sábado, 10 de novembro de 2018

São Leão Magno


    Junto a São Gregório e São Nicolau, São Leão é um dos poucos papas canonizados que têm o título de Magno. Mas em contraste a essa honraria, e justamente a razão dela, em suas pregações falava ao coração da mais humilde gente, por isso era muito amado. Deixou cerca de 100 sermões dotados de eloquência, profunda inspiração e grande saber doutrinário, além de 144 cartas repletas de ensinamentos e preciosos registros da História da Igreja, escritas em latim de rara correção.
    Sua 'Carta dogmática a Flaviano', à época o Patriarca da igreja de Constantinopla, é tida como um dos mais importantes documentos da Igreja e um dos sustentáculos da fé cristã. Nela defendeu os mais puros fundamentos do Catolicismo, e rapidamente conseguiu a adesão da imensa maioria dos Sacerdotes, de seu tempo e de depois, que debatiam questões doutrinárias. Exaltando sua iluminação e sua autoridade, cunharam para ele uma frase que se tornou famosa: 'Pedro falou pela boca de Leão.'
    O Papa Bento XIV proclamou-o Doutor da Igreja em 1754, e foi o primeiro Santo a receber o cognome de Magno.
    Teria nascido por volta de 400, na Toscana, mas pouco se sabe de sua vida antes do papado. Há registro de que em 430 já era Arcediácono, e trocava correspondência com importantes pessoas como o Papa Celestino I e São Cirilo, que foi Padre Grego e Patriarca de Alexandria, cidade mais importante do Império depois de Constantinopla e Roma. Daí se presume que ele tenha sido ordenado muito cedo, por ter completado seus estudos de brilhante forma.
    Tornou-se secretário e conselheiro dos Papas Celestino I e Sisto III, e por este foi enviado a França como embaixador da Igreja para evitar uma iminente gerra civil, motivada por desavenças entre dois generais.
    Quando morreu Sisto III, em 440, São Leão Magno foi unanimemente aclamado papa, pelo povo e pelo clero. Eram difíceis tempos, e esse fato é mais um sinal de suas raras qualidades. A Igreja via-o como o mais preparado para enfrentar as várias tribulações pelas quais passava, seja a desestruturação da sociedade na Europa, assolada por guerras internas e contra invasores, seja pela febre de heresias.
    Quando o Império Romano estava em pleno declínio, o Ocidente já não tinha mais força militar e o imperador escondia-se de bárbaros e vândalos que pilhavam a Itália, era São Leão Magno que destemidamente ia ao encontro dos inimigos e conseguia abrandar-lhes a fúria, firmando acordos de paz.
    Foi assim com o temível Átila, o rei dos hunos, que em 451 estava devastando o norte da Itália, mas não se dirigiu a Roma graças à Sabedoria e à firmeza do Santo Papa, que foi ao seu encontro e o convenceu de que a matança e a pilhagem não lhe trariam nenhuma glória. Esse argumento falou alto ao lado nobre do guerreiro huno, que sentiu em São Leão a presença de Deus e passou a ver a Europa com outros olhos.


    Assim também foi com os vândalos, em 455, que haviam tomado Roma de assalto. Embora tenham saqueado a cidade, eles não a incendiaram nem cometeram chacinas, tendo inclusive parado de torturar pessoas, como tinham por costume. Mais uma vez a coragem e a cordialidade do representante máximo de Cristo pouparam milhares de vidas e evitaram maiores sofrimentos. São Leão Magno foi ao encontro de Genserico, o comandante deles, em seu acampamento, e conseguiu dele essas garantias.
    Dentro da Igreja, as coisas também não iam muito bem. Temas centrais da Doutrina Cristã estavam sendo contestados. As divergências eram graves e frequentes, causando sérias divisões e até heresias. Nosso Papa ativamente tomou parte das discussões, convocando sínodos e concílios. Usava de sua fulgurante inteligência, de seu vasto conhecimento e, acima de tudo, da inspiração do Espírito Santo para dirimir controvérsias e reanimar a Igreja. Tratou de corrigir os métodos de atuação do clero, conferindo uniformidade às atividades pastorais, e pôs fim a abusos de autoridade da parte de alguns bispos e sacerdotes.


    Em 446, ele vai declarar numa carta: "... o cuidado da Igreja Universal deve convergir para a Cátedra de Pedro, e nada (...) deve ser separado de Sua Cabeça." Ele citava a figura invocada por São Paulo, que retrata Cristo como a Cabeça da Igreja: "Ele é a Cabeça do Corpo, da Igreja." Cl 1,18
    Em 451, no Concílio da Calcedônia, por sua influência essa questão vai ser debatida e ratificada pela maioria dos participantes. Também deixou sua marca na defesa que fez das duas distintas naturezas de Jesus, a humana e a divina. Tamanha Sabedoria valeu-lhe o título de Padre Latino.
    Dirigindo-se aos fiéis num sermão, ele exorta: "Cristão, reconhece tua dignidade. Por agora participares da natureza divina, não te degeneres retornando à decadência de tua vida passada. Lembra-te da Cabeça a que pertences e do Corpo de que és membro. Lembra-te de que foste arrancado do poder das trevas e transferido para a Luz e o para Reino de Deus."
    Estava invocando as palavras de São Pedro: "O divino poder deu-nos tudo que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua Virtude. Por elas temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo." 2 Pd 1,3-4
    Ele pregava:
    "Eu não permiti, nem permitirei, que as coisas que foram estabelecidas pelos Santos Padres sejam violadas por qualquer inovação."
    "A Igreja é uma virgem, a noiva de um Cônjuge, o Qual é Cristo, e esta Igreja não se deixa violar por nenhum erro, de modo que em todo mundo possa haver para nós a incorruptividade de uma única e casta Comunhão."
    "Deus ordenou para todo homem um único e mesmo meio de Salvação."

    "A Verdade, que é simples e uma, não admite variedade."
    "O diabo está sempre descobrindo alguma novidade contra a Verdade."
    "Não ensine nada novo, mas no peito de todos homens insufle aquelas coisas que os Padres de venerada memória têm em harmonia com os ensinamentos estabelecidos... Não pregue nada além do que recebemos de nossos antepassados... Assim, tanto na regra da quanto na observância da disciplina, deixe o modelo da antiguidade ser mantido por toda parte."

    "Um verdadeiro adorador é aquele cuja mente não foi contaminada com qualquer falsa crença."
    "Maria, serva e Mãe do Senhor, genitora de Deus e perpétua Virgem."
    "A Natividade do Salvador conservou intacta a virginal integridade de Sua Mãe; e ela salvaguardou a pureza, dando à luz a Verdade."
    "Portanto, o Verbo, mesmo assumindo a íntegra e perfeita natureza de verdadeiro homem, nasceu verdadeiro Deus, completo em Suas divinas propriedades, completo também nas nossas."
    "A Natividade do Senhor, este mistério do Verbo que Se fez carne, não tanto como recordação de um acontecimento passado, mas sobretudo como um fato que se realiza diante de nossos olhos..."
    "Para além de nosso entendimento, Ele escolheu entrar em nosso alcance. Existente antes do início do tempo, Ele começou a existir em um momento."

    "É, com efeito, o Natividade de Cristo que determina a origem do povo cristão: o Natal da Cabeça também é o Natal do Corpo."
    
"A Glória da Cabeça (Cristo) tornou-se a esperança do Corpo (a Igreja)."
    "A Igreja Católica vive e prospera por sua fé nesta verdade: que em Jesus Cristo não se deve crer a humanidade sem verdadeira divindade, nem a divindade sem verdadeira humanidade."
    "Aquele que é verdadeiro Deus, também é verdadeiro homem. E nesta unidade nada há de falso, porque n'Ele é perfeita, respectivamente, tanto a humanidade do homem como a grandeza de Deus."

    "O Filho de Deus... uniu-Se a nós e vinculou-nos a Si de tal modo que a humilhação de Deus até à condição humana se tornasse uma elevação do homem até às alturas de Deus."
    "Pelo Batismo somos feitos carne do Crucificado."
    "E cada um é participante desta origem espiritual pela regeneração; e para cada um que renasce, a Água do Batismo é como o ventre da Virgem. Pois o mesmo Espírito Santo preenche a fonte, que encheu a Virgem, e o pecado, ao qual aquela sagrada concepção derrotou, pode ser tirado por esta mística lavagem."
    "Com efeito, a participação no Corpo e no Sangue de Cristo não faz senão nos transformar naquilo que tomamos; e em tudo, tanto na carne como no espírito, trazemos Aquele mesmo no Qual fomos mortos, sepultados e ressuscitados."
    "Nossa participação no Corpo e Sangue de Cristo age de tal forma que nos transformamos n'Aquele que recebemos."
    "O Corpo que foi deitado sem vida no túmulo é o nosso. O Corpo que ressuscitou no terceiro dia é o nosso. O Corpo que subiu acima de todas alturas do Céu para a direita da Glória do Pai é o nosso. Se, então, andarmos no caminho de Seus Mandamentos, e não nos envergonhamos de reconhecer o preço que Ele pagou pela nossa Salvação em um humilde Corpo, também nós ressuscitaremos para compartilhar de Sua Glória. A promessa que Ele fez será cumprida aos olhos de todos: 'Quem Me reconhecer diante dos homens, também Eu o reconhecerei diante de Meu Pai, que está nos Céus.'"

    "De fato, todos aqueles que foram regenerados em Cristo, também foram feitos reis com o sinal da Cruz e sagrados sacerdotes com a unção do Espírito Santo."
    "A ignorância foi destruída, a obstinação foi superada. O Sagrado Sangue de Cristo apagou a flamejante espada que impedia o acesso à árvore da Vida. A velha noite do pecado deu lugar à verdadeira Luz."

    "O povo cristão é convidado a compartilhar as riquezas do Paraíso. Todos que renascem têm diante de si o caminho aberto para retornar à sua terra natal, de onde foram exilados. A menos que eles fechem para si o caminho, que poderia ser aberto pela fé de um ladrão."
    "A terra - nossa natureza terrena - deve tremer diante do Sofrimento de Seu Redentor. As rochas - o coração dos incrédulos - devem emergir, e as pedras maciças agora devem ser rachadas ao meio. As pregações da futura Ressurreição devem aparecer na Cidade Santa, a Igreja de Deus: o que está acontecendo em nossos corpos, agora deve ter lugar em nossos corações."
    "Tudo aquilo, que o Filho de Deus fez e ensinou para reconciliar o mundo, não o conhecemos somente através da narração de obras levadas a cabo no passado, mas vivemos sob o efeito do dinamismo de tais presentes obras."
    "Novamente, quem não pode reconhecer no Cristo Suas enfermidades? Quem não reconheceria que o comer e o dormir do Cristo, Sua tristeza e Seu derramamento de lágrimas de amor são marcas da natureza de um escravo?"
    "As coisas desta vida não nos devem preocupar com sua ansiedade e orgulho, de modo que não nos esforcemos mais com todo amor de nosso coração para ser como Nosso Redentor e para seguir Seu exemplo. Tudo que Ele fez ou sofreu foi para Nossa Salvação: queria que Seu Corpo compartilhasse a bondade de Sua Cabeça."
    "A ninguém, não importa quão fraco, é negada a participação na Vitória de Cruz. Ninguém está fora do alcance do socorro das orações de Cristo."
    "Que ninguém se envergonhe da Cruz pela qual Cristo redimiu o mundo. Nenhum de nós deve ter medo de sofrer por causa da justiça ou duvidar do cumprimento das promessas, pois é através do trabalho que vamos descansar e através da morte que passamos à Vida."
    "A Cruz de Cristo é o verdadeiro fundamento e principal causa da esperança cristã."
    "Grande sustentáculo é a íntegra fé, a verdadeira fé, à qual nada pode ser acrescentado ou tirado por quem quer que seja; pois que a fé, se não é única, então absolutamente não existe."
    "A fé na qual vivemos jamais deve variar com a idade... pois uma só é a fé que santifica o justo de todas idades."
    "Outrora foi prometida a Abraão uma inumerável descendência, que seria gerada não segundo a carne, mas na fecundidade da fé."
    "A fé daqueles que vivem Sua fé é uma serena fé. O que tu anseias será dado a ti, o que tu amas será teu para sempre."
    "A Paz é a primeira coisa que os anjos cantavam. A Paz é a marca dos filhos de Deus. A Paz é a enfermeira do amor. A Paz é a mãe da unidade. A Paz é o repouso das abençoadas almas. A Paz é a morada da eternidade."
    "A virtude nada é sem a provação das tentações, pois não há conflito sem inimigo nem vitória sem combate."
    "Aquele que vê outro em erro e esforça-se para não o corrigir, testifica que ele mesmo está com erro."
    "Aqueles que não são bons para os outros, são ruins para si mesmos."
    "O amor do mundo não combina com o amor de Deus, nem passa para a sociedade dos filhos de Deus quem não se separa da vida carnal."

    Sabemos que morreu em 461, causando uma forte comoção no mundo católico de então, e mesmo fora dele. Foi honrosamente sepultado na Basílica de São Pedro, onde possui capela própria.


    São Leão Magno, rogai por nós!