terça-feira, 5 de junho de 2018

São Bonifácio


    O 'Apóstolo da Alemanha' era movido pelo sonho de evangelizar os mais afastados e refratários pagãos à fé cristã na Europa. Ao seu tempo, entre 672 e 754, a sede do Império Romano já havia sido transferida para Constantinopla, na atual Turquia, e por isso estava mais fácil a interação social entre os povos cristãos e os reinos do norte, apesar da brutal violência ainda observada em vários e localizados conflitos.
    Nosso Santo nasceu na Inglaterra, de nobre família, e desde os 5 anos já dizia que queria ser um monge, dada a forte impressão que lhe causavam os beneditinos que conhecia. Aos 7 foi levado para a abadia de Exeter, e anos mais tarde, para a abadia de Nursling, próximo a Winchester, onde concluiu seus estudos e tornou-se professor de ciências literárias. Nesse período, escreveu a primeira gramática de latim para os ingleses, que foi vastamente utilizada e ainda hoje é reeditada.
    Aos 30 anos foi ordenado Sacerdote, e, ao tomar parte de seu primeiro Sínodo, que incluiu Ina, o rei saxão de Wessex, viu seus talentos para diplomacia serem reconhecidos: foi enviado ao Arcebispo da Cantuária, principal bispado inglês, para pedir aprovação das decisões tomadas no Sínodo. Mas, à medida que retornava à convivência com a nobreza, Winfrid, seu nome de nascimento, entregava-se, em sentido contrário, cada vez mais ao recolhimento monástico e aos estudos das Sagradas Escrituras. E seu espírito missionário começou a aflorar.


    Para evangelizar, em 716 ele e mais 3 monges de Nursling escolheram Utrecht, capital da Frísia, que veio a ser a Holanda, terra de seus antepassados, onde o rei Radbod era perseguidor de cristãos e os Sacerdotes em visita, mesmo clandestinas, temiam permanecer por muito tempo. Aí conheceu Santo Amand e Santo Elói, mas com eles não pôde conviver por muito tempo, pois o acirramento das guerras desse monarca com o cristão Cláudio Martel, rei franco, tornou impossíveis seus trabalhos.
    Retornaram, então, a Inglaterra, mas sua alma, após ter conhecido a situação daquela gente, pôs-se por demais inquieta. Com a morte do abade Winbrecht, seu mentor em Nursling, por unanimidade foi indicado para seu posto, porém, sonhando com a vida de missionário no Continente Europeu, humildemente implorou para que o dispensassem.
    Em 718, viajou a Roma ao encontro do Papa Gregório II e dispôs-se para trabalhar na evangelização dos reinos do norte da Europa. Bastante sensibilizado por seu fervor evangélico, o Sumo Pontífice denominou-o Bonifácio, tradução latina de seu nome, e deu-lhe cartas oficiais que lhe autorizavam pregar aos germanos.
    Foi a Baviera e a Turíngia, mas, como pedia seu coração, acabou voltando a Frísia, onde reencontrou o Bispo São Vilibrordo, seu compatriota, que para lá também havia retornado após o fim das mais violentas convulsões. Este ficou muito contente ao revê-lo, pois já estava muito idoso e não pensava em outra pessoa para assumir o bispado. Porém, mais uma vez, São Bonifácio sentia que precisava evangelizar a pobre gente do campo, sem se prender à sede da Diocese.


    Mudou-se para a região central da Alemanha, Hesse, onde havia trabalhado São Kilian, beneditino irlandês, e fundou seu primeiro mosteiro em Amoeneburg, próximo a Fulda, onde Sturm, um de seus discípulos, iria fundar em 743 o mosteiro que se tornaria a referência dos beneditinos, ponto de partida de todas as missões entre os germanos.
    Anos depois, em 722, ao saber do sucesso de suas incursões, o novo Papa Gregório III convidou-o a Roma e ordenou-o bispo, não de uma diocese, mas de toda a região da Germânia e também de uma parte da Gália, atualmente terras da França. Deu-lhe ainda poderes para organizar a hierarquia eclesial nessas terras, e desta vez, em obediência aos planos do Papa, ele não pôde recusar.
    Ultrapassou a 'limes romana' e, nas terras onde era adorado um deus pagão, construiu a primeira capela de Fritzlar, ao norte de Hesse, que dedicou a São Pedro, fato que é reconhecido como início da cristianização dos germanos. Contudo, aí não se demorou: em 724, seguiu para a Turíngia e fundou o Mosteiro de São Miguel, perto de Gotha. Também fundou mosteiros femininos em Kitzingen, Ochsenfurt e Bischoffsheim, os dois primeiros em terras hoje do Sul da Alemanha, e o último, no leste da França.


    Em 732, em mais um gesto de apreço, o Papa Gregório III conferiu-lhe o Pálio, sinal de investidura de arcebispado. Em 737 foi feito Legado Papal, um representante pessoal do Sumo Pontífice, e a partir daí fundou os bispados de Regensburgo, Frisinga, Salzburgo e Batávia, estes dois últimos já em terras que hoje correspondem a Áustria e Holanda, respectivamente.
    Em 742, elevou Mainz, região mais central da Europa e próxima a França, à condição de Sé Metropolitana, e foi investido como seu primeiro arcebispo, embora com autoridade sobre toda Germânia.
    Nas terras então sob domínio dos francos, fundou as dioceses de Büraburg, Würzburgo e Erfurt, todas em terras da atual Alemanha, e designou seus bispos, afastando totalmente qualquer influência do imperador carolíngio. Anualmente organizava sínodos provinciais, para manter a Unidade da Igreja.
    Ele registrou:
    "A Igreja é como um grande navio sendo atacado por ondas das diferentes aflições da vida. Nosso dever não é abandonar o navio, mas mantê-lo em seu curso."
    "Vamos confiar n'Aquele que colocou esse fardo sobre nós. O que nós mesmos não pudermos suportar, vamos suportar com a ajuda de Cristo. Pois Ele é Todo-poderoso, e diz-nos: 'Meu jugo é suave e Meu fardo é leve.'"
    "Permaneçamos firmes no que é certo e preparemos nossas almas para o Julgamento. Vamos aguardar a fortalecedora ajuda de Deus e dizer-lhe: 'Ó Senhor, Tu tens sido nosso refúgio em todas as gerações.'"
    "Não sejamos cães que não ladram, nem silenciosos espectadores, nem criados pagos que fogem diante do lobo. Ao contrário, sejamos cuidadosos pastores vigiando o rebanho de Cristo. Preguemos todo o plano de Deus a poderosos e a humildes, a ricos e a pobres, a homens de todos os níveis e idades, até onde Deus nos der força, em época e fora de estação."
    "Pode haver mais adequada busca na juventude ou mais valiosa possessão na velhice que o conhecimento das Sagradas Escrituras? Em meio às tempestades, tu serás preservado dos perigos do naufrágio e guiado à praia de um encantador paraíso, e à eterna felicidade dos anjos."
    "Diz a Sagrada Escritura que os homens que mergulham no luxo passam insones noites pela ansiedade, girando suas frágeis teias que só apanham poeira ou um sopro de vento, pois, como diz o salmista: 'Eles reúnem tesouros, e não sabem para quem o reúnem.'"
    "Para citar o Apóstolo, tudo é conflito por fora e ansiedade por dentro. Mas no meu caso também existem conflitos por dentro e ansiedade por fora. Isso é causado, em particular, por falsos sacerdotes e hipócritas que desafiam a Deus, correndo para sua própria condenação e levando fiéis ao erro por seus escândalos e faltas."


    Em 754, por volta de seus 80 anos, voltou a Frísia e reacendeu o antigo sonho de levar à conversão seu povo, tão rebelde e violento. Entretanto, parecia sentir que seu fim já se aproximava. Escreveu àquele que viria a ser seu sucessor em Mainz, o Bispo Lulo: "Desejo levar a termo o propósito desta viagem. Não posso, de modo algum, renunciar ao desejo de partir. Está próximo o dia do meu fim, aproxima-se a hora da minha morte. Uma vez que os despojos mortais forem sepultados, subirei para receber o prêmio eterno. Mas tu, caríssimo filho, admoesta incessantemente o povo no labirinto do erro, completa a edificação já iniciada da Basílica de Fulda e aí sepultarás meu corpo, envelhecido por longos anos de vida."
    Após ser bem acolhido pelos frísios e ter ministrados vários Batismos, numa localidade próxima a Dokkum, no dia de Pentecostes, enquanto celebrava a Santa Missa na qual crismaria um grande grupo de catecúmenos, viu o lugar ser invadido por um bando de pagãos armados, que o assassinaram brutalmente junto a outros 52 cristãos.
    Seus restos mortais foram levados a Fulda, como havia pedido, e foram sepultados na Catedral do São Salvador, numa cripta atrás do altar principal.


    São Bonifácio, rogai por nós!