segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Nossa Senhora das Candeias


    Esse título da Mãe de Deus tem sutis variações: Nossa Senhora da Candelária e Nossa Senhora da Luz, ou ainda Nossa Senhora da Apresentação e Nossa Senhora da Purificação. Fora esse último, que diz respeito ao ritual mosaico cumprido pela Santíssima Virgem após o Natal de Jesus, todos são referências a Cristo, Luz do mundo, como o religioso Simeão testemunharia no Templo de Jerusalém, no dia da Apresentação do Menino Jesus. O Evangelho Segundo São Lucas narra: "Agora, Senhor, deixai ir em Paz Vosso servo, segundo Vossa Palavra. Porque meus olhos viram Vossa Salvação que preparastes diante de todos povos, como Luz para iluminar as nações, e para a Glória de Vosso povo de Israel." Lc 2,29-32
    De fato, no Evangelho Segundo São João, Jesus mesmo iria declarar no Templo de Jerusalém: "Eu sou a Luz do mundo. Aquele que Me segue não andará em trevas, mas terá a Luz da Vida." Jo 8,12
    Não foi palavra casual nem nenhuma metáfora, pois tornaria a dizer a Seus Apóstolos ao encaminhar-Se para curar o cego de nascença: "Enquanto estou no mundo, Eu sou a Luz do mundo." Jo 9,5
    E como Seus representantes, logo filhos de Maria, Ele deu-nos idêntica missão, como o Evangelho Segundo São Mateus atesta: "Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha, nem se acende uma luz para a colocar debaixo de um caixote, mas sim para a colocar sobre o candeeiro, a fim de que brilhe para todos que estão em casa. Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem Vosso Pai que está nos Céus." Mt 5,14-16
    Além da Apresentação do Senhor, portanto, nesse dia também celebramos a 'purificação' de Nossa Mãe Celeste, que, assim como Jesus Se deixou batizar mesmo sem precisar, cumpriu as prescrições da Lei, constantes no Livro de Levíticos:

    "O Senhor disse a Moisés:
    - Dize aos israelitas o seguinte: quando uma mulher der à luz um menino, será impura durante sete dias, como nos dias de sua menstruação. No oitavo dia, far-se-á a circuncisão do menino. Ela ainda ficará trinta e três dias no sangue de sua purificação. Não tocará santa coisa alguma, e não irá ao Santuário até que se acabem os dias de sua purificação.
    Se ela der á luz uma menina, será impura durante duas semanas, como nos dias de sua menstruação, e ficará sessenta e seis dias no sangue de sua purificação.
    Cumpridos esses dias, por um filho ou por uma filha, apresentará ao sacerdote, à entrada da Tenda de Reunião, um cordeiro de um ano em holocausto, e um pombinho ou uma rola em sacrifícios pelo pecado. O sacerdote oferecê-los-á ao Senhor, e fará a expiação por ela, que será purificada do fluxo de seu sangue.
    Tal é a Lei relativa à mulher que dá à luz um menino ou uma menina.
    Se suas posses não lhe permitirem trazer um cordeiro, tomará duas rolas ou dois pombinhos, uma para o holocausto e outro para o sacrifício pelo pecado. O sacerdote fará por ela a expiação, e será purificada." 
                                                  Lv 12,1-8

    Foi estritamente como mandava a Lei, pois, que Nossa Senhora e São José cumpriram suas obrigações para com Deus, mesmo sabendo da perseguição de Herodes, que queria matar o Menino Jesus. Sem dúvida, correram grande risco indo de Belém a Jerusalém, onde estava o trono deste sanguinário monarca, para apresentar o Recém-Nascido, Nosso Salvador, no Templo. Ora, São Mateus apontou a religiosidade, e nela o dom da fé e a virtude da fortaleza, do glorioso São José, que foi avisado por seu Anjo da Guarda para fugir com o Menino e Sua Mãe para Egito (cf. Mt 2,13): "José, seu esposo, era justo." Mt 1,19a
    E pelo sacrifício que ofereceram no Templo, porque não quiseram tocar nos presentes dados pelos Reis Magos ao Menino Jesus, muito úteis para a fuga e para os tempos que estiveram em Egito, vê-se a modesta condição em que viviam, apesar do 'berço de ouro' em que nasceu Maria Santíssima e do bem valorizado ofício de São José. O Amado Médico registrou: "Concluídos os dias de sua purificação segundo a Lei de Moisés, levaram-nO a Jerusalém para O apresentar ao Senhor, conforme o que está escrito na Lei do Senhor: 'Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor (Êx 13,2)'. E para oferecerem o sacrifício prescrito pela Lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos." Lc 2,21-24


    É Nossa Senhora das Candeias, pois, que é invocada pelos cegos, como o renomado jesuíta, o Padre Vieira, afirmou: "Perguntai aos cegos para que nasce esta Celestial Menina, di-vos-ão que nasce para (ser a) Senhora da Luz..."


    Quanto à história dessa devoção, remonta os anos de 1400, quando se deu uma aparição de Maria Santíssima na Ilha de Tenerife, no Arquipélago das Canárias, situado à costa oeste do Continente Africano. Foi escrita pelo frei dominicano Alonso de Espinosa, em 1594, e, assim como a Aparição de Guadalupe, relata a Virgem Celeste antecipando-se aos cristãos em encontro dos povos nativos como Grande Embaixatriz da Igreja de Seu Filho.
    Dois pastores aborígenes, levando suas cabras para pernoitar numa caverna do barranco de Chimisay, ao aproximarem-se do penhasco notaram uma estranha resistência do rebanho, que se recusava a entrar. Foi quando sobre a rocha viram uma mulher com uma Criança no braço e uma vela na mão esquerda, que lhes pareceram gente local. Como eram proibidos de falar ou aproximar-se de mulheres, ao gritar e fazer gestos para que ela saísse dali, um deles subitamente não conseguiu mais mover o braço, pois ficara enrijecido. Enraivecido, o outro pastor foi até lá esbravejando, e, como ela não se movia do lugar, tentou estocá-la com a ponta de sua faca, mas acabou ferindo a si mesmo no mesmo lugar onde a tocou.
    Espantados, e como ela não lhes respondia e ninguém mais se atreveu a aproximar-se, os pastores guanches foram a Chinguaro para se aconselhar com Acaymo, chefe e sacerdote de seu povo, que primeiro lá mandou seus conselheiros, mas como ela nada respondia, sugeriu-lhes que os próprios pastores voltassem ao local e respeitosamente convidassem-na para vir a sua presença. Quando retornaram ao local, no entanto, eles tiveram o ímpeto de tocá-la, e foram instantaneamente curados: um teve restituídos os movimentos do braço, o outro viu desaparecer seu corte. Então se perceberam diante de apenas uma imagem, de aproximadamente um metro, e, perplexos, voltaram ao sacerdote. Percebendo o caráter sobrenatural de tudo aquilo, o idoso guanche foi até o penhasco e tentou carregá-la nos braços a seu palácio, porém, como não suportou o peso, pediu ajuda para a acomodar dentro da caverna, onde acabou ficando.
    Tempos depois, Antón Guanche, um jovem aborígene que havia sido escravizado pelos castelhanos, e em viagem de volta a Tenerife conseguira fugir, ao saber dos relatos e ter o primeiro contato com a imagem, logo a reconheceu como de Nossa Senhora.
    Com efeito, pioneiros portugueses e castelhanos haviam chegado a este arquipélago por volta de 1336, quando fizeram contato com os nativos e capturaram alguns para trabalho escravo. Um deles, levado a Espanha no início da adolescência, foi 'alfabetizado' e aceitou a fé cristã, sendo batizado como Antón Guanche.
    Assim os nativos mantiveram a imagem de 'La Morenita' por quase um século na caverna de Achbinico.


    Com o início da colonização, em 1497, logo os espanhóis, que viviam uma fervorosa defesa do Catolicismo (tinham reconquistado a Península Ibérica dos muçulmanos em 1492), tentaram roubar a imagem. Era, no mínimo, intrigante. Tanto a própria imagem como sua história. Mas como os envolvidos na trama foram repentinamente acometidos de uma peste, entendendo-a como um castigo, resolveram devolvê-la.
    E com a definitiva conquista da ilha pelos espanhóis, em 1526 construíram uma capela em sua devoção. Aí, em 1534 nasceria São José de Anchieta, que recebeu o ilustre título de Apóstolo de Brasil. Em 1668, enfim, como sua história e devoção já havia se espalhado pelo mundo cristão, iniciou-se a edificação do primeiro grande santuário, que mais tarde se tornaria a atual Basílica Real da Candelária.
    Na noite de 6 para 7 de novembro de 1826, porém, deu-se uma grande inundação que arrasou o então Castelo de São Pedro, que abrigava a santa imagem, e, depois de minunciosamente revirados os escombros, acreditou-se que ela tenha sido arrastada para o mar, pois de fato desapareceu. Muitas e detalhadas buscas foram feitas em água, mas todas resultaram infrutíferas.
    A imagem que hoje se tem, portanto, é apenas uma cópia. E como muito especial sinal, na imagem o Menino Jesus traz às mãos uma pomba, representando tanto o Santo Espírito, que Seu Filho nos envia (cf. Jo 15,26), como a oferta feita por Nossa Senhora e São José no dia da Apresentação do Senhor, celebrada nesta data.


    Nossa Senhora das Candeias, rogai por nós!