sexta-feira, 17 de abril de 2015

Deus confunde


    Pode parecer contraproducente, ou demasiado simplório, mas Deus confunde o 'mundo' com muita frequência. É uma de Suas estratégias. Os excessos da racionalidade tem tornado o ser humano muito presunçoso. O primeiro pecado, aliás, foi exatamente esse. A serpente enganou Eva prometendo, no fruto que Deus havia proibido, a sabedoria dos 'deuses': "... no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.” Gn 3,5
    Falando muitas vezes por parábolas, em várias situações Jesus preferia não ser entendido de imediato, nem por todos. De fato, muitos não estavam preparados para viver a verdadeira , sejam pessoas que só queriam alcançar a graça de uma cura, ou ver um 'sinal': "Vieram os fariseus, puseram-se a disputar com Ele e pediram-Lhe um sinal do céu, para pô-Lo à prova." Mc 8,11
    Incapazes de uma reflexão mais profunda, muitos se viam provocados: "Até quando nos deixarás na incerteza? Se Tu és o Cristo, dize-nos claramente." Jo 10,24
    Dentre eles, até muitos religiosos: "Jesus, no entanto, permanecia calado. Disse-Lhe o sumo sacerdote: 'Por Deus vivo, conjuro-Te que nos digas se és o Cristo, o Filho de Deus?'" Mt 26,63
    Inclusive muitos de Seus seguidores, que tiveram que ouvir explicações após Sua Ressurreição: "Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na Sua Glória?" Lc 24,26
    Sobre esses, Ele dizia: "Eis por que lhes falo em parábolas: para que, vendo, não enxerguem e, escutando, não ouçam nem compreendam." Mt 13,13
    Contudo, a gente de bom coração já estava burilada: "Muitos do povo, porém, creram n'Ele e perguntavam: 'Quando vier o Cristo, fará mais milagres do que Este faz?'" Jo 7,31
    Noutra situação, Jesus Se alegrou com a Divina Providência ao constatar que o Pai não revela Seu poder a todo mundo: "Pai, Senhor do Céu e da terra, Eu Te dou graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos." Lc 10,21b
    Nossa Senhora também observou que Deus, além conceder o êxtase espiritual aos pobres, não deixa que os 'sábios' cheguem ao um consenso entre si, levando-os a viver em desentendimentos constantes: "A minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito se alegra em Deus, Meu Salvador... Ele... dispersa os soberbos de coração... e eleva os humildes..." Lc 1,47.51-52
    São Paulo escreveu: "Mas Deus escolheu o que é loucura no mundo, para confundir os sábios; e escolheu o que é fraqueza no mundo, para confundir o que é forte." 1 Cor 1,27
    E mencionou Isaías: "Pois está escrito: 'Anularei a sabedoria dos sábios e confundirei os inteligentes.'" 1 Cor 1,19
    A Santíssima Trindade já usava desse artifício desde a Torre de Babel: "Vamos descer e confundir a língua deles, para que um não entenda a língua do outro." Gn 11,7
    Nos Salmos de Davi, que devem ser entendidos como o próprio Jesus rezando ao Pai, vemos um constante pedido para que Deus atordoe os sentidos Seus inimigos: "Que todos os Meus inimigos sejam envergonhados e aterrados; recuem imediatamente, cobertos de confusão!" Sl 6, 11
    De novo: "Que voltem para trás e sejam confundidos os que planejam o mal contra Mim!" Sl 35,4
    Ou ainda mais claramente nessa passagem: "Fiquem confusos e cobertos de ignomínia os que se alegram com Meus males, sejam envoltos em confusão e opróbrio os que se erguem contra Mim com soberba." Sl 35,26
    Ora, foi exatamente isso o que aconteceu quando Jesus entrou em Jerusalém, no Domingo de Ramos: "Da boca das crianças e dos pequeninos sai um louvor que confunde Vossos adversários, e reduz ao silêncio Vossos inimigos." Sl 8,3
    Com efeito, os judeus reagiram assim: "Os cegos e os coxos vieram a Ele no Templo e Ele os curou, com grande indignação dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas que assistiam a Seus milagres e ouviam os meninos gritar no templo: 'Hosana ao filho de Davi!' Disseram-Lhe eles: 'Ouves o que dizem eles?' Perfeitamente, respondeu-lhes Jesus. 'Nunca lestes estas palavras: Da boca dos meninos e das crianças de peito tirastes o Vosso louvor (Sl 8,3)?'" Mt 21,14-16
    E foi com base nessas palavras, fazendo menção a Sua Mãe Santíssima, que se deu a Ressurreição de Cristo: "Olhai-Me e tende piedade de Mim, dai ao Vosso Servo a Vossa força, salvai o filho de Vossa Serva. Dai-Me uma prova de Vosso favor, a fim de que verifiquem Meus inimigos, para sua confusão, que sois Vós, Senhor, Meu sustento e Meu consolo." Sl 85,16-17
    Aliás, ainda falando sobre Sua Ressurreição, referiu-Se a ela também noutro Salmo: "Senhor, Eu sou Vosso Servo; Vosso Servo, Filho de Vossa Serva: quebrastes os Meus grilhões." Sl 115,7
    Por sua vez, Asaf pedia a que Deus não o deixasse no vazio da desilusão: "Sustentai-me pela Vossa promessa, para que eu viva; não queirais confundir minha esperança." Sl 118,11
    O povo judeu, enfim, já sabia havia muito de onde vinha seu socorro e o que acontecia com seus inimigos: ".... mas fostes Vós que nos livrastes de nossos inimigos e confundistes os que nos odiavam." Sl 43,8
    Não por acaso, o livro da Sabedoria prediz como será o julgamento dos iníquos: "Comparecerão aterrorizados com a lembrança de seus pecados, e suas iniquidades se levantarão contra eles para os confundir." Sb 4,20
    E diz o que acontece com os que afrontam o poder de Deus: "Mostrais Vossa força aos que não creem no Vosso poder, e confundis os que a não conhecem e ousam afrontá-la." Sb 12,17
    Diante de Jesus, pois, os espíritos imundos temiam ser entregues aos transtornos sem fim, ou seja, ao lago de fogo: "Que tens Tu conosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos confundir?" Mc 1,24
    Noutra passagem, como vivia nas trevas, um anjo de Satanás reclama da Luz, da verdadeira realidade revelava por Jesus: "Que queres de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-Te por Deus, que não me atormentes." Mc 5,7
    São Paulo explica o motivo dessa falta de sensibilidade, ou mesmo incapacidade, de se perceber as graças divinas: "Deus lhes deu um espírito de torpor, olhos que não vejam e ouvidos que não ouçam, até ao dia de hoje." Rm 11,8
    Fala da ação do 'deus' desse mundo para afastar as pessoas do Evangelho: "Se o nosso Evangelho ainda estiver encoberto, está encoberto para aqueles que se perdem, para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a luz do Evangelho, onde resplandece a Glória de Cristo, que é a imagem de Deus." 2 Cor 4,3-4
    Explica como ele age: "Ele usará de todas as seduções do mal com aqueles que se perdem, por não terem cultivado o amor à Verdade que os teria podido salvar." 2 Ts 2,10
    E menciona esse controverso poder, vindo do Pai: "... Deus lhes enviará um poder que os enganará e os induzirá a acreditar no erro." 2 Ts 2,11
    Por isso São Pedro, entre vários outros autores sagrados, aponta pertinentemente o inferno como lugar de tormentos: "Essa gente são fontes sem água, nuvens impelidas pelo furacão. Espera-os a escuridão das trevas." 2 Pd 2,17
    Ele nos estimula a permanecermos na Paz de Cristo, mesmo diante daqueles que levantam falso testemunho. E explica o porquê desse comportamento: para confundir: "Tende uma consciência reta a fim de que, mesmo naquilo em que dizem mal de vós, sejam confundidos os que desacreditam o vosso santo procedimento em Cristo." 1 Pd 3,16
    Com efeito, como replicava São Paulo, os Provérbios já ensinavam assim: "Tem o teu inimigo fome? Dá-lhe de comer. Tem sede? Dá-lhe de beber: assim amontoarás brasas ardentes sobre sua cabeça e o Senhor te recompensará." Pr 25,21-22
    São João Evangelista, de outra forma, pede aos fiéis que não nos afastemos de Jesus e que evitemos o pior, que seria exatamente sermos confundido no momento crucial de nossas vidas, seja na 'hora da nossa morte', como diz a Ave Maria, seja no Último Dia: "E agora, filhinhos, permanecei n'Ele, para que, quando aparecer, tenhamos confiança e não sejamos confundidos por Ele, na Sua vinda." 1 Jo 2, 28
    E São Judas Tadeu, por fim, menciona o livro de Henoc, um apócrifo, ou seja, livro não plenamente inspirado, onde o relato do Juízo Final descreve a condenação ao inferno como um torpor eterno: "Eis que veio o Senhor entre milhares de Seus santos para julgar a todos e confundir os ímpios por causa das obras que praticaram..." Jd 14b-15a
    Não é errado, portanto, dizer que o mundo está dividido entre os que creem e os que são confundidos...