sábado, 21 de julho de 2018

Deus Espírito Santo


    A dificuldade em conceber a Santíssima Trindade é característica das limitações humanas. Porém, para muitos hoje em dia, principalmente para os que abusam da mera razão, renegar esta Revelação é apenas um traço de personalidade: a vontade de ver as coisas por esquemas simplificados, que caibam em qualquer compreensão, ou simplesmente a incapacidade de contemplar as coisas como elas são.
    Os escritores dos sagrados livros, no entanto, inspirados pelo próprio Espírito Santo, não cederam à tentação de enquadrar Deus em simplórios modelos. Seria uma tremenda ingenuidade. Em Sua grandeza, Ele obviamente excede em muito nossa limitada capacidade de compreender e imaginar. São João Evangelista diz: "... Deus é maior que nossa consciência..." 1 Jo 3,20
    Assim, tanto Jesus como o Espírito Santo ainda estão para ser conhecidos até mesmo por muitos religiosos: Deus Filho por Sua humanidade, e Deus Espírito por Sua simplicidade. A variedade de manifestações físicas do Divino Paráclito, por exemplo, demonstra o quanto Ele não faz questão de assumir uma única forma visível para fazer-Se conhecido, antes prima pura e simplesmente por estar presente, mesmo que não seja notado.
    E pelos textos bíblicos é possível aferir Sua divindade, claramente expressa por Sua absoluta autonomia, como disse um dos amigos de Jó: "Foi o Espírito de Deus que me fez, e o sopro do Todo-poderoso que me deu a vida." Jó 33,4
    O livro da Sabedoria, ao discorrer sobre ela mesma, dá características de um ser claramente divino: "Há nela, com efeito, um espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil, móvel, penetrante, puro, claro, inofensivo, inclinado ao bem, agudo, livre, benéfico, benévolo, estável, seguro, livre de inquietação, que tudo pode, que de tudo cuida, que penetra em todos espíritos: os inteligentes, os puros, os mais sutis." Sb 7,22-23
    Por isso, com incomensuráveis poderes e independência, Ele só pode ser Deus. São Tiago Menor cita Seu zelo por nós: "Ou imaginais que em vão diz a Escritura: 'Sois amados até o ciúme pelo Espírito que em vós habita'?" Tg 4,5
    A primeira menção que d'Ele temos na Bíblia está logo nos primeiríssimos versículos, fazendo mesmo lembrar a origem da vida: "No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra estava informe e vazia, as trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus pairava sobre as águas." Gn 1,1-2
    São Paulo tem-nO como único e livre distribuidor dos dons de Deus: "Mas um e o mesmo Espírito distribui todos estes dons, repartindo a cada um como Lhe apraz." 1 Cor 12,11
    Foi Ele Quem estabeleceu Jesus, enquanto ser humano, como Filho de Deus: "... que, segundo o Espírito de Santidade, foi estabelecido Filho de Deus no poder por Sua Ressurreição dos mortos... " Rm 1,4
    E Sua precípua missão, como afirma São João Evangelista, é confirmar Jesus Cristo e Sua Encarnação: "Caríssimos, não deis fé a qualquer espírito, mas examinai se os espíritos são de Deus, porque muitos falsos profetas se levantaram no mundo. Nisto se reconhece o Espírito de Deus: todo espírito que proclama que Jesus Cristo Se encarnou é de Deus; todo espírito que não proclama Jesus, esse não é de Deus, mas é o espírito do Anticristo, de cuja vinda tendes ouvido e agora já está no mundo." 1 Jo 4,1-3
    Ele é o visível sinal, para os verdadeiros cristãos, de nossa Comunhão com Deus: "É nisto que reconhecemos que Ele (Deus) permanece em nós: pelo Espírito que nos deu." 1 Jo 3,24b
    Segundo São Paulo, Ele também comprova nossa divina filiação: "A prova de que sois filhos é que Deus enviou a vossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: 'Aba, Pai!' Portanto já não és escravo, mas filho. E se és filho, então também és herdeiro de Deus." Gl 4,7
    Ele é a marca, portanto, a garantia de Deus que teremos a Vida Eterna: "... fostes selados com o Espírito Santo que fora prometido, que é o penhor de nossa herança... " Ef 1,13-14
    É Ele que nos conduz à santidade: "... santificados pelo Espírito Santo..." Rm 15,16
    Pois só assim, pela purificação que Ele concede aos cristãos, pode-se efetivamente servir ao Salvador, como afirmou São Pedro: "... santificados pelo Espírito para obedecer a Jesus Cristo, e receber sua parte da aspersão do Seu Sangue." 1 Pd 1,2b
    Sem dúvida, foi para esse fim que Jesus O derramou sobre os Sacerdotes de Sua Igreja: "Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.'" Jo 20,22-23
    Vejamos o que mais diz Jesus do Divino Paráclito. Em Sua primeira visita a Jerusalém em vida pública, Ele logo atestou Sua autonomia, que também é conferida a Seus filhos: "O vento sopra onde quer. Ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito." Jo 3,8
    Garantiu, pouco antes de Sua Ascensão, que Ele ungiria os Apóstolos e toda a Igreja no dia do Pentecostes, conforme a profecia: "Assim é que está escrito, e assim era necessário que Cristo padecesse, mas que ressurgisse dos mortos ao terceiro dia. E que em Seu Nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados a todas nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas de tudo isso. Eu mandar-vos-ei o Prometido de Meu Pai. Por isso, permanecei na cidade até que sejais revestidos da força do alto." Lc 24,46-49
    No entanto, Ele não é indiscriminadamente concedido, mas apenas à Igreja: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele dar-vos-á outro Paráclito para que fique eternamente convosco. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber porque não O vê nem O conhece. Mas vós O conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós. Não vos deixarei órfãos." Jo 14,16-18a
    É Ele que ilumina a Igreja para a perfeita interpretação da Revelação, cujo ápice está nas Palavras de Jesus: "Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em Meu Nome, ensinar-vos-á todas as coisas e recordar-vos-á tudo que vos tenho dito." Jo 14,26
    Ele é divino: "... procede do Pai..." Jo 15,26
    E assim como Jesus, que cuida de nossas fraquezas, Ele tem conduzido a Igreja em perfeita Comunhão com a vontade do Pai: "Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas agora não podeis suportá-las. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a Verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão." Jo 16,13


O REINO DO ESPÍRITO DE DEUS

    Para Jesus, de fato, a ação do Espírito Santo inaugura o Reino dos Céus aqui na terra: "Mas se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então para vós chegou o Reino de Deus." Mt 12,28
    Sim, porque segundo o próprio Espírito Santo, só a Nova Aliança abriria as portas do Paraíso novamente, como apontaram os seguidores de São Paulo: "Com isso, o Espírito Santo revelava que o caminho do Santo dos Santos ainda não estava livre, enquanto subsistisse o primeiro tabernáculo. Porém, já veio Cristo, Sumo Sacerdote dos vindouros bens. E através de um mais excelente e mais perfeito Tabernáculo, não construído por mãos humanas (isto é, não deste mundo), sem levar Consigo o sangue de carneiros ou novilhos, mas com Seu próprio Sangue, de uma vez por todas entrou no santuário, adquirindo-nos uma redenção eterna." Hb 9,8.11-12
    Ora, Deus Pai havia prometido uma completa renovação da humanidade, fazendo com que Sua Lei se tornasse praticável. E isto certamente só se deu com a Vinda de Jesus, que preparou os Apóstolos para o Pentecostes. Está nas profecias feitas através de Ezequiel: "Derramarei sobre vós Águas Puras, que vos purificarão de todas vossas impurezas e de todas vossas abominações. Dar-vos-ei um novo coração, e em vós porei um novo espírito; tirar-vos-ei do peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne. Em vós porei Meu Espírito, fazendo com que obedeçais às Minhas Leis e sigais e observeis Meus preceitos." Ez 36,25-27
    São Paulo atestou a enorme diferença entre a Antiga e a Nova Aliança: "A Lei do Espírito de Vida libertou-me, em Jesus Cristo, da Lei do pecado e da morte. O que era impossível à Lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus o fez. Enviando, por causa do pecado, Seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne a fim de que a justiça prescrita pela Lei fosse realizada em nós, que vivemos não segundo a carne, mas segundo o Espírito." Rm 8,2-4
    Fala mesmo de uma nova condição frente ao Antigo Testamento: "Porém, se vos deixais guiar pelo Espírito, não estais sob a Lei." Gl 5,18
    Até acusa de excomunhão quem retrocede: "Já estais separados de Cristo, vós que procurais a justificação pela Lei. Decaístes da Graça." Gl 5,4
    Ele diz da superioridade do Novo Testamento: "Por conseguinte, desprezar estes preceitos é desprezar não a um homem, mas a Deus, que nos deu Seu Santo Espírito." 1 Ts 4,8
    E diz da Glória de Seu ministério: "Ora, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, revestiu-se de tal glória que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos no rosto de Moisés, por causa do resplendor de sua face (embora transitório), quanto mais glorioso não será o Ministério do Espírito?" 2 Cor 3,7-8
    Pois diferente dos tempos de São José do Egito, ou mesmo da Antiga Aliança, desde então Ele tem sido derramado em plenitude, como disse a São Tito: "... pelo Espírito Santo que nos foi concedido em profusão, por meio de Cristo, Nosso Salvador..." Tt 3,5b-6
    Jesus mesmo declarou: "Eu vim para que as ovelhas tenham Vida, e tenham-na em abundância." Jo 10,10b
    De fato, antes d'Ele as unções eram individuais, como o Faraó disse de José: "Poderíamos, disse-lhes ele, encontrar um homem que tenha, tanto como este, o Espírito de Deus?" Gn 41,38
    Raras, parciais: "O Senhor desceu na nuvem e falou a Moisés. Tomou uma parte do Espírito que o animava e pô-la sobre os setenta Anciãos. Apenas repousara o Espírito sobre eles, começaram a profetizar, mas não continuaram." Nm 11,25
    Ou episódicas: "O Espírito do Senhor retirou-Se de Saul, e um mau espírito veio sobre ele, enviado pelo Senhor." 1 Sm 16,14
    Era o caso do Profeta Ezequiel: "Enquanto ela me falava, entrou em mim o Espírito e fez-me ficar de pé. Então ouvi Aquele que me falava. 'Filho do homem', dizia-me, 'envio-te aos israelitas, a essa nação de rebeldes, revoltada contra Mim, a qual, do mesmo modo que seus pais, vem pecando contra Mim até este dia. É a esses filhos de dura cerviz e de insensível coração que te envio, para dizer-lhes: 'Oráculo do Senhor Javé!' Quer te ouçam ou não (pois é uma raça indomável), hão de ficar sabendo que no meio deles há um Profeta!" Ez 2,2-5
    Aliás, de todos Profetas, como diz Neemias do povo de Israel: "Vossa paciência para com eles durou muitos anos. Vós fazíeis-lhes admoestações pela inspiração de Vosso Espírito, que animava Vossos Profetas." Ne 9,30a
    São João Batista, ao testemunhar a unção de Deus sobre Jesus, vai dizer algo parecido ao que São Paulo disse a São Tito: "... porque Ele concede o Espírito sem medidas." Jo 3,34
    Era uma das profecias de Isaías sobre Jesus: "Um Renovo sairá do tronco de Jessé, e um Rebento brotará de suas raízes. Sobre Ele repousará o Espírito do Senhor, Espírito de Sabedoria e de entendimento, Espírito de prudência e de coragem, Espírito de ciência e de temor ao Senhor." Is 11,1-2
    Aliás, Nosso Salvador justificou Sua Paixão exatamente pela necessidade da Vinda do Santo Paráclito: "Entretanto, digo-vos a Verdade: a vós convém que Eu vá! Porque, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós, mas se Eu for, vo-Lo enviarei." Jo 16,7
    E em mais uma prova de Sua absoluta autonomia, colocou nestes termos Sua Missão: "E quando Ele vier, convencerá o mundo a respeito do pecado, da justiça e do Juízo. Convencerá o mundo a respeito do pecado, que consiste em não crer em Mim. Convencê-lo-á a respeito da justiça, porque Eu Me vou para junto de Meu Pai e vós já não Me vereis. Ele convencê-lo-á a respeito do Juízo, que consiste em que o príncipe deste mundo já está julgado e condenado." Jo 16,8-11
    Para mais claramente reverenciar Sua Divina Santidade, Jesus, enquanto mera manifestação humana, portanto passível de incredulidade, afirmou que toleraria insulto, mas não admitiria tal tratamento para com o Espírito de Deus: "Todo aquele que tiver falado contra o Filho do Homem, será perdoado. Se, porém, falar contra o Espírito Santo, não alcançará perdão nem neste século nem no século vindouro. " Mt 12,32
    Com efeito, desde Seu Batismo por São João Batista, era o Santo Paráclito que movia Jesus conforme a vontade do Pai: "Cheio do Espírito Santo, voltou Jesus do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto..." Lc 4,1
    Ele é o autor das divinas revelações, como fez a Simeão, que viu Jesus ser apresentado no Templo de Jerusalém: "Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que não morreria sem primeiro ver o Cristo do Senhor." Lc 2,26
    É Ele que unge Jesus ao iniciar Sua vida pública, também conforme as profecias de Isaías: "O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu. E enviou-Me para anunciar o Evangelho aos pobres, para sarar os contritos de coração..." Lc 4,18
    É Ele Quem alegra Jesus: "... Jesus exultou de alegria no Espírito Santo..." Lc 10,21
    É Ele que nos inspira, como garantiu Jesus: "... o Espírito Santo vos inspirará naquela hora o que deveis dizer." Lc 12,12
    É Ele que nos dá Sabedoria, como dialoga o autor sagrado com Deus: "E quem conhece Vossas intenções, se Vós não lhe dais a Sabedoria, e se do mais alto dos Céus Vós não lhe enviais Vosso Espírito Santo?" Sb 9,17
    Ele é a Água Viva, como aludiu Jesus: "Quem crê em Mim, como diz a Escritura: 'Do seu interior manarão rios de Água Viva.' Dizia isso, referindo-Se ao Espírito que haviam de receber aqueles que n'Ele cressem, pois ainda não fora dado o Espírito..." Jo 7,39
    Ele é o maior presente que Deus Pai tem para oferecer-nos, ainda segundo Jesus: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Vosso Pai Celestial dará o Espírito Santo aos que LhO pedirem." Lc 11,13
    São Pedro confirma o dom de Deus que Ele representa, mas o condiciona ao Sacramento da Confissão: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em Nome de Jesus Cristo para remissão de vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo." At 2,38
    Por isso, ao testemunhar Jesus como o Salvador perante o Sinédrio, ele explica quem O recebe: "Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem." At 5,32
    A própria Encarnação do Cristo é obra Sua, pois Maria "... concebeu por virtude do Espírito Santo." Mt 1,18
    E para instruir os Apóstolos, Jesus contava com Sua imprescindível ajuda, como atestou São Lucas: "... depois de ter dado pelo Espírito Santo Suas instruções aos Apóstolos que escolhera..." At 1,2
    São Paulo reafirmou-o: "Lendo-me, podereis entender a compreensão que me foi concedida do Mistério de Cristo, que em outras gerações não foi manifestado aos homens da maneira como agora tem sido revelado pelo Espírito aos Seus santos Apóstolos e profetas." Ef 3,4-5


É O ESPÍRITO SANTO QUE INSPIRA A IGREJA

    No Pentecostes, ao descer sobre a Igreja, Ele tocou profundamente o coração dos fiéis e deu-lhes o dom de falar em outros idiomas, para ajudar na difusão do Evangelho: "Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem." At 2,4
    Como visto, esta era uma profecia sobre os tempos que se seguiam ao Sacrifício de Cristo, e que faria com que muitos judeus se arrependessem de tê-Lo crucificado. Deus falou através do Profeta Zacarias: "Derramarei um espírito de Graça e oração sobre a casa de Davi e sobre os moradores de Jerusalém, e eles olharão para Mim. Quanto Àquele que transpassaram, chorarão por Ele como se chora pelo filho único. Vão chorá-Lo amargamente, como se chora por um primogênito." Zc 12,10
    São Pedro é quem nos dá uma expressa indicação da Divindade do Espírito Santo. Ao repreender Ananias, o Príncipe dos Apóstolos diz que ele não mentiu a um homem da Igreja, mas ao Espírito Santo, ou seja, mentiu a Deus: "Pedro, porém, disse: 'Ananias, por que Satanás tomou conta de teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo e enganasses acerca do valor do campo? Não foi aos homens que mentiste, mas a Deus.'" At 5,3-4
    No mesmo sentido, antes de ser apedrejado, Santo Estevão não reclama dos judeus por resistirem propriamente a Deus, mas ao Santo Espírito: "Homens de dura cerviz, e de incircuncisos corações e ouvidos! Vós sempre resistis ao Espírito Santo." At 7,51
    É pois o Divino Espírito Santo Quem fala à verdadeira Igreja de Cristo: "Enquanto celebravam o culto do Senhor, depois de terem jejuado, disse-lhes o Espírito Santo: 'Separai-Me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho destinado.'" At 13,2
    É Ele Quem decide com os Sacerdotes da Igreja os mais importantes assuntos, como aconteceu em Jerusalém, no Primeiro Concílio. Sobre a decisão que tomaram, São Tiago Menor ditou na carta à igreja de Antioquia: "Com efeito, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor outro peso além do indispensável seguinte..." At 15,28
    Ele constitui os bispos, como diz São Paulo àqueles que eram Anciãos de Éfeso: "Cuidai de vós mesmos e de todo rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastorear a Igreja de Deus..." At 20,28
    É Ele Quem fala pelos Profetas, como o Apóstolo dos Gentios comenta sobre os judeus de Roma: "... Bem falou o Espírito Santo pelo Profeta Isaías a vossos pais..." At 28,25
    Foi Ele Quem inspirou as Escrituras, segundo São Pedro: "Antes de tudo, sabei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação pessoal. Porque jamais uma profecia foi proferida por efeito de uma vontade humana. Homens inspirados pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus." 2 Pd 1,21
    É Ele Quem nos dá o dom de amar, como afirma São Paulo aos romanos: "Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado." Rm 5,5
    É Ele que nos permite pressentir o Reino de Deus: "O Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, Paz e gozo no Espírito Santo." Rm 14,17
    É Ele que dá vida a nossa esperança: "... para que, pela virtude do Espírito Santo, transbordeis de esperança!" Rm 15,13
    É Quem nos concede a verdadeira alegria, como escreve aos tessalonicenses: "E vós fizestes-vos imitadores nossos e do Senhor, ao receberdes a Palavra, apesar das muitas tribulações, com a alegria do Espírito Santo." 1 Ts 1,6
    É Ele que nos faz assimilar a Palavra da Salvação, como o Pai prometeu pelos Provérbios: "Convertei-vos às Minhas admoestações, espalharei sobre vós Meu Espírito, ensinar-vos-ei Minhas Palavras." Pr 1,23
    É Ele Quem nos auxilia em nossas orações e intercede por nós, ainda segundo São Paulo: "Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza. Porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com inefáveis gemidos." Rm 8,26
    Segundo São Judas Tadeu, só através d'Ele podemos rezar propriamente: "Orai no Espírito Santo." Jd 1,20
    É Ele que nos batiza, como disse São Paulo a São Tito: "... mediante o Batismo da regeneração e renovação, pelo Espírito Santo..." Tt 3,5
    Ele é que nos concede, como vimos, a Comunhão com Deus. Diz São Paulo aos coríntios: "... a Comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!" 2 Cor 13,13
    E essa Comunhão é realmente perfeita: "Mas quem se une ao Senhor, com Ele torna-se um só Espírito." 1 Cor 6,17
    Pois só por Ele é-nos concedido celebrar a Santa Missa. Está na Carta aos Filipenses: "Porque os verdadeiros circuncisos somos nós, que prestamos culto a Deus pelo Espírito de Deus, e pomos nossa glória em Jesus Cristo, e não confiamos na carne." Fl 3,3
    Quando pecamos, portanto, é primeiro a Ele que entristecemos, e por isso São Paulo pede aos efésios: "Não contristeis o Espírito Santo de Deus..." Ef 4,30
    E o salmista sabia que, assim como Deus O concede também pode retirá-Lo: "Ó Deus, cria em mim um puro coração, e renova em meu peito um firme espírito. Não me rejeites para longe de Tua face, não retires de mim Teu Santo Espírito." Sl 50,12-13
    Mas, por Sua Onipresença e Misericórdia, o Santo Espírito não Se afasta totalmente de nós. Diz o livro da Sabedoria: "Mas poupais todos seres porque todos são vossos, ó Senhor, que amais a Vida. Vosso Espírito Incorruptível está em todos." Sb 11,26;12,1
    Quando a Palavra do Evangelho abrasa nosso coração, porém, é sinal de Sua forte presença, como afirma São Paulo: "Nosso Evangelho foi-vos pregado não somente por palavra, mas também com poder, com o Espírito Santo..." 1 Ts 1,5
    Contudo, pelo livre arbítrio, Deus deu-nos o terrível poder de aniquilá-Lo em nossos corações. O último Apóstolo adverte com todas as letras: "Não extingais o Espírito." 1 Ts 5,19
    Ele ensina: "Ora, o Senhor é o Espírito..." 2 Cor 3,17
    De fato, Jesus havia dito: "Deus é Espírito, e Seus adoradores devem adorá-Lo em espírito e Verdade." Jo 4,24
    E sendo Deus, só Ele pode fazer-nos perceber que Jesus é Deus. São Paulo sentencia: "... ninguém pode dizer: 'Jesus é o Senhor', senão sob a ação do Espírito Santo." 1 Cor 12,3

    "O Espírito nos una num só Corpo!"

sexta-feira, 20 de julho de 2018

O Céu


    Do que ouvimos falar do Céu, espontaneamente e por comparações buscamos imaginar como ele é. Mas o que a Bíblia nos diz? Jesus fez várias e frequentes menções ao Reino de Deus. Então, o que temos de fato?
    A definitiva e celestial morada, que o Pai amorosamente nos oferece, foi revelada a São João Evangelista: "Vi, então, um novo céu e uma nova Terra... Eu vi descer do Céu, de junto de Deus, a Cidade Santa, a Nova Jerusalém... Eis aqui o Tabernáculo de Deus com os homens. Habitará com eles e serão Seu povo, e Deus mesmo estará com eles." Ap 21,1a.2a.3b
    Antes disso, porém, ele teve grandiosas visões, como a do próprio Jesus em Sua condição divina: "Num domingo, fui arrebatado em êxtase, e por trás de mim ouvi uma voz forte como de trombeta, que dizia: 'O que vês, escreve-o num livro...' Voltei-me para saber que voz falava comigo. Tendo-me voltado, vi sete candelabros de ouro e, no meio dos candelabros, alguém semelhante ao Filho do Homem, vestindo longa túnica até os pés, cingido o peito por um cinto de ouro. Tinha Ele cabeça e cabelos brancos como lã cor de neve. Seus olhos eram como chamas de fogo. Seus pés pareciam-se ao bronze fino incandescido na fornalha. Sua voz era como o ruído de muitas águas. Segurava na Mão direita sete estrelas. De Sua boca saía uma afiada espada, de dois gumes. Seu rosto assemelhava-se ao sol, quando brilha com toda força. Ao vê-Lo, caí como morto a Seus pés. Ele, porém, pôs sobre mim Sua Mão direita e disse: 'Não temas! EU SOU o Primeiro e o Último, e Aquele que vive. Pois estive morto, e eis-Me de novo vivo pelos séculos dos séculos. Tenho as chaves da morte e da região dos mortos.'"Ap 1,10-11a.12-18
    São João ainda viu uma infinitude de anjos, que reverenciavam o Salvador: "Na minha visão também ouvi, ao redor do trono, dos Seres e dos Anciãos, a voz de muitos anjos, em número de miríades de miríades, e de milhares de milhares, bradando em alta voz: 'Digno é o Cordeiro Imolado de receber o poder, a riqueza, a Sabedoria, a força, a Glória, a honra e o louvor.'" Ap 5,11-12
    Assim como milhares de Santos: "Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua. Conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão, e bradavam em alta voz: 'A Salvação é obra de Nosso Deus, que está assentado no trono, e do Cordeiro.' E todos anjos estavam ao redor do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres. Prostravam-se de face em terra diante do trono e adoravam a Deus, dizendo: 'Amém, louvor, Glória, Sabedoria, ação de graças, honra, poder e força ao Nosso Deus pelos séculos dos séculos! Amém.'" Ap 15,9-12
    Ouviu a intercessão dos Santos mártires, mas foi informado que outros tantos ainda haveriam de ser sacrificados: "Quando abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos homens imolados por causa da Palavra de Deus, e por causa do testemunho de que eram depositários. E clamavam em alta voz, dizendo: 'Até quando Tu, que és o Senhor, o Santo, o Verdadeiro, ficarás sem fazer justiça e sem vingar nosso sangue contra os habitantes da terra?' Então foi dada a cada um deles uma veste branca, e foi-lhes dito que aguardassem ainda um pouco, até que se completasse o número dos companheiros de serviço e irmãos que com eles estavam para ser mortos." Ap 6,9-11
    Porque antes da Ressurreição da Carne, ou seja, antes do Juízo Final, que são os tempos que vivemos, lá os Santos estão apenas enquanto almas: "Também vi tronos, sobre os quais se assentaram aqueles que receberam o poder de julgar: eram as almas dos que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, e todos aqueles que não tinham adorado a Fera ou sua imagem, que não tinham recebido seu sinal na fronte nem nas mãos. Eles viveram uma Nova Vida, e reinaram com Cristo por mil anos. Os outros mortos não tornaram à vida até que se completassem os mil anos. Esta é a primeira ressurreição. Feliz e Santo é aquele que toma parte na primeira ressurreição! Sobre eles a segunda morte não tem poder, mas serão Sacerdotes de Deus e de Cristo: com Ele reinarão durante os mil anos. Depois de completarem-se mil anos, Satanás será solto da prisão." Ap 20,4-7
    Enfim, ele viu a preparação para os tempos finais: "Eu vi no Céu outro grande e maravilhoso sinal: havia sete anjos prontos com sete pragas. Estas eram as últimas pragas, pois com elas o furor de Deus ficará consumado. Também vi como que um mar de vidro misturado com fogo. Sobre esse mar, estavam de pé todos aqueles que venceram a Besta, a imagem dela e o número do nome da Besta. Os vencedores seguravam as harpas de Deus e entoavam o cântico de Moisés, o servo de Deus, e o cântico do Cordeiro: "Grandes e maravilhosas são Tuas obras, Senhor Deus Todo-poderoso! Teus caminhos são justos e verdadeiros, Rei das nações!" Ap 15,1-3
    Na definitiva morada, porém, não se verá nenhum tipo de sofrimento, pois o Próprio Deus... "Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição." Ap 21,4
    A própria condição física da carne após a Ressurreição, ou seja, dos corpos incorruptíveis, será outra: "Já não terão fome, nem sede, nem o sol ou calor algum os abrasará, porque o Cordeiro, que está no meio do trono, será Seu Pastor e levá-los-á às fontes de Águas Vivas..." Ap 7,15b-16a
    Por isso, São Pedro suspirava: "Nós, porém, segundo Sua promessa, aguardamos novos Céus e uma nova Terra, nos quais habitará a justiça." 2 Pd 3,13
    Segundo o próprio Jesus, no entanto, o Céu não está fisicamente distantes de nós, em algum confim do Universo como se imagina. Ao contrário: está à nossa volta, e o que dele nos distancia é tão somente o pecado. A um escriba, que no amor a Deus via a verdadeira Salvação, Ele disse: "Não estás longe do Reino de Deus." Mc 12,34
    Não por acaso, foram nestes termos Sua primeiras pregações: "Desde então, Jesus começou a pregar: 'Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo.'" Mt 4,17
    Ele já havia prometido aos primeiros Apóstolos a realização do sonho de Jacó, uma escada entre o Céu e a terra, logo após Seu Batismo por São João: "E ajuntou: Em verdade, em verdade, digo-vos: vereis o Céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem." Jo 1,51
    A Vinda do Cristo, portanto, já representou a efetiva abertura a essa outra 'dimensão', ou seja, o estabelecimento na Terra, ainda que invisível, do Reino Celestial. Ele mesmo noticiou: "Mas se expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente é chegado a vós o Reino dos Céus." Lc 11,20
    Ora, Ele avisou que essa 'outra' realidade é sutil: "O Reino de Deus não virá de um modo ostensivo. Nem se dirá: 'Ei-lo aqui.' Ou: Ei-lo ali.' Pois o Reino de Deus já está no meio de vós." Lc 17,20-21
    Também disse: "Deus é espírito..." Jo 4,24
    E assim acontece com Sua própria presença na Igreja, como Ele prometeu: "Porque onde dois ou três estão reunidos em Meu Nome, aí estou Eu no meio deles." Mt 18,20
    Bem como a do Espírito Santo: "É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece. Mas vós O conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós." Jo 14,17
    E a do Pai. Todos pela Onipresença da Santíssima Trindade: "Respondeu-lhe Jesus: 'Se alguém Me ama, guardará Minha Palavra e Meu Pai amá-lo-á. E Nós viremos a ele e nele faremos Nossa morada." Jo 14,23
    Por isso, os seguidores de São Paulo agem como participantes desse Reino, na certeza de já estarmos vivendo essa irreversível realidade: "Já que recebemos um inabalável Reino, conservemos bem essa Graça." Hb 12,28
    E exortam a seguirmos ouvindo Jesus com naturalidade, agora como antes, pois dos Céus Ele continua falando à Sua Igreja: "Guardai-vos, pois, de recusar ouvir Aquele que fala. Porque, se não escaparam do castigo aqueles que d'Ele se desviaram, quando lhes falava na terra, muito menos escaparemos nós se O repelirmos quando nos fala desde o Céu." Hb 12,25
    De fato, isso se dá tal e qual Ele prometeu pouco antes de Sua Ascensão: "Ensinai-as a observar tudo que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo." Mt 28,20
    Sem dúvida, como Jesus demonstrou ter na Mão direita as 'sete igrejas', São João registrou sete vezes no Livro do Apocalipse esta frase dita por Ele: "Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas..." Ap 2,7
    Pois é o Espírito Santo que arremata a Revelação e conduz a Igreja, como o próprio Jesus afirmou: "Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não podeis suportá-las agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a Verdade. Porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir e anunciar-vos-á as coisas que virão." Jo 16,12-13
    No mesmo sentido, porém, São Paulo avisa da presença e proximidade de poderosas forças do Mal, que conosco 'aqui' concorrem, nesse mesmo 'espaço': "Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste tenebroso mundo, contra as forças espirituais do Mal espalhadas nos ares." Ef 6,12
    Com efeito, ao falar de tudo que foi criado por Deus, ou seja, de Jesus como modelo e medida de todas as coisas, inclusive das 'forças' que se rebelaram contra o Criador, o último Apóstolo, após citar a matéria inanimada que compõe o Universo, acrescenta apenas os seres visíveis e invisíveis: "N'Ele foram criadas todas as coisas nos Céus e na terra, as criaturas visíveis e as invisíveis." Cl 1,16a
    E não somente a , segundo ele, mas também a razão permite-nos vislumbrar essa 'dimensão' além do alcance dos olhos: "Desde a Criação do mundo, as invisíveis perfeições de Deus, Seu sempiterno poder e divindade tornam-se visíveis à inteligência, por Suas obras..." Rm 1,20a
    Na verdade, os Céus apenas ainda não foram plenamente apresentados aos que se encontram neste mundo. São Paulo partilha o que lhe foi inspirado quanto à Vida Eterna: "Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a futura Glória, que deve ser-nos manifestada." Rm 8,18
    De fato, como Deus já havia prometido, essa será uma completa renovação, propriamente a 'Recriação': "Eis que Eu renovo todas as coisas." Ap 21,5
    É quando conheceremos a perfeição em sua totalidade, como disse São Pedro: "... uma herança incorruptível, incontaminável e imarcescível, reservada para vós nos Céus..." 1 Pd 1,4
    Essa renovação começou com a ostensiva vinda do Espírito Santo, no Pentecostes, no momento da fundação da Igreja, que é um pedaço do Céu entre nós. O salmista previu: "Se enviais, porém, Vosso Espírito, eles revivem e renovais a face da terra." Sl 103,30
    Notemos, entretanto, que não será tudo absolutamente novo, mas renovado. Essa é a importância da Criação, da vida atual, da qual a Nova Vida será uma continuidade. Com efeito, aqui já temos muitas coisas divinas, em estado de perfeição. Portanto, como disse Jesus, teremos no Céu coisas 'novas e velhas': "Por isso, todo escriba instruído nas coisas do Reino dos Céus é comparado a um pai de família, que de seu tesouro tira coisas novas e velhas." Mt 13,52
    Mas mesmo em Comunhão com Deus, nosso corpo passará por uma grande transformação para entrar na Nova Pátria, como afirmou São Paulo: "Nós, porém, somos cidadãos dos Céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante a Seu Corpo Glorioso..." Fl 3,20-21
    E ele aponta a mortificação da carne como inalienável caminho para essa transformação: "Se fomos feitos o mesmo ser com Ele, por uma morte semelhante à Sua, sê-lo-emos igualmente por uma comum Ressurreição." Rm 6,5
    São João Evangelista também fala dessa transformação, e de uma relação de iguais entre nós e Deus. É quando, uma vez que foi mantida a imagem, voltaremos a ter Sua semelhança, que perdemos pelo pecado: "Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto O veremos como Ele é." 1 Jo 3,2
    No mesmo sentido, São Paulo exorta: "Vós despistes-vos do velho homem com seus vícios, e revestistes-vos do novo, que constantemente vai restaurando-se à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento." Cl 3,9b-10
    Ele assim 'explicou' essa transformação: "Quando este corpo corruptível estiver revestido da incorruptibilidade, ou seja, quando este corpo mortal estiver revestido da imortalidade, então se cumprirá a Palavra da Escritura: 'A morte foi tragada pela vitória' (Is 25,8). 'Onde está, ó morte, tua vitória? Onde está, ó morte, teu aguilhão (Os 13,14)?'" 1 Cor 15,54-55
    E assim como São João Evangelista, ele falou da Visão Beatífica, do conhecimento e da intimidade que teremos com Deus: "Hoje vemos como por um espelho, confusamente, mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte, mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido." 1 Cor 13,12
    Mas, traçando um paralelo entre Adão e Jesus, alertou que tal tarefa começa ainda neste mundo: "O primeiro homem, tirado da terra, é terreno; o Segundo veio do Céu. Qual o homem terreno, tais os homens terrenos; e qual o Homem Celestial, tais os homens celestiais. Assim como em nós reproduzimos as feições do homem terreno, precisamos reproduzir as feições do Homem Celestial." 1 Cor 15,47-49


O CORPO GLORIOSO

    Tal e qual a visão que São João teve de Jesus nos Céus, esse corpo glorioso, que Deus nos oferece, foi apresentado pelo próprio Cristo bem antes de Sua morte, quando Se transfigurou no Monte Tabor. Os relatos são de um radiante corpo: "... transfigurou-Se diante deles. Suas vestes tornaram-se resplandecentes, e de uma tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra pode fazê-las assim tão brancas." Mc 9,3
    Foi exatamente isso que aconteceu com o corpo de Nossa Senhora, ao chegar ao Céu. São João Evangelista narrou esse evento: "Em seguida, apareceu um grande sinal no Céu: uma Mulher revestida do sol, tendo a lua debaixo de seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas." Ap 12,1
    Algo parecido já havia ocorrido a Moisés, mas não de corpo inteiro, como à Nossa Mãe. Nele a transfiguração foi apenas em seu rosto: "Moisés desceu do monte Sinai, tendo nas mãos as duas Tábuas da Lei. Descendo do monte, Moisés não sabia que a pele de seu rosto se tornara brilhante, durante sua conversa com o Senhor. E, tendo-o visto Aarão e todos os israelitas, notaram que a pele de seu rosto se tornara brilhante e não ousaram dele aproximar-se." Ex 34,29-30
    Em corpo glorioso, pois, Jesus materializava-Se em qualquer lugar, atravessando paredes: "Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-Se no meio deles e disse: 'A Paz esteja convosco!'" Jo 20,26
    Referindo-Se aos próprios Céus, Ele prometeu esse livre trânsito aos Santos: "EU SOU a Porta! Se alguém entrar por Mim será salvo. Tanto entrará como sairá..." Jo 10,9a
    Assim como a transformação física: "Então, no Reino de Seu Pai, os justos resplandecerão como o sol." Mt 13,43
    E apontou a Si mesmo como fonte de toda resplandecência: "EU SOU a Luz do mundo! Aquele que Me segue não andará em trevas, mas terá a Luz da Vida." Jo 8,12
    Aliás, como o Pai, que será a própria Luz da Jerusalém celestial: "Já não haverá noite, nem se precisará da luz de lâmpada ou do sol, porque o Senhor Deus a iluminará..." Ap 22,5
    Afirmativamente, todas essas promessas nos remetem à Vida Eterna, como disse Jesus: "Eu vim para que as ovelhas tenham Vida, e para que a tenham em abundância." Jo 10,10
    Remetem ao esplendor da Vida: "... Glória, honra e Paz a todo aquele que pratica o bem..." Rm 2,10
    Por isso, Jesus anunciou a verdadeira Vida: "EU SOU a Ressurreição e a Vida." Jo 11,25
    E assim cumpriu Sua Missão, como disse São paulo a São Timóteo: "... suscitou a Vida e a imortalidade pelo Evangelho... " 2 Tm 1,10
    Jesus também comparou o Céu a uma grande festa: "O Reino dos Céus é comparado a um rei que celebrava as bodas de seu filho." Mt 22,2
    E prometeu-nos um banquete: "Em verdade, digo-vos: já não beberei do fruto da videira, até aquele dia em que o beberei de novo no Reino de Deus." Mc 14,25
    Aliás, um grandioso banquete como festa de casamento, segundo o anjo que falava a São João Evangelista: "Felizes os convidados para a ceia das núpcias do Cordeiro." Ap 19,9
    Ora, Jesus havia dito abertamente para que veio: "... para que vossa alegria seja perfeita." Jo 16,24
    E pediu expressamente ao Pai pela Igreja: "... para que eles tenham a plenitude de Minha alegria." Jo 17,13
    Mais propriamente, afirmou que teríamos uma vida de angelical pureza: "Na Ressurreição dos mortos... serão como os anjos nos Céus." Mc 12,25


FRUTOS DO REINO DOS CÉUS

    Para tanto, Nosso Salvador recomendou que acreditássemos e empenhássemos por uma vida em pleno compromisso com Deus: "Antes buscai o Reino de Deus e Sua justiça..." Mt 6,33
    De fato, Deus já concede experimentarmos os primeiros frutos desse Reino aqui na Terra, mas, por causa de uma verdadeira idolatria aos prazeres fugazes, ainda temos um difícil caminho. Diz São Paulo: "... nós, que temos as primícias do Espírito, gememos em nós mesmos, aguardando a adoção, a redenção do nosso corpo." Rm 8,23
    Essas primícias, contudo, em nada se confundem com os frutos do reino da injustiça: "O Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, Paz e gozo no Espírito Santo." Rm 14,17
    Pois os frutos do Reino de Deus são inigualáveis, como assegura Jesus: "Ao vencedor darei de comer do fruto da árvore da Vida, que se acha no Paraíso de Deus." Ap 2,7
    Esses frutos são representados com perfeição pelo Pão do Céu, e por uma nova e especial identidade: "Ao vencedor darei o maná escondido e entregar-lhe-ei uma pedra branca, na qual está escrito um nome novo que ninguém conhece, senão aquele que o receber." Ap 2,17
    São promessas de uma vida de Glória: "Sê fiel até a morte e dar-te-ei a Coroa da Vida." Ap 2,10
    Com efeito, Jesus promete um poder que vai vigorar ainda neste mundo, logo após nossa morte, como já é dado aos Santos: "Então ao vencedor, ao que praticar Minhas obras até o fim, dar-lhe-ei poder sobre as nações pagãs." Ap 2,26
    Poder esse que se fará representar na singela forma de vestes de pureza e santidade: "O vencedor será assim revestido de vestes brancas. Jamais apagarei seu nome do livro da Vida, e proclamar-lo-ei diante de Meu Pai e de Seus anjos." Ap 3,5
    Ele promete-nos igualmente uma função e um lugar especial: "Farei do vencedor uma coluna no Templo de Meu Deus, de onde jamais sairá, e escreverei sobre ele o Nome de Meu Deus..." Ap 3,12
    Promete, aliás, o inimaginável: "Ao vencedor concederei assentar-se comigo em Meu trono, assim como Eu venci e sentei com Meu Pai em Seu trono." Ap 3,21
    E completa: "O vencedor herdará tudo isso. E Eu serei Seu Deus, e ele será Meu filho." Ap 21,6-7
    Isso já havia sido prometido através do salmista, quando ele diz a Maria de seus filhos, os Santos: "Vosso trono, ó Deus, é eterno. De equidade é Vosso cetro real. ... posta-se à Vossa direita a Rainha, ornada de ouro de Ofir. Ouve, filha, vê e presta atenção: esquece teu povo e a casa de teu pai. De tua beleza encantar-Se-á o Rei. Ele é Teu Senhor, rende-Lhe homenagens. Tomarão teus filhos o lugar de teus pais, tu estabelecê-lo-ás príncipes sobre toda a terra. Celebrarei teu nome através das gerações. E os povos eternamente louvar-te-ão." Sl 44,7.10b-12.17-18
    No livro do Gênesis também temos algumas imagens do Céu. Ainda no Paraíso, Deus havia dado a Adão e Eva poder para dominar sobre tudo na terra: "Dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos animais que se movem pelo chão." Gn 1,28
    Lá não havia dor nem sofrimento, que só vieram ao mundo após o pecado, como foi dito a Eva: "Multiplicarei os sofrimentos de teu parto. Darás à luz com dores, teus desejos impelir-te-ão para teu marido e tu estarás sob seu domínio." Gn 3,16
    Também não havia trabalhos penosos, como foi dito a Adão: "... maldita seja a terra por tua causa. Dela com penosos trabalhos tirarás teu sustento todos dias de tua vida. Comerás teu pão com o suor de teu rosto..." Gn 3,17-19
    De fato, Adão e Eva foram criados para a eternidade, entretanto, pela desobediência, sobreveio-lhes a morte. Deus havia avisado: "Podes comer do fruto de todas árvores do jardim, mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal. Porque no dia em que dele comeres, indubitavelmente morrerás." Gn 2,16-17
    São Paulo apontou: "... por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte..." Rm 5,12
    Mas concluiu: "Assim como o pecado reinou para a morte, pela justiça também reina a Graça para a Vida Eterna, por meio de Jesus Cristo, Nosso Senhor." Rm 5,21


UMA VISÃO DO CÉU

    Uma das mais impressionantes imagens do Reino de Deus, porém, está mesmo no livro do Profeta Isaías. Descrevendo como será o novo Céu e a nova Terra, ele registrou essa singela promessa de Deus:

"Então o lobo vai morar ao lado cordeiro,
e o leopardo vai dormir perto do cabrito.
O bezerro e o leãozinho andarão juntos,
e um menino pequeno conduzi-los-á.
A vaca e a ursa serão companheiras,
suas crias vão dormir juntas,
e o leão vai comer palha como o boi.
A criança de colo vai brincar perto do covil da serpente,
a criança pequena vai colocar a mão no antro da víbora.
'Ninguém causará mal nem dano nenhum
em todo Meu Santo Monte',
porque a terra estará cheia da Sabedoria de Deus,
assim como as águas enchem os mares." Is 11,6-9

    E falando através do profeta Oseias, Deus promete infinita Paz a Seu povo: "Farei para eles, naquele Dia, uma aliança com os animais selvagens, as aves do céu e os répteis da terra. Farei desaparecer da terra o arco, a espada e a guerra, e em segurança fá-los-ei repousar." Os 2,20

    "Enviai, Senhor, Vosso Espírito, e renovareis a face da terra." Sl 103,30

quinta-feira, 19 de julho de 2018

A Castidade


    Deus deu ao ser humano a capacidade de amar verdadeiramente, e isso significa agir com gratuidade, generosidade e pureza de intenções. Esse amor vem da perfeita Comunhão com Ele, a qual São Paulo garantiu aos coríntios: "... quem se une ao Senhor, com Ele torna-se um só Espírito." 1 Cor 6,17
    Essa Comunhão permite-nos dispor dos dons de Espírito Santo para colaborar na construção do Reino dos Céus, como escreve este Apóstolos aos romanos: "... pois todos que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus." Rm 8,14
    E a castidade é um dos sinais desse amor maior, reflexo da temperança, um dos frutos do Divino Espírito como ele afirmou aos gálatas: "... o fruto do Espírito é caridade, alegria, Paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança." Gl 5,22-23
    O Catecismo da Igreja Católica ensina: "A virtude da castidade é comandada pela virtude cardeal da temperança, que tem em vista impregnar de razão as paixões e os apetites da sensibilidade humana." CIC 2341
    Nos tempos atuais, quando ondas de massificação cultural e a crise da representatividade política praticamente anulam o valor do indivíduo, é corriqueiro constatar mais e mais pessoas adotando egoísticos e rebeldes modos de autoafirmação, muitas vezes usando de perversão e escândalos tão somente para impor-se ou chamar a atenção. E a vida sexual, eleita como ópio da animalidade para disfunções, na verdade, emocionais, apresenta-se como principal tentativa de escape ou artifício de agressão. O resultado, entretanto, são pessoas violando brutalmente sua própria intimidade, sua sanidade mental, suas relações sociais e, o que é ainda mais caro, sua espiritualidade. Diz também o Catecismo: "A sexualidade afeta todos aspectos da pessoa humana, em sua unidade de corpo e alma. Diz particularmente respeito à afetividade, à capacidade de amar e de procriar e, de mais geral maneira, à aptidão a criar vínculos de Comunhão com os outros." CIC 2332
    Como poderíamos, então, estar em paz com nossa própria natureza sem estar Comunhão com Deus, Nosso Criador? Jesus oportunamente fez-nos lembrar nossa condição de filhos de Deus: "Portanto, sede perfeitos, assim como Vosso Pai celeste é perfeito." Mt 5,48
    Referindo-Se à Sua Encarnação e à Crucificação, Ele estabeleceu um novo parâmetro para o amor que devemos viver: o amor com que Ele nos amou: "Eu dou-vos um novo Mandamento: amai-vos uns aos outros. Como Eu vos amei, assim também deveis amar-vos uns aos outros." Jo 13,34
    E por Seu evidente apreço pela castidade, Deus não Se permitiu violar a virgindade de Maria nem mesmo ao gerar Seu Filho. E se Ele a preservou antes do parto, por que não a preservaria durante e depois dele? Não teria poder para tanto? Dizia a profecia de Isaías: "Por isso, o próprio Senhor dar-vos-á um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um Filho, e chamá-Lo-á Deus Conosco." Is 7,14


A ESCRAVIDÃO DO PECADO

    Tendo esse amor como meta, portanto, e a despeito das dificuldades que nos afligem, resta claro que precisamos compor nossa personalidade com atributos dignos de Deus, entre eles a castidade. Como estar em Comunhão com Deus se somos tomados por perniciosos impulsos e paixões que nos submetem e escravizam? A compulsão carnal, é patente, animaliza e entristece o ser humano. A castidade, porém, é liberdade, e Jesus veio exatamente para libertar-nos do pecado. Ele afirmou: "... todo aquele que comete o pecado é escravo do pecado. Pois, se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres." Jo 8,34.36
    São Paulo, no mesmo sentido, convida-nos a passar da escravidão à caridade espiritual, que se expressa quando oferecemos nossa alma purificada aos que estão à volta, sem as máculas ou deformidades de tão vis pecados: "Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não abuseis, porém, da liberdade como pretexto para prazeres carnais. Pelo contrário, fazei-vos servos uns dos outros pela caridade..." Gl 5,13
    Ele assim celebrou a Nova Aliança, pela infusão do Espírito de Deus no Pentecostes: "A Lei do Espírito de Vida libertou-me, em Jesus Cristo, da lei do pecado e da morte. O que era impossível à Lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus o fez. Enviando, por causa do pecado, Seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne a fim de que a justiça prescrita pela Lei fosse realizada em nós, que vivemos não segundo a carne, mas segundo o Espírito. Os que vivem segundo a carne gostam do que é carnal. Os que vivem segundo o Espírito apreciam as coisas que são do Espírito. Ora, a aspiração da carne é a morte, enquanto a aspiração do Espírito é a Vida e a Paz. Porque o desejo da carne é hostil a Deus, pois a carne não se submete à Lei de Deus, e nem o pode. Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus. Vós, porém, não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito, se realmente o Espírito de Deus habita em vós. Se alguém não possui o Espírito de Cristo, este não é d'Ele." Rm 8,2-9
    Claro, na atualidade tal libertação não é fácil. Basta reparar na devassidão e em seus reflexos disseminados pela cultura vigente para ter ideia do poder de dominação dos mais vulgares instintos. E apesar de animalescamente ridículos, e como sinal do estabelecimento da depravação, ainda há quem os chame de 'amor'. Quantos bilhões movem a indústria, o comércio e a propaganda do sexo? Quantas vidas destruídas? A prostituição não está ligada à pobreza, seja ela material ou espiritual? Mas, como aponta São Paulo, a falta de religiosidade ou a corrupção da fé não é exatamente uma novidade, nem seus abomináveis frutos: "Porque, conhecendo a Deus, não O glorificaram como Deus nem Lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos e obscureceu-se-lhes o insensato coração. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos. Mudaram a majestade de Deus incorruptível em representações e figuras de homem corruptível, de aves, quadrúpedes e répteis. Por isso, Deus entregou-os aos desejos de seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. Trocaram a Verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém! Por isso, Deus entregou-os a vergonhosas paixões: suas mulheres mudaram as relações naturais em relações contra a natureza. Do mesmo modo os homens, deixando o uso natural da mulher, arderam em desejos uns para com os outros, cometendo homens com homens a torpeza, e recebendo em seus corpos a paga devida a seu desvario. Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Deus entregou-os a depravados sentimentos, e daí seu indigno procedimento. São repletos de toda espécie de malícia, perversidade, cobiça, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade. São difamadores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, soberbos, altivos, inventores de maldades, rebeldes contra os pais. São insensatos, desleais, sem coração, sem misericórdia. Apesar de conhecerem o justo decreto de Deus que considera dignos de morte aqueles que fazem tais coisas, não somente as praticam, como também aplaudem os que as cometem." Rm 1,21-32
    E é certo, ademais, que muito se agravou o quadro das heresias que acobertam esta devassidão, e assim sobram falsos mestres. Aliás, como o próprio São Paulo profetizou: "Porque virá tempo em que os homens já não suportarão a Sã Doutrina da Salvação. Levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustarão mestres para si. Apartarão os ouvidos da Verdade, e atirar-se-ão às fábulas." 2 Tm 4,3-4
    Sem dúvida, a castidade exige conhecimento de si, oração, devoção, obediência aos Mandamentos, prática das virtudes morais. É o que ele recomenda aos gálatas: "Digo, pois: deixai-vos conduzir pelo Espírito, e não satisfareis os apetites da carne." Gl 5,16
    Pois foi para vencer as fraquezas da carne, entre outras más inclinações, que Jesus nos enviou o Espírito da promessa, que nos reveste com 'a força do alto': "Eu mandar-vos-ei o Prometido de Meu Pai. Entretanto, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto." Lc 24,49
    É com os socorros do Divino Paráclito, pois, que se alcança o domínio de si, o autocontrole, através do dom da temperança. E é pela castidade que nos é dado efetivamente viver o Reno de Deus já aqui neste mundo. Jesus ensinou: "Na Ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no Céu." Mt 22,30
    Ele afirmou esta moção e a chegada do Reino de Deus: "Mas se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então para vós chegou o Reino de Deus." Mt 12,28
    Essa era Sua condição como o Primogênito de Deus, como declarou em Seu 'discurso inaugural', ao iniciar Sua vida pública: "O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu. E enviou-Me para anunciar a Boa Nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, e publicar o ano da Graça do Senhor." Lc 4,18-19
    São Paulo diz como esta unção age em nós: "Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza, porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com inefáveis gemidos. Aliás, sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo Seus desígnios. Aqueles que Ele distinguiu de antemão, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Ele seja o Primogênito entre uma multidão de irmãos." Rm 8,26.28-29
    Com efeito, a castidade, assim como a Vida Eterna, é uma conquista da , resultado da ação do Espírito de Deus e do esforço pessoal. E é isso que ele recomenda a São Timóteo: "Combate o bom combate da fé. Conquista a Vida Eterna, para a qual foste chamado..." 1 Tm 6,2
    Antes de tudo, porém, ela é uma frontal resistência aos pecados sociais. Jesus atestou a ânsia por libertação dos Apóstolos e uma violenta força contrária, imposta pelo mundo: "Se fôsseis do mundo, o mundo amar-vos-ia como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo escolhi-vos, por isso o mundo odeia-vos." Jo 15,19
    E enquanto resultado de contínuo trabalho, a castidade e os demais frutos do Espírito de Deus exigem vigilância, como Ele exortou os Apóstolos mais próximos, horas antes de ser crucificado: "Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca." Mt 26,41
    Pois como dom, portanto uma emblemática expressão de caridade, só pela religiosidade e pela negação de si mesmo ela pode ser preservada. Diz São Paulo: "A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante, nem escandalosa. Não busca seus próprios interesses..." 1 Cor 13,4-5
    E nestes termos, em especial, ela representa a mais pura amizade a Deus. São Tiago Menor avisava: "Todo aquele que quer ser amigo do mundo, constitui-se inimigo de Deus." Tg 4,4b
    Bem como uma inegável virtude moral, pelo que se deduz das advertências de São Paulo: "Quanto à fornicação, à impureza, sob qualquer forma, ou à avareza, que disto nem se faça menção entre vós..." Ef 5,3
    Enfim, referindo-se à promiscuidade e sua exploração, ele magistralmente leciona: "Esta é a vontade de Deus: vossa santificação; que eviteis a impureza. Que cada um de vós saiba possuir santa e honestamente seu corpo, sem se deixar levar por desregradas paixões, como os pagãos que não conhecem a Deus. E que ninguém, nesta matéria, oprima nem defraude a seu irmão, porque o Senhor faz justiça de todas estas coisas, como já vo-lo temos dito e asseverado. Pois Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santidade. Por conseguinte, desprezar estes preceitos é desprezar não a um homem, mas a Deus, que nos deu Seu Espírito Santo." 1 Ts 4,3-8
    E exorta: "Ou não sabeis que vosso corpo é Templo do Espírito Santo, que habita em vós, o Qual recebestes de Deus e que, por isso mesmo, já não vos pertenceis? Porque fostes comprados por um grande preço. Glorificai, pois, a Deus em vosso corpo." 1 Cor 6,19-20


NATUREZA HUMANA E PERVERSÃO

    Durante o crescimento, é fato, o corpo humano passa por fases marcadas pela imperfeição e, às vezes, pelo pecado. Mas à falta de ambientes sadios e para romper de vez com a imaturidade e a irresponsabilidade, o último Apóstolo recomendava a São Timóteo algo extremamente simples: afastar-se, fugir: "Foge das paixões da mocidade, busca com empenho a justiça, a fé, a caridade, a Paz, com aqueles que invocam o Senhor com pureza de coração." 2 Tm 2,22
    Também ensinou aos coríntios: "Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo? Tomarei, então, os membros de Cristo e fá-lo-eis membros de uma prostituta? De modo algum! Fugi da fornicação. Qualquer outro pecado que o homem comete é fora do corpo, mas o impuro peca contra seu próprio corpo." 1 Cor 6,15.18
    São Pedro também tem uma palavra, e muito inspirada, para a juventude: "Semelhantemente, vós outros que sois mais jovens, sede submissos aos Anciãos. Todos vós, em vosso mútuo tratamento, revesti-vos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá Sua Graça aos humildes (Pr 3,34). Humilhai-vos, pois, debaixo da poderosa mão de Deus, para que Ele vos exalte no tempo oportuno. Confiai-lhe todas vossas preocupações, porque Ele tem cuidado de vós. Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar. Resisti-lhe fortes na fé. Vós sabeis que vossos irmãos, que estão espalhados pelo mundo, sofrem os mesmos padecimentos que vós. O Deus de toda Graça, que vos chamou em Cristo à Sua Eterna Glória, depois que tiverdes padecido um pouco, aperfeiçoar-vos-á, tornar-vos-á inabaláveis, fortificar-vos-á." 1 Pd 5,5-10
    Pois nossos adolescentes e jovens têm direito a uma educação depurada de malícia e de maus exemplos, como reclamava Jesus: "Ai do mundo por causa dos escândalos! Eles são inevitáveis, mas ai do homem que os causa!" Mt 18,7
    As crianças, especialmente, devem ser preservadas da despudorada libido, assim como da enorme e bestial indústria da pornografia. Em tom de grave ameaça, Jesus adverte: "Mas todo aquele que fizer cair em pecado a um destes pequeninos que creem em Mim, melhor seria que uma pedra de moinho lhe fosse posta ao pescoço e lançassem-no ao mar!" Mc 9,42
    E alerta que os Anjos da Guarda das crianças estão diariamente diante de Deus: "Guardai-vos de menosprezar um só destes pequenos, porque Eu vos digo que seus anjos contemplam sem cessar a face de Meu Pai, que está nos Céus." Mt 18,10
    Da mesma forma, segundo São Pedro, as mulheres devem ser exemplos de recolhimento para os maridos, o que certamente repercute para filhos e todos em volta. O natural pudor feminino, assim como a ternura, fortemente expressos na maternidade, devem ser cultuados como marcantes sinais dos dons de Deus: "Vós, também, ó mulheres, sede submissas a vossos maridos. Se alguns não obedecem à Palavra, serão conquistados, mesmo sem a Palavra da pregação, pelo simples procedimento de suas mulheres, ao observarem vossa casta e reservada vida. Não seja vosso adorno o que aparece externamente: cabelos trançados, ornamentos de ouro, vestidos elegantes. Mas tende aquele interior e oculto ornato do coração, a pureza incorruptível de um espírito suave e pacífico, o que é tão precioso aos olhos de Deus." 1 Pd 3,2-4
    São Paulo dizia algo parecido: "Porque o marido que não tem a fé é santificado por sua mulher; assim como a mulher que não tem a fé é santificada pelo marido que recebeu a fé. Do contrário, vossos filhos seriam impuros, quando na realidade são santos." 1 Cor 7,14
    Pois o que se vê são mulheres grotescamente desfiguradas pela cultura de promiscuidade, subjugadas ao vazio e à vulgaridade tipicamente masculina dos tempos atuais, tal e qual nosso Santo vaticinava a São Timóteo: "Nota bem o seguinte: nos últimos dias haverá um difícil período. Os homens tornar-se-ão egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos, rebeldes aos pais, ingratos, malvados, desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis, inimigos dos bons, traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de Deus, ostentarão a aparência de piedade, mas dela desdenharão na realidade. Dessa gente, afasta-te! Deles fazem parte aqueles que jeitosamente se insinuam pelas casas e enfeitiçam mulherzinhas carregadas de pecados, atormentadas por toda espécie de paixões, sempre a aprender sem nunca chegar ao conhecimento da Verdade." 2 Tm 3,1-7
    Por isso, ele exortava os colossenses, em respeito à Graça de participar do Corpo Místico de Cristo: "Mortificai, pois, vossos membros no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria. Dessas coisas provém a ira de Deus sobre os descrentes. Triunfe em vossos corações a Paz de Cristo, para a qual fostes chamados a fim de formar um único Corpo. E sede agradecidos." Cl 3,5-6.15
    Há, portanto, apenas três modos de viver a castidade: na virgindade, no Matrimônio ou no celibato. A virgindade é uma condição física e espiritual, que não há como ser mantida numa vida cheia de fantasias. Só uma vida de oração e comunhão espiritual pode preservar esse estado. Em geral, ela só se perpetua através de consagração religiosa. Não sendo essa a vocação, a Palavra de Deus recomenda expressamente o Matrimônio, e que assim se viva a castidade conjugal: "... se não podem guardar a continência, casem-se." 1 Cor 7,9
    Nos primeiros anos da Igreja, quando o celibato ainda não era exigido dos Sacerdotes, São Paulo fala dela como essencial requisito à conduta de um bispo: "... deve saber bem governar sua casa, educar seus filhos na obediência e na castidade." 1 Tm 3,4
    Ora, como Jesus fez recordar, marido e mulher são uma só carne, e São Paulo argumenta: "A mulher não pode dispor de seu corpo: ele pertence a seu marido. E da mesma forma o marido não pode dispor de seu corpo: ele pertence à sua esposa." 1 Cor 7,4
    O celibatário, por sua vez, vive a continência. É uma grande benção de Deus, a fina flor da devoção e do Sacerdócio, mas, infelizmente, o próprio Jesus já havia previsto a dificuldade e a incompreensão do mundo para com essa condição sexual: "Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda." Mt 19,12
    Sua importância demonstrada no livro do Apocalipse, pois eles foram vistos como Santos no Céu: "Estes são aqueles que não se contaminaram com mulheres, pois são virgens. São eles que acompanham o Cordeiro por onde quer que Ele vá. Foram resgatados dentre os homens, como primícias oferecidas a Deus e ao Cordeiro. Em sua boca não se achou mentira, pois são irrepreensíveis." Ap 14,4-5
    Deus até já havia prometido especial acolhimento aos eunucos no judaísmo, onde não era praticado, através do Profeta Isaías: "Porque eis o que diz o Senhor: 'Aos eunucos que observarem Meus sábados, que escolherem o que Me é agradável e afeiçoarem-se à Minha Aliança, Eu darei na Minha Casa e dentro de Minhas muralhas um monumento e um nome de mais valor que filhos e filhas. Dar-lhes-ei um nome que jamais perecerá." Is 56,4-5
    Contudo, o desrespeito por parte de alguns religiosos quanto a essa condição é mero desconhecimento dos dons do Espírito Santo, como São Paulo havia alertado: "A respeito dos dons espirituais, irmãos, não quero que vivais na ignorância." 1 Cor 12,1
    E explica: "... o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar." 1 Cor 2,14
    Ora, ele mesmo era celibatário: "Aos solteiros e às viúvas, digo que lhes é bom se permanecerem assim, como eu. O solteiro cuida das coisas que são do Senhor, de como agradar ao Senhor. O casado preocupa-se com as coisas do mundo, procurando agradar à sua esposa." 1 Cor 7,8.32b-33
    E quando Jesus afirmou a indissolubilidade do Matrimônio, os Apóstolos, considerando a importância de servir a Deus pelo veemente exemplo que tinham diante de si na Pessoa de Jesus, logo concluíram: "Seus discípulos disseram-Lhe: 'Se tal é a condição do homem a respeito da mulher, é melhor não se casar!'" Mt 19,10
    A castidade, pois, é a própria pureza de Cristo oferecida ao ser humano. São João Evangelista, celibatário por toda a vida, vai categoricamente afirmar: "Todo aquele que n'Ele espera, purifica-se a si mesmo, como também Ele é puro." 1 Jo 3,3
    Assim, contra a perversão de qualquer dessas três condições, São Tiago Menor corrige: "... purificai vossos corações, ó homens de dupla atitude." Tg 4,8
    Ele acusa os reflexos de uma vida mundana: "Donde vêm as lutas e as contendas entre vós? Não vêm elas de vossas paixões, que combatem em vossos membros? Cobiçais, e não recebeis. Sois invejosos e ciumentos, e não conseguis o que desejais. Litigais e fazeis guerra. Não obtendes, porque não pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, com o fim de satisfazerdes vossas paixões." Tg 4,1-3
    E ataca: "Adúlteros, não sabeis que o amor do mundo é abominado por Deus?" Tg 4,4a
    Os seguidores da tradição de São Paulo também advertem: "Vós todos considerai o Matrimônio com respeito e conservai imaculado o leito conjugal, porque Deus julgará os impuros e os adúlteros." Hb 13,4
    Já o Arcanjo São Rafael, em diálogo com Tobias, revelou nesta má conduta os poderes do inimigo: "O anjo respondeu-lhe: 'Ouve-me, e eu mostrar-te-ei sobre quem o demônio tem poder: são os que se casam, banindo Deus de seu coração e de seu pensamento, e entregam-se à sua paixão como o cavalo e o burro, que não têm entendimento. Sobre estes o demônio tem poder.'" Tb 6,16-1
    São Paulo, por outro lado, faz recordar nossa necessária crucificação: "Pois aqueles que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e os sensuais prazeres. Se vivemos pelo Espírito, também andemos de acordo com o Espírito." Gl 5,24-25
    Devemos, então, viver essa constante mortificação, todos os dias como ensina Jesus: "Se alguém quer vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia sua Cruz e siga-Me." Lc 9,23
    Pois em nossa opção, de tomar a cruz ou não, estará a diferença está entre a morte e a Vida, como o Apóstolo dos Gentios: "De fato, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer. Mas se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis..." Rm 8,13
    E essas consequências não nos são assim tão estranhas, como vemos na reação do procurador da Judeia enquanto julgava São Paulo: "Mas como Paulo lhe falasse sobre a justiça, a castidade e o Futuro Juízo, Félix, todo atemorizado, disse-lhe: 'Por ora, podes retirar-te. Na primeira ocasião, chamar-te-ei.'" At 24,25
    Em oposição, por fim, aos que se deixam afeiçoar ao comportamento mundano, nosso Santo exorta à verdadeira conversão, à renovação espiritual: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação de vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada e o que é perfeito." Rm 12,2
    E é do Levítico a frase que Jesus resgatou para chamar-nos à santidade, pois o próprio Pai determinou: "Vós santificar-vos-eis e sereis Santos, porque Eu sou Santo." Lv 11,44

    "Santificai-nos pelo dom de Vosso Espírito!"