segunda-feira, 31 de julho de 2017

Santo Inácio de Loyola


    Um orgulhoso soldado levou toda sua determinação para a vida religiosa, e fundou a maior congregação católica do mundo, a Companhia de Jesus, atualmente com 30 mil membros, 500 universidades e 200 mil alunos anuais. A seu tempo, as companhias eram destacamentos militares que levavam o nome de seu capitão, e essa foi a inspiração de Santo Inácio.
    Nascido em 1491, de família nobre, era o mais novo de 13 filhos e foi pajem no palácio do tesoureiro dos reis da Espanha. Por mera vaidade, gostava dos exercícios de guerra e era hábil em montaria e várias armas. Para demonstrar bravura a seus irmãos, vitoriosos numa batalha em Nápoles, alistou-se para a batalha de Pamplona em 1521, contra os franceses, que eram superiores em força. Mas, após alguns combates, um tiro de bombarda feriu-lhe gravemente as pernas.
    Transportado numa liteira, seus ossos começaram a calcificar-se em posições erradas e ao chegar em casa teve que quebrá-los mais uma vez, o que causou-lhe torturantes dores. Teve que passar por um longo período de convalescença, quase 1 ano, porém foi quando verdadeiramente descobriu Deus. Lendo para ocupar o tempo, veio-lhe às mãos 'Vita Christi', de Rodolfo da Saxônia, e a 'Legenda Áurea', de Jacopo de Varazze, que conta a vida dos Santos. Achou então o sentido que sua vida ainda não tinha. Percebendo fortemente a presença de Deus, decidiu-se viajar à Terra Santa para converter os infiéis.
    É nesse período que começa a elaborar seus 'Exercícios Espirituais', uma obra que vai marcar a vida de toda a cristandade. Fugiu da casa de seus pais e foi ao Mosteiro Beneditino de Monte Serrado, em Barcelona, onde se entregou a três dias de Confissão. Era 1522, e ele doou todas suas vestes de nobre a um mendigo, depositou suas armas diante de uma imagem de Nossa Senhora, vestiu-se de saco e foi viver numa caverna próxima ao mosteiro de Manresa, como um mendicante. Fazia severas penitências, participava da Santa Missa todos os dias e rezava o Ofício das Horas. Foi quando teve suas primeiras visões. A caverna, mais tarde, tornou-se lugar de peregrinação e oração.



    Em 1523 partiu finalmente à Terra Santa com seu projeto de salvar almas. Peregrinou pelos lugares sagrados, foi recebido pelos franciscanos em Jerusalém, contudo, dadas as tensões e os conflitos armados da época, não lhe consentiram permanecer lá. Voltando em 1524, foi morar em Barcelona onde estudou latim, prestava assistência espiritual aos carentes e trabalhou na reforma do Mosteiro de Nossa Senhora dos Anjos.
    Foi a Alcalá cursar universidade, mas aí, por causa de suas pregações, foi tido como suspeito de ser um dos 'alumbrados', seita mística e herética que tinha similaridades com o protestantismo, e assim teve que passar pela Inquisição. Chegou a ser preso por um mês e meio, porém foi liberado sob condição de voltar a usar roupas 'descentes'. Três companheiros já lhe seguiam desde Barcelona, e com eles foi ao bispo para explicar-se, encontro que lhes rendeu oportunidade de estudar na Universidade de Salamanca.
    Lá Santo Inácio tornou-se famoso como pregador, mas durante uma confissão num mosteiro dominicano foi tido mais uma vez como suspeito, pois sabia demais sobre Deus sem ter formação reconhecida. Presos, nosso Santo foi visitado pelo vigário do bispo e professor da Universidade, que pediu-lhe o livro 'Exercícios Espirituais' para examinar o conteúdo. Liberados, foram proibidos de pregar até que terminassem os estudos. Era um duro golpe para Santo Inácio, que preferiu ir estudar na França e deixou seus companheiros.


    No mesmo ano, 1528, aos 37 anos, entrou na Universidade de Paris, onde estudou literatura e teologia, e tornou-se mestre em artes. Mas seu principal projeto continuava sendo cativar colegas para abraçar a vida religiosa e praticar seus 'Exercícios Espirituais'. Aí encontrou seis novos companheiros, entre eles São Francisco Xavier, que iria tornar-se o Padroeiro dos Missionários e seria reconhecido como o 'Apóstolo do Oriente'. Com eles, em 1534 nascia a Companhia de Jesus, na igreja de Santa Maria, em Montmartre, e o plano, mais uma vez, era ir a Jerusalém para converter e salvar almas.
    Foram ao Papa Paulo III, em 1537, pedir autorização para viajar e também para serem ordenados sacerdotes, o que aconteceu em Veneza, pelas mãos do Bispo de Arbe. A viagem à Terra Santa, porém, teve que ser esquecida, ao menos temporariamente, porque a guerra entre as cidades italianas e os turcos otomanos havia recrudescido. Enquanto esperavam, por aí trabalhavam ativamente fazendo caridade, socorrendo enfermos e trabalhando em hospitais, além de catequizar.
    Em 1538, percebendo que autoridades de vários países adotavam o protestantismo para minar o poder da Igreja, Santo Inácio foi oferecer seus serviços ao Papa e, no caminho, na Capela La Storta, teve uma revelação: a Companhia de Jesus deveria fixar-se em Roma. O Catolicismo sofria uma forte oposição e a Igreja perdia acesso aos fiéis não apenas na Alemanha, mas também na Áustria, na Polônia, nos Países Baixos, na Escandinávia, na França e até mesmo na Itália.
    Quando eles aí se fixaram e começaram a pregar, tamanho era o desprendimento e a influência que exerciam sobre as classes mais instruídas, que outra vez foram suspeitos de contrariar a Fé Católica. Diziam até que Santo Inácio seria 'fugitivo da Inquisição Espanhola'. Ele mesmo, no entanto, foi ao Papa e pediu-lhe para ser julgado em um novo processo, mas que desta vez fosse tão a fundo que os eximisse em definitivo de qualquer suspeição. O processo foi aberto e todos foram inocentados.
    O Papa Paulo III, percebendo como era muito produtivo o trabalho dos jesuítas, resolveu pedir a Santo Inácio que escrevesse a constituição de sua nova ordem e assim pudesse admitir mais candidatos. Feito isso, em 1540 eles receberam a aprovação papal e, em 1543, após verificada sua eficácia, a congregação foi liberada do limite inicial de apenas 60 membros.
    E logo a Companhia de Jesus começou a trazer de volta para a Igreja os fiéis desviados pelas doutrinas meramente humanas. Na Alemanha, além dos trabalhos marcantes do Beato Pedro Fabro, Cláudio Le Jay e Bobadilha, destacou-se São Pedro Canísio, que recebeu a alcunha de 'martelo dos hereges'. No Concílio de Trento, um dos três mais importantes da Igreja e o mais longo da História, que durou de 1545 a 1563, dois jesuítas, Laynes e Salmeron, sobressaíam-se com brilhantismo.
    Santo Inácio escreveu-lhes: "Demos graças a Deus por Sua inefável misericórdia e piedade, tão copiosamente derramada em nós por Seu Glorioso Nome. Porque muitas vezes me comovo quando ouço e em parte vejo o que me dizem de vós e de outros chamados à nossa Companhia em Cristo Jesus."


    Com a descoberta das Américas, novos desafios surgiam e para cá eram mandados também os jesuítas. Ao Brasil chegaram, só para lembrar alguns, o Padre Manoel da Nóbrega, o 'irmão Anchieta', que aqui seria ordenado e se tornaria Santo, e mais tarde o célebre Padre Antonio Vieira.
    Para as terras da Índia, China e Japão foi enviado São Francisco Xavier, que vez em quando dizia a seus amigos: "O Padre Inácio é um grande santo." São Francisco de Borja, mais um santo jesuíta cativado por Santo Inácio, também o venerava ainda em vida.
    Em Roma eles catequizavam crianças, esforçavam-se para converter judeus e fundaram a conhecida casa de Santa Marta, onde acolhiam prostitutas, jovens e órfãos. Em 1551 criaram o Colégio Romano, onde ensinavam de graça e tempos depos viria a ser a Pontifícia Universidade Gregoriana, pelo apoio especial que teriam do Papa Gregório XIII.
    Considerando os riscos de administrar uma congregação tão grande, em 1554 Santo Inácio escreve as Constituições Jesuítas, que reforçaram sua hierarquia e o compromisso absoluto de obediência ao Papa. O lema da Companhia de Jesus passou a ser: Ad Majorem Dei Gloriam (Para Maior Glória de Deus).
    O próprio Santo Inácio, por esses anos, nada mais fazia pensando em si. Era puro servo de Deus. Dormia 4 horas e trabalhava todos os dias, o dia todo. Por severos jejuns, sofria muitas dores gástricas, mas delas não fazia caso. Morreu em 1556, aos 65 anos, quando os jesuítas já tinham 35 colégios, 110 casas, 13 províncias e aproximadamente 1000 religiosos.
    É de sua inspiração:
    "A verdadeira obediência não considera aquele a quem é prestada, mas sim Aquele por Quem se obedece; e se obedece só por Nosso Criador e Senhor, é ao mesmo Senhor de todos que se obedece."
    "Para não nos enganar em tudo, devemos ter sempre este critério: o que para mim é branco faço-o negro, se é a Igreja hierárquica quem o diz. De fato, nós cremos que aquele Espírito que governa e guia nossas almas para a Salvação, está também em Cristo Nosso Senhor, o Esposo, e na Igreja Sua Esposa."
    "Acredito que o branco que eu vejo é negro, se a hierarquia da igreja assim o tiver determinado."
    "A humildade consiste em alegrar-nos com tudo o que nos leva a reconhecer nosso nada."
    "Conselho ou aviso, é sempre melhor recebê-los com humildade do que dá-los sem ela."
    "Encontrar Deus em todas as coisas e ver que todas as coisas vem do alto."
    "A mais bela vitória que se pode alcançar é vencer a si mesmo."
    "Jesus é realmente fundamental. Sem Ele nada teria sentido!"
    "Como se me afigura vil o mundo, quando olho para o Céu."
    "Nós deveríamos procurar colher o infinito perfume e a infinita doçura da Divindade."
    "Esforça-te n'Aquele que te criou e remiu com Seu Sangue e Vida, e confia-te em Sua suavíssima Providência."
    "Não há árvore mais apropriada para produzir e conservar o amor de Deus do que a árvore da Cruz."
    "Ninguém sabe o que Deus faria de nós, se não opuséssemos tantos obstáculos à Sua Graça."
    "Muita Sabedoria unida a uma moderada santidade é preferível a muita santidade com pouca Sabedoria."
    "Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear internamente as coisas."
    "Ninguém trabalha melhor do que quando faz apenas uma coisa."
    "Servindo mais a Deus, em pias obras, o povo move-se mais a sustenta-las e com mais caridade."

    "Se tenho de desgostar a Deus em alguma coisa, ou afrouxar-me em Seu santo serviço, antes queira Ele tirar-me a vida."
    "Preferia eu dar mais importância a uma falta minha, do que a todo o mal que de mim disseram."
    "Não deve ser tacanho aquele com quem Deus tem sido generoso."
    "Nunca pares de olhar os defeitos dos outros, mas estejas seja pronto para desculpá-los."
    "Não me atreveria a pernoitar numa casa em que soubesse haver um homem em pecado mortal; temeria que o telhado nos esmagasse sob seus escombros."

    "Lembrai-vos que os anjos fazem o que podem para defender do pecado os homens, e assim Deus ser honrado."

    Foi sepultado na Igreja de Jesus, em Roma, onde lhe consagraram uma bela Capela.
    Em 1929, o Papa Pio XI estabeleceu um retiro anual para a prática dos 'Exercícios Espirituais' de Santo Inácio, a serem ministrados ao próprio Papa e à Cúria Romana, que raras vezes deixou de acontecer. Mais tarde, o Papa Paulo VI mudou o período desses retiros, do Advento para a Quaresma.
    Santo Inácio teve o grande dom de fazer com que os cristãos compreendessem melhor o Catolicismo.


    Santo Inácio de Loyola, rogai por nós!

domingo, 30 de julho de 2017

São Pedro Crisólogo


    Foi um dos maiores pregadores da Igreja, amado tanto pelo povo como pela imperatriz romana e seus filhos, entre eles o futuro imperador Valentiniano III. Crisólogo significa 'palavra de ouro', dada sua facilidade de comunicar o Catecismo e conforto às almas que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Escreveu 176 sermões, onde explica de modo simples os assuntos mais complicados da Doutrina da Igreja.
    Nasceu em Imola, província de Ravena, Itália, em 380. Seus pais eram fervorosos católicos e ainda jovem ele foi ordenado diácono. Esteve sob os cuidados de Cornélio, Bispo de Imola, a quem chamava de pai. Em 424, embora não fosse necessário, a imperatriz, que já o tinha como conselheiro pessoal, empenhou-se pessoalmente para que ele fosse indicado ao cargo de Arcediácono de Ravena, que nesta época era a capital do Império Romano.
    Em 433, Valentiniano III também usou de sua influência para ele fosse indicado Arcebispo de Ravena, mas isso já era um clamor popular e ele acabou consagrado pessoalmente pelo Papa Sisto III. Pudera, ninguém menos que São Pedro havia aparecido em sonho ao Papa, exclusivamente para indicar São Pedro Crisólogo para o arcebispado.
    Eram tempos difíceis para o Império Romano: godos, vândalos e hunos sitiavam cidades italianas e promoviam grandes flagelos. E após três séculos de resistência e martírios para estabelecer-se contra as perseguições do próprio Império Romano, a Igreja via-se mais uma vez ameaçada. Não bastasse o perigo das guerras, impiedosos 'cristãos' atiravam-se na aventura das mais insanas teorias, burlando a Doutrina e desrespeitando a inspiração do Espírito Santo, que sempre se fez perceber tanto pela comunhão espiritual vivida pela Igreja como pelo voto da maioria nas decisões dos Concílios.
    Precisamente por esses anos, fantasiosos teólogos inventavam tresloucadas heresias a respeito da natureza de Jesus. O Primeiro Concílio de Éfeso, em 431, onde brilhou a notavelmente inspirada Sabedoria de São Cirilo, Patriarca de Alexandria, já havia aceito por ampla maioria que Jesus tinha misteriosamente duas naturezas: humana e divina. Acolhendo as manifestações de Deus exatamente como elas se deram, ao mesmo tempo que refutando grosseiras simplificações e reduções, o Concílio reconheceu que não havia mais iluminada conclusão para a compreensão do Cristo: Ele é totalmente Deus e, ao mesmo tempo, totalmente humano.


    Pouco tempo antes caíra por terra a heresia de Nestório, que dizia que as duas naturezas de Jesus só vagamente relacionavam-se. Mas Eutiques, um alto sacerdote de Constantinopla, após vários acertos e acordos entre os bispos daquela região, imprudentemente insurgiu com a heresia de que as duas naturezas de Jesus haviam se fundido numa só. E começou a divulgá-la, mesmo depois de ter recebido uma belíssima carta do Papa São Leão Magno, na qual lhe explicou magistralmente a Encarnação do Verbo. É de São Pedro Crisólogo a célebre frase: "Pedro fala por Leão", referindo-se a São Pedro Apóstolo e ao Papa Leão Magno. E de fato, as decisões do Concílio da Calcedônia, em 451, mais uma vez vão confirmar os entendimentos reconhecidos pelo Concílio de Éfeso de 431.
    Sabendo da inteligência e da importância de São Pedro Crisólogo para a Igreja, Eutiques escreveu-lhe uma carta, tentando convencê-lo de sua heresia. Recebeu, no entanto, uma inspirada resposta, a qual, se tivesse bom senso, teria acolhido e posto de lado suas mal fadadas ideias. Escreveu-lhe o Prelado de Ravena: "Li tristemente tua triste carta, e percorri com grande aflição teus torturantes escritos. Porque, como a paz das igrejas, a concórdia dos sacerdotes e a tranquilidade do povo nos enchem de satisfação, duma alegria toda celeste, assim a divisão dos irmãos nos aflige e nos deprime, sobretudo quando com semelhantes causas... disputa-se temerariamente sobre a geração do Cristo, que a divina lei nos propôs como inexplicável. Tu não ignoras a que desvairamentos foi atirado Orígenes procurando os princípios, e Nestório disputando naturezas... Nós te exortamos, irmão honorável, a que te submetas ao que foi escrito pelo bem-aventurado Papa de Roma: porque São Pedro, que vive e preside na Cátedra, dá a verdade de fé aos que a procuram. Quanto a nós, afeiçoados que somos pela paz e pela , não podemos interpretar as causas da fé sem o consentimento do Bispo de Roma."


    Seus ensinamentos sobre a vida piedosa valem não apenas para a gente humilde, a quem ele se dedicava na maior parte do tempo, mas certamente a todos que perderam as referências de uma vida verdadeiramente espiritual: "A oração é uma das três coisas que sustentam a fé. As outras duas são o jejum e a misericórdia. O que a oração pede, o jejum obtém e a misericórdia recebe. Unidos, a oração, o jejum e a misericórdia, tudo podem. O jejum é a alma da oração, e a misericórdia a vida do jejum. Não os separeis jamais. Quem um não tiver, nenhum dos três terá; donde se segue que quem ora deve jejuar, e quem jejua deve exercer obras de misericórdia."
    Um dos mais ilustres bispos de seu tempo, São Germano de Auxerre, que havia percebido a vocação de Santa Genoveva e apadrinhado São Patrício, foi visitar-lhe em Ravena no ano de 448, para desfrutar um pouco de sua santidade. Mas aí se deu outra vontade de Deus: carinhosamente acolhido por São Pedro Crisólogo, este grande santo foi acometido de uma enfermidade e morreu docemente sob seus cuidados.
    O Sermão 30 é uma de suas obras mais conhecidas:
    "'Ele come com publicanos e pecadores!'
    Deus é acusado de vergar-se ao homem, de sentar-se perto do pecador, de ter fome da sua conversão e sede do seu regresso, de tomar o alimento da misericórdia e o cálice da benevolência.
    Mas Cristo, meus irmãos, veio a esta refeição; a Vida veio ao seio de seus convidados para que, condenados à morte, vivam com a Vida; a Ressurreição prostrou-se para que aqueles que jaziam se levantem de seus túmulos; a Bondade baixou-se para elevar os pecadores até ao perdão; Deus veio ao homem para que o homem chegue até Deus; o Juiz veio à refeição dos culpados para desviar a humanidade da sentença de condenação; o Médico veio aos doentes para restabelecê-los comendo com eles; o Bom Pastor inclinou o ombro para trazer a ovelha perdida ao aprisco da salvação.
    'Ele come com publicanos e pecadores!'
    Mas quem é pecador, senão aquele que recusa ver-se como tal? Não será afundar-se em seu pecado e, a bem dizer, identificar-se com ele, o deixar de reconhecer-se pecador? E quem é injusto, senão aquele que se acha justo?…
    Vamos, fariseu, confessa teu pecado, e poderás vir à mesa de Cristo; Cristo, por ti, far-Se-á pão, esse pão que será partido para o perdão de teus pecados; Cristo tornar-Se-á, por ti, no cálice, esse cálice que será derramado para a remissão de tuas faltas.
    Vamos, fariseu, compartilha da refeição dos pecadores, e Cristo compartilhará de tua refeição; reconhece-te pecador, e Cristo comerá contigo; entra com os pecadores no festim do Teu Senhor, e poderás deixar de ser pecador; entra com o perdão de Cristo na casa da misericórdia."

    É do trabalho de São Pedro Crisólogo a construção do Mosteiro de Classe, uma pequena cidade próxima à sua diocese. Em Ravena, propriamente, ele construiu uma igreja em homenagem a Santo André, e outra a São Pedro, a quem tinha como padrinho.
    Em 451, sentindo que chegava sua hora, pediu dispensa do bispado e retornou a Imola, onde havia iniciado sua vida sacerdotal. No dia seguinte á sua chegada, rezou a Santa Missa pela manhã na igreja de São Cassiano, e aos fiéis pediu para ser enterrado ali, perto do altar. Ao meio-dia, morreu serenamente.
    São Pedro Crisólogo foi reconhecido como Doutor da Igreja.


    São Pedro Crisólogo, rogai por nós!

sábado, 29 de julho de 2017

Santa Marta


    "Estando Jesus em viagem, entrou numa aldeia, onde uma mulher, chamada Marta, recebeu-O em sua casa. Tinha ela uma irmã por nome Maria, que se assentou aos pés do Senhor para ouvi-Lo falar. Marta, toda preocupada na lida da casa, veio a Jesus e disse:
    - Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe só a servir? Dize-lhe que me ajude.
    Respondeu-lhe o Senhor:
    - Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a boa parte, que não lhe será tirada." Lc 10,38

    Nesta cena São Lucas retrata o lado ativista de Santa Marta, que se apega demasiadamente ao trabalho e esquece a vida espiritual. Mas foi o generoso coração dessa mulher que viu em Jesus uma pessoa a ser acolhida em casa e na alma. Ela abriu-Lhe a porta porque O havia visto pregando, e foi tocada por Sua Palavra. Tal acolhimento será digno de afortunada recompensa, como disse Jesus: "Aquele que recebe um profeta, na qualidade de profeta, receberá uma recompensa de profeta. Aquele que recebe um justo, na qualidade de justo, receberá uma recompensa de justo." Mt 10,41
    E Ele mesmo prometeu às igrejas através de São João Evangelista: "Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a Minha voz e Me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, Eu com ele e ele Comigo." Ap 3,20
    Não resta dúvida, pois, que nossa Santa quis dar uma boa refeição a Jesus e Seus Apóstolos. E, de fato, não era pouco trabalho: eram ao menos 13 pessoas. Sua irmã Maria, entretanto, não queria parar de ouvi-Lo. Estava encantada, e com toda razão. Disse São João Evangelista: "... a Graça e a Verdade vieram por Jesus Cristo." Jo 1,17
    Disse também o soldado romano: "Respondeu o centurião: 'Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. Dizei uma só palavra e meu servo será curado.'" Mt 8,8
    Disseram ainda os guardas do sumo sacerdote, que foram enviados para aprender Jesus mas voltaram sem Ele: "Ninguém jamais falou como este homem!..." Jo 7,46
    Assim como São Pedro: "Respondeu-Lhe Simão Pedro: 'Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as Palavras da Vida Eterna.'" Jo 6,68

    E é Santa Marta, como consta do quarto Evangelho, que vai fazer uma declaração de suma importância para o perfeito reconhecimento da Divindade de Jesus. De fato, tal e qual ela declarou, prova de sua inspiração divina, só São Pedro havia afirmado: '... Tu és o Cristo...' Mt 16,16

    "Ora, havia um doente, Lázaro, de Betânia, povoado de Marta e de Maria, sua irmã. Suas irmãs mandaram, pois, dizer a Jesus:
    - Senhor, aquele que Tu amas está enfermo.
    A estas palavras, disse-lhes Jesus:
    - Esta enfermidade não causará a morte, mas tem por finalidade a Glória de Deus. Por ela será glorificado o Filho de Deus.
    Ora, Jesus amava Marta, Maria, sua irmã, e Lázaro. Mas, embora tivesse ouvido que ele estava enfermo, demorou-Se ainda dois dias no mesmo lugar. À chegada de Jesus, já havia quatro dias que Lázaro estava no sepulcro. Mal soube Marta da vinda de Jesus, saiu-Lhe ao encontro. Maria, porém, estava sentada em casa. Marta disse a Jesus:
    - Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido! Mas sei também, agora, que tudo o que pedires a Deus, Deus To concederá.
    Disse-lhe Jesus:
    - Teu irmão ressurgirá.
    Respondeu-Lhe Marta:
    - Sei que há de ressurgir na Ressurreição no Último Dia.
    Disse-lhe Jesus:
    - Eu sou a Ressurreição e a Vida. Aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em Mim, jamais morrerá. Crês nisto?
    Respondeu ela:
    - Sim, Senhor. Eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, Aquele que devia vir ao mundo.
    - Onde o pusestes?
    Responderam-Lhe:
    - Senhor, vinde ver.
    Jesus pôs-Se a chorar. Observaram então os judeus:
    - Vede como Ele o amava!
    Tomado, novamente, de profunda emoção, Jesus foi ao sepulcro. Era uma gruta, coberta por uma pedra. Jesus ordenou:
    - Tirai a pedra.
    Disse-Lhe Marta, irmã do morto:
    - Senhor, já cheira mal, pois há quatro dias que ele está aí...
    Respondeu-lhe Jesus:
    - Não te disse Eu: Se creres, verás a Glória de Deus?
    Tiraram, pois, a pedra. Levantando Jesus os olhos ao alto, disse:
    - Pai, rendo-Te graças, porque Me ouviste. Eu bem sei que sempre Me ouves, mas assim falo por causa do povo que está em roda, para que creiam que Tu Me enviaste.
    Depois destas palavras, exclamou em alta voz:
    - Lázaro, vem para fora!
    E o morto saiu, tendo os pés e as mãos ligados com faixas, e o rosto coberto por um sudário. Ordenou então Jesus:
    - Desligai-o e deixai-o ir.
    Muitos dos judeus, que tinham vindo a Marta e Maria e viram o que Jesus fizera, creram n'Ele." Jo 11,1.3-6.17.20-27.34-36.38-45


    São João Evangelista conta mais uma importante visita de Jesus à casa de Marta. É quando Santa Maria de Betânia, sua irmã, vai lavar os pés do Salvador com um caro perfume e enxuga-os com os cabelos. E lá está Santa Marta mais uma vez ocupada em servi-Lo. Desta vez, porém, certamente sem deixar de ouvi-Lo:

    "Seis dias antes da Páscoa, foi Jesus a Betânia, onde vivia Lázaro, que Ele ressuscitara. Deram ali uma ceia em Sua honra. Marta servia e Lázaro era um dos convivas. Tomando Maria uma libra de bálsamo de nardo puro, de grande preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-os com seus cabelos. A casa encheu-se do perfume do bálsamo. Mas Judas Iscariotes, um dos Seus discípulos, aquele que O havia de trair, disse:
    - Por que não se vendeu este bálsamo por trezentos denários e não se deu aos pobres?
    Dizia isso não porque ele se interessasse pelos pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, furtava o que nela lançavam. Jesus disse:
    - Deixai-a; ela guardou este perfume para o dia do Meu sepultamento. Pois sempre tereis convosco os pobres, mas a Mim nem sempre Me tereis." Jo 12,1-8

    Uma tradição muito antiga relata que Santa Marta, Santa Maria e São Lázaro teriam deixado Israel, fugindo dos judeus de Jerusalém, e instalaram-se na França. De fato, São João Evangelista mesmo relata: "Mas os príncipes dos sacerdotes resolveram tirar a vida também a Lázaro, porque muitos judeus, por causa dele, afastavam-se e acreditavam em Jesus." Jo 12,10-11
    Na comuna de Tarascon, no sudeste da França, próximo a Avignon e à fronteira com a Itália, mesma região onde refugiou-se Santa Maria Madalena, no lugar de um antigo edifício que protegia a sepultura de Santa Marta foi construída uma igreja no século XI em sua homenagem, em cuja cripta depuseram seus restos mortais. Ela é venerada pela Igreja como a padroeira das cozinheiras e das donas de casa.



    Santa Marta, rogai por nós!

quinta-feira, 27 de julho de 2017

A Vida Eterna


    A humanidade sempre sonhou vencer a morte e viver na eternidade. Ainda nos Salmos, o autor sagrado já rezava a Deus: "Examina-me, Senhor... Vede se ando na senda do Mal, e conduzi-me pelo caminho da eternidade." Sl 138,24
    E para atender a esse anseio, há muito tempo o amoroso Pai já tinha prometido trazer-nos de volta ao Seu convívio. Contudo, desde então ficou claro que Ele não o faria sem usar do rigor de Sua Justiça, como está no livro de Daniel: "A multidão que dorme no pó da terra despertará; uns para uma Vida Eterna, outros para a ignomínia, a infâmia eterna." Dn 12,2
    Por isso São João Evangelista exalta a Missão de Jesus, dizendo confiantemente: "Eis a promessa que Ele nos fez: a Vida Eterna." 1 Jo 2,25
    Aos Seus fiéis seguidores, de fato, Ele garantiu uma Nova Vida, que começa desde já: "Pedro começou a dizer-Lhe: 'Eis que deixamos tudo e Te seguimos.' Respondeu-lhe Jesus. 'Em verdade vos digo: ninguém há que tenha deixado casa ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras por causa de Mim e por causa do Evangelho que não receba, já neste século, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, apesar das perseguições, e no século vindouro a Vida Eterna.'" Mc 10,28-30
    E invocando os Mandamentos, assegurou que neles está o Caminho para viver estas dádivas: "Um jovem aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe: 'Mestre, que devo fazer de bom para ter a Vida Eterna?' Jesus respondeu: 'Se queres entrar na Vida, observa os Mandamentos. Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe, amarás teu próximo como a ti mesmo.'" Mt 19,16.18-19
    Com efeito, a Seu tempo os questionamentos do povo sobre esse assunto eram frequentes. São Mateus registra mais um episódio: "Levantou-se um doutor da Lei e, para pô-Lo à prova, perguntou: 'Mestre, que devo fazer para possuir a Vida Eterna?'" Lc 10,25
    Conhecedor de sua real intenção, em primeiro momento Jesus devolve-lhe a pergunta, questionando seu entendimento sobre as Escrituras: "Que está escrito na Lei? Como é que lês?" Mt 10,26
    Sem ter como fugir, o doutor da Lei responde corretamente: "Amarás o Senhor Teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu pensamento (Dt 6,5); e a teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18)." Lc 10,27
    Mas Jesus não Se basta com o mero conhecimento, e sucintamente pede-lhe a prática dos Mandamentos: "Respondeste bem; faze isto e viverás." Lc 10,28
    Frustrado, o homem vê-se obrigado a levantar a dúvida que realmente lhe perturbava. Por certo imaginava que só deveria fazer o bem aos que fossem de sua seita, pois se julgavam santos como não seriam os demais: "E quem é o meu próximo?" Lc 10,29
    Jesus, porém, vai propor-lhe uma situação em que a gratuidade do bem fala muito mais alto. E dá-lhe uma lição: conta a história de um homem da gente mais desprezada pelos judeus, que socorre um necessitado, enquanto um sacerdote e um levita, que são religiosos de Israel, nem sequer pararam para olhar sua situação. É a parábola do bom samaritano, e ao final é Jesus Quem lhe questiona: "Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?" Lc 10,36
    Acuado, o doutor da Lei admite a grandeza da misericórdia: "Aquele que usou de misericórdia para com ele." Lc 10,37
    E outra vez Jesus dá-lhe um recado curto e direto, determinando-lhe a prática do amor ao próximo: "Vai, e faze tu o mesmo." Idem
    Sob esse aspecto, porém, São João Evangelista é ainda mais incisivo. Pelo pecado da ira, ele sentencia: "Quem odeia seu irmão é assassino. E sabeis que a Vida Eterna não permanece em nenhum assassino." 1 Jo 3,15
    Mas se a prática dos Mandamentos já era uma pedra de tropeço para muitos mal intencionados, Nosso Salvador vai entrar num assunto ainda mais complicado: Sua Paixão e Ressurreição. É o paradoxo do 'Deus morto', uma grande dificuldade para os racionalistas. Em poucas palavras, Ele menciona a intangível razão de Sua manifestação e crucificação: "... o Filho do Homem deve ser levantado, para que todo aquele que n'Ele crer tenha a Vida Eterna." Jo 3,15
    Pois assim é a vontade de Deus, que impreterivelmente vai realizar-se. Apresentando-Se enquanto mero ser humano, Jesus dizia: "Em verdade, não falei por Mim mesmo, mas o Pai, que Me enviou, Ele mesmo Me prescreveu o que devo dizer e o que devo ensinar. E sei que o Seu Mandamento é Vida Eterna." Jo 12,49-50a
    No entanto, apesar de demonstrar tamanho amor pelo ser humano, a verdade é que Jesus continua sendo um sinal de contradição para muitos. Mas também é certo que Ele continue desmistificando as glórias mundanas. Foi o que disse o profeta Simeão à Nossa Senhora, quando da Apresentação do Menino Jesus no Templo de Jerusalém: "Eis que este Menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições..." Lc 2,34
    E Ele mesmo fez esta terrível distinção: "Aquele que crê no Filho tem a Vida Eterna; quem não crê no Filho não verá a Vida, mas sobre ele pesa a ira de Deus." Jo 3,36


INVIOLÁVEL PROJETO DE DEUS

    Para todos que O acolhem, porém, Deus promete a eterna felicidade. São Paulo cita o profeta Isaías: "É como está escrito: 'Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou' (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que O amam." 1 Cor 2,9
    Pois mesmo antes do Advento do Cristo, a Divina Sabedoria já informava a condição das almas dos que falecem no amor a Deus: "Mas as almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará. Aparentemente estão mortos aos olhos dos insensatos: seu desenlace é julgado como uma desgraça. E sua morte como uma destruição, quando na verdade estão na Paz! Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, a Esperança deles era portadora de imortalidade, e por terem sofrido um pouco, receberão grandes bens, porque Deus, que os provou, achou-os dignos de Si. Ele provou-os como ouro na fornalha, e acolheu-os como holocausto." Sb 3,1-6
    Ao Seu tempo, Jesus veio oferecer a dádiva maior que é o Seu Santo Espírito, Aquele que sacia toda sede de justiça e de Vida: "... quem beber da água que Eu der, jamais terá sede. E essa água que Eu darei virá a ser nele fonte de Água Viva, que jorrará até a Vida Eterna." Jo 4,14
    São João Evangelista teve o cuidado de explicar do que Ele falava: "Dizia isso, referindo-Se ao Espírito que haviam de receber os que n'Ele cressem, pois ainda não fora dado o Espírito, visto que Jesus ainda não tinha sido glorificado." Jo 7,39
    No Evangelho de São Lucas, de fato, Jesus refere-Se ao Espírito Santo como a maior Graça que Deus Pai quer oferecer-nos: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Vosso Pai celestial dará o Espírito Santo aos que LhO pedirem." Lc 11,13
    Ora, a Vida Eterna é-nos concedida pelo Divino Paráclito, como disse o próprio Jesus: "O Espírito é que dá a Vida." Jo 6,63
    São Paulo diz assim: "Se o Espírito d'Aquele que ressuscitou Jesus dos mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Jesus Cristo dos mortos, também dará a Vida aos vossos corpos mortais, pelo Seu Espírito que habita em vós." Rm 8,11
    Ele resume nestes palavras a passagem de Jesus entre nós e o Pentecostes: "O que era impossível à Lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus o fez. Enviando, por causa do pecado, o Seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne, a fim de que a justiça prescrita pela Lei fosse realizada em nós, que vivemos não segundo a carne mas segundo o Espírito." Rm 8,3-4
    Diz também: "Quem semeia na carne, da carne colherá a corrupção; quem semeia no Espírito, do Espírito colherá a Vida Eterna." Gl 6,8
    Ou, pela Comunhão da Santíssima Trindade, essa dádiva vem do próprio Jesus, como Ele garantiu às 'Suas ovelhas': "Eu dou-lhes a Vida Eterna..." Jo 10,28
    Falando de Si mesmo em terceira pessoa, Jesus diz que essa Graça é dada a todos aqueles que o Pai Lhe enviou: "... para que, pelo poder que Lhe conferiste sobre toda criatura, Ele dê a Vida Eterna a todos aqueles que Lhe entregaste." Jo 17,2
    Aliás, não há como ir a Jesus de outra maneira, assim como não tem outra finalidade de Sua Missão: "Ninguém pode vir a Mim se o Pai, que Me enviou, não o atrair; e Eu hei de ressuscitá-lo no Último Dia." Jo 6,44
    É também nestes termos que Ele assegura Sua própria Ressurreição, conforme os planos de Deus previstos nas Escrituras: "O Pai ama-Me porque dou Minha vida para retomá-la. Ninguém a tira de Mim, mas Eu dou-a de Mim mesmo e tenho o poder para dá-la, como tenho o poder para reassumi-la. Tal é a ordem que recebi de Meu Pai." Jo 10,17-18
    Como foi revelado aos judeus, portanto, a Vida Eterna é-nos comunicada pelas próprias Escrituras, pois nelas encontramos o Cristo, que disse aos religiosos de Jerusalém: "Vós perscrutais as Escrituras, julgando encontrar nelas a Vida Eterna. Pois bem! São Elas mesmas que dão testemunho de Mim." Jo 5,39
    No entanto, ela está ainda mais evidente nos Evangelhos, ou seja, nas palavras do próprio Jesus como disse São Pedro: "Tu tens as palavras da Vida Eterna." Jo 6,68
    Assim, está também na atitude de quem sinceramente busca conhecer a Deus e a Jesus, como Ele mesmo afirmou: "Ora, a Vida Eterna consiste em que conheçam a Ti, um só Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo que enviaste." Jo 17,3
    Está mais propriamente, ainda segundo Sua Palavra, no Santíssimo Sacramento: "Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até a Vida Eterna, que o Filho do Homem vos dará." Jo 6,27
    Sacramento esse que é Seu Corpo e Seu Sangue: "Quem come a Minha Carne e bebe o Meu Sangue tem a Vida Eterna; e Eu o ressuscitarei no Último Dia." Jo 6,54
    Alimento, sim, e alimento celeste, que desde já nos concede a presença de Deus em nós: "Pois a Minha Carne é verdadeiramente uma comida e o Meu Sangue, verdadeiramente uma bebida. Quem come a Minha Carne e bebe o Meu Sangue permanece em Mim e Eu nele. Este é o Pão que desceu do Céu." Jo 6,55-56.58a
    Pois Ele mesmo prometeu, como visto, ressuscitar Seus fiéis: "Com efeito, como o Pai ressuscita os mortos e dá-lhes Vida, assim também o Filho dá Vida a quem Ele quer." Jo 5,21
    Ora, a Vida Eterna é o próprio Jesus: "Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em Mim, ainda que tenha morrido, viverá." Jo 11,25
    Está, portanto, na em Sua Palavra: "Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em Mim tem a Vida Eterna." Jo 6,47
    Pois mesmo falando de Sua Paixão, Ele garantia: "Ainda um pouco de tempo e o mundo já não Me verá. Vós, porém, Me tornareis a ver, porque Eu vivo e vós vivereis." Jo 14,19
    Isso se dá pelo mesmo poder com que Deus vive, e será efetivado em nós por Graça do Santíssimo Sacramento: "Assim como vive o Pai que Me enviou, e Eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a Minha carne viverá por Mim." Jo 6,57
    Pois ela, como repete São Paulo, esse é o projeto Deus: "... o dom de Deus é a Vida Eterna..." Rm 6,23
    Ela é um presente do Pai para quem vê a grandeza de Seu Filho: "Esta é a vontade de Meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e n'Ele crê, tenha a Vida Eterna..." Jo 6,40
    De fato, a Vida Eterna foi testemunhada por Deus na Pessoa de Jesus, como afirma São João Evangelista: "E o testemunho é este: Deus deu-nos a Vida Eterna, e esta Vida está em Seu Filho. Quem possui o Filho possui a Vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a Vida." 1 Jo 5,11-12
    Ela é o testemunho dos Apóstolos: "... porque a Vida se manifestou, e nós a temos visto; damos testemunho e vos anunciamos a Vida Eterna, que estava no Pai e que a nós se manifestou..." 1 Jo 1,2
    É a própria razão dos escritos de São João: "Isto vos escrevi para que saibais que tendes a Vida Eterna, vós que credes no Nome do Filho de Deus." 1 Jo 5,13
    É a vida espiritual que se perpetua a partir desta vida, através da rejeição desse mundo como ensina o Mestre: "Quem ama a sua vida, perdê-la-á; mas quem odeia a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a Vida Eterna." Jo 12,25
    É engajar-se em Seu projeto da Salvação, de muito boa paga: "Eis que vos digo: levantai os vossos olhos e vede os campos, porque já estão brancos para a ceifa. O que ceifa já recebe seu salário e junta frutos para a Vida Eterna." Jo 4,35b-36a
    É, pois, o resultado de nossos trabalhos na construção do Reino de Deus, segundo São Paulo: "... produzis frutos para a vossa santificação, tendo como meta a Vida Eterna." Rm 6,22
    É uma conquista pessoal, como ele disse a São Timóteo: "Combate o bom combate da fé. Conquista a Vida Eterna, para a qual foste chamado e fizeste aquela nobre profissão de fé perante muitas testemunhas." Tm 6,12
    É nossa mais antiga Esperança, como ele disse a São Tito: "... na Esperança da Vida Eterna prometida em tempos longínquos por Deus veraz e fiel..." Tt 1,2
    Qual é, portanto, o caminho a seguir? Onde está a Verdade? Que vida devemos viver? Jesus aponta para Seu Coração e diz: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida..." Jo 14,16
    E assim resumia Sua Missão: "Eu vim para que as ovelhas tenham Vida, e Vida Plena." Jo 10,10

    "Esperamos entrar na Vida Eterna!"

quarta-feira, 26 de julho de 2017

São Joaquim e Sant'Ana


    Eram pai e a mãe de Nossa Senhora, avós de Jesus, o que fez dessa data o dia dos avós.
    Foi no ventre de Santa Ana, portanto, que aconteceu a Imaculada Concepção de Maria. E certamente Seus pais foram uma das maravilhas que Deus fez por Nossa Mãe do Céu, como ela mesma declarou no Magnificat: "... o Todo-poderoso realizou grandes obras em meu favor: o Seu Nome é santo..." Lc 1,49
    As informações que temos sobre São Joaquim e Santa Ana estão em três apócrifos, livros que a Igreja não reconhece com totalmente inspirados. Um desses é uma obra muita antiga, talvez até mesmo anterior aos Evangelhos Canônicos, e por isso é chamado de Proto-Evangelho. Ele trata de detalhes importantes que antecedem a vida pública de Jesus, mas impropriamente aponta São Tiago Menor como autor. Outro apócrifo é um 'evangelho' falsamente atribuído ao Apóstolo levita, por isso chamado de Pseudo-Mateus, que pretende ser a história da infância de Jesus e da origem de Nossa Senhora, embora reconhecidamente tenha sido escrito muitos séculos mais tarde. O último deles é o chamado 'Evangelho' da Infância de Jesus, cujos evidentes devaneios desfazem qualquer pretensão de seriedade.
    Não obstante, a Igreja estuda-os, buscando neles possíveis indícios de fatos reais que contribuam para o melhor conhecimento dos sinais de Deus. Os fatos levantados da vida de São Joaquim e Santa Ana servem de exemplo desses estudos. No Proto-evangelho de 'São Tiago', nominalmente, temos informações da ascendência de Jesus, afirmando que, por parte da Virgem Santíssima, Seu avô era da Galileia e Sua vó, de Belém. Eles teriam concebido Maria por uma Divina Graça, pois já eram idosos, e Santa Ana, estéril. Conta também que São Joaquim era rico e que eles foram morar em Jerusalém, onde Nossa Senhora nasceu, fato que foi atestado por São Sofrônio, Bispo de Jerusalém no século VII.


    Nesse apócrifo está também o registro de que Nossa Senhora foi consagrada ao Templo de Jerusalém quando tinha apenas 3 anos de idade, e aí estudou até os 12, só então retornando à casa dos pais. Esses anos de estudo explicam seu conhecimento das Escrituras e daí sua capacidade para compor cânticos religiosos, como o Magnificat, que declamou na casa de Santa Isabel, glorificando o Pai Celeste pela Vinda do Messias e agradecendo por ter sido a escolhida para trazê-Lo à Luz.


    Mas, como o próprio Jesus, Maria perdeu seu pai muito cedo, logo após acabar os estudos. Por isso muitas pinturas retratam apenas a Senhora Sant'Ana estudando com ela as Sagradas Escrituras.
    Mesmo extraídas de um 'evangelho' não reconhecido, essas informações nunca foram contestadas pelos Primeiros Padres. Ao contrário, vivendo no mesmo contexto sócio-cultural e ainda respirando dos ares da passagem do Messias e do Nascimento da Igreja, vários Papas e Santos fizeram muitas e importantes citações de algumas de suas passagens, o que é mais um forte indício de que tais escritos atestem a realidade. Assim se deduz plausível que, como Deus escolheu muito bem Maria para ser a mãe de Seu Amado Filho, com idêntica propriedade escolheu o casal em cujo seio ela seria concebida sem pecado. Sem dúvida, um homem e uma mulher que acreditavam piamente na Vinda do Salvador e eram absolutamente fiéis aos planos de Deus.
    São João Damasceno, Padre e Doutor da Igreja do século VII, de quem se tem os mais antigos registros da Imaculada Conceição e que escreveu uma linda homilia em homenagem ao Nascimento de Nossa Senhora, rendeu inspirados louvores também aos seus pais: "Oh Joaquim e Ana, casal venturoso! Toda a criação está em dívida para convosco, porque através de vós ela pôde oferecer ao Criador o dom – entre todos o mais excelso – de uma Mãe venerável, a única digna d’Aquele que a criou. Ditosos os rins de Joaquim, de onde saiu uma semente totalmente imaculada, e admirável o seio de Ana, graças ao qual se desenvolveu lentamente, onde se formou e de onde nasceu tão santa criança! Oh seio que aleitaste aquela que alimentou Aquele que alimenta o mundo!"


    Em Jerusalém, sobre o lugar da casa onde eles moravam e nasceu Nossa Senhora, foi erguida a Basílica de Sant'Ana. Fica perto das ruínas da Porta das Ovelhas, próximo ao tanque de Betesda, de cinco pórticos (cf. Jo 5,2), onde Jesus curou um homem que estava paralítico havia 38 anos. A cripta da casa, uma das dependências àquela época, foi originalmente preservada.


    Outra propriedade de São Joaquim em Jerusalém, também dotada de gruta, é tratada pelos ortodoxos como local de nascimento da Santíssima Virgem.


    São Joaquim e Sant'Ana, rogai por nós!