terça-feira, 21 de agosto de 2018

São Pio X


    Humilde mas enérgico, foi destemido defensor da Doutrina da Igreja contra as heresias acobertadas sob o nome de 'modernismo'. Dócil e amável, não abdicava de sua autoridade diante dos ataques e das maquinações do inimigo, que chegava como propostas de 'renovações' até mesmo pela alta hierarquia do Clero.
    Seu papado, de 1903 a 1914, foi num turbulento período da História, pois o ateísmo e, mais uma vez, a prosperidade material, como se viu no surgimento da burguesiaeram moda em vários segmentos sociais, que deslumbradamente se julgavam inovadores. Nas universidades, a tendência era rever tudo pela ótica do naturalismo, e até a seria algo simplesmente natural. A psicologia e a sociologia prometiam respostas para tudo, mas, em flagrante contradição, nenhuma dessas bandeiras de 'um mundo melhor' evitou a Primeira e, pouco mais tarde, a Segunda Guerra Mundial. Até acirraram-nas, pois abriram espaço, cedendo "argumentos" para doentias correntes de "pensamento" como o darwinismo social e o racismo científico. A própria e aclamada filosofia, em ares não menos delirantes, debatia-se entre o relativismo moral e o niilismo.


    Essas 'novidades' chegavam também às portas dos seminários e às correntes de Teologia, entretanto encontraram o firme pulso de Giusepe Sarto, italiano, filho de humildes agricultores e zeloso padre das Tradições da Igreja. Em meio a tantas tribulações, ele, que não queria ser Papa, veio para consolidar uma gama de procedimentos e formalidades que ainda hoje sustentam o Catolicismo. Para citar um dos mais importantes, ele precisou de todo seu papado para reordenar e codificar todo Direito Canônico, que se tornara um grande emaranhado de leis.
    O Secretário de Estado do Vaticano de seu tempo, o renomado Cardeal Merry del Val, enumerou algumas de suas contribuições de suma importância: "A reforma da Cúria Romana; a fundação do Instituto Bíblico; a construção de seminários centrais e a promulgação de leis para a melhor disciplina do Clero; a nova disciplina referente à Primeira Comunhão e à frequente Comunhão; o restabelecimento da música sacra; a vigorosa resistência movida contra os fatais erros do chamado modernismo e a corajosa defesa da liberdade da Igreja na França, Alemanha, Portugal, Rússia e outros países, sem aludir a outros atos de governo..."


    Não vacilava ao pronunciar-se em defesa da Santa Igreja perante os chefes de estados, e foi sua crítica e decisiva postura contra espúrios interesses políticos que acelerou a separação entre o Estado e Igreja na França. Várias vezes contrariou a aristocracia européia, levantando a voz em defesa da dignidade humana dos trabalhadores, que eram tratados como mais uma mercadoria durante o surto de industrialização e de inchaço dos centros urbanos no continente.
    Ficou conhecido como o Papa da Eucaristia, pelo sumo valor que com toda razão lhe atribuía: "A devoção à Eucaristia é a mais nobre de todas devoções, porque tem o próprio Deus por objeto; é a mais salutar porque nos dá o próprio Autor da Graça; é a mais suave, pois suave é o Senhor. Se os anjos pudessem sentir inveja, invejar-nos-iam porque podemos comungar."

    Tornou o rito do Santíssimo Sacramento mais frequente prática, diária, e também mais acessível às camadas populares. Também abriu às crianças o caminho à Comunhão, tão logo chegassem à 'idade da razão', do discernimento.
    Fiel filho de Nossa Senhora, sempre procurava seus auxílios: "O Rosário é a mais bela e a mais rica em Graças de todas orações, é a oração que mais toca o Coração da Mãe de Deus... e se vós desejais que a Paz reine em vossos lares, recitai o Rosário da família."
    Ele dizia de sua força: "Dai-me um exército que reze o Rosário, e vencerei o mundo."
    E ia ainda mais longe: "Se houvesse um milhão de famílias orando o Rosário todos os dias, o mundo inteiro seria salvo."


    Na Carta Apostólica Notre Charge Apostolique, escrita aos bispos franceses em 1910, ele afirma: "Nosso cargo apostólico impõe-nos a obrigação de zelar pela pureza da fé, pela integridade da disciplina católica e de preservar os fiéis dos perigos do erro e do mal, principalmente quando o erro e o mal se apresentam com uma atraente linguagem que, encobrindo a ambiguidade das ideias e o equívoco das expressões com o ardor do sentimento e a sonoridade das palavras, pode inflamar os corações no amor de coisas sedutoras, mas funestas."
    E acusa religiosos católicos que acintosamente se afastam da Doutrina da Igreja: "Bem sabemos que se jactam de levantar a dignidade humana e a condição, há muito menosprezada, das classes trabalhadoras [...] seu sonho consiste em trocar as bases naturais e tradicionais, e prometer uma cidade futura edificada sobre outros princípios, que ousam declarar mais fecundos, mais benfazejos que os princípios sobre os quais repousa a atual sociedade cristã."
    Foi oportunamente contundente: "... formaram um conceito especial da dignidade humana, da liberdade, da justiça e da fraternidade, e, para justificar seus sonhos sociais, apelam ao Evangelho interpretado à sua própria maneira e, o que é mais grave, a um Cristo desfigurado e diminuído."
    E arrematou: "Não, Veneráveis Irmãos – e é preciso energicamente reconhecer nestes tempos de anarquia social e intelectual – a cidade não será construída de outra forma senão aquela pela qual Deus a construiu; a sociedade não se edificará se a Igreja não lhe lançar as bases e não dirigir os trabalhos; não, a civilização não mais está para ser inventada nem a nova cidade para ser construída nas nuvens. Ela existiu e existe; é a civilização cristã, é a cidade católica. Trata-se apenas de instaurá-la e restaurá-la, sem cessar, sobre seus naturais e divinos fundamentos contra os ataques sempre renovados da utopia malsã, da rebeldia e da impiedade: omnia instaurare in Christo."
    Pio IX, arguto observador da sociedade e crítico de insanas ideologias desde suas nascentes, cujo papado durou de 1846 a 1878, já havia denunciado: "Socialismo religioso, socialismo cristão, são termos contraditórios: ninguém pode ao mesmo tempo ser bom católico e verdadeiro socialista."
    São Pio X manteve atentamente esta vigília! Na encíclica Pascendi Dominici Gregis, de 1907, ele apôs o ostensivo subtítulo: "Carta Encíclica do Papa Pio X sobre os erros do modernismo". O modernismo católico, firmou, é uma "síntese de todas heresias" recentes, nomeadamente: evolucionismo, relativismo, criptomarxismo, cientificismo e psicologismo.


    Homem de vibrante e autêntica compaixão, nosso 'Pai dos órfãos e dos abandonados' não alimentava aversão ou sequer desprezo por estas correntes que atacam a Igreja. Ao contrário, pedia caridade por "... aqueles que se nos opõem e perseguem, vistos, talvez, como piores que realmente são."
    Falava da conversão dos opositores na esperança "... de que a chama da caridade Cristã, paciente e afável, dissipará as trevas de suas almas e trará a Luz e a Paz de Deus."
    Mesmo para com ferrenhos renitentes, por ele excomungados, sua atitude era de compreensão, jamais de abominação. Num caso específico, chegou a recomendar a um bispo: "Se tiver a oportunidade, trate-o com gentileza; e se ele der um passo em sua direção, dê dois na direção dele."
    E se houvesse arrependimento, a recomendação era ainda mais efusiva: "Recebei-o de braços abertos. Digo ao senhor que ele, meu filho, irá voltar."
    Veio mesmo a pagar pensão mensal a quem deles estivesse em graves dificuldades financeiras.


    Zeloso pelo rebanho, escreveu ele mesmo um catecismo simples e objetivo, de perguntas e respostas, que bem resumia o Catecismo Romano visando popularizar o conhecimento teológico básico. Segundo ele mesmo, usou de "linguagem clara e concisa". E segundo nosso saudoso Bento XVI, "... o Catecismo de São Pio X conserva sempre seu valor. O que pode mudar é a maneira de transmitir os conteúdos da fé." Como características, ele ressalta "... a simplicidade de exposição e a profundidade de conteúdos."
    Verdadeiramente Santo, tinha o dom da cura, que várias pessoas obtiveram tão somente por estar em sua presença.
    O lema de seu papado, como visto na Carta Apostólica acima citada, era: "Restaurar todas as coisas em Cristo." Levou uma vida de extrema simplicidade e trabalhou dedicadamente para o bem maior dos cristãos e da Igreja.
    São suas palavras:
    "A diária adoração ou visita ao Santíssimo Sacramento é a prática que é a fonte de todas obras devocionais."
    "A Santa Comunhão é o mais curto e seguro caminho para o Céu. Há outros: inocência, mas isso é para pequenas crianças; penitência, mas disso temos medo; enfática resistência às provações da vida, mas quando elas vêm nós choramos e pedimos para passar. O mais seguro, mais fácil e mais curto caminho é a Eucaristia."
    "Estamos verdadeiramente passando por desastrosos tempos, quando bem podemos fazer nossa a lamentação do Profeta: 'Não há verdade, e não há misericórdia, e não há conhecimento de Deus na terra (Os 4,1).' No entanto, em meio a essa maré do mal, a Misericordiosa Virgem surge diante de nossos olhos como um arco-íris, como o árbitro da Paz entre Deus e o homem."
    "Deixe a tempestade enfurecer-se e o céu escurecer - não por isso seremos consternados. Se confiarmos como deveríamos em Maria, reconheceremos nela a Mais Poderosa Virgem, 'que com o virginal pé esmagou a cabeça da Serpente.'"
    "O que te custará, ó Maria, ouvir nossa oração? Quanto te vai custar salvar-nos? Jesus não colocou em tuas mãos todos os tesouros da Sua Graça e Misericórdia? Tu senta-te, Coroada Rainha, à direita de teu filho: teu domínio atinge tão longe quanto os céus e a ti estão sujeitas a terra e todas as criaturas que nela moram. Teu domínio atinge até o abismo do inferno, e somente tu, ó Maria, salva-nos das mãos de Satanás."
    "Entre todas as devoções aprovadas pela Igreja, nenhuma foi tão favorecida por tantos milagres como a devoção do Santíssimo Rosário."
    "Nós pomos grande confiança no Santo Rosário para a cura dos males que afligem nossos tempos."
    "Somente a Igreja, sendo a Noiva de Cristo e tendo todas as coisas em comum com seu Divino Esposo, é a depositária da Verdade."
    "Sendo Deus a infinita beleza, a alma unida a Cristo atrai sobre si o admirado e terno olhar dos anjos, os quais, fossem eles capazes de qualquer paixão, ficariam com inveja de sua sorte."
    "Nada nos agradaria mais que ver nossos amados filhos formarem o hábito de ler os Evangelhos. Não apenas de tempos em tempos, mas todos os dias."
    "Eu aceito com sincera convicção a Doutrina da Fé que nos foi transmitida desde os Apóstolos através dos Padres da ortodoxia, sempre no mesmo sentido e com a mesma interpretação."
    "Longe, longe do clero seja o amor pela novidade!"

    "É um erro acreditar que Cristo não ensinou um determinado corpo de doutrina aplicável a todos os tempos e a todos os homens, mas sim que Ele inaugurou um movimento religioso conveniente ou adaptado a diferentes tempos e diferentes lugares."
    "A proposição de que os principais artigos do Credo dos Apóstolos não têm o mesmo significado para os cristãos dos primeiros tempos como para os cristãos de nosso tempo, é condenada e proscrita como errônea."
    "... o grande movimento de apostasia está sendo organizado em todos países para o estabelecimento de uma Igreja Mundial que não terá nem dogmas, nem hierarquia, nem disciplina para a mente, nem refrear as paixões, e que, sob o pretexto de humanas liberdade e dignidade, trariam de volta ao mundo (se tal Igreja pudesse prosperar) o reino da astúcia e da força legalizadas, a opressão dos fracos e de todos aqueles que trabalham e sofrem."
    "Os verdadeiros amigos do povo não são nem revolucionários, nem inovadores, mas tradicionalistas."
    "É permitido que os católicos estejam presentes ou participem de convenções, reuniões, encontros ou sociedades de não-católicos que visam associar, sob um único acordo, a todos que, de qualquer forma, reivindicam o nome de cristão? Negativo! ... É claro, portanto, porque esta Sé Apostólica nunca permitiu que seus súditos participassem das assembleias de não-católicos. Há uma maneira pela qual a unidade dos cristãos pode ser fomentada, e isto é promovendo o retorno à única e verdadeira Igreja de Cristo para aqueles que estão separados dela."
    "É impossível aprovar, em católicas publicações, um estilo inspirado por uma infundada novidade, que parece ridicularizar a piedade dos fiéis e que reside na introdução de uma nova ordem de vida cristã, sobre novas direções da Igreja, sobre novas aspirações da moderna alma, sobre uma nova vocação do clero, sobre uma nova civilização cristã."
    "Mas desde que os modernistas (como são comumente e corretamente chamados) empregam muito inteligente artifício, a saber, apresentar suas doutrinas sem ordem ou sistemático arranjo em um todo, dispersas e desarticuladas umas das outras, de modo a parecer estar em dúvida e na incerteza, embora na realidade sejam firmes e resolutas, será vantajoso, Veneráveis Irmãos, aqui reunir seus ensinamentos em um tomo e apontar a conexão entre eles, e assim passar a um exame das fontes dos erros e prescrever remédios para evitar o mal."
    "Para curar a ruptura entre ricos e pobres, é necessário distinguir entre justiça e caridade."
    "Pobre nasci, pobre vivi, pobre desejo morrer."
    "O maior obstáculo ao apostolado da Igreja é a timidez, ou antes a covardia dos fiéis."


    Morreu em 1914, aos 79 anos, extremamente contrariado com o início da Primeira Grande Guerra.


    Logo após sua morte, deu-se uma série de milagres atribuídos à sua intercessão.
    É o padroeiro dos peregrinos enfermos.
    Em 1970, em sua memória o arcebispo francês Marcel Lefebvre fundou a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, de vida apostólica, ativa defensora das tradições católicas.
    Recebeu homenagens por todo mundo, principalmente em institutos para a preservação da autêntica fé cristã.


    Foi homenageado com uma expressiva estátua na Basílica de São Pedro.


    Suas relíquias, como o solidéu, também estão aí, sob o altar da Capela da Apresentação de Nossa Senhora.


    São Pio X, rogai por nós!

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

São Bernardo


    Este monge beneditino começou a servir a Deus aos 22 anos, quando se candidatou à vida religiosa. Detalhe: consigo trouxe 30 postulantes à Abadia de Cister, na França. Eram irmãos, parentes e amigos seus. Apenas três anos mais tarde, em 1115, foi enviado por seu abade, Santo Estevão Harding, ao vale de Langres, à frente de 12 monges com a finalidade de construir uma nova abadia cisterciense, pois a primeira havia-se tornado pequena demais. Eles chamaram a nova casa de 'Claro Vale', e daí veio o sobrenome que lhe deram: Claraval.
    Eleito abade deste monastério, assumiu com tanta devoção que inicialmente pareceu muito rigoroso aos seus pares. Mas era apenas sua santidade que começava a tornar-se ainda mais evidente. Tão cativante era a vida de São Bernardo de Claraval que logo seu próprio pai e irmãos, que eram muito ricos, escolheriam viver com ele na abadia. Sua irmã também se recolheu num mosteiro feminino.
    Nosso Santo precedia em quase cem anos a arrebatadora vocação para a pobreza evangélica, que iluminaria o mundo nas exemplares vidas de São Domingos, São Francisco e São Pedro Nolasco. As mulheres das vizinhas cidades e vilas temiam que seus maridos e filhos também o seguissem: ele parecia encantar as pessoas.


    E passados apenas mais três anos, em 1118, precisou construir novas abadias, pois outra vez já não havia lugar para todos. É quando Santo Estevão Harding convoca o Capítulo Geral Cisterciense e redige sua Ordem, que o Papa Calisto II em breve aprovaria.
    Notável também por seus escritos, São Bernardo consegue com uma obra, 'Apologia', pôr fim aos desentendimentos entre sua ordem, os beneditinos de hábito branco, ou cistercienses, em referência à cidade onde tinham uma abadia, e os beneditinos de hábito negro, ou clunisienses, da cidade de Cluny. Escreveu igualmente muitas cartas, que foram de suma importância para reformar a vida de bispos de toda a Igreja.
    Em 1128, foi convidado pelo Papa Honório II para ser o secretário do Concílio de Troyes. Aí ele é fortemente criticado pelo clero por sua opinião em assuntos que fugiam à sua competência, mas, por sua sincera humildade e profunda Comunhão com a vontade de Deus, terminou tendo todas suas propostas acatadas.
    Conseguiu, nessa ocasião, fundar a Ordem do Templo, ou os famosos Templários, cavaleiros militares que protegiam os peregrinos em viagem à Terra Santa, pois era o início de quase 200 anos de Cruzadas. Sua intenção era garantir as peregrinações, uma tradição quase obrigatória entre os europeus àquela época. A Regra do Templários foi toda redigida por ele.
    Por fim, também conseguiu a independência dos cistercienses em relação à Abadia de Cluny, em 1132, pois realmente abraçavam um distinto carisma.


    Defendeu a Igreja da ganância de alguns príncipes da Europa, cujas riquezas mediam-se em terras, e mesmo assim conseguia fazer-se ouvido por eles. Pôs fim ao cisma levantado por Anacleto II, um antipapa que não aceitava o papado de Inocêncio II, sucessor de Honório II. E por sua extrema habilidade de moderador, que era forte característica dos papas destes séculos, trouxe de volta todos que, por causa dessa controvérsia, puseram-se em oposição à Igreja. Com seu apoio, Inocêncio II definitivamente instituiu o celibato a todo Clero, e com rigor condenou a usura.
    Em 1145, não por acaso, saiu de Claraval o monge que se tornaria o Papa Inocêncio III. Também foi quando o reino de Jerusalém sofreu outro grande ataque dos muçulmanos, e o Papa pediu a São Bernardo que convocasse a Segunda Cruzada, para a qual ele obteve a adesão do rei da França, Luis VII, e do imperador do Sacro Império Germânico, Conrado III. A reconquista da Terra Santa pelas Cruzadas, entretanto, desde então se revelou uma impossível missão. São Bernardo sofreu pesadas acusações por seu empenho nessa tarefa, mas resignadamente assumiu toda culpa do fracasso.


    Combateu várias heresias que nasciam dentro da Igreja, a maioria delas através de bispos. Apoiado por muitos religiosos que se assombravam como os novos relatos que vinham de Jerusalém, voltou a defender outra Cruzada em encontros com os condes da Bélgica, mas não obteve sucesso. A Terceira delas só iria acontecer mais de 40 anos depois de sua morte.
    Afirmativamente, era manifesta vontade de toda cristandade de então preservar relíquias e santos lugares, mantendo-os devidamente respeitados e livres para o acesso de peregrinos. Muitos leigos engajados, boa parte deles jovens revoltados com a 'passividade' da Igreja, faziam aos clérigos e superiores duras críticas, e é majoritariamente deste segmento social, associados a mercadores e comerciantes da nascente burguesia, precursores do vultoso desenvolvimento econômico e social da Europa, que surgirão as próximas tentativas de libertação da Terra Santa.
    Ao morrer, em 1153, São Bernardo já havia fundado 72 mosteiros, que contavam aproximadamente com 700 monges. Escreveu várias obras de grande importância, além de centenas de cartas e sermões. Tomou parte em todas questões doutrinárias e religiosas de seu tempo. De forte devoção à Nossa Senhora, é dele a frase na Salve Rainha: "Ó clemente, ó piedosa, ó doce e sempre Virgem Maria."
    Um de seus mais significativos milagres ocorreu pelo hábito que tinha de reverentemente dizer "Ave Maria" sempre que passava diante da imagem da Santíssima Virgem. Certa vez, ao fazer essa habitual saudação num mosteiro, a Mãe de Deus respondeu-lhe: "Ave Bernardo."


    De suas luminosas reflexões, ele registrou:
    "A causa para amar a Deus é o próprio Deus; a medida, amá-Lo sem medida."
    "Devemos amar a Deus por Si mesmo, por causa de uma dupla razão: nada é mais razoável, nada mais lucrativo."
    "Amar a Deus é ter caridade; procurar ser amado por Deus é servir à caridade."
    "Ser deificado é tornar-se caridade, porque Deus é caridade; por isso, todos esforços da alma devem ter como alvo a caridade. A caridade dá a visão de Deus e a semelhança a Deus."
    "Há quatro graus de amor: 1) Amor a si mesmo por amor próprio. 2) Amor a Deus por amor a si mesmo. 3) Amor a Deus por amor a Deus. 4) Amor a si mesmo por amor a Deus."
    "O que nós amamos, nós cresceremos a assemelhar-nos."
    "O amor não busca nenhuma causa além de si mesmo, e nenhum fruto. Ele é seu próprio fruto, seu próprio prazer. Eu amo porque amo. Eu amo para poder amar."
    "Encontramos descanso naqueles que amamos, e proporcionamos um lugar de descanso em nós mesmos para aqueles que nos amam."
    "Da Cruz e das chagas de Nosso Redentor sai um grito, para fazer-nos entender o amor que Ele nos tem."
    "Deus é Sabedoria, e quer ser amado não só suave mas também sapientemente… Aliás, com muita facilidade o espírito de erro escarnecerá de teu zelo, se desprezares a ciência. Nem o astuto inimigo tem mais eficaz instrumento para arrancar do coração o amor que conseguir que, no mesmo amor, incautamente ande-se, e não com a razão."
    "Quem somos nós, e qual nossa força para resistirmos a tantas tentações? Certamente, era isso que Deus queria: que nós, vendo nossa insuficiência e falta de auxílio, recorrêssemos com toda humildade à Sua Misericórdia."
    "Poderíamos definir a humildade assim: é uma virtude que estimula o homem a menosprezar-se diante da clara verdade de seu próprio conhecimento."
    "As três mais importantes virtudes são humildade, humildade e humildade."
    "É uma falta, não uma virtude, desejar que tua humildade seja reconhecida e aplaudida."
    "Muitos daqueles que são humilhados não são humildes. Alguns reagem à humilhação com raiva, outros com paciência e outros com liberdade. Os primeiros são culpados, os segundos, inofensivos, os últimos justos."
    "Quando Deus perdoa um pecador que humildemente confessa seu pecado, o diabo perde seu domínio sobre o coração que ele tomou."
    "Os rios da Graça não podem fluir montanha acima, subindo a íngreme escarpa do coração do homem orgulhoso."
    "Muitos parecem cheios de suavidade e doçura enquanto tudo segue seu próprio caminho, mas no momento em que surge qualquer contradição ou adversidade, eles põem-se em chama e começam a enfurecer-se como um ardente vulcão. Pessoas como estas são como incandescentes brasas, escondidas sob as cinzas. Esta não é a brandura que Nosso Senhor Se comprometeu a ensinar-nos, a fim de tornar-nos semelhantes a Si mesmo."

    "'Senhor, que queres que eu faça?' (pergunta Paulo). É esta, certamente, a forma de uma perfeita conversão. Quão poucos se ajustam a esta forma de perfeita obediência, e de tal modo tenham abdicado da própria vontade que nem sequer mais tenham seu próprio coração, e a toda hora se perguntem, não o que eles querem, mas o que o Senhor quer!"
    "A oração controla nossos afetos e dirige nossas ações para Deus."
    "São fortes as potências do inferno, entretanto, a oração é mais forte que todos demônios."
    "A oração é uma virtude que prevalece contra todas tentações."
    "Com a oração a alma consegue o divino auxílio, diante do qual desaparece todo poder das criaturas."
    "Faze com que tua oração por bênçãos temporais seja estritamente limitada às coisas absolutamente necessárias."
    "Deus dar-nos-á ou o que pedimos, ou o que Ele sabe que é melhor para nós."

    "Todo nosso mérito consiste em confiarmos plenamente em Deus."
    "Para chegarmos à perfeição, temos necessidade da meditação e da petição; pela meditação vemos o que nos falta; pela súplica recebemos o que nos é necessário."
    "Fica sabendo, ó cristão, que mais se merece em devotamente participar de uma só Missa que com distribuir todas riquezas aos pobres e peregrinar por toda a terra."
    "A Eucaristia é o amor que supera todos outros amores no Céu e na terra."
    "A Comunhão reprime nossas paixões: principalmente, ira e sensualidade. Quando Jesus está corporalmente presente em nós, ao redor de nós montam guarda de amor os anjos."
    "Indubitavelmente existe uma espantosa analogia entre o azeite e o Nome do Amado, pelo que a comparação apresentada pelo Espirito Santo não é arbitrária. A não ser que possais sugerir algo de melhor, afirmarei que o Nome de Jesus possui semelhança ao azeite na tripla utilidade deste último, nomeadamente, para iluminar, na alimentação e como lenitivo. Mantém a chama, alimenta o corpo, alivia a dor. É Luz, Alimento e Medicina. Observai como as mesmas propriedades podem ser encontradas no Nome do Divino Noivo. Quando pronunciado, fornece Luz; quando meditado, alimenta; quando invocado, serena e abranda."
    "Não há mais suave música, mais jubilosa palavra, mais doce pensamento que Jesus, Filho de Deus!"
    "Para mim, Jesus é mel na boca, música no ouvido, uma canção no coração."
    "Ele conquistou-me inteiramente, entregando-Se inteiramente a mim."
    "Jesus, Tu, alegria de apaixonados corações, Tu, fonte de Vida, Tu, Luz de homens, da melhor felicidade que a terra nos dá, nós voltamo-nos vazios a Ti novamente. Nós provamos-Te, ó Pão Vivo, e ainda tardamos a fartar-nos de Ti. Nós bebemos de Ti, ó Manancial, e com sede seguem nossas almas a saciarem-se de Ti. Ó Jesus, sempre conosco fique; torne todos nossos momentos calmos e brilhantes; Persiga a noite escura do pecado; Derrame sobre o mundo Tua Santa Luz."
    "Aprende a lição que, se tu fores fazer o trabalho de um Profeta, o que tu precisas não é um cetro, mas uma enxada."
    "Se, então, tu fores sábio, tu mostrar-te-ás mais como um reservatório que como um canal. Pois um canal espalha adiante a água à medida que a recebe, mas um reservatório espera até ser preenchido antes de transbordar, e assim comunica, sem perda para si mesmo, sua superabundante água. Na Igreja, nos dias de hoje, temos muitos canais, poucos reservatórios."
    "A vida espiritual é como a Água Viva que brota das profundezas de nossa própria experiência espiritual. Na vida espiritual, todos têm que beber de seu próprio poço."
    "Ação e contemplação são muito próximas companheiras; elas vivem juntos numa casa em igualdade de condições. Marta e Maria são irmãs."
    "Se tu desejas ver, ouça. A audição é um passo em direção à visão."
    "Espera muito de Deus, e Ele fará muito por ti."
    "A morte é o portão da Vida."
    "A ingratidão é a inimiga da alma ... A ingratidão é um ardente vento que seca a fonte do amor, o orvalho da Misericórdia, as correntes da Graça."

    "Porque éramos indignos de receber qualquer coisa, foi-nos dada Maria para, por meio d’Ela, obtermos tudo de que necessitamos."
    "Quereis um advogado junto a Jesus? Recorrei a Maria, pois nela não há senão pura compaixão pelos males alheios. Pura não só porque ela é Imaculada, mas porque nela só existe pura e simples compaixão. Digo-o sem hesitar: Maria será ouvida pela consideração que lhe é devida."
    "Não imaginemos que obscurecemos a Glória do Filho pelo grande louvor que oferecemos à Mãe; porque quanto mais ela é honrada, maior é a Glória de seu Filho. Não pode haver dúvida de que tudo que dissermos em louvor à Mãe, dá igual louvor ao Filho."
    "Ó Maria Santíssima, quem te ama honra a Deus; quem te serve agrada a Deus; quem quer que invoque teu santo nome com um puro coração, infalivelmente receberá o objeto de sua petição."
    "Deus quis que nada recebêssemos que não passe pelas mãos de Maria."
    "Deus depositou em Maria a plenitude de todo bem."
    "Deus reuniu todas as águas e chamou-as mar, reuniu todas as Graças e chamou-as Maria."
    "A lança que abriu o lado de Jesus, transpassou a alma da Virgem, que não podia separar-se do Filho."
    "Se o vento das tentações se levanta, se o escolho das tribulações se interpõe em teu caminho, olha a estrela, invoca Maria."
    "Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Que seu nome nunca se afaste de teus lábios, jamais abandone teu coração; e para alcançar o socorro de sua intercessão, não negligencies os exemplos de sua vida. Seguindo-a, não te transviarás; rezando a ela, não desesperarás; nela pensando, evitarás todo erro. Se ela te sustenta, não cairás; se ela te protege, nada terás a temer; se ela te conduz, não te cansarás; se ela te é favorável, alcançarás o objetivo."
    "Quem recorreu à vossa proteção e por vós foi desamparado, ó Maria?"
    "Os infernos tremem de medo ao ouvir o nome de Maria."
    "O herege é ovelha na lã, raposa nas entranhas e lobo nas obras."
    "O deles é um caminho sem fim, um labirinto sem esperança, que busca bens antes de procurar por Deus."

    É Doutor da Igreja, e suas relíquias, como uma vértebra, são veneradas no sacro museu da Igreja de Sant'Ana de Dijon, na região da Borgonha, centro-leste da França.


    São Bernardo, rogai por nós!

domingo, 19 de agosto de 2018

O Cordeiro de Deus


    São João Batista, que encerou os tempos da Lei e dos Profetas, ou seja, do Antigo Testamento, foi quem apresentou Jesus como o Cordeiro de Deus a seus seguidores, um dia depois de batizá-Lo: "No dia seguinte, João viu Jesus que vinha a ele e disse: 'Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.'" Jo 1,29
    Ele deu esse testemunho: "É este de Quem eu disse: 'Depois de mim virá um Homem que me é superior, porque existe antes de mim. Eu não O conhecia, mas, se vim batizar em água, é para que Ele se torne conhecido em Israel.' (João havia declarado: 'Vi o Espírito descer do Céu em forma de uma pomba e repousar sobre Ele.') 'Eu não O conhecia, mas Aquele que me mandou batizar em água disse-me: 'Sobre Quem vires descer e repousar o Espírito, este é Quem batiza no Espírito Santo.' Eu vi-O e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus.'" Jo 1,30-34
    E tornou a dizê-lo mais uma vez diante de dois de seus seguidores, Santo André e São João Evangelista, que se tornariam Apóstolos: "No dia seguinte, estava lá João outra vez com dois dos seus discípulos. E avistando Jesus que ia passando, disse: 'Eis o Cordeiro de Deus.' Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus." Jo 1,35-36
    De fato, era precisamente essa a missão do Batista, como havia profetizado seu pai, o sacerdote Zacarias, no dia de seu nascimento: "E tu, menino, serás chamado Profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e preparar-Lhe-ás o Caminho, para dar a Seu povo conhecer a Salvação pelo perdão dos pecados." Lc 1,76-77
    A simbologia do Cordeiro, no entanto, faz parte do patrimônio judaico desde quando Deus poupou Abraão de sacrificar seu filho Isaque, apresentando-lhe um filhote de ovelha para ser oferecido em holocausto: "O anjo do Senhor, porém, gritou-lhe do Céu: 'Abraão! Abraão!' 'Eis-me aqui!' 'Não estendas tua mão contra o menino, e não lhe faças nada. Agora eu sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu próprio filho, teu filho único.' Abraão, levantando os olhos, viu atrás dele um cordeiro preso pelos chifres entre os espinhos, e tomando-o, ofereceu-o em holocausto em lugar de seu filho." Gn 22,11-13


    Contudo, Deus não poupou os primogênitos dos egípcios, quando por meio de pragas tentou convencer o Faraó a libertar Seu povo da escravidão no Egito. Nessa ocasião, o sangue do cordeiro serviu de sinal para proteger o povo de Israel, e marcou o início do Sacrifício da Páscoa: "Moisés convocou todos anciãos de Israel e disse-lhes: 'Ide e escolhei um cordeiro por família, e sacrificá-lo-ás para a Páscoa. Depois disso, tomareis um feixe de hissopo, ensopá-lo-eis no sangue que estiver na bacia e com esse sangue aspergireis a verga e as duas ombreiras da porta. Nenhum de vós transporá o limiar de sua casa até pela manhã. Quando o Senhor passar para ferir o Egito, vendo o sangue sobre a verga e as duas ombreiras da porta, passará adiante e não permitirá ao destruidor entrar em vossas casas para ferir-vos. Observareis esse costume como uma instituição perpétua para vós e vossos filhos. Quando tiverdes penetrado na Terra que o Senhor vos dará, como prometeu, observareis esse rito. E quando vossos filhos vos disserem: que significa esse rito? respondereis: é o sacrifício da Páscoa, em honra do Senhor que, ferindo os egípcios, passou por cima das casas dos israelitas no Egito e preservou nossas casas.'" Ex 12,21-27
    Embora fossem os tempos do Êxodo, o livro Levítico previa um especial lugar para esse sacrifício, que além da celebração da Páscoa servia para o perdão dos pecados: "O sacerdote que fez a purificação apresentará o homem que há de ser purificado e todas essas coisas ao Senhor, à entrada da Tenda de Reunião. Tomará, em seguida, um dos cordeiros e oferecê-lo-á em sacrifício de reparação com a medida de óleo, e agitá-los-á como oferta diante do Senhor. Degolará o cordeiro no lugar onde se imolam as vítimas pelo pecado e o holocausto, no santo lugar, porque a vítima do sacrifício de reparação, assim como a do sacrifício pelo pecado, pertencem ao sacerdote: esta é uma coisa santíssima." Lv 14,11-13
    Em tempos de forte conversão em Israel, para obter proteção do Senhor, a pedido do povo o Profeta Samuel realizou este sacrifício: "Samuel tomou um cordeiro de leite e ofereceu-o inteiro em holocausto ao Senhor. Depois clamou ao Senhor por Israel, e o Senhor ouviu-o. Enquanto Samuel oferecia o holocausto, os filisteus começaram o combate contra Israel. O Senhor, porém, trovejou com Sua fortíssima voz sobre os filisteus naquele momento e eles dispersaram-se, sendo batidos pelos israelitas. Tomou Samuel uma pedra e pô-la entre Masfa e Sen, dando-lhe o nome de Eben-Ezer, pois disse: 'Até aqui nos socorreu o Senhor.'" 1 Sm 7,9-10.12
    Com as reformas promovidas pelo rei Josias, após Helcias ter reencontrado o livro da Lei no Templo, os sacerdotes judeus retomaram essa função: "Imolaram o cordeiro pascal. Com o sangue que receberam das mão dos levitas, os sacerdotes fizeram a aspersão, enquanto os levitas esfolavam as vítimas." 2 Cr 35,11
    Séculos depois, porém, o Profeta Oseias, que será mencionado por Jesus, começou contestar os sacrifícios por terem-se tornado um mecânico ritual em meio à completa corrupção de Israel: "Que te farei, Efraim? Que te farei, Judá? Vosso amor é como a nuvem da manhã, como o orvalho que logo se dissipa. Por isso, é que os castiguei pelos Profetas, matei-os pelas palavras de Minha boca, e Meu Juízo resplandece como o relâmpago, porque Eu quero o amor mais que os sacrifícios, e o conhecimento de Deus mais que os holocaustos. Mas eles vergonhosamente violaram a Aliança e traíram-Me. Galaad é uma cidade de malfeitores, cheia de traços de sangue; os bandidos são sua força, uma quadrilha de sacerdotes; assassinam no caminho de Siquém, porque seu proceder é criminoso. Vi horrores na casa de Israel: ali cresce a prostituição de Efraim, ali se mancha Israel." Os 6,4-10
    Assim também procedeu o grande Profeta Isaías, reclamando uma verdadeira conversão espiritual: "'De que Me serve a multidão das vossas vítimas?', diz o Senhor. 'Já estou farto de holocaustos de cordeiros... Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem. Respeitai o direito, protegei o oprimido; fazei justiça ao órfão, defendei a viúva.'" Is 1,11.17


JESUS, CORDEIRO IMOLADO

    E em suas profecias, Isaías termina por ver o próprio Messias na figura do cordeiro imolado: "Foi maltratado e resignou-se; não abriu a boca, como um cordeiro que se conduz ao matadouro, e uma ovelha muda nas mãos do tosquiador. Ele não abriu a boca. Por um iníquo julgamento foi arrebatado. Quem pensou em defender Sua causa quando foi suprimido da terra dos vivos, morto pelo pecado de meu povo? Foi-Lhe dada sepultura ao lado de facínoras e ao morrer achava-se entre malfeitores, se bem que não haja cometido injustiça alguma, e em Sua boca nunca tenha havido mentira." Is 53,7-9
    Os seguidores da tradição de São Paulo vão dizer de Sua Paixão: "Uma vez que os filhos participam da mesma natureza, da mesma carne e do sangue, também Ele participou, a fim de destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio, e libertar aqueles que, pelo medo da morte, por toda vida estavam sujeitos a uma verdadeira escravidão. Veio em socorro, não dos anjos, e sim da raça de Abraão, e por isso convinha que em tudo Ele se tornasse semelhante a Seus irmãos, para ser um compassivo e fiel Pontífice no serviço de Deus, capaz de expiar os pecados do povo. De fato, por ter Ele mesmo suportado tribulações, está em condição de vir em auxílio dos que são atribulados." Hb 2,14-18
    Afirmativamente, se Deus poupou Isaque, o filho de Abraão, e tão somente o fato de Ele ter cogitado esse sacrifício nos parece um absurdo, não hesitou em poupar Seu próprio Filho. São João Evangelista atesta: "Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo que lhe deu Seu único Filho, para que todo aquele que n'Ele crer não pereça, mas tenha a Vida Eterna." Jo 3,16
    São Paulo também apresentou este sacrifício como uma prova do amor de Deus, e assim como garantia de tudo que Lhe podemos pedir: "Aliás, sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo Seus desígnios. Aquele que não poupou Seu próprio Filho, mas que por todos nós O entregou, como com Ele também não nos dará todas as coisas?" Rm 8,28.32
    Todavia, prevendo que Seus seguidores também seriam hostilizados, e até brutalmente martirizados, Jesus compara-os a cordeiros prontos para um holocausto: "Ide! Eis que vos envio como cordeiros entre lobos." Lc 10,3
    Por isso, evocando o Profeta Oseias, Ele vai falar em compaixão perante os judeus: "Ide e aprendei o que significam estas palavras: 'Eu quero a Misericórdia e não o sacrifício (Os 6,6).'" Mt 9,13
    Ele bem sabia o que sofreria Sua Igreja: "Expulsar-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que todo aquele que vos tirar a vida julgará prestar culto a Deus. Procederão deste modo porque não conheceram o Pai, nem a Mim." Jo 16,2-3
    E por duas vezes pediu a São Pedro que cuidasse da parte mais frágil de Seu rebanho: "Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: 'Simão, filho de João, amas-Me mais do que estes?' Respondeu ele: 'Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo.' Disse-lhe Jesus: 'Apascenta Meus cordeiros.' Perguntou-lhe outra vez: 'Simão, filho de João, amas-Me?' Respondeu-Lhe: 'Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo.' Disse-lhe Jesus: 'Apascenta Meus cordeiros.'" Jo 21,15-16
    Pois o Príncipe dos Apóstolos tinha bem claro qual Cordeiro havia redimido nossos pecados perante Deus, como vai pregar em sua encíclica: "Porque vós sabeis que não é por bens perecíveis, como a prata e o ouro, que tendes sido resgatados de vossa vã maneira de viver, recebida por tradição de vossos pais. Mas pelo precioso Sangue de Cristo, o Cordeiro Imaculado e sem defeito algum, Aquele que foi predestinado antes da criação do mundo e que nos últimos tempos foi manifestado por amor a vós." 1 Pd 1,18-20
    E São Paulo pedia uma completa renovação em nossas vidas: "Purificai-vos do velho fermento para que sejais nova massa! Porque sois pães ázimos, porquanto Cristo, Nossa Páscoa, foi imolado." 1 Cor 5,7
    Com razão, para estabelecer a Nova Aliança prometida desde os tempos do Profeta Jeremias, em Si mesmo Jesus realizou o Sacrifício Perfeito. É o que argumentam os seguidores de São Paulo, ao contemplar os sacrifícios que os judeus seguiam oferecendo: "Enquanto todo sacerdote diariamente se ocupa com seu ministério, e inúmeras vezes repete os mesmos sacrifícios que, todavia, não conseguem apagar os pecados, Cristo ofereceu pelos pecados um único sacrifício, e logo em seguida tomou lugar para sempre à direita de Deus, onde de ora em diante espera que Seus inimigos sejam postos como um banquinho para Seus pés (Sl 109,1)." Hb 10,11-13
    Sem dúvida, está no livro deste grande Profeta: "Dias hão de vir - Oráculo do Senhor - em que firmarei Nova Aliança com as casas de Israel e de Judá. Será diferente da que concluí com seus pais, no dia em que pela mão os tomei para tirá-los do Egito. Aliança que violaram, embora Eu fosse o Esposo deles. Eis, então, a Aliança que farei com a casa de Israel - oráculo do Senhor: 'Incutir-lhe-ei Minha Lei, gravá-la-ei em seu coração. Serei Seu Deus e Israel será Meu povo. Então, ninguém terá encargo de instruir seu próximo ou irmão, dizendo: 'Aprende a conhecer o Senhor', porque todos Me conhecerão, grandes e pequenos - Oráculo do Senhor -, pois a todos perdoarei as faltas, sem nenhuma lembrança guardar de seus pecados." Jr 31,31-34
    E assim, pelo Espírito de Deus que nos é concedido, o Cristo renovou a Antiga Aliança: "Por uma só oblação, Ele realizou a definitiva perfeição daqueles que recebem a santificação. É o que nos confirma o testemunho do Espírito Santo. Ora, onde houve plena remissão dos pecados, não há porque por eles oferecer sacrifício. Por esse motivo, irmãos, temos ampla confiança de poder entrar no Eterno Santuário, em virtude do Sangue de Jesus, pelo novo e vivo Caminho que nos abriu através do véu, isto é, o Caminho de Seu próprio Corpo." Hb 10,14-15a.18-20
    São Paulo fala, nestes termos, do Batismo do Espírito Santo, profetizado por São João Batista: "A Lei do Espírito de Vida libertou-me, em Jesus Cristo, da Lei do pecado e da morte. O que era impossível à Lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus o fez. Enviando, por causa do pecado, o Seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne a fim de que a justiça prescrita pela Lei fosse realizada em nós, que vivemos não segundo a carne, mas segundo o Espírito." Rm 8,2-4


AS NÚPCIAS DO CORDEIRO

    Mas é tão somente no Céu, onde a noiva, a Jerusalém Celestial receberá devidamente Jesus, que Deus quer oferecer-nos o Eterno Banquete. Foi o texto ditado para que São João Evangelista registrasse: "Felizes os convidados para a ceia das núpcias do Cordeiro." Ap 19,9
    Assim foi sua visão: "Nisto ouvi como que um imenso coro, sonoro como o ruído de grandes águas e como o ribombar de possantes trovões, que cantava: 'Aleluia! Eis que reina o Senhor, Nosso Deus, o Dominador! Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe Glória, porque se aproximam as núpcias do Cordeiro. Sua Esposa está preparada. Foi-lhe dado revestir-se de puríssimo e resplandecente linho. (Pois o linho são as boas obras dos Santos.)" Ap 19,6-8
    Pois Ele, o Cordeiro de Deus, é digno de toda Glória perante todos anjos: "Eu vi no meio do trono, dos quatro Seres e dos Anciãos um Cordeiro, de pé, como que imolado. Tinha Ele sete chifres e sete olhos (que são os sete espíritos de Deus, enviados por toda terra). Em minha visão também ouvi, ao redor do trono, dos Seres e dos Anciãos, a voz de muitos anjos, em número de miríades de miríades e de milhares de milhares, bradando em alta voz: 'Digno é o Cordeiro imolado de receber o poder, a riqueza, a Sabedoria, a força, a Glória, a honra e o louvor.'" Ap 5,6.11-12
    Lá, ainda conforme a visão de São João Evangelista, os Santos de todas nações já proclamam Seu sacrifício como a obra da Salvação: "Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua. Conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão, e bradavam em alta voz: 'A Salvação é obra de Nosso Deus, que está assentado no trono, e do Cordeiro.'" Ap 7,9-10
    De fato, Jesus purifica Seu povo por Seu Sangue através do Santíssimo Sacramento, e derrama sobre eles Seu Divino Espírito, fonte de Água Viva. Assim se chega à santificação, como disse um Ancião: "Esses são os sobreviventes da grande tribulação. Lavaram suas vestes e alvejaram-nas no Sangue do Cordeiro, por isso estão diante do trono de Deus e dia e noite servem-nO em Seu Templo. Aquele que está sentado no trono abrigá-los-á em Sua Tenda. Já não terão fome, nem sede, nem o sol ou calor algum os abrasará, porque o Cordeiro, que está no meio do trono, será Seu Pastor e levar-lo-á às fontes das Águas Vivas. E Deus enxugará toda lágrima de seus olhos." Ap 7,14-16
    E como Se disse a Luz do mundo, como tal Jesus Se apresentará ainda mais explicitamente na cidade celestial: "A cidade não necessita de sol nem de lua para iluminá-la, porque a Glória de Deus a ilumina e Sua luz é o Cordeiro." Ap 21,23

ORAÇÃO:
    Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós!
    Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós!
    Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, dai-nos a Paz!