lo: "Enquanto celebravam o culto do Senhor, depois de terem jejuado, disse-lhes o Espírito Santo: 'Separai-Me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho destinado.'" At 13,2
    E com grande poder de argumentação, Saulo saiu visitando cidades e convertendo multidões. Voltando a Antioquia, suas pregações atraia quase toda cidade. Como os judeus não aceitavam a Encarnação do Cristo na Pessoa de Jesus, Paulo, como começava a ser conhecido, declarou-lhes: "Era a vocês que em primeiro lugar se devia anunciar a Palavra de Deus. Mas, porque a rejeitam e se julgam indignos da Vida Eterna, eis que, a partir de agora, voltamo-nos para os não judeus." At 13,46


    Em Listra, um aleijado de nascença foi curado por ele. A cidade, porém, entrou em convulsão: seriam Paulo e Barnabé deuses gregos? Paulo tentou explicar-se, mas judeus de outras cidades incitaram a população a matá-lo como a um farsante: "Sobrevieram, porém, alguns judeus de Antioquia e de Icônio que persuadiram a multidão. Apedrejaram Paulo e, dando-o por morto, arrastaram-no para fora da cidade. Os discípulos rodearam-no, ele levantou-se e entrou na cidade." At 14,19-20
    Fundando comunidades por onde passava, Paulo seguiu fazendo viagens e em cada lugar instituía Anciãos como líderes, que junto a bispos e diáconos viriam a ser nossos sacerdotes. Era a nascente hierarquia da Igreja, que é fundamental à fidelidade e à autenticidade da mensagem de Deus. E essa vai ser a instrução que ele vai dar a São Tito: "Eu deixei-te em Creta para acabares de organizar tudo e estabeleceres Anciãos em cada cidade, de acordo com as normas que te tracei." Tt 1,5
    No entanto, pedia prudência ao ordenar alguém: "A ninguém imponhas as mãos inconsideradamente, para que não venhas a tornar-te cúmplice dos pecados alheios." 1 Tm 5,22a
    E exatamente por respeitar a hierarquia, ainda que incipiente à época, ele mesmo admitiu ter procurado conhecer São Pedro após sua conversão: "Três anos depois subi a Jerusalém para conhecer Cefas, e fiquei com ele quinze dias." Gl 1,8
    Realmente zeloso da integridade do Evangelho, mais tarde tratou de fazer uma nova conferência em Jerusalém, onde encontraria as 'colunas da Igreja': "Catorze anos mais tarde, subi outra vez a Jerusalém com Barnabé, levando também Tito comigo. E subi em consequência de uma revelação. Expus-lhes o Evangelho que prego entre os pagãos, e isso particularmente aos que eram de maior consideração, a fim de não correr ou de não ter corrido em vão. Tiago, Cefas e João, que são considerados as colunas, reconhecendo a Graça que me foi dada, deram as mãos a mim e a Barnabé em sinal de pleno acordo: iríamos aos pagãos, e eles aos circuncidados. Recomendaram-nos apenas que nos lembrássemos dos pobres, o que era precisamente a minha intenção." Gl 2,1-2.9-10
    Ardoroso defensor da Sã Doutrina, nosso Santo chegou a discutir com São Pedro, que, por Sabedoria e prudência, como mais tarde o jovem de Tarso aprenderia, tentava não acirrar ainda mais os ânimos dos cristãos vindos do judaísmo contra aqueles vindos do paganismo, que já haviam estado em confronto por conta da circuncisão. Precipitadamente, e ignorando o que recomendava a carta resultante do Concílio de Jerusalém, ele exigia que o Príncipe dos Apóstolos 'batesse de frente' com os enviados de São Tiago Menor, abandonando de imediato os hábitos judeus de alimentação. No entanto, não deixava de chamá-lo pelo nome de ofício: "Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe francamente, porque era censurável. Pois, antes de chegarem alguns homens da parte de Tiago, ele comia com os pagãos convertidos. Mas, quando aqueles vieram, retraiu-se e separou-se destes, temendo os circuncidados." Gl 2,11-12
    Mas, como dissemos, São Paulo mesmo iria fingir estar cumprindo votos judeus para escapar de perseguições, acolhendo uma sugestão de São Tiago Menor: "Toma-os contigo, faze com eles os ritos da purificação e paga por eles a oferta obrigatória para que rapem a cabeça. Então todos saberão que é falso quanto de ti ouviram, mas que também tu guardas a Lei." At 21,24
    E até vai exaltar esse sábio procedimento, muito adequado ao ofício pastoral: "Para os que não têm Lei, fiz-me como se eu não tivesse Lei, ainda que eu não esteja isento da Lei de Deus - porquanto estou sob a Lei de Cristo -, a fim de ganhar os que não têm Lei." 1 Cor 9,21

OPERANDO MILAGRES E ZELOSO DA UNIDADE DA IGREJA

    Estando em Trôade, num domingo, dia já largamente acolhido para celebrar a Santa Missa, enquanto fazia um longo sermão antes da Comunhão um jovem adormeceu, caiu do terceiro andar e morreu. Mas Paulo ressuscitou-o: "No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para partir o Pão, Paulo, que havia de viajar no dia seguinte, conversava com os discípulos e prolongou a palestra até a meia-noite. Havia muitas lâmpadas no quarto, onde nos achávamos reunidos. Acontece que um moço, chamado Êutico, que estava sentado numa janela, foi tomado de profundo sono, enquanto Paulo ia prolongando seu discurso. Vencido pelo sono, caiu do terceiro andar abaixo, e foi levantado morto. Paulo desceu, debruçou-se sobre ele, tomou-o nos braços e disse: 'Não vos perturbeis, porque a sua alma está nele.' Então subiu, partiu o Pão, comeu falou-lhes largamente até o romper do dia. Depois partiu. Quanto ao moço, levaram-no dali vivo, cheios de consolação." At 20,7-12
    São Lucas atestou até mesmo o valor de suas relíquias: "Deus fazia milagres extraordinários por intermédio de Paulo, de modo que lenços e outros panos que tinham tocado o seu corpo eram levados aos enfermos; e afastavam-se deles as doenças e retiravam-se os espíritos malignos." At 19,11-12
    Nosso Santo era natural de Tarso, mas foi criado em Jerusalém, como vemos em seu discurso quando foi preso pela primeira vez: "'Irmãos e pais, ouvi o que vos tenho a dizer em minha defesa.' Quando ouviram que lhes falava em língua hebraica, escutaram-no com a maior atenção. Continuou ele: 'Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia, mas criei-me nesta cidade, instruí-me aos pés de Gamaliel, em toda a observância da Lei de nossos pais, partidário entusiasta da causa de Deus como todos vós também o sois no dia de hoje.'" At 22,2-3
    Era cidadão romano: "Quando o iam amarrando com a correia, Paulo perguntou a um centurião que estava presente: 'É permitido açoitar um cidadão romano que nem sequer foi julgado?' Ao ouvir isso, o centurião foi ter com o tribuno e avisou-o: 'Que vais fazer? Este homem é cidadão romano.' Veio o tribuno e perguntou-lhe: 'Dize-me, és romano?' 'Sim', respondeu-lhe. O tribuno replicou: 'Eu adquiri este direito de cidadão por grande soma de dinheiro.' Paulo respondeu: 'Pois eu o sou de nascimento.'" At 25,28
    Tinha irmã e sobrinho em Jerusalém, que o ajudou desbaratando o plano dos judeus para matá-lo antes de ser levado a Roma: "Mas um filho da irmã de Paulo, inteirado da cilada, dirigiu-se à cidadela e comunicou-o a Paulo." At 23,16
    Tinha parentes em Roma, onde havia muitos judeus e a nova sede da Igreja seria fundada sob o túmulo de São Pedro, após a destruição de Jerusalém pelos romano no ano 70 de nossa era: "Saudai Andrônico e Júnias, meus parentes e companheiros de prisão, os quais são muito estimados entre os Apóstolos e tornaram-se discípulos de Cristo antes de mim." Rm 16,7
    Com efeito, na introdução da Carta aos Romanos ele referia-se aos cristãos com a várias comunidades: "... a fim de levar, em Seu Nome, todas as nações pagãs à obediência da fé, entre as quais também vós sois os eleitos de Jesus Cristo. A todos os que estão em Roma, queridos de Deus, chamados a serem Santos..." Rm 1,5b-7a
    Adotava o celibato mesmo entre os leigos, o que defendia como um dom superior: "Pois quereria que todos fossem como eu; mas cada um tem de Deus um dom particular: uns este, outros aquele. Aos solteiros e às viúvas, digo que lhes é bom se permanecerem assim, como eu. Mas eis o que vos digo, irmãos: o tempo é breve. O que importa é que os que têm mulher vivam como se a não tivessem. O solteiro cuida das coisas que são do Senhor, de como agradar ao Senhor. O casado preocupa-se com as coisas do mundo, procurando agradar à sua esposa. A mesma diferença existe com a mulher solteira ou a virgem. Aquela que não é casada cuida das coisas do Senhor, para ser santa no corpo e no espírito; mas a casada cuida das coisas do mundo, procurando agradar ao marido. Em suma, aquele que casa a sua filha faz bem; e aquele que não a casa, faz ainda melhor. A mulher está ligada ao marido enquanto ele viver. Mas, se morrer o marido, ela fica livre e poderá casar-se com quem quiser, contanto que seja no Senhor. Contudo, na minha opinião, ela será mais feliz se permanecer como está. E creio que também eu tenho o Espírito de Deus." 1 Cor 7,7-8.29-30.32b-34.38-40
    Em casos de faltas mais graves contra a integridade da Igreja, era a favor da excomunhão: "Repito aqui o que acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina diferente da que recebestes, seja ele excomungado!" Gl 1,9
    Pois, a despeito do que parecia radicalidade, ele visava a verdadeira Salvação das almas: "Ouve-se dizer constantemente que se comete, em vosso meio, a luxúria, e uma luxúria tão grave que não se costuma encontrar nem mesmo entre os pagãos: há entre vós quem vive com a mulher de seu pai!... seja esse homem entregue a Satanás, para mortificação do seu corpo, a fim de que a sua alma seja salva no Dia do Senhor Jesus." 1 Cor 5,1.5
    Por esta lógica, assim como defendia o Antigo Testamento, e a própria Igreja defendeu por vários séculos, ele também era a favor da pena de morte. Foi o que alegou quando acusado pelos judeus em Cesareia, e acabou invocando seu direito, enquanto cidadão romano, de ser julgado em Roma: "Se lhes tenho feito algum mal ou coisa digna de morte, não recuso morrer. Mas, se nada há daquilo de que estes me acusam, ninguém tem o direito de entregar-me a eles. Apelo para César!" At 25,11
    E menciona tais condenações como justas: "A ira de Deus manifesta-se do alto do Céu contra toda a impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a Verdade. Apesar de conhecerem o justo decreto de Deus que considera dignos de morte aqueles que fazem tais coisas, não somente as praticam, como também aplaudem os que as cometem." Rm 1,18.32
    Era um homem de vasta cultura: "Sou devedor a gregos e a bárbaros, a sábios e a simples." Rm 1,14
    Além do hebraico e do aramaico, falava e escrevia perfeitamente em grego, que era o idioma internacional de então: "Quando estava para ser introduzido na fortaleza, Paulo perguntou ao tribuno: 'É-me permitido dizer duas palavras?' Este respondeu: 'Sabes o grego?'" At 21,37
    Assim como outros idiomas, talvez siríaco, turco e latim. Ele disse aos coríntios: "Dous Graças a Deus por falar em línguas mais que todos vós." 1 Cor 14,18
    Apesar de seus fortes argumentos, porém, não tinha o dom da oratória: "... embora eu seja frágil no falar..." 2 Cor 11,6
    Mas enfrentou francamente o Areópago em Atenas, que era o tribunal e conselho de senadores, aristocratas e grandes filósofos: "Alguns filósofos epicureus e estoicos conversaram com ele. Diziam uns: 'Que quer dizer esse tagarela?' Outros: 'Parece que é pregador de novos deuses.' Pois anunciava-lhes Jesus e a Ressurreição. Tomaram-no consigo e levaram-no ao Areópago, e perguntaram-lhe: 'Podemos saber que nova doutrina é essa que pregas?'" At 17,18-19
    Não escreveu todas as cartas a ele atribuídas. Algumas ditou, como a aos romanos: "Eu, Tércio, que escrevi esta carta, saúdo-vos no Senhor." Rm 16,22
    Outras apenas assinou, como a Primeira aos Coríntios: "Esta saudação escrevo-a de próprio punho: PAULO." 1 Cor 16,22
    E a Segunda aos Tessalonicenses: "A saudação vai de meu próprio punho: PAULO. É esta a minha assinatura em todas as minhas cartas. É assim que eu escrevo." 2 Ts 3,17
    Aos gálatas, pediu que observassem sua caligrafia: "Vede com que tamanho de letras vos escrevo, de próprio punho!" Gl 6,11
    E também a Filemon: "Eu, Paulo, escrevo de próprio punho: Eu pagarei. Para não te dizer que tu mesmo te deves inteiramente a mim!" Fl 1,19
    Pedia que suas cartas fossem lidas entre todos os irmãos da comunidades: "Peço-vos encarecidamente, no Senhor, que esta carta seja lida a todos os irmãos." 1 Ts 5,27
    Por elas dirigiu-se não só à igreja local, mas a outras comunidades: "Uma vez lida esta carta entre vós, fazei com que ela o seja também na igreja dos laodicenses. E vós, lede a de Laodiceia." Cl 4,16
    Assim como a toda região: "Paulo, Apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo, à Igreja de Deus que está em Corinto, e a todos os irmãos santos que estão em toda a Acaia." 2 Cor 1,1
    Escreveu talvez o mais belo texto sobre o amor, reconhecido em todo o mundo. Em um dos trechos, registrou: "Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse amor, de nada valeria!" 1 Cor 13,3
    Penitente, aprendeu a carregar pela vida afora um 'espinho na carne': "Ademais, para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para me esbofetear e me livrar do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim. Mas Ele me disse: 'Basta-te Minha Graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a Minha força'. Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo." 2 Cor 12,7-9
    Tudo fazia por Cristo, mostrando grande desapego material: "Sei viver na penúria, e sei também viver na abundância. Estou acostumado a todas as vicissitudes: a ter fartura e a passar fome, a ter abundância e a padecer necessidade." Fl 4,12
    E pelos fiéis: "Tudo sofro para que os seus corações sejam reconfortados e que, estreitamente unidos pela caridade, sejam enriquecidos de uma plenitude de inteligência, para conhecerem o mistério de Deus, isto é, Cristo, no qual estão escondidos todos os tesouros da Sabedoria e da ciência." Cl 2,2-3
    Ele tinha um ministério próprio: "... Aquele cuja ação fez de Pedro o Apóstolo dos judeus, fez também de mim o Apóstolo dos não judeus." Gl 2,8
    Dedicou toda sua vida à causa da Igreja: "Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim." Gl 2,20
    Tinha intensa vida pastoral: "Paulo permaneceu ali em Corinto ainda algum tempo. Depois se despediu dos irmãos e navegou para a Síria e com ele Priscila e Áquila. Antes, porém, cortara o cabelo em Cêncris, porque terminara um voto. Chegaram a Éfeso, onde os deixou. Ele entrou na sinagoga e entretinha-se com os judeus. Pediram-lhe estes que ficasse com eles ali por mais tempo, mas ele não quis. Ao despedir-se, disse: 'Voltarei a vós, se Deus quiser.' E partiu de Éfeso. Viajou até Cesareia, subiu a Jerusalém e saudou a comunidade e logo em seguida desceu a Antioquia. Aí se demorou apenas por algum tempo, partiu de novo e atravessou sucessivamente as regiões da Galácia e da Frígia, fortalecendo todos os discípulos." At 18,18-23
    Bem sabia reconhecer a presença do Espírito Santo: "Enquanto Apolo estava em Corinto, Paulo atravessou as províncias superiores e chegou a Éfeso, onde achou alguns discípulos e indagou deles: 'Recebestes o Espírito Santo, quando abraçastes a fé?' Responderam-lhe: 'Não, nem sequer ouvimos dizer que há um Espírito Santo!' 'Então em que batismo fostes batizados?', perguntou Paulo. Disseram: 'No batismo de João.' Paulo então replicou: 'João só dava um batismo de penitência, dizendo ao povo que cresse naquele que havia de vir depois dele, isto é, em Jesus.' Ouvindo isso, foram batizados em nome do Senhor Jesus. E quando Paulo lhes impôs as mãos, o Espírito Santo desceu sobre eles, e falavam em línguas estranhas e profetizavam." At 19,1-6
    Em modelar testemunho de vida, mostrou-se visceralmente unido à Igreja: "São ministros de Cristo? (Falo como menos sábio:) Eu, ainda mais. Muito mais pelos trabalhos, muito mais pelos cárceres, pelos açoites sem medida. Muitas vezes vi a morte de perto. Cinco vezes recebi dos judeus os quarenta açoites menos um. Três vezes fui flagelado com varas. Uma vez apedrejado. Três vezes naufraguei, uma noite e um dia passei no abismo. Viagens sem conta, exposto a perigos nos rios, perigos de salteadores, perigos da parte de meus concidadãos, perigos da parte dos pagãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos entre falsos irmãos! Trabalhos e fadigas, repetidas vigílias, com fome e sede, frequentes jejuns, frio e nudez! Além de outras coisas, a minha preocupação cotidiana, a solicitude por todas as igrejas! Quem é fraco, que eu não seja fraco? Quem sofre escândalo, que eu não me consuma de dor?" 2 Cor 11,23-29
    Foi o primeiro a receber os estigmas de Cristo: "... porque trago em meu corpo as marcas de Jesus." Gl 6,17
    E fidelíssimo à hierarquia e atento às perversões do Evangelho, preparou a Igreja para depois de sua partida, constituindo Bispos os Anciãos de Éfeso: "Paulo havia determinado não ir a Éfeso, para não se demorar na Ásia, pois se apressava para celebrar, se possível em Jerusalém, o dia de Pentecostes. Mas de Mileto mandou a Éfeso chamar os Anciãos da igreja. Quando chegaram, e estando todos reunidos, disse-lhes: 'Vós sabeis de que modo sempre me tenho comportado para convosco, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia. Servi ao Senhor com toda a humildade, com lágrimas e no meio das provações que me sobrevieram pelas ciladas dos judeus. Vós sabeis como não tenho negligenciado, como não tenho ocultado coisa alguma que vos podia ser útil. Preguei e instruí-vos publicamente e dentro de vossas casas. Preguei aos judeus e aos gentios a conversão a Deus e a fé em Nosso Senhor Jesus. Agora, constrangido pelo Espírito, vou a Jerusalém, ignorando o que ali me espera. Só sei que, de cidade em cidade, o Espírito Santo assegura que me esperam em Jerusalém cadeias e perseguições. Mas nada disso temo, nem faço caso da minha vida, contanto que termine a minha carreira e o ministério da Palavra que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho ao Evangelho da Graça de Deus. Sei agora que não tornareis a ver a minha face, todos vós, por entre os quais andei pregando o Reino de Deus. Portanto, hoje eu protesto diante de vós que sou inocente do sangue de todos, porque nada omiti no anúncio que vos fiz dos desígnios de Deus. Cuidai de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo constituiu-vos bispos, para pastorear a Igreja de Deus, que Ele adquiriu com o Seu próprio Sangue. Sei que depois da minha partida se introduzirão entre vós lobos cruéis, que não pouparão o rebanho. Mesmo dentre vós surgirão homens que hão de proferir doutrinas perversas, com o intento de arrebatarem após si os discípulos. Vigiai! Lembrai-vos, portanto, de que por três anos não cessei, noite e dia, de admoestar, com lágrimas, a cada um de vós. Agora eu vos encomendo a Deus e à Palavra da Sua Graça, Àquele que é poderoso para edificar e dar a herança com os santificados. De ninguém cobicei prata, nem ouro, nem vestes. Vós mesmos sabeis: estas mãos proveram às minhas necessidades e às dos meus companheiros. Em tudo vos tenho mostrado que assim: trabalhando, convém acudir os fracos e lembrar-se das palavras do Senhor Jesus, porquanto Ele mesmo disse: É maior felicidade dar que receber!' A essas palavras, ele pôs-se de joelhos a orar. Derramaram-se em lágrimas e lançaram-se ao pescoço de Paulo para abraçá-lo, aflitos, sobretudo pela palavra que tinha dito: 'Já não vereis a minha face.' Em seguida, acompanharam-no até o navio." At 20,16-38
    Advertiu também a São Timóteo dos semeadores de heresias e intrigas: "Torno a lembrar-te a recomendação que te dei, quando parti para a Macedônia: devias permanecer em Éfeso para impedir que certas pessoas andassem a ensinar doutrinas extravagantes, e a preocupar-se com fábulas e genealogias. Essas coisas, em vez de promoverem a obra de Deus, que se baseia na fé, só servem para ocasionar disputas. Esta recomendação só visa a estabelecer a caridade, nascida de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera. Apartando-se desta norma, alguns se entregaram a discursos vãos. Pretensos doutores da Lei, que não compreendem nem o que dizem nem o que afirmam. Sabemos que a Lei é boa, contanto que dela se faça legítimo uso, e se tenha em conta que a Lei não foi feita para o justo, mas para os transgressores e os rebeldes, para os ímpios e os pecadores, para os irreligiosos e os profanadores, para os que ultrajam pai e mãe, os homicidas, os impudicos, os infames, os traficantes de homens, os mentirosos, os perjuros e tudo o que se opõe à Sã Doutrina e ao Evangelho glorioso de Deus bendito, que me foi confiado. Eis aqui uma recomendação que te dou, meu filho Timóteo, de acordo com aquelas profecias que foram feitas a teu respeito: amparado nelas, sustenta o bom combate, com fidelidade e boa consciência, que alguns desprezaram e naufragaram na fé. É o caso de Himeneu e Alexandre, que entreguei a Satanás, para que aprendam a não blasfemar." 1 Tm 1,3-11.18-20
    Em defesa da hierarquia dentro da Igreja, não admitia frágil acusação contra um sacerdote: "Não recebas acusação contra um presbítero, senão por duas ou três testemunhas." 1 Tm 5,19
    Mas, em caso de desvios, ordenava que se usasse de toda autoridade: "Aos que faltam às suas obrigações, repreende-os diante de todos, para que também os demais se atemorizem." 1 Tm 5,20
    E pedia-lhe absoluto zelo pela Sã Doutrina: "Toma por modelo os ensinamentos salutares que recebeste de mim sobre a fé e o amor a Jesus Cristo. Guarda o Precioso Depósito, pela virtude do Espírito Santo que habita em nós." 2 Tm 1,13-14
    Demostrando a importância da centralidade do corpo doutrinário, instituiu dominicais coletas para o socorro da sede da Igreja à época, em Jerusalém: "Quanto à coleta em benefício dos santos, segui também vós as diretrizes que eu tracei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte o que tiver podido poupar, para que não esperem a minha chegada para fazer as coletas. Quando chegar, enviarei, com uma carta, os que tiverdes escolhido para levar a Jerusalém a vossa oferta." 1 Cor 16,1-3
    Já idoso, pedia acolhida: "Eu, Paulo, o velho, e agora preso por Jesus Cristo... Ao mesmo tempo, prepara-me pousada, porque espero, pelas vossas orações, ser-vos restituído em breve." Fm 1,9b.22
    E ciente do martírio que sofreria, bem como sentindo aproximar-se sua hora, deixou uma frase marcante: "Quanto a mim, estou a ponto de ser imolado e o instante da minha libertação se aproxima. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a . Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará n'Aquele Dia, e não somente a mim, mas a todos aqueles que aguardam com amor a Sua aparição." 2 Tm 4,6-8
    A Sagrada Tradição conta que São Paulo foi decapitado. Mas, assim como na morte de São Pedro, estando toda a comunidade cristã realmente atônita pela perda de tão importante líder, não se tem nenhum registro escrito feito de imediato após sua morte.


    Sob o local de sua sepultura foi erguida a Basílica de São Paulo Fora dos Muros, assim chamada por ficar fora da Muralha Aureliana, e aí se encontram seu sarcófago e as correntes com que o prenderam.


    São Paulo, rogai por nós!