sábado, 30 de junho de 2018

Primeiros Santos Mártires de Roma


    No quente verão do ano de 64, abrindo espaço para seus megalômanos projetos urbanísticos, criminosamente Nero mandou atear fogo em algumas construções no centro de Roma, que eram em maioria de madeira e palha, e acabou queimando até às cinzas boa parte da cidade durante seis dias. Para eximir-se das acusação, que logo vazaria por revoltados inconfidentes, ele culpou os cristãos, a maior e mais transformadora novidade que se deu na capital do Império Romana, aos quais cultuava ódio por não lhe reverenciarem como deus.
    Assim, ele deflagrou a primeira grande perseguição à Igreja, ordenando o massacre de todos os seguidores, com maior emprego de crueldade possível, e apressou-se em assassinar São Pedro, por inveja de seu carisma e por ser o representante máximo de Cristo, e pouco depois também São Paulo.
   Milhares de cristãos entregaram suas almas a Deus nesse período, e padecendo bestiais brutalidades: as mulheres eram ultrajadas dos mais infames modos; nem mesmo crianças e idosos tiveram suas vidas poupadas. Para tornar o 'espetáculo' ainda mais apelativo, todas formas de execução foram permitidas.
    Mas todos morriam sem renegar a em Cristo, fato que, em favor dos argumentos de Nero, ajudou a difundir entre os romanos que os cristãos 'não gostavam de viver' e 'odiavam o ser humano'.
    Os jardins, onde o imperador Calígula havia construído um circo, passaram a ser usados por Nero também para um espetáculo 'circense' com os mais horrendos sacrifícios, mas agora como uma 'festa' popular de massivas execuções que se estenderam por 3 tenebrosos anos: flecha após flecha os cristãos eram alvejados deixando por último artérias e órgãos vitais; dilacerados e mutilados a golpes de espadas para lentamente morrerem, ou simplesmente decapitados; feridos e esmagados com bizarras armas letais; destroçados por cavalos e bigas de guerra em alta velocidade; soltos na arena para o ataque de furiosos touros, grandes felinos e famintos leões; mortos na fogueira ou por armas em brasa; hediondas torturas, crucificações e as insanas 'tochas humanas', quando eram untados com piche para arder em chamas 'iluminando' a noite.
    À luz do dia, as vítimas eram banhadas em sangue e revestidos com peles de animais, para o escárnio e espancamento dos cidadãos romanos, e depois jogadas para serem atacadas e devoradas por famintos cachorros nas ruas. Para presenciar e incitar tais atrocidades, o próprio Nero misturava-se ao povo, disfarçado, ou ensandecidamente conduzia sua própria biga, dando voltas na arena dos jardins.


    Em seus últimos anos, São Paulo deixou na carta a São Timóteo um registro do medo e da resignação entre os cristãos, por força dos tristes espetáculos que estavam em curso: "Na minha primeira defesa, ninguém me assistiu, todos me abandonaram. Que isto não lhes seja levado em conta. Mas o Senhor veio em meu auxílio e deu-me forças. Assim, pude completar a proclamação da mensagem, para que todas nações a ouçam. E eu fui libertado da boca do leão." 2 Tm 4,17
    São João Evangelista menciona esses mártires no livro do Apocalipse, que foi escrito ao fim do século I: "Então um dos Anciãos falou comigo e perguntou-me: 'Esses, que estão revestidos de vestes brancas, quem são e de onde vêm?' Respondi-lhe: 'Meu Senhor, tu o sabes!' E ele disse-me: 'Esses são os sobreviventes da grande tribulação. Lavaram suas vestes e alvejaram-nas no Sangue do Cordeiro.'" Ap 7,13-14
    Ele também mencionou os sacrifícios de São Pedro e São Paulo, porém usando termos codificados, como fez em todo livro para que não fosse censurado e destruído, pois as perseguições continuavam: "Mas incumbirei às Minhas duas testemunhas, vestidas de saco, de profetizarem por mil duzentos e sessenta dias. São eles as duas oliveiras e os dois candelabros que se mantêm diante do Senhor da terra. Entretanto, depois de terem terminado integralmente seu testemunho, a Fera que sobe do abismo lhes fará guerra, vencê-los-á e matá-los-á. Seus cadáveres jazerão na rua da grande cidade que espiritualmente se chama Sodoma e Egito (onde Seu Senhor foi crucificado). Muitos dentre os povos, tribos, línguas e nações virão para vê-los por três dias e meio, e não permitirão que sejam sepultados. Os habitantes da terra alegrar-se-ão por causa deles, felicitar-se-ão mutuamente e mandarão presentes uns aos outros, porque esses dois Profetas tinham sido seu tormento." Ap 11,3-4.7-10


    O termo 'protomártires', em grego, designa esses primeiros mártires cristãos, sacrifício que séculos mais tarde muitas nações também viriam a padecer, como durante a invasão da Terra Santa, pelos muçulmanos, a 'Reforma Protestante', patrocinada por príncipes e senhores feudais, mas também alguns movimentos ditos 'humanistas' como a celebrada Revolução Francesa, a instalação do Comunismo pelo mundo, iniciada na Rússia, e abjeta a Guerra Civil Espanhola, todas levadas a cabo pelo ateísmo militante.
    E todos esses mártires têm no diácono Santo Estevão o primeiríssimo exemplo, cujo sacrifício se deu ainda no tempo dos Apóstolos, pouco depois do Pentecostes, e que em breve seria seguido por São Tiago Maior, primeiro Apóstolo a ser martirizado, assim como mais tarde foram todos os demais, à exceção de São João Evangelista, exatamente como profetizou Jesus. De fato, diante dos questionamentos de São Pedro sobre o destino do amado discípulo, Ele também o interrogou: "Respondeu-lhe Jesus: 'Que te importa se Eu quero que ele fique até que Eu venha? Segue-Me tu.' Correu, por isso, o boato entre os irmãos de que aquele discípulo não morreria. Mas Jesus não lhe disse: 'Não morrerá', mas: 'Que te importa se quero que ele fique assim até que Eu venha?'" Jo 21,22-23
    Essa carnificina perpetrada por Nero, em específico, que durou de 64 até sua morte, em 67, explica, pelo absoluto caos que instalou entre os cristãos, os poucos registros que atestam Roma como a sede da Igreja, a Primazia de Pedro como líder de todos os cristãos e os sacrifícios dele e de São Paulo. Com efeito, como prova de um desmonte quase total do cerne da Comunidade Messiânica, o livro dos Atos dos Apóstolos, escrito por São Lucas, simplesmente para no tempo, é uma obra inacabada.
    Eis porque São Clemente, que foi o quarto Papa entre os anos de 88 e 97, vai atestar o 'martírio', que é o sentido original da palavra 'testemunho', como autêntico destino de um cristão, a inspiração da nossa Santa Missa: "Encontramo-nos na mesma arena e combatemos o mesmo combate. Deixemos as inúteis preocupações e os vãos cuidados e voltemo-nos para a gloriosa e venerável regra da nossa tradição: consideremos o que é belo, o que é bom e o que é agradável ao Nosso Criador."
    É a partir destes tempos que surgem as catacumbas subterrâneas de Roma, muitas delas atribuídas a São Calisto, que eram construídas ao longo dos lados das estradas com objetivo de secretamente, mas com os devidos cerimoniais, sepultar os cristãos, e mais tarde possibilitar as rezas e cultos junto a seus túmulos, prática esta que se perpetrou até as primeiras décadas do século IV. Algumas dessas catacumbas chegam a ter cinco andares e dezenas de quilômetros. São evidências de um costume judeu, que depositavam os corpos de seus mortos em largos sepulcros escavados em rochas ou encostas, com espaço para entes de toda família. Aliás, como foi o próprio sepulcro de Jesus.


    Inversamente, porém, tamanha crueldade de Nero, associada ao destemor e exemplo de fé dos cristãos, ao longo daqueles anos terminaram por conquistar a compaixão e a alma da grande maioria dos romanos, que vieram a conhecer o Evangelho e maravilharam-se com a resignação e o amor a Deus demonstrados. Sem dúvida, só Deus e a firme convicção da Vida Eterna poderiam consolar e animar aquelas almas.
    Por isso, concluiu Tertuliano, historiador que viveu entre os anos de 160 e 220: "O sangue dos mártires é a semente dos cristãos."
    E o próprio Jesus havia anunciado esse 'testemunho', que se iniciaria ainda em Israel: "Cuidai-vos dos homens. Eles levar-vos-ão a seus tribunais e açoitar-vos-ão com varas em suas sinagogas. Sereis por Minha causa levados diante dos governadores e dos reis: servireis assim de testemunho para eles e para os pagãos." Mt 10,17-18
    Eram patentes sacrifícios, como se veem ainda hoje: "Então sereis entregues aos tormentos, matar-vos-ão e sereis por Minha causa objeto de ódio para todas nações." Mt 24,9
    E chegaria ao seio familiar, como flagrantemente se viu no Comunismo: "Sereis entregues até por vossos pais, vossos irmãos, vossos parentes e vossos amigos, e matarão muitos de vós. Sereis odiados por todos por causa do Meu Nome." Lc 21,16-17
    Esse era o batismo de que Jesus havia falado aos Apóstolos São Tiago Maior e São João Evangelista, quando estes lhe pediam alguns privilégios: "Vós bebereis o cálice que Eu devo beber, e sereis batizados no batismo em que Eu devo ser batizado." Mc 10,39
    Toda essa horrenda perseguição dos primeiros séculos, no entanto, apenas sinalizava, como sentenciou Jesus, o rompimento do Cristianismo com o Judaísmo, perante o qual os Apóstolos cumpriram missão tentando reformar, bem como os últimos sacrifícios da religiões pagãs e politeístas da Europa, além de, através dos séculos, o ódio perpetrado pelos muçulmanos: "Expulsar-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que todo aquele que vos tirar a vida julgará prestar culto a Deus. Procederão deste modo porque não conheceram o Pai, nem a Mim." Jo 16,2-3
    Nascia assim, ao modo do próprio Sacrifício de Cristo, por esse batismo, pelo sangue dos primeiros mártires, a gloriosa Igreja Católica Apostólica Romana.

    Santos Protomártires, rogai por nós!

sexta-feira, 29 de junho de 2018

São Pedro


    São Pedro é o único dos 12 Apóstolos de quem se tem uma história nos Evangelhos. Só de Jesus e de São João Batista têm-se mais completos relatos ou mais informações. São Paulo, só convocado após a Ressurreição, acompanha-o de perto graças aos registros dos Atos dos Apóstolos, embora seu perfil seja sobejamente complementado por suas próprias cartas. Entre os Doze, no entanto, a São Pedro é dado um lugar de incomparável destaque, enquanto os demais recebem apenas circunstanciais citações.
    São Mateus, o mais judeu e conservador dos Apóstolos, da tribo que trouxera no sangue a tradição da indicação do sumo sacerdote, a dos levitas, ao mencionar a lista dos Apóstolos não hesita em declarar que São Pedro era o primeiro: "Eis os nomes dos Doze Apóstolos: o primeiro, Simão, chamado Pedro; depois André, seu irmão. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Filipe e Bartolomeu. Tomé e Mateus, o publicano. Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, que foi o traidor." Mt 10,2-4
    Nosso Santo foi o único Apóstolo a quem Jesus atribuiu um novo nome, tradição iniciada por Deus para com Abrão, que recebeu o nome de Abraão, passou por Jacó, que se tornou Israel, perpetuou-se entre os rabinos e inclui o próprio São Saulo, que antes de converter-se chamava-se Saulo de Tarso. E vale notar, o novo nome de São Pedro, segundo São João Evangelista, privilegiada testemunha ocular, foi dado já no primeiro encontro com Jesus, dois dias após o Batismo do Senhor por São João Batista, quando lhe disse: "Tu és Simão, filho de João. Serás chamado Cefas (que quer dizer pedra)." Jo 1,42
    Além do nome de seu pai, por especial deferência mencionado por Jesus, sabemos que ele era um fiel cumpridor das Sagradas Escrituras, como vemos em sua declaração sobre a estrita alimentação dos judeus, dada durante a visão que teve em Jope, pouco antes do 'Pentecostes dos Gentios': "De nenhum modo, Senhor, pois em minha bica nunca entrou coisa profana ou impura." At 11,8
    Ele era sempre o primeiro do pequeno grupo mais próximo de Jesus, que se compunha com São Tiago Maior e São João Evangelista. Assim, em sua carta faz especial citação à Transfiguração vista por eles, um indizível privilégio, pois antecipadamente Cristo revelava-lhes Sua Glória: "Na realidade, não é baseando-nos em hábeis fábulas que nós vos temos feito conhecer o poder e a Vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas por termos visto Sua Majestade com nossos próprios olhos. Porque Ele recebeu de Deus Pai honra e Glória, quando do seio da Glória magnífica foi-Lhe dirigida esta voz: 'Este é Meu amado Filho, em Quem tenho posto todo Meu afeto.' Esta mesma voz, que vinha do Céu, nós ouvimo-la quando com Ele estávamos no Monte Santo." 2 Pd 1,16-18
    Ou seja, no sétimo após declarar que Jesus era o Messias, São Pedro obteve essa confirmação. Já não dependia de um milagre, de um testemunho ou das Escrituras para atestá-lo, pois ele mesmo tinha-O visto: "Seis dias depois, Jesus tomou Consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e conduziu-os à parte a uma alta montanha. Lá Se transfigurou na presença deles: Seu rosto brilhou como o sol, Suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que apareceram Moisés e Elias conversando com Ele." Mt 17,1-3
    Como parte deste seleto grupo, São Pedro também viu a ressurreição da filha de Jairo: "Ainda falava, quando chegaram alguns da casa do chefe da sinagoga, dizendo: 'Tua filha morreu. Por que ainda perturbas o Mestre?' Jesus, porém, tendo ouvido a palavra que acabava de ser pronunciada, disse ao chefe da sinagoga: 'Não temas! Crê somente.' E não permitiu que ninguém O acompanhasse, senão Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago." Mc 5,35-37
    De tamanha intimidade com Jesus, é São Pedro, e só ele, que vai tentar andar sobre as águas: "Pedro tomou a palavra e falou: 'Senhor, se és Tu, manda-me ir sobre as águas até junto a Ti!' Ele disse-lhe: 'Vem!' Pedro saiu da barca e caminhava sobre as águas ao encontro de Jesus." Mt 14,28-29
    E enquanto líder natural entre os Doze, é ele que vai advogar pelos Apóstolos quando Jesus perguntou se também eles não gostariam de abandoná-Lo, pois muitos escandalizaram-se ao vê-Lo oferecer Sua Carne e Seu Sangue como alimento da Vida Eterna. E ainda mais forte que a declaração descrita por São Mateus, como veremos, nessa cena São João relata São Pedro chamando Jesus de 'Santo de Deus'! Com efeito, as Escrituras dizem que só Deus é Santo: "Então Jesus perguntou aos Doze: 'Quereis vós também retirar-vos?' Respondeu-Lhe Simão Pedro: 'Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da Vida Eterna. E nós cremos e sabemos que Tu és o Santo de Deus!'" Jo 6,67-69
    Aliás, tão clara era sua ciência da Divindade de Jesus desde os primeiros dias em Sua companhia, que, mais uma vez antes dos Apóstolos e de todos, nosso Santo vai ser o primeiro a lançar mão da Confissão perante Ele, atitude que se tornaria Sacramento. Foi logo em seguida à primeira pesca miraculosa: "Vendo isso, Simão Pedro caiu aos pés de Jesus e exclamou: 'Retira-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador." Lc 5,8
    E com a mesma desenvoltura de protagonista, sempre muito cioso de cada detalhe dos ensinamentos de Jesus, ao ouvir d'Ele a profecia sobre a destruição do Templo de Jerusalém, interrogou-O quando isso aconteceria: "E estando sentado no monte das Oliveiras, defronte do Templo, perguntaram-Lhe à parte Pedro, Tiago, João e André: 'Dize-nos, quando hão de suceder essas coisas? E por qual sinal se saberá que tudo isso vai realizar-se?'" Mc 13,3-4
    Também estava intimamente presente num dos mais difíceis momentos para Jesus, durante a agonia no Monte das Oliveiras, na última noite antes da crucificação: "Levou Consigo Pedro, Tiago e João, e começou a ter pavor e a angustiar-Se. Disse-lhes: 'Minha alma está numa tristeza mortal. Ficai aqui e vigiai.'" Mc 14,33
    Foi exclusivamente dele, aliás, que Jesus cobrou vigília nesta noite: "Foi ter então com os discípulos e encontrou-os dormindo. E disse a Pedro: 'Então não pudestes vigiar uma hora Comigo... Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca.'" Mt 26,40-41
    E, dos Apóstolos, ele é único mencionado pelo o anjo que mandou um recado por Santa Maria Madalena, quando ela encontrou o túmulo vazio: "Entrando no sepulcro, viram, sentado do lado direito, um jovem, vestido de brancas roupas, e assustaram-se. Ele falou-lhes: 'Não tenhais medo. Buscais Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ele ressuscitou, já não está aqui. Eis o lugar onde O depositaram. Mas ide, dizei a Seus discípulos e a Pedro que Ele vos precede na Galileia. Lá O vereis, como vos disse.'" Mc 16,5-7

AS CHAVES DO REINO DOS CÉUS

    Realmente inspirado por Deus Pai, São Pedro foi o primeiro a afirmar com plena convicção Quem era Jesus: "Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!" Mt 16,16
    Inspiração, aliás, que o próprio Jesus confirmou: "Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas Meu Pai que está nos Céus." Mt 16,17
    Por ser portador de divinas revelações, São Pedro ouviu de Jesus a declaração de sua Primazia como pedra fundamental da Igreja, que o próprio Cristo constrói e garante-lhe a vitória contra o Maligno: "E Eu declaro-te: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei Minha Igreja. As portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18
    Essa liderança e destaque desde sempre foi respeitada pelos demais Apóstolos, como atestou São Mateus. Mas, humildemente, em sua carta ele partilha com todos nós a responsabilidade de ser Igreja: "... e quais outras pedras vivas, vós também vos tornais os materiais deste edifício espiritual, um santo sacerdócio..." 1 Pd 2,5
    São Paulo, reverente a essa hierarquia, também convidava os fiéis a tomar parte nessa edificação, mas deixava evidente que a Igreja tem os Apóstolos como alicerce: "Consequentemente, já não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois concidadãos dos Santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos Apóstolos e Profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus." Ef 2,19-20
    É São Pedro, portanto, o fiel administrador a quem Jesus confiou Sua Igreja, o solícito encarregado de distribuir o Pão da Vida ao povo de Deus: "'Estai, pois, preparados, porque, à hora em que não pensais, virá o Filho do Homem.' Disse-Lhe Pedro: 'Senhor, propões esta parábola só a nós ou também a todos?' O Senhor replicou: 'Qual é o sábio e fiel administrador que o Senhor estabelecerá sobre Seus operários, para a seu tempo dar-lhes sua medida de trigo? Feliz daquele servo que o Senhor achar procedendo assim, quando vier! Em verdade, digo-vos: confiar-lhe-á todos Seus bens.'" Lc 12,40-44
    Pois, desde os tempos de Moisés, Deus havia instituído um sumo sacerdote entre os israelitas, a quem cabia fazer a oferta do sacrifício no altar. Este posto inicialmente coube a Aarão, bisneto de Levi, cuja tradição foi mantida até a destruição de Jerusalém, no ano 70 de nossa era: "Este será um perpétuo direito devido a Aarão e seus filhos pelos israelitas. Esta é uma reservada oferta – aquela que os israelitas terão de tomar de seus pacíficos sacrifícios –, uma reserva que devem ao Senhor. Os sagrados ornamentos de Aarão, depois dele, servirão para seus filhos, que os vestirão quando se lhes der a unção e forem empossados. Aquele que dentre seus filhos for sumo sacerdote em seu lugar, e que penetrar na Tenda de Reunião para o serviço do santuário, levá-los-á durante sete dias." Ex 29,28-30
    E como também prescrito por Deus, a primazia do sumo sacerdote é perfeitamente clara: "O sumo sacerdote, superior a seus irmãos, sobre cuja cabeça derramou-se o óleo de unção, e que foi estabelecido para revestir as sagradas vestes, não descobrirá sua cabeça, e não rasgará suas vestes." Lv 21,10
    Ainda nos primeiros séculos do cristianismo, a favor da Primazia de São Pedro na Igreja testemunharam inspirações da grandeza de São Clemente, Santo Irineu e São Nicolau Magno, além de, pouco mais tarde, excepcionais teólogos como Santo Ambrósio, Santo Atanásio, São João Crisóstomo e Santo Agostinho.
    E a clara prova de sua vital importância para a Igreja é que Jesus, prevendo as tentações do inimigo contra os Apóstolos, e assim contra a Igreja, optou por reforçar a de São Pedro. Ora, como mais próximo Apóstolo, ele não podia falhar: a própria credibilidade do Evangelho estava em suas mãos. Por isso, Jesus rezou ao Pai expressamente por ele, e pediu-lhe que servisse de fortaleza para os demais Apóstolos, bem como discípulos e seguidores: 'Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para peneirar como o trigo. Mas Eu roguei por ti, para que tua confiança não desfaleça. E tu, por tua vez, confirma teus irmãos.'" Lc 22,32
    Por Sua Divina Sabedoria, Jesus escolhia-o com perfeição, pois era São Pedro o Apóstolo que mais O amava. É o que vemos quando Jesus o inqueriu, mais uma vez e pertinentemente invocando a pessoa de seu pai, como um sinal de juramento: "... 'Simão, filho de João, amas-Me mais do que estes?' Ele respondeu-Lhe: "Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo.'" Jo 21,15


    Assim, pois, ele recebeu a missão de apascentar todo Seu rebanho, de cordeiros a ovelhas, ou seja, de fiéis a Sacerdotes: "Apascenta Meus cordeiros... Apascenta Minhas ovelhas." Jo 21,15.17
    Esta cena foi presenciada por ninguém menos que dois estudiosos Apóstolos, São Tomé e São Bartolomeu, além dos dois outros, não menos letrados, que faziam parte do grupo mais íntimo do Mestre, ou seja, São Tiago Maior e São João, que por isso tratou de registrá-la em seu Evangelho. Tal fato bem explica porque nenhum Apóstolos jamais contestou a liderança do pescador da Galileia: "Depois disso, tornou Jesus a manifestar-Se a Seus discípulos junto ao lago de Tiberíades. Manifestou-Se deste modo: Estavam juntos Simão Pedro, Tomé (chamado Dídimo), Natanael (que era de Caná da Galileia), os filhos de Zebedeu e outros dois de seus discípulos." Jo 21,1-2
    E para tanto, o poder dado por Jesus a São Pedro aqui na terra, para decidir a respeito de assuntos de Doutrina e de Comunhão, era total: "... tudo que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo que desligares na terra será desligado nos Céus." Mt 16,19b
    Não por acaso, ele foi o único Apóstolo a receber de Jesus as Chaves dos Céus, ou seja, a inspiração para nas Escrituras reconhecer as palavras-chaves que apontam a verdadeira vontade de Deus: "Eu dar-te-ei as Chaves do Reino dos Céus..." Mt 16,19a
    Chaves, aliás, que estiveram nas mãos dos fariseus, ainda que não integralmente, pois faltava-lhes o Advento do Cristo. Mas eles pervertidamente usaram-nas para manter o povo refém de suas consultas, não franqueando a si mesmos a entrada nos Céus nem deixando os demais entrarem. Jesus acusou-os: "Ai de vós, doutores da Lei, que tomastes a chave da ciência, e vós mesmos não entrastes e impedistes aos que vinham para entrar." Lc 11,52
    Mas chaves não só para as Escrituras, senão também para ler nos acontecimentos do dia-a-dia a Moção do Espírito de Deus. De fato, Jesus falou em 'toda a Verdade' e nas 'coisas que virão': "Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a Verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão." Jo 16,13
    São Paulo vai exaltar esse divino diferencial: "Ora, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, revestiu-se de tal Glória que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos no rosto de Moisés, por causa do resplendor de sua face (embora transitório), quanto mais glorioso não será o Ministério do Espírito!" 2 Cor 3,7
    Desde o Pentecostes, portanto, o Espírito de Deus tem permanentemente estado sobre a Igreja, e, lógico, em especial esteve sobre São Pedro, assim sobre seus sucessores, dando plena vida à Sagrada Tradição, como Jesus prometeu: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele dar-vos-á outro Paráclito, para que eternamente fique convosco. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber porque não O vê nem O conhece. Mas vós conhecê-Lo-eis, porque permanecerá convosco e estará em vós." Jo 14,16-17
    Abrindo caminho para a sucessão apostólica, ademais, e para sua própria como Papa, foi ele que propôs e liderou a substituição de Judas Iscariotes para recompor o Colégio dos Doze. Para isso, ele inspiradamente evocou as Escrituras: "Num daqueles dias, levantou-se Pedro no meio de seus irmãos, na assembléia reunida que constava de umas cento e vinte pessoas, e disse: 'Irmãos, convinha que se cumprisse o que o Espírito Santo predisse na Escritura pela boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam Jesus. Pois está escrito no livro dos Salmos: 'Fique deserta sua habitação, e não haja quem nela habite'; e ainda mais: 'Que outro receba seu cargo.' (Sl 68,26; 108,8) Convém que destes homens que têm estado em nossa companhia todo tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, a começar do Batismo de João até o dia em que de nosso meio foi arrebatado, um deles torne-se conosco testemunha de Sua Ressurreição.'" At 1,15-16.20-22
    E desde então vamos ver São Pedro sempre tomando a palavra, à frente do Colégio dos Apóstolos. É ele quem preside a assembléia quando se deu o Pentecostes, momento em Deus Espírito Santo instituiu a Igreja: "Pedro, então, pondo-se de pé em companhia dos Onze, com forte voz disse-lhes: 'Homens da Judeia e vós todos que habitais em Jerusalém: seja-vos isto conhecido e prestai atenção às minhas palavras. Estes homens não estão embriagados, como vós pensais, visto não ser ainda a hora terceira do dia. Mas cumpre-se o que foi dito pelo Profeta Joel: Acontecerá nos últimos dias - é Deus Quem fala -, que derramarei de Meu Espírito sobre todo ser vivo! Profetizarão vossos filhos e vossas filhas. Vossos jovens terão visões, e vossos anciãos sonharão.'" At 2,14-17
    É ele quem fala ao paralítico no Templo de Jerusalém, onde sempre se reuniam para rezar, quando o curou: "Pedro, porém, disse: 'Não tenho nem ouro nem prata, mas o que tenho eu dou-te: em Nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda!' E tomando-o pela mão direita, levantou-o. Imediatamente, os pés e os tornozelos firmaram-se-lhe. De um salto pôs-se de pé, e andava." At 3,6-7
    É ele quem responde com autoridade aos principais dos judeus em todas ocasiões. Ao justificar o milagre do paralítico, por exemplo: "Então Pedro, cheio do Espírito Santo, respondeu-lhes: 'Chefes do povo e Anciãos, ouvi-me: se hoje somos interrogados a respeito do benefício feito a um enfermo, e em que Nome foi ele curado, ficai sabendo todos vós e todo povo de Israel: foi em Nome de Jesus Cristo Nazareno, que vós crucificastes, mas que Deus ressuscitou dos mortos. Por Ele é que esse homem se acha são, em pé, diante de vós.'" At 4,8-10
    O mesmo acontece quando eles questionaram as ordens que receberam do Sinédrio: "Responderam-lhes Pedro e João: 'Julgai-o vós mesmos, se diante de Deus é justo obedecermos a vós mais que a Deus. Não podemos deixar de falar das coisas que temos visto e ouvido.'" At 4,19-20
    E após serem capturados no Templo, enquanto anunciavam o Cristo, de novo ele contesta os superiores dos judeus, e enuncia como se pode receber o Santo Paráclito: "Pedro e os Apóstolos replicaram: 'Importa obedecer antes a Deus que aos homens. O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, que vós matastes, suspendendo-O num madeiro. Deus elevou-O pela mão direita como Príncipe e Salvador, a fim de dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados. Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem.'" At 5,29-32
    E é ele quem, sempre notoriamente estando à frente dos Apóstolos, defende os bens da Igreja quando os cristãos já possuíam tudo em comum, e em mais essa ocasião revela-se em perfeita unidade com o Divino Espírito Santo: "Pedro, porém, disse: 'Ananias, por que Satanás tomou conta de teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo e enganasses acerca do valor do campo? Acaso não o podias conservar sem vendê-lo? E depois de vendido, não podias livremente dispor dessa quantia? Por que imaginaste isso em teu coração? Não foi aos homens que mentiste, mas a Deus.'" At 5,3-4


UNGIDO COM PODER


    Como sabemos, os Apóstolos foram ungidos com poder: "Jesus reuniu Seus Doze discípulos. Conferiu-lhes poder de expulsar os espíritos imundos, e de curar todo mal e toda enfermidade." Mt 10,1
    E pouco antes de Sua Ascensão, Ele prometeu outros dons: "... falarão novas línguas, manusearão serpentes, e se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal." Mc 16,17b
    Mas o caso de São Pedro realmente ia além: vivendo em verdadeira santidade, bastava sua sombra para curar enfermos: "Cada vez mais aumentava a multidão dos homens e mulheres que acreditavam no Senhor. De maneira que traziam os doentes para as ruas e punham-nos em leitos e macas, a fim de que, quando Pedro passasse, ao menos sua sombra cobrisse alguns deles. Também das cidades vizinhas de Jerusalém afluía muita gente, trazendo os enfermos e os atormentados por imundos espíritos, e todos eles eram curados." At 5,14-16
    Ele tinha plena consciência da função missionária da Igreja, e por isso deixou a comunidade de Jerusalém aos cuidados de São Tiago Menor, partindo para crismar os primeiros cristãos na Samaria: "Os Apóstolos que se achavam em Jerusalém, tendo ouvido que a Samaria recebera a Palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João. Estes, assim que chegaram, fizeram oração pelos novos fiéis, a fim de receberem o Espírito Santo, visto que não havia descido ainda sobre nenhum deles, mas somente tinham sido batizados em Nome do Senhor Jesus. Então os dois Apóstolos impuseram-lhes as mãos, e receberam o Espírito Santo." At 8,14-17
    E foi aonde pôde para instaurar a Igreja: "A Igreja gozava então de Paz por toda Judeia, Galileia e Samaria. Estabelecia-se ela caminhando no temor do Senhor, e a assistência do Espírito Santo fazia-a crescer em número. Pedro, que caminhava por toda parte, de cidade em cidade, desceu também aos fiéis que habitavam em Lida." At 9,31-32
    Aí curou Eneias, que também estava paralítico: "Ali achou um homem chamado Eneias, que havia oito anos jazia paralítico num leito. Disse-lhe Pedro: 'Eneias, Jesus Cristo te cura! Levanta-te e faze tua cama.' E levantou-se imediatamente. Viram-no todos que habitavam em Lida e em Sarona, e converteram-se ao Senhor." At 9,33-35
    E por grande Graça, operou uma ressurreição. Foi Tabita, também chamada de Dorcas, uma caridosa cristã: "Ora, como Lida fica perto de Jope, os discípulos, ouvindo dizer que Pedro aí se encontrava, enviaram-lhe dois homens, rogando-lhe: 'Não te demores em vir ter conosco.' Pedro levantou-se imediatamente e foi com eles. Logo que chegou, conduziram-no ao quarto de cima. Cercavam-no todas viúvas, chorando e mostrando-lhe as túnicas e os vestidos que Dorcas lhes fazia enquanto viva. Pedro, então tendo feito todos sair, pôs-se de joelhos e orou. Voltando-se para o corpo, disse: 'Tabita, levanta-te!' Ela abriu os olhos e, vendo Pedro, sentou-se. Ele fê-la levantar-se, estendendo-lhe a mão. Chamando os irmãos e as viúvas, entregou-lha viva. Este fato espalhou-se por toda Jope, e muitos creram no Senhor." At 9,38-42
    Ele também esteve em Antioquia quando de sua primeira viagem a Roma, pois junto a esta capital e a Alexandria eram as maiores cidades do Império, embora aí tenha pregado apenas aos judeus. Isso ocorreu durante a primeira dispersão dos cristãos, que massivamente tiveram que partir de Jerusalém: "Entretanto, aqueles que foram dispersados pela perseguição que houve no tempo de Estêvão chegaram até a Fenícia, Chipre e Antioquia, pregando a Palavra só aos judeus." At 11,19
    E em Roma ficou até a expulsão pelo imperador Cláudio no ano de 49, fato registrado por São Lucas: "Depois disso, saindo de Atenas, Paulo dirigiu-se a Corinto. Ali encontrou um judeu chamado Áquila, natural do Ponto, e sua mulher Priscila. Pouco antes, eles haviam chegado da Itália, por Cláudio ter decretado que todos judeus saíssem de Roma." At 18,1-2a
    A caminho de Roma, também se deteve por bom tempo em Corinto, outra importante cidade, e fez muitos fiéis bem antes de São Paulo, que registrou a preferência de alguns por seu carisma: "Pois acerca de vós, irmãos meus, fui informado pelos que são da casa de Cloé, que há contendas entre vós. Refiro-me ao fato de que entre vós se usa esta linguagem: 'Eu sou discípulo de Paulo. Eu, de Apolo. Eu, de Cefas. Eu, de Cristo.'" 1 Cor 1,11-12
    Não é justa, portanto, a rudeza que se atribui à sua pessoa, como se assim fossem todos pescadores apenas por força do ofício. A inspiração de São Pedro, como atestou o próprio Jesus, era absolutamente invulgar. E sua santidade, já como líder da Igreja, era amplamente reconhecida. Suas reflexões e mística, por tudo que viu e ouviu do Cristo, alçaram dos mais altos voos, coisas de sábio e grande santo. Ora, ele foi o escolhido por Jesus! E, como visto, aclamado pelos cristãos. Não deve restar dúvida!
    Em carta a ele atribuída, temos um registro do que pode ter sido o caminho ascético por ele descoberto, cujos graus de espiritualidade, de cada dom, são mesmo impreteríveis: "Por estes motivos, esforçai-vos quanto possível por unir à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o fraterno amor, e ao fraterno amor a caridade. Se estas virtudes se acharem abundantemente em vós, não vos deixarão inativos nem infrutuosos no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque quem não tiver estas coisas é míope, cego: esqueceu-se da purificação de seus antigos pecados." 2 Pd 1,5-9
    Foi São Pedro, enfim, o primeiro a levar o Espírito Santo a uma comunidade de não judeus, no caso Cornélio, família e amigos, fato que também o faz fundador da Igreja 'Católica', que em grego significa 'Universal': "Estando Pedro ainda a falar, o Espírito Santo desceu sobre todos que ouviam a Palavra. Os fiéis da circuncisão, que tinham vindo com Pedro, profundamente admiraram-se, vendo que o dom do Espírito Santo também era derramado sobre os não judeus." At 10,44-45
    São Paulo respeitosamente cita-o pelo nome de ofício, como ele era chamado na Igreja, conforme o nome que lhe atribuiu o próprio Jesus: "Tiago, Cefas e João, que são considerados as colunas..." Gl 2,9
    Após sua conversão, aliás, logo que pôde São Paulo fez questão de ir conhecer e estar com São Pedro. Para tanto, expôs-se a risco de morte indo a Jerusalém, pois era procurado pelos judeus: "Três anos depois subi a Jerusalém para conhecer Cefas, e fiquei com ele quinze dias." Gl 1,18
    Buscou-o para tirar dúvidas: "Catorze anos mais tarde, subi outra vez a Jerusalém com Barnabé, levando também Tito comigo. E subi em conseqüência de uma revelação. Expus-lhes o Evangelho que prego entre os pagãos, e isso particularmente aos que eram de maior consideração, a fim de não correr ou de não ter corrido em vão." Gl 2,1-2
    E enxergando um 'ministério' nos cristãos advindos do paganismo, abertamente reconhecia a São Pedro a chefia sobre os demais Apóstolos, isto é, sobre a Igreja originária: "Ao contrário, viram que a evangelização dos incircuncisos me era confiada, como a dos circuncisos a Pedro (porque Aquele Cuja ação fez de Pedro o Apóstolo dos circuncisos, fez também de mim o dos pagãos)." Gl 2,7-8
    Ele buscou seu apoio em Jerusalém, confiante que era em sua inspiração, para dirimir a primeira grande controvérsia doutrinária da Igreja, ocorrida em Antioquia: "Alguns homens, descendo da Judeia, puseram-se a ensinar aos irmãos o seguinte: 'Se não vos circuncidais, segundo o rito de Moisés, não podeis ser salvos.' Originou-se, então, grande discussão de Paulo e Barnabé com eles, e resolveu-se que estes dois, com alguns outros irmãos, fossem tratar desta questão com os Apóstolos e os Anciãos em Jerusalém." At 15,1-2
    São Pedro, que já havia batizado não judeus, de fato não o desapontou, e seu voto decidiu o Primeiro Concílio da Igreja. Nesta fala, apontando sua vida missionária até 'os confins do mundo', como pediu Jesus, outra vez revela seu protagonismo ao relatar ser 'escolhido por Deus' dentre os Apóstolos para abrir a Igreja aos não judeus: "Ao fim de uma grande discussão, Pedro levantou-se e disse-lhes: 'Irmãos, vós sabeis que já há muito tempo Deus escolheu-me dentre vós, para que da minha boca os pagãos ouvissem a Palavra do Evangelho e cressem. Ora, Deus, que conhece os corações, testemunhou a seu respeito, dando-lhes o Espírito Santo da mesma forma que a nós. Nem fez distinção alguma entre nós e eles, purificando pela fé seus corações. Por que, pois, agora provocais a Deus, impondo aos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós pudemos suportar? Nós cremos que pela Graça do Senhor Jesus seremos salvos, exatamente como eles.' Toda a assembléia ouviu-o silenciosamente." At 15,7-12
    Em seguida, São Tiago Menor, Bispo de Jerusalém, vai corroborar seu voto: "Depois de terminarem, Tiago tomou a palavra: 'Irmãos, ouvi-me', disse ele. 'Simão narrou como Deus começou a olhar para as nações pagãs, para delas tirar um povo que trouxesse Seu Nome." At 15,13-14
    E ao decidirem escrever uma carta ao antioquenos, São Tiago Menor menciona o Espírito Santo como inspirador de São Pedro e da Igreja: "Com efeito, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor outro peso além do indispensável seguinte..." At 15,28
    Pouco depois, nosso Santo retornou em segunda viagem a Roma, e agora vai ratificar a fundaçaõ do mais importante bispado, que depois da destruição de Jerusalém se tornaria a Sede da Igreja. Ele cita esse bispado em sua carta: "A igreja escolhida de Babilônia saúda-vos, como também Marcos, meu filho." 1 Pd 5,13
    E de lá preparou a Igreja para seguir através dos tempos, sempre contando com a luminosa instrução do próprio Jesus: "Portanto, irmãos, cada vez mais cuidai em assegurar vossa vocação e eleição. Procedendo deste modo, não tropeçareis jamais. Assim vos será largamente aberta a entrada no Reino Eterno de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Eis porque não cessarei de trazer-vos à memória essas coisas, embora estejais instruídos e confirmados na presente Verdade. Tenho por meu dever, enquanto estiver neste tabernáculo, manter-vos vigilantes com minhas admoestações. Porque sei que em breve terei que deixá-lo, assim como Nosso Senhor Jesus Cristo me fez conhecer. Mas cuidarei para que, ainda depois de meu falecimento, possais sempre conservar a lembrança dessas coisas." 2 Pd 1,10-15
    Igreja que é sua barca, a nova Arca de Noé, escolhida pelo próprio Jesus para a Salvação das almas: "Estando Jesus um dia à margem do lago de Genesaré, o povo comprimia-se em redor d'Ele para ouvir a Palavra de Deus. Vendo duas barcas estacionadas à beira do lago, - pois os pescadores haviam descido delas para consertar as redes -, subiu a uma das barcas, que era a de Simão, e pediu-lhe que a afastasse um pouco da terra. E sentado, ensinava da barca o povo." Lc 5,1-3
    Barca que, apesar da tempestade, do mar revolto e da grande quantidade de almas, não se arrebenta, como a rede da pesca miraculosa: "Subiu Simão Pedro e puxou a rede para a terra, cheia de cento e cinqüenta e três peixes grandes. Apesar de serem tantos, a rede não se rompeu." Jo 21,11

UM FIEL PESCADOR DE ALMAS

    Como seu irmão, ele era da Betsaida, povoado no norte de Israel, também próximo à margem do mar da Galileia, cujo nome significa 'casa da pesca': "Filipe era natural de Betsaida, cidade de André e Pedro." Jo 1,44
    Mas depois de contrair Matrimônio foi morar em Cafarnaum, levando consigo seu irmão. Não se tem registro, contudo, de sua esposa ou de possíveis filhos após começarem a seguir Jesus, apenas de sua sogra: "Dirigiram-se para Cafarnaum. Assim que saíram da sinagoga, dirigiram-se com Tiago e João à casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama, com febre, e sem tardar falaram-Lhe a respeito dela. Aproximando-Se Jesus, tomou-a pela mão e levantou-a. Imediatamente a febre deixou-a, e ela pôs-se a servi-Los." Mc 1,21a.29-31
    São Paulo relata que uma mulher o acompanhava em suas missões, embora não se saiba se se tratava de sua esposa, de sua filha ou simplesmente de uma mera ajudante, como tantas que seguiram Jesus, pois o último Apóstolo argumentava tão somente sobre custos das comunidades que recebiam missões: "Acaso não temos nós direito de deixar que nos acompanhe uma mulher cristã, a exemplo dos outros Apóstolos e dos irmãos do Senhor e de Cefas?" 1 Cor 9,5
    Deve ter sido apenas uma ajudante, pois logo após Jesus desafiar o rico jovem a deixar tudo para segui-Lo, nosso Santo, sempre falando em nome dos Apóstolos, vai alegar: "Pedro começou a dizer-Lhe: 'Eis que deixamos tudo e seguimo-Te.'" Mc 10,28
    Segundo São Lucas, esta demonstração de fidelidade deu-se logo após a primeira pesca miraculosa: "E atracando as barcas à terra, deixaram tudo e seguiram-nO." Lc 5,11
    E é simplesmente impossível que o Príncipe dos Apóstolos não tenha observado uma das mais importantes recomendações de vida espiritual dada por Jesus. De fato, ao desaprovar a carta de divórcio tolerada por Moisés, e reafirmar a indissolubilidade do Matrimônio, Nosso Salvador vai exaltar o celibato entre os que se dedicam às coisas de Deus: "Seus discípulos disseram-Lhe: 'Se tal é a condição do homem a respeito da mulher, é melhor não se casar!' Respondeu Ele: 'Nem todos são capazes de compreender o sentido desta Palavra, mas somente aqueles a quem foi dado. Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda.'" Mt 19,10-12
    Por fim, muito se fala de que ele tenha negado Jesus, afetadamente até usam dizer que ele 'O traiu', mas quase não se observa as circunstâncias em que tudo se deu nem a real motivação com que agia. De fato, se O negou com palavras, com atitudes expressava exatamente o contrário: todo seu incondicional amor pelo Mestre. Que dizer de sua coragem para entrar no pátio da casa sumo sacerdote naquela fatídica noite? E ele havia recém-decepado a orelha de um de seus guardas! Em sua estratégia, portanto, não O teria negado, mas apenas usava de dissimulação para aproximar-se do Palácio e assim acompanhar o que se passava com Jesus.
    E ainda maior é a desinformação, ou a maldade, dos que o acusam de covardia, pois com a mesma prontidão com que prometia seguir Jesus até a morte ele reagiu no Horto das Oliveiras, e só se deteve porque Jesus assim o ordenou: "Simão Pedro, que tinha uma espada, puxou dela e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. (O servo chamava-se Malco.) Mas Jesus disse a Pedro: 'Enfia tua espada na bainha! Não hei de beber Eu o cálice que o Pai Me deu?'" Jo 18,10-11
    Aliás, instantes antes, o próprio Jesus já havia pedido aos guardas que O prendiam para dispensarem os Apóstolos: "'Se é, pois, a Mim que buscais, deixai ir estes.' Assim se cumpriu a Palavra que Ele mesmo havia dito: 'Dos que Me deste não perdi nenhum' (Jo 17,12)." Jo 18,8b-9
    Mais: fora São João Evangelista, que sabidamente não corria nenhum perigo, talvez por ser filho de um sacerdote, São Pedro foi o único Apóstolo a acompanhar de perto o pré-julgamento de Jesus feito pelos membros do Sinédrio, quando o galo cantou três vezes: "Simão Pedro seguia Jesus, e mais outro discípulo. Este discípulo era conhecido do sumo sacerdote e entrou com Jesus no pátio da casa do sumo sacerdote, porém Pedro ficou de fora, à porta. Mas o outro discípulo (que era conhecido do sumo sacerdote) saiu e falou à porteira, e esta deixou Pedro entrar." Jo 18,15-16
    São Mateus assim explicou porque ele usava desta artimanha: "Entrou e sentou-se junto aos criados, para ver como terminaria aquilo." Mt 26,58b
    Mas tão ligado era ele à figura do Mestre, como talvez não suspeitasse, que foi facilmente reconhecido! E por humilde gente: pela própria porteira: "A porteira perguntou a Pedro: 'Não és acaso também tu dos discípulos desse Homem?'" Jo 18,17a
    E por uma criada: "Acenderam um fogo no meio do pátio, e sentaram-se em redor. Pedro veio sentar-se com eles. Uma criada percebeu-o sentado junto ao fogo, encarou-o de perto e disse: 'Também este homem estava com Ele.'" Lc 22,55-56 
    Ademais, Jesus bem sabia que seria 'abandonado', e não apenas por São Pedro, mas por todos Apóstolos. Assim eram planos de Deus, embora nosso Santo relutasse: "Disse-lhes então Jesus: 'Esta noite serei para todos vós uma ocasião de queda. Porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersadas (Zc 13,7). Mas, depois da Minha Ressurreição, Eu vos precederei na Galileia.' Pedro interveio: 'Mesmo que sejas para todos uma ocasião de queda, para mim jamais o serás.'" Mt 26,31-33
    O Evangelho de São Marcos, em conclusão, pode ser considerado o Evangelho de São Pedro, como afirmou Santo Irineu, pois em grande parte compõe-se de seus relatos. Sua extrema simplicidade e objetividade são tocantes retratos da pureza da alma do pescador da Galileia. E se São Marcos não lhe atribuiu nenhum especial destaque, foi justamente porque São Pedro nunca o suscitou, entre conversas com ele e São Silvano, nem o permitiria.
    E assim como Jesus, São Pedro também morreu de forma brutal. A Sagrada Tradição conta que, ao saber que ia ser crucificado, em sua sincera humildade não se permitiu morrer como Jesus. Não se achava digno. Pediu que o crucificassem de cabeça para baixo! E tão sangrenta foi a perseguição iniciada por Nero nestes tempos, e tão desnorteada ficou toda a comunidade cristã pelo amor que tinha ao Príncipe dos Apóstolos, que nenhum registro escrito foi feito logo após seu martírio. É um vácuo, um gritante silêncio da História! O próprio São Lucas para bruscamente seus relatos nos Atos dos Apóstolos, sem adicionar nenhuma linha sobre esse fato. Esperariam, já então, o fim dos tempos?
    Mas não é necessário recorrer a Sagrada Tradição para ter certeza desses acontecimentos. Basta lembrar que sua crucificação foi predita pelo próprio Jesus, após Sua Paixão, quando recebe mais uma distinção entre os Apóstolos: foi o único chamado a segui-Lo por uma segunda vez. E significativamente após Sua Ressurreição: "'Em verdade, em verdade, digo-te: quando eras mais moço, cingias-te e andavas aonde querias. Mas quando fores velho, estenderás tuas mãos, e outro cingir-te-á e levar-te-á aonde não queres.' Por estas palavras, Ele indicava o gênero de morte com que havia de glorificar a Deus. E depois de assim ter falado, acrescentou: 'Segue-Me!'" Jo 21,18-19
    E São Pedro bem sabia do que Jesus estava falando. Eles já haviam conversado sobre isso na noite da Santa Ceia: "Perguntou-Lhe Simão Pedro: 'Senhor, para onde vais?' Jesus respondeu-lhe: 'Para onde vou, não podes seguir-Me agora. Mas, mais tarde, seguir-Me-ás.' Jo 13,36
    Inclusive foi informado, e também pelo próprio Jesus, como vimos, da proximidade de sua hora. Ele registrou em sua carta esta revelação particular: "Tenho por meu dever, enquanto estiver neste tabernáculo, manter-vos vigilantes com minhas admoestações. Porque sei que em breve terei que deixá-lo, assim como Nosso Senhor Jesus Cristo me fez conhecer." 2 Pd 1,13-14


    Tão amado era nosso Santo, e já desde Jerusalém, que foram preservadas as correntes com que o prenderam por ordem de Herodes. Claro, o fato de ter sido miraculosamente libertado por seu Anjo da Guarda estarreceu a guarda romana em Jerusalém, o que muito concorreu para que elas se fossem veneradas como relíquias. E assim para elas foi erguida um Basílica em Roma, que tem o nome de São Pedro Acorrentado.
    O episódio, em si, é bastante conhecido: "Ora, quando Herodes estava para apresentá-lo, naquela mesma noite dormia Pedro entre dois soldados, ligado com duas cadeias. Os guardas, à porta, vigiavam o cárcere. De repente, apresentou-se um anjo do Senhor, e uma luz brilhou no recinto. Tocando no lado de Pedro, o anjo despertou-o: 'Levanta-te depressa', disse ele. Caíram-lhe as cadeias das mãos. O anjo ordenou: 'Cinge-te, e calça tuas sandálias. Ele assim o fez. O anjo acrescentou: 'Cobre-te com tua capa e segue-me.' Pedro saiu e seguiu-o, sem saber se era real o que se fazia por meio do anjo. Julgava estar sonhando. Passaram o primeiro e o segundo postos da guarda. Chegaram ao portão de ferro, que dá para a cidade, o qual se lhes abriu por si mesmo. Saíram e tomaram juntos uma rua. Em seguida, de súbito, o anjo desapareceu. Então Pedro tornou a si e disse: 'Agora vejo que o Senhor verdadeiramente mandou Seu anjo, e livrou-me da mão de Herodes e de tudo que esperava o povo dos judeus.'" At 12,6-11
    E pela punição dada aos guardas, como se fazia em caso de fuga do prisioneiro, sabemos qual a sentença que Herodes reservava para São Pedro, pois já havia mandado matar São Tiago Maior: "Logo que amanheceu, houve um pouco comum sobressalto entre os soldados a respeito do que acontecera a Pedro. Herodes, procurando-o e não o achando, instaurou um processo contra os guardas e mandou supliciá-los." At 12,18-19


    Na rádio-mensagem de Natal de 1950, após minuciosos exames científicos, o venerável Papa Pio XII anunciou a confirmação de que o túmulo de São Pedro, assim como alguns de seus ossos, realmente estão sob o Altar da Basílica de São Pedro, diante de sua Cátedra. De fato, entre outros antiquíssimos escritos na lápide, consta: "Pedro está aqui."


    São Pedro, rogai por nós!

São Paulo Apóstolo


    Um radical e religioso jovem ajudou na execução de Santo Estevão, segurando os mantos daqueles que o apedrejavam. Seu nome era Saulo. Tinha assistido ao belíssimo e contundente sermão deste Santo diácono, no qual responsabilizava o Sinédrio pela Crucificação de Jesus, mas não lhe deu razão e acabou concordando com sua brutal punição. Na verdade, já havia algum tempo que ele alimentava raiva contra os cristãos, e anos depois, usando da influência de seu grupo religioso, vai encampar uma verdadeira guerra aos seguidores de Cristo: "... devastava a Igreja. Entrando pelas casas, arrastava para fora homens e mulheres e entregava-os à prisão." At 8,3
    Tamanho era seu ódio, que São Lucas dele vai dizer: "... só respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor." At 9,1
    Ele mesmo confessou-o perante o rei Agripa quando foi preso, antes de ser levado a Roma: "Que pensais vós? É coisa incrível que Deus ressuscite os mortos? Também eu acreditei que devia fazer a maior oposição ao Nome de Jesus de Nazaré. Assim procedi, de fato, em Jerusalém e tinha encerrado muitos irmãos em cárceres, havendo recebido poder dos sumos sacerdotes para isso. Quando os sentenciavam à morte, eu dava minha plena aprovação. Muitas vezes, perseguindo-os por todas sinagogas, eu maltratava-os para obrigá-los a blasfemar. Enfurecendo-me mais e mais contra eles, eu perseguia-os até no estrangeiro." At 26,8-11
    Numa viagem que fazia para capturar discípulos, porém, "... estando já perto de Damasco, subitamente cercou-o uma resplandecente Luz vinda do Céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe acusava de estar perseguindo não a Igreja, mas o próprio Jesus: 'Saulo, Saulo, por que Me persegues? Eu sou Jesus... Levanta-te, entra na cidade. Aí te será dito o que deves fazer.'" At 9,4-6
    Quando levantou-se, no entanto, percebeu que estava cego. Dias depois, porém, foi miraculosamente curado por um discípulo. Ou seja, apesar da grande importância que São Paulo viria a ter, Jesus, mesmo tendo aparecido a ele, nada lhe revelou, mas submeteu-o à Igreja: "Ananias foi. Entrou na casa e, impondo-lhe as mãos, disse: 'Saulo, meu irmão, o Senhor, esse Jesus que te apareceu no caminho, enviou-me para que recobres a vista e fiques cheio do Espírito Santo.' No mesmo instante, caíram dos olhos de Saulo umas como escamas, e recuperou a vista. Levantou-se e foi batizado." At 9,17-18
    Essa é sua versão desse episódio: "Um certo Ananias, piedoso homem e observador da Lei, muito bem conceituado entre todos judeus daquela cidade, veio ter comigo e disse-me: 'Irmão Saulo, recobra tua vista.' Naquela mesma hora pude enxergá-lo. Continuou ele: 'O Deus de nossos pais predestinou-te para que conhecesses Sua vontade, visses o Justo e ouvisses a Palavra da Sua boca, pois Lhe serás, diante de todos os homens, testemunha das coisas que tens visto e ouvido. E agora, por que tardas? Levanta-te! Recebe o Batismo e purifica-te de teus pecados, invocando Seu Nome." At 22,12-16
    De perseguidor, então, passou a ser perseguido, pois pregando com poder demonstrava que Jesus era o Cristo, o que despertou a ira dos judeus. E foi jurado de morte ainda na cidade de Damasco: "Decorridos alguns dias, os judeus deliberaram, em conselho, matá-lo. Estas intenções chegaram ao conhecimento de Saulo. Guardavam eles dia e noite as portas da cidade, para matá-lo. Mas os discípulos, tomando-o de noite, fizeram-no descer pela muralha da cidade dentro de um cesto." At 9,23-25
    Retornando à Cidade Santa três anos mais tarde, a princípio os Apóstolos e discípulos tinham-lhe medo. Mas sua conversão foi defendida por São Barnabé, respeitado membro da Igreja: "Chegando a Jerusalém, tentava ajuntar-se aos discípulos, mas todos o temiam, não querendo crer que se tivesse tornado discípulo. Então Barnabé, levando-o consigo, apresentou-o aos Apóstolos e contou-lhes como Saulo vira o Senhor no caminho, e que lhe havia falado, e como em Damasco pregara, com desassombro, o Nome de Jesus. Daí por diante permaneceu com eles, saindo e entrando em Jerusalém, e destemidamente pregando o Nome do Senhor." At 9,26-28
     Mas logo os judeus daí, nascidos no exterior, também decidiriam matá-lo, pois sua devoção e Sabedoria chamavam atenção, e ele foi levado pelos cristãos à sua terra natal: "Também falava e discutia com os helenistas. Mas estes procuravam matá-lo. Os irmãos, informados disso, acompanharam-no até Cesareia e dali o fizeram partir para Tarso." Ap 9,29-30
    Segundo o próprio São Paulo, ainda em Jerusalém Jesus apareceu-lhe outra vez, dizendo que permanecia a resistência por parte dos cristãos e indicando o campo de missão que o faria o 'Apóstolo dos Gentios': "Voltei para Jerusalém e, orando no Templo, fui arrebatado em êxtase. E vi Jesus, que me dizia: 'Apressa-te e sai logo de Jerusalém, porque não receberão teu testemunho a Meu respeito.' Eu repliquei: 'Senhor, eles sabem que eu encarcerava e açoitava com varas nas sinagogas aqueles que creem em Ti. E quando se derramou o sangue de Estêvão, Tua testemunha, eu estava presente, consentia nisso e guardava os mantos dos que o matavam.' Mas Ele respondeu-me: 'Vai, porque Eu te enviarei para longe, às nações...'" At 22,17-21
    Antioquia era a maior cidade da região, e no Império Romano menor apenas que Roma e Alexandria, e Saulo vai ser levado para lá por São Barnabé, quando o próprio Espírito Santo vai destacá-los para outras missões: "Em seguida, partiu Barnabé para Tarso, à procura de Saulo. Achou-o e levou-o para Antioquia. Durante um ano inteiro eles tomaram parte nas reuniões da comunidade e instruíram grande multidão, de maneira que em Antioquia é que os discípulos, pela primeira vez, foram chamados pelo nome de cristãos. Enquanto celebravam o culto do Senhor, depois de terem jejuado, disse-lhes o Espírito Santo: 'Separai-Me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho destinado.'" At 11,25-26;13,2
    E com grande poder de argumentação, saiu visitando cidades e convertendo multidões. No Chipre, também tendo a companhia de São Marcos Evangelista, Paulo, como começava a ser conhecido, amaldiçoou um mago e falso profeta judeu que iludia o procônsul: "Então Saulo, também chamado Paulo, cheio do Espírito Santo, cravou nele os olhos e disse-lhe: 'Filho do demônio, cheio de todo engano e de toda astúcia, inimigo de toda justiça! Não cessas de perverter os retos caminhos do Senhor! Eis que agora está sobre ti a mão do Senhor, e ficarás cego. Não verás o sol até nova ordem!' Logo caíram sobre ele a escuridão e as trevas, e, andando em voltas, buscava quem lhe desse a mão." At 13,9-11
    Voltando a Antioquia, suas pregações atraiam quase toda cidade, porém como os judeus não aceitavam a Encarnação do Cristo na Pessoa de Jesus, ele declarou-lhes: "Era a vós que em primeiro lugar se devia anunciar a Palavra de Deus. Mas, porque a rejeitam e julgam-se indignos da Vida Eterna, eis que, a partir de agora, voltamo-nos para os não judeus." At 13,46


    Em Listra, um aleijado de nascença foi curado por ele. A cidade então entrou em convulsão: seriam Paulo e Barnabé deuses gregos? Paulo tentou explicar-se, mas judeus de outras cidades incitaram a população a matá-lo como a um farsante: "Sobrevieram, porém, alguns judeus de Antioquia e de Icônio que persuadiram a multidão. Apedrejaram Paulo e, dando-o por morto, arrastaram-no para fora da cidade. Os discípulos rodearam-no, ele levantou-se e entrou na cidade." At 14,19-20
    Fundando comunidades por onde passava, Paulo seguiu fazendo viagens e em cada lugar instituía Anciãos como líderes, que junto a bispos e diáconos viriam a ser nossos Sacerdotes. Era a nascente hierarquia da Igreja, que é fundamental à fidelidade e à autenticidade da mensagem de Deus. E essa vai ser a instrução que ele vai dar a São Tito: "Eu deixei-te em Creta para acabares de organizar tudo e estabeleceres Anciãos em cada cidade, de acordo com as normas que te indiquei." Tt 1,5
    E também a São Timóteo: "O que de mim ouviste em presença de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis que, por sua vez, sejam capazes de instruir a outros." 2 Tm 2,2
    No entanto, pedia prudência ao ordenar alguém: "A ninguém inconsideradamente imponhas as mãos, para que não venhas a tornar-te cúmplice dos pecados alheios." 1 Tm 5,22a
    E exatamente por respeitar a hierarquia, ainda que incipiente à época, ele admitiu ter procurado conhecer São Pedro, logo que pôde após converter-se, distintivamente a ele referindo-se pelo nome de ofício: "Três anos depois subi a Jerusalém para conhecer Cefas, e com ele fiquei quinze dias." Gl 1,8
    Até afirmou expressamente a liderança de Pedro entre os Doze, ainda que 'dividindo' a Igreja entre judeus e não-judeus: "... Aquele cuja ação fez de Pedro o Apóstolo dos judeus, também fez de mim o Apóstolo dos não judeus." Gl 2,8
    Realmente zeloso da integridade do Evangelho, mais tarde tratou de fazer uma nova conferência em Jerusalém, onde encontraria as 'colunas da Igreja': "Catorze anos mais tarde, subi outra vez a Jerusalém com Barnabé, também levando Tito comigo. E subi em consequência de uma revelação. Expus-lhes o Evangelho que prego entre os pagãos, e isso particularmente aos que eram de maior consideração, a fim de não correr ou de não ter corrido em vão. Tiago, Cefas e João, que são considerados as colunas, reconhecendo a Graça que me foi dada, deram as mãos a mim e a Barnabé em sinal de pleno acordo: iríamos aos pagãos, e eles aos circuncidados. Recomendaram-nos apenas que nos lembrássemos dos pobres, o que era precisamente minha intenção." Gl 2,1-2.9-10
    Voluntarioso defensor da Sã Doutrina, nosso Santo chegou a inquirir São Pedro, que por prudência tentava não acirrar os ânimos entre os cristãos vindos do judaísmo e aqueles vindos do paganismo, pois já haviam entrado em acirrado debate sobre a circuncisão. Ele exigia que o Príncipe dos Apóstolos confrontasse os enviados de São Tiago Menor, levando-os a abandonar de imediato os hábitos judeus de alimentação: "Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, francamente resisti-lhe porque era censurável. Pois, antes de chegarem alguns homens da parte de Tiago, ele comia com os pagãos convertidos. Mas, quando aqueles vieram, retraiu-se e separou-se destes, temendo os circuncidados." Gl 2,11-12
    Mas o próprio São Paulo iria simular cumprimento de votos judeus para escapar de perseguições, acolhendo uma sugestão de São Tiago Menor: "Toma-os contigo, faze com eles os ritos da purificação e paga por eles a oferta obrigatória, para que rapem a cabeça. Então, todos saberão que é falso quanto de ti ouviram, mas que tu também guardas a Lei." At 21,24
    E tempos depois até vai exaltar esse sábio procedimento, por vezes adequado ao ofício pastoral: "Para os que não têm Lei, fiz-me como se eu não tivesse Lei, ainda que eu não esteja isento da Lei de Deus - porquanto estou sob a Lei de Cristo -, a fim de ganhar os que não têm Lei. Fiz-me fraco com os fracos, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, a fim de salvar a todos." 1 Cor 9,21-22

OPERANDO MILAGRES E ZELANDO PELA UNIDADE DA IGREJA

    Estando em Trôade, num domingo, dia já largamente acolhido para celebrar a Santa Missa, enquanto fazia um longo sermão antes da Comunhão um jovem adormeceu, caiu do terceiro andar e morreu. Mas Paulo ressuscitou-o: "No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para partir o Pão, Paulo, que havia de viajar no dia seguinte, conversava com os discípulos e prolongou a palestra até a meia-noite. Havia muitas lâmpadas no quarto, onde nos achávamos reunidos. Acontece que um moço, chamado Êutico, que estava sentado numa janela, foi tomado de profundo sono, enquanto Paulo ia prolongando seu discurso. Vencido pelo sono, caiu do terceiro andar abaixo, e foi levantado morto. Paulo desceu, debruçou-se sobre ele, tomou-o nos braços e disse: 'Não vos perturbeis, porque sua alma está nele.' Então subiu, partiu o Pão, comeu e falou-lhes largamente até o romper do dia. Depois partiu. Quanto ao moço, levaram-no dali vivo, cheios de consolação." At 20,7-12
    São Lucas atestou até mesmo o valor de suas relíquias: "Deus fazia extraordinários milagres por intermédio de Paulo, de modo que lenços e outros panos que tinham tocado seu corpo eram levados aos enfermos. E afastavam-se deles as doenças e retiravam-se os malignos espíritos." At 19,11-12
    Nosso Santo era natural de Tarso, mas foi criado em Jerusalém, como o vemos afirmar quando na Cidade Santa foi preso pela primeira vez: "'Irmãos e pais, ouvi o que vos tenho a dizer em minha defesa.' Quando ouviram que lhes falava em língua hebraica, escutaram-no com maior atenção. Continuou ele: 'Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia, mas criei-me nesta cidade, instruí-me aos pés de Gamaliel, em toda observância da Lei de nossos pais, entusiasta partidário da causa de Deus como todos vós também o sois no dia de hoje.'" At 22,2-3


    Antes de converter-se, era fariseu, como declarou em julgamento perante o Rei Agripa, já na cidade de Cesareia: "Minha vida, desde minha primeira juventude, tem decorrido no meio de minha pátria e em Jerusalém, e é conhecida dos judeus. Sabem eles, desde longa data, e se quiserem poderão testemunhá-lo, que vivi segundo a mais rigorosa seita de nossa religião, isto é, como fariseu." At 26,4,5
    Também tinha cidadania romana, e vai declará-lo logo que foi preso em Jerusalém: "Quando o iam amarrando com a correia, Paulo perguntou a um centurião que estava presente: 'É permitido açoitar um cidadão romano que nem sequer foi julgado?' Ao ouvir isso, o centurião foi ter com o tribuno e avisou-o: 'Que vais fazer? Este homem é cidadão romano.' Veio o tribuno e perguntou-lhe: 'Dize-me, és romano?' 'Sim', respondeu-lhe. O tribuno replicou: 'Eu adquiri este direito de cidadão por grande soma de dinheiro.' Paulo respondeu: 'Pois eu sou-o de nascimento.'" At 22,25-28
    Tinha irmã e sobrinho em Jerusalém, que o ajudou desbaratando o plano dos judeus para matá-lo antes de ser levado a Roma: "Mas um filho da irmã de Paulo, inteirado da cilada, dirigiu-se à cidadela e comunicou-o a Paulo." At 23,16
    Tinha parentes em Roma, onde havia muitos judeus e a nova sede da Igreja seria fundada sob o túmulo de São Pedro, após a destruição de Jerusalém pelos romanos no ano 70 de nossa era. Ele escreve na Carta aos Romanos: "Saudai Andrônico e Júnias, meus parentes e companheiros de prisão, os quais são muito estimados entre os Apóstolos e tornaram-se discípulos de Cristo antes de mim." Rm 16,7
    Com efeito, na introdução ele refere-se aos cristãos de lá com a várias comunidades: "... a fim de levar, em Seu Nome, todas nações pagãs à obediência da fé, entre as quais também vós sois os eleitos de Jesus Cristo. A todos que estão em Roma, queridos de Deus, chamados a serem Santos..." Rm 1,5b-7a
    Além de outros, como três que eram seus colaboradores e com ele estavam em Corinto: "Saúdam-vos Timóteo, meu cooperador, Lúcio, Jasão e Sosípatro, meus parentes." Rm 16,21
    Ele adotava o celibato e recomendava-o até aos leigos, como um dom superior: "Pois quereria que todos fossem como eu. Mas cada um tem de Deus um dom particular: uns este, outros aquele. Aos solteiros e às viúvas, digo que lhes é bom se permanecerem assim, como eu. Mas eis o que vos digo, irmãos: o tempo é breve. O que importa é que os que têm mulher vivam como se a não tivessem. O solteiro cuida das coisas que são do Senhor, de como agradar ao Senhor. O casado preocupa-se com as coisas do mundo, procurando agradar à sua esposa. A mesma diferença existe com a mulher solteira ou a virgem. Aquela que não é casada, cuida das coisas do Senhor, para ser santa no corpo e no espírito, mas a casada cuida das coisas do mundo, procurando agradar ao marido. Em suma, aquele que casa sua filha faz bem, e aquele que não a casa, faz ainda melhor. A mulher está ligada ao marido enquanto ele viver. Mas, se morrer o marido, ela fica livre e poderá casar-se com quem quiser, contanto que seja no Senhor. Contudo, na minha opinião, ela será mais feliz se permanecer como está. E creio que eu também tenho o Espírito de Deus." 1 Cor 7,7-8.29-30.32b-34.38-40
    Em casos de mais graves faltas contra a integridade da Igreja, ele era a favor da excomunhão: "Repito aqui o que acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina diferente da que recebestes, seja ele excomungado!" Gl 1,9
    Pois, a despeito do que parecia radicalidade, ele visava a Salvação das almas: "Ouve-se constantemente dizer que se comete, em vosso meio, a luxúria, e tão grave luxúria que não se costuma encontrar nem mesmo entre os pagãos: há entre vós quem vive com a mulher de seu pai!... seja esse homem entregue a Satanás, para mortificação de seu corpo, a fim de que sua alma seja salva no Dia do Senhor Jesus." 1 Cor 5,1.5
    E esse não foi o único: "É o caso de Himeneu e Alexandre, que entreguei a Satanás para que aprendam a não blasfemar." 1 Tm 1,20
    Também inquiriu os coríntios: "Porque o Reino de Deus não consiste em palavras, mas em atos. Que preferis? Que eu vá visitar-vos com a vara, ou com caridade e espírito de mansidão?" 1 Cor 4,20
    Por esta lógica, como está no Antigo Testamento e a própria Igreja por vários séculos defendeu, ele também era a favor da pena de morte. Foi o que alegou quando acusado pelos judeus em Cesareia, e acabou invocando seu direito, enquanto cidadão romano, de ser julgado em Roma: "Se lhes tenho feito algum mal ou coisa digna de morte, não recuso morrer. Mas, se nada há daquilo de que estes me acusam, ninguém tem o direito de entregar-me a eles. Apelo para César!" At 25,11
    E menciona tais condenações como justas: "A ira de Deus manifesta-se do alto do Céu contra toda impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a Verdade. Apesar de conhecerem o justo decreto de Deus que considera dignos de morte aqueles que fazem tais coisas, não somente as praticam, como também aplaudem os que as cometem." Rm 1,18.32
    Era um homem de vasta cultura: "Sou devedor a gregos e a bárbaros, a sábios e a simples." Rm 1,14
    Além do hebraico e do aramaico, falava e escrevia perfeitamente em grego, que era o idioma internacional de então: "Quando estava para ser introduzido na fortaleza, Paulo perguntou ao tribuno: 'É-me permitido dizer duas palavras?' Este respondeu: 'Sabes o grego?'" At 21,37
    Assim como outros idiomas, talvez siríaco, turco e latim. Ele disse aos coríntios: "Dous Graças a Deus por falar em línguas mais que todos vós." 1 Cor 14,18
    Apesar de seus fortes argumentos, porém, não tinha o dom da oratória: "... embora eu seja frágil no falar..." 2 Cor 11,6
    Mas enfrentou francamente o Areópago em Atenas, que era o tribunal e conselho de senadores, aristocratas e grandes filósofos: "Alguns filósofos epicureus e estoicos conversaram com ele. Diziam uns: 'Que quer dizer esse tagarela?' Outros: 'Parece que é pregador de novos deuses.' Pois anunciava-lhes Jesus e a Ressurreição. Tomaram-no consigo e levaram-no ao Areópago, e perguntaram-lhe: 'Podemos saber que nova doutrina é essa que pregas?'" At 17,18-19
    Não escreveu todas cartas a ele atribuídas. Algumas ditou, como a aos romanos: "Eu, Tércio, que escrevi esta carta, saúdo-vos no Senhor." Rm 16,22
    Outras apenas assinou, como a Primeira aos Coríntios: "Esta saudação escrevo-a de próprio punho: PAULO." 1 Cor 16,22
    E a Segunda aos Tessalonicenses: "A saudação vai de meu próprio punho: PAULO. É esta minha assinatura em todas minhas cartas. É assim que eu escrevo." 2 Ts 3,17
    Aos gálatas, pediu que observassem sua caligrafia: "Vede com que tamanho de letras vos escrevo, de próprio punho!" Gl 6,11
    E também a Filemon: "Eu, Paulo, escrevo de próprio punho: eu pagarei. Para não te dizer que tu mesmo te deves inteiramente a mim!" Fl 1,19
    Pedia que suas cartas fossem lidas entre todos irmãos das comunidades: "Encarecidamente peço-vos, no Senhor, que esta carta seja lida a todos irmãos." 1 Ts 5,27
    Por elas dirigia-se não só à igreja local, mas a outras comunidades: "Uma vez lida esta carta entre vós, fazei com que ela o seja também na igreja dos laodicenses. E vós, lede a de Laodiceia." Cl 4,16
    Assim como a toda região: "Paulo, Apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo, à Igreja de Deus que está em Corinto, e a todos santos irmãos que estão em toda Acaia." 2 Cor 1,1
    Escreveu talvez o mais belo texto sobre o amor, reconhecido em todo o mundo. Eis um dos trechos: "Ainda que distribuísse todos meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse meu corpo para ser queimado, se não tivesse amor, de nada valeria!" 1 Cor 13,3
    Penitente, pela vida afora aprendeu a carregar um 'espinho na carne': "Ademais, para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para esbofetear-me e livrar-me do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim. Mas Ele disse-me: 'Basta-te Minha Graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente Minha força.' Portanto, prefiro gloriar-me de minhas fraquezas, para que em mim habite a força de Cristo." 2 Cor 12,7-9
    Tudo fazia por Cristo, demonstrando total desapego material: "Sei viver na penúria, e sei também viver na abundância. Estou acostumado a todas vicissitudes: a ter fartura e a passar fome, a ter abundância e a padecer necessidade." Fl 4,12
    E pelos fiéis: "Tudo sofro para que seus corações sejam reconfortados e que, estreitamente unidos pela caridade, sejam enriquecidos de uma plenitude de inteligência, para conhecerem o mistério de Deus, isto é, Cristo, no qual estão escondidos todos tesouros da Sabedoria e da ciência." Cl 2,2-3


"CRISTO VIVE EM MIM"

    Depois da conversão, dedicou toda sua vida à causa da Igreja: "Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim." Gl 2,20
    Teve intensa vida pastoral: "Paulo permaneceu ali em Corinto ainda algum tempo. Depois, despediu-se dos irmãos e navegou para a Síria, e com ele Priscila e Áquila. Antes, porém, cortara o cabelo em Cêncris, porque terminara um voto. Chegaram a Éfeso, onde os deixou. Ele entrou na sinagoga e entretinha-se com os judeus. Pediram-lhe estes que ficasse com eles ali por mais tempo, mas ele não quis. Ao despedir-se, disse: 'Voltarei a vós, se Deus quiser.' E partiu de Éfeso. Viajou até Cesareia, subiu a Jerusalém e saudou a comunidade, e logo em seguida desceu a Antioquia. Aí se demorou apenas por algum tempo, partiu de novo e atravessou sucessivamente as regiões da Galácia e da Frígia, fortalecendo todos discípulos." At 18,18-23
    Em modelar testemunho de vida, mostrou-se visceralmente unido à Igreja: "São ministros de Cristo? (Falo como menos sábio:) Eu, ainda mais. Muito mais pelos trabalhos, muito mais pelos cárceres, pelos açoites sem medida. Muitas vezes vi a morte de perto. Cinco vezes recebi dos judeus os quarenta açoites menos um, três vezes fui flagelado com varas, uma vez apedrejado, três vezes naufraguei, uma noite e um dia passei no abismo. Viagens sem conta, exposto a perigos nos rios, perigos de salteadores, perigos da parte de meus concidadãos, perigos da parte dos pagãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos entre falsos irmãos! Trabalhos e fadigas, repetidas vigílias, com fome e sede, frequentes jejuns, frio e nudez! Além de outras coisas, minha cotidiana preocupação, a solicitude por todas igrejas! Quem é fraco, que eu não seja fraco? Quem sofre escândalo, que eu não me consuma de dor?" 2 Cor 11,23-29
    Bem sabia reconhecer a presença do Espírito Santo, e por isso ministrava o Sacramento da Crisma: "Enquanto Apolo estava em Corinto, Paulo atravessou as províncias superiores e chegou a Éfeso, onde achou alguns discípulos e indagou deles: 'Recebestes o Espírito Santo, quando abraçastes a ?' Responderam-lhe: 'Não, nem sequer ouvimos dizer que há um Espírito Santo!' 'Então em que batismo fostes batizados?', perguntou Paulo. Disseram: 'No batismo de João.' Paulo então replicou: 'João só dava um batismo de penitência, dizendo ao povo que cresse n'Aquele que havia de vir depois dele, isto é, em Jesus.' Ouvindo isso, foram batizados em Nome do Senhor Jesus. E quando Paulo lhes impôs as mãos, o Espírito Santo desceu sobre eles, e falavam em línguas estranhas e profetizavam." At 19,1-6
    De fato, só ocasionalmente batizava: "Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o Evangelho. E isso sem recorrer à habilidade da arte oratória, para que não se desvirtue a Cruz de Cristo." 1 Cor 1,17
    E quando o fazia, batizava toda a família, isto é, inclusive as crianças. São Lucas registrou na cidade de Filipos: "Uma mulher, chamada Lídia, da cidade dos tiatirenos, vendedora de púrpura, temente a Deus, escutava-nos. O Senhor abriu-lhe o coração para atender às coisas que Paulo dizia. Foi batizada juntamente com sua família e fez-nos este pedido: 'Se julgais que tenho fé no Senhor, entrai em minha casa e ficai comigo.' E obrigou-nos a isso." At 16,14-15
    Foi o primeiro a receber os estigmas de Cristo: "... porque trago em meu corpo as marcas de Jesus." Gl 6,17
    Continuou recebendo recados pessoais de Jesus, como em Corinto: "Numa noite, o Senhor disse a Paulo em visão: 'Não temas! Fala, e não te cales. Porque Eu estou contigo. Ninguém se aproximará de ti para fazer-te mal, pois tenho um numeroso povo nesta cidade.'" At 18,9-10
    Numa aparição em Jerusalém, após ser preso e julgado pelo Sinédrio, Ele mandou-o pregar em Roma, o que faria mesmo acorrentado: "Na noite seguinte, apareceu-lhe o Senhor e disse-lhe: 'Coragem! Assim como você deu testemunho de mim em Jerusalém, é preciso que também testemunhe em Roma.'" At 23,11
    Mas por conta da perseguição dos judeus, só em Cesareia ficaria preso por anos: "Decorridos dois anos, Félix teve por sucessor a Pórcio Festo. Querendo, porém, agradar aos judeus, manteve Paulo na prisão." At 24,27
    Fidelíssimo à hierarquia, e assim atento às perversões contra o Evangelho, preparou a Igreja para depois de sua partida, como disse aos Anciãos de Éfeso: "Cuidai de vós mesmos e de todo rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos para pastorear a Igreja de Deus, que Ele adquiriu com Seu próprio Sangue. Sei que depois da minha partida entre vós introduzir-se-ão cruéis lobos, que não pouparão o rebanho. Mesmo dentre vós surgirão homens que hão de proferir perversas doutrinas, com o intento de arrebatarem após si os discípulos. Vigiai! Lembrai-vos, portanto, de que por três anos não cessei, noite e dia, de admoestar, com lágrimas, a cada um de vós. Agora eu encomendo-vos a Deus e à Palavra de Sua Graça, Àquele que é poderoso para edificar e dar a herança com os santificados. De ninguém cobicei prata, nem ouro, nem vestes. Vós mesmos sabeis: estas mãos proveram minhas necessidades e as de meus companheiros. Em tudo, tenho-vos mostrado que assim: trabalhando. Convém acudir os fracos e lembrar-se das palavras do Senhor Jesus, porquanto Ele mesmo disse: 'É maior felicidade dar que receber!' A essas palavras, ele pôs-se de joelhos a orar. Derramaram-se em lágrimas e lançaram-se ao pescoço de Paulo para abraçá-lo, aflitos, sobretudo pela palavra que tinha dito: 'Já não vereis minha face.' Em seguida, acompanharam-no até o navio." At 20,16-38
    Demonstrando sua intimidade com São Timóteo, advertiu-o dos semeadores de heresias e intrigas, apontando-lhe sua própria vida como modelo: "Nota bem o seguinte: nos últimos dias haverá um difícil período. Os homens tornar-se-ão egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos, rebeldes aos pais, ingratos, malvados, desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis, inimigos dos bons, traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de Deus, ostentarão a aparência de piedade, mas desdenharão a realidade. Dessa gente, afasta-te! Deles fazem parte os que jeitosamente se insinuam pelas casas e enfeitiçam mulherzinhas carregadas de pecados, atormentadas por toda espécie de paixões, sempre a aprender sem nunca chegar ao conhecimento da Verdade. Tu, pelo contrário, aplicaste-te a seguir-me de perto em minha doutrina, em meu modo de vida, em meus planos, em minha fé, em minha paciência, em minha caridade, em minha constância, em minhas perseguições, em provações que me sobrevieram em Antioquia, em Icônio, em Listra. Pois todos que quiserem viver piedosamente em Jesus Cristo, terão de sofrer a perseguição." 2 Tm 3,1-7.10-11a.12
    Em defesa da hierarquia, ele não admitia qualquer acusação contra um Sacerdote: "Não recebas acusação contra um presbítero, senão por duas ou três testemunhas." 1 Tm 5,19
    Pedia amor por eles: "Suplicamo-vos, irmãos, que reconheçais aqueles que entre vós arduamente trabalham para dirigir-vos e admoestar-vos no Senhor. Tende para com eles singular amor, em vista do cargo que exercem. Conservai a Paz entre vós." 1 Ts 5,12-13
    Mas, em caso de desvios, ordenava que se usasse de toda autoridade: "Aos que faltam às suas obrigações, repreende-os diante de todos, para que também os demais se atemorizem." 1 Tm 5,20
    E pedia-lhe absoluto zelo pela Sã Doutrina: "Toma por modelo os salutares ensinamentos que de mim recebeste sobre a fé e o amor a Jesus Cristo. Guarda o Precioso Depósito, pela virtude do Espírito Santo que em nós habita." 2 Tm 1,13-14
    Demonstrando a importância da centralização do corpo doutrinário, instituiu dominicais coletas para o socorro da sede da Igreja à época, que era Jerusalém: "Quanto à coleta em benefício dos santos, segui também vós as diretrizes que eu tracei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte o que tiver podido poupar, para que não esperem minha chegada para fazer as coletas. Quando chegar, enviarei, com uma carta, aqueles que tiverdes escolhido para levar a Jerusalém vossa oferta." 1 Cor 16,1-3
    Segundo ele mesmo, já seria um idoso (na verdade, entre 50 e 55), quando pediu acolhida a Filemon: "Eu, Paulo, o velho, e agora preso por Jesus Cristo... Ao mesmo tempo, prepara-me pousada, porque espero, pelas vossas orações, em breve ser-vos restituído." Fm 1,9b.22
    Mas muito mais inclinado a crer no martírio, que se daria poucos anos depois, deixou uma marcante frase em carta a São Timóteo: "Quanto a mim, estou a ponto de ser imolado e o instante de minha libertação aproxima-se. Combati o bom combate, terminei minha carreira, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, Justo Juiz, dar-me-á n'Aquele Dia. E não somente a mim, mas a todos aqueles que com amor aguardam Sua Aparição." 2 Tm 4,6-8
    Realmente humilde, assim resumiu sua conversão à vida cristã: "Dou graças àquele que me deu forças, Jesus Cristo, Nosso Senhor, porque me julgou digno de confiança e chamou-me ao ministério, justamente a mim que outrora era blasfemo, perseguidor e injuriador. Se encontrei Misericórdia, foi para que primeiro em mim Jesus Cristo manifestasse toda Sua longanimidade, e eu servisse de exemplo para todos aqueles que, a seguir, n'Ele crerem, para a Vida Eterna." 1 Tm 1,16
    Dizia-se, e de fato seria, o último Apóstolo, pois a mais ninguém Jesus apareceria e pessoalmente enviaria. Referindo-se ao Colégio como a um grupo definido, diz de Sua Aparição: "E, por último de todos, apareceu também a mim, como a um abortivo. Porque eu sou o menor dos Apóstolos, e não sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus." 1 Cor 15,8-9
    Jesus, porém, a São Pedro e a ele referiu-Se como a duas Oliveiras que fariam de Roma uma cidade apostólica, pois deu-lhes pleno poder da Palavra, assim como os poderes dados a Elias e Moisés. São João Evangelista registrou no livro do Apocalipse: "Mas incumbirei às Minhas duas testemunhas, vestidas de saco, que profetizem por mil duzentos e sessenta dias. São eles as duas oliveiras e os dois candelabros que se mantêm diante do Senhor da terra. Se alguém lhes quiser causar dano, sairá fogo de suas bocas e devorará seus inimigos. Esses homens têm o poder de fechar o céu, para que não caia chuva durante os dias de sua profecia. Têm poder sobre as águas, para transformá-las em sangue, e de ferir a terra, sempre que quiserem, com toda sorte de flagelos. Mas, depois de terem integralmente terminado seu testemunho, a Fera que sobe do abismo lhes fará guerra, irá vencê-los e matá-los." Ap 11,3-5a.6-7
    A Sagrada Tradição conta que São Paulo foi decapitado por um golpe de espada, que é retratada em suas imagens. Mas assim como na morte de São Pedro, acontecida pouco antes, em prantos pela perda de tão importante líder, e, ainda pior, pelo pânico instalado com a perseguição aos cristãos que o imperador Nero iniciava, não se fez nenhum registro escrito imediatamente após sua morte.


    Sob o local de sua sepultura, foi erguida a Basílica de São Paulo Fora dos Muros, assim chamada por ficar fora da Muralha Aureliana, e aí se encontram seu sarcófago e as correntes com que o prenderam.


    São Paulo, rogai por nós!