quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Santa Cecília


    De família de nobres de Roma, os Metelos, filha de senador, Santa Cecília levava uma vida contemplativa, dedicando-se à música e aos estudos de Filosofia e dos Evangelhos. Tinha abraçado a em Cristo desde a infância, e sentia uma grande alegria indo à Santa Missa celebrada pelo bispo Urbano, ouvindo cânticos religiosos e fazendo caridade aos pobres à porta da Igreja. Ainda muito nova, de um sermão que ouviu, desejou ser esposa de Cristo, e, secretamente, fez voto de virgindade.


    Como seus pais já faziam planos para casá-la, pois era comum àquela época, ela muito resistiu e acabou tendo que revelar seu voto. Mas, achando que era apenas um devaneio infantil, e mesmo contra sua persistência, eles ofereceram-na em casamento a Valeriano, um pagão pertencente à nobreza.
    Durante as festas de núpcias, porém, na primeira oportunidade falou-lhe Santa Cecília do voto que havia feito. E assegurou-lhe que, se se convertesse, ele também poderia ver e conversar com seu Santo Anjo da Guarda, como ela mesma sempre fazia. Jovem de bom coração, impressionado, Valeriano aceitou o voto da esposa, prometeu ajudá-la a guardar a pureza, e naquela mesa noite foi pedir ao Sacerdote local para receber o Batismo.
    Valeriano tomou muito gosto pelos sermões do bispo Urbano, e logo ajudou a converter seu irmão, Tibúrcio. E um dia, de fato, ao chegar em casa, ele viu seu Anjo da Guarda rezando ao lado de Santa Cecília.
    Mas ele tinha mais um irmão, Almáquio, que era prefeito de Roma e ficou revoltado ao saber da conversão dos irmãos, pois foram vistos ajudando a sepultar cristãos. Sentindo-se traído, eles citou-os perante o tribunal e, por acusações de testemunhas oculares, acabaram levados a julgamento. Como recusavam-se a prestar cultos aos deuses pagãos, e assim renegar a fé em Cristo, foram condenados à morte por decapitação.
    Sem saber que Santa Cecília era a razão da conversão dos dois, ele intimou-a e inquiriu sobre os bens de seus irmãos, pois confiaram-lhe muitos pertences de valor para fazer caridade, mas ela garantiu que todos estavam muito bem guardados. Era um sofisma, pois já tinha distribuído quase todos entre os pobres. Ao descobrir a verdade, apesar da raiva que teve, Almáquio levou em consideração o respeito que devia ao senador seu pai e à sua família, e apenas a obrigou a ir ao templo pagão, oferecer sacrifício aos deuses.
    Enquanto era conduzida, cheia do Espírito de Deus, Santa Cecília falava com tanta doçura e convicção sobre Cristo aos guardas, que acabou fazendo-lhes assumir a fé que já praticavam. Entre outras tocantes afirmações, pois contava com a presença de seu Anjo da Guarda, ela dizia-lhes: "Eu sou a noiva de Nosso Senhor Jesus Cristo."
    E para maior irritação de Almáquio, eles retornaram e declararam-se incapazes de obrigá-la a cumprir tal mandado porque também eram cristãos. Eram anos de autêntico heroísmo por parte de fiéis de todas idades, e por isso Roma seria admirada e reconhecida em todo mundo como berço e sede do Cristianismo. Sem dúvida, sob a égide de Cidade Apostólica, por força dos martírios de São Pedro e São Paulo, aí amor a Cristo era levado às últimas consequências, como se viu nos testemunhos de vida dados pelos Primeiros Santos Mártires.
    Para intimidar qualquer pessoa de sua corte que pretendesse seguir Jesus, Almáquio ordenou que os guardas fossem imediatamente decapitados. E realmente ignorando a inspiração e a fé de Santa Cecília, inquiriu-a mais uma vez sobre prestar cultos aos deuses ou morrer, ao que ela respondeu-lhe: "Melhor morrer e ser feliz, que viver e ser miserável. Tu desejas que pronunciemos uma mentira, mas ao falarmos a Verdade infligimos-lhe muito maior e mais cruel tortura que aquelas que tu nos fazes sofrer."
    Possesso de ódio, ele quis matá-la com requintes de crueldade, fazendo-a agonizar por asfixia com o vapor da água das caldeiras de seu próprio palácio. Mas, por espantoso milagre, ela não morreu. Sequer apresentou queimaduras pelo corpo. Então determinou que ela fosse imersa na água fervente, e por mais um grande milagre nada lhe aconteceu.
    Assombrado, ele mandou cortar-lhe o pescoço diante de seus olhos e de toda coorte, pois este era sempre o último recurso usado para matar muitos Santos nos primeiros séculos, mas três golpes de espada não foram capazes de separar sua cabeça do corpo. Contudo, vendo-a mortalmente ferida, com um grande corte aberto no pescoço, ordenou que ela restasse ali, deitada ao chão, sofrendo até à morte. Santa Cecília, no entanto, mantinha-se inacreditavelmente calma, e assim resistiu por três dias, sangrando lentamente.
    Quando alguma pessoa se aproximava para limpar o sangue ou ver se já havia morrido, ela serenamente anunciava o amor a Deus e aconselhava a não renegar a fé em Jesus, nem mesmo sob ameaça de morte. Todos guardas que não eram cristãos e acompanharam seu martírio, ainda que ocultamente, converteram-se. Ela dizia-lhes: "Levantem-se, soldados de Cristo, joguem fora as obras das trevas e vistam a armadura da Luz."
    Segundo uma antiga tradição, durante seu casamento ela teria cantado: "Senhor, guardai sem mancha meu corpo e minha alma, para que eu não seja confundida." Este verso tornou-se a antífona no ofício de sua festa, e desde o século XV ela é considerada a Padroeira da música sacra e dos músicos.


    Quando seu esposo foi martirizado, e enquanto não chegava sua hora de testemunhar com a própria vida, ela garantia às pessoas ao seu redor: "Nenhuma profana mão pode tocar-me, porque um anjo me protege."
    E ensinava:
    "Morrer por Cristo não é sacrificar a juventude, mas renová-la."
    "Só Cristo pode salvar da morte, e mandar os verdadeiramente culpados ao fogo eterno."
    "Estou muito feliz de sofrer todos tipos de tormentos por confessar fé em Jesus Cristo."
    "A morte e o inferno combinam-se para distrair o homem com mil inúteis faces, e seus pensamentos envolver com uma multidão de imaginários desejos."
    "O poder do homem é como uma bexiga inflada com o vento. Mas deixe uma agulha perfurar a bexiga: ela imediatamente murchará."

    Seu martírio aconteceu entre os anos de 176 e 180. A seu pedido, sua casa tornou-se uma igreja, mesmo funcionando na clandestinidade. Seu corpo foi sepultado nas Catacumbas da Via Ápia, que mais tarde ficariam conhecidas como as Catacumbas de São Calisto.


    Por grande devoção popular em todo Império Romano, seu caixão foi posteriormente levado à cripta dedicada ao Papa Urbano I, e o bispo Urbano, seu grande amigo e diretor espiritual, acabou confundido com ele. Por isso, por séculos a história de Santa Cecília foi cronologicamente posicionada algumas décadas mais tarde. E quando o cristianismo veio a ser tolerado no Império Romano, no início do século IV, por causa das invasões dos bárbaros seus restos foram escondidos numa igreja em Roma, e assim sua locação acabou ignorada, enfraquecendo a devoção que lhe tinham.
    Mas no início do século IX Santa Cecília apareceu ao Papa Pascoal I, seu admirador e devoto, e revelou onde estava o caixão de cipreste com seus restos mortais. Ao abri-lo, viram seu corpo totalmente intacto, e na mesma posição em que estava quando ela morreu. Fizeram-lhe, então, uma urna de mármore e depositaram-no sob o altar da Basílica de Santa Cecília, erguida onde fora sua casa.
    Em 1599, o Cardeal Sfondrati ordenou que a urna fosse aberta, quando mais uma vez encontraram seu corpo em estado incorrupto e na mesma posição descrita pelo Papa Pascoal I. Como tinham a intenção de mantê-lo na urna sob o altar, foi feita uma escultura em mármore para ficar exposta à visitação, pois o povo não cessava de ir à igreja para venerá-la.
    Em seu último sinal, já silencioso, Santa Cecília indicou com os dedos que as três Pessoas da Santíssima Trindade são um só Deus, ajudando a elucidar um dos grandes debates de seu tempo e testemunhando contra várias heresias.


    Santa Cecília, rogai por nós!