sábado, 6 de junho de 2020

Comunhão com Deus


    Como narraram os discípulos que iam para Emaús no Domingo da Páscoa, Jesus, para demonstrar Sua Ressurreição, fez-Se reconhecer ao partir o Pão, ou seja, pela Comunhão Eucarística que Ele nos oferece: "Aconteceu que, estando sentado com eles à mesa, Ele tomou o pão, abençoou-o, partiu-O e serviu-lhO. Então se lhes abriram os olhos e O reconheceram... mas Ele desapareceu." Lc 24,30-31
    E especificamente sobre Sua Ressurreição, Ele havia prometido aos Apóstolos na noite da Santa Ceia: "Naquele dia conhecereis que estou em Meu Pai, e vós em Mim e Eu em vós." Jo 14,20
    Também lhes disse sobre Sua Palavra: "As palavras que vos digo não as digo de Mim mesmo, mas o Pai, que permanece em Mim, é que realiza Suas próprias obras. Crede-Me: estou no Pai, e o Pai em Mim. Crede-o ao menos por causa destas obras." Jo 14,10b-11
    Eles, de fato, iriam perceber: "'Agora sabemos que conheces todas coisas e que não necessitas que alguém Te pergunte. Por isso, cremos que saíste de Deus.' Jesus replicou-lhes: 'Credes agora?... Eis que vem a hora, e ela já veio, em que sereis espalhados, cada um para seu lado, e Me deixareis sozinho. Mas não estou só, porque o Pai está Comigo.'" Jo 16,30-32
    Ora, para provar que Deus estava n'Ele, e que Ele vivia para Deus, Jesus até invocava Seus milagres, como visto. Humildemente pedia aos judeus que, ainda que não acreditassem em Sua Palavra, ao menos reconhecessem as manifestações de Deus em Suas obras: "... crede em Minhas obras, para que saibais e reconheçais que o Pai está em Mim e Eu no Pai." Jo 10,38
    Assim anunciou, perante os fariseus, a instalação do Reino dos Céus aqui na terra, logo em Suas primeiras missões: "Mas se é pelo Espírito de Deus que Eu expulso os demônios, então chegou a vós o Reino de Deus." Mt 12,28
    Ele garantiu aos Apóstolos: "O Reino de Deus não virá de ostensivo modo. Nem se dirá: 'Ei-lo aqui!' Ou: 'Ei-lo ali!' Pois o Reino de Deus já está em meio a vós." Lc 17,20b-21
    Prometeu o Espírito Santo à Igreja: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele dá-vos-á outro Paráclito para que convosco fique eternamente. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber porque não O vê nem O conhece. Mas vós conhecê-Lo-eis, porque convosco permanecerá e em vós estará." Jo 14,16-17
    Assegurava-lhes indeléveis feitos: "Não fostes vós que Me escolhestes, mas fui Eu que vos escolhi e vos designei para irdes, e para que produzais fruto e vosso fruto permaneça." Jo 15,16a
    E disse que só n'Ele, apesar de todas contrariedades, encontraríamos a Paz: "Referi-vos essas coisas para que em Mim tenhais a Paz. No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo." Jo 16,33
    Referindo-Se à Sua humanidade, sempre deixou claro que não estava sozinho, nem veio ao mundo para fazer Sua própria vontade enquanto ser humano: "De Mim mesmo não posso fazer coisa alguma. Julgo como ouço e Meu julgamento é justo, porque não busco Minha vontade, mas a vontade d'Aquele que Me enviou." Jo 5,30
    Falando sobre a condição humana, em geral, Ele dizia com todas letras: "O Espírito é que vivifica, a carne de nada serve. As palavras que vos tenho dito são Espírito e Vida." Jo 6,63
    Por isso, diante do pedido de São Filipe para ver o Pai, Jesus, pelo mistério da Santíssima Trindade, apresentou-Se como o próprio Pai: "Há tanto tempo que estou convosco e não Me conheceste, Filipe?! Aquele que Me viu, também viu o Pai. Então como dizes: 'Mostra-nos o Pai?...'" Jo 14,9
    Tal é a Unidade entre o Pai e o Filho que sabemos que a Palavra de Jesus é o próprio Deus, ou que Jesus é a Palavra de Deus que Se fez carne. Embora difícil de entender, e também de expressar, é isso o que São João nos diz no início de seu Evangelho: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. E o Verbo fez-Se carne, e habitou entre nós. E nós vimos Sua Glória, a Glória que o Único Filho recebe de Seu Pai, cheio de Graça e de Verdade." Jo 1,1.14
    Em outro momento, agora falando como Deus e mostrando-Se absoluto, ou seja, essencial às nossas vidas, Jesus assim explicou o que seria 'estar em Comunhão' com Ele: "Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: tampouco podeis dar fruto se não permanecerdes em Mim." Jo 15,4
    Advertiu quanto às severas consequências da não-comunhão com Ele: "Se alguém não permanecer em Mim, será lançado fora como o ramo. Ele secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo, e queimar-se-á." Jo 15,6
    Mas prometeu indizíveis Graças aos Seus: "Se permanecerdes em Mim, e Minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo que quiserdes e sê-vos-á feito. Nisto é glorificado Meu Pai, para que deis muito fruto e vos torneis Meus discípulos. Como o Pai Me ama, assim também Eu vos amo. Perseverai em Meu amor." Jo 15,7-9
    É marcante, contudo, a passagem em que Jesus reza ao Pai para que os Apóstolos e discípulos participassem da Comunhão da Santíssima Trindade, aliás, como é o objetivo de Sua Missão, e para que nessa condição eles vivessem a Unidade da Igreja, refletindo Sua Glória: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam Um como Nós somos Um: Eu neles e Tu em Mim para que sejam perfeitos na Unidade. E o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    Também rezou por nós, seus fiéis, que creríamos no testemunho dos Apóstolos, para que igualmente possamos participar da Comunhão da Santíssima Trindade, por intermédio da Igreja Una: "Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que por sua palavra hão de crer em Mim. Para que todos sejam Um, assim como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti, para que também eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu Me enviaste." Jo 17,20-22
    Essa Comunhão, que Deus quer ter conosco, é percebida pelo amor que Ele nos tem, assim como tem por Seu Filho. Como vimos acima, Jesus disse de Sua Missão: "E o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,23


CORPO E SANGUE DE CRISTO

    Se nos achamos indignos ou incapazes de estar em Comunhão com Deus, São Pedro garante que Jesus assim Se oferece porque é Sua vontade, por puro amor, pois esse é o projeto do Pai, que quer que participemos de Sua natureza, ou seja, de Sua divindade: "O divino poder deu-nos tudo que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude. Por elas, temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo." 2 Pd 1,3-4
    A Carta aos Hebreus, no mesmo sentido, diz que Deus quer que participemos de Sua santidade: "Aliás, na terra temos nossos pais que nos corrigem e, no entanto, olhamo-los com respeito. Com quanto mais razão havemos de submeter-nos ao Pai de nossas almas, o Qual nos dará a Vida? Os primeiros educaram-nos para pouco tempo, segundo sua própria conveniência, ao passo que Ele o faz para nosso bem, para comunicar-nos Sua santidade." Hb 12,9-10
    E sobre essa condição de perfeitos filhos de Deus, São João Evangelista garante: "Todo aquele que é nascido de Deus não peca, porque nele reside o germe divino... o que é gerado de Deus se acautela, e o Maligno não o toca." 1 Jo 3,19;5,18
    Também promete São Paulo: "O pecado já não vos dominará, porque agora não estais mais sob a Lei, e sim sob a Graça." Rm 6,14
    É, portanto, para que Ele possa permanecer em nós na forma do Sagrado Alimento que Jesus ofereceu Seu Corpo em sacrifício, que Se transubstancia na Hóstia Consagrada: "Em Verdade, em Verdade, digo-vos: se o grão de trigo caído na terra não morrer, fica só. Se morrer, produz muito fruto." Jo 12,24
    E assim Ele prometeu plena comunhão espiritual Consigo: "Quem come Minha carne e bebe Meu sangue, permanece em Mim e Eu nele." Jo 6,56
    Ora, é exatamente isso que São Paulo nos diz: "... quem se une ao Senhor, com Ele torna-se um só Espírito." 1 Cor 6,17
    Ele afirma: "... É Cristo que vive em mim. Minha presente vida, na carne, eu vivo-a na no Filho de Deus..." Gl 2,20
    Dizia de sua condição de Apóstolo, que antes fora perseguidor da Igreja: "Eis uma verdade absolutamente certa e merecedora de fé: Jesus Cristo veio a este mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro. Se encontrei Misericórdia, foi para que primeiro em mim Jesus Cristo manifestasse toda Sua magnanimidade, e eu servisse de exemplo para todos que, a seguir, n'Ele crerem, para a Vida Eterna." 1 Tm 1,15-16
    Testemunhava o projeto de Deus inscrito nas almas de todos nós: "Mas quando aprouve Àquele que me reservou desde o seio de minha mãe e me chamou por Sua Graça, para revelar Seu Filho em minha pessoa, a fim de que eu O tornasse conhecido entre os gentios..." Gl 1,15-16b
    E dizia da força da humildade, reconhecendo o perigo das tentações: "Portanto, prefiro gloriar-me de minhas fraquezas para que em mim habite a força de Cristo. Eis porque sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor a Cristo. Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte." 2 Cor 12,9b-10
    Ele exortava os coríntios: "Andamos na fé, e não na visão." 2 Cor 5,7
    Falava do Corpo Místico de Cristo: "Ora, vós sois o Corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um de Seus membros." 1 Cor 12,27
    Também dizia aos romanos: "Pois, como em um só corpo temos muitos membros, e cada um de nossos membros tem diferente função, assim nós, embora sejamos muitos, formamos um só Corpo em Cristo, e cada um de nós é membro um do outro." Rm 12,4-5
    Dizia das inevitáveis dores dos cristãos aos colossenses, pelo sacrifício de Cristo que se revive: "O que falta às tribulações de Cristo, completo em minha carne, por Seu Corpo que é a Igreja." Cl 1,24b
    E das necessárias penitências: "Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra. Porque estais mortos e vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Mortificai vossos membros, pois, no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria. Dessas coisas provém a ira de Deus sobre os descrentes. Outrora também vós assim vivíeis, mergulhados como estáveis nesses vícios. Agora, porém, deixai de lado todas estas coisas: ira, animosidade, maledicência, maldade, palavras torpes da vossa boca, nem vos enganeis uns aos outros." Cl 3,2-3.5-9
    Eis porque ele celebra a fidelidade de Deus, que, mediante o devido arrependimento, redime nossos pecados e oferece-nos a Comunhão com Sua Santidade, tal e qual Ele a tem com Seu Filho: "Fiel é Deus, por Quem fostes chamados à Comunhão de Seu Filho Jesus Cristo, Nosso Senhor." 1 Cor 1,9
    E poder comungar com Jesus significa reconciliar-nos com Deus Pai, Nosso Criador: "... nós nos gloriamos em Deus por Nosso Senhor Jesus Cristo, por Quem desde agora temos recebido a reconciliação!" Rm 5,1
    Isso significa recuperar a divina semelhança que havíamos perdido: "... revesti-vos do novo homem, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade." Ef 4,24
    Por isso, em nome da Comunhão, o Apóstolo dos Gentios pregava: "Em Nome de Cristo, rogamo-vos: reconciliai-vos com Deus!" 2 Cor 5,20
    E confirmando a presença de Cristo no Pão e no Vinho, ele reclama respeito, pois quem da Eucaristia toma parte não pode comungar de 'outro pão' ou de 'outro vinho'. Isso é um grave pecado: "O Cálice de bênção, que benzemos, não é a Comunhão do Sangue de Cristo? E o Pão, que partimos, não é a Comunhão do Corpo de Cristo? Não podeis beber ao mesmo tempo o Cálice do Senhor e o cálice dos demônios. Não podeis participar ao mesmo tempo da mesa do Senhor e da mesa dos demônios." 1 Cor 10,16.21
    Por fim, ele resume nestas palavras a Comunhão Espiritual: "Vós, porém, não viveis segundo a carne, mas segundo o espírito, se o Espírito de Deus realmente habita em vós. Se alguém não possui o Espírito de Cristo, este não é d'Ele." Rm 8,9
    Pois é exatamente essa a função da Igreja: perdoar os pecados dos que se confessam e reconciliá-los com Deus, trazendo-os à Mesa de Cristo: "Tudo isso vem de Deus, que nos reconciliou Consigo, por Cristo, e confiou-nos o Ministério desta reconciliação. Porque é Deus, em Cristo, que Consigo reconciliava o mundo, não mais levando em conta os pecados dos homens, e em nossos lábios pôs a mensagem da reconciliação." 2 Cor 5,18-19
    Com efeito, ajudados pela Divina Graça desde os tempos dos Apóstolos, nossos Sacerdotes têm-se esforçado para cumprir essa missão, como São João Evangelista escreveu: "... o que vimos e ouvimos, nós anunciamo-vos, para que vós também tenhais Comunhão conosco. Ora, nossa Comunhão é com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo." 1 Jo 1,3
    Para que seja perfeita nossa Comunhão, portanto, também devemos buscá-la com nossos irmãos: "Se, porém, andamos na Luz como Ele mesmo está na Luz, temos comunhão uns com os outros, e o Sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, purifica-nos de todo pecado." 1 Jo 1,7
    Sem dúvida, a Comunhão é a maior benção que podemos ter. É Deus vivendo em nós! É o que celebramos na Santa Missa! É a mais bela cena da História da humanidade: Deus fez-Se humano e, à mesa conosco, oferece Seu Corpo e Seu Sangue, o Alimento que nos fortalece para o bom combate, o Alimento da Vida Eterna: "Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-O e deu-O aos discípulos, dizendo: 'Tomai e comei, isto é Meu Corpo.' Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lhO, dizendo: 'Bebei dele todos, porque isto é Meu Sangue, o Sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens para a remissão dos pecados.'" Mt 26,26-28
    Jesus, tenhamos por certo, quer fazer de nós verdadeiros sacrários, onde quer guardar-Se para sempre: "Se alguém Me ama, guardará Minha palavra e Meu Pai amá-lo-á. E Nós viremos a ele, e nele faremos Nossa morada." Jo 14,23
    Essa é Sua Missão, como São Paulo disse: "... a fim de que Deus seja tudo em todos." 1 Cor 15,28

    "Confirmai Vosso povo na Unidade!"

sexta-feira, 5 de junho de 2020

São Bonifácio


    O 'Apóstolo da Alemanha' era movido pelo sonho de evangelizar os mais afastados e refratários pagãos à fé cristã na Europa. Ao seu tempo, entre 672 e 754, a sede do Império Romano já havia sido transferida para a cidade de Constantinopla, atual Istambul, na Turquia, e por isso estava mais fácil a interação social entre os povos cristãos e os reinos do norte no Continente Europeu, apesar da brutal violência ainda observada em vários e localizados conflitos.
    Nosso Santo nasceu na Inglaterra, de nobre família, e desde os 5 anos já dizia que queria ser um monge, dada a forte impressão que lhe causavam os beneditinos que conhecia. Aos 7 foi levado para a abadia de Exeter, e anos mais tarde, para a abadia de Nursling, próximo a Winchester, onde concluiu seus estudos e tornou-se professor de ciências literárias. Nesse período, escreveu a primeira gramática de latim para os ingleses, que foi vastamente utilizada e ainda hoje é reeditada.
    Aos 30 anos foi ordenado Sacerdote, e, ao tomar parte de seu primeiro Sínodo, que incluiu Ina, o rei saxão de Wessex, viu seus talentos para diplomacia serem reconhecidos: foi enviado ao Arcebispo da Cantuária, principal bispado inglês, para pedir aprovação das decisões tomadas no Sínodo. Mas, à medida que retornava à convivência com a nobreza, Winfrid, seu nome de nascimento, entregava-se, em sentido contrário, cada vez mais ao recolhimento monástico e aos estudos das Sagradas Escrituras. E seu espírito missionário começou a aflorar.


    Para evangelizar, em 716 ele e mais 3 monges de Nursling escolheram Utrecht, capital da Frísia, que veio a ser a Holanda, terra de seus antepassados, onde o rei Radbod era perseguidor de cristãos e os Sacerdotes em visita, mesmo clandestinas, temiam permanecer por muito tempo. Aí conheceu Santo Amand e Santo Elói, mas com eles não pôde conviver por muito tempo, pois o acirramento das guerras desse monarca com o cristão Cláudio Martel, rei franco, tornou impossíveis seus trabalhos.
    Retornaram, então, a Inglaterra, mas sua alma, após ter conhecido a situação daquela gente, pôs-se por demais inquieta. Com a morte do abade Winbrecht, seu mentor em Nursling, por unanimidade foi indicado para seu posto, porém, sonhando com a vida de missionário no Continente Europeu, humildemente implorou para que o dispensassem.
    Em 718 viajou a Roma ao encontro do Papa Gregório II e dispôs-se para trabalhar na evangelização dos reinos do norte da Europa. Bastante sensibilizado por seu fervor evangélico, o Sumo Pontífice denominou-o Bonifácio, tradução latina de seu nome, e deu-lhe cartas oficiais que lhe autorizavam pregar aos germanos.
    Foi a Baviera e a Turíngia, mas, como pedia seu coração, acabou voltando a Frísia, onde reencontrou o Bispo São Vilibrordo, seu compatriota, que para lá também havia retornado após o fim das mais violentas convulsões. Este ficou muito contente ao revê-lo, pois já estava muito idoso e não pensava em outra pessoa para assumir o bispado. Porém, mais uma vez, São Bonifácio sentia que precisava evangelizar a pobre gente do campo, sem se prender à sede da Diocese.


    Mudou-se para a região central da Alemanha, Hesse, onde havia trabalhado São Kilian, beneditino irlandês, e fundou seu primeiro mosteiro em Amoeneburg, próximo a Fulda, onde Sturm, um de seus discípulos, iria fundar em 743 o mosteiro que se tornaria a referência dos beneditinos, ponto de partida de todas missões entre os germanos.
    Anos depois, em 722, ao saber do sucesso de suas incursões, o novo Papa Gregório III convidou-o a Roma e ordenou-o bispo, não de uma diocese, mas de toda região da Germânia e também de uma parte da Gália, atualmente terras da França. Ainda lhe deu poderes para organizar a hierarquia eclesial nessas terras, e desta vez, em obediência aos planos do Papa, ele não pôde recusar.
    Ultrapassou a 'limes romana' e, nas terras onde um deus pagão era adorado, construiu a primeira capela de Fritzlar, ao norte de Hesse, que dedicou a São Pedro, fato que é reconhecido como início da cristianização dos germanos. Contudo, aí não se demorou: em 724 seguiu para a Turíngia e fundou o Mosteiro de São Miguel, perto de Gotha. Também fundou mosteiros femininos em Kitzingen, Ochsenfurt e Bischoffsheim, os dois primeiros em terras hoje do Sul da Alemanha, e o último, no leste da França.


    Em 732, em mais um gesto de apreço, o Papa Gregório III conferiu-lhe o Pálio, sinal de investidura de arcebispado. Em 737 foi feito Legado Papal, um representante pessoal do Sumo Pontífice, e a partir daí fundou os bispados de Regensburgo, Frisinga, Salzburgo e Batávia, estes dois últimos já em terras que hoje correspondem a Áustria e Holanda, respectivamente.
    Em 742 elevou Mainz, região mais central da Europa e próxima a França, à condição de Sé Metropolitana, e foi investido como seu primeiro arcebispo, embora com autoridade sobre toda Germânia.
    Em terras então sob domínio dos francos, fundou as dioceses de Büraburg, Würzburgo e Erfurt, todas na atual Alemanha, e designou seus bispos, afastando totalmente qualquer influência do imperador carolíngio. Anualmente organizava sínodos provinciais, para manter a Unidade da Igreja.
    Ele registrou:
    "A Igreja é como um grande navio sendo atacado por ondas das diferentes aflições da vida. Nosso dever não é abandonar o navio, mas mantê-lo em seu curso."
    "Vamos confiar n'Aquele que colocou esse fardo sobre nós. O que nós mesmos não pudermos suportar, vamos suportar com a ajuda de Cristo. Pois Ele é Todo-poderoso, e diz-nos: 'Meu jugo é suave e Meu fardo é leve.'"
    "Permaneçamos firmes no que é certo e preparemos nossas almas para o Julgamento. Vamos aguardar a fortalecedora ajuda de Deus e dizer-lhe: 'Ó Senhor, Tu tens sido nosso refúgio em todas gerações.'"
    "Não sejamos cães que não ladram, nem silenciosos espectadores, nem criados pagos que fogem diante do lobo. Ao contrário, sejamos cuidadosos pastores vigiando o rebanho de Cristo. Preguemos todo plano de Deus a poderosos e a humildes, a ricos e a pobres, a homens de todos níveis e idades, até onde Deus nos der força, em época e fora de estação."
    "Pode haver mais adequada busca na juventude ou mais valiosa possessão na velhice que o conhecimento das Sagradas Escrituras? Em meio às tempestades, tu serás preservado dos perigos do naufrágio e guiado à praia de um encantador paraíso, e à eterna felicidade dos anjos."
    "Diz a Sagrada Escritura que os homens que mergulham no luxo passam insones noites pela ansiedade, girando suas frágeis teias que só apanham poeira ou um sopro de vento, pois, como diz o salmista: 'Eles reúnem tesouros, e não sabem para quem o reúnem.'"
    "Para citar o Apóstolo, tudo é conflito por fora e ansiedade por dentro. Mas em meu caso também existem conflitos por dentro e ansiedade por fora. Isso é causado, em particular, por falsos sacerdotes e hipócritas que desafiam a Deus, correndo para sua própria condenação e levando fiéis ao erro por seus escândalos e faltas."


    Em 754, por volta de seus 80 anos, voltou a Frísia e reacendeu o antigo sonho de levar à conversão seu povo, tão rebelde e violento. Entretanto, parecia sentir que seu fim já se aproximava. Escreveu àquele que viria a ser seu sucessor em Mainz, o Bispo Lulo: "Desejo levar a termo o propósito desta viagem. Não posso, de modo algum, renunciar ao desejo de partir. Está próximo o dia do meu fim, aproxima-se a hora da minha morte. Uma vez que os despojos mortais forem sepultados, subirei para receber o prêmio eterno. Mas tu, caríssimo filho, incessantemente admoesta o povo no labirinto do erro, completa a edificação já iniciada da Basílica de Fulda e aí sepultarás meu corpo, envelhecido por longos anos de vida."
    Após ser bem acolhido pelos frísios e ter ministrados vários Batismos, numa localidade próxima a Dokkum, no dia de Pentecostes, enquanto celebrava a Santa Missa na qual crismaria um grande grupo, viu o lugar ser invadido por um bando de pagãos armados, que brutalmente o assassinaram junto a outros 52 cristãos.
    Seus restos mortais foram levados a Fulda, como havia pedido, e foram sepultados na Catedral do São Salvador, numa cripta atrás do altar.


    São Bonifácio, rogai por nós!

quinta-feira, 4 de junho de 2020

A Alma


    Falar sobre a alma é difícil, porque sua unidade com o corpo é por demais complexa. A Igreja ensina que a alma é como que a 'personalidade' do corpo, ou seja, é ela que confere 'traços' humanos à carne, dotando-a de suas pessoais particularidades. Noutras palavras, ela seria a parte 'espiritual' do corpo, ou, ainda mais complexo, a parte 'física' do espírito. Na verdade, o corpo e a alma não são duas naturezas distintas, mas compõem a mesma natureza humana. São uma única e mesma criação de Deus, só separáveis pela morte, e que tornarão a unir-se no dia da Ressurreição da carne.
    Aqui também não se tentará distinguir alma de espírito, como São Paulo detalha: "O Deus da Paz conceda-vos perfeita santidade. Que todo vosso ser, espírito, alma e corpo, seja conservado irrepreensível para a Vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo!" 1 Ts 5,23
    Com efeito, ele usou estes termos para diferenciar Jesus de Adão: "Como está escrito: 'O primeiro homem, Adão, foi feito vivente alma (Gn 2,7)'; o segundo Adão é Vivificante Espírito." I Cor 15,45
    Resta oportuno, no entanto, citar um rápido conceito que diz ser a alma a 'identidade espiritual' da pessoa carnal, salvaguardando-se, porém, a palavra espírito apenas para a natureza sobrenatural do ser, totalmente isenta da carne, como a alma não o seria. São sutilezas, enfim, como se vê no Eclesiástico, ao recomendar autoconhecimento, apontando para essa 'parte' de nosso 'espírito': "Meu filho, experimenta tua alma durante tua vida. Se o poder lhe for nefasto, não lho dês, pois nem tudo é vantajoso para todos, e nem todos se comprazem nas mesmas coisas." Eclo 37,30-31
    Não bastante, também a palavra 'vida' aparece na Bíblia para designar o que seria a alma, como foi usada pelo próprio Jesus: "Porque aquele que quiser salvar sua vida, perdê-la-á. Mas aquele que tiver sacrificado sua vida por Minha causa, recobrá-la-á. Que servirá a um homem ganhar o mundo inteiro, se vem a prejudicar sua vida? Ou que dará um homem em troca de sua vida?... " Mt 16,25-26
    De fato, a vida na terra todos havemos de perder, exceto aqueles que estiverem vivos no Dia da Gloriosa Volta de Jesus. Mas aí está claro que Ele quis dizer que estaremos colocando nossa alma em desgraça, se, agindo contra a vontade de Deus, tentarmos preservar a vida terrena.
    Noutra passagem, contudo, o Divino Mestre vai fazer o inverso: falar de alma com o sentido vida terrena: "Deus, porém, disse-lhe: 'Insensato! Nesta noite ainda exigirão de ti tua alma. E as coisas, que ajuntaste, de quem serão?'" Lc 12,20
    Todavia, há mais uma passagem em que Ele usa a palavra 'vida' com sentido de alma: "Ninguém tem maior amor que aquele que dá sua vida por seus amigos." Jo 15,13
    Sem dúvida, a vida terrena não poderia ser mais importante que a alma, pois, mais que a vida terrena, na Cruz Jesus entregou-Se totalmente: entregou Seu Espírito ao Pai. Ele disse: "Pai, em Tuas mãos entrego Meu Espírito." Jo 23,46
    A palavra alma, ademais, é usada no Novo Testamento com o sentido de 'pessoa'. São Lucas anotou: "Aqueles que acolheram a palavra de Pedro, receberam o Batismo. E nesse dia uniram-se a eles cerca de três mil almas." At 2,41
    Jesus, em paralelo, usou-a para designar o que há de mais íntimo na pessoa. Foi o que escreveu São Mateus, ao relatar Sua agonia no Horto das Oliveiras, quando disse a São Pedro, São TiagoSão João: "Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai Comigo." Mt 26,38
    Em seu Evangelho, São João também empregou-a para narrar a mesma cena: "Presentemente, Minha alma está perturbada. Mas que direi?... Pai, salva-Me desta hora... Mas é exatamente para isso que vim a esta hora." Jo 12,27
    A alma, por fim, é imortal, como o futuro corpo que receberemos na Ressurreição da carne. Mas não podemos confundir, entre corpo e alma, o que seria mais importante. Aqui Jesus refere-Se à alma no sentido mais usual, e como aquilo que de mais valioso possuímos: "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes temei Aquele que pode precipitar a alma e o corpo no inferno." Mt 10,28
    É ela que retorna ao corpo em caso de milagres de ressurreição, como a realizada por Elias, do filho da viúva de Sarepta de Sidon: "Estendeu-se, em seguida, sobre o menino por três vezes, de novo invocando o Senhor: 'Senhor, Meu Deus, rogo-vos que a alma deste menino volte a ele.' O Senhor ouviu a oração de Elias: a alma do menino voltou a ele, e ele recuperou a vida." 1 Rs 17,21-22
    São Paulo realizou idêntico milagre, inclusive no modus operandi, a um cristão de Trôade, que caíra do terceiro andar durante sua pregação: "Paulo desceu, debruçou-se sobre ele, tomou-o nos braços e disse: 'Não vos perturbeis, porque sua alma está nele.'" At 20,10
    E nessa condição de espiritualidade foi a louvação de Nossa Senhora a Deus, durante a visita que fez a Santa Isabel: "E Maria disse: 'Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, Meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora todas gerações proclamar-me-ão bem-aventurada, porque em mim realizou maravilhas Aquele que é poderoso, e Cujo Nome é Santo.'" Lc 1,46-49
    Também o rei Davi, ao ser inspirado quanto à Ressurreição do Cristo: "Por isso, Meu Coração alegra-se e Minha alma exulta. Até Meu Corpo descansará seguro, porque Vós não abandonareis Minha alma na habitação dos mortos, nem permitireis que Vosso Santo conheça a corrupção." Sl 15,9-10
    Afirmativamente, Jesus promete Consolação às nossas almas, não aos corpos: "Tomai Meu jugo sobre vós e recebei Minha Doutrina, porque Eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para vossas almas." Mt 11,29
    Ora, a inspiração do salmista já atinava: "A Lei do Senhor é perfeita, reconforta a alma." Sl 18,8a
    Mas o livro da Sabedoria adverte: "A Sabedoria não entrará na perversa alma, nem habitará no corpo sujeito ao pecado. O Espírito Santo Educador das almas fugirá da perfídia, afastar-se-á de insensatos pensamentos, e a iniquidade que está por vir O repelirá." Sb 1,4-5


A SALVAÇÃO

    Há muito tempo que as Escrituras já se referem à alma como o que o ser humano tem de mais sagrado. Está no Deuteronômio: "Amarás o Senhor, Teu Deus, de todo teu coração, de toda tua alma e de todas tuas forças." Dt 6,5
    Também disse o Eclesiástico: "Teme a Deus com toda tua alma, tem um profundo respeito pelos Seus Sacerdotes." Eclo 7,31
    E o salmista invocava sua alma para louvar a Deus: "Aleluia! Louva, ó minha alma, o Senhor!" Sl 145,1
    A Santíssima Virgem, durante a Apresentação do Menino Jesus no Templo de Jerusalém, ouviu do religioso Simeão que estaria intrinsecamente envolvida no projeto da Salvação: "... e a Ti, uma espada traspassará Tua alma!" Lc 2,35
    De fato, desde o 'sim' concedido ao Arcanjo São Gabriel, ela passou a ser a Mãe espiritual de todos os seres humanos, como São João Evangelista narrou no Apocalipse: "Cheio de raiva por causa da Mulher, o Dragão começou a combater o resto dos filhos dela, aqueles que observam os Mandamentos de Deus e guardam o testemunho de Jesus." Ap 12,17
    A Salvação, portanto, estejamos aqui na terra ou no Purgatório, especificamente diz respeito a nossas almas. Ora, num caso de pecaminoso comportamento, São Paulo, confiante no perdão que é concedido do 'vindouro século', chegou a dizer: "... seja esse homem entregue a Satanás para mortificação de seu corpo, a fim de que sua alma seja salva no Dia do Senhor Jesus." 1 Cor 5,5
    E esta não foi a única vez. Ele escreveu a São Timóteo: "É o caso de Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para que aprendam a não blasfemar." 1 Tm 1,20
    Também aos coríntios: "Por isso, estamos sempre cheios de confiança. Sabemos que todo tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor. Andamos na , e não na visão. Estamos, repito, cheios de confiança, preferindo ausentar-nos deste corpo para ir habitar junto ao Senhor. É também por isso que, vivos ou mortos, esforçamo-nos por agradar-Lhe." 2 Cor 5,6-10
    Reveladoramente, São João Evangelista viu as almas dos Santos no Céu, enquanto intercediam a Deus: "Quando abriu o quinto selo, debaixo do altar vi as almas dos homens imolados por causa da Palavra de Deus e por causa do testemunho de que eram depositários. E clamavam em alta voz, dizendo: 'Até quando Tu, que és o Senhor, o Santo, o Verdadeiro, ficarás sem fazer justiça e sem vingar nosso sangue contra os habitantes da terra?'" Ap 6,9-10
    Eles já estão reinando com Cristo, pois passaram pela Primeira Ressurreição, foram direto ao Céu sem passar pelo Purgatório: "Também vi tronos, sobre os quais se assentaram aqueles que receberam o poder de julgar: eram as almas dos que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, e todos aqueles que não tinham adorado a Fera nem sua imagem, que não tinham recebido seu sinal na fronte nem nas mãos. Eles viveram uma Nova Vida e com Cristo reinaram por mil anos. Os outros mortos não tornaram à vida até que se completassem os mil anos. Esta é a Primeira Ressurreição. Feliz e Santo é aquele que toma parte na Primeira Ressurreição! Sobre eles a segunda morte não tem poder, mas serão Sacerdotes de Deus e de Cristo: com Ele reinarão durante os mil anos." Ap 20,4-6
    E São Pedro assim vai explicar a descida de Jesus à Mansão dos mortos: "Pois para isto o Evangelho foi pregado também aos mortos. Para que, embora sejam condenados em sua humanidade de carne, vivam segundo Deus quanto ao espírito." 1 Pd 4,6
    Ele já havia dito, e com todas letras, qual é a maior alegria do ser humano: "Este Jesus, vós amai-Lo sem O terdes visto, n'Ele credes ainda sem O verdes. E isto é para vós a fonte de uma inefável e gloriosa alegria, porque estais certos de obter, ao preço de vossa fé, a Salvação de vossas almas." 1 Pd 1,8-9
    Por isso, ele exortava: "Assim também aqueles, que sofrem segundo a vontade de Deus, encomendem suas almas ao Fiel Criador, praticando o bem." I Pd 4,19
    Com efeito, Nosso Salvador afirmou: "O Filho do Homem não veio para condenar as almas, mas para salvá-las." Lc 9,56
    E ao falar sobre nosso corpo corruptível, ensinou: "... a carne de nada serve." Jo 6,63
    O livro da Sabedoria já havia dito algo parecido: "... o corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime o espírito carregado de cuidados." Sb 9,15
    E São Tiago Menor fazia esse paralelo: "Assim como o corpo sem a alma é morto, assim também a fé sem obras é morta." Tg 2,26
    Pois a Salvação vem pela verdadeira observância da Palavra de Deus: "Rejeitai, pois, toda impureza e todo vestígio de malícia, e com mansidão recebei a Palavra em vós semeada, que pode salvar vossas almas." Tg 1,21
    Palavra essa que ensina a redentora e virtuosa prática da caridade, como Tobit ensinou ao seu filho Tobias: "Dá esmola de teus bens e não te desvies de nenhum pobre, pois, assim fazendo, tampouco Deus Se desviará de ti. Sê misericordioso segundo tuas posses. Se tiveres muito, dá abundantemente; se tiveres pouco, dá desse pouco de bom coração. Assim acumularás uma boa recompensa para o dia da necessidade: porque a esmola livra do pecado e da morte, e preserva a alma de cair nas trevas. A esmola será para todos que a praticam um motivo de grande confiança diante do Deus Altíssimo." Tb 4,7-12
    Ora, ressaltando a vitalidade de Seus Mandamentos, Deus havia prometido através do Profeta Isaías: "Prestai-Me atenção, e vinde a Mim. Escutai, e vossa alma viverá..." Is 55,3
    E o livro da Sabedoria assegura: "Mas as almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará. Aparentemente, estão mortos aos olhos dos insensatos: seu desenlace é julgado como uma desgraça e sua morte como uma destruição, quando na verdade estão na Paz! Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, a esperança deles era portadora de imortalidade. E por terem sofrido um pouco, receberão grandes bens, porque Deus, que os provou, achou-os dignos de Si." Sb 3,1-5
    Por isso, o salmista mostra-se agradecido: "Quando Vos invoquei, Vós respondestes-me, aumentastes o vigor de minha alma." Sl 137,3
    Tal qual prometeu Jesus, o sagrado autor bem percebia de onde vinha sua Consolação e Salvação: "Só em Deus repousa minha alma, porque d'Ele vem minha Salvação." Sl 62,2
    Sentia sede de Deus: "Ó Deus, Vós sois Meu Deus, com ardor procuro-Vos. Minha alma tem sede de Ti..." Sl 63,2
    E sabia que ela seria plenamente saciada: "Minha alma será saciada, como num grande banquete..." Sl 63,6
    Os discípulos de São Paulo assim expressaram o poder da Palavra, que é o próprio Verbo, isto é, Jesus em Pessoa, bem como seu peculiar alcance: "Porque a Palavra de Deus é viva, eficaz, mais penetrante que uma espada de dois gumes e atinge até a divisão da alma e do corpo, das juntas e medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração." Hb 4,12
    Deus Pai, por sinal, recebe nesta carta uma carinhosa evocação: "Com quanto mais razão nos havemos de submeter ao Pai de nossas almas..." Hb 12,9
    A tradição do Último Apóstolo ainda testificou a imensa responsabilidade dos Sacerdotes da Igreja. De fato, eles vão ter que prestar contas de nosso mais precioso bem: "Sede submissos e obedecei aos que vos guiam, pois eles velam por vossas almas e delas devem dar conta." Hb 13,17
    E lembrando os Sacramentos da Igreja, aponta a solução para vencer o pecado: "É muito melhor fortificar a alma pela Graça..." Hb 13,9a
    Porque, como o próprio São Paulo ensinou, vivemos tempos de intenso embate espiritual, e contra poderosas classes angélicas que caíram em perdição: "Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste tenebroso mundo, contra as forças espirituais do Mal espalhadas nos ares." Ef 6,12
    Ele exorta: "Renunciai à passada vida, despojai-vos do velho homem, corrompido por enganadoras concupiscências. Renovai sem cessar o sentimento de vossa alma e revesti-vos do novo homem, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade. Por isso, renunciai à mentira. Cada um fale a seu próximo a Verdade, pois somos membros uns dos outros. Mesmo em cólera, não pequeis. Não se ponha o sol sobre vosso ressentimento. Não deis lugar ao demônio." Ef 4,22-27
    E assim explica o que representa a rebeldia a Deus: "E vós estáveis mortos por vossas faltas, pelos pecados que outrora cometestes seguindo o modo de viver deste mundo, do príncipe das potestades do ar, do espírito que agora atua nos rebeldes." Ef 2,1-2
    Conclamava, então, à unidade da Igreja, nosso refúgio e fortaleza, pela Comunhão espiritual: "... completai minha alegria permanecendo unidos. Tende um mesmo amor, uma só alma e os mesmos pensamentos." Fl 2,2
    São Lucas também usou essa expressão, quando a Igreja formou sua primeiríssima comunidade: "A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma." At 4,32a
    São João Evangelista fala do bem que essa Comunhão opera: "Se, porém, andamos na Luz como Ele mesmo está na Luz, temos Comunhão uns com os outros, e o Sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, purifica-nos de todo pecado." 1 Jo 1,7
    E São Paulo dá idêntico conselho a São Timóteo: "Foge das paixões da mocidade, e com empenho busca a justiça, a fé, a caridade, a Paz, em companhia daqueles que invocam o Senhor com pureza de coração." 2 Tm 2,22
    São Pedro diz de nossos inimigos: "Caríssimos, rogo-vos que vos abstenhais, como estrangeiros e peregrinos, dos desejos da carne, que combatem contra a alma." 1 Pd 2,11
    Assim como da razão de ser dessa batalha: "Em obediência à Verdade, tendes purificado vossas almas para praticardes um sincero e fraterno amor." 2 Pd 1,22
    E afirma, com exatidão, o que Jesus representa para nós: "Porque éreis como desgarradas ovelhas, mas agora retornastes ao Pastor e Guarda de vossas almas." 1 Pd 2,25

    "Concedei-nos o convívio dos eleitos!"

quarta-feira, 3 de junho de 2020

O Ateísmo


    Os principais argumentos dos ateus para afirmar a 'inexistência' de Deus são Sua 'ausência' e Sua 'inoperância'. Como acreditar, dizem, se não se tem 'nenhuma evidência de Sua presença ou de Sua atividade'? Mas será que eles examinam com honestidade os sinais de Deus? Usam de alguma prudência ao analisá-los? Haveria sensatez em desprezar os testemunhos de milhões e milhões de pessoas por todo mundo? Ou só eles seriam inteligentes o bastante para aferir a Verdade?
    Para o ateu, o sofrimento está aí, as doenças continuam assolando muita gente a despeito de suas crenças, ou da falta de uma, os pobres e inocentes são sempre os mais explorados e maltratados, a maioria segue indiferente aos sentimentos alheios, o mundo não tem melhorado... Milhões de miseráveis, fome, guerras, enfermidades, catástrofes naturais... Enfim, onde estaria 'esse' Deus? Cadê Seu poder? Trata-se, apenas, de numa promessa de Vida Eterna? E essa 'vida eterna'? Algum sinal de que realmente exista?
    A ciência é que pode explicar tudo, segundo eles: o Universo, a origem do ser vivo, a 'humanização' e as civilizações através dos tempos. E, aos poucos, todos fenômenos da natureza seriam compreendidos. Ou seja, não 'precisaríamos' de Deus!
    Mas Jesus foi direto ao ponto. Demonstrando a grandeza e o amor à Verdade de São João Batista diante de religiosos de Jerusalém, Ele levantou a decisiva questão e denunciou as presunções dos que renegam : "Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros, e não buscais a Glória que é só de Deus?" Jo 5,44
    Também acusou falsos religiosos, que abandonam a sincera busca da Verdade: "Vós procurais parecer justos aos olhos dos homens, mas Deus conhece-vos os corações. Pois o que é elevado aos olhos dos homens, é abominável aos olhos de Deus." Lc 16,15b
    A Nicodemos, um notável entre os fariseus que não percebia a ação do Espírito Santo sobre Seus ungidos, Ele vai perguntar: "És mestre em Israel e ignoras estas coisas?!... Se vos tenho falado das coisas terrenas e não Me credes, como crereis se vos falar das celestiais?" Jo 3,10.12
    E em debate com os judeus sobre Deus Pai, Ele apontou outra elementar questão que remete à má vontade de alguns, bem como à limitação das palavras para exprimir o inefável: "Por que não compreendeis Minha linguagem?" Jo 8,43a
    Ele vai dizer da inspiração do Espírito Santo a Nicodemos, ainda em Sua primeira Páscoa em vida pública: "Não te maravilhes que Eu te tenha dito: Necessário é-vos nascer de novo. O vento sopra onde quer, ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito." Jo 3,7-8
    Citando a Revelação, Jesus evoca a essência da fé perante os judeus, para atestar Sua Encarnação: "Vós perscrutais as Escrituras, nelas julgando encontrar a Vida Eterna. Pois bem! São elas mesmas que dão testemunho de Mim." Jo 5,39
    Evoca o próprio Moisés: "Pois se crêsseis em Moisés, certamente creríeis em Mim, porque ele escreveu a Meu respeito. Mas, se não acreditais em seus escritos, como acreditareis em Minhas Palavras?" Jo 5,46-47
    Quando Se declarou a Luz do mundo no Templo de Jerusalém, foi categórico perante os fariseus, desmontando meras teorias e especulações, e apresentando-Se como a maior manifestação de Deus: "Não conheceis nem a Mim nem a Meu Pai. Se Me conhecêsseis, certamente também conheceríeis a Meu Pai." Jo 8,19b
    Incitava-os a desvendar o Sagrado: "Se alguém quiser cumprir a vontade de Deus, distinguirá se Minha Doutrina é de Deus ou se falo de Mim mesmo." Jo 7,17
    E não hesitou em descartar a fé dos samaritanos: "Vós adorais o que não conheceis..." Jo 4,22a
    Foi sucinto quando os Apóstolos perguntaram sobre os fariseus: "Toda planta que Meu Pai Celeste não plantou será arrancada pela raiz. Deixai-os. São cegos e guias de cegos. Ora, se um cego conduz a outro, ambos tombarão na mesma vala." Mt 15,13.14
    Realmente mostrava-Se irredutível quanto à importância de Sua Missão: "Aquele que não honra o Filho, não honra o Pai, que O enviou." Jo 5,23b
    Afirmando Sua própria divindade, Ele chegou a desafiar os religiosos de Jerusalém: "Quem de vós Me acusa de pecado?" Jo 8,46a
    E como eles restavam inertes, exigiu o respeito que cabe ao Seu testemunho: "E se vos falo a Verdade, por que Me não credes?" Jo 8,46b
    Avisava, usando o título com que Deus Se apresentou a Moisés, do que representa não crer n'Ele: "... porque se não crerdes que EU SOU, morrereis em vosso pecado." Jo 8,24b
    Chegou a apelar tão somente para Seus milagres: "Se Eu não faço as obras de Meu Pai, não Me creiais. Mas se as faço, e se não quiserdes crer em Mim, crede em Minhas obras para que saibais e reconheçais que o Pai está em Mim e Eu no Pai." Jo 10,37-38
    A pertinácia de Seus opositores, porém, era grande: "Mas alguns deles disseram: 'É por Beelzebul, príncipe dos demônios, que Ele expele os demônios.'" Lc 11,15
    E Jesus assim a explicava: "... a Luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas que a Luz, pois suas obras eram más. Entretanto, aquele que pratica a Verdade vem para a Luz." Jo 3,19b.21a
    No Templo de Jerusalém, Ele foi breve ao responder ao povo: "Perguntaram-Lhe: 'Que faremos para praticar as obras de Deus?' Respondeu-lhes Jesus: 'A obra de Deus é esta: que creiais n'Aquele que Ele enviou.'" Jo 8,28-29
    Por isso, ante o anúncio que Ele fazia de Sua Paixão, de inevitáveis escândalos e da obrigação de perdoar arrependidos, os Apóstolos pediam-Lhe: "Aumentai-nos a fé!" Lc 17,5b
    Sem dúvida, os seguidores da tradição de São Paulo iriam apontá-Lo como o "... Autor e Consumador de nossa fé, Jesus." Hb 12,1c
    Seu proceder, de fato, impunha autoridade: "Enquanto Jesus celebrava em Jerusalém a festa da Páscoa, muitos creram em Seu Nome, à vista dos milagres que fazia. Mas Jesus mesmo não Se fiava neles, porque conhecia a todos. Ele não necessitava que alguém desse testemunho de nenhum homem, pois bem sabia o que havia no homem." Jo 2,23-25
    A própria guarda do sumo sacerdote, enviada para prendê-Lo na festa das Tendas, voltou sem Ele, afirmando: "Ninguém jamais falou como Este Homem!..." Jo 7,46
    E São João Batista mesmo atestou o poder de Sua Palavra, apontando-a como caminho para verificar quão veraz é o próprio Deus: "Aquele que vem de cima é superior a todos. Aquele que vem da terra é terreno e fala de coisas terrenas. Aquele que vem do Céu é superior a todos. Ele testemunha as coisas que viu e ouviu, mas ninguém recebe Seu testemunho. Aquele que recebe Seu testemunho, porém, confirma que Deus é verdadeiro." Jo 3,31-33
    Ele também apontou a questão da linguagem, testemunhando a Unção do Espírito de Deus sobre Jesus e abrindo caminho para a compreensão da Santíssima Trindade: "Com efeito, Aquele que Deus enviou fala a linguagem de Deus, porque Ele concede o Espírito sem medidas. O Pai ama o Filho e confiou-Lhe todas coisas." Jo 3,34-35
    E outra vez revelando a luminosa coerência das Escrituras, Jesus vai ensinar: "Deus é Espírito..." Jo 4,24
    Garantia, em Sua Pessoa, o cumprimento dos planos de Deus: "O Reino de Deus não virá de ostensivo modo. Nem se dirá: 'Ei-lo aqui', ou: 'Ei-lo ali.' Pois o Reino de Deus já está em meio a vós." Lc 17,20a-21
    São João Evangelista, por sua vez, vai ater-se à expressa manifestação do próprio Espírito Santo e cabalmente apontar: "Nisto se reconhece o Espírito de Deus: todo espírito que proclama que o Cristo encarnou em Jesus é de Deus. E todo espírito que não proclama Jesus esse não é de Deus, mas é o espírito do Anticristo de cuja vinda tendes ouvido, e agora já está no mundo." 1 Jo 4,2-3
    Falando sobre o Pai, ele diz que Jesus é Seu principal testemunho: "Aquele que não crê em Deus, faz d'Ele mentiroso, porque não crê no testemunho que Ele deu em favor de Seu Filho." 1 Jo 5,10b
    Abrangendo a ampla dimensão da questão e tentando simplificar, este Apóstolo cunhou essa bela frase: "... Deus é amor." 1 Jo 4,8
    E alega esta razão: "Aquele que não ama não conhece a Deus..." Idem
    De fato, como poderíamos quantificar o amor que está em ação, nesse momento, pelo mundo afora? Ora, os que mais amam são exatamente aqueles que mais sofrem, toleram e calam-se diante de injustiças e desgraças. Haveria maior mensagem que eles nos pudessem dar? E, dadas as condições da vida humana, não é a Divina Consolação a mais frequente dádiva que Deus nos concede? Através do Profeta Isaías, Ele afirmou: "Eu, Eu mesmo sou Vosso Consolador!" Is 51,12
    Jesus revelou esse detalhe sobre Si mesmo quando falou do envio do Espírito Santo. De fato, se o Espírito de Deus é 'outro' consolador, é porque essa é uma das mais claras atribuições de Deus, seja Pai, Filho ou Espírito: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele dá-vos-á outro Consolador, para que convosco fique eternamente." Jo 14,16
    Ele oferece, portanto, Aquele que nos conduz à verdadeira percepção da realidade: "É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber porque não O vê nem O conhece. Mas vós conhecê-Lo-eis, porque convosco permanecerá e em vós estará." Jo 14,17
    Pois o Espírito de Deus veio para revelar a Verdade: "E quando Ele vier, convencerá o mundo a respeito do pecado, da justiça e do Juízo." Jo 16,8
    Jesus também foi bem claro quando falou sobre Seus socorros, que dizem respeito às nossas almas: "Tomai Meu jugo sobre vós e recebei Minha Doutrina, porque Eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para vossas almas." Mt 11,29
    E igualmente dizem respeito à Ressurreição da carne e ao Eterno Banquete, mas apenas àqueles amados pelo Pai, que antes nos leva ao Cristo: "Ninguém pode vir a Mim se o Pai, que Me enviou, não o atrair. E Eu hei de ressuscitá-lo no Último Dia." Jo 6,44
    Contudo, Ele já antevia: "Se não ouvirem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que algum dos mortos ressuscite." Lc 16,31
    Por isso, avisava a Igreja das tribulações que se enfrenta nesse mundo, como Ele mesmo enfrentou: "Referi-vos essas coisas para que em Mim tenhais a Paz. No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo." Jo 16,33
    E enquanto Consolador, contra todas aflições e todo mal, Ele promete Sua indizível Paz, que só o próprio Deus pode oferecer: "Deixo-vos a Paz, dou-vos Minha Paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe vosso coração, nem se atemorize!" Jo 14,27
    São Paulo explicou a dádiva que é a Unção do Santo Paráclito, para a compreensão da realidade à nossa volta: "Ora, nós não recebemos o espírito do mundo, mas sim o Espírito que vem de Deus, que nos dá a conhecer as Graças que Deus nos prodigalizou e que pregamos numa linguagem que nos foi ensinada não pela sabedoria humana, mas pelo Espírito, que exprime as coisas espirituais em termos espirituais. Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar." 1 Cor 2,12-14
    Ele foi assertivo ao explicar a Paixão de Nosso Senhor: "A linguagem da Cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma divina força." 1 Cor 1,18
    E garante, citando o Profeta Isaías, que Deus excede em muito todas nossas expectativas: "É como está escrito: 'Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou' (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que O amam." 1 Cor 2,9


A MAIOR MANIFESTAÇÃO DE DEUS

    Ademais, é de notar-se que a 'ausência' ou a 'inoperância' de Deus é 'denunciada', em geral, por aqueles que acham que tudo depende apenas de nós mesmos. São visivelmente movidos por ativismo, racionalismo e materialismo. Para eles, de fato, Deus não está aí para ser percebido, pois nenhuma dessas posturas, principalmente quando levadas ao extremo, permite boa observação das coisas ao redor. Falando dos pagãos, São Paulo diz que toda humanidade é originalmente dotada dessa capacidade: "Desde a criação do mundo, as invisíveis perfeições de Deus, Seu sempiterno poder e divindade, tornam-se visíveis à inteligência por Suas obras, de modo que não podem escusar-se." Rm 1,20
    O sentido da vida era-lhe bem claro: "Deus fez, a partir de um só homem, todo gênero humano para habitar em toda face da Terra. E fixou a sequência dos tempos e os limites para sua habitação, a fim de que os homens procurem a Deus e esforcem-se por encontrá-Lo, mesmo tateando, embora não Se encontre longe de cada um de nós. Porque é n'Ele que temos a vida, o movimento e o ser..." At 17,26-28a
    E que a relutância em negar esta capacidade significa atrair graves castigos: "A ira de Deus manifesta-se do alto do Céu contra toda impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a Verdade." Rm 1,18
    Ele diz aos coríntios: "Se nosso Evangelho ainda estiver encoberto, está encoberto para aqueles que se perdem, para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a Luz do Evangelho, onde resplandece a Glória de Cristo, que é a imagem de Deus. De fato, não pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo, o Senhor. Quanto a nós, consideramo-nos vossos servos por amor a Jesus. Porque Deus que disse: 'Das trevas brilhe a Luz', também é Aquele que fez brilhar Sua Luz em nossos corações, para que irradiássemos o conhecimento do esplendor de Deus, que se reflete na face de Cristo. Porém, temos este tesouro em vasos de barro, para que claramente transpareça que este extraordinário poder provém de Deus e não de nós." 2 Cor 4,3-7
    Para os mais humildes, pois, que são a imensa maioria, Deus está agindo e todos os dias. Eles bem percebem Seus cuidados e em hipótese alguma abrirão mão da . O salmista já cantava: "Entretanto, Vós vedes tudo: observais os que penam e sofrem a fim de tomar a causa deles em Vossas mãos. É a Vós que se abandona o infortunado, sois Vós o amparo do órfão." Sl 9,35
    Não por acaso, Jesus afirmou em oração: "Eu bendigo-Te, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos." Jo 11,25
    Quanto aos desmandos da própria humanidade, é bom que não se esqueça, Jesus também foi vítima: "Meu Reino não é deste mundo. Se Meu Reino fosse deste mundo, Meus súditos certamente teriam combatido para que Eu não fosse entregue aos judeus." Jo 18,36
    Ele expressou, pouco antes de ser preso, essa Verdade a São Pedro: "Não crês tu que posso invocar Meu Pai, e Ele imediatamente enviar-Me-ia mais de doze legiões de anjos?" Mt 26,53
    E quando falava do Reino deste 'mundo', Ele não Se referia ao planeta Terra, obra de Sua criação. Referia-Se às organizações instituídas por pessoas que renegam a Deus, nas quais não se solicita nem sequer se permite Sua participação. Porque, quanto à propriedade e ao controle de tudo, seja do Céu ou da Terra, o salmista já dizia que "... Deus é o Rei do universo..." Sl 46,8
    Ou porque, segundo o próprio Jesus, "... a Deus tudo é possível." Mc 10,27
    E quanto ao sofrimento existente no mundo, Ele não enganou ninguém. Ao contrário, deixou claro que se colocar em oposição à lógica mundana era atrair mais dificuldades: "Se alguém quer vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia sua Cruz e siga-Me." Lc 9,23
    Isto se dá tão somente por amor à Verdade, como Ele vai dizer a Seus parentes: "O mundo não vos pode odiar, mas odeia-Me, porque contra ele Eu testemunho que suas obras são más." Jo 7,7
    Por isso alertou os Apóstolos, garantindo também a eles a força do testemunho da Verdade: "Se o mundo vos odeia, sabei que Me odiou antes que a vós. Se fôsseis do mundo, o mundo amar-vos-ia como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo escolhi-vos, por isso o mundo odeia-vos. Lembrai-vos da Palavra que vos disse: 'O servo não é maior que Seu Senhor.' Se Me perseguiram, também hão de perseguir-vos. Se guardaram Minha Palavra, também hão de guardar a vossa." Jo 15,18-20
    A despeito dos inegáveis valores da ciência, pois a Sabedoria é mais um dom de Deus, a tentativa de tudo explicar exclusivamente por seus métodos já se revelou infrutífera em uma infinidade de casos. Como explicar, por exemplo, os milagres? As dezenas de milagres Eucarísticos? O Santo SudárioA Santa Casa do Loreto? Os corpos santos? Os tantos sinais de Deus? As inúmeras aparições de Nossa Senhora, entre ela a Aparição de Fátima, que predisse tudo que de mais importante aconteceria no século XX? Houve maior matança na face da terra que na instauração do comunismo pelo mundo afora? Foram mais de 110 milhões de mortos! E justamente por 'governos' que, querendo instituir o 'Céu' na terra, negam a existência de Deus! Eram 'governos naturalistas e cientificistas', que diziam aplicar técnica e racionalidade! Essa gente que acha 'bonito' e 'tolera' todas 'religiões', desde que elas não pretendam proclamar a Verdade!
    São Tiago Menor, por exemplo, denuncia o materialismo e o hedonismo, descaradamente adotados por certos 'libertadores': "De onde vêm as guerras? De onde vêm as brigas entre vós? Não vêm justamente das paixões que estão em conflito dentro de vós? Cobiçais, mas não conseguis ter. Matais e cultivais inveja, mas não conseguis êxito. Brigais e fazeis guerra, mas não conseguis possuir. E a razão está em que não pedis. Pedis, sim, mas não recebeis, porque pedis mal. Pois só quereis esbanjar o pedido em vossos prazeres." Tg 4,1-3
    Por fim, os ateus também apontam as catástrofes naturais como prova da 'inexistência' ou mesmo da 'impotência' de Deus. Esquecem, elementarmente, que a alma é eterna, e que Cristo alertava do perigo de uma repentina partida desse mundo sem o devido Sacramento da Confissão: "Ou cuidais que aqueles dezoito homens, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, foram mais culpados que todos demais habitantes de Jerusalém? Não, digo-vos. Mas se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo." Lc 13,4-5
    E mesmo estas catástrofes, não são muitas delas apenas o resultado da ambição e do consumismo materialista? Do selvagem capitalismo que 'venceu' o comunismo? E quem mais sofre com elas não são justamente os mais pobres? Acaso não é a pobreza a falta da partilha do pão? Então o 'milagre' da ciência só serve aos ricos? E não fomenta ainda mais ambição? Aonde vamos? À destruição do planeta? Essa é a 'inteligência' do ser humano? Não falta a ele a divina inspiração para realmente ir mais longe?
    São Paulo lamenta a desonestidade intelectual e a preguiçosa consciência dos que caem na eterna perdição "... por não terem cultivado o amor à Verdade que teria podido salvá-los." 2 Ts 2,10
    Pois Jesus prometeu cobrar por Sua Vinda e por Sua Palavra. Definitivamente, Sua manifestação não foi em vão! Não acolhê-la, segundo Ele mesmo, é um pecado: "Se Eu não viesse e não lhes tivesse falado, não teriam pecado. Mas agora não há desculpa para seu pecado." Jo 15,22
    Seus milagres também não foram em vão: "Se Eu não tivesse feito entre eles obras, como nenhum outro fez, não teriam pecado. Mas agora viram-nas e odiaram a Mim e a Meu Pai." Jo 15,24
    E ainda prometeu que a Vinda do Espírito Santo não passaria despercebida. Ao contrário, se temos alguma chance é porque Ele nos convence do erro que é não acolher Jesus: "Entretanto, digo-vos a Verdade: convém a vós que Eu vá! Porque, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós. Mas se Eu for, vo-Lo enviarei. Ele convencerá o mundo a respeito do pecado, que consiste em não crer em Mim." Jo 16,7.9
    Entre os ateus, portanto, se é que realmente não creem, deve-se saber que não é muito sensato alimentar ódio a Deus. Jesus contou a parábola do Homem que partiu para ser investido da realeza, e que, ao voltar, declarou: "Quanto aos que Me odeiam e que não Me quiseram por Rei, trazei-os e massacrai-os em Minha presença." Lc 19,27


NA PRÁTICA, VERDADEIROS ATEUS

    Há, no entanto, casos ainda mais graves que o mero ateísmo: são os muitos que, apesar de jurarem acreditar em Deus, especialmente em Deus manifesto na Pessoa de Jesus, categoricamente rejeitam Seus ensinamentos e, na prática, vivem na mais completa devassidão. O destino destes não parece ser nenhuma surpresa, pois Jesus adverte: "Mas aquele que ouve Minhas Palavras e não as põe em prática é semelhante a um homem insensato, que construiu sua casa na areia. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa. Ela caiu e grande foi sua ruína." Lc 7,26-27
    Aliás, muitos deles até se apresentam como líderes religiosos e realizam 'sinais'. Jesus disse: "Nem todo aquele que Me diz: 'Senhor, Senhor', entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus. Muitos Me dirão naquele dia: 'Senhor, Senhor, não pregamos nós em Vosso Nome, e não foi em Vosso Nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres?' E, no entanto, Eu di-lhes-ei: 'Nunca vos conheci. Retirai-vos de Mim, maus operários!'" Mt 7,21-23
    Os que distorcem Sua Palavra, portanto, deveriam estar bem mais atentos: "Mas todo aquele que fizer cair em pecado a um destes pequeninos que creem em Mim, melhor seria que uma pedra de moinho lhe fosse posta ao pescoço e lançassem-no ao mar!" Mc 9,42
    E estejamos certos que isso não é nenhuma raridade. Ele mesmo denunciou: "Ai de vós, hipócritas escribas e fariseus! Percorreis mares e terras para fazer um prosélito e, quando o conseguis, fazeis dele um filho do inferno duas vezes pior que vós mesmos." Mt 23,15
    São Pedro acusa-os de grandes maculadores do Evangelho: "Assim como houve entre o povo falsos profetas, também haverá entre vós falsos doutores que disfarçadamente introduzirão perniciosas seitas. Renegando, assim, o Senhor que os resgatou, eles atrairão sobre si uma repentina ruína. Muitos os seguirão em suas desordens e deste modo serão a causa de o Caminho da Verdade ser caluniado." 2 Pd 2,1-2
    E assim explica o Antigo e o Novo Testamento, destacando o Ministério do Divino Paráclito: "Esta Salvação tem sido o objeto de investigações e de meditações dos Profetas, que proferiram Oráculos sobre a Graça que vos era destinada. Foi-lhes revelado que propunham não para si mesmos, senão para vós, estas revelações que agora vos têm sido anunciadas por aqueles que vos pregaram o Evangelho da parte do Espírito Santo, enviado do Céu." 1 Pd 1,10.12
    A Igreja, pois, ainda que reduzida a um pequeno número, santamente passará por tudo isso, porque assim Jesus quer, como São Paulo afirma: "... Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela, para santificá-la, purificando-a pela Água do Batismo com a Palavra, para a Si mesmo apresentá-la toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer semelhante defeito, mas santa e irrepreensível." Ef 5,25b-27
    Ora, Jesus declarou que ela seria invencível, quando elegeu São Pedro como pedra fundamental, pois é Ele mesmo que a edifica: "E Eu declaro-te: tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja. As portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18
    O fim de Judas, por sinal um dos escolhidos por Jesus, mas que tanto amava o dinheiro, foi muito triste. A vida, esse dom de Deus, para ele foi uma pedra de tropeço. Jesus sentenciou: "O Filho do Homem vai, como d'Ele está escrito. Mas ai daquele homem por quem o Filho do Homem é traído! Seria melhor para esse homem que jamais tivesse nascido!" Mt 26,24
    Aqueles que cometem escândalos, segundo Sua Palavra, também não estão em boa situação: "Ai do mundo por causa dos escândalos! Eles são inevitáveis, mas ai do homem que os causa! Por isso, se tua mão ou teu pé te fazem cair em pecado, corta-os e lança-os longe de ti: é melhor entrares na vida coxo ou manco que, tendo dois pés e duas mãos, seres lançado no fogo eterno! Se teu olho te leva ao pecado, arranca-o e lança-o longe de ti: é melhor entrares na vida cego de um olho que seres jogado com teus dois olhos no fogo da geena!" Mt 18,7-9
    Numa visão que teve São João Evangelista, registrado no livro do Apocalipse, Jesus foi ainda mais contundente com alguns acomodados dentro da Igreja: "Pois dizes: 'Sou rico, faço bons negócios, de nada necessito', e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que de Mim  compres ouro provado ao fogo, para ficares rico; alvas roupas para vestir-te, a fim de que a vergonha de tua nudez não apareça; e um colírio para ungir os olhos, de modo que possas ver claro." Ap 3,17-18
    E referindo-Se a Ele mesmo como a pedra angular da obra de Deus, disse que Sua manifestação era um marco histórico para a humanidade, um divisor de águas, e que ninguém poderia valer-se dela por escusos motivos: "Aquele que tropeçar nesta pedra, far-se-á em pedaços. E aquele sobre quem ela cair, será esmagado." Mt 21,44
    Disse-o, aliás, aos próprios Apóstolos, referindo-Se ao 'escândalo da Cruz': "Esta noite serei para todos vós uma ocasião de queda, porque está escrito: 'Ferirei o Pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersadas (Zc 13,7).' Mas, depois de Minha Ressurreição, Eu precedê-vos-ei na Galileia." Mt 26,31-32
    Sua Palavra, portanto, deve ser intensamente vivida em nossas almas: "Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e Verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito, e Seus adoradores devem adorá-Lo em espírito e Verdade." Jo 4 23,24
    Com efeito, falando através de Isaías, Deus já havia denunciado a hipocrisia entre religiosos. Jesus vai invocá-lo: "Hipócritas! É bem de vós que fala o Profeta Isaías: 'Este povo só me honra com os lábios. Seu coração, porém, está longe de Mim.'" Mt 15,7-8
    Por isso, São Tiago Menor prescreve: "Mas aquele que procura meditar com atenção a lei perfeita da liberdade e nela persevera não como ouvinte que facilmente se esquece, mas como cumpridor fiel do preceito, este será feliz em seu proceder." Tg 1,25
    Pois é ouvindo-a que se chega à fé, como São Paulo diz: "Logo, a fé provém da pregação, e a pregação exerce-se em razão da Palavra de Cristo." Rm 10,17
    A quem a vivencia, Jesus garantiu: "Aquele, pois, que ouve estas Minhas Palavras e põe-nas em prática é semelhante a um prudente homem, que edificou sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa. Ela, porém, não caiu, porque estava edificada na rocha." Mt 7,24-25
    Assim, lembrando a importância da Santa Missa e dos Sacramentos, tornam-se vitais as palavras do cego de nascença curado por Jesus: "Sabemos, porém, que Deus não ouve a pecadores, mas atende a quem Lhe presta culto e faz Sua vontade." Jo 9,31

    "Lembrai-Vos, ó Pai, de Vossos filhos!"