terça-feira, 19 de junho de 2018

Amar a Deus


    O que significa 'amar a Deus sobre todas as coisas'? Como se cumpre esse Mandamento?
    Inicialmente, é interessante notar que o primeiro dos 10 Mandamentos não fala de em Deus, mas de amor a Ele. Aliás, nenhum deles fala de fé. E é a mais pura Verdade: bem mais que fé, Deus quer ser amado. Isso até pode parecer muito humano, mas só porque esquecemos que o amor é divino, mesmo quando vivido por nós. Ora, ele é a essência de todas as coisas, a harmonia que perpassa todo o cosmo. E é o melhor conceito que São João Evangelista encontrou para o próprio Deus. Está em sua primeira carta: "... Deus é amor." 1 Jo 4,8
    Em carta a São Timóteo, exaltando a maior de todas manifestações de Deus, São Paulo põe Jesus como foco desse amor, que deve expressar-se pelo zelo à Sã Doutrina: "Toma por modelo os salutares ensinamentos que de mim recebeste sobre a fé e o amor a Jesus Cristo. Guarda o Precioso Depósito, pela virtude do Espírito Santo que em nós habita." 2 Tm 1,13
    De fato, podemos afirmar que Jesus, vivendo como humano, veio ensinar-nos a amar a Deus. Amor que Ele exemplarmente demonstrou, em absoluta obediência ao Pai, levando-o às últimas consequências. São Paulo atestou: "Sendo Ele de condição divina, não Se prevaleceu de Sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-Se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-Se ainda mais, tornando-Se obediente até a morte, e morte de Cruz." Fl 2,6-8
    E ao pronunciar-Se sobre esse assunto, para valorizar a Sagrada Tradição e ser mais preciso, Jesus mencionou a passagem do Deuteronômio que diz: "Amarás o Senhor, Teu Deus, de todo teu coração, de toda tua alma, de toda tua força e de todo teu entendimento...(Dt 6,5)" Mt 22,37
    Vale examinar:

AMAR A DEUS DE TODO CORAÇÃO

    Isso diz de refinamento, moderação de sentimentos e emoções. E, cabe esclarecer, para Jesus o coração é a sede de toda consciência moral. Ele disse: "Porque a boca fala do que lhe transborda do coração." Mt 12,34
    Disse ainda: "Porque é do interior do coração dos homens que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez." Mc 7,21-22
    Revelou o que nos identifica: "Porque onde está teu tesouro, lá também está teu coração." Mc 6,21
    E assim concluiu: "O homem de bem tira boas coisas de seu bom tesouro. O mau, porém, tira coisas más de seu mau tesouro." Mt 12,35
    Ele garantia: "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!" Mt 5,8
    Pois segundo Nosso Salvador é aí que se travam as grandes batalhas da fé, como disse na parábola da boa semente: "... mas depois vem o demônio e tira-lhes a Palavra do coração..." Lc 8,12
    E é onde se consuma o pecado: "Eu, porém, digo-vos: todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração." Mt 5,28

AMAR A DEUS DE TODA ALMA

    Requer abraçar sinceramente a vida espiritual e seus valores. Isso só é possível pelo exercício da piedade em seu verdadeiro sentido, o das práticas religiosas. É o que São Paulo recomendou a São Timóteo: "Exercita-te na piedade. Se o exercício corporal traz algum pequeno proveito, a piedade, esta sim, é útil para tudo, porque tem a promessa da presente e da futura Vida." 1 Tm 4,8
    Amar com a alma é o que disse Nossa Senhora no Magnificat, pois para isso ela estava preparada desde que foi concebida: "Minha alma glorifica ao Senhor..." Lc 1,46
    Entregar-se à devoção, portanto, é elementar para que se alcance o verdadeiro amor a Deus. Não se pode esquivar dos compromissos da fé. O cego de nascença curado por Jesus vai dizer aos judeus: "Sabemos, porém, que Deus não ouve a pecadores, mas atende a quem Lhe presta culto e faz Sua vontade." Jo 9,31
    Já os seguidores da tradição de São Paulo deixaram-nos um estamento: "Ora, sem fé é impossível agradar a Deus, pois para achegar-se a Ele é necessário que primeiro se creia que Ele existe e que recompensa os que O procuram." Hb 11,6
    Pois crendo piamente que Ele existe, ou seja, vivenciando Sua presença e praticando o culto que Lhe é devido, podemos melhor contemplar Suas obras e assim estamos mais propensos a amá-Lo. O Apóstolo dos Gentios assegura: "Pois tudo que Deus criou é bom, e nada há de reprovável..." 1 Tm 4,4
    Ora, a Santa Missa foi instituída pelo próprio Cristo: "Tomou em seguida o pão e depois de ter dado graças, partiu-O e deu-lhO, dizendo: 'Isto é Meu Corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de Mim.' Do mesmo modo tomou o Cálice, depois de cear, dizendo: 'Este cálice é a Nova Aliança em Meu Sangue, que é derramado por vós...'" Lc 22,19-20
    E Ele pedia todo envolvimento espiritual: "Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e Verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja. Deus é Espírito, e Seus adoradores devem adorá-Lo em espírito e Verdade." Jo 4,23-24
    Nesse sentido era a oração de São Paulo e seus seguidores em favor dos tessalonicenses: "Nesta esperança suplicamos incessantemente por vós, para que Nosso Deus vos faça dignos da vossa vocação, e que eficazmente leve a bom termo todo vosso zelo pelo bem e a atividade de vossa fé." 2 Ts 1,11
    São Pedro, ademais, recomendava um expressivo exercício de ascese, que julgava essencial aos cristãos: "Por estes motivos, o quanto possível esforçai-vos por unir à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o amor fraterno, e ao amor fraterno a caridade. Se estas virtudes se acharem abundantemente em vós, elas não vos deixarão inativos nem infrutuosos no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque quem não tiver estas coisas é míope, cego. Esqueceu-se da purificação de seus antigos pecados." 2 Pd 1,5-9


AMAR A DEUS DE TODA FORÇA

    É colocar nossos corpos a serviço das coisas que agradam a Deus. A caridade, seja doação de vida a Deus, seja partilha com os irmãos dos frutos do nosso trabalho, é um grande exemplo. Os seguidores de São Paulo exortavam às duas: "Não negligencieis a beneficência e a Comunhão. Estes são sacrifícios que agradam a Deus!" Hb 13,16
    O próprio São Paulo estimulava os romanos: "Não relaxeis vosso zelo. Sede fervorosos de espírito. Servi ao Senhor. Socorrei às necessidades dos fiéis. Esmerai-vos na prática da hospitalidade." Rm 12,11.13
    Ele reconhecia a generosidade, tanto espiritual quanto material, das igrejas da Macedônia: "Em meio a tantas tribulações com que foram provadas, espalharam generosamente e com transbordante alegria, apesar de sua extrema pobreza, os tesouros de sua liberalidade. Sou testemunha de que, segundo suas forças, e até além dessas forças, contribuíram espontaneamente e pediam-nos com muita insistência o favor de poderem associar-se neste socorro destinado aos irmãos. E ultrapassaram nossas expectativas. Primeiro deram-se a si mesmos ao Senhor e, depois, a nós, pela vontade de Deus." 2 Cor 8,2-5
    E aplaudia os louváveis feitos dos coríntios: "Com respeito ao auxílio a prestar aos irmãos, acho quase supérfluo continuar a escrever-vos. Porquanto estou ciente de vossa boa vontade, que enalteço, para glória vossa, ante os macedônios, dizendo-lhes que a Acaia também está pronta desde o ano passado. O exemplo de vosso zelo tem estimulado a muitos. Dê cada um conforme o impulso de seu coração, sem tristeza nem constrangimento. Deus ama aquele que dá com alegria." 2 Cor 9,1-2.7
    Também diz São Tiago Menor: "Por exemplo: um irmão ou irmã não têm que vestir e falta-lhes o pão de cada dia. Então, se algum de vós lhes disser: 'Ide em Paz, aquecei-vos e comei bastante' e, no entanto, não lhes dá o necessário para o corpo, que adianta isso?" Tg 2,16-17
    E sob o aspecto espiritual, amar a Deus com toda a força também significa resistir fisicamente ao pecado e aos sofrimentos com que o mundo nos aflige: "Considerai, pois, atentamente aquele que tantas contrariedades sofreu dos pecadores, e não vos deixeis abater pelo desânimo. Ainda não tendes resistido até o sangue na luta contra o pecado." Hb 12,4
    São Paulo também pede: "Mortificai, pois, vossos membros no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria. Dessas coisas provém a ira de Deus sobre os descrentes. Outrora também vós assim vivíeis, mergulhados como estáveis nesses vícios. Agora, porém, deixai de lado todas estas coisas: ira, animosidade, maledicência, maldade, torpes palavras de vossa boca, nem vos enganeis uns aos outros. Vós despistes-vos do velho homem com seus vícios, e revestistes-vos do novo, que vai restaurando-se constantemente à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento." Cl 3,5-10
    E diz que esse é nosso único caminho: "... até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo. ... pela sincera prática da caridade, cresçamos em todos sentidos..." Ef 4,13.15a

AMAR A DEUS DE TODO ENTENDIMENTO

    É a necessidade de chegar a uma esclarecida fé, através do pleno concurso da razão. Esse entendimento só é possível com o consciencioso exame da mensagem divina, feito de boa vontade, isto é, sem preguiça, e de modo moralmente corajoso. É um exercício de conhecimento e que nos acompanha a vida inteira. Sempre teremos o que aprender. São Paulo vai dizer aos efésios: "Portanto, eis o que digo e conjuro no Senhor: não persistais em viver como os pagãos, que andam à mercê de suas frívolas ideias. Têm o entendimento obscurecido. Sua ignorância e o endurecimento de seu coração mantêm-lhes afastados da Vida de Deus. Indolentes, entregaram-se à dissolução, à apaixonada prática de toda espécie de impureza. Vós, porém, não foi para isto que vos tornastes discípulos de Cristo, se é que O ouvistes e d'Ele aprendestes, como convém à Verdade em Jesus. Renunciai à vida passada, despojai-vos do velho homem, corrompido por enganadoras concupiscências. Renovai sem cessar o sentimento de vossa alma, e revesti-vos do novo homem, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade." Ef 4,17-24
    São Pedro, por sua vez, pedia plena consciência da vida espiritual cristã: "Estai sempre prontos a responder em vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito." 1 Pd 3,15
    Nosso amor a Deus, portanto, carece de conhecimento de Sua Palavra e de Suas manifestações, sem que nos atrapalhe a dissimulação ou a mentira. Ninguém pode fugir a esse exercício da razão. Sobre a devoção dos gregos, por exemplo, sempre colocada por São Paulo em oposição a dos judeus, ele escreveu aos romanos: "Porquanto o que se pode conhecer de Deus eles leem-no em si mesmos, pois Deus lho revelou com evidência. Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, Seu sempiterno poder e divindade, tornam-se visíveis à inteligência por Suas obras, de modo que não se podem escusar." Rm 1,19-20
    Sem dúvida, sem essa constante renovação do entendimento para com o Pai e Seu amor, cai-se facilmente em tentação, como ele menciona sobre os que se esquivam da Verdade: "Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Deus entregou-os aos depravados sentimentos, e daí seu indigno procedimento." Rm 1,28
    O salmista já dizia: "Feliz aquele que se compraz no serviço do Senhor e dia e noite medita Sua Lei. Ele é como a árvore plantada na margem de águas correntes: dá fruto na época própria, sua folhagem jamais murchará. Tudo que empreende, prospera." Sl 1,2-3
    Porque conhecendo a Deus, não há como não O amar, e isso se exprime pela gratidão. E por tudo: pela vida, pelas pessoas, pela natureza etc. Mas principalmente por Seu amor. Tendo essa percepção do mundo e da vida é que verdadeiramente começamos a amá-Lo, pois há um virtuoso ciclo entre o amor e Sabedoria. Diz o Eclesiástico: "O Verbo de Deus nos Céus é a fonte da Sabedoria... Ele criou-a... e difundiu-a em todas Suas obras, em toda carne segundo Sua generosidade, e doou-a aos que O amam." Eclo 1,5a.9a.10
    São Paulo, aliás, foi bem específico ao condenar a falta de interesse da parte dos judeus pela Sã Doutrina: "Pois dou-lhes testemunho de que têm zelo por Deus, mas um zelo sem discernimento." Rm 10,2

VENCER A CONSCIÊNCIA PREGUIÇOSA

    Mas eis que surgem algumas questões. Jesus, sendo Deus, e portanto falando do amor que Lhe devemos, pareceu muito exigente quando falou: "Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim não é digno de Mim. Quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim não é digno de Mim." Mt 10,37
    Primeiro, porém, precisamos ver nessa frase Jesus revelando-Se Deus. É um dos momentos em que Ele Se declara! Se Ele Se colocou como Aquele que deve ser amado sobre todas as pessoas e coisas, fica claro Quem Ele é. Segundo, não podemos apegar-nos demasiadamente nem mesmo às pessoas mais próximas nessa vida. Todos vamos morrer, e a ausência de alguém muito íntimo, sem a fé, pode torturar-nos. Correto, pois, é amar a Deus e crer na Vida Eterna. Lá teremos todos os Seus, e pela eternidade. Por isso, falando sobre a vida mundana e sem Deus, Jesus ensinou: "Quem ama sua vida, perdê-la-á. Mas quem odeia sua vida neste mundo, conservá-la-á para a Vida Eterna." Jo 12,25
    De fato, depois da Vinda do Messias, o amor pelas coisas do mundo significa nas trevas. É o que disse São João: "... a Luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas que a Luz, pois suas obras eram más." Jo 3,19
    E segundo as próprias palavras de Jesus, não há como amar a Deus sem amá-Lo: "Desse modo, todos honrarão o Filho, bem como honram o Pai. Aquele que não honra o Filho, não honra o Pai, que O enviou." Jo 5,23
    Pelo livre arbítrio, Ele chega mesmo a propor uma experiência: "Se alguém quiser cumprir a vontade de Deus, distinguirá se Minha Doutrina é de Deus ou se falo de Mim mesmo." Jo 7,17
    Contudo, Ele é absolutamente restritivo: "... ninguém vem ao Pai senão por Mim." Jo 14,6b
    Exige empenho: "Jesus disse-lhes: 'Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo que anunciaram os Profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na Sua Glória?'" Lc 24,25-26
    E usou de toda contundência ao combater aqueles que resistiam diante de Suas obras: "Se Deus fosse vosso pai, vós Me amaríeis, porque Eu saí de Deus. É d'Ele que Eu provenho, porque não vim de Mim mesmo, mas foi Ele Quem Me enviou. Por que não compreendeis Minha linguagem? É porque não podeis ouvir Minha Palavra. Vós tendes como pai o demônio e quereis fazer os desejos de vosso pai. Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na Verdade, porque a Verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira." Jo 8,42-44

JESUS: PARÂMETRO DE AMOR

    Para que melhor se compreenda o que significa amar a Deus, Jesus faz uma radical simplificação: põe o amor ao próximo na mesma importância que o amor a Deus. Ele diz literalmente que este Mandamento é semelhante ao primeiro: "Amarás o Senhor, Teu Deus, de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito (Dt 6,5). Este é o maior e o primeiro Mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18). Nesses dois Mandamentos resumem-se toda a Lei e os Profetas." Mt 22,37-40
    São João Evangelista vai no mesmo sentido: "Se alguém disser: 'Amo a Deus', mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus este Mandamento: o que amar a Deus, ame também a seu irmão." 1 Jo 4,20-21
    E foi bem mais contundente: "Quem odeia seu irmão é assassino. E sabeis que a Vida Eterna não permanece em nenhum assassino." 1 Jo 3,15
    Porque, nestes termos, Jesus estava deixando Seu Mandamento, que era ainda mais simples: "Dou-vos um novo Mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como Eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." Jo 13,34-35
    E note-se que Ele estabelecia um parâmetro para esse amor, que é Seu próprio amor por nós: "Como Eu vos tenho amado..." Idem
    Ele quis dizer, enfim, que devemos amar ao próximo como Deus nos ama. Esse foi um dos pedidos que Ele fez ao Pai por nós: "Manifestei-lhes Teu Nome, e ainda hei de manifestá-lhO, para que o amor com que Me amaste esteja neles, e Eu neles." Jo 17,26
    O Amado Discípulo explica: "Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele. Mas amamos porque primeiro Deus nos amou." 1 Jo 4,16.19
    E diz mais: "Se mutuamente nos amarmos, Deus permanece em nós e Seu amor em nós é perfeito." 1 Jo 4,12b
    São Paulo disse como isso acontece: "E a esperança não engana. Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado." Rm 5,5
    Ele sabia, porém, que mais amar quase sempre significa ser menos amado: "Não vos serei oneroso, porque não busco vossos bens mas sim a vós mesmos. Com efeito, não são os filhos que devem entesourar para os pais, mas os pais para os filhos. De mui boa vontade darei o que é meu, e me darei a mim mesmo por vossas almas, ainda que, amando-vos mais, seja menos amado por vós." 2 Cor 12,14b-15
    Jesus, no entanto, deixou claro como podemos demonstrar amor a Ele: "Aquele que tem e guarda Meus Mandamentos, esse é que Me ama. E aquele que Me ama será amado por Meu Pai, e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele." Jo 14,21
    Ou seja, conhecer e praticar Sua Palavra é o verdadeiro sinal de nosso amor. Ele disse ainda: "Se alguém Me ama, guardará Minha palavra e Meu Pai amá-lo-á. E nós viremos a ele e nele faremos Nossa morada." Jo 14,23
    São João Evangelista confirma tal ensinamento, lembrando o amar a Deus 'com todo entendimento': "Eis o amor a Deus: que guardemos Seus Mandamentos. E Seus Mandamentos não são penosos..." 1 Jo 5,3
    Sem dúvida, de tanto amar-nos, Deus quer viver em nossa alma. E é o que de fato acontece, como atestou São Paulo: "Vós, porém, não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito, se realmente o Espírito de Deus habita em vós. Se alguém não possui o Espírito de Cristo, este não é d'Ele." Rm 8,9
    Ele pergunta: "Não sabeis que sois o Templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?" 1 Cor 3,16
    E ficam estas palavras de sua inspiração: "... sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus..." Rm 8,28

    "Nosso coração está em Deus."

segunda-feira, 18 de junho de 2018

A Lógica Inversa de Jesus


    Jesus demonstrou como os valores deste mundo estão flagrantemente invertidos, em oposição à vontade de Deus. É fato: quando se amadurece sob Sua Luz, Seus ensinamentos, revelações e profecias vão-se confirmando como estrondosas verdades. Por exemplo: profetizando Seu acolhimento por estrangeiros e rejeição pelos judeus, apesar de inicialmente escolhidos por Deus para divulgar a Salvação, Ele sentencia: "Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos." Mt 20,16
    Com efeito, mesmo em países onde não há grande divulgação de Sua Palavra, a semente da santidade tem dado frutos por obra da Divina Graça, pois Deus é muito cioso da Salvação de Seus filhos, como revelou Jesus na parábola dos talentos: "Sabias que colho onde não semeei e que recolho onde não espalhei." Mt 25,26
    Mais: Ele ensina o Pai sequer admite atitudes e posturas ambíguas: "Nenhum servo pode servir a dois senhores: ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de aderir a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro." Lc 16,13
    E fulmina a hipocrisia e as mundanas ilusões: "Ora, ouviam tudo isto os fariseus, que eram amigos do dinheiro, e zombavam d'Ele. Jesus disse-lhes: 'Vós procurais parecer justos aos olhos dos homens, mas Deus conhece-vos os corações. Pois o que é elevado aos olhos dos homens é abominável aos olhos de Deus.'" Lc 16,14-15
    Denunciava, então, a maior das abominações, razão de toda incredulidade: "Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros e não buscais a Glória que é só de Deus?" Jo 5,44
    Segundo Nosso Salvador, e o que foi experimentado por pessoas como São Domingos, São Francisco, Santo Antonio, Madre Tereza, entre outros, o portentoso Reino dos Céus não será um lugar de poderosos, como vistos neste mundo, mas de gente humilde. Ele dizia dos líderes dos judeus: "Os escribas e os fariseus sentaram-se na cadeira de Moisés. Gostam dos primeiros lugares nos banquetes e das primeiras cadeiras nas sinagogas. Gostam de ser saudados nas praças públicas e de ser chamados rabi pelos homens. Porém, o maior dentre vós será vosso servo. Aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado." Mt 23,2.6-7.11-12
    Na Igreja, portanto, por singularidade da Sã Doutrina, a verdadeira autoridade não significa poder, mas serviço. Ele determinou: "Os reis dos pagãos dominam como senhores, e aqueles que sobre eles exercem autoridade chamam-se benfeitores. Que não seja assim entre vós, mas o que é o maior, torne-se como o último; e o que governa seja como o servo." Lc 22,25-26
    De fato, Jesus foi bem enfático quando falou aos impenitentes religiosos de Sua época, denunciando o infame pecado da hipocrisia e anunciando o fim da primazia dos judeus no projeto de Deus: "Pois Eu garanto a vocês: os cobradores de impostos e as prostitutas entrarão antes de vocês no Reino do Céu. Porque João veio até vocês para mostrar o Caminho da justiça, e vocês não acreditaram nele. Os cobradores de impostos e as prostitutas acreditaram nele. Vocês, porém, mesmo vendo isso, não se arrependeram. Por isso, digo-vos: ser-vos-á tirado o Reino de Deus, e será dado a um povo que produzirá os frutos dele." Mt 21,31-32.43
    Muitas pessoas, no entanto, já perceberam que o simples rigor da lei religiosa pode levar à cegueira, porque, assim como o racionalismo, que é a grande ilusão da atualidade, o legalismo é uma perigosa armadilha. E aqui, mais uma vez, Jesus 'inverte' a posição as coisas: "O sábado foi feito para servir ao homem, e não o homem para servir ao sábado." Mc 2,27
    Tocando na vaidade dos que se julgam melhores que outros, que é mais um corriqueiro flagrante entre supostos religiosos, Ele deixou claro que estava terminantemente do lado dos que, mesmo empenhando-se muito para segui-Lo, ainda se reconhecem errantes: "Eu não vim para chamar justos, e sim pecadores." Mc 2,17
    E para exemplificar os cuidados de Deus para com os mais fracos, o Divino Mestre deixou-nos uma belíssima imagem do amor do Pai e de Sua Misericórdia, onde as coisas também parecem às avessas: "E Eu declaro-lhes: assim, haverá no Céu mais alegria por um só pecador que se converte, que por noventa e nove justos que não precisam de conversão." Lc 15,7
    Com efeito, toda comunidade de deve dar-se conta que ainda há muito que aprender, pois, quando bem observamos, coisas essenciais são frequentemente deixadas de lado. Cabe crescermos no sincero amor para percebê-las, ao invés de rejeitá-las, porque foi exatamente isso o que aconteceu em Israel durante a Vinda do Cristo: "Então Jesus disse a eles: 'Vocês nunca leram na Escritura: A pedra que os construtores deixaram de lado tornou-se a pedra mais importante. Isso foi feito pelo Senhor, e é admirável aos nossos olhos'?" Mt 21,42
    Por isso, Ele advertia do maior absurdo: "Bem-aventurado aquele para quem Eu não for ocasião de queda!" Mt 6,11


A MATURIDADE ESPIRITUAL

    E se Jesus não tolerava nenhuma acomodação no processo amadurecimento espiritual, muito mais sério era Seu recado às pessoas que se recorrem apenas dos mundanos cuidados: "Pois quem quiser salvar sua vida, vai perdê-la. Mas quem perde sua vida por causa de Mim, vai encontrá-la." Mt 16,25
    Ainda que um tanto enigmático, Ele não deixava de falar sobre as recompensas espirituais que nos revigoram ainda nessa vida. Referindo-se à inspiração do Espírito Santo e à fé, tão importantes para enfrentar as desilusões, Ele asseverou: "Pois a quem tem, será dado ainda mais, será dado em abundância. Mas daquele que não tem, será tirado até o pouco que tem." Mt 13,12
    Temos a mesma lição quando Ele Se referiu ao Santíssimo Sacramento. Havemos de escolher entre o que parece real e o que realmente tem valor: "Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até a Vida Eterna, que o Filho do Homem vos dará. Pois n'Ele Deus Pai imprimiu Seu sinal." Jo, 6,27
    Sem dúvida, não é por acaso que a maioria dos judeus continuam alheios ao Banquete Eucarístico realizado na Santa Missa. Foram Palavras Suas na conclusão de uma parábola: "Pois digo-vos: nenhum daqueles homens, que foram convidados, provará a Minha Ceia." Lc 21,24
    Esses aparentes contrassensos apontados por Jesus sempre causaram surpresa, e assim foi desde Seu Batismo, quando Lhe questionou São João Batista: "Eu devo ser batizado por Ti e Tu vens a mim?" Mt 3,14
    Aliás, assim foi quando Deus indicou o lugar onde Ele nasceria, através do Profeta Miqueias: "Mas tu, Belém-Efrata, tão pequena entre os clãs de Judá, é de ti que para Mim sairá Aquele que é chamado a governar Israel. Suas origens remontam aos tempos antigos, aos dias do longínquo passado. Por isso, Deus os deixará até o tempo em que der à luz aquela que há de dar à luz. Então o resto de Seus irmãos voltará para junto dos filhos de Israel. Ele levantar-Se-á para apascentá-los com o poder do Senhor, com a majestade do Nome do Senhor, Seu Deus. Os Seus viverão em segurança, porque Ele será exaltado até os confins da terra. E assim será a Paz." Mq 5,1-4a
    Ou o lugar onde Ele viveria, a Galileia das Nações, profetizado através de Isaías: "O povo que andava nas trevas viu uma grande Luz. Sobre aqueles que habitavam uma tenebrosa região resplandeceu uma Luz." Is 9,1
    Em divina manifestação nem sempre ostensiva, desde Seu Nascimento Ele já Se colocava em oposição a tudo que se pretende majestoso nesse mundo, como quando foi anunciado aos pastores de Belém: "O anjo disse-lhes: 'Não temais, eis que vos anuncio uma Boa Nova que será alegria para todo o povo: hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um Recém-Nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura.'" Lc 2,10-12
    Da mesma forma, ao ser apresentado no Templo de Jerusalém, um religioso profetizou os dilemas que Jesus provocaria, bem como as dores de Sua Mãe: "Simeão abençoou-Os e disse a Maria, Sua Mãe: 'Eis que este Menino está destinado a ser causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará tua alma.'" Lc 2,34-35
    Afirmativamente, a maioria dos religiosos de Sua época viveram aterradoras dúvidas, embora coubesse a eles mesmos deduzir, por tudo que viam e ouviam, os tempos em que viviam: "Os judeus rodearam-nO e perguntaram-Lhe: 'Até quando nos deixarás na incerteza? Se Tu és o Cristo, dize-nos claramente.'" Jo 10,24
    Mas, por conta da dureza de seus corações, as Palavras de Jesus causavam-lhes o oposto efeito, e nesses casos as consequências são sempre muito tristes: "Então se aproximaram d'Ele Seus discípulos e disseram-Lhe: 'Sabes que os fariseus se escandalizaram com as palavras que ouviram?' Jesus respondeu: 'Toda planta que Meu Pai celeste não plantou será arrancada pela raiz. Deixai-os. São cegos e guias de cegos. Ora, se um cego conduz a outro, tombarão ambos na mesma vala.'" Mt 15,12-14
    Eles chegavam mesmo a conclusões absolutamente absurdas: "A propósito dessas palavras, originou-se nova divisão entre os judeus. Muitos deles diziam: 'Ele está possuído do demônio. Ele delira. Por que O escutais vós?'" Jo 10,19-20
    Jesus apontou uma afronta ainda maior: "Se chamaram de Beelzebul ao Pai de Família, quanto mais o farão às pessoas de Sua Casa!" Mt 10,25b
    Contudo, também São Pedro estranhou os desígnios de Deus quando Jesus anunciou Sua Paixão: "Pedro então começou a interpelá-Lo e protestar nestes termos: 'Que Deus não permita isto, Senhor! Isto não Te acontecerá!'" Mt 16,22
    Tornou a estranhar Seu gesto de humildade na ocasião do Lava-Pés: "Senhor, queres lavar-me os pés?..." Jo 13,6
    E na noite da Santa Ceia, Ele mesmo avisou os Apóstolos: "Disse-lhes então Jesus: 'Esta noite serei para todos vós uma ocasião de queda. Porque está escrito: 'Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersadas (Zc 13,7).' Mas, depois da Minha Ressurreição, Eu vos precederei na Galileia.'" Mt 26,31-32
    No entanto, mesmo levando em conta os misteriosos planos de Deus, na maioria das vezes é a própria má vontade ou a insensibilidade do ser humano que o faz sofrer. Isso explica porque Jesus não fazia questão de converter desde o primeiro instante as pessoas com quem Se encontrava: "É por isso que Eu uso parábolas para falar com eles: assim eles olham e não vêem, ouvem e não escutam nem compreendem. Desse modo se cumpre para eles a profecia de Isaías: 'É certo que vocês ouvirão, porém nada compreenderão. É certo que vocês enxergarão, porém nada verão. Porque o coração desse povo tornou-se insensível. Eles são duros de ouvido e fecharam os olhos, para não ver com os olhos, e não ouvir com os ouvidos, não compreender com o coração e não se converter. E assim Eu os cure (Is 6,9s).'" Mt 13,13-15
    Os sábios deste mundo, ademais, não estão nos primeiros planos de Deus. Foi o que disse Jesus ao atestar a vitória dos Apóstolos sobre os maus espíritos, na primeira missão que os enviou: "Naquele mesma hora, Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse: 'Pai, Senhor do Céu e da terra, Eu dou-Te graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e revelaste-as aos pequeninos. Sim, Pai, bendigo-Te porque assim foi de Teu agrado.'" Lc 10,21
    Isso já estava previsto no Eclesiástico: "Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que Ele revela Seus mistérios. Porque grande é o poder do Senhor, mas é pelos humildes que Ele é glorificado." Eclo 3,20b-21
    Na verdade, a ambiguidade está em nossos corações, que insiste em entender as coisas pela lógica do mundo. Porém, ainda que vagando entre contradições, se mostrarmos arrependimento Deus nos acolhe e perdoa, como Jesus revelou essa parábola: "O que vocês acham disto? Certo homem tinha dois filhos. Ele foi ao mais velho, e disse: 'Filho, vá hoje trabalhar na vinha.' O filho respondeu: 'Não quero.' Mas depois se arrependeu e foi. O pai dirigiu-se ao outro filho, e disse a mesma coisa. Esse respondeu: 'Sim, senhor, eu vou.' Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?" Mt 21,28-30
    Por isso, Ele recomenda uma improvável aquisição de celestiais favores, como vemos na parábola do infiel administrador: "Eu digo-vos: fazei-vos amigos com a injusta riqueza, para que, no dia em que ela vos faltar, eles recebam-vos nos eternos tabernáculos." Lc 16,9
    Tal concessão a bem da obediência está em conformidade com o 'paradoxo da pacífica dominação', que Ele previu para a Nova Terra: "Felizes os mansos, porque possuirão a terra." Mt 5,5
    Ora, onde mais os pobres poderiam herdar alguma coisa senão segundo os planos de Deus? "Felizes os pobres, porque deles é o Reino do Céu." Mt 5,3
    Com efeito, havia muito um dos amigos de Jó já percebera os 'tortos' desígnios divinos: "Oh! Se Deus pudesse falar, e abrir Seus lábios para responder-te, revelar-te os mistérios da Sabedoria que são ambíguos para o espírito..." Jó 11,5-6a


CONTRA TODAS AS CHANCES 

    E a Vinda do Messias? Teria sido um acontecimento reservado apenas para os mais Santos e justos? Não, por certo. Deu-se num momento em que a humanidade, mesmo imersa no pecado, já tinha alguma maturidade para receber a mensagem do Deus de amor. Quantos, porém, perceberam-nO? Quantos ainda hoje não se veem contrariados diante do 'paradoxo do Deus morto'? No entanto, Jesus atestou o privilégio daquela geração, assim como dos Apóstolos: "Eu garanto a vocês: muitos Profetas e justos desejaram ver o que vocês estão vendo, e não puderam ver. Desejaram ouvir o que vocês estão ouvindo, e não puderam ouvir." Mt 13,17
    Pois segundo a lógica do povo judeu, o Salvador jamais poderia ser o Servo Sofredor, apesar de ter sido predito pelo Profeta Isaías. Assim como pareceu estranho a São Pedro e aos demais Apóstolos, eles não entendiam: "A multidão respondeu-Lhe: 'Nós temos ouvido da Lei que o Cristo permanece para sempre. Como dizes Tu: Importa que o Filho do Homem seja levantado? Quem é esse Filho do Homem?'" Jo 12,34
    E se os Doze pareciam uma comunidade muito pequena para ajudar a salvar tanta gente, bem como iniciar a construção do Reino de Deus, Jesus disse-lhes: "O Reino do Céu é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia em seu campo. Embora ela seja a menor de todas sementes, quando cresce, fica maior que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros do céu vêm e fazem ninhos em seus ramos." Mt 13,31-32
    Falando explicitamente quanto ao número de seus seguidores, Ele nos estimula! "Não temais, pequeno rebanho, porque foi do agrado de Vosso Pai dar-vos o Reino." Lc 12,32
    E o que poderia fazer tão pequena comunidade diante de um mundo tão violento? Isso é certamente mais um contrassenso, mas mesmo assim Jesus nos encoraja. "Eu envio-vos como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas." Mt 10,16
    Quanto à nossas limitações, observadas no dia-a-dia, Ele vai lembrar os auxílios de Deus: "Caminhando, viu Jesus um cego de nascença. Seus discípulos indagaram d'Ele: 'Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego?' Jesus respondeu: 'Nem este pecou nem seus pais, mas é necessário que nele se manifestem as obras de Deus.'" Jo 9,1-3
    Ou ainda: se a Ressurreição da carne parece um absurdo, temos aí mais um projeto de Deus com base em opostas naturezas. Diz São Paulo: "O mesmo acontece com a Ressurreição dos mortos: o corpo é semeado corruptível, mas ressuscita incorruptível; é semeado desprezível, mas ressuscita glorioso; é semeado na fraqueza, mas ressuscita cheio de força; é semeado corpo animal, mas ressuscita corpo espiritual." 1 Cor 15,42-44
    O Apóstolo dos Gentios, por sinal, entendia muito bem essas 'contradições': "Ninguém se engane a si mesmo. Se alguém dentre vós se julga sábio à maneira deste mundo, faça-se louco para tornar-se sábio, porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus. Pois diz a Escritura: 'Ele apanhará os sábios em sua própria astúcia (Jó 5,13).'" 1 Cor 3,18-19
    De singular inspiração, ele assim entendia o erro dos judeus ao não acolher o Cristo, prevendo que mais tarde eles O reconheceriam: "Mas de sua queda resultou a Salvação dos pagãos, para incitar-lhes o ciúme. E se seu pecado ocasionou a riqueza do mundo, e sua decadência a riqueza dos pagãos, que não fará sua conversão em massa?!" Rm 11,11b-12
    Ele mesmo experimentava, e sofridamente, a cruz de sua missão: "Ademais, para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para esbofetear-me e livrar-me do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim. Mas Ele disse-me: 'Basta-te Minha Graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente Minha força.'" 2 Cor 12,7-9a
    Sobre sua condição espiritual, pois, ele vai concluir: "Portanto, prefiro gloriar-me de minhas fraquezas, para que em mim habite a força de Cristo. Eis porque sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor a Cristo. Porque, quando me sinto fraco, então é que sou forte." 2 Cor 12,9b-10
    E foi nestes termos que ele expressou o poder do Evangelho nas mãos de meros seres humanos: "Porém, temos este tesouro em vasos de barro, para que claramente transpareça que este extraordinário poder provém de Deus e não de nós. Em tudo somos oprimidos, mas não sucumbimos. Vivemos em completa penúria, mas não desesperamos. Somos perseguidos, mas não ficamos desamparados. Somos abatidos, mas não somos destruídos. Sempre trazemos em nosso corpo os traços da morte de Jesus, para que também a Vida de Jesus se manifeste em nosso corpo. Estando embora vivos, somos a toda hora entregues à morte por causa de Jesus, para que também a Vida de Jesus apareça em nossa carne mortal. Assim em nós opera a morte, e em vós a Vida." 2 Cor 4,7-12
    Por isso, declarou: "O que é estulto no mundo, Deus escolheu para confundir os sábios. E o que é fraco no mundo, Deus escolheu para confundir os fortes. E o que é vil e desprezível no mundo, Deus escolheu, como também aquelas coisas que nada são, para destruir as que são." 1 Cor 1,27-28
    E evocava as Escrituras: "Está escrito: 'Destruirei a sabedoria dos sábios, e anularei a prudência dos prudentes (Is 29,14).'" 1 Cor 1,19
    Ora, não foi exatamente isso o que viveram os Apóstolos nos primeiríssimos anos da Igreja? "Chamaram os Apóstolos e mandaram açoitá-los. Ordenaram-lhes então que não pregassem mais em Nome de Jesus, e soltaram-nos. Eles saíram da sala do Grande Conselho, cheios de alegria, por terem sido achados dignos de sofrer afrontas pelo Nome de Jesus." At 5,40-41
    São Paulo bem percebeu as consequências de seus sacrifícios: "Meus irmãos, quero fazer-vos saber que os acontecimentos que me envolvem estão redundando em maior proveito do Evangelho. Em todo o pretório e por toda parte tornou-se conhecido que é por causa de Cristo que estou preso. A maior parte dos irmãos, ante a notícia de minhas cadeias, cobrou nova confiança no Senhor e maior entusiasmo em anunciar, sem temor, a Palavra de Deus. É verdade que alguns pregam Cristo por inveja a mim e por discórdia, mas outros o fazem com a melhor boa vontade." Fl 1,12-15
    O que não pode acontecer, pois, é que fiquemos do lado dos insensíveis, sem enxergar os mais gritantes sinais dos Céus: "Jesus então disse: 'Vim a este mundo para fazer uma discriminação: os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos.'" Jo 9,39
    Era isso o que Ele mais condenava nos religiosos de então: o desprezo pelos verdadeiros valores espirituais: "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os mais importantes preceitos da Lei: a justiça, a Misericórdia, a fidelidade. Eis o que era preciso praticar em primeiro lugar, sem contudo deixar o restante. Guias cegos! Filtrais um mosquito e engolis um camelo." Mt 23,23-24
    E invocando a já reverenciada ciência, Ele acenava com o estrondoso sinal que seria Sua Ressurreição: "Ele respondeu-lhes: 'Quando vem a tarde, dizeis: 'Haverá bom tempo, porque o céu está avermelhado.' E de manhã: 'Hoje haverá tormenta, porque o céu está de um vermelho sombrio.' Hipócritas! Sabeis distinguir o aspecto do céu e não podeis discernir os sinais dos tempos? Essa raça perversa e adúltera pede um milagre! Mas não lhe será dado outro sinal senão o de Jonas!'" Mt 16,2-4a
    Mas Ele também advertia que nem mesmo Sua Ressurreição levaria empedrados corações à conversão, como revelou na parábola do rico, que vai para o inferno, e do mendigo Lázaro, que vai para o Céu: "O rico disse: 'Rogo-te então, pai, que mandes Lázaro à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos, para testemunhar-lhes, a fim de que não aconteça virem também eles parar neste lugar de tormentos.' Abraão respondeu: 'Eles lá têm Moisés e os Profetas. Ouçam-nos!' O rico replicou: 'Não, pai Abraão. Mas se for a eles algum dos mortos, arrepender-se-ão.' Abraão respondeu-lhe: 'Se não ouvirem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite algum dos mortos.'" Lc 16,27-31
    Por isso, e por mais contraditório que pareça, Ele avisou que provocaria divisões ainda mais sérias: "Não julgueis que vim trazer a Paz à terra. Vim trazer não a Paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa. Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a Mim, não é digno de Mim. Quem ama seu filho mais que a Mim, não é digno de Mim." Mt 10,34-37
    E assim deve ser nossa opção: temos que nos juntar aos que mais sofrem: "Se alguém quiser vir Comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-Me." Mt 16,24
    Pois foi na Cruz que Jesus chegou à Glória: "Respondeu-lhes Jesus: 'É chegada a hora para o Filho do Homem ser glorificado.'" Jo 12,23
    Nela Ele atingiria o ápice de Sua Missão: "E quando Eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a Mim." Jo 12,32
    E isto apesar de a crucificação representar, segundo as próprias Escrituras, o mais terrível castigo: "... porque aquele que é pendurado é um objeto de maldição divina." Dt 21,23b
    Ainda que diante de paradoxos, portanto, não se deve perder a fé e a esperança, nem se deixar levar pela tristeza. O já vasto testemunho dos Santos comprovam que devemos perseverar confiantes no Cristo, mesmo contra todas as probabilidades. Com razão, mesmo que misterioso e 'escrevendo por linhas tortas', Deus é fiel. E apesar de citar grandes adversidades, Jesus garantiu: "Em verdade, em verdade, digo-vos: haveis de lamentar e chorar, mas o mundo há de alegrar-se. E haveis de estar tristes, mas vossa tristeza há de transformar-se em alegria." Jo 16,20
    E essa é a verdadeira alegria, que é fruto do sofrer cristão diante da pecaminosidade desse mundo. São Pedro referia-se assim à Salvação: "É isto que constitui vossa alegria, apesar das passageiras aflições ainda a serem-vos causadas por diversas provações, para que a prova a que é submetida vossa fé (mais preciosa que o ouro perecível, o qual, entretanto, não deixamos de provar ao fogo) redunde para vosso louvor, para vossa honra e para vossa glória, quando Jesus Cristo Se manifestar." 1 Pd 1,6-7
    Ele diz mais: "E até sereis felizes, se padecerdes alguma coisa por causa da justiça! Portanto, não temais suas ameaças e não vos turbeis. Antes em vossos corações santificai Cristo, o Senhor. Estai sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito." 1 Pd 3,14-15
    Pois o Cristo certamente oferecerá a definitiva cura de todos os males àqueles que enfrentarem as tribulações, como foi registrado da visão celestial que teve São João Evangelista: "Já não terão fome, nem sede, nem o sol ou calor algum os abrasará, porque o Cordeiro, que está no meio do trono, será o Seu Pastor e levá-los-á às fontes de Águas Vivas..." Ap 7,15b-16a

    "Jesus Cristo deu-nos Vida por Sua Morte!"

domingo, 17 de junho de 2018

A Missão de Jesus


    Muitos descreem da divindade de Jesus, assim como do Reino de Deus que Ele instaurou, por questionarem se Ele seria realmente o Salvador, e, mais pontualmente, de que nos teria salvado. Essas pessoas, porém, têm em geral uma visão muito materialista da vida. Soubessem a importância do perdão dos pecados, ou conhecessem a Paz espiritual que ele proporciona, não duvidariam da manifestação do Cristo, pois, como disse São João Batista, Sua Missão é exatamente essa: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo." Jo 1,29
    Também foi o que disse a São José seu Anjo da Guarda, ao explicar a gravidez de Nossa Senhora: "Ela dará à luz um Filho, a Quem porás o Nome de Jesus, porque Ele salvará Seu povo de seus pecados." Mt 1,21
    Disse o mesmo o sacerdote Zacarias, pai de São João Batista, ao chamar seu filho de Profeta do Altíssimo, logo após seu nascimento: "E tu, menino, serás chamado Profeta do Altíssimo. Porque precederás o Senhor e Lhe prepararás o Caminho, para dar ao Seu povo conhecer a Salvação, pelo perdão dos pecados." Lc 1,76-17
    Igualmente São Pedro, após a Ascensão de Jesus, quando pregava aos judeus no Templo de Jerusalém: "Foi em primeiro lugar para vós que Deus suscitou Seu Servo, para abençoar-vos, a fim de que cada um se aparte de sua iniquidade." At 3,26
    E ainda São João Evangelista, numas das definições que deu do amor de Deus: "Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ter-nos Ele amado, e enviado Seu Filho para expiar nossos pecados." 1 Jo 4,10
    O religioso Simeão, homem ungido pelo Espírito Santo e que estava no Templo quando o Menino Jesus foi apresentado, não via na Vinda do Salvador o fim do mundo, como ainda acreditam os judeus, mas a Verdadeira Luz a iluminar as trevas espirituais e confirmar as revelações do Antigo Testamento: "Agora, Senhor, deixai ir em Paz Vosso servo, segundo Vossa Palavra. Porque meus olhos viram Vossa Salvação que preparastes diante de todos os povos, como Luz para iluminar as nações, e para a Glória de Vosso povo de Israel." Lc 2,30-32
    De fato, Jesus vai confirmar essa profecia ao iniciar Sua vida pública: "Eu sou a Luz do mundo; aquele que Me segue não andará em trevas, mas terá a Luz da Vida." Jo 8,12
    São João Evangelista, no mesmo sentido, vai testemunhá-Lo: "O Verbo era a Verdadeira Luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem." Jo 1,9
    Mas atestando o antigo dilema entre o poder e o amor, a matéria e o espírito, a manifestação do Cristo haveria mesmo de denunciar a cobiça e o hedonismo, e assim dividir o mundo. E isso, da mesma forma, havia sido previsto com absoluta precisão por Simeão, ainda na Apresentação do Menino Jesus, quando disse a Maria: "Eis que este Menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações." Lc 2,34-35
    E para a surpresa de Nossa Senhora e São José, a Missão de Jesus começou muito cedo. Aos doze anos, ao ser encontrado no Tempo de Jerusalém interrogando os doutores da Lei, Ele vai dizer à Sua Mãe, que com São José O procurou por três dias após a Páscoa: "Não sabíeis que devo estar na Casa de Meu Pai?" Lc 2,49
    No entanto, enquanto Deus que Se fez homem, Ele precisava amadurecer. E na condição humana passou por quase tudo que passamos: "E Jesus crescia em estatura, em Sabedoria e Graça, diante de Deus e dos homens." Lc 2,52
    Exceto o pecado, como afirmam os seguidores da tradição de São Paulo: "... passou pelas mesmas provações que nós, com exceção do pecado." Hb 4,15
    Assim teve que enfrentar todas experiências e contrariedades desse mundo, e Seus sofrimentos, especialmente durante a Paixão, não foram amenizados pelo Pai: "Embora fosse Filho de Deus, aprendeu a obediência por meio dos sofrimentos que teve." Hb 5,8
    São Paulo diz: "Sendo Ele de condição divina, não Se prevaleceu de Sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-Se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-Se ainda mais, tornando-Se obediente até a morte, e morte de Cruz." Fl 2,6-8
    Pois para redimir-nos dos pecados, que é precisamente Sua Missão, também teve que cumprir fielmente os preceitos da Lei judaica: "Mas quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho, que nasceu de uma mulher e nasceu submetido a uma lei, a fim de remir os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos Sua adoção." Gl 4,4-5
    Foi o que Jesus mesmo disse a São João Batista, ao insistir que ele O batizasse: "Deixa estar por enquanto, pois convém cumpramos toda justiça." Mt 3,15
    E como anunciava e garantia o Caminho da Redenção, desde Suas primeiras pregações Ele avisava da perenidade dos planos de Deus: "Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim para aboli-los, mas sim para levá-los à perfeição." Mt 5,17
    Noticiava, nestes termos, a chegada do Reino dos Céus, que começa já nesse mundo e perpetua-se na Vida Eterna: "Eu vim para que as ovelhas tenham Vida, e Vida plena." Jo 10,10
    Mais de uma vez, então, Ele falou da Redenção das almas: "O Filho do Homem não veio para condenar as almas, mas para salvá-las." Lc 9,56
    Como explicou aos Apóstolos na primeira Aparição, no Domingo da Ressurreição, vemos que Sua Vinda é um claro convite à conversão, através do arrependimento e das penitências: "Assim é que está escrito, e assim era necessário que Cristo padecesse, mas que ressurgisse dos mortos ao terceiro dia. E que em Seu Nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados a todas nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas de tudo isso." Lc 24,46-48
    É exatamente o que Ele anunciava desde as primeiras pregações: "Desde então, Jesus começou a pregar: 'Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo.'" Mt 4,17
    Por isso, quando enviou os Apóstolos, deu-lhes a mesma missão: "Então chamou os Doze e começou a enviá-los, dois a dois... Eles partiram e pregaram a penitência." Mc 6,7.12
    Não há exagero, portanto, quando Ele descreve Sua Missão como o grande resgate dos que vivem nas trevas: "Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido." Lc 19,10
    Ele disse-o mais de uma vez: "Jesus, ouvindo isto, respondeu-lhes: "Não são os que estão bem que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide e aprendei o que significam estas palavras: 'Eu quero a misericórdia e não o sacrifício (Os 6,6).' Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores." Mt 9,12-13
    São Paulo vai dizer o mesmo a São Timóteo: "Eis uma verdade absolutamente certa e merecedora de : Jesus Cristo veio a este mundo para salvar os pecadores..." 1 Tm 1,15a
    Para que ficasse claro a importância de Seu perdão, Ele demonstrou-o na passagem em que primeiro absolve os pecados de um paralítico, para só depois curá-lo: "Eis que Lhe apresentaram um paralítico estendido numa padiola. Jesus, vendo a fé daquela gente, disse ao paralítico: 'Meu filho, coragem! Teus pecados são-te perdoados.'" Mt 9,2
    E para quem duvida de Sua Palavra, Ele propôs essa experiência: "Se alguém quiser cumprir a vontade de Deus, distinguirá se Minha Doutrina é de Deus ou se falo de Mim mesmo." Jo 7,17
    Não deixava, contudo, de oferecê-La: "Tomai Meu jugo sobre vós e recebei Minha Doutrina, porque Eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para vossas almas." Mt 11,29
    Seu empenho em divulgar o Evangelho, aliás, bem revela a vital importância de Seus ensinamentos: "Ao amanhecer, Ele saiu e retirou-Se para um lugar afastado. As multidões procuravam-nO, foram até onde Ele estava e queriam detê-Lo, para que não as deixasse. Mas Ele disse-lhes: 'É necessário que Eu anuncie a Boa Nova do Reino de Deus também às outras cidades, pois é para isso que fui enviado." Lc 4,42-43
    Ele veio, portanto, para tirar-nos das trevas da dúvida e da ignorância, mostrando-nos o Caminho para o Pai, como afirmou diante de Pilatos: "É para dar testemunho da Verdade que nasci e vim ao mundo. Todo aquele que é da Verdade ouve Minha voz." Jo 18,37
    Pois Ele é a própria Verdade, exclusivo Caminho para o Céu: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por Mim." Jo 14,6b
    E Ele confiou Seus ensinamentos à Igreja, à qual garantiu Sua constante presença e proteção: "Ide, pois, e ensinai a todas nações. Batizai-as em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo." Mt 28,19-20a


DEUS FEZ-SE HOMEM

    Mas tamanha era a humanidade de Jesus, e nós sempre esquecemos que somos imagem e semelhança de Deus, que muitos ficavam em dúvida quanto à Sua Divina Encarnação, como aconteceu com o próprio São João Batista: "Tendo João, em sua prisão, ouvido falar das obras de Cristo, mandou-Lhe dizer por seus discípulos: 'Sois vós Aquele que deve vir, ou devemos esperar por outro?'" Mt 11,2-3
    E Ele, para ser mais contundente, vai responder citando a profecia de Isaías que O anunciava: "Respondeu-lhes Jesus: 'Ide e contai a João o que ouvistes e o que vistes: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, o Evangelho é anunciado aos pobres... Bem-aventurado aquele para quem Eu não for ocasião de queda!'" Mt 11,4-6
    Noutra ocasião, contudo, Ele vai declarar abertamente Sua Missão de Redentor de toda humanidade: "Pois desci do Céu não para fazer Minha vontade, mas a vontade d'Aquele que Me enviou. Ora, Sua vontade é esta: que Eu não deixe perecer nenhum daqueles que Me deu, mas que os ressuscite no Último Dia. Esta é a vontade de Meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e n'Ele crê, tenha a Vida Eterna. E Eu o ressuscitarei no Último Dia." Jo 6,38-40
    E vai condicionar a crença em Sua divindade ao perdão de nossas faltas, e a incredulidade, à morte: "... se não crerdes que EU SOU, morrereis em vosso pecado." Jo 8,24
    Ademais, conforme 'o sinal de contradição' predito por Simeão, quanto à falsa estabilidade que se busca nessa vida e à difícil aceitação que Ele teria no mundo, vai dizer: "Não julgueis que vim trazer a Paz à terra. Vim trazer não a Paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de Sua própria casa." Mt 10,34-36
    Com efeito, sobre Sua Paixão, que atrairia para Si todos que sofrem injustiças, o sumo sacerdote Caifás falará pelo Espírito Santo: "E ele não disse isso por si mesmo, mas, como era o sumo sacerdote daquele ano, profetizava que Jesus havia de morrer pela nação, e não somente pela nação, mas também para que fossem reconduzidos à unidade os dispersos filhos de Deus." Jo 11,51-52
    Ele mesmo diria: "E quando Eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a Mim." Jo 12,32
    Esse, no entanto, seria mais um capítulo de difícil compreensão para muitos, incluindo os próprios Apóstolos. É o paradoxo do Deus que morre, como Ele mesmo anunciava: "E começou a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do Homem muito padecesse, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas, e fosse morto, mas ressuscitasse depois de três dias." Mc 8,31
    Mas essa profecia, antes que um fatídico acidente, era a própria vontade do Pai, que vai ser deliberadamente realizada pelo Filho: "Ninguém tira Minha vida; Eu dou-a livremente. Tenho poder para dar a vida e tenho poder para retomá-la. Esse é o Mandamento que recebi de Meu Pai." Jo 10,18
    E Ele foi ainda mais específico ao estabelecer o nexo entre Sua Paixão e a Salvação da humanidade: "Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar Sua vida em Redenção por muitos." Mc 10,45
    Serviu-nos, pois, Sua própria Carne e Seu Sangue como alimento da Vida Eterna: "Então lhes disse Jesus: 'Em verdade, em verdade, digo-vos: se não comerdes a Carne do Filho do Homem, e não beberdes Seu Sangue, não tereis a Vida em vós mesmos. Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue tem a Vida Eterna, e Eu o ressuscitarei no Último Dia. Pois Minha Carne é verdadeiramente uma comida e Meu Sangue, verdadeiramente uma bebida. Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue permanece em Mim e Eu nele. Assim como o Pai que Me enviou vive, e Eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer Minha Carne viverá por Mim.'" Jo 6,53-57
    Quem, porém, vê algum desconforto em enfrentar a vida entre arrependimento e penitências, erra em imaginar que Jesus veio convidar-nos para uma vida só de alegrias aqui na terra. Pelo contrário, Ele mesmo avisou: "No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo." Jo 6,33
    São Paulo explica assim o sentido de Sua Paixão: "... segundo meu Evangelho, na pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério, guardado em segredo durante séculos, mas agora manifestado por ordem do Eterno Deus e, por meio das Escrituras Proféticas, dado a conhecer a todas nações, a fim de levá-las à obediência da fé..." Rm 16,25-26
    Assim, bem ao modo das tradições judaicas, Seu Sacrifício serviu para a expiação definitiva de nossas faltas: "Pois se sangue de carneiros e de touros e a cinza de uma vaca, com que se aspergem os impuros, santificam e purificam pelo menos os corpos, quanto mais o Sangue de Cristo, que pelo Eterno Espírito Se ofereceu como vítima sem mácula a Deus, purificará nossa consciência das obras mortas para o serviço do Deus vivo?" Hb 9,13-14
    A purificação, portanto, está aí ao nosso alcance, pela Confissão. Pois, como se pode concluir, a Missão de Jesus foi cumprida com pleno êxito: "Depois de ter realizado a purificação dos pecados, está sentado à direita da Majestade no mais alto dos Céus..." Hb 1,3b
    Mas, tal e qual falou a mulher adúltera, Ele diz a todos nós: "Vai, e não tornes a pecar." Jo 8,11a
    Argumentando sob a mesma ótica do binômio pecado e perdão, São João Evangelista vai justificar a intenção de sua carta. No entanto, prevendo possíveis faltas, também veio ao nosso conforto: "Filhinhos meus, isto vos escrevo para que não pequeis. Mas, se alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo." 1 Jo 2,1
    Já os seguidores da tradição de São Paulo trataram de assegurar-nos a eficácia do ministério de Jesus: "Eis porque Cristo entrou, não em santuário feito por mãos de homens, que fosse apenas figura do santuário verdadeiro, mas no próprio Céu, para agora Se apresentar nosso intercessor ante a face de Deus." Hb 9,24

CONFORME AS PROFECIAS

    Como visto, Nosso Salvador foi previsto como a Luz, o Libertador da escravidão do pecado, como foi dito através do Profeta Isaías: "Eu, o Senhor, realmente chamei-Te, Eu segurei-Te pela mão, Eu formei-Te e designei para ser a Aliança com os povos, a Luz das nações. Para abrir os olhos aos cegos, para tirar do cárcere os prisioneiros e da prisão aqueles que vivem nas trevas." Is 42,6-7
    Era assim que São Pedro divulgava o Cristo, falando mesmo em exorcismo: "Ele andou fazendo o bem e curando a todos que estavam dominados pelo demônio, porque Deus estava com Ele." At 10,38b
    São João Evangelista é ainda mais direto: "Eis porque o Filho de Deus Se manifestou: para destruir as obras do demônio." 1 Jo 3,8b
    E São Paulo diz algo parecido: "... Senhor Jesus Cristo, que Se entregou por nossos pecados, para libertar-nos da perversidade do presente mundo..." Gl 1,4a
    Desta forma, ainda segundo a Palavra de Deus registradas por Isaías, Ele veio salvar aqueles que O abraçam e divulgar a Salvação aos que ainda resistem a Seu projeto: "Não basta que sejas Meu Servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os fugitivos de Israel. Vou fazer de Ti a Luz das nações, para propagar Minha Salvação até os confins do mundo." Is 49,6
    Mas como disse Simeão, Ele não seria uma unanimidade nem mesmo entre Seu povo, ou sequer na cidade mais desenvolvida de Sua nação, onde muitos conheciam as Escrituras. Isaías previu: "Ele será a pedra de escândalo e a pedra de tropeço para as duas casas de Israel, o laço e a cilada para os habitantes de Jerusalém." Is 8,14
    Mesmo assim, como uma pequena semente lançada em Israel, Ele tornou-Se o maior líder de todos os tempos. Porque, segundo as palavras ditas através do Profeta Miqueias, é Ele que apascenta e protege o rebanho de Deus: "'Mas tu, Belém-Efrata, tão pequena entre os clãs de Judá, é de ti que sairá para Mim Aquele que é chamado a governar Israel. Suas origens remontam aos tempos antigos, aos dias do longínquo passado.' Por isso, Deus os deixará, até o tempo em que der à luz Aquela que há de dar à luz. Então o resto de Seus irmãos voltará para junto dos filhos de Israel. Ele levantar-Se-á para apascentá-los com o poder do Senhor, com a majestade do Nome do Senhor, Seu Deus. Os Seus viverão em segurança, porque Ele será exaltado até os confins da terra." Mq 5,1-3
    Pois ao divulgar o Nome do Pai, Jesus promove a Unidade da Igreja pelo exemplo dos Apóstolos, que são seus fundamentos: "Pai Santo, guarda-os em Teu Nome, que Me encarregaste de fazer conhecido, a fim de que sejam um como Nós." Jo 17,11b
    E assim, pela unidade em torno do Papa, a própria Glória de Deus passou a ser o sinal da Igreja: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e amaste-os, como amaste a Mim." Jo 17,22-23


REDENÇÃO PELO ESPÍRITO DE DEUS, ATRAVÉS DA IGREJA

    Por fim, para o pleno sucesso de Sua Missão, Jesus enviou o Espírito de Deus para confirmar todos Seus ensinamentos: "Quando vier o Paráclito, que vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, Ele dará testemunho de Mim." Jo 15,26
    E também como estava previsto através de Isaías, é Ele que nos mantém longe do pecado: "Mas virá como Redentor a Sião, e aos filhos arrependidos de Jacó - Oráculo do Senhor. 'Eis Minha Aliança com eles', diz o Senhor: 'Meu Espírito que sobre ti repousa, e Minhas palavras que coloquei em tua boca não deixarão teus lábios nem os de teus filhos, nem os de seus descendentes', diz o Senhor, 'desde agora e para sempre.'" Is 59,20-21
    Pois sobre os Sacerdotes da Igreja Jesus derramou Seu Espírito para conceder o perdão dos pecados: "Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos." Jo 20,22-23
    Sem dúvida, é o Divino Paráclito que nos convence de nossas ofensas, como disse Jesus: "Convencerá o mundo a respeito do pecado, que consiste em não crer em Mim." Jo 16,9
    É, portanto, por Sua unção que recebemos a libertação do pecado: "Porquanto não recebestes um espírito de escravidão, para viverdes ainda no temor, mas recebestes o Espírito de adoção pelo qual clamamos: Aba! Pai!" Rm 8,15
    Eis porque São Tiago Menor estimula bem mais que a mera Confissão ao Sacerdote: "Confessai os vossos pecados uns aos outros..." Tg 5,16
    São João Evangelista corrobora: "Se confessarmos nossos pecados, Deus está aí, fiel e justo para perdoar-nos os pecados e para purificar-nos de toda iniquidade." 1 Jo 1,9
    Quanto a quem pode ministrar os Sacramentos, São Tiago Menor foi absolutamente restritivo: "Chame os Sacerdotes da Igreja..." Tg 5,14
    Porque foi para a instituição da Igreja, e consequentemente para a concessão do perdão, que Jesus derramou Seu preciosíssimo Sangue, como diz São João Evangelista: "Àquele que nos ama, que nos lavou de nossos pecados no Seu Sangue e que fez de nós um Reino de Sacerdotes para Deus e Seu Pai, Glória e poder pelos séculos dos séculos! Amém." Ap 1,5b-6
    E denunciando o Sinédrio e atestando a redentora Missão do Cristo, São Pedro confirma a presença do Divino Paráclito na Igreja pela obediência que devotamos ao Pai: "O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, que vós matastes, suspendendo-O num madeiro. Deus elevou-O pela mão direita como Príncipe e Salvador, a fim de dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados. Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem.'" At 5,30-32
    Assim o Espírito de Deus passou a ser a marca dos cristãos, segundo São João Evangelista ao falar sobre os ensinamentos de Jesus: "Quem observa Seus Mandamentos permanece em Deus e Deus nele. É nisto que reconhecemos que Ele permanece em nós: pelo Espírito que nos deu." 1 Jo 3,24
    Por isso, logo após a manifestação do Santo Paráclito no Pentecostes, São Pedro exortou todos ali presentes à Confissão: "Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em Nome de Jesus Cristo para remissão de vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vós, para vossos filhos e para todos que de longe ouvirem o apelo do Senhor, Nosso Deus." At 2,38-39
    E assim reagiam diante São Paulo todos que se deixavam tocar pela Palavra: "Muitos dos que haviam acreditado vinham confessar e declarar suas obras." At 19,18
    Ele ensinava: "Mortificai, pois, vossos membros no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria." Cl 3,5
    Não por acaso, o Apóstolo dos Gentios vê no Espírito de Cristo a garantia da Glória de Deus: "Ele marcou-nos com Seu selo, e aos nossos corações deu o penhor do Espírito." 2 Cor 1,22
    Ele pedia: "Não contristeis o Espírito Santo de Deus, com o Qual estais selados para o Dia da Redenção." Ef 4,30
    E instava: "Não extingais o Espírito." 1 Ts 5,19
    São João Evangelista, com muita propriedade, faz essa síntese da Missão do Cristo: "Veio para o que era Seu, mas os Seus não O receberam. Mas a todos aqueles que O receberam, aos que creem no Seu Nome, deu-lhes o poder de tornarem-se filhos de Deus..." Jo 1,11-12
    Ele testemunha: "Aquele que era desde o princípio, Aquele que temos ouvido, Aquele que temos visto com os nossos olhos, Aquele que temos contemplado e as nossas mãos têm apalpado no tocante ao Verbo da Vida - porque a Vida se manifestou, e nós a temos visto; damos testemunho e anunciamo-voss a Vida Eterna, que estava no Pai e que se nos manifestou -, Aquele que vimos e ouvimos nós vos anunciamos, para que também vós tenhais Comunhão conosco." 1 Jo 1,1-3
    Pois como disse São João Batista, o que realmente sabemos sobre Deus, "O Filho único, que está no seio do Pai, foi Quem O revelou." Jo 1,18
    O Amado Discípulo completa: "Sabemos que o Filho de Deus veio e deu-nos entendimento para conhecermos o Verdadeiro. E estamos no Verdadeiro, nós que estamos em Seu Filho Jesus Cristo. Este é o Verdadeiro Deus e a Vida Eterna." 1 Jo 5,20
    E explicitando o poder de Sua Palavra, Jesus diz: "Desse modo, todos honrarão o Filho, bem como honram o Pai. Aquele que não honra o Filho, não honra o Pai, que O enviou." Jo 5,23
    Ficamos, pois, com uma frase de São Paulo na carta a São Tito, que bem detalha tanto a Missão de Jesus como Sua identidade: "Veio para ensinar-nos a renunciar à impiedade e às mundanas paixões e a viver neste mundo com toda sobriedade, justiça e piedade, na expectativa da nossa feliz esperança, a Gloriosa Aparição de Nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo, que Se entregou por nós, a fim de resgatar-nos de toda iniquidade, purificar-nos e constituir-nos Seu povo de predileção, zeloso na prática do bem." Tt 2,12-14

    "Jesus Cristo deu-nos vida por Sua morte!"