terça-feira, 17 de setembro de 2013

Nem Tudo está Escrito na Bíblia


    É claro que Deus não Se encerra nas Escrituras; Ele é infinitamente maior que elas. O mesmo podemos dizer quanto à relação entre Encarnação do Cristo e os Evangelhos: toda a vida de Jesus é um mistério. Como São João Evangelista mesmo admite, nem sequer Sua vida pública nos foi contada por completo: "Jesus fez ainda muitas outras coisas. Se fossem escritas uma por uma, penso que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se deveriam escrever." Jo 21,25
    Mas isso não nos impede de reconhecer a grandeza e a plenitude das Revelações do Cristo. Ele mesmo declarou: "Toda autoridade Me foi dada no Céu e na Terra." Mt 28,18
    São João também nos dá essa certeza: "Todos nós recebemos da Sua plenitude Graça sobre Graça." Jo 1,16
    E mesmo confessando não ter registrado todos os milagres de Jesus, ele confirma Sua Encarnação, que, aliás, é a razão de ter escrito seu Evangelho: "Fez Jesus, na presença dos Seus discípulos, ainda muitos outros milagres que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos, para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a Vida em Seu Nome." Jo 20,30-31
    São Lucas parece dizer que conseguiu registrar tudo: "No meu primeiro livro, ó Teófilo, tratei de tudo que Jesus fez e ensinou, desde o começo..." At 1,1
    Mas, logo em seguida, ele mesmo cita Jesus restringindo Suas Revelações, embora isso não tenha impedido o testemunho dos Apóstolos: "Não cabe a vós saber os tempos ou momentos que o Pai determinou com a Sua autoridade. Mas recebereis o poder do Espírito Santo que virá sobre vós, para serdes Minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra." At 1,7-8
    De fato, Jesus já tinha avisado aos Apóstolos das dificuldades causadas por nossas limitações humanas, mas garantiu que Seus ensinamentos iriam ser confirmados e arrematados pelo Espírito Santo: "Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a Verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão." Jo 16,12-13
    O Espírito de Deus, portanto, veio em Nome de Jesus e nada do que Ele já havia ensinado foi esquecido: "Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em Meu Nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito." Jo 14,26
    Jesus garantiu também que o que eles transmitiriam, a partir da instrução do Divino Espírito, seria plenamente acolhido: "Se guardaram a Minha Palavra, hão de guardar também a vossa." Jo 15,20
    São Pedro, por sua vez, mencionou nossa constante carência do imprescindível auxílio do Espírito Santo para o bom entendimento da Revelação, da missão dos antigos Profetas, da Salvação e da Anunciação do Evangelho: "Esta Salvação tem sido o objeto das investigações e das meditações dos Profetas que proferiram oráculos sobre a Graça que vos era destinada. Eles investigaram a época e as circunstâncias indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava e que profetizava os sofrimentos do mesmo Cristo e as glórias que os deviam seguir. Foi-lhes revelado que propunham não para si mesmos, senão para vós, estas revelações que agora vos têm sido anunciadas por aqueles que vos pregaram o Evangelho da parte do Espírito Santo enviado do Céu." 1 Pd 1,12
    Com razão, desde a leitura do Antigo Testamento precisamos de Sua luz divina para bem compreender as Escrituras, da qual, conforme ensinou São Pedro, não se pode fazer interpretações pessoais: "Antes de mais nada, saibam disto: nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação particular, pois a profecia jamais veio por vontade humana. Pelo contrário, impelidos pelo Espírito Santo, os homens falaram como porta-vozes de Deus." 2 Pd 1,20-21
    E como afirmam os seguidores de São Paulo, devemos ter presente que ainda hoje Jesus nos fala: "Guardai-vos, pois, de recusar ouvir Aquele que fala. Porque, se não escaparam do castigo aqueles que d'Ele se desviaram, quando lhes falava na terra, muito menos escaparemos nós, se O repelirmos, quando nos fala desde o Céu." Hb 12,25
    Por fim, não podemos esquecer que Nosso Salvador deu total autoridade à Igreja, à qual ninguém pode se negar a ouvir: "Se nem mesmo à Igreja ele der ouvidos, seja tratado como se fosse um pagão ou um cobrador de impostos." Mt 18,17


NO INÍCIO, O EVANGELHO FALADO

    Como avisou Jesus, tais auxílios e suplementação são exatamente o ministério do Espírito Santo, que vai além da Palavra escrita e inicialmente era exercido através dos Apóstolos. São Paulo o confirmou: "Deus é que nos fez aptos para ser ministros da Nova Aliança, não a da letra, e sim a do Espírito. Porque a letra mata, mas o Espírito vivifica." 2 Cor 3,6
    Naqueles primeiros anos, a despeito da ausência do Evangelho escrito, São Paulo ressaltava a importância da Palavra meramente falada, e sabia que seus discursos não eram artifícios humanos: "A minha palavra e a minha pregação longe estavam da eloquência persuasiva da sabedoria; eram, antes, uma demonstração do Espírito e do poder divino, para que vossa não se baseasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus." 1 Cor 2,4-5
    Bem antes de sua primeira carta apostólica, baseando-se exclusivamente em pregações, o Evangelho anunciado por ele e seus colaboradores não eram sopros ao vento, mas convincentes demonstrações do Deus Vivo: "O nosso Evangelho vos foi pregado não somente por palavra, mas também com poder, com o Espírito Santo e com plena convicção." 1 Ts 1,5
    Desta forma, nós não podemos nos escusar de reconhecer as manifestações de Deus só porque elas não estão explicitamente escritas na Bíblia. O próprio Espírito de Deus é imprevisível, como disse Jesus: "O vento sopra onde quer; ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito." Jo 3,8
    E, mesmo escritas, a capacidade de expressão e as palavras humanas são limitadas para conceber e descrever a grandeza de Deus ou Suas profecias. São Paulo reconhece essa fragilidade das Escrituras: "A nossa ciência é parcial, a nossa profecia é imperfeita. Quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança. Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido." 1 Cor 13,9-12
    Contudo, não estamos desobrigados de acolher o que aprouve a Deus revelar: "O que está oculto pertence ao Senhor, Nosso Deus; o que foi revelado é para nós e para nossos filhos, para sempre, a fim de que ponhamos em prática todas as palavras desta Lei." Dt 29,29
    Pois como revelou São Paulo, nem tudo a respeito de Deus 'se pode conhecer': "Porquanto o que se pode conhecer de Deus eles o leem em si mesmos, pois Deus lho revelou com evidência." Rm 1,19
    Isso não quer dizer, porém, que Suas Revelações foram insuficientes. Ele nos revelou tudo de que precisamos para que O conhecêssemos, nos limites de nossas capacidades. São Pedro ensina: "O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua glória e Sua virtude." 2 Pd 1,3
    Exaltando a manifestação do Cristo, São João Evangelista corrobora esse entendimento: "Sabemos que o Filho de Deus veio e nos deu entendimento para conhecermos o Verdadeiro. E estamos no Verdadeiro, nós que estamos em Seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a Vida Eterna." 1 Jo 5,20
    E os Apóstolos, como exortava São Paulo, também não transmitiram apenas pelas Escrituras tudo o que devemos saber: "Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, seja por palavras, seja por carta nossa." 2 Ts 2,15
    Nem permitiam 'nova interpretação' ou mesmo 'revelação' a respeito da Doutrina, seja por palavra ou por carta: "... não vos deixeis facilmente perturbar o espírito e alarmar-vos, nem por alguma pretensa revelação nem por palavra ou carta tidas como procedentes de nós..." 2 Ts 2,2


A SAGRADA TRADIÇÃO

    Pois os Evangelhos ainda não estavam escritos, mas já havia a Tradição que viria ser chamada de Sagrada. Ela representa exatamente o entendimento que Jesus e o Divino Espírito nos deram das Escrituras. E é o respeito a essa Tradição que São Paulo nos cobra aqui: "Intimamo-vos, irmãos, em Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que eviteis a convivência de todo irmão que leve vida ociosa e contrária à Tradição que de nós tendes recebido." 2 Ts 3,6
    Em sua primeira carta a São Timóteo, o Apóstolo de Tarso se refere à Sagrada Tradição como o 'Depósito': "Timóteo, guarda o Depósito. Evita o palavreado irreverente e as objeções dessa falsa ciência, pois alguns professaram-na e desviaram-se da Fé. A Graça esteja convosco." 1 Tm 6,20
    E, na segunda carta, chama essa Tradição de forma ainda mais bela, de 'Precioso Depósito', sem deixar de mencionar o Autor dessa virtude: "Toma por modelo os ensinamentos salutares que recebeste de mim sobre a Fé e o amor a Jesus Cristo. Guarda o Precioso Depósito, pela virtude do Espírito Santo que habita em nós." 2 Tm 1,13
    Escrevendo aos colossenses, ele rebate as tradições meramente humanas, que seriam errôneas interpretações das Escrituras: "Estai de sobreaviso, para que ninguém vos engane com filosofias e vãos sofismas baseados nas tradições humanas, nos rudimentos do mundo, em vez de se apoiar em Cristo." Cl 2,8
    Usando de toda sua autoridade, ele diz o mesmo a São Timóteo: "Tu, porém, permanece firme naquilo que aprendeste e creste. Sabes de quem aprendeste." 2 Tm 3,14
    Mas as distorções dos Livros Sagrados não são nenhuma novidade. Citando o Profeta Isaías, Jesus já as denunciava ao Seu tempo: "Jesus disse-lhes: 'Isaías com muita razão profetizou de vós, hipócritas, quando escreveu: "Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão, pois, me cultuam, porque ensinam doutrinas e preceitos humanos (Is 29,13)." Deixando o Mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens.'" Mc 7,6-8
    Ora, esses desvios são obras do pai da mentira, ao qual muitos inadvertidos acabam se filiando, como acusou Nosso Salvador: "Vós tendes como pai o demônio e quereis fazer os desejos de vosso pai. Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na Verdade, porque a Verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira." Jo 8,44
    A Sagrada Tradição, porém, foi transmitida desde os Apóstolos aos primeiros Bispos, Presbíteros e Diáconos e assim seguiu até hoje. São Paulo afirmou: "O que de mim ouviste em presença de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis que, por sua vez, sejam capazes de instruir a outros." 2 Tm 2,2
    Como não escreveu Evangelho, ele se vale de suas cartas para transmitir a Revelação. E credita toda essa distinta formação doutrinária dos Apóstolos exclusivamente ao Espírito Santo: "Foi por revelação que me foi manifestado o mistério que acabo de esboçar. Lendo-me, podereis entender a compreensão que me foi concedida do mistério cristão, que em outras gerações não foi manifestado aos homens da maneira como agora tem sido revelado pelo Espírito aos Seus Santos Apóstolos e Profetas." Ef 3,3-5
    Por isso pedia que suas cartas fossem partilhadas: "Peço-vos encarecidamente, no Senhor, que esta carta seja lida a todos os irmãos." 1 Ts 5,27
    Com efeito, por esses tempos havia apenas os rascunhos do Evangelho de São Mateus em aramaico, e ainda assim inconcluso, mas nada escrito em grego, língua universal de então. Por isso São Paulo só se referia ao Evangelho falado. Deixava claro, no entanto, que só havia um único e inalterável Evangelho: "De fato, não há dois (evangelhos): há apenas pessoas que semeiam a confusão entre vós e querem perturbar o Evangelho de Cristo. Mas, ainda que alguém - nós ou um anjo baixado do Céu - vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema." Gl 1,8
    Aos colossenses, mais uma vez São Paulo se refere a um Evangelho ouvido, e não a um lido: "Para isto, é necessário que permaneçais fundados e firmes na Fé, inabaláveis na esperança do Evangelho que ouvistes, que foi pregado a toda criatura que há debaixo do Céu, e do qual eu, Paulo, fui constituído ministro." Cl 1,23
    E mesmo com toda limitação que há nas palavras e nas expressões humanas, o próprio Jesus pautava seus debates pela correta interpretação das Escrituras, como questionou um doutor da Lei: "Que está escrito na Lei? Como é que lês?" Lc 10,26
    Sem embargo, Ele cobrava esse entendimento dos Livros Sagrados. Mas não só deles: cobrava também a percepção das manifestações de Deus: "Errais, não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus." Mt 22,29
    E valorizava abertamente a inspiração e a Revelação de origem divina: "Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas Meu Pai que está nos Céus." Mt 16,17
    Quanto ao poder absoluto de Deus e nossas limitações para o pleno conhecimento de Seus mistérios, o livro da Sabedoria nos dá uma bela explanação: "Que homem, pois, pode conhecer os desígnios de Deus, e penetrar nas determinações do Senhor? Tímidos são os pensamentos dos mortais, e incertas as nossas concepções; porque o corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime o espírito carregado de cuidados. Mal podemos compreender o que está sobre a terra, dificilmente encontramos o que temos ao alcance da mão. Quem, portanto, pode descobrir o que se passa nos Céus?" Sb 9,13-16
    E mais uma vez o autor sagrado termina reconhecendo o infinito e ativo poder do Espírito de Deus, que conduz a Igreja: "E quem conhece vossas intenções, se vós não lhe dais a Sabedoria, e se do mais alto dos Céus vós não lhe enviais Vosso Espírito Santo? Assim se tornaram direitas as veredas dos que estão na terra; os homens aprenderam as coisas que vos agradam e pela Sabedoria foram salvos." Sb 9,17-18
    Sem dúvida, desde o Pentecostes, é Ele que vem conduzindo a Igreja nas decisões sobre a Doutrina de Cristo, e assim sobre a correta interpretação das Escrituras. Essas decisões vêm sendo tomadas desde o Concílio de Jerusalém: "Com efeito, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor outro peso além do seguinte indispensável..." At 15,28
    E assim será até o fim dos tempos, como garantiu Jesus: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco." Jo 14,16
    Essa é a Luz que iluminava o entendimento de São Pedro à frente da Igreja, tal e qual Jesus prometeu: "Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus." Mt 16,19
    São Pedro confirmou essa condição de verdadeira testemunha: "Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem" At 5,32
    Ora, é Palavra de Jesus: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Vosso Pai Celestial dará o Espírito Santo aos que LhO pedirem." Lc 11,13
    Não por acaso, antes de ser apedrejado, Santo Estevão reclama dos principais dos judeus, que não compreenderam as Escrituras nem acolheram o Cristo, justamente por resistirem ao Espírito de Deus: "Homens de dura cerviz, e de corações e ouvidos incircuncisos! Vós sempre resistis ao Espírito Santo." At 7,51