sábado, 31 de março de 2018

A Ressurreição da Carne


    Em Seu imenso amor por nós, o Pai Eterno não poderia deixar de oferecer-nos a própria eternidade. Jesus disse: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Vosso Pai Celestial dará o Espírito Santo aos que LhO pedirem." Lc 11,13
    Por isso, além de explicitar Sua divindade, Jesus deu um grande sinal do que aconteceria em Sua Ressurreição quando Se transfigurou. Apresentava-Se, pela primeira vez, em corpo glorioso: "Seis dias depois, Jesus tomou Consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e à parte conduziu-os a uma alta montanha. Lá Se transfigurou na presença deles: Seu rosto brilhou como o sol, Suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que apareceram Moisés e Elias, conversando com Ele." Mt 17,1-3
    O rosto de Moisés, após receber de Deus as Tábuas da Lei, também brilhava a ponto de ter que usar um véu. Mas era apenas seu rosto, como sinal da proximidade que ele tinha com Deus: "E tendo-o visto Aarão e todos os israelitas, notaram que a pele de seu rosto se tornara brilhante e não ousaram aproximar-se dele." Ex 34,30
    Esse corpo que pode apresentar-se brilhante como o sol, sem necessariamente ofuscar, foi predito bem antes da Vinda de Jesus e aconteceria com Nossa Senhora, quando foi elevada ao Céu. Está lá no Cântico dos Cânticos: "Quem é esta que surge como a aurora, bela como a lua, brilhante como o sol, temível como um exército em ordem de batalha?" Ct 6,10
    De fato, a São João Evangelista, que cuidou de Nossa Mãe Celestial após a morte de Jesus, foi concedido ver sua chegada ao Céu, exatamente como havia sido profetizado: "Apareceu em seguida um grande sinal no Céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo de seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas." Ap 12,1
    E esse também é um suspiro de São Paulo, que vale para todos nós: "Nós, porém, somos cidadãos dos Céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante a Seu Corpo glorioso..." Fl 3,20-21


MULTIFORME, MATERIAL E IMATERIAL

    Logo ao ressuscitar na manhã de domingo, Jesus não Se apresentou de modo a ser reconhecido por Santa Maria Madalena: "... voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não O reconheceu." Jo 20,14
    E instantes depois, quando permitiu ser reconhecido, ela quis abraçá-Lo, mas Ele não o permitiu, certamente por alguma especial condição de Seu Corpo: "Disse-lhe Jesus: 'Não Me retenhas, porque ainda não subi a Meu Pai...'" Jo 20,17
    Sua simples reaparição sem feridas e luxações já era um grande milagre, pois Seu Corpo foi impiedosamente massacrado durante a flagelação ordenada por Pilatos, pelas quedas na subida ao Calvário (teve que ser ajudado!) e pela brutalidade da morte na Cruz. Ao morrer, Sua aparência nem lembrava a de um ser humano, como profetizou Isaías Seus últimos momentos: "Assim como, à Sua vista, muitos ficaram embaraçados - tão desfigurado estava que havia perdido a aparência humana...” Is 52,14
    Dois de Seus discípulos, que caminhavam para Emaús, também não O puderam reconhecer, pois ao menos inicialmente Ele assim não o quis. Aqui, como na aparição à Santa Maria Madalena, Jesus demonstrou como eles eram frágeis na , e não guardavam Sua Palavra. Ele não havia avisado que ressuscitaria? "Enquanto iam conversando e discorrendo entre si, o mesmo Jesus aproximou-Se deles e caminhava com eles. Mas seus olhos estavam-lhes como que vendados, e não O reconheceram." Lc 24,15-16
    Entretanto, Ele não Se manifestava sempre assim. Nesta mesma situação, aliás, Ele apresentou-Se com Sua conhecida aparência, e exatamente pelo ritual do Santíssimo Sacramento, como pediu para ser celebrado, embora logo em seguida tenha demonstrado mais um poder de Sua Divindade: "Aproximaram-se da aldeia para onde iam e Ele fez como se quisesse passar adiante. Mas eles forçaram-nO a parar: 'Fica conosco, já é tarde e já declina o dia.' Entrou então com eles. Aconteceu que, estando sentado conjuntamente à mesa, Ele tomou o pão, abençoou-O, partiu-O e serviu-lhO. Então se lhes abriram os olhos e O reconheceram... mas Ele desapareceu." Lc 24,28-31
    E no mesmo domingo, momentos depois, também apareceu fisicamente aos Apóstolos. Para tirar qualquer dúvida, disse-lhes: "Vede Minhas mãos e Meus pés, sou Eu mesmo; apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho." Lc 24,39
    Chegou a comer diante deles: "Mas, vacilando eles ainda e estando transportados de alegria, perguntou: 'Tendes aqui alguma coisa para comer?' Então ofereceram-Lhe um pedaço de peixe assado. Ele tomou e comeu à vista deles." Lc 24,41,43
    Contudo, era verdadeiramente uma aparição, pois atravessava paredes como descreveu São João Evangelista: "Na tarde do mesmo dia, que era o primeiro da semana, os discípulos tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus. Jesus veio e pôs-Se no meio deles. Disse-lhes Ele: 'A Paz esteja convosco!'" Jo 20,19
    Na segunda aparição aos Apóstolos, não por acaso igualmente num domingo, Ele também apresentou-Se de modo a ser imediatamente reconhecido: "Oito dias depois, estavam Seus discípulos outra vez no mesmo lugar e Tomé com eles. Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-Se no meio deles e disse: 'A Paz esteja convosco!'" Jo 20,26
    E logo ofereceu Suas feridas para que São Tomé as tocasse: "Põe teu dedo aqui e olha Minhas mãos. Estende tua mão e coloca-a no Meu lado e não sejas incrédulo, mas crê!" Jo 20,27
    Na terceira aparição coletiva, já na Galileia, de novo Ele apresentou-Se irreconhecível, mas só por um breve momento: "Chegada a manhã, Jesus estava na praia. Todavia, os discípulos não O reconheceram. Perguntou-lhes Jesus: 'Amigos, não tendes acaso alguma coisa para comer?' 'Não', responderam-Lhe. Disse-lhes Ele: 'Lançai a rede ao lado direito da barca e achareis.' Lançaram-na, e já não podiam arrastá-la por causa da grande quantidade de peixes. Então aquele discípulo, que Jesus amava, disse a Pedro: 'É o Senhor!' Quando Simão Pedro ouviu dizer que era o Senhor, cingiu-se com a túnica (porque estava nu) e lançou-se às águas." Jo 21,4-7
    E logo em seguida Ele comeu Pão e peixe diante eles. Tinha Seu próprio alimento, mas fez questão de comer do peixe que os Apóstolos haviam recém-pescado: "Ao saltarem em terra, viram umas brasas preparadas e um peixe em cima delas, e Pão. Disse-lhes Jesus: 'Trazei aqui alguns dos peixes que agora apanhastes.' Depois de haverem comido..." Jo 21,9-10.15
    Eram todas essas aparições, porém, a realização de uma promessa do próprio Jesus, quando avisou aos Apóstolos de como se daria Sua Paixão: "Ainda um pouco de tempo, e já Me não vereis; depois, mais um pouco de tempo, e Me tornareis a ver, porque vou para junto do Pai." Jo 16,16
    Ele assegurou, como registrou São Mateus, que muitos veriam Sua Glória: "Em verdade, declaro-vos: muitos destes que aqui estão não verão a morte, sem que tenham visto o Filho do Homem voltar na majestade de Seu Reino." Mt 16,28


A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS

    Jesus, porém, não ressuscitou sozinho, mas com vários Santos: "Os sepulcros abriram-se e muitos corpos de santos ressuscitaram. Saindo de suas sepulturas, entraram na Cidade Santa depois da Ressurreição de Jesus e apareceram a muitas pessoas." Mt 27,53
    Aliás, isso não deveria ser surpresa, pois o próprio Jesus havia dito: "Em verdade, em verdade, digo-vos: vem a hora, e já está aí, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão. Pois como o Pai tem a Vida em Si mesmo, assim também deu ao Filho ter a Vida em Si mesmo... Não fiqueis admirados com isso, pois vem a hora em que todos que estão nos túmulos ouvirão Sua voz, e sairão." Jo 5,25-26.28
    São Pedro, com efeito, mais tarde iria atestar Sua descida à mansão dos mortos, embora também tenha registrado que nem todos participaram da 'primeira ressurreição', que só cabe aos Santos. Ou seja, as penas do Purgatório haverão de ser cumpridas: "Pois para isto foi o Evangelho pregado também aos mortos; para que, embora sejam condenados em sua humanidade de carne, vivam segundo Deus quanto ao espírito." 1 Pd 4,6
    Como anunciava a ressurreição da carne, Jesus, em debate com saduceus, teve que dar explicações desta doutrina que havia alguns séculos fora revelada e já estava sendo corretamente observada e propagada: "Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento, mas os que serão julgados dignos do futuro século e da ressurreição dos mortos não terão mulher nem marido. Eles jamais poderão morrer, porque são iguais aos anjos e são filhos de Deus, porque são ressuscitados. Por outra parte, que os mortos hão de ressuscitar é o que Moisés revelou na passagem da sarça ardente (Ex 3,6), chamando ao Senhor: Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó. Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos; porque para Ele todos vivem." Lc 20,34-38
    São Paulo pregava: "Assim como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos reviverão." 1 Cor 15,22
    E lamentou por aqueles cuja esperança só está voltada para coisas materiais: "Se é só para esta vida que temos colocado nossa esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os mais dignos de lástima." 1 Cor 15,19
    Pois sabemos que todos vão ressuscitar, é fato, mas nem todos terão o mesmo destino. Jesus afirmou: "Aqueles que praticaram o bem irão para a Ressurreição da Vida, e aqueles que praticaram o mal ressuscitarão para serem condenados." Jo 5,29
    Por isso alertava nestes termos para o castigo maior: "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes Aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena." Mt 10,28
    De fato, Deus havia feito essa promessa através do Profeta Ezequiel: "Eis o que diz o Senhor Javé: 'Ó Meu povo, vou abrir vossos túmulos. Eu vos farei sair deles... Sabereis então que Eu é que sou o Senhor, ó Meu povo... quando Eu pôr em vós Meu Espírito para fazer-vos voltar à vida...'" Ez 37,12a.13a.14a
    Também através de Daniel: "Muitos daqueles que dormem no pó da terra despertarão, uns para uma Vida Eterna, outros para a ignomínia, a eterna infâmia. Os que tiverem sido inteligentes fulgirão como o brilho do firmamento, e os que a muitos tiverem introduzido nos caminhos da justiça luzirão como as estrelas, com um perpétuo resplendor." Dn 12,2-3
    Ora, Ezequiel tinha sido arrebatado e testemunhou a grandiosa visão do Vale dos Ossos Secos: "Profetizei, pois, assim como tinha recebido ordem. No momento em que comecei, um barulho fez-se ouvir, e em seguida um ensurdecedor ruído enquanto os ossos vinham unir-se aos outros. Prestando atenção, vi que músculos se formavam sobre eles, que carne neles nascia e que uma pele os recobria. Todavia, não tinham espírito. 'Profetiza ao Espírito!', disse-me o Senhor. 'Profetiza, filho do homem, e dirige-te ao Espírito.' Eis o que diz o Senhor Javé: 'Vem, Espírito, dos quatro cantos do Céu, sopra sobre esses mortos para que revivam.' Proferi o oráculo que Ele me havia ditado, e daí a pouco o Espírito penetrou neles. Retornando à vida, eles levantaram-se sobre seus pés: um grande, um imenso exército." Ez 37,7-10
    Foi, pois, por amor a Lázaro e para dar outro sinal da Ressurreição que Jesus devolveu-lhe a vida. Não era, entretanto, a definitiva Ressurreição, que confere ao ressuscitado um incorruptível e glorioso corpo. Sem dúvida, anos mais tarde Lázaro 'tornaria' a morrer. Sua ressurreição foi só uma prova de nossa vocação para a eternidade, assim como os demais a quem Jesus e os Apóstolos ressuscitaram. Tais sinais confirmam a Palavra e o poder de Jesus, pois num dos momentos em que Se revelou como Deus, Ele disse a Santa Marta: "Eu sou a Ressurreição e a Vida. Aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá." Jo 11,25
    Ele disse-o de modo ainda mais explícito, garantindo que Ele mesmo, e não Deus Pai, ressuscitaria quem n'Ele cresse: "Esta é a vontade de Meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e n'Ele crê, tenha a Vida Eterna; e Eu o ressuscitarei no Último Dia." Jo 6,40
    E deixou claro que tal Graça se daria pelo poder do Santíssimo Sacramento: "Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue tem a Vida Eterna; e Eu o ressuscitarei no Último Dia." Jo 6,54
    Aliás, sobre Sua própria Ressurreição Ele disse: "... dou Minha Vida para retomá-la. Ninguém a tira de Mim, mas dou-a de Mim mesmo porque tenho o poder para dá-la como tenho o poder para reassumi-la." Jo 10,18


O CORPO GLORIOSO

    São Paulo, fabricante de tendas por profissão, chamava de 'tenda' a carne em que vivemos: "Pois enquanto permanecemos nesta 'tenda', gememos oprimidos: desejamos ser não despojados, mas revestidos com uma nova veste por cima da outra, de modo que o que há de mortal em nós seja absorvido pela Vida." 2 Cor 5,4
    E ele fez esta explanação aos coríntios sobre a ressurreição da carne: "Assim também é a Ressurreição dos mortos. Semeado na corrupção, o corpo ressuscita incorruptível; semeado no desprezo, ressuscita glorioso; semeado na fraqueza, ressuscita vigoroso; semeado corpo animal, ressuscita corpo espiritual. Se há um corpo animal, também há um espiritual. Como está escrito: 'O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente (Gn 2,7)'; o segundo Adão é espírito vivificante. Mas não é o espiritual que vem primeiro, e sim o animal; o espiritual vem depois. O primeiro homem, tirado da terra, é terreno; o Segundo veio do Céu. Qual o homem terreno, tais os homens terrenos; e qual o Homem Celestial, tais os homens celestiais. Assim como reproduzimos em nós as feições do homem terreno, precisamos reproduzir as feições do Homem Celestial. O que afirmo, irmãos, é que nem a carne nem o sangue podem participar do Reino de Deus; e que a corrupção não participará da incorruptibilidade. Eis que vos revelo um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta (porque a trombeta soará). Os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. É necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que este corpo mortal se revista da imortalidade. Quando este corpo corruptível estiver revestido da incorruptibilidade, e quando este corpo mortal estiver revestido da imortalidade, então se cumprirá a palavra da Escritura: 'A morte foi tragada pela Vitória' (Is 25,8). 'Onde está, ó morte, tua vitória? Onde está, ó morte, teu aguilhão (Os 13,14)?' Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a Lei. Graças, porém, sejam dadas a Deus, que nos dá a Vitória por Nosso Senhor Jesus Cristo!" 1 Cor 15,42-57
    Verdadeiramente inspirado, também deu detalhes das últimas horas do fim dos tempos: "Eis o que vos declaramos, conforme a Palavra do Senhor: por ocasião da Vinda do Senhor, nós que estivermos ainda vivos não precederemos os mortos. Quando for dado o sinal, à voz do Arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o mesmo Senhor descerá do Céu e os que morreram em Cristo ressurgirão primeiro. Depois nós, os vivos, os que estamos ainda na terra, seremos arrebatados juntamente a eles sobre nuvens ao encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor." 1 Ts 4,15-17
    São João Evangelista, pelas revelações que teve, também deu detalhes da nova condição da carne ressuscitada: "Já não terão fome, nem sede, nem o sol ou calor algum os abrasará, porque o Cordeiro, que está no meio do trono, será Seu Pastor e levar-los-á às fontes das Águas Vivas..." Ap 7,15b-16a
    E indicou que, através de pessoal consolação de Deus, aí já não haverá mais sofrimento: "Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição." Ap 21,4
    Com efeito, mesmo aqui na Terra, corpos de muitos Santos ainda não se decompuseram. O corpo de Santa Luzia já tem 1700 anos e ainda pode ser visto, não se corrompeu por completo. São sinais que Deus nos dá da futura e definitiva Ressurreição da carne.


RESSURREIÇÃO DE CRISTO: ESSÊNCIA DA DOUTRINA

    Segundo São Paulo, conhecer o Mistério de Cristo é conhecer o poder que há em Sua Ressurreição, e é obtido oferecendo-se com Ele em sacrifício: "Anseio pelo conhecimento, de Cristo e do poder de Sua Ressurreição, pela participação em Seus sofrimentos, tornando-me semelhante a Ele na morte, com a esperança de conseguir a Ressurreição dentre os mortos." Fl 3,10-11
    Os seguidores de sua tradição afirmam: "Foi por sua que Abraão, submetido à prova, ofereceu Isaac, seu único filho, depois de ter recebido a promessa e ouvido as palavras: 'Uma posteridade com teu nome ser-te-á dada em Isaac (Gn 21,12)'. Estava ciente de que Deus é poderoso até para ressuscitar alguém dentre os mortos. Assim ele conseguiu que seu filho lhe fosse devolvido, e isso é um ensinamento para nós!" Hb 11,17-19
    E evocando já tantos testemunhos, eles exortam à perseverança em Cristo: "Desse modo, cercados como estamos de uma tal nuvem de testemunhas, desvencilhemo-nos das cadeias do pecado. Com perseverança corramos ao combate proposto, com o olhar fixo no Autor e Consumador de nossa fé, Jesus. Em vez de gozo que se Lhe oferecera, Ele suportou a Cruz e está sentado à direita do trono de Deus." Hb 12,1-2
    São Pedro também diz que a Ressurreição de Cristo é a fonte de nossa esperança, o impulso de uma Nova Vida: "Bendito seja Deus, o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo! Em Sua grande Misericórdia, Ele fez-nos renascer pela Ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma viva esperança..." 1 Pd 1,3
    Testemunhar Sua Ressurreição, de fato, era o tema central das primeiras pregações dos Apóstolos. Só depois divulgaram-se Seus Ensinamentos e, ainda mais tarde, detalhes de Sua História. Mas, por demais marcante e absolutamente revolucionária, era a Sua Ressurreição que no início eles anunciavam, como foi exigido de São Matias, que substituiu Judas Iscariotes. Disse São Pedro em reunião com os Dez, ainda antes do Pentecostes: "Convém que destes homens que têm estado em nossa companhia todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, a começar do Batismo de João até o dia em que de nosso meio foi arrebatado, um deles torne-se conosco testemunha de Sua Ressurreição." Ap 1,21-22
    E foi o que eles fizeram com ardor: "Com grande coragem, os Apóstolos davam testemunho da Ressurreição do Senhor Jesus. Em todos eles era grande a Graça." At 4,33
    São Paulo também a menciona Ressurreição como o feito central do ministério de Jesus: "Dou testemunho a pequenos e a grandes, nada dizendo senão o que os Profetas e Moisés disseram que havia de acontecer, a saber: que Cristo havia de padecer e seria o primeiro que, pela Ressurreição dos mortos, havia de anunciar a Luz ao povo judeu e aos pagãos." At 26,22b-23
    E foi isso que ele pregou em Atenas: "Alguns filósofos epicureus e estoicos conversaram com ele. Diziam uns: 'Que quer dizer esse tagarela?' Outros: 'Parece que é pregador de novos deuses.' Pois anunciava-lhes Jesus e a Ressurreição. Tomaram-no consigo e levaram-no ao Areópago, e perguntaram-lhe: 'Podemos saber que nova doutrina é essa que pregas?'" At 17,18-19
    Para envolver em sua causa os fariseus, que concordavam com essa doutrina, ele usou deste argumento perante o Sinédrio, quando foi preso: "Por causa da minha esperança na Ressurreição dos mortos é que sou julgado." At 23,6
    Ele vai evocar esta Tradição mais uma vez diante Félix, procurador da Judeia, para quem foi levado sob custódia, testemunhando que haverá Ressurreição, seja para a Vida Eterna, seja para os castigos do inferno, como acreditavam os fariseus: "Tenho esperança em Deus, como também eles esperam, de que há de haver a Ressurreição dos justos e dos pecadores." At 24,15
    São João Evangelista, no apocalipse, avisa assim da Volta de Jesus: "Ei-Lo que vem com as nuvens. Todos os olhos O verão, mesmo aqueles que O traspassaram." Ap 1,7a
    A Ressurreição, portanto, é parte elementar do Catolicismo, como ensinam seus seguidores e diz o Credo: "Pelo que, transpondo os ensinamentos elementares da Doutrina de Cristo, procuremos alcançar-lhe a plenitude. Não queremos agora insistir nas fundamentais noções da conversão, da renúncia ao pecado, da fé em Deus, a doutrina dos vários batismos, da imposição das mãos, da Ressurreição dos mortos e do Julgamento Eterno." Hb 6,1-2
    Aliás, nosso Batismo consiste numa súplica pela inspiração de Deus, para que Ele nos mantenha vigilantes em nome da Ressurreição de Seu Filho: "Esta água prefigurava o Batismo de agora, que salva também a vós, não pela purificação das impurezas do corpo, mas pela que consiste em pedir a Deus uma boa consciência, pela Ressurreição de Jesus Cristo." 1 Pd 3,21
    Porque Sua Ressurreição é a grande força do Evangelho. Foi por ela que Deus O consagrou, como prega o Apóstolo dos Gentios: "... foi estabelecido Filho de Deus no poder por Sua Ressurreição dos mortos..." Rm 1,4
    Ora, a Ressurreição de Jesus já havia sido profetizada por Davi nos Salmos, como explicou São Pedro: "É, portanto, a Ressurreição de Cristo que ele previu e anunciou por estas palavras: 'Ele não foi abandonado na região dos mortos, e Sua Carne não conheceu a corrupção (Sl 15,10).'" At 2,31
    Falando através de Davi, era o próprio Jesus que rezava a Deus: "Por isso, Meu Coração alegra-se e Minha alma exulta; até Meu Corpo descansará seguro, porque Vós não abandonareis Minha alma na habitação dos mortos, nem permitireis que Vosso Santo conheça a corrupção." Sl 15,9-10
    Essa é a Glória do 'Filho de Maria': "Senhor, Eu sou Vosso Servo. Vosso Servo, Filho de Vossa Serva. Quebrastes Meus grilhões." Sl 115,7
    Através do salmista, portanto, já era proclamada essa certeza: "Na presença do Senhor continuarei meu caminho, na terra dos vivos." Sl 114,8
    A partir da Ressurreição, como vimos afirmar Jesus, os seres humanos havidos por filhos de Deus alcançarão essa condição angelical: "Na Ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no Céu." Mt 22,30
    É lá que nosso amor a Deus, e por consequência aos nossos semelhantes, será recompensado. Jesus disse sobre o bem que se faz aos mais necessitados: "Serás feliz porque eles não têm com que te retribuir, mas ser-te-á retribuído na Ressurreição dos justos." Lc 14,14
    Os Santos, por sinal, asseguram para si a Vida Eterna já durante a passagem terrena, sem que suas almas passem pelo Purgatório. Aqui mesmo eles alcançam a perfeita Comunhão com Deus, e após um glorioso Juízo Particular, o Juízo Final não os assusta, pois já estão reinando com Cristo: "Feliz e Santo é aquele que toma parte na primeira ressurreição! Sobre eles a segunda morte não tem poder, mas serão Sacerdotes de Deus e de Cristo: com Ele reinarão durante os mil anos." Ap 20,6
    O livro da Sabedoria já dizia: "Mas as almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará. Aparentemente estão mortos, aos olhos dos insensatos. Seu desenlace é julgado como uma desgraça e sua morte, como uma destruição, quando na verdade estão na Paz! Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, a esperança deles era portadora de imortalidade, e, por terem sofrido um pouco, receberão grandes bens, porque Deus, que os provou, achou-os dignos de Si. Ele provou-os como ouro na fornalha, e acolheu-os como holocausto." Sb 3,1-6
    Contudo, na parábola de Lázaro e o Rico, Jesus afirmou, atestando a descrença já de então, que nem mesmo Sua Ressurreição levaria todos à fé: "Se não ouvirem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite algum dos mortos." Lc 12,31b

    "Anunciamos, Senhor, Vossa Morte e proclamamos Vossa Ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!"

sexta-feira, 30 de março de 2018

A Sexta-Feira Santa

    São Mateus descreve assim as últimas horas de Jesus:

'PERANTE PILATOS'


    "Chegando a manhã, todos os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo reuniram-se no Conselho para entregar Jesus à morte. Ligaram-nO e levaram-nO ao governador Pilatos. Judas, o traidor, vendo-O então condenado, tomado de remorsos, foi devolver aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos as trinta moedas de prata, dizendo-lhes:
    - Pequei, entregando o Sangue de um Justo.
    Responderam-lhe:
    - Que nos importa? Isto é contigo!
    Ele então jogou no Templo as moedas de prata, saiu e foi enforcar-se. Os príncipes dos sacerdotes tomaram o dinheiro e disseram:
    - Não é permitido lançá-lo no tesouro sagrado, porque se trata de preço de Sangue.
    Depois de haverem deliberado, compraram com aquela soma o campo do Oleiro, para que ali se fizesse um cemitério de estrangeiros. Esta é a razão porque aquele terreno é chamado, ainda hoje, Campo de Sangue. Assim se cumpriu a profecia do Profeta Jeremias: 'Eles receberam trinta moedas de prata, preço d'Aquele Cujo valor foi estimado pelos filhos de Israel; e deram-no pelo campo do Oleiro, como o Senhor me havia prescrito.'
    Jesus compareceu diante do governador, que O interrogou:
    - És o Rei dos judeus?
    - Sim, respondeu-lhe Jesus.
    Ele, porém, nada respondia às acusações dos príncipes dos sacerdotes e dos anciãos. Perguntou-Lhe Pilatos:
    - Não ouves todos os testemunhos que levantam contra Ti?
    Mas, para grande admiração do governador, Ele não quis responder a nenhuma acusação. Era costume que o governador soltasse um preso a pedido do povo em cada festa de Páscoa. Ora, havia naquela ocasião um prisioneiro famoso, chamado Barrabás. Pilatos dirigiu-se ao povo reunido:
    - Qual quereis que eu vos solte: Barrabás ou Jesus, que Se chama Cristo?
    Ele sabia que tinham entregue Jesus por inveja. Enquanto estava sentado no tribunal, sua mulher mandou dizer-lhe:
    - Nada faças a esse Justo! Hoje fui atormentada por um sonho que Lhe diz respeito.
    Mas os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram o povo que pedisse a libertação de Barrabás, e que fizesse morrer Jesus. O governador então tomou a palavra:
    - Qual dos dois quereis que eu vos solte?
    Responderam:
    - Barrabás!
    Pilatos perguntou:
    - Que farei então de Jesus, que é chamado o Cristo?
    Todos responderam:
    - Seja crucificado!
    O governador tornou a perguntar:
    - Mas que mal fez Ele?
    E gritavam ainda mais forte:
    - Seja crucificado!
    Pilatos viu que nada adiantava, mas que, ao contrário, o tumulto crescia. Fez com que lhe trouxessem água, lavou as mãos diante do povo e disse:
    - Sou inocente do Sangue deste Homem. Isto é convosco!
    E todo o povo respondeu:
    - Caia sobre nós Seu Sangue e sobre nossos filhos!
    Assim, ele libertou Barrabás, mandou açoitar Jesus e entregou-O para ser crucificado.

'A FLAGELAÇÃO'


    Os soldados do governador conduziram Jesus para o pretório e rodearam-nO com todo o pelotão. Arrancaram-Lhe as vestes e colocaram-Lhe um manto escarlate. Depois, trançaram uma coroa de espinhos, meteram-Lha na cabeça e puseram-Lhe na mão uma vara. Dobrando os joelhos diante d'Ele, diziam com escárnio:
    - Salve, Rei dos judeus!
    Cuspiam-Lhe no rosto e, tomando da vara, davam-Lhe golpes na cabeça. Depois de escarnecerem d'Ele, tiraram-Lhe o manto e entregaram-Lhe as vestes. Em seguida, levaram-nO para crucificá-Lo.

'A CRUCIFICAÇÃO'


    Saindo, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, a quem obrigaram a levar a Cruz de Jesus. Chegaram ao lugar chamado Gólgota, isto é, lugar do crânio. Deram-Lhe de beber vinho misturado com fel. Ele provou, mas recusou-Se a beber.
    Depois de haverem-nO crucificado, dividiram Suas vestes entre si, tirando a sorte. Cumpriu-se assim a profecia do Profeta: 'Repartiram entre si Minhas vestes e sobre Meu manto lançaram a sorte' (Sl 21,19).
    Sentaram-se e montaram guarda. Por cima de Sua cabeça penduraram um escrito, trazendo o motivo de Sua crucificação: 'Este é Jesus, o Rei dos judeus'. Ao mesmo tempo, foram crucificados com Ele dois ladrões, um à Sua direita e outro à Sua esquerda.
    Os que passavam injuriavam-nO, sacudiam a cabeça e diziam:
    - Tu, que destróis o Templo e o reconstróis em três dias, salva a Ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da Cruz!
    Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos também zombavam d'Ele:
    - Ele salvou a outros e não pode salvar a Si mesmo! Se é Rei de Israel, que desça agora da Cruz e nós creremos n'Ele!
    - Confiou em Deus, Deus livre-O agora, se O ama, porque Ele disse: 'Eu sou o Filho de Deus!'
    E os ladrões, com Ele crucificados, também O ultrajavam. Desde o meio-dia até às três da tarde, cobriu-se toda a terra de trevas.

'A MORTE'


    Próximo das três da tarde, Jesus exclamou em forte voz:
    - Eli, Eli, lammá sabactáni? - que quer dizer: Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonaste?
    A estas palavras, alguns dos que lá estavam diziam:
    - Ele chama por Elias.
    Imediatamente um deles tomou uma esponja, embebeu-a em vinagre e apresentou-Lha na ponta de uma vara, para que bebesse. Os outros diziam:
    - Deixa! Vejamos se Elias virá socorrê-Lo.
    Jesus de novo lançou um grande brado, e entregou a alma.
    E eis que o véu do Templo se rasgou em duas partes de alto a baixo, a terra tremeu, fenderam-se as rochas. Os sepulcros abriram-se e os corpos de muitos justos ressuscitaram. Saindo de suas sepulturas, entraram na Cidade Santa depois da Ressurreição de Jesus e apareceram a muitas pessoas.
    O centurião e seus homens, que montavam guarda a Jesus, diante do estremecimento da terra e de tudo que se passava, disseram entre si, possuídos de grande temor:
    - Verdadeiramente, este Homem era Filho de Deus!
    Havia ali também algumas mulheres que de longe olhavam; tinham seguido Jesus desde a Galileia para servi-Lo. Entre elas achavam-se Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.

'O SEPULTAMENTO'


    Ao entardecer, um rico homem de Arimateia, chamado José, que era também discípulo de Jesus, foi procurar Pilatos e pediu-lhe o Corpo de Jesus. Pilatos cedeu-O. José tomou o Corpo, envolveu-O num lençol branco e depositou-O num novo sepulcro, que tinha mandado talhar para si na rocha. Depois rolou uma grande pedra à entrada do sepulcro, e foi-se embora.
    Maria Madalena e a outra Maria ficaram lá, sentadas defronte do túmulo."
                                                  Mt 27,1-61

    Diferente de São Mateus (Mt 27,44), São Lucas apontou que um dos ladrões não O insultava. Ao contrário, defendeu-O dos ultrajes e, realmente arrependido, fez-Lhe um sincero e tocante pedido por sua alma. E ouviu uma extasiante promessa: "Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra Ele: 'Se és o Cristo, salva a Ti mesmo e a nós!' Mas o outro repreendeu-o: 'Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram nossos crimes, mas Este não fez mal algum.' E acrescentou: 'Jesus, lembra-Te de mim quando tiveres entrado no Teu Reino!' Jesus respondeu-lhe: 'Em verdade, digo-te: hoje estarás Comigo no Paraíso.'" Lc 23,39-43
    Sobre este dia, São João Evangelista registrou importantes informações, como o nome da prima de Nossa Senhora, mãe dos chamados 'irmãos' de Jesus, e quando Ele fez de Maria Nossa Mãe, representados que fomos por seu dilato seguidor, e ela foi morar com um discípulo simplesmente porque não tinha outros filhos: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu Sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à Sua mãe: 'Mulher, eis aí teu filho.' Depois disse ao discípulo: 'Eis aí tua mãe.' E dessa hora em diante o discípulo levou-a para sua casa." Jo 19,25-27
    Ao narrar esta mesma cena, também São Marcos, como fizera São Mateus (Mt 27,56), nomina os 'irmãos' de Jesus como filhos desta senhora: "Achavam-se ali também umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé, que O tinham seguido e haviam-nO assistido quando Ele estava na Galileia. E muitas outras que juntamente a Ele haviam subido a Jerusalém." Mc 15,40-41
    São Lucas ainda acrescenta a generalizada comoção entre todos presentes, que se viu na dispersão ao final: "E toda a multidão dos que assistiam a este espetáculo e viam o que se passava, voltou batendo no peito." Lc 23,48
    E fala do tradicional funeral judeu que as seguidoras de Jesus pretendiam dar a Seu Corpo após o sábado, pois, como já terminava o dia, foi sepultado às pressas: "Elas viram o túmulo e o modo como o Corpo de Jesus ali fora depositado. Elas voltaram e prepararam aromas e bálsamos. No dia de sábado, observaram o preceito do repouso." Lc 23,55a-56


    O amado discípulo anotou uma ligeira querela sobre o Titulus Crucis: "Pilatos redigiu também uma inscrição e fixou-a por cima da Cruz. Nela estava escrito: 'Jesus de Nazaré, Rei dos judeus.' Muitos dos judeus leram essa inscrição, porque Jesus foi crucificado perto da cidade e a inscrição era redigida em hebraico, em latim e em grego. Os sumos sacerdotes dos judeus disseram a Pilatos: 'Não escrevas: Rei dos judeus, mas sim: Este homem disse ser o rei dos judeus.' Respondeu Pilatos: 'O que escrevi, escrevi.'" Jo 19,19-22
    E narrou mais alguns detalhes da crucificação: é a mais importante parte da história de São Longuinho, por este evangelista tratado como um soldado, mas seria o centurião romano encarregado da crucificação, segundo São Marcos (Mc 15,39), São Lucas (Lc 23,47) e São Mateus (Mt 27,54), como vimos, que reconheceu Jesus como o Filho de Deus: "Os judeus temeram que os corpos ficassem nas cruzes durante o sábado, porque já era a Preparação e esse sábado era particularmente solene. Rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados. Vieram os soldados e quebraram as pernas do primeiro e do outro, que com Ele foram crucificados. Chegando, porém, a Jesus, como O vissem já morto, não Lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados abriu-Lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu Sangue e Água." Jo 19,31-34
    Sua estátua, como testemunha da crucificação, é uma das quatro, junto às de Santa Helena, Santa Verônica e Santo André, que ficam de frente para o Altar Papal na Basílica de São Pedro.


    Segundo a Sagrada Tradição, ele tinha uma grave enfermidade num dos olhos, que foi imediatamente curada por respingos do Sangue e da Água que saíram do lado de Jesus. Convertido, ele abandonou o exército romano e tornou-se evangelista na Cesareia Marítima, região da então Samaria, e na Capadócia, que fica na atual Turquia. Aí, por seu constante e destemido testemunho, ele foi torturado, teve os dentes arrancados e a língua cortada, e assim morto, portanto reconhecido como mártir.
    A lança usada por São Longuinho, séculos mais tarde revestida com uma lâmina de ouro, é venerada em Viena, na Áustria. É mais uma relíquia que prova que Jesus não foi mitificado, processo que certamente teria levado algumas décadas, mas prontamente reconhecido como o Messias, pois desde sempre foi dado a este artefato a devida importância.


    As pedras que sustentaram a Santa Cruz, assim como a lápide sobre a qual o Corpo de Cristo foi rapidamente ungido antes de ser posto no túmulo, são veneradas na Basílica do Santo Sepulcro, em Jerusalém, que foi construída por ordem e sob os cuidados de Santa Helena, sobre o local do Seu sepultamento.


    "Pela Vossa dolorosa Paixão, tende Misericórdia de nós e do mundo inteiro!"

quinta-feira, 29 de março de 2018

A Quinta-Feira Santa

    São Mateus assim narrou a última quinta-feira de Jesus:

'A SANTA CEIA'


    "No primeiro dia dos Ázimos, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-Lhe:
    - Onde queres que preparemos a ceia pascal?
    Respondeu-lhes Jesus:
    - Ide à cidade, à casa de um tal, e dizei-lhe: O Mestre manda dizer-te: Meu tempo está próximo. É em tua casa que celebrarei a Páscoa com Meus discípulos.
    Os discípulos fizeram o que Jesus tinha ordenado, e prepararam a Páscoa.
    Ao declinar da tarde, pôs-Se Jesus à mesa com os Doze discípulos. Durante a ceia, disse:
    - Em verdade, digo-vos: um de vós há de trair-Me.
    Com profunda aflição, cada um começou a perguntar:
    - Sou eu, Senhor?
    Respondeu Ele:
    - Aquele que Comigo pôs a mão no prato, esse Me trairá. O Filho do Homem vai, como d'Ele está escrito. Mas ai daquele homem por quem o Filho do Homem é traído! Seria melhor para esse homem que jamais tivesse nascido!
    Judas, o traidor, tomou a palavra e perguntou:
    - Mestre, serei eu?
    - Sim, disse Jesus.
    Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-O, partiu-O e deu-O aos discípulos, dizendo:
    - Tomai e comei, isto é Meu Corpo.
    Tomou depois o Cálice, rendeu graças e deu-lhO, dizendo:
    - Bebei dele todos, porque isto é Meu Sangue, o Sangue da Nova Aliança, derramado em favor de muitos para a remissão dos pecados. Digo-vos: doravante não beberei mais desse fruto da vinha até o dia em que o beberei de novo convosco no Reino de Meu Pai.
    Depois do canto dos Salmos, dirigiram-se eles para o Monte das Oliveiras. Disse-lhes então Jesus:
    - Esta noite, para todos serei vós uma ocasião de queda; porque está escrito: 'Ferirei o Pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersadas' (Zc 13,7). Mas, depois da Minha Ressurreição, Eu vos precederei na Galileia.
   Pedro interveio:
    - Mesmo que para todos sejas uma ocasião de queda, para mim jamais o serás.
    Disse-lhe Jesus:
    - Em verdade, digo-te: nesta mesma noite, antes que o galo cante, três vezes Me negarás.
    Respondeu-Lhe Pedro:
    - Mesmo que seja necessário Contigo morrer, jamais Te negarei!
    E todos os outros discípulos diziam-Lhe o mesmo.

'A AGONIA NO ORTO DAS OLIVEIRAS'


   Retirou-Se Jesus com eles para um lugar chamado Getsêmani, e disse-lhes:
    - Assentai-vos aqui, enquanto Eu vou ali orar.
    E Consigo tomando Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-Se e a angustiar-Se. Disse-lhes, então:
    - Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai Comigo.
    Adiantou-Se um pouco e, prostrando-Se com a face por terra, assim rezou:
    - Meu Pai, se é possível, afasta de Mim este cálice! Contudo, não se faça o que Eu quero, mas sim o que Tu queres.
    Depois foi ter com os discípulos e encontrou-os dormindo. E disse a Pedro:
    - Então não pudestes vigiar uma hora Comigo... Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca.
    Afastou-Se pela segunda vez e orou, dizendo:
    - Meu Pai, se não é possível que passe este cálice sem que Eu o beba, faça-se a Tua vontade!
    Voltou ainda e encontrou-os novamente dormindo, porque seus olhos estavam pesados. Deixou-os e foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras.
    Voltou então para Seus discípulos e disse-lhes:
    - Dormi agora e repousai!
    Mas, após alguns instantes, disse-lhes:
    - Chegou a hora: o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores... Levantai-vos, vamos! Aquele que Me trai está perto daqui.

'A TRAIÇÃO'


    Jesus ainda falava, quando veio Judas, um dos Doze, e com ele uma multidão de gente armada de espadas e cacetes, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo. O traidor combinara com eles este sinal:
    - Aquele que eu beijar, é Ele. Prendei-O!
    Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse:
    - Salve, Mestre.
    E beijou-O.
    Disse-lhe Jesus:
    - Então é para isso que aqui vens?
    Em seguida, adiantaram-se eles e lançaram mão em Jesus para prendê-Lo. Mas um dos companheiros de Jesus desembainhou a espada e feriu um servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha. Jesus, no entanto, disse-lhe:
    - Embainha tua espada, porque todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão. Crês tu que não posso invocar Meu Pai e Ele não Me enviaria imediatamente mais de doze legiões de anjos? Mas como se cumpririam então as Escrituras, segundo as quais é preciso que assim seja?
    Depois, voltando-Se para a turba, falou:
    - Saístes armados de espadas e porretes para prender-Me, como se Eu fosse um malfeitor. Mas todos os dias estava Eu sentado entre vós, ensinando no Templo, e não Me prendestes. Tudo isto aconteceu porque era necessário que se cumprissem os oráculos dos Profetas.
    Então os discípulos abandonaram-nO, e fugiram.

'O JULGAMENTO'


    Aqueles que haviam prendido Jesus, levaram-nO à casa do sumo sacerdote Caifás, onde estavam reunidos os escribas e os anciãos do povo. Pedro seguia-O de longe, até o pátio do sumo sacerdote. Entrou e sentou-se junto aos criados, para ver como aquilo terminaria.
    Enquanto isso, os príncipes dos sacerdotes e todo o conselho procuravam um falso testemunho contra Jesus, a fim de levarem-nO à morte. Mas não o conseguiram, embora apresentassem-se muitas falsas testemunhas.
    Por fim, apresentaram-se duas testemunhas que disseram:
    - Este homem disse: 'Posso destruir o Templo de Deus e reedificá-lo em três dias.'
    Levantou-se o sumo sacerdote e perguntou-Lhe:
    - Nada tens a responder ao que essa gente depõe contra Ti?
    Jesus, no entanto, permanecia calado. Disse-Lhe o sumo sacerdote:
    - Por Deus vivo, conjuro-Te que nos digas se és o Cristo, o Filho de Deus?
    Jesus respondeu:
    - Sim. Além disso, Eu declaro-vos que doravante vereis o Filho do Homem sentar-Se à direita do Todo-poderoso, e voltar sobre as nuvens do Céu!
    A estas palavras, o sumo sacerdote rasgou suas vestes, exclamando:
    - Que necessidade ainda temos de testemunhas? Acabastes de ouvir a blasfêmia! Qual é vosso parecer?
    Eles responderam:
    - Merece a morte!
    Cuspiram-Lhe então na face, bateram-Lhe com os punhos e deram-Lhe tapas, dizendo:
    - Adivinha, ó Cristo: quem Te bateu?
    Enquanto isso, Pedro estava sentado no pátio. Aproximou-se dele uma das servas, dizendo:
    - Tu também estavas com Jesus, o Galileu!
    Mas ele negou publicamente, nestes termos:
    - Não sei o que dizes.
    Dirigia-se ele para a porta, a fim de sair, quando outra criada o viu e disse aos que lá estavam:
    - Este homem também estava com Jesus de Nazaré!
    Pedro, pela segunda vez, negou com juramento:
    - Eu nem conheço tal homem.
    Pouco depois, os que ali estavam aproximaram-se de Pedro e disseram:
    - Sim, tu és daqueles; teu modo de falar dá-te a conhecer.
    Pedro então começou a fazer imprecações, jurando que nem sequer conhecia tal homem. E, neste momento, cantou o galo. Pedro recordou-se do que Jesus lhe dissera:
    - Antes que o galo cante, negar-me-ás três vezes.
    E saindo, chorou amargamente."                                                              Mt 26,17-75


'O LAVA-PÉS' 


    Este acontecimento, que se tornou um importante ritual da Igreja, também se deu neste dia, e foi narrado por São João Evangelista:

    "Durante a ceia, quando o demônio já tinha lançado no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de traí-Lo, sabendo Jesus que o Pai tudo Lhe dera nas mãos, e que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-Se da mesa, depôs Suas vestes e, pegando duma toalha, cingiu-Se com ela.
    Em seguida, deitou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido. Chegou a Simão Pedro. Mas Pedro disse-Lhe:
    - Senhor, queres lavar-me os pés?!...
   Respondeu-lhe Jesus:
    - O que faço não compreendes agora, mas compreendê-lo-ás em breve.
    Disse-Lhe Pedro:
    - Jamais me lavarás os pés!...
    Respondeu-lhe Jesus:
    - Se Eu não tos lavar, não terás parte Comigo.
    Exclamou então Simão Pedro:
    - Senhor, então não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça.
    Disse-lhe Jesus:
    - Aquele que tomou banho não tem necessidade de lavar-se; está inteiramente puro. Ora, vós estais puros, mas nem todos!...
    Pois sabia quem O havia de trair. Por isso, disse:
    - Nem todos estais puros.
    Depois de lavar-lhes os pés e tomar Suas vestes, sentou-Se novamente à mesa e perguntou-lhes:
    - Sabeis o que vos fiz? Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque Eu o sou. Logo, se Eu, Vosso Senhor e Mestre, lavei-lhes os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como Eu vos fiz, assim façais também vós. Em verdade, em verdade, digo-vos: o servo não é maior que Seu Senhor, nem o enviado é maior que Aquele que o enviou. Se compreenderdes estas coisas, sereis felizes, sob condição de praticá-las."
                                                 Jo 13,2-17

    Depois, Jesus rezou ao Pai por todos aqueles que ouviriam a Palavra anunciada pelos Apóstolos, em nome da Unidade da Igreja, e para tanto derramou Sua Glória sobre os Onze: "Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que por sua palavra hão de crer em Mim. Para que todos sejam um, assim como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti, para que também eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu Me enviaste. Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e amaste-os, como amaste a Mim." Jo 17,20-23
    E São Lucas relata que, após a Santa Ceia, Jesus mais uma vez colocou São Pedro à frente do Colégio dos Apóstolos: "Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou, para peneirar-vos como o trigo. Mas Eu roguei por ti, para que tua confiança não desfaleça. E tu, por tua vez, confirma teus irmãos." Lc 22,31-32

A INSTITUIÇÃO DA EUCARISTIA

    Bem antes desta noite, ainda na sinagoga de Cafarnaum, Jesus já havia avisado que instituiria este que é o mais importante dos Sacramentos: "Eu sou o Pão Vivo que desceu do Céu. Quem comer deste Pão viverá eternamente. E o Pão que Eu hei de dar é Minha Carne, para a Salvação do mundo." Jo 6,51
    E quanto à sua importância, Ele foi bastante contundente: "Então lhes disse Jesus: 'Em verdade, em verdade, digo-vos: se não comerdes a Carne do Filho do Homem, e não beberdes Seu Sangue, não tereis a Vida em vós mesmos. Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue tem a Vida Eterna; e Eu o ressuscitarei no Último Dia. Pois Minha Carne é verdadeiramente comida e Meu Sangue, verdadeiramente bebida.'" Jo 6,53-55
    Mais: por ele firmou um vínculo de pertença, a Comunhão Espiritual: "Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue permanece em Mim e Eu nele." Jo 6,56
    Disse expressamente que este é o cerne de Sua Missão: "Chegada que foi a hora, Jesus pôs-Se à mesa, e com Ele os Apóstolos. Disse-lhes: 'Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa, antes de sofrer. Pois digo-vos: não tornarei a comê-la, até que ela se cumpra no Reino de Deus.'" Lc 22,14-16
    Definitivamente, pois, a Eucaristia não é apenas um ritual. Tanto que, após ressuscitado, em Sua primeira aparição aos discípulos, em Emaús, Jesus fez-Se reconhecer exatamente ao partir o Pão: "Aconteceu que, estando sentado conjuntamente à mesa, Ele tomou o pão, abençoou-O, partiu-O e serviu-lhO. Então se lhes abriram os olhos e reconheceram-nO... mas Ele desapareceu. Diziam então um para o outro: 'Não se nos abrasava o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e explicava-nos as Escrituras?'" Lc 24,30-32
    E essa é a piedosa prática dos Apóstolos, assim como da primeira grande leva de seguidores cativada pela Igreja, logo após o Pentecostes, através da pregação de São Pedro: "Aqueles que receberam sua palavra foram batizados. E naquele dia elevou-se a mais ou menos três mil o número dos adeptos. Perseveravam eles na Doutrina dos Apóstolos, na reunião em comum, na fração do Pão e nas orações." At 2,41-42
    A Comunhão, pois, tornou-se o símbolo da unidade da Igreja: "Unidos de coração, frequentavam todos os dias o Templo. Partiam o pão nas casas e tomavam a Comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia ajuntava-lhes outros que estavam a Caminho da Salvação." At 2,46-47
    Com efeito, sustentando que só existe uma Eucaristia, São Paulo vai argumentar: "Uma vez que há um único Pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só Corpo, porque todos nós comungamos do mesmo Pão." 1 Cor 10,17
    E tomando como marco o Dia da Ressurreição de Cristo, assim como os de Suas primeiras aparições, faziam-no especialmente aos domingos: "No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para partir o Pão, Paulo, que havia de viajar no dia seguinte, conversava com os discípulos e prolongou a palestra até a meia-noite." At 20,7
    Enquanto só o Evangelho de São Mateus estava escrito, São Paulo e os demais Apóstolos cuidavam de repassar, oralmente e por carta, os relatos desse grandioso evento: "Eu recebi do Senhor o que vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, depois de ter dado graças, partiu-O e disse: 'Isto é Meu Corpo, que é entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim.' Do mesmo modo, depois de haver ceado, tomou também o Cálice, dizendo: 'Este Cálice é a Nova Aliança em Meu Sangue. Todas as vezes que O beberdes, fazei-o em memória de Mim.' Assim, todas as vezes que comeis desse Pão e bebeis desse Cálice lembrais a morte do Senhor, até que venha." 1 Cor 11,23-26
    Entre os que vacilavam na , participando de rituais alheios à Igreja, ele questionava com veemência, cobrando a devida reverência a Deus: "O Cálice de Bênção, que benzemos, não é a Comunhão do Sangue de Cristo? E o Pão, que partimos, não é a Comunhão do Corpo de Cristo?" 1 Cor 10,16
    E coberto de razão, exigia respeito ao Santíssimo Sacramento, para o Qual todos os demais Sacramentos convergem: "Não podeis beber ao mesmo tempo o Cálice do Senhor e o cálice dos demônios. Não podeis participar ao mesmo tempo da Mesa do Senhor e da mesa dos demônios. Ou queremos provocar a ira do Senhor? Acaso somos mais fortes do que Ele?" 1 Cor 10,21-22
    Em sinal de compromisso com Cristo, ele exorta a comermos com deferência o verdadeiro Pão do Céu: "Pois nossa Páscoa, Cristo, foi imolada. Celebremos, pois, a festa, não com o velho fermento nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os pães sem fermento, de pureza e de Verdade." 1 Cor 5,8
    Ameaçando com graves punições, ele avisava da impreterível penitência que deve ser feita antes da Comunhão: "Portanto, todo aquele que indignamente comer o Pão ou beber o Cálice do Senhor, será culpável do Corpo e do Sangue do Senhor. Que cada um examine a si mesmo, e assim coma desse Pão e beba desse Cálice. Aquele que O come e bebe sem distinguir o Corpo do Senhor, come e bebe sua própria condenação. Esta é a razão porque entre vós há muitos adoentados e fracos, e muitos mortos." 1 Cor 11,27-30
    De fato, nem todos entendiam propriamente o mistério que envolvia esse Sacramento, que passou de uma refeição coletiva para um ritual sagrado. Aqui temos um registro dos rudimentos do que viriam a ser a Santa Missa: "Desse modo, quando vos reunis, já não é para comer a Ceia do Senhor, porquanto, mal vos pondes à mesa, cada um se apressa a tomar sua própria refeição, e, enquanto uns têm fome, outros se fartam. Porventura não tendes casa onde comer e beber? Ou menosprezais a Igreja de Deus, e quereis envergonhar aqueles que nada têm? Que vos direi? Devo louvar-vos? Não! Nisto não vos louvo... Portanto, irmãos meus, quando vos reunis para a Ceia, esperai uns pelos outros. Se alguém tem fome, coma em casa. Assim vossas reuniões não vos atrairão a condenação. As demais coisas eu determinarei quando for ter convosco." 1 Cor 11,20-22.33-34
    E assim crescia a consciência da condição espiritual com que cada fiel participava do Santíssimo Sacramento, como pregavam os seguidores da tradição de São Paulo: "Por esse motivo, irmãos, temos ampla confiança de poder entrar no Eterno Santuário, em virtude do Sangue de Jesus, pelo novo e vivo Caminho que nos abriu através do véu, isto é, o Caminho de Seu próprio Corpo. E dado que temos um Sumo-Sacerdote estabelecido sobre a Casa de Deus, a Ele acheguemo-nos com sincero coração, com plena firmeza da fé, o mais íntimo da alma isento de toda mácula de pecado e o corpo lavado com a purificadora Água do Batismo. Não abandonemos nossa Assembléia, como é costume de alguns, mas admoestemo-nos mutuamente... " Hb 10,19-22-25a
    Como confirmação da realização deste sublime projeto de Deus, prefigurado nas profecias, há analogia no Antigo Testamento da aplicação desse ritual. E desde então se vê a necessária purificação dos que dele participam: "O Senhor disse a Aarão: 'Dou-te o que se reserva de tudo o que é separado para Mim, dentre todas as coisas consagradas dos israelitas: dou-o a ti e a teus filhos em virtude de uma perpétua lei, por causa da unção que recebeste. Tu as comerás em santíssimo lugar. Todo membro de tua família que estiver puro comerá dessas coisas.'" Nm 18,8.10a.11b
    A própria ceia da Páscoa impunha aos judeus algumas restrições, de não entrar em casa de estrangeiros, por exemplo, como se vê na ocasião em que Jesus foi levado a Pilatos: "Da casa de Caifás, conduziram Jesus ao pretório. Era de manhã cedo. Mas os judeus não entraram no pretório, para não se contaminarem e poderem comer a Páscoa. Saiu, por isso, Pilatos para ter com eles, e perguntou: 'Que acusação trazeis contra Este Homem?'" Jo 18,28

    "Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e eu serei salvo!"