sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Sois Deuses


    Num mundo tão levado por futilidades e consumismo, é realmente difícil olhar para o céu e acreditar em algo maior que uma cômoda existência, a qual os meios de comunicação e o cultuado jogo da aparência persistentemente induzem-nos a imaginar. Estamos tristemente satisfeitos com a flagrante ilusão de que seríamos capazes de prover-nos tudo de que necessitamos. Não 'precisamos' mais de Deus.
    A decadência moral, por exemplo, e com ela um mar de gritantes injustiças, é apenas mais uma realidade que relutamos em admitir. E tão somente falar dela já seria coisa de gente radical, extremista, sonhadora, no mais gentil dos julgamentos. Dizer que somos filhos de Deus, então... nem pensar! Talvez como força de expressão, e mesmo assim só para reclamar algum direito.
    Mas, e se foi Jesus que nos lembrou uma passagem dos Salmos: "Vós sois deuses..."? Jo 10,34
    Mesmo entre aqueles que n'Ele dizem crer, o normal é que se vá rapidamente à procura de um interpretação 'racional', 'plausível', que justifique esse possível 'exagero'. 'Uma metáfora, por certo!' 'Deve estar fora de contexto...' 'É um versículo de difícil interpretação...'
    No entanto, o sentido é exatamente o que se lê: essas palavras dizem o que dizem. Ou, como os fariseus, iríamos negar até mesmo que Jesus é o Filho de Deus? Pois diante de tão tacanha formação espiritual, Ele próprio viu-se obrigado a argumentar: "Se a Lei chama deuses àqueles a quem a Palavra de Deus foi dirigida - ora, a Escritura não pode ser desprezada -, como acusais de blasfemo Aquele a Quem o Pai santificou e enviou ao mundo, porque Eu disse: 'Sou o Filho de Deus?'" Jo 10,25-26
    A Verdade é que, acostumados a rastejar nesse mundo, atrás de tão pequenas coisas, de fato, terminantemente recusamo-nos a olhar para o céu.
    Resta, porém, uma maior provocação: o que Deus quis dizer ao falar em fazer o ser humano à Sua semelhança? Se nesses tempos de vaidade, exibicionismo e ostentação, quando diária e acintosamente manipulamos a realidade, ser imagem d'Ele deixou de ter qualquer significado, o que dizer então da semelhança de Deus? Está lá no Gênesis: "Então Deus disse: "Façamos o homem à Nossa imagem e semelhança." Gn 1,26
    Não é cabível, pois, imaginar outra coisa! São Paulo advertia os atenienses: "Se, pois, somos da raça de Deus, não devemos pensar que a divindade é semelhante ao ouro, à prata ou à pedra lavrada por arte e gênio dos homens." At 17,29
    Alguns alegariam: 'Que semelhança, se morremos? Deus é eterno e nós, não!' Mas, sabemos mesmo o que é a alma? Jesus questionava nossa mundaneidade: "Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros, e não buscais a Glória que é só de Deus?" Jo 5,44
    E desta nossa pretensa sabedoria, podemos seguir em frente menosprezando as manifestações de Deus, a Revelação? Como Jesus mesmo acusou, a ignorância da Escrituras é fonte de perdição: "Errais, não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus." Mt 22,29
    Ora, alertando da nossa condição espiritual, Ele afirmou: "Deus é Espírito, e Seus adoradores devem adorá-Lo em espírito e Verdade." Jo 4,24
    Também sustentou a imortalidade da alma, assim como a futura Ressurreição da carne: "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes temei Aquele que pode precipitar a alma e o corpo no inferno." Mt 10,28
    De fato, morremos, ao menos corporalmente, mas não sem causa. Deus havia avisado a Adão: "Deu-lhe este preceito: 'Podes comer do fruto de todas árvores do jardim, mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal. Porque no dia em que dele comeres, indubitavelmente morrerás.'" Gn 2,16-17
    Poder-se-ia objetar: 'E que temos nós com Adão e Eva? Pagamos só pela descendência?' Não seria verdade, porém, que continuamos nos recusando a obedecer a Deus e querendo por nós mesmos decidir, a despeito de Suas revelações, 'o que é certo e o que é errado'? Não foi esse o pecado original? Não perdemos a Comunhão com Deus? Não perdemos Seu Santo Espírito? "O Senhor então disse: 'Meu espírito não permanecerá para sempre no homem, porque todo ele é carne, e a duração de sua vida será de cento e vinte anos.'" Gn 6,3
    Destituídos, portanto, ao menos parcialmente, da Graça de Seu Espírito, tivemos que seguir outro caminho. Deus determinou: "Comerás teu pão com o suor de teu rosto até que voltes à terra de que foste tirado, porque és pó, e pó hás de tornar-te." Gn 3,19
    Amoroso Pai, porém, Ele continuou acompanhando nossa saga, embora sem deixar de atribuir-nos o dever de lutar contra o erro. Foi Seu conselho a Caim: "Se praticares o bem, sem dúvida alguma poderás reabilitar-te. Mas se precederes mal, o pecado estará à tua porta, espreitando-te. Tu, porém, deverás dominá-lo." Gn 4,7
    Caim, contudo, não o aceitou. Deixou-se levar pelo pecado da inveja e assim matou seu irmão, Abel. Por isso, sua situação na terra foi ainda mais agravada: "Quando a cultivares, ela negar-te-á seus frutos. E tu serás peregrino e errante sobre a terra." Gn 4,12
    Mas Deus continuou assistindo a Caim, mesmo em seus descaminhos: "O Senhor pôs em Caim um sinal, para que, se alguém o encontrasse, não o matasse." Gn 4,15
    Assim como todo povo de Israel, como o Profeta Neemias registrou: "Vossa paciência para com eles durou muitos anos. Vós fazíeis-lhes admoestações pela inspiração de Vosso Espírito, que animava Vossos Profetas." Ne 9,30a


NATUREZA, GLÓRIA E ESPÍRITO DE DEUS

    A humanidade, no entanto, cansada de tanta desventura ao longo da História, clamou pelo Santo Espírito de Deus, do Qual havia sido deserdada. O salmista canta: "Se enviais, porém, Vosso Espírito, eles revivem e renovais a face da terra." Sl 103,30
    E recusando a sabedoria mundana, aquela mesma que nos tirou e ainda tira do paraíso, pediu pela Divina Sabedoria, que só o Divino Paráclito pode conceder: "E quem conhece Vossas intenções, se Vós não lhe dais a Sabedoria, e se do mais alto dos Céus Vós não lhe enviais Vosso Espírito Santo?" Sb 9,17
    Assim, e conforme as profecias, viveu-se à espera do Messias, que reconciliaria a humanidade com o Pai e devolver-lhe-ia a perdida semelhança. A presença de Deus entre os homens seria anunciada 'até os confins da terra', pois Ele quer Seus filhos à Sua volta, como disse São Paulo: "... também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Este seja o primogênito entre uma multidão de irmãos. E aos que predestinou, também chamou; e aos que chamou, também justificou; e aos que justificou, também glorificou." Rm 8,29-30
    É isso mesmo: Ele quer restituir-nos a Glória, Sua Glória. E assim fez Jesus, quando rezou ao Pai para que a Igreja preserve a União com o Espírito Santo e o mundo n'Ele veja o Salvador. A Igreja Unida, sem divisões, portanto, é a marca de Sua Glória: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam um como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim. Para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e amaste-os, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    Por isso, São João Evangelista, ainda que se referindo à definitiva Volta de Cristo, confiantemente fala na semelhança a ser recuperada: "Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto O veremos como Ele é." 1 Jo 3,2
    Os seguidores da tradição de São Paulo, sem esquecer o Sacrifício da Cruz, vão dizer o mesmo: "Aquele para Quem e por Quem todas as coisas existem, desejando conduzir à Glória numerosos filhos, deliberou elevar à perfeição, pelo sofrimento, o Autor da Salvação deles, para que Santificador e santificados formem um só todo. Por isso, Jesus não hesita em chamá-los Seus irmãos..." Hb 2,10-11
    Essa é a Graça que estava prevista pelas promessas de Deus: que abandonando a vida mundana pela Confissão dos peados, tomemos mais uma vez parte de Sua natureza divina, como diz São Pedro: "... temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo." 2 Pd 1,4
    São Paulo disse algo parecido aos tessalonicenses: "Nós, porém, sentimo-nos na obrigação de incessantemente dar graças a Deus a respeito de vós, irmãos queridos de Deus, porque desde o princípio Deus vos escolheu para dar a Salvação, pela santificação do Espírito e pela fé na Verdade. E pelo anúncio de nosso Evangelho chamou-vos para tomardes parte na Glória de Nosso Senhor Jesus Cristo." 2 Ts 2,13-14
    Ele assim explica essa condição aos coríntios: "Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar. O homem espiritual, ao contrário, julga todas as coisas e não é julgado por ninguém." 1 Cor 2,14-15
    Menciona nestes termos nossa unidade com Cristo, através da conversão e da participação no Sacrifício Pascal da Santa Missa: "... fomos feitos o mesmo ser com Ele, por uma morte semelhante à Sua..." Rm 6,5
    E diz que a santidade nada mais é que a restauração da imagem, ou mais propriamente, da semelhança de Deus: "Vós despistes-vos do velho homem com seus vícios, e revestistes-vos do novo, que constantemente vai restaurando-se à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento." Cl 3,9b-10
    É nesse sentido que nos exorta Jesus, fazendo-nos recordar nossa divina filiação: "Portanto, sede perfeitos, assim como Vosso Pai Celeste é perfeito." Mt 5,48
    Ele disse-o mais de uma vez, como repetiu a Santa Maria Madalena em Sua primeira aparição no Domingo da Ressurreição: "Disse-lhe Jesus: 'Não Me retenhas, porque ainda não subi a Meu Pai, mas vai a Meus irmãos e dize-lhes: Subo para Meu Pai e Vosso Pai, Meu Deus e Vosso Deus.'" Jo 20,17
    De fato, o Pai é Seu constante referencial: "Sede misericordiosos, como também Vosso Pai é misericordioso." Lc 6,36
    É d'Ele que devemos esperar nossa herança: "Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto a Vosso Pai que está no Céu." Mt 6,1
    Até fez uma rápida comparação entre a paternidade mundana e a celestial: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Vosso Pai Celestial dará o Espírito Santo aos que LhO pedirem." Lc 11,13
    Pois também nós devemos viver a santidade para a Salvação de nossos irmãos: "Guardai-vos de menosprezar um só destes pequenos, porque Eu vos digo que seus anjos contemplam sem cessar a face de Meu Pai que está nos Céus. Assim é a vontade de Vosso Pai Celeste, que não se perca um só destes pequeninos." Mt 18,10-14
    Ele assim justificava Seu proceder: "Jesus tomou a palavra e disse-lhes: 'Em verdade, em verdade, digo-vos: de Si mesmo, o Filho não pode fazer coisa alguma. Ele só faz o que vê fazer o Pai, e tudo o que o Pai faz, semelhantemente faz o Filho.'" Jo 5,19
    Pregava: "Tendes ouvido o que foi dito: 'Amarás teu próximo e poderás odiar teu inimigo.' Eu, porém, digo-vos: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo, sereis os filhos de Vosso Pai do Céu, pois Ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos." Mt 5,43-45
    E em mais uma graciosa concessão, desde que O sigamos, Ele compartilha conosco Sua condição de Luz do mundo: "Vós sois a luz do mundo." Mt 5,14
    Tal condição autoriza São Paulo a dizer aos coríntios: "Tornai-vos meus imitadores, como eu o sou de Cristo." 1 Cor 11,1
    Ou, noutro desdobramento, perante os efésios: "Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados." Ef 5,1
    Ora, o Apóstolo dos Gentios faz-nos lembrar a determinante missão da Igreja: "Por isso, a criação ansiosamente aguarda a manifestação dos filhos de Deus... com a esperança de também ser libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus." Rm 8,19.21


FILHOS PARA OBEDECER

    Pois basta que sejamos obedientes e confiemos, porque tudo isso está muito além de nossas capacidades para que tentemos compreender cada detalhe ou a integridade do Divino Projeto. Ou seja, fora o que nos foi dado conhecer pela Revelação, devemos tão somente crer, como reza São Paulo: "Àquele que, pela virtude que em nós opera, pode fazer infinitamente mais que tudo quanto pedimos ou entendemos..." Ef 3,20
    Só por essa ótica fazem sentido estas palavras de Jesus: "Em verdade, em verdade, digo-vos: aquele que crê em Mim também fará as obras que Eu faço. E ainda maiores que estas fará, porque vou para junto do Pai." Jo 14,12
    Ele prometeu: "E tudo que pedirdes ao Pai em Meu Nome, vo-lo farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Qualquer coisa que Me pedirdes em Meu Nome, vo-lo farei." Jo 14,13-14
    E garantiu: "Em verdade, digo-vos: se tiverdes , como um grão de mostarda, direis a esta montanha: 'Transporta-te daqui para lá', e ela irá. E nada vos será impossível." Mt 17,20
    São Paulo explica tal poder: "Porque é Deus, segundo Seu beneplácito, Quem realiza em vós o querer e o executar." Fl 2,13
    Sem dúvida, Jesus havia dito desta Comunhão: "Quem permanecer em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto. Porque sem Mim nada podeis fazer." Jo 15,5b
    E nosso conhecimento, sem a Luz de Deus, é pura cisma, precisamente o pecado cometido por Eva. Ora, o pleno conhecimento, sem que seja necessário ouvir a Deus, foi a oferta que lhe fez a Serpente: "Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos abrir-se-ão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal." Gn 3,5
    Na verdade, nós devemos sim desejar a perfeição, mas aquela oferecida por Deus, que é conforme a Revelação, como foi dado a São Pedro reconhecer o Cristo no Nazareno: "Então lhe disse Jesus: 'Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas Meu Pai que está nos Céus.'" Mt 16,17
    Para tanto Jesus edificou a Igreja, que nos comunica Sua divina maturidade. São Paulo ensina aos efésios: "A uns Ele constituiu Apóstolos; a outros, Profetas; a outros, evangelistas, pastores, doutores, para o aperfeiçoamento dos cristãos, para o desempenho da tarefa que visa à construção do Corpo de Cristo, até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo." Ef 4,11-13
    E nela devemos aguardar o cumprimento dos planos do Pai, como diz ele aos coríntios: "Pois nosso conhecimento é limitado; limitada também é nossa profecia. Mas, quando vier a perfeição, desaparecerá o que é limitado." 1 Cor 13,9-10
    Por essa razão foi dada à Igreja a unção do Divino Paráclito: "... fostes selados com o Espírito Santo que fora prometido, que é o penhor de nossa herança, enquanto esperamos a completa Redenção daqueles que Deus adquiriu para o louvor da Sua Glória." Ef 1,13b-14
    Pois o Cristo, por toda vida terrena, deve ser nossa reflexão e contemplação, além de exclusiva fonte de Sabedoria. O último Apóstolo confidencia aos colossenses: "Tudo sofro para que seus corações sejam reconfortados e que, estreitamente unidos pela caridade, sejam enriquecidos de uma plenitude de inteligência, para conhecerem o mistério de Deus, isto é, Cristo, no Qual estão escondidos todos tesouros da Sabedoria e da ciência." Cl 2,2-3
    Temos, portanto, o imenso amor de Deus para diariamente experimentar, sentir e vivenciar: "Que Cristo habite pela fé em vossos corações, arraigados e consolidados na caridade, a fim de que possais, com todos cristãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, isto é, conhecer a caridade de Cristo, que desafia todo conhecimento..." Ef 3,17-19a
    São Paulo deseja-nos muito mais que entender: "... sejais cheios de toda plenitude de Deus." Ef 3,19b
    E garante: "... pois todos que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus." Rm 8,14
    Porque obedecendo aos Mandamentos temos o precioso auxílio do Espírito Santo, como afirmou São Pedro perante o Sinédrio: "Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem." At 5,32
    Invocando a mesma citação feita por Jesus, ele exorta-nos à sincera obediência: "À maneira de obedientes filhos, já não vos amoldeis aos desejos que antes tínheis, no tempo de vossa ignorância. A exemplo da santidade d'Aquele que vos chamou, também sede vós santos em todas vossas ações, pois está escrito: 'Sede santos, porque Eu sou Santo' (Lv 11,44). Se invocais como Pai Aquele que, sem distinção de pessoas, julga cada um segundo suas obras, vivei com temor durante o tempo de vossa peregrinação." 1 Pd 1,14-17
    Por Sua unção, segundo São Paulo, passamos a outra condição: "... aquele se une ao Senhor, com Ele torna-se um só Espírito." 1 Cor 6,17
    Ora, foi isso que São Lucas atestou em Antioquia, logo após a chegada de São Barnabé, que crismou os novos fiéis: "Assim uma grande multidão uniu-se ao Senhor." At 11,24
    São João Evangelista diz da instrução que recebemos do Santo Paráclito: "Vós, porém, tendes a unção do Santo e sabeis todas as coisas. E não tendes necessidade de que alguém vos ensine, mas, como Sua unção vos ensina todas as coisas, assim é ela verdadeira e não mentira. Permanecei n'Ele, como ela vos ensinou." 1 Jo 2,20.27b
    E a Comunhão Espiritual é a razão de toda pregação dos Apóstolos: "O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com nossos olhos, o que temos contemplado e nossas mãos têm apalpado no tocante ao Verbo da Vida, porque a Vida se manifestou e nós a temos visto, damos testemunho e anunciamo-vos a Vida Eterna, que estava no Pai e que se nos manifestou. O que vimos e ouvimos nós anunciamo-vos, para que vós também tenhais comunhão conosco. Ora, nossa comunhão é com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo. Se, porém, andamos na Luz como Ele Mesmo está na Luz, temos comunhão recíproca uns com os outros, e o Sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, purifica-nos de todo pecado." 1 Jo 1,1-3.7
    Essa é a ajuda do 'germe' de Deus, que nos capacita para vencer o pecado: "Todo aquele que é nascido de Deus não peca, porque o germe divino nele reside. E não pode pecar, porque nasceu de Deus." 1 Jo 3,9
    Ele assegura: "E todo aquele que n'Ele tem esta esperança, torna-se puro como Ele é puro." 1 Jo 3,3
    Do contrário, jamais poderíamos ser representantes de Cristo para nossos irmãos. E São João Evangelista também referiu-se ao exercício dessa nova condição já nesta vida: "Nisto é perfeito em nós o amor: que tenhamos confiança no Dia do Julgamento, pois, como Ele é, assim também nós o somos neste mundo." 1 Jo 4,17
    Foi o que disse o Arcanjo Gabriel a Nossa Senhora: "Entrando, o anjo disse-lhe: 'Ave, cheia de Graça, o Senhor é contigo.'" Lc 1,28
    Era o que dizia São Paulo: "Eu vivo, mas já não sou eu. É Cristo que vive em mim." Gl 2,20a
    Foi o que Jesus prometeu através da Santa Eucaristia: "Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue, permanece em Mim e Eu nele. Assim como vive o Pai que Me enviou, e Eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer Minha Carne viverá por Mim." Jo 6,56-57
    E ensinou a Nicodemos: "O vento sopra onde quer. Ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito." Jo 3,8
    Nesse ministério empenhou São Paulo sua vida, e escreveu aos gálatas: "Filhinhos meus, por quem de novo sinto dores de parto até que Cristo seja formado em vós..." Gl 4,19
    De fato, São Pedro afirma que Deus nos dispôs tudo de que realmente precisamos para viver Sua própria santidade: "O divino poder deu-nos tudo que contribui para a Vida e a Piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude." 2 Pd 1,3
    E mesmo em nossa condição carnal, o salmista canta que Ele já nos entregou todas as coisas: "Que é o homem, digo-me então, para nele pensardes? Que é um filho de Adão, para que com ele vos ocupeis? Entretanto, Vós fizeste-lo pouco menos que um deus, de Glória e honra coroaste-lo. Destes-lhe poder sobre as obras de Vossas mãos, Vós submeteste-lhe todo universo." Sl 8,5-7
    Isso explica porque São Paulo dizia não olhar mais para o ser humano como um mero vivente, mas como um legítimo filho de Deus, creditando-lhe a Graça original: "Por isso, daqui em diante nós a ninguém conhecemos de um modo humano. Muito embora tenhamos considerado Cristo dessa maneira, agora já não O julgamos assim." 2 Cor 5,16
    É o mesmo que reclama São Tiago Menor, ao falar das armadilhas em que cai nossa língua: "Com ela bendizemos o Senhor, Nosso Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus." Tg 3,9
    Na Carta aos Filipenses, São Paulo exultava: "Nós, porém, somos cidadãos dos Céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante a Seu Corpo glorioso..." Fl 3,20-21
    Pois, segundo ele, Jesus fez-Se carne para demonstrar nossa dignidade perante Deus: "Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos. Cada qual tenha em vista não seus próprios interesses, e sim os dos outros. Dedicai-vos mutuamente a estima que se deve em Cristo Jesus. Sendo Ele de condição divina, não Se prevaleceu de Sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-Se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-Se ainda mais, tornando-Se obediente até a morte, e morte de Cruz." Fl 2,3-8
    Ora, assim Jesus foi reconhecido pela humilde gente de Israel, como na ocasião em que curou o paralítico descido pelo telhado em Cafarnaum: "Vendo isto, a multidão encheu-se de medo e glorificou a Deus por ter dado tal poder aos homens." Mt 9,8
    Sem vacilar, portanto, São Paulo convida os romanos à plena Comunhão: "Pois como pusestes vossos membros a serviço da impureza e do mal para cometer a iniquidade, assim agora ponde vossos membros a serviço da justiça para chegar à santidade." Rm 6,19
    Com efeito, como diz a Carta aos Hebreus, ela é essencial para que se alcance a Vida Eterna: "Procurai a Paz com todos e ao mesmo tempo a santidade, sem a qual ninguém pode ver o Senhor." Hb 12,14
    Por ela temos acesso ao pleno Reino de Deus: "Mas agora, libertados do pecado e feitos servos de Deus, tendes por fruto a santidade; e o termo é a Vida Eterna." Rm 6,22
    É a vida nas santas virtudes, pois, que nos permite vencer a morte. São Paulo prega a São Timóteo: "Deus salvou-nos e chamou-nos para a santidade, não em atenção às nossas obras, mas em virtude de Seu desígnio, da Graça que desde a eternidade nos destinou em Cristo Jesus, e agora manifestou-nos mediante a aparição de Nosso Salvador Jesus Cristo, que destruiu a morte e suscitou a Vida e a imortalidade pelo Evangelho..." 2 Tm 1,9-10
    E, sem dúvida, esse é o caminho contrário ao proposto pelo mundo: "Pois Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santidade." 1 Ts 4,7
    O mundo, aliás, nada conhece da Glória de Deus, como diz o livro da Sabedoria: "... eles desconhecem os segredos de Deus, não esperam que a santidade seja recompensada e não acreditam na glorificação das almas puras." Sb 2,22
    Por isso, Jesus disse do Espírito Santo àqueles que formariam Sua Igreja: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele dar-vos-á outro Paráclito, para que fique eternamente convosco. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece. Mas vós O conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós." Jo 4,16-17
    E é também por isso que o Pai Celeste nos corrige: "Nossos pais humanos, por pouco tempo, corrigiam-nos como melhor lhes parecia. Deus, porém, corrige-nos para nosso bem, a fim de que sejamos participantes da Sua própria santidade." Hb 12,10
    O salmista, citado por Jesus, dizia: "Sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo." Sl 81,6

    "Santificai-nos pelo dom de Vosso Espírito!"

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Inseguranças


    Num mundo assaltado pelo medo, e até pelo pânico, ou onde a agressiva competitividade materialista é a oração mental comunitária prevalecente no dia-a-dia, ter inseguranças é quase uma frivolidade. Na intimidade, porém, todos temos nossas hesitações, incertezas, fraquezas. E na contramão da exacerbação da insensibilidade, tais características até são desejáveis dadas as grandes lições que ensinam, como percebeu o Eclesiástico: "... o que passou por muitas dificuldades desenvolve a prudência." Eclo 34,10
    E para mais prosperar nessa virtude, o Profeta Baruc recomenda à Israel a meditação dos Mandamentos da Lei de Deus: "Escuta, Israel, os Mandamentos de Vida. Medita, a fim de que aprendas a prudência." Br 3,9
    Com toda razão, pois os Provérbios têm-na como imprescindível à Salvação: "O homem que se desvia do caminho da prudência repousará na companhia das trevas." Pr 21,16
    São Luís Maria Montfort, ademais, bem demonstrou que a mera e mundana prudência não é o bastante. Por isso, ao apontar a 'imprudência' dos que realmente têm boa fé, Jesus pedia caridade mesmo que imperfeita: "E o proprietário admirou a astúcia do administrador, porque os filhos deste mundo são mais prudentes do que os filhos da Luz no trato com seus semelhantes. Eu digo-vos: fazei-vos amigos com a riqueza amealhada na injustiça, para que, no dia em que ela vos faltar, eles recebam-vos nos eternos tabernáculos." Lc 16,8-9
    A verdade é que não podemos nos deixar dominar pela avareza nem nos intimidar pelo medo. Pois mais que acovardar, eles podem imobilizar! São Paulo fala da dignidade dos filhos de Deus: "Cumpre, somente, que em vosso proceder vos mostreis dignos do Evangelho de Cristo. Quer eu vá ter convosco quer permaneça ausente, desejo ouvir que estais firmes em um só espírito, unanimemente lutando pela fé do Evangelho, sem em nada vos deixardes intimidar pelos vossos adversários. Isto para eles é motivo de perdição, mas para vós de Salvação. E é a vontade de Deus, porque a vós é dado não somente crer em Cristo, mas ainda sofrer por Ele. Sustentais o mesmo combate que me tendes visto travar, e no qual sabeis que eu continuo agora." Fl 1,27-30
    E a solução é fortalecer-nos pela verdadeira Sabedoria, que só Deus pode oferecer, pois qualquer outro empenho representa o desperdício de toda uma vida. Baruc advertia: "Mesmo os filhos de Agar, que procuram inteligência sobre a terra, os negociantes de Madiã e Temã, os contadores de fábulas e os desejosos de inteligência, não chegaram a conhecer o caminho da Sabedoria, nem se recordam de suas veredas." Br 3,23
    Segundo os Provérbios, elas andam intimamente juntas: "Eu, a Sabedoria, sou amiga da prudência..." Pr 8,12
    E como toda virtude, precisamos pedi-la a Deus, tal e qual o salmista: "... ensinai-me a Sabedoria, para que conheça Vossas prescrições." Sl 118,125
    Porque "... o Senhor é Quem dá a Sabedoria..." Pr 2,6
    Por isso, São Paulo vincula-a à vontade de Deus: "Vigiai, pois, com cuidado sobre vossa conduta: que ela não seja conduta de insensatos, mas de sábios que ciosamente aproveitam o tempo, pois os dias são maus. Não sejais imprudentes, mas procurai compreender qual seja a vontade de Deus." Ef 5,15-17
    E elogiando a obediência dos romanos, ele avisava das heresias, que sempre são apresentadas em sedutoras embalagens: "Rogo-vos, irmãos, que desconfieis daqueles que causam divisões e escândalos, apartando-se da Doutrina que recebestes. Evitai-os! Esses tais não servem a Cristo Nosso Senhor, mas ao próprio ventre. E com adocicadas palavras e lisonjeira linguagem enganam os corações simples. Vossa obediência tornou-se notória em toda parte, razão porque eu me alegro a vosso respeito. Mas quero que sejais prudentes no tocante ao bem, e simples no tocante ao mal." Rm 16,17-19
    O agir confiante, portanto, não é só uma prova de , mas também da Sabedoria, que é inspirada pelo Divino Espírito e mostra seu valor nas mais difíceis situações. Jesus diz: "... a Sabedoria foi justificada pelas obras de seus filhos." Mt 11,19
    Pois só ela nos permite entender o que disse Jesus, quando nos ensinou a abandonar a falsa prudência dos mundanos cuidados: "Porque quem quiser salvar sua vida, perdê-la-á, mas quem sacrificar sua vida por amor a Mim, salvá-la-á." Lc 9,24
    Ele dizia sobre os vacilantes: "Aquele que põe a mão no arado e olha para trás, não é apto para o Reino de Deus." Lc 9,62
    E era taxativo: "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes temei aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena. Portanto, quem der testemunho de Mim diante dos homens, também Eu darei testemunho dele diante de Meu Pai que está nos Céus. Aquele, porém, que Me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante de Meu Pai que está nos Céus." Mt 10,28.32-33


CRISTO COMO MODELO

    Assim, da insegurança à prudência, e da prudência à Sabedoria, precisamos fortalecer-nos na fé. Jesus prometia: "Em verdade, declaro-vos que se tiverdes fé e não hesitardes... Tudo que com fé pedirdes em oração, vós alcançar-lo-eis." Mt 21,21a.22
    E ela não precisa ser muito grande, como Ele mesmo explicou: "Disse o Senhor: 'Se tiverdes fé do tamanho de um grão de mostarda, direis a esta amoreira: 'Arranca-te e transplanta-te no mar!', e ela obedecer-vos-á.'" Lc 17,6
    Tal postura deve prevalecer mesmo contra todas as chances, como Ele pediu a Jairo ao ouvir que sua filha, que estava enferma, havia morrido: "Não temas. Apenas crê, e ela será salva." Lc 8,50
    Na verdade, precisamos da fé para tudo. Quando provocados por Jesus para perdoarem infinitamente, os Apóstolos pediram-Lhe por esse dom: "Aumentai nossa a fé!" Lc 17,5
    Pois só a Divina Graça, que nos revigora a fé, pode ajudar a vencer os pecados, e com eles os medos: "No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo." Jo 16,33
    Todavia, antes de tudo precisamos do perdão de Deus, que é um grande bálsamo para a alma, porque é insuportável viver sob os tormentos dos erros passados. Por isso, mais importante que uma cura, Jesus oferecia Seu perdão, como disse ao paralítico da maca descida pelo telhado, que na verdade apenas queria ser curado: "Meu filho, coragem! Teus pecados são-te perdoados." Mt 9,2
    Assim, movidos pela purificação do divino perdão e pela fé, podemos tomar Cristo como exemplo de Vitória. Lembrando, porém, que Sua força se mostrava pela Verdade e pela humildade, como fez ao lavar os pés dos Apóstolos: "Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque Eu o sou. Logo, se Eu, vosso Senhor e Mestre lavei-vos os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como Eu vos fiz, assim também façais vós." Jo 13,13-15
    Pois explicitava, e com contundência, nossa absoluta dependência do Pai: "Assim também vós, depois de terdes feito tudo que vos foi ordenado, dizei: 'Somos inúteis servos. Fizemos apenas o que devíamos fazer.'" Lc 17,10
    Ele mesmo Se dizia totalmente submisso ao Pai: "Jesus tomou a palavra e disse-lhes: 'Em verdade, em verdade, digo-vos: de si mesmo o Filho não pode fazer coisa alguma. Ele só faz o que vê fazer o Pai. E tudo que faz o Pai, semelhantemente faz o Filho.'" Jo 5,19
    Obedecia pontualmente Seus desígnios, como se viu no Horto das Oliveiras: "Pai, se é de Teu agrado, afasta de Mim este cálice! Não se faça, todavia, Minha vontade, mas sim a Tua." Lc 22,42
    E por viver profundamente Sua humanidade, experimentou na Cruz toda amplitude dos mistérios de Deus: "E à hora nona Jesus bradou em alta voz: 'Elói, Elói, lammá sabactáni?', que quer dizer: 'Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonaste?'" Mc 15,34
    A maior fortaleza, portanto, capaz de enfrentar a própria morte, Nosso Salvador demonstrou através de Seu amor: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá sua vida por seus amigos. Vós sois Meus amigos se fazeis o que vos mando." Jo 13,14-15
    E recomendou: "Como Eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros." Jo 13,34
    São Paulo já atinava: "Eis porque sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor a Cristo. Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte." 2 Cor 12,10
    E ressaltando a superioridade o amor salvífico, ele aponta o Cristo como Modelo, como escreveu aos efésios: "... até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo. Para que não continuemos crianças ao sabor das ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da malignidade dos homens e de seus enganadores artifícios. Mas, pela prática sincera da caridade, cresçamos em todos sentidos n'Aquele que é a Cabeça, Cristo." Ef 4,13b-15
    Modelo que, avisando de seu martírio já próximo, ele colocava como o extremo oposto à mundana vida: "Exorto-vos, pois, - prisioneiro que sou pela causa do Senhor -, que leveis uma vida digna da vocação à qual fostes chamados, com toda a humildade e amabilidade, com grandeza de alma, suportando-vos mutuamente com caridade. Sede solícitos em conservar a unidade do Espírito no vínculo da Paz. Portanto, eis o que digo e conjuro no Senhor: não persistais em viver como os pagãos, que andam à mercê de suas frívolas ideias. Têm o entendimento obscurecido. Sua ignorância e o endurecimento de seu coração mantêm-nos afastados da Vida de Deus. Indolentes, entregaram-se à dissolução, à apaixonada prática de toda espécie de impureza." Ef 4,17-19
    E reclamou das 'aflições' de que padeciam os coríntios: "A vós, irmãos, não vos pude falar como a homens espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo. Eu dei-vos leite a beber, e não alimento sólido que ainda não podíeis suportar. Nem ainda agora o podeis, porque ainda sois carnais. Com efeito, enquanto entre vós houver ciúmes e contendas, não será porque sois carnais e procedeis de um modo totalmente humano?" 1 Cor 3,1-3
    São Tiago Menor denunciava o mesmo problema: "Donde vêm as lutas e as contendas entre vós? Não vêm elas de vossas paixões, que combatem em vossos membros? Cobiçais, e não recebeis; sois invejosos e ciumentos, e não conseguis o que desejais; litigais e fazeis guerra. Não obtendes, porque não pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, com o fim de satisfazerdes vossas paixões." Tg 4,1-3
    Para complicar, São Paulo profetizou a São Timóteo o surgimento de falsos mestres, que da fé desviam muita gente, arrastando a verdadeiros tormentos: "Os homens tornar-se-ão egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos, rebeldes aos pais, ingratos, malvados, desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis, inimigos dos bons, traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de Deus, ostentarão a aparência de piedade, mas desdenharão do poder. Dessa gente, afasta-te! Deles fazem parte os que jeitosamente se insinuam pelas casas e enfeitiçam mulherzinhas carregadas de pecados, atormentadas por toda espécie de paixões, sempre prontas para aprender sem nunca chegar ao conhecimento da Verdade." 2 Tm 3,2-7
    São Pedro fez igual advertência, pois tais heresias representam vários e danosos obstáculos à Igreja: "Assim como entre o povo houve falsos profetas, assim entre vós também haverá falsos doutores que disfarçadamente introduzirão perniciosas seitas. Eles, renegando assim o Senhor que os resgatou, atrairão sobre si repentina ruína. Muitos os seguirão em suas desordens, e deste modo serão a causa de o Caminho da Verdade ser caluniado." 2 Pd 2,1-3
    Mas, contra toda devassidão e em meio a grandes perigos, Jesus deixou-nos uma inafastável missão: "Eu envio-vos como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas. Cuidai-vos dos homens." Mt 10,16-17a
    E mesmo avisando de Seu Martírio, também nos deu razões para não hesitar: "Não se perturbe vosso coração. Credes em Deus, crede também em Mim." Jo 14,1
    Ele garantia: "Não se vendem dois passarinhos por um asse? No entanto, nenhum cai por terra sem a vontade de Vosso Pai. Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois! Bem mais que os pássaros valeis vós." Mt 10,29-31


O EXERCÍCIO DA FÉ

    Entre os Apóstolos, dado o privilégio que tiveram de presenciar Seus milagres, Jesus não tolerava nem mesmo o medo de morrer. É o que vemos quando o vento e as ondas jogavam o barco de um lado para outro, e eles atemorizavam-se. Ele repreendeu-os severamente: "Por que este medo, gente de pouca fé?" Mt 8,26
    Da mesma forma, quando São Pedro ofereceu-se para andar sobre as águas, mas vacilou diante das grandes ondas, foi censurado por Ele: "Homem de pouca fé, por que duvidaste?" Mt 14,31
    O mesmo se deu quando os Doze já não entendiam Sua Palavra, por preocuparem-se em demasia com a comida que levavam para a viagem. Ele não os poupou: "Homens de pouca fé! Por que julgais que vos falei por não terdes pão?" Mt 16,8-9
    Ou quando os Apóstolos não conseguiram exorcizar um menino possesso, e seu pai teve que pedir socorro a Jesus: "Ó incrédula e perversa geração, até quando estarei convosco e vos aturarei? Traze cá teu filho." Lc 9,41
    São Tomé também não ficou sem correção por sua incredulidade e egocentrismo. Enquanto duvidava de Sua Ressurreição, ou exigia uma prova, Jesus disse-lhe ao aparecer mais uma vez no meio dos Onze: "Introduz aqui teu dedo, e vê Minhas mãos. Põe tua mão no Meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé." Jo 20,27
    A mulher estrangeira, em contraponto, que aceitou humildemente 'as migalhas' de Sua atenção, recebeu um entusiasmado elogio de Jesus. De fato, sua fé estava acima da vergonha ou da vaidade: "Ó mulher, grande é tua fé!" Mt 15,28
    O centurião, no mesmo sentido, que acreditava que bastaria tão somente uma Palavra Sua para a cura de seu servo, foi enaltecido por Jesus: "... nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé." Lc 7,9
    Pois Ele realmente reclamava de toda uma geração e suas 'prudências': "Portanto, eis que vos digo: não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não é mais que as vestes? Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste alimenta-as. Não valeis vós muito mais que elas? Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida? E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, Eu digo-vos que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, Vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá suas próprias preocupações. A cada dia basta seu cuidado." Mt 6,25-34
    E apontando a insensata cultura dos mundanos prazeres, denunciava a origem de toda incredulidade: "Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros, e não buscais a Glória que é só de Deus?" Jo 5,44
    São Paulo, que pelas Escrituras já divisava a Divindade de Jesus, sabia muito bem o caminho: "Logo, a fé provém da pregação, e a pregação exerce-se em razão da Palavra de Cristo." Rm 10,17
    Condenava, por isso, os projetos que não têm por meta a Vida Eterna: "Se é só para esta vida que temos colocado nossa esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os mais dignos de lástima." 1 Cor 15,19
    O que aprendemos de Jesus, portanto, é que Ele não nos quer entregues a ventos de incertezas. Temos sempre que acreditar mesmo vivendo num mundo extremamente violento, onde a vida foi banalizada. Poderíamos deixar de dar nosso testemunho de fé? Não por acaso, quando falava sobre os últimos tempos, Ele deixou uma ruidosa pergunta: "Mas, quando vier o Filho do Homem, acaso achará fé sobre a terra?" Lc 18,8
    E Ele mesmo a respondeu, embora noutras palavras e noutra situação: "A maldade espalhar-se-á tanto que o amor de muitos esfriará." Mt 24,12
    Contudo, não deixou de apontar o caminho da fé: "Mas quem perseverar até o fim, esse será salvo" Mt 24,13
    É por essa razão que devemos buscar o dom da fortaleza, que nos é dado pelo Espírito Santo. São Pedro recomenda a busca dessa virtude numa sequência de outras: "Por isso mesmo, dedicai todo esforço em juntar à vossa fé a fortaleza, à fortaleza o conhecimento, ao conhecimento o domínio próprio, ao domínio próprio a constância, à constância a piedade, à piedade a fraternidade, e à fraternidade, o amor." 2 Pd 1,5-7
    Jesus garantiu: "Portanto, quem ouve estas Minhas Palavras e põe-nas em prática é como um sensato homem, que construiu sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas ela não desabou, porque estava construída sobre a rocha." Mt 7,24-25
    E recomendou a constante vigília, só possível por frequentes orações, como a verdadeira prudência: "Então o Reino dos Céus será semelhante a dez virgens, que saíram com suas lâmpadas ao encontro do Esposo. Dentre elas, cinco eram tolas e cinco, prudentes. Tomando suas lâmpadas, as tolas não levaram óleo consigo. As prudentes, todavia, levaram de reserva vasos de óleo junto com as lâmpadas. Tardando o Esposo, cochilaram todas e adormeceram. No meio da noite, porém, ouviu-se um clamor: 'Eis o Esposo, ide-Lhe ao encontro.' E as virgens levantaram-se todas e prepararam suas lâmpadas. As tolas disseram às prudentes: 'Dai-nos de vosso óleo, porque nossas lâmpadas estão apagando-se.' As prudentes responderam: 'Não temos o suficiente para nós e para vós; é preferível irdes aos vendedores, a fim de comprardes para vós.' Ora, enquanto foram comprar, veio o Esposo. As que estavam preparadas entraram com Ele para a sala das bodas, e a porta foi fechada. Mais tarde, chegaram também as outras e diziam: 'Senhor, Senhor, abre-nos!' Mas Ele respondeu: 'Em verdade, digo-vos: não vos conheço!' Vigiai, pois, porque não sabeis nem o dia nem a hora." Mt 25,1-13
    Ensina o Catecismo da Igreja: "A prudência é a virtude que dispõe a prática razão para discernir, em qualquer circunstância, nosso verdadeiro bem, e para escolher os justos meios de atingi-lo. 'O prudente homem vigia seus passos' (Pr 14,15). 'Sede ponderados e comedidos, para poderdes orar' (1 Pd 4,7). A prudência é a 'reta norma da ação', escreve São Tomás seguindo Aristóteles. Não se confunde, nem com a timidez ou o medo, nem com a duplicidade ou dissimulação. É chamada 'auriga virtutum – condutor das virtudes', porque guia as outras virtudes, indicando-lhes a regra e a medida. É a prudência que imediatamente guia o juízo da consciência. O prudente homem decide e ordena sua conduta segundo este juízo. Graças a esta virtude, aplicamos sem erro os princípios morais aos casos particulares, e ultrapassamos as dúvidas sobre o bem a fazer e o mal a evitar." CIC § 1807

    "Caminhamos na estrada de Jesus!"

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Assunção de Nossa Senhora


    Em 1950, o Papa Pio XII oficialmente declarou que Maria foi elevada aos Céus em corpo e alma. Embora, além das elucidativas visões que teve a Beata Anna Catarina Emmerich, os registros de Sua Assunção só existam em livros apócrifos, e só recentemente tenha sido declarada, a Igreja já a cultua desde os primórdios, pois está em perfeita conformidade com as Escrituras e é parte da Tradição dos Apóstolos.
    Pela Bíblia, em específico, no livro de Apocalipse temos o relato de São João Evangelista, que, apesar de não tratar propriamente de sua Assunção, viu-a já nos Céus, e deu testemunho de Sua transfiguração em corpo glorioso e de Sua coroação: "Em seguida, apareceu no Céu um grande sinal: uma Mulher revestida do sol, tendo a lua debaixo de Seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas." Ap 12,1
    E, instantes antes dessa aparição, havia sido apresentada ao amado discípulo a Arca da Aliança, ou seja, a portadora da Revelação, como ele registrou no versículo imediatamente anterior: "Abriu-se o Templo de Deus no Céu e apareceu, no Seu Templo, a Arca de Seu Testamento. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e forte saraiva." Ap 11,19
    Tais visões não se deram num momento qualquer: era o sinal da sétima trombeta, o terceiro 'ai', e assim os Céus revelavam como havia sido o início do Reinado de Cristo. Leia-se: Cristo é a própria Revelação, Caminho da humanidade, realidade a ser vivida, Deus Vivo de Deus Vivo, e Sua Mãe é a definitiva Arca da Aliança, Seu 'precioso veículo' para manifestar-Se ao mundo.
    Eis porque o salmista já cantava sua Assunção em momento que dever ser identificado como logo após a Ressurreição e a Ascensão de Jesus: "Levantai-Vos, Senhor, para vir ao Vosso repouso, Vós e a Arca de Vossa Majestade." Sl 131,8
    Ora, São João Evangelista era a pessoa mais bem informada a respeito de Maria, pois foi a ele que Jesus confiou a guarda de Sua Mãe. Mais: Maria foi-lhe confiada como a própria Mãe deste Apóstolo, assim como também nossa, pois ele aí representava todos seguidores de Cristo, e em nenhuma hipótese iria desobedecer-Lhe: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua Mãe, a irmã de Sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu Sua Mãe, e perto dela o discípulo que amava, disse à Sua Mãe: 'Mulher, eis aí teu filho'. Depois disse ao discípulo: 'Eis aí tua Mãe'. E dessa hora em diante o discípulo levou-a para sua casa." Jo 19,25-27
    Afirmativamente, é como filhos de Maria que São João Evangelista se refere àqueles que testemunham Jesus, quando Satanás percebeu que não poderia vencê-la e voltou-se contra a Igreja: "Este, então, irritou-se contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência, aos que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus." Ap 12,17
    Tal condição é dada pela perfeita Comunhão que a Igreja tem com o Espírito prometido por Jesus, como diz São Paulo aos romanos: "Todos aqueles que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus." Rm 8,14
    E ele foi taxativo: "Se alguém não possui o Espírito de Cristo, este não é d'Ele." Rm 8,8b
    Pois só os filhos de Deus obtêm o penhor do Santo Paráclito: "O Espírito mesmo dá testemunho a nosso espírito de que somos filhos de Deus." Rm 8,16
    São João Evangelista diz do sinal dado por Jesus: "Quem observa Seus Mandamentos permanece em Deus e Deus nele. É nisto que reconhecemos que Ele permanece em nós: pelo Espírito que nos deu." 1 Jo 1,3-24
    E ainda que indiretamente, o Eclesiástico já atestava o insubstituível papel de Nossa Mãe Celeste nos planos de Deus: "Deus honra o pai nos filhos e confirma, sobre eles, a autoridade da mãe." Eclo 3,2
    Ele alude aos tesouros no Céus, de que falou Jesus: "Quem honra sua mãe é semelhante àquele que acumula um tesouro." Eclo 3,4
    Pois, se somos filhos dos Sacerdotes da Igreja, que são nossos pais espirituais como reclamava São Paulo, como não haveríamos de ser filhos de Maria, a Nova Eva, que gerou o próprio Cristo para a Salvação da humanidade? Por isso, primando pela Unidade da Igreja, o Apóstolo dos Gentios corrigia os coríntios: "Não vos escrevo estas coisas para envergonhar-vos, mas admoesto-vos como meus amados filhos. Com efeito, ainda que tivésseis dez mil mestres em Cristo, não tendes muitos pais; ora, fui eu que vos gerei em Cristo Jesus pelo Evangelho. Por isso, conjuro-vos a que sejais meus imitadores. Para isso é que vos enviei Timóteo, meu amado e fiel filho no Senhor. Ele recordar-vos-á minhas normas de conduta, tais como as ensino por toda parte, em todas igrejas." 1 Cor 4,14-17


    Pois a sensata pergunta a ser levantada é: se os 'lenços e outros panos' de São Paulo (At 19,11), a 'sombra' de São Pedro (At 5,15) e a 'orla do manto' de Jesus (Lc 8,44) realizam milagres enquanto relíquias, que dizer do próprio corpo de Nossa Senhora que por nove meses teve Deus em seu ventre? Poderia o receptáculo da Absoluta Graça corromper-se?
    Deus não o permitiu nem à Santa Casa de Nazaré, que por anjos foi levada a Loreto, na Itália...
    Ora, se a própria Igreja, apesar de alguns de seus membros, é incorruptível (Mt 16,18b; Ef 5,25b-27), como então não o seria o ventre de Maria Santíssima, do qual a humanidade deve renascer pelo Espírito Santo para ser Igreja? "Respondeu Jesus: 'Em verdade, em verdade, digo-te: quem não renascer da Água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus. O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito.'" Jo 3,5-6
    O próprio Jesus assim foi gerado: "Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e disse-lhe: 'José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois Aquele que nela foi concebido vem do Espírito Santo.'" Mt 1,20
    É o que diz Santa Isabel a Nossa Senhora: "Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o Fruto de teu ventre." Lc 1,42
    Dito que claramente se estende a nós, como escreveu São Paulo: "Aqueles que Ele (Deus) de antemão distinguiu, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Este seja o primogênito entre uma multidão de irmãos." Rm 8,29
    E se, após Sua morte, o corpo de Nossa Senhora realmente tivesse permanecido num sepulcro, tal fato e tal lugar jamais seriam ignorado pela considerável multidão de fiéis, e assim logo seriam divulgados, pois, desde as Bodas de Caná da Galileia, Maria sempre esteve presente na vida pública de Jesus junto aos Apóstolos: "Depois disso, desceu para Cafarnaum, com Sua mãe, Seus irmãos e Seus discípulos, e ali só demoraram poucos dias. Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém." Jo 2,12-13
    E assim foi mesmo depois da Ascensão de Jesus, nas atividades da nascente Igreja: "Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o zelota, e Judas, irmão de Tiago. Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, Mãe de Jesus, e os irmãos d'Ele." At 1,13-14
    E foi o próprio Jesus que prometeu preparar-nos um lugar nos Céus. Acaso Ele não faria o mesmo para Sua Santíssima Mãe? Ele disse: "Na casa de Meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, Eu ter-vos-ia dito, pois vou preparar-vos um lugar. Depois de ir e preparar-vos um lugar, voltarei e tomar-vos-ei Comigo, para que, onde Eu estou, também vós estejais." Jo 14,2-3
    As almas dos Santos, por exemplo, já estão no Céu, como viu São João Evangelista: "Vi também tronos, sobre os quais se assentaram aqueles que receberam o poder de julgar: eram as almas dos que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, e todos aqueles que não tinham adorado a Fera ou sua imagem, que não tinham recebido seu sinal na fronte nem nas mãos. Eles viveram uma Nova Vida, e com Cristo reinaram por mil anos." Jo 20,4
    Os Apóstolos, ademais, que já tinham a Ressurreição de Jesus como o grande trunfo para atestar a manifestação do Messias, não precisavam 'inventar' mais esse grandioso episódio. Seria um capítulo a mais, como se veria mais tarde, em tempo oportuno, a ser incorporado às revelações do Precioso Depósito, o que àqueles tempos certamente dificultaria o próprio anúncio da Encarnação do Cristo.
    Assim, portanto, deram-se os fatos, e assim temos que acolhê-los. Essa é a Verdade, a obra de Deus. E com mais essa maravilha Ele simplesmente explicitou ainda mais, na pessoa da Santíssima Mãe, Sua feição de Amoroso Pai, como já fizera através de Jesus, que sobremaneira reafirmou a Doutrina da Ressurreição da Carne. Ele disse: "... Seu Mandamento é Vida Eterna." Jo 12,50a
    Por outro lado, a inspiração do Espírito Santo foi especialmente decisiva para a definição desse Dogma pelo Papa, assim como foi para a sustentação de sua Tradição, mantida pelos membros da Igreja através dos séculos. De fato, Jesus havia prometido que o Divino Paráclito instruiria a Igreja anunciando 'as coisas que virão': "Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a Verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão." Jo 16,13
    Da mesma forma, o papa, os cardeais, os bispos, os presbíteros e diáconos católicos são ministros da Nova Aliança, movidos pelo Espírito de Deus, e como tais também eles não falam por si mesmos, mas em Nome de Deus, como disse Jesus do Paráclito: "... porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir." Idem
    São Paulo, com efeito, já havia atestado: "Não que sejamos por nós mesmos capazes de ter algum pensamento, como de nós mesmos. Nossa capacidade vem de Deus. É Ele que nos fez aptos para ser ministros da Nova Aliança, não a da letra, e sim a do Espírito. Porque a letra mata, mas o Espírito vivifica." 2 Cor 3,6
    E cravou: "... quem se une ao Senhor, com Ele torna-se um só Espírito." 1 Cor 6,17
    É, portanto, pela moção do Divino Espírito que temos a Igreja Viva, capaz de testemunhar as obras do Reino dos Céus conforme o ensinamento de Jesus: "O Espírito é que vivifica... As palavras que vos tenho dito são Espírito e Vida." Jo 6,63
    Por isso, atestando a importância da instituição eclesial pessoalmente fundada pelo Salvador, disse São Paulo: "... Cristo amou a Igreja e entregou-Se por ela, para santificá-la, purificando-a pela Água do Batismo com a Palavra, para a Si mesmo apresentá-la toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível. Este mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja." Ef 5,25-27.32
    Bem ao modo da Igreja Viva, por fim, e da constante presença do Espírito de Deus entre nós, sobre a Assunção temos ainda os extraordinários relatos da Beata Anna Catarina Emmerich, que viveu entre 1774 e 1824, e em 2004 foi beatificada por São João Paulo II. Eles detalham os últimos anos da vida de Nossa Senhora na proximidades de Éfeso, na atual Turquia, onde com São João Evangelista se recolheu das perseguições dos judeus, ainda mais violentas após o apedrejamento de Santo Estevão, e que Jesus havia profetizado: "Expulsar-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que todo aquele que vos tirar a vida julgará prestar culto a Deus. Procederão deste modo porque não conheceram o Pai, nem a Mim." Jo 16,2-3

    
    Em termos místicos, São João Evangelista cita essa retirada no livro do Apocalipse: "Mas à Mulher foram dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto, para o lugar de seu retiro, onde é alimentada por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente." Ap 12,14
    O Profeta Isaías já previra essa revigorante dádiva de Deus, o alento que tornou humanamente suportáveis as 'espadas' que traspassaram a alma de Nossa Senhora da Dores: "Até os adolescentes podem esgotar-se, e robustos jovens podem cambalear, mas aqueles que contam com o Senhor renovam suas forças, Ele dá-lhes asas de águia. Correm sem se cansar, vão para a frente sem se fatigar." Is 40,30-31
    Nas visões que teve, aliás, desde a infância, Anna Catarina Emmerich conta que a Santíssima Virgem havia memorizado a Via Sacra, que repetiu inúmeras vezes ainda em Jerusalém, enquanto lá pôde viver, e, já em Éfeso, escolheu lugares parecidos em volta do campo onde morava. Aí, entre orações, Nossa Mãe Celeste repetia diariamente as 15 estações.
    Nossa Beata também viu, nesse mesmo lugar, os últimos dias da Imaculada Mãe, quando convocou todos Apóstolos para deles despedir-se, seus últimos instantes, o local onde ela foi sepultada, que ainda não foi encontrado, e o momento, imediatamente seguinte, em que ela foi elevada aos Céus diante dos olhos dos Apóstolos.
    As igrejas ortodoxa e anglicana também professam que Maria Santíssima foi elevada aos Céus.


    Oh Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós!