quarta-feira, 20 de junho de 2018

Comunhão com Deus


    Como narraram os discípulos que iam para Emaús no Domingo da Páscoa, Jesus, para demonstrar Sua Ressurreição, fez-Se reconhecer ao partir o Pão, ou seja, pela Comunhão Eucarística que Ele nos oferece: "Aconteceu que, estando sentado conjuntamente à mesa, Ele tomou o pão, abençoou-o, partiu-O e serviu-lhO. Então se lhes abriram os olhos, e reconheceram-nO... mas Ele desapareceu." Lc 24,30-31
    Para provar que Deus estava n'Ele, e que Ele vivia para Deus, Jesus invocava Seus milagres. Humildemente pedia aos judeus que, ainda que não acreditassem em Sua Palavra, ao menos reconhecessem as manifestações de Deus em Suas obras: "... crede nas Minhas obras, para que saibais e reconheçais que o Pai está em Mim e Eu no Pai." Jo 10,38
    Também o disse aos Apóstolos na noite da Santa Ceia, quando iria ser preso: "As palavras que vos digo não as digo de Mim mesmo, mas o Pai, que permanece em Mim, é que realiza Suas próprias obras. Crede-Me: estou no Pai, e o Pai em Mim. Crede-o ao menos por causa destas obras." Jo 14,10b-11
    Eles, porém, já o haviam percebido: "'Agora sabemos que conheces todas as coisas e que não necessitas que alguém Te pergunte. Por isso, cremos que saíste de Deus.' Jesus replicou-lhes: 'Credes agora?... Eis que vem a hora, e ela já veio, em que sereis espalhados, cada um para seu lado, e Me deixareis sozinho. Mas não estou só, porque o Pai está Comigo.'" Jo 16,30-32
    Ele assim anunciou a instalação do Reino dos Céus aqui na terra, logo em Suas primeiras missões: "Mas se é pelo Espírito de Deus que Eu expulso os demônios, então chegou a vós o Reino de Deus." Mt 12,28
    E referindo-Se à Sua humanidade, sempre deixou claro que não estava sozinho, nem veio ao mundo para fazer Sua própria vontade enquanto humano: "De Mim mesmo não posso fazer coisa alguma. Julgo como ouço; e Meu julgamento é justo, porque não busco Minha vontade, mas a vontade d'Aquele que Me enviou." Jo 5,30
    Mais especificamente, falando sobre a condição humana, Sua e nossa, Ele dizia com todas as letras: "O Espírito é que vivifica, a carne de nada serve. As palavras que vos tenho dito são Espírito e Vida." Jo 6,63
    Por isso, diante do pedido de São Filipe para ver o Pai, Jesus, pelo mistério da Santíssima Trindade, apresentou-Se como o próprio Pai: "Há tanto tempo que estou convosco e não Me conheceste, Filipe! Aquele que Me viu, viu também o Pai. Como, pois, dizes: 'Mostra-nos o Pai?...'" Jo 14,9
    Tal é a Unidade entre o Pai e o Filho que sabemos que a Palavra de Jesus é o próprio Deus, ou que Jesus é a Palavra de Deus que Se fez carne. Embora difícil de entender, e também de expressar, é isso o que nos diz São João logo no início de seu Evangelho: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. E o Verbo fez-Se carne, e habitou entre nós. E nós vimos Sua Glória, a glória que o Filho único recebe de Seu Pai, cheio de Graça e de Verdade." Jo 1,1.14
    Em outro momento, agora falando como Deus e mostrando-Se absoluto, ou seja, essencial às nossas vidas, Jesus explicou assim o que seria 'estar em Comunhão' com Ele: "Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: tampouco podeis dar fruto, se não permanecerdes em Mim." Jo 15,4
    Por outro lado, falando sobre a não-comunhão com Ele, advertiu quanto às severas consequências: "Se alguém não permanecer em Mim, será lançado fora como o ramo. Ele secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo, e queimar-se-á." Jo 15,6
    É marcante, contudo, a passagem em que Jesus reza ao Pai para que os Apóstolos e discípulos pudessem participar da Comunhão da Santíssima Trindade, aliás, como é o objetivo de Sua Missão, e para que nessa condição vivessem a Unidade da Igreja: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam um como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim para que sejam perfeitos na Unidade. E o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    Também rezou por nós, seus fiéis, que creríamos no testemunho dos Apóstolos, para que possamos igualmente participar da Comunhão da Santíssima Trindade, por intermédio da Igreja Una: "Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que por sua palavra hão de crer em Mim. Para que todos sejam um, assim como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti, para que também eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu Me enviaste." Jo 17,20-22
    Essa Comunhão, que Deus quer ter conosco, é percebida pelo amor que Ele nos tem, assim como tem por Seu Filho. Como Jesus disse acima: "E o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,23


CORPO E SANGUE DE CRISTO

    Se nos achamos indignos ou incapazes de estar em Comunhão com Deus, São Pedro garante que Jesus assim Se oferece porque é Sua vontade, por puro amor, pois o Pai quer que participemos de Sua natureza, de Sua divindade: "O divino poder deu-nos tudo que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude. Por elas, temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo." 2 Pd 1,3-4
    A Carta aos Hebreus, no mesmo sentido, diz que Deus quer que participemos de Sua santidade: "Aliás, temos na terra nossos pais que nos corrigem e, no entanto, olhamo-os com respeito. Com quanto mais razão nos havemos de submeter ao Pai de nossas almas, o Qual nos dará a Vida? Os primeiros educaram-nos para pouco tempo, segundo sua própria conveniência, ao passo que Ele o faz para nosso bem, para comunicar-nos Sua santidade." Hb 12,9-10
    E sobre essa condição de perfeitos filhos de Deus, São João Evangelista garante: "Todo aquele que é nascido de Deus não peca, porque o germe divino nele reside... o que é gerado de Deus se acautela, e o Maligno não o toca." 1 Jo 3,19;5,18
    Também promete São Paulo: "O pecado já não vos dominará, porque agora não estais mais sob a Lei, e sim sob a Graça." Rm 6,14
    É, portanto, para que Ele possa permanecer em nós na forma do Sagrado Alimento, que Jesus ofereceu Seu Corpo em sacrifício, que transubstancia-se na Hóstia Consagrada: "Em verdade, em verdade, digo-vos: se o grão de trigo caído na terra não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto." Jo 12,24
    E assim Ele prometeu plena comunhão espiritual Consigo: "Quem come Minha carne e bebe Meu sangue, permanece em Mim e Eu nele." Jo 6,56
    Ora, é exatamente isso o que nos diz São Paulo: "... quem se une ao Senhor, torna-se com Ele um só Espírito." 1 Cor 6,17
    Ele afirma: "... É Cristo que vive em mim. Minha presente vida, na carne, eu vivo-a na no Filho de Deus..." Gl 2,20
    Aos coríntios, exortava: "Andamos na fé e não na visão." 2 Cor 5,7
    Eis porque ele celebra a fidelidade de Deus, que, mediante o devido arrependimento, redime nossos pecados e oferece-nos a Comunhão com Sua Santidade, tal e qual Ele a tem com Seu Filho: "Fiel é Deus, por Quem fostes chamados à Comunhão de Seu Filho Jesus Cristo, Nosso Senhor." 1 Cor 1,9
    E poder comungar com Jesus significa reconciliar-nos com Deus Pai, Nosso Criador: "... nós nos gloriamos em Deus por Nosso Senhor Jesus Cristo, por Quem desde agora temos recebido a reconciliação!" Rm 5,1
    Isso significa recuperar a semelhança que havemos perdido: "... revesti-vos do novo homem, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade." Ef 4,24
    Por isso, em nome da Comunhão, o Apóstolo dos Gentios pregava: "Em Nome de Cristo, rogamo-vos: reconciliai-vos com Deus!" 2 Cor 5,20
    E confirmando de uma vez por todas a presença de Cristo no Pão e no Vinho, ele reclama respeito, pois quem da Eucaristia toma parte não pode comungar de 'outro pão' ou de 'outro vinho'. Isso é um grave pecado: "O Cálice de bênção, que benzemos, não é a Comunhão do Sangue de Cristo? E o Pão, que partimos, não é a Comunhão do Corpo de Cristo? Não podeis beber ao mesmo tempo o Cálice do Senhor e o cálice dos demônios. Não podeis participar ao mesmo tempo da mesa do Senhor e da mesa dos demônios." 1 Cor 10,16.21
    Por fim, ele resume nestas palavras a Comunhão Espiritual: "Vós, porém, não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito, se realmente o Espírito de Deus habita em vós. Se alguém não possui o Espírito de Cristo, este não é d'Ele." Rm 8,9
    Pois é exatamente essa a função da Igreja: perdoar os pecados dos que se confessam e reconciliá-los com Deus, trazendo-os à Mesa de Cristo: "Tudo isso vem de Deus, que nos reconciliou Consigo, por Cristo, e confiou-nos o ministério desta reconciliação. Porque é Deus que, em Cristo, reconciliava consigo o mundo, não mais levando em conta os pecados dos homens, e em nossos lábios pôs a mensagem da reconciliação." 2 Cor 5,18-19
    Com efeito, ajudados pela Divina Graça, desde os tempos dos Apóstolos, nossos Sacerdotes têm-se esforçado para cumprir essa missão, como escreveu São João Evangelista: "... o que vimos e ouvimos nós vos anunciamos, para que também vós tenhais Comunhão conosco. Ora, nossa Comunhão é com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo." 1 Jo 1,3
    Para que seja perfeita nossa Comunhão, portanto, devemos buscá-la também com nossos irmãos: "Se, porém, andamos na Luz como Ele mesmo está na Luz, temos comunhão recíproca uns com os outros, e o Sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, purifica-nos de todo pecado." 1 Jo 1,7
    Sem dúvida, a Comunhão é a maior benção que podemos ter! É Deus vivendo em nós! É o que celebramos na Santa Missa! É a mais bela cena da História da humanidade: Deus fez-Se humano e, à mesa conosco, oferece Seu Corpo e Seu Sangue, o Alimento que nos fortalece para o bom combate, o Alimento da Vida Eterna: "Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-O e deu-O aos discípulos, dizendo: 'Tomai e comei, isto é Meu Corpo.' Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lhO, dizendo: 'Bebei dele todos, porque isto é Meu Sangue, o Sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens para a remissão dos pecados.'" Mt 26,26-28
    Jesus, tenhamos por certo, quer fazer de nós verdadeiros sacrários, onde quer guardar-Se para sempre: "Se alguém Me ama, guardará Minha palavra e Meu Pai amá-lo-á. E Nós a ele viremos, e nele faremos Nossa morada." Jo 14,23
    Essa é Sua Missão, como disse São Paulo: "... a fim de que Deus seja tudo em todos." 1 Cor 15,28

    "Confirmai Vosso povo na Unidade!"

terça-feira, 19 de junho de 2018

Amar a Deus


    O que significa 'amar a Deus sobre todas as coisas'? Como se cumpre esse Mandamento?
    Inicialmente, é interessante notar que o primeiro dos 10 Mandamentos não fala de em Deus, mas de amor a Ele. Aliás, nenhum deles fala de fé. E é a mais pura Verdade: bem mais que fé, Deus quer ser amado. Isso até pode parecer muito humano, mas só porque esquecemos que o amor é divino, mesmo quando vivido por nós. Ora, ele é a essência de todas as coisas, a harmonia que perpassa todo o cosmo. E é o melhor conceito que São João Evangelista encontrou para o próprio Deus. Está em sua primeira carta: "... Deus é amor." 1 Jo 4,8
    Em carta a São Timóteo, exaltando a maior de todas manifestações de Deus, São Paulo põe Jesus como foco desse amor, que deve expressar-se pelo zelo à Sã Doutrina: "Toma por modelo os salutares ensinamentos que de mim recebeste sobre a fé e o amor a Jesus Cristo. Guarda o Precioso Depósito, pela virtude do Espírito Santo que em nós habita." 2 Tm 1,13
    De fato, podemos afirmar que Jesus, vivendo como humano, veio ensinar-nos a amar a Deus. Amor que Ele exemplarmente demonstrou, em absoluta obediência ao Pai, levando-o às últimas consequências. São Paulo atestou: "Sendo Ele de condição divina, não Se prevaleceu de Sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-Se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-Se ainda mais, tornando-Se obediente até a morte, e morte de Cruz." Fl 2,6-8
    E ao pronunciar-Se sobre esse assunto, para valorizar a Sagrada Tradição e ser mais preciso, Jesus mencionou a passagem do Deuteronômio que diz: "Amarás o Senhor, Teu Deus, de todo teu coração, de toda tua alma, de toda tua força e de todo teu entendimento...(Dt 6,5)" Mt 22,37
    Vale examinar:

AMAR A DEUS DE TODO CORAÇÃO

    Isso diz de refinamento, moderação de sentimentos e emoções. E, cabe esclarecer, para Jesus o coração é a sede de toda consciência moral. Ele disse: "Porque a boca fala do que lhe transborda do coração." Mt 12,34
    Disse ainda: "Porque é do interior do coração dos homens que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez." Mc 7,21-22
    Revelou o que nos identifica: "Porque onde está teu tesouro, lá também está teu coração." Mc 6,21
    E assim concluiu: "O homem de bem tira boas coisas de seu bom tesouro. O mau, porém, tira coisas más de seu mau tesouro." Mt 12,35
    Ele garantia: "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!" Mt 5,8
    Pois segundo Nosso Salvador é aí que se travam as grandes batalhas da fé, como disse na parábola da boa semente: "... mas depois vem o demônio e tira-lhes a Palavra do coração..." Lc 8,12
    E é onde se consuma o pecado: "Eu, porém, digo-vos: todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração." Mt 5,28

AMAR A DEUS DE TODA ALMA

    Requer abraçar sinceramente a vida espiritual e seus valores. Isso só é possível pelo exercício da piedade em seu verdadeiro sentido, o das práticas religiosas. É o que São Paulo recomendou a São Timóteo: "Exercita-te na piedade. Se o exercício corporal traz algum pequeno proveito, a piedade, esta sim, é útil para tudo, porque tem a promessa da presente e da futura Vida." 1 Tm 4,8
    Amar com a alma é o que disse Nossa Senhora no Magnificat, pois para isso ela estava preparada desde que foi concebida: "Minha alma glorifica ao Senhor..." Lc 1,46
    Entregar-se à devoção, portanto, é elementar para que se alcance o verdadeiro amor a Deus. Não se pode esquivar dos compromissos da fé. O cego de nascença curado por Jesus vai dizer aos judeus: "Sabemos, porém, que Deus não ouve a pecadores, mas atende a quem Lhe presta culto e faz Sua vontade." Jo 9,31
    Já os seguidores da tradição de São Paulo deixaram-nos um estamento: "Ora, sem fé é impossível agradar a Deus, pois para achegar-se a Ele é necessário que primeiro se creia que Ele existe e que recompensa os que O procuram." Hb 11,6
    Pois crendo piamente que Ele existe, ou seja, vivenciando Sua presença e praticando o culto que Lhe é devido, podemos melhor contemplar Suas obras e assim estamos mais propensos a amá-Lo. O Apóstolo dos Gentios assegura: "Pois tudo que Deus criou é bom, e nada há de reprovável..." 1 Tm 4,4
    Ora, a Santa Missa foi instituída pelo próprio Cristo: "Tomou em seguida o pão e depois de ter dado graças, partiu-O e deu-lhO, dizendo: 'Isto é Meu Corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de Mim.' Do mesmo modo tomou o Cálice, depois de cear, dizendo: 'Este cálice é a Nova Aliança em Meu Sangue, que é derramado por vós...'" Lc 22,19-20
    E Ele pedia todo envolvimento espiritual: "Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e Verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja. Deus é Espírito, e Seus adoradores devem adorá-Lo em espírito e Verdade." Jo 4,23-24
    Nesse sentido era a oração de São Paulo e seus seguidores em favor dos tessalonicenses: "Nesta esperança suplicamos incessantemente por vós, para que Nosso Deus vos faça dignos da vossa vocação, e que eficazmente leve a bom termo todo vosso zelo pelo bem e a atividade de vossa fé." 2 Ts 1,11
    São Pedro, ademais, recomendava um expressivo exercício de ascese, que julgava essencial aos cristãos: "Por estes motivos, o quanto possível esforçai-vos por unir à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o amor fraterno, e ao amor fraterno a caridade. Se estas virtudes se acharem abundantemente em vós, elas não vos deixarão inativos nem infrutuosos no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque quem não tiver estas coisas é míope, cego. Esqueceu-se da purificação de seus antigos pecados." 2 Pd 1,5-9


AMAR A DEUS DE TODA FORÇA

    É colocar nossos corpos a serviço das coisas que agradam a Deus. A caridade, seja doação de vida a Deus, seja partilha com os irmãos dos frutos do nosso trabalho, é um grande exemplo. Os seguidores de São Paulo exortavam às duas: "Não negligencieis a beneficência e a Comunhão. Estes são sacrifícios que agradam a Deus!" Hb 13,16
    O próprio São Paulo estimulava os romanos: "Não relaxeis vosso zelo. Sede fervorosos de espírito. Servi ao Senhor. Socorrei às necessidades dos fiéis. Esmerai-vos na prática da hospitalidade." Rm 12,11.13
    Ele reconhecia a generosidade, tanto espiritual quanto material, das igrejas da Macedônia: "Em meio a tantas tribulações com que foram provadas, espalharam generosamente e com transbordante alegria, apesar de sua extrema pobreza, os tesouros de sua liberalidade. Sou testemunha de que, segundo suas forças, e até além dessas forças, contribuíram espontaneamente e pediam-nos com muita insistência o favor de poderem associar-se neste socorro destinado aos irmãos. E ultrapassaram nossas expectativas. Primeiro deram-se a si mesmos ao Senhor e, depois, a nós, pela vontade de Deus." 2 Cor 8,2-5
    E aplaudia os louváveis feitos dos coríntios: "Com respeito ao auxílio a prestar aos irmãos, acho quase supérfluo continuar a escrever-vos. Porquanto estou ciente de vossa boa vontade, que enalteço, para glória vossa, ante os macedônios, dizendo-lhes que a Acaia também está pronta desde o ano passado. O exemplo de vosso zelo tem estimulado a muitos. Dê cada um conforme o impulso de seu coração, sem tristeza nem constrangimento. Deus ama aquele que dá com alegria." 2 Cor 9,1-2.7
    Também diz São Tiago Menor: "Por exemplo: um irmão ou irmã não têm que vestir e falta-lhes o pão de cada dia. Então, se algum de vós lhes disser: 'Ide em Paz, aquecei-vos e comei bastante' e, no entanto, não lhes dá o necessário para o corpo, que adianta isso?" Tg 2,16-17
    E sob o aspecto espiritual, amar a Deus com toda a força também significa resistir fisicamente ao pecado e aos sofrimentos com que o mundo nos aflige: "Considerai, pois, atentamente aquele que tantas contrariedades sofreu dos pecadores, e não vos deixeis abater pelo desânimo. Ainda não tendes resistido até o sangue na luta contra o pecado." Hb 12,4
    São Paulo também pede: "Mortificai, pois, vossos membros no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria. Dessas coisas provém a ira de Deus sobre os descrentes. Outrora também vós assim vivíeis, mergulhados como estáveis nesses vícios. Agora, porém, deixai de lado todas estas coisas: ira, animosidade, maledicência, maldade, torpes palavras de vossa boca, nem vos enganeis uns aos outros. Vós despistes-vos do velho homem com seus vícios, e revestistes-vos do novo, que vai restaurando-se constantemente à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento." Cl 3,5-10
    E diz que esse é nosso único caminho: "... até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo. ... pela sincera prática da caridade, cresçamos em todos sentidos..." Ef 4,13.15a

AMAR A DEUS DE TODO ENTENDIMENTO

    É a necessidade de chegar a uma esclarecida fé, através do pleno concurso da razão. Esse entendimento só é possível com o consciencioso exame da mensagem divina, feito de boa vontade, isto é, sem preguiça, e de modo moralmente corajoso. É um exercício de conhecimento e que nos acompanha a vida inteira. Sempre teremos o que aprender. São Paulo vai dizer aos efésios: "Portanto, eis o que digo e conjuro no Senhor: não persistais em viver como os pagãos, que andam à mercê de suas frívolas ideias. Têm o entendimento obscurecido. Sua ignorância e o endurecimento de seu coração mantêm-lhes afastados da Vida de Deus. Indolentes, entregaram-se à dissolução, à apaixonada prática de toda espécie de impureza. Vós, porém, não foi para isto que vos tornastes discípulos de Cristo, se é que O ouvistes e d'Ele aprendestes, como convém à Verdade em Jesus. Renunciai à vida passada, despojai-vos do velho homem, corrompido por enganadoras concupiscências. Renovai sem cessar o sentimento de vossa alma, e revesti-vos do novo homem, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade." Ef 4,17-24
    São Pedro, por sua vez, pedia plena consciência da vida espiritual cristã: "Estai sempre prontos a responder em vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito." 1 Pd 3,15
    Nosso amor a Deus, portanto, carece de conhecimento de Sua Palavra e de Suas manifestações, sem que nos atrapalhe a dissimulação ou a mentira. Ninguém pode fugir a esse exercício da razão. Sobre a devoção dos gregos, por exemplo, sempre colocada por São Paulo em oposição a dos judeus, ele escreveu aos romanos: "Porquanto o que se pode conhecer de Deus eles leem-no em si mesmos, pois Deus lho revelou com evidência. Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, Seu sempiterno poder e divindade, tornam-se visíveis à inteligência por Suas obras, de modo que não se podem escusar." Rm 1,19-20
    Sem dúvida, sem essa constante renovação do entendimento para com o Pai e Seu amor, cai-se facilmente em tentação, como ele menciona sobre os que se esquivam da Verdade: "Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Deus entregou-os aos depravados sentimentos, e daí seu indigno procedimento." Rm 1,28
    O salmista já dizia: "Feliz aquele que se compraz no serviço do Senhor e dia e noite medita Sua Lei. Ele é como a árvore plantada na margem de águas correntes: dá fruto na época própria, sua folhagem jamais murchará. Tudo que empreende, prospera." Sl 1,2-3
    Porque conhecendo a Deus, não há como não O amar, e isso se exprime pela gratidão. E por tudo: pela vida, pelas pessoas, pela natureza etc. Mas principalmente por Seu amor. Tendo essa percepção do mundo e da vida é que verdadeiramente começamos a amá-Lo, pois há um virtuoso ciclo entre o amor e Sabedoria. Diz o Eclesiástico: "O Verbo de Deus nos Céus é a fonte da Sabedoria... Ele criou-a... e difundiu-a em todas Suas obras, em toda carne segundo Sua generosidade, e doou-a aos que O amam." Eclo 1,5a.9a.10
    São Paulo, aliás, foi bem específico ao condenar a falta de interesse da parte dos judeus pela Sã Doutrina: "Pois dou-lhes testemunho de que têm zelo por Deus, mas um zelo sem discernimento." Rm 10,2

VENCER A CONSCIÊNCIA PREGUIÇOSA

    Mas eis que surgem algumas questões. Jesus, sendo Deus, e portanto falando do amor que Lhe devemos, pareceu muito exigente quando falou: "Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim não é digno de Mim. Quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim não é digno de Mim." Mt 10,37
    Primeiro, porém, precisamos ver nessa frase Jesus revelando-Se Deus. É um dos momentos em que Ele Se declara! Se Ele Se colocou como Aquele que deve ser amado sobre todas as pessoas e coisas, fica claro Quem Ele é. Segundo, não podemos apegar-nos demasiadamente nem mesmo às pessoas mais próximas nessa vida. Todos vamos morrer, e a ausência de alguém muito íntimo, sem a fé, pode torturar-nos. Correto, pois, é amar a Deus e crer na Vida Eterna. Lá teremos todos os Seus, e pela eternidade. Por isso, falando sobre a vida mundana e sem Deus, Jesus ensinou: "Quem ama sua vida, perdê-la-á. Mas quem odeia sua vida neste mundo, conservá-la-á para a Vida Eterna." Jo 12,25
    De fato, depois da Vinda do Messias, o amor pelas coisas do mundo significa nas trevas. É o que disse São João: "... a Luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas que a Luz, pois suas obras eram más." Jo 3,19
    E segundo as próprias palavras de Jesus, não há como amar a Deus sem amá-Lo: "Desse modo, todos honrarão o Filho, bem como honram o Pai. Aquele que não honra o Filho, não honra o Pai, que O enviou." Jo 5,23
    Pelo livre arbítrio, Ele chega mesmo a propor uma experiência: "Se alguém quiser cumprir a vontade de Deus, distinguirá se Minha Doutrina é de Deus ou se falo de Mim mesmo." Jo 7,17
    Contudo, Ele é absolutamente restritivo: "... ninguém vem ao Pai senão por Mim." Jo 14,6b
    Exige empenho: "Jesus disse-lhes: 'Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo que anunciaram os Profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na Sua Glória?'" Lc 24,25-26
    E usou de toda contundência ao combater aqueles que resistiam diante de Suas obras: "Se Deus fosse vosso pai, vós Me amaríeis, porque Eu saí de Deus. É d'Ele que Eu provenho, porque não vim de Mim mesmo, mas foi Ele Quem Me enviou. Por que não compreendeis Minha linguagem? É porque não podeis ouvir Minha Palavra. Vós tendes como pai o demônio e quereis fazer os desejos de vosso pai. Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na Verdade, porque a Verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira." Jo 8,42-44

JESUS: PARÂMETRO DE AMOR

    Para que melhor se compreenda o que significa amar a Deus, Jesus faz uma radical simplificação: põe o amor ao próximo na mesma importância que o amor a Deus. Ele diz literalmente que este Mandamento é semelhante ao primeiro: "Amarás o Senhor, Teu Deus, de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito (Dt 6,5). Este é o maior e o primeiro Mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18). Nesses dois Mandamentos resumem-se toda a Lei e os Profetas." Mt 22,37-40
    São João Evangelista vai no mesmo sentido: "Se alguém disser: 'Amo a Deus', mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus este Mandamento: o que amar a Deus, ame também a seu irmão." 1 Jo 4,20-21
    E foi bem mais contundente: "Quem odeia seu irmão é assassino. E sabeis que a Vida Eterna não permanece em nenhum assassino." 1 Jo 3,15
    Porque, nestes termos, Jesus estava deixando Seu Mandamento, que era ainda mais simples: "Dou-vos um novo Mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como Eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." Jo 13,34-35
    E note-se que Ele estabelecia um parâmetro para esse amor, que é Seu próprio amor por nós: "Como Eu vos tenho amado..." Idem
    Ele quis dizer, enfim, que devemos amar ao próximo como Deus nos ama. Esse foi um dos pedidos que Ele fez ao Pai por nós: "Manifestei-lhes Teu Nome, e ainda hei de manifestá-lhO, para que o amor com que Me amaste esteja neles, e Eu neles." Jo 17,26
    O Amado Discípulo explica: "Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele. Mas amamos porque primeiro Deus nos amou." 1 Jo 4,16.19
    E diz mais: "Se mutuamente nos amarmos, Deus permanece em nós e Seu amor em nós é perfeito." 1 Jo 4,12b
    São Paulo disse como isso acontece: "E a esperança não engana. Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado." Rm 5,5
    Ele sabia, porém, que mais amar quase sempre significa ser menos amado: "Não vos serei oneroso, porque não busco vossos bens mas sim a vós mesmos. Com efeito, não são os filhos que devem entesourar para os pais, mas os pais para os filhos. De mui boa vontade darei o que é meu, e me darei a mim mesmo por vossas almas, ainda que, amando-vos mais, seja menos amado por vós." 2 Cor 12,14b-15
    Jesus, no entanto, deixou claro como podemos demonstrar amor a Ele: "Aquele que tem e guarda Meus Mandamentos, esse é que Me ama. E aquele que Me ama será amado por Meu Pai, e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele." Jo 14,21
    Ou seja, conhecer e praticar Sua Palavra é o verdadeiro sinal de nosso amor. Ele disse ainda: "Se alguém Me ama, guardará Minha palavra e Meu Pai amá-lo-á. E nós viremos a ele e nele faremos Nossa morada." Jo 14,23
    São João Evangelista confirma tal ensinamento, lembrando o amar a Deus 'com todo entendimento': "Eis o amor a Deus: que guardemos Seus Mandamentos. E Seus Mandamentos não são penosos..." 1 Jo 5,3
    Sem dúvida, de tanto nos amar, Deus quer viver em nossa alma. E é o que de fato acontece, como atestou São Paulo: "Vós, porém, não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito, se realmente o Espírito de Deus habita em vós. Se alguém não possui o Espírito de Cristo, este não é d'Ele." Rm 8,9
    Ele pergunta: "Não sabeis que sois o Templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?" 1 Cor 3,16
    E ficam estas palavras de sua inspiração: "... sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus..." Rm 8,28

    "Nosso coração está em Deus."

segunda-feira, 18 de junho de 2018

A Lógica Inversa de Jesus


    Jesus demonstrou como os valores deste mundo estão flagrantemente invertidos, em oposição à vontade de Deus. É fato: quando se amadurece sob Sua Luz, Seus ensinamentos, revelações e profecias vão-se confirmando como estrondosas verdades. Por exemplo: profetizando Seu acolhimento por estrangeiros e rejeição pelos judeus, apesar de inicialmente escolhidos por Deus para divulgar a Salvação, Ele sentencia: "Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos." Mt 20,16
    Com efeito, mesmo em países onde não há grande divulgação de Sua Palavra, a semente da santidade tem dado frutos por obra da Divina Graça, pois Deus é muito cioso da Salvação de Seus filhos, como revelou Jesus na parábola dos talentos: "Sabias que colho onde não semeei e que recolho onde não espalhei." Mt 25,26
    Mais: Ele ensina o Pai sequer admite atitudes e posturas ambíguas: "Nenhum servo pode servir a dois senhores: ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de aderir a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro." Lc 16,13
    E fulmina a hipocrisia e as mundanas ilusões: "Ora, ouviam tudo isto os fariseus, que eram amigos do dinheiro, e zombavam d'Ele. Jesus disse-lhes: 'Vós procurais parecer justos aos olhos dos homens, mas Deus conhece-vos os corações. Pois o que é elevado aos olhos dos homens é abominável aos olhos de Deus.'" Lc 16,14-15
    Denunciava, então, a maior das abominações, razão de toda incredulidade: "Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros e não buscais a Glória que é só de Deus?" Jo 5,44
    Segundo Nosso Salvador, e o que foi experimentado por pessoas como São Domingos, São Francisco, Santo Antonio, Madre Tereza, entre outros, o portentoso Reino dos Céus não será um lugar de poderosos, como vistos neste mundo, mas de gente humilde. Ele dizia dos líderes dos judeus: "Os escribas e os fariseus sentaram-se na cadeira de Moisés. Gostam dos primeiros lugares nos banquetes e das primeiras cadeiras nas sinagogas. Gostam de ser saudados nas praças públicas e de ser chamados rabi pelos homens. Porém, o maior dentre vós será vosso servo. Aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado." Mt 23,2.6-7.11-12
    Na Igreja, portanto, por singularidade da Sã Doutrina, a verdadeira autoridade não significa poder, mas serviço. Ele determinou: "Os reis dos pagãos dominam como senhores, e aqueles que sobre eles exercem autoridade chamam-se benfeitores. Que não seja assim entre vós, mas o que é o maior, torne-se como o último; e o que governa seja como o servo." Lc 22,25-26
    De fato, Jesus foi bem enfático quando falou aos impenitentes religiosos de Sua época, denunciando o infame pecado da hipocrisia e anunciando o fim da primazia dos judeus no projeto de Deus: "Pois Eu garanto a vocês: os cobradores de impostos e as prostitutas entrarão antes de vocês no Reino do Céu. Porque João veio até vocês para mostrar o Caminho da justiça, e vocês não acreditaram nele. Os cobradores de impostos e as prostitutas acreditaram nele. Vocês, porém, mesmo vendo isso, não se arrependeram. Por isso, digo-vos: ser-vos-á tirado o Reino de Deus, e será dado a um povo que produzirá os frutos dele." Mt 21,31-32.43
    Muitas pessoas, no entanto, já perceberam que o simples rigor da lei religiosa pode levar à cegueira, porque, assim como o racionalismo, que é a grande ilusão da atualidade, o legalismo é uma perigosa armadilha. E aqui, mais uma vez, Jesus 'inverte' a posição as coisas: "O sábado foi feito para servir ao homem, e não o homem para servir ao sábado." Mc 2,27
    Tocando na vaidade dos que se julgam melhores que outros, que é mais um corriqueiro flagrante entre supostos religiosos, Ele deixou claro que estava terminantemente do lado dos que, mesmo empenhando-se muito para segui-Lo, ainda se reconhecem errantes: "Eu não vim para chamar justos, e sim pecadores." Mc 2,17
    E para exemplificar os cuidados de Deus para com os mais fracos, o Divino Mestre deixou-nos uma belíssima imagem do amor do Pai e de Sua Misericórdia, onde as coisas também parecem às avessas: "E Eu declaro-lhes: assim, haverá no Céu mais alegria por um só pecador que se converte, que por noventa e nove justos que não precisam de conversão." Lc 15,7
    Com efeito, toda comunidade de deve dar-se conta que ainda há muito que aprender, pois, quando bem observamos, coisas essenciais são frequentemente deixadas de lado. Cabe crescermos no sincero amor para percebê-las, ao invés de rejeitá-las, porque foi exatamente isso o que aconteceu em Israel durante a Vinda do Cristo: "Então Jesus disse a eles: 'Vocês nunca leram na Escritura: A pedra que os construtores deixaram de lado tornou-se a pedra mais importante. Isso foi feito pelo Senhor, e é admirável aos nossos olhos'?" Mt 21,42
    Por isso, Ele advertia do maior absurdo: "Bem-aventurado aquele para quem Eu não for ocasião de queda!" Mt 6,11


A MATURIDADE ESPIRITUAL

    E se Jesus não tolerava nenhuma acomodação no processo amadurecimento espiritual, muito mais sério era Seu recado às pessoas que se recorrem apenas dos mundanos cuidados: "Pois quem quiser salvar sua vida, vai perdê-la. Mas quem perde sua vida por causa de Mim, vai encontrá-la." Mt 16,25
    Ainda que um tanto enigmático, Ele não deixava de falar sobre as recompensas espirituais que nos revigoram ainda nessa vida. Referindo-se à inspiração do Espírito Santo e à fé, tão importantes para enfrentar as desilusões, Ele asseverou: "Pois a quem tem, será dado ainda mais, será dado em abundância. Mas daquele que não tem, será tirado até o pouco que tem." Mt 13,12
    Temos a mesma lição quando Ele Se referiu ao Santíssimo Sacramento. Havemos de escolher entre o que parece real e o que realmente tem valor: "Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até a Vida Eterna, que o Filho do Homem vos dará. Pois n'Ele Deus Pai imprimiu Seu sinal." Jo, 6,27
    Sem dúvida, não é por acaso que a maioria dos judeus continuam alheios ao Banquete Eucarístico realizado na Santa Missa. Foram Palavras Suas na conclusão de uma parábola: "Pois digo-vos: nenhum daqueles homens, que foram convidados, provará a Minha Ceia." Lc 21,24
    Esses aparentes contrassensos apontados por Jesus sempre causaram surpresa, e assim foi desde Seu Batismo, quando Lhe questionou São João Batista: "Eu devo ser batizado por Ti e Tu vens a mim?" Mt 3,14
    Aliás, assim foi quando Deus indicou o lugar onde Ele nasceria, através do Profeta Miqueias: "Mas tu, Belém-Efrata, tão pequena entre os clãs de Judá, é de ti que para Mim sairá Aquele que é chamado a governar Israel. Suas origens remontam aos tempos antigos, aos dias do longínquo passado. Por isso, Deus os deixará até o tempo em que der à luz aquela que há de dar à luz. Então o resto de Seus irmãos voltará para junto dos filhos de Israel. Ele levantar-Se-á para apascentá-los com o poder do Senhor, com a majestade do Nome do Senhor, Seu Deus. Os Seus viverão em segurança, porque Ele será exaltado até os confins da terra. E assim será a Paz." Mq 5,1-4a
    Ou o lugar onde Ele viveria, a Galileia das Nações, profetizado através de Isaías: "O povo que andava nas trevas viu uma grande Luz. Sobre aqueles que habitavam uma tenebrosa região resplandeceu uma Luz." Is 9,1
    Em divina manifestação nem sempre ostensiva, desde Seu Nascimento Ele já Se colocava em oposição a tudo que se pretende majestoso nesse mundo, como quando foi anunciado aos pastores de Belém: "O anjo disse-lhes: 'Não temais, eis que vos anuncio uma Boa Nova que será alegria para todo o povo: hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um Recém-Nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura.'" Lc 2,10-12
    Da mesma forma, ao ser apresentado no Templo de Jerusalém, um religioso profetizou os dilemas que Jesus provocaria, bem como as dores de Sua Mãe: "Simeão abençoou-Os e disse a Maria, Sua Mãe: 'Eis que este Menino está destinado a ser causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará tua alma.'" Lc 2,34-35
    Afirmativamente, a maioria dos religiosos de Sua época viveram aterradoras dúvidas, embora coubesse a eles mesmos deduzir, por tudo que viam e ouviam, os tempos em que viviam: "Os judeus rodearam-nO e perguntaram-Lhe: 'Até quando nos deixarás na incerteza? Se Tu és o Cristo, dize-nos claramente.'" Jo 10,24
    Mas, por conta da dureza de seus corações, as Palavras de Jesus causavam-lhes o oposto efeito, e nesses casos as consequências são sempre muito tristes: "Então se aproximaram d'Ele Seus discípulos e disseram-Lhe: 'Sabes que os fariseus se escandalizaram com as palavras que ouviram?' Jesus respondeu: 'Toda planta que Meu Pai celeste não plantou será arrancada pela raiz. Deixai-os. São cegos e guias de cegos. Ora, se um cego conduz a outro, tombarão ambos na mesma vala.'" Mt 15,12-14
    Eles chegavam mesmo a conclusões absolutamente absurdas: "A propósito dessas palavras, originou-se nova divisão entre os judeus. Muitos deles diziam: 'Ele está possuído do demônio. Ele delira. Por que O escutais vós?'" Jo 10,19-20
    Jesus apontou uma afronta ainda maior: "Se chamaram de Beelzebul ao Pai de Família, quanto mais o farão às pessoas de Sua Casa!" Mt 10,25b
    Contudo, também São Pedro estranhou os desígnios de Deus quando Jesus anunciou Sua Paixão: "Pedro então começou a interpelá-Lo e protestar nestes termos: 'Que Deus não permita isto, Senhor! Isto não Te acontecerá!'" Mt 16,22
    Tornou a estranhar Seu gesto de humildade na ocasião do Lava-Pés: "Senhor, queres lavar-me os pés?..." Jo 13,6
    E na noite da Santa Ceia, Ele mesmo avisou os Apóstolos: "Disse-lhes então Jesus: 'Esta noite serei para todos vós uma ocasião de queda. Porque está escrito: 'Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersadas (Zc 13,7).' Mas, depois da Minha Ressurreição, Eu vos precederei na Galileia.'" Mt 26,31-32
    No entanto, mesmo levando em conta os misteriosos planos de Deus, na maioria das vezes é a própria má vontade ou a insensibilidade do ser humano que o faz sofrer. Isso explica porque Jesus não fazia questão de converter desde o primeiro instante as pessoas com quem Se encontrava: "É por isso que Eu uso parábolas para falar com eles: assim eles olham e não vêem, ouvem e não escutam nem compreendem. Desse modo se cumpre para eles a profecia de Isaías: 'É certo que vocês ouvirão, porém nada compreenderão. É certo que vocês enxergarão, porém nada verão. Porque o coração desse povo tornou-se insensível. Eles são duros de ouvido e fecharam os olhos, para não ver com os olhos, e não ouvir com os ouvidos, não compreender com o coração e não se converter. E assim Eu os cure (Is 6,9s).'" Mt 13,13-15
    Os sábios deste mundo, ademais, não estão nos primeiros planos de Deus. Foi o que disse Jesus ao atestar a vitória dos Apóstolos sobre os maus espíritos, na primeira missão que os enviou: "Naquele mesma hora, Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse: 'Pai, Senhor do Céu e da terra, Eu dou-Te graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e revelaste-as aos pequeninos. Sim, Pai, bendigo-Te porque assim foi de Teu agrado.'" Lc 10,21
    Isso já estava previsto no Eclesiástico: "Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que Ele revela Seus mistérios. Porque grande é o poder do Senhor, mas é pelos humildes que Ele é glorificado." Eclo 3,20b-21
    Na verdade, a ambiguidade está em nossos corações, que insiste em entender as coisas pela lógica do mundo. Porém, ainda que vagando entre contradições, se mostrarmos arrependimento Deus nos acolhe e perdoa, como Jesus revelou essa parábola: "O que vocês acham disto? Certo homem tinha dois filhos. Ele foi ao mais velho, e disse: 'Filho, vá hoje trabalhar na vinha.' O filho respondeu: 'Não quero.' Mas depois se arrependeu e foi. O pai dirigiu-se ao outro filho, e disse a mesma coisa. Esse respondeu: 'Sim, senhor, eu vou.' Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?" Mt 21,28-30
    Por isso, Ele recomenda uma improvável aquisição de celestiais favores, como vemos na parábola do infiel administrador: "Eu digo-vos: fazei-vos amigos com a injusta riqueza, para que, no dia em que ela vos faltar, eles recebam-vos nos eternos tabernáculos." Lc 16,9
    Tal concessão a bem da obediência está em conformidade com o 'paradoxo da pacífica dominação', que Ele previu para a Nova Terra: "Felizes os mansos, porque possuirão a terra." Mt 5,5
    Ora, onde mais os pobres poderiam herdar alguma coisa senão segundo os planos de Deus? "Felizes os pobres, porque deles é o Reino do Céu." Mt 5,3
    Com efeito, havia muito um dos amigos de Jó já percebera os 'tortos' desígnios divinos: "Oh! Se Deus pudesse falar, e abrir Seus lábios para responder-te, revelar-te os mistérios da Sabedoria que são ambíguos para o espírito..." Jó 11,5-6a


CONTRA TODAS AS CHANCES 

    E a Vinda do Messias? Teria sido um acontecimento reservado apenas para os mais Santos e justos? Não, por certo. Deu-se num momento em que a humanidade, mesmo imersa no pecado, já tinha alguma maturidade para receber a mensagem do Deus de amor. Quantos, porém, perceberam-nO? Quantos ainda hoje não se veem contrariados diante do 'paradoxo do Deus morto'? No entanto, Jesus atestou o privilégio daquela geração, assim como dos Apóstolos: "Eu garanto a vocês: muitos Profetas e justos desejaram ver o que vocês estão vendo, e não puderam ver. Desejaram ouvir o que vocês estão ouvindo, e não puderam ouvir." Mt 13,17
    Pois segundo a lógica do povo judeu, o Salvador jamais poderia ser o Servo Sofredor, apesar de ter sido predito pelo Profeta Isaías. Assim como pareceu estranho a São Pedro e aos demais Apóstolos, eles não entendiam: "A multidão respondeu-Lhe: 'Nós temos ouvido da Lei que o Cristo permanece para sempre. Como dizes Tu: Importa que o Filho do Homem seja levantado? Quem é esse Filho do Homem?'" Jo 12,34
    E se os Doze pareciam uma comunidade muito pequena para ajudar a salvar tanta gente, bem como iniciar a construção do Reino de Deus, Jesus disse-lhes: "O Reino do Céu é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia em seu campo. Embora ela seja a menor de todas sementes, quando cresce, fica maior que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros do céu vêm e fazem ninhos em seus ramos." Mt 13,31-32
    Falando explicitamente quanto ao número de seus seguidores, Ele nos estimula! "Não temais, pequeno rebanho, porque foi do agrado de Vosso Pai dar-vos o Reino." Lc 12,32
    E o que poderia fazer tão pequena comunidade diante de um mundo tão violento? Isso é certamente mais um contrassenso, mas mesmo assim Jesus nos encoraja. "Eu envio-vos como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas." Mt 10,16
    Quanto à nossas limitações, observadas no dia-a-dia, Ele vai lembrar os auxílios de Deus: "Caminhando, viu Jesus um cego de nascença. Seus discípulos indagaram d'Ele: 'Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego?' Jesus respondeu: 'Nem este pecou nem seus pais, mas é necessário que nele se manifestem as obras de Deus.'" Jo 9,1-3
    Ou ainda: se a Ressurreição da carne parece um absurdo, temos aí mais um projeto de Deus com base em opostas naturezas. Diz São Paulo: "O mesmo acontece com a Ressurreição dos mortos: o corpo é semeado corruptível, mas ressuscita incorruptível; é semeado desprezível, mas ressuscita glorioso; é semeado na fraqueza, mas ressuscita cheio de força; é semeado corpo animal, mas ressuscita corpo espiritual." 1 Cor 15,42-44
    O Apóstolo dos Gentios, por sinal, entendia muito bem essas 'contradições': "Ninguém se engane a si mesmo. Se alguém dentre vós se julga sábio à maneira deste mundo, faça-se louco para tornar-se sábio, porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus. Pois diz a Escritura: 'Ele apanhará os sábios em sua própria astúcia (Jó 5,13).'" 1 Cor 3,18-19
    De singular inspiração, ele assim entendia o erro dos judeus ao não acolher o Cristo, prevendo que mais tarde eles O reconheceriam: "Mas de sua queda resultou a Salvação dos pagãos, para incitar-lhes o ciúme. E se seu pecado ocasionou a riqueza do mundo, e sua decadência a riqueza dos pagãos, que não fará sua conversão em massa?!" Rm 11,11b-12
    Ele mesmo experimentava, e sofridamente, a cruz de sua missão: "Ademais, para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para esbofetear-me e livrar-me do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim. Mas Ele disse-me: 'Basta-te Minha Graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente Minha força.'" 2 Cor 12,7-9a
    Sobre sua condição espiritual, pois, ele vai concluir: "Portanto, prefiro gloriar-me de minhas fraquezas, para que em mim habite a força de Cristo. Eis porque sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor a Cristo. Porque, quando me sinto fraco, então é que sou forte." 2 Cor 12,9b-10
    E foi nestes termos que ele expressou o poder do Evangelho nas mãos de meros seres humanos: "Porém, temos este tesouro em vasos de barro, para que claramente transpareça que este extraordinário poder provém de Deus e não de nós. Em tudo somos oprimidos, mas não sucumbimos. Vivemos em completa penúria, mas não desesperamos. Somos perseguidos, mas não ficamos desamparados. Somos abatidos, mas não somos destruídos. Sempre trazemos em nosso corpo os traços da morte de Jesus, para que também a Vida de Jesus se manifeste em nosso corpo. Estando embora vivos, somos a toda hora entregues à morte por causa de Jesus, para que também a Vida de Jesus apareça em nossa carne mortal. Assim em nós opera a morte, e em vós a Vida." 2 Cor 4,7-12
    Por isso, declarou: "O que é estulto no mundo, Deus escolheu para confundir os sábios. E o que é fraco no mundo, Deus escolheu para confundir os fortes. E o que é vil e desprezível no mundo, Deus escolheu, como também aquelas coisas que nada são, para destruir as que são." 1 Cor 1,27-28
    E evocava as Escrituras: "Está escrito: 'Destruirei a sabedoria dos sábios, e anularei a prudência dos prudentes (Is 29,14).'" 1 Cor 1,19
    Ora, não foi exatamente isso o que viveram os Apóstolos nos primeiríssimos anos da Igreja? "Chamaram os Apóstolos e mandaram açoitá-los. Ordenaram-lhes então que não pregassem mais em Nome de Jesus, e soltaram-nos. Eles saíram da sala do Grande Conselho, cheios de alegria, por terem sido achados dignos de sofrer afrontas pelo Nome de Jesus." At 5,40-41
    São Paulo bem percebeu as consequências de seus sacrifícios: "Meus irmãos, quero fazer-vos saber que os acontecimentos que me envolvem estão redundando em maior proveito do Evangelho. Em todo o pretório e por toda parte tornou-se conhecido que é por causa de Cristo que estou preso. A maior parte dos irmãos, ante a notícia de minhas cadeias, cobrou nova confiança no Senhor e maior entusiasmo em anunciar, sem temor, a Palavra de Deus. É verdade que alguns pregam Cristo por inveja a mim e por discórdia, mas outros o fazem com a melhor boa vontade." Fl 1,12-15
    O que não pode acontecer, pois, é que fiquemos do lado dos insensíveis, sem enxergar os mais gritantes sinais dos Céus: "Jesus então disse: 'Vim a este mundo para fazer uma discriminação: os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos.'" Jo 9,39
    Era isso o que Ele mais condenava nos religiosos de então: o desprezo pelos verdadeiros valores espirituais: "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os mais importantes preceitos da Lei: a justiça, a Misericórdia, a fidelidade. Eis o que era preciso praticar em primeiro lugar, sem contudo deixar o restante. Guias cegos! Filtrais um mosquito e engolis um camelo." Mt 23,23-24
    E invocando a já reverenciada ciência, Ele acenava com o estrondoso sinal que seria Sua Ressurreição: "Ele respondeu-lhes: 'Quando vem a tarde, dizeis: 'Haverá bom tempo, porque o céu está avermelhado.' E de manhã: 'Hoje haverá tormenta, porque o céu está de um vermelho sombrio.' Hipócritas! Sabeis distinguir o aspecto do céu e não podeis discernir os sinais dos tempos? Essa raça perversa e adúltera pede um milagre! Mas não lhe será dado outro sinal senão o de Jonas!'" Mt 16,2-4a
    Mas Ele também advertia que nem mesmo Sua Ressurreição levaria empedrados corações à conversão, como revelou na parábola do rico, que vai para o inferno, e do mendigo Lázaro, que vai para o Céu: "O rico disse: 'Rogo-te então, pai, que mandes Lázaro à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos, para testemunhar-lhes, a fim de que não aconteça virem também eles parar neste lugar de tormentos.' Abraão respondeu: 'Eles lá têm Moisés e os Profetas. Ouçam-nos!' O rico replicou: 'Não, pai Abraão. Mas se for a eles algum dos mortos, arrepender-se-ão.' Abraão respondeu-lhe: 'Se não ouvirem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite algum dos mortos.'" Lc 16,27-31
    Por isso, e por mais contraditório que pareça, Ele avisou que provocaria divisões ainda mais sérias: "Não julgueis que vim trazer a Paz à terra. Vim trazer não a Paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa. Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a Mim, não é digno de Mim. Quem ama seu filho mais que a Mim, não é digno de Mim." Mt 10,34-37
    E assim deve ser nossa opção: temos que nos juntar aos que mais sofrem: "Se alguém quiser vir Comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-Me." Mt 16,24
    Pois foi na Cruz que Jesus chegou à Glória: "Respondeu-lhes Jesus: 'É chegada a hora para o Filho do Homem ser glorificado.'" Jo 12,23
    Nela Ele atingiria o ápice de Sua Missão: "E quando Eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a Mim." Jo 12,32
    E isto apesar de a crucificação representar, segundo as próprias Escrituras, o mais terrível castigo: "... porque aquele que é pendurado é um objeto de maldição divina." Dt 21,23b
    Ainda que diante de paradoxos, portanto, não se deve perder a fé e a esperança, nem se deixar levar pela tristeza. O já vasto testemunho dos Santos comprovam que devemos perseverar confiantes no Cristo, mesmo contra todas as probabilidades. Com razão, mesmo que misterioso e 'escrevendo por linhas tortas', Deus é fiel. E apesar de citar grandes adversidades, Jesus garantiu: "Em verdade, em verdade, digo-vos: haveis de lamentar e chorar, mas o mundo há de alegrar-se. E haveis de estar tristes, mas vossa tristeza há de transformar-se em alegria." Jo 16,20
    E essa é a verdadeira alegria, que é fruto do sofrer cristão diante da pecaminosidade desse mundo. São Pedro referia-se assim à Salvação: "É isto que constitui vossa alegria, apesar das passageiras aflições ainda a serem-vos causadas por diversas provações, para que a prova a que é submetida vossa fé (mais preciosa que o ouro perecível, o qual, entretanto, não deixamos de provar ao fogo) redunde para vosso louvor, para vossa honra e para vossa glória, quando Jesus Cristo Se manifestar." 1 Pd 1,6-7
    Ele diz mais: "E até sereis felizes, se padecerdes alguma coisa por causa da justiça! Portanto, não temais suas ameaças e não vos turbeis. Antes em vossos corações santificai Cristo, o Senhor. Estai sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito." 1 Pd 3,14-15
    Pois o Cristo certamente oferecerá a definitiva cura de todos os males àqueles que enfrentarem as tribulações, como foi registrado da visão celestial que teve São João Evangelista: "Já não terão fome, nem sede, nem o sol ou calor algum os abrasará, porque o Cordeiro, que está no meio do trono, será o Seu Pastor e levá-los-á às fontes de Águas Vivas..." Ap 7,15b-16a

    "Jesus Cristo deu-nos Vida por Sua Morte!"