terça-feira, 30 de junho de 2026

Primeiros Santos Mártires de Roma


    No quente verão do ano 64 de nossa era, abrindo espaço para seus megalômanos projetos urbanísticos, Nero criminosamente mandou atear fogo em algumas construções no centro de Roma, que eram em maioria de madeira e palha, e acabou queimando até às cinzas boa parte do centro da cidade durante seis dias. Para se eximir das acusações, que logo vazariam por revoltados inconfidentes, ele culpou os cristãos, a maior e mais transformadora novidade que se dava na capital do Império Romano àqueles tempos, aos quais cultuava ódio por não lhe reverenciarem como deus.
    Assim ele deflagrou a primeira grande perseguição à Santa Igreja Católica, ordenando o massacre de todos seguidores com maior emprego de crueldade possível, e apressou-se para assassinar São Pedro, por inveja de seu carisma e por ser o representante máximo de Cristo na Terra, e pouco depois também São Paulo, insigne e renomado Apóstolo, fatos que incontestavelmente fizeram de Roma uma cidade apostólica.
    Milhares de católicos entregaram suas almas a Deus nesse período, e padecendo bestiais brutalidades: as mulheres eram ultrajadas dos mais infames modos; nem mesmo crianças e idosos tiveram suas vidas poupadas. Para tornar o 'espetáculo' ainda mais apelativo, todas formas de execução foram permitidas.
    Mas todos morriam sem renegar a em Cristo, fato que, em favor dos argumentos de Nero, ajudou a difundir entre os romanos que os cristãos 'não gostavam de viver' e 'odiavam o ser humano'.
    Essa fervorosa fé dos cristãos de Roma, porém, não era exatamente uma novidade no mundo cristão. A própria Carta de São Paulo aos Romanos, escrita uns 7 anos antes do início dos martírios, logo no início deixou um precioso registro do fogo do Espírito Santo que já os abrasava havia mais de duas décadas: "Primeiramente, dou graças a Meu Deus, por meio de Jesus Cristo, por todos vós, porque em todo mundo é celebrada vossa fé." Rm 1,8
    E os fiéis eram muitos, ou não teriam incomodado o imperador, e certamente formavam várias comunidades, nossas paróquias, ainda segundo registro deste Apóstolo: "... a todos vós que estais em Roma..." Rm 1,7a
    Tão expressivo rebando que o próprio São Paulo, mesmo sabendo ser domínio de São Pedro, se programava para ir lá. E mais uma vez ele ressalta a fé que eles tinha: "Ardentemente desejo ver-vos, a fim de vos comunicar alguma Graça espiritual, com que sejais confirmados, ou melhor, para juntamente convosco me encorajar em vossa e minha fé que nos é comum. Pois não quero que ignoreis, irmãos, como muitas vezes me tenho proposto ir ter convosco. Eu queria recolher algum fruto entre vós, como entre outros pagãos, mas até agora tenho sido impedido. Sou devedor a gregos e a bárbaros, a sábios e a simples. Daí o ardente desejo que sinto de também anunciar Evangelho a vós, que habitais em Roma." Rm 1,11-15
    De fato, ele mesmo divulgava o respeito às dioceses de outros Apóstolos, como escreveu aos próprios romanos: "E empenhei-me por anunciar o Evangelho onde ainda não havia sido anunciado o Nome de Cristo, pois não queria edificar sobre fundamento lançado por outro." Rm 15,20
    A Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios já o havia dito, expressamente falando em domínio: "Assim esperamos levar o Evangelho às regiões que ficam além de vós, sem nos gloriarmos das obras realizadas por outros dentro do domínio reservado a eles." 2 Cor 10,16
    E por isso, ao fim da Carta aos Romanos, ele deixou claro que aí estaria apenas 'de passagem': "... espero ver-vos de passagem, quando eu for à Espanha. Também espero ser conduzido por vós até lá, depois que tiver satisfeito, ao menos em parte, meu desejo de estar convosco." Rm 15,24
    Contudo, poucos anos mais tarde, o próprio Jesus determinou que ele fosse a Roma, quando ele foi preso em Jerusalém após causar tumulto por sua presença, como cristão, no Templo. Está no Livro de Atos dos Apóstolos: "Na noite seguinte, apareceu-lhe o Senhor e disse-lhe: 'Coragem! Deste testemunho de Mim em Jerusalém, assim também importa que o dês em Roma.'" At 23,11


    Os jardins, pois, onde o imperador Calígula havia construído um 'circo', também passaram a ser usados por Nero para um espetáculo 'circense' com os mais horrendos sacrifícios, mas agora como uma 'festa' popular de massivas execuções que se estenderiam por três tenebrosos anos: flecha após flecha, os cristãos eram alvejados deixando por último artérias e órgãos vitais; eram dilacerados e mutilados a golpes de espadas para lentamente morrerem, ou simplesmente decapitados; feridos e esmagados com pesadas e bizarras armas letais; destroçados por cavalos e bigas de guerra em alta velocidade; soltos na arena para o ataque de furiosos touros, famintos leões e outros grandes felinos; mortos na fogueira ou por armas em brasa; hediondas torturas, crucificações e as insanas 'tochas humanas', quando eram untados com piche para arder em chamas 'iluminando' a noite.
    À luz do dia, as vítimas eram banhadas em sangue e revestidos com peles de animais para o escárnio e espancamento pelos cidadãos romanos nas ruas, e depois serem atacadas por cachorros sem donos. Para presenciar e incitar tais atrocidades, o próprio Nero misturava-se ao povo, disfarçado, ou ensandecidamente conduzindo sua própria biga, dando voltas na arena dos jardins.


    Os praticantes do paganismo, como os líderes romanos eram, realmente não tinham o menor embaraço em imolar os praticantes de outras religiões, como o próprio Evangelho Segundo São Lucas narrou uma atrocidade que comunicaram a Jesus: "Neste mesmo tempo, contaram-Lhe alguns o que tinha acontecido a certos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com seus sacrifícios." Lc 13,1
    E a Segunda Carta São Paulo a São Timóteo, escrita em suas últimas semanas, deixou um registro do medo e da resignação entre os cristãos durante seu julgamento na capital do Império, por força dos abomináveis espetáculos que estavam em curso: "Em minha primeira defesa, ninguém me assistiu, todos abandonaram-me. Que isto não lhes seja levado em conta. Mas o Senhor veio em meu auxílio e deu-me forças. Assim, pude completar a proclamação da mensagem, para que todas nações a ouçam. E eu fui libertado da boca do leão." 2 Tm 4,17
    Ora, cerca de dez anos antes, a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios parecia prever esses martírios, porque esse tipo de brutalidade já era praticada: "... ainda que eu entregasse meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada valeria!" 1 Cor 13,3b
    Até exortou os próprios romanos, dizendo da condição de todo cristão por citação de um sagrado autor no Livro de Salmos. Estaria profetizando? "Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? Realmente, está escrito: 'Por causa de ti somos entregues à morte todo dia, somos tratados como ovelhas destinadas ao matadouro (Sl 43,23).'" Rm 8,35-36
    E os seguidores de sua tradição, na Carta aos Hebreus, realmente chegaram a exortar os demais cristãos baseando-se nos exemplos destes mártires de Roma: "Ainda não tendes resistido até o sangue na luta contra o pecado." Hb 12,4
    Com efeito, o Livro do Apocalipse de São João, que foi escrito ao fim do século I, menciona esses mártires: "Então um dos anciãos (querubins?) falou comigo e me perguntou: 'Esses, que estão revestidos de brancas vestes, quem são e de onde vêm?' Respondi-lhe: 'Meu Senhor, tu o sabes!' E ele disse-me: 'Esses são os sobreviventes da grande tribulação. Lavaram suas vestes e alvejaram-nas no Sangue do Cordeiro.'" Ap 7,13-14
    Mas foi-lhes dito que a perseguição não se encerraria por aí, apesar da intercessão destes Santos. De fato, ainda que não constantemente, essas atrocidades continuariam por mais dois séculos: "Quando abriu o quinto selo, debaixo do Altar vi as almas dos homens imolados por causa da Palavra de Deus, e por causa do testemunho de que eram depositários. E clamavam em alta voz, dizendo: 'Até quando Tu, que és o Senhor, o Santo, o Verdadeiro, ficarás sem fazer Justiça e sem vingar nosso sangue contra os habitantes da Terra?' Então foi dada a cada um deles uma branca veste, e lhes foi dito que aguardassem ainda um pouco, até que se completasse o número dos companheiros e irmãos que com eles estavam para serem mortos." Ap 6,9-10
    Ficou evidente, contudo, que pelo martírio eles chegaram à santidade, o que igualmente fez de Roma a cidade da cristandade por excelência, pois nas pessoas de vários imperadores se viram malignos impérios, as bestas de Apocalipse, mas semelhantemente aí se estabeleceu o Reino de Sacerdotes de Nosso Senhor: "Também vi tronos, sobre os quais se sentaram aqueles que receberam o poder de julgar: eram as almas dos que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, e todos aqueles que não tinham adorado a besta ou sua imagem, que não tinham recebido seu sinal na fronte nem nas mãos. Eles viveram uma Nova Vida e com Cristo reinaram por mil anos." Ap 20,4
    O Amado Discípulo mencionou, da mesma forma, os sacrifícios de São Pedro e São Paulo, porém usando termos codificados, como fez em todo Livro de Apocalipse para que não fosse censurado e destruído, pois as perseguições continuavam. Jesus disse-lhe: "Mas incumbirei a Minhas duas testemunhas, vestidas de saco, de profetizarem por mil duzentos e sessenta dias. São eles as duas oliveiras e os dois candelabros que se mantêm diante do Senhor da Terra. Entretanto, depois de terem integralmente terminado seu testemunho, a besta que sobe do abismo fá-lhes-á guerra, vencê-los-á e matá-los-á. Seus cadáveres jazerão na rua da grande cidade que espiritualmente se chama Sodoma e Egito, onde Seu Senhor foi crucificado. Muitos dentre os povos, tribos, línguas e nações virão para os ver por três dias e meio, e não permitirão que sejam sepultados. Os habitantes da Terra alegrar-se-ão por causa deles, mutuamente se felicitarão e mandarão presentes uns aos outros, porque esses dois Profetas tinham sido seu tormento." Ap 11,3-4.7-10


    O termo 'protomártires', em grego, designa esses primeiros mártires cristãos, sacrifícios que séculos mais tarde muitas nações também viriam a padecer, como durante a invasão da Terra Santa, pelos muçulmanos, a Reforma Protestante, patrocinada por príncipes e nobres, e ainda pelas mãos de alguns movimentos ditos 'humanistas' como a torpe Revolução Francesa, a abjeta Guerra Civil Espanhola, a praga do Socialismo pelo mundo e a aberração do Comunismo, iniciada em Rússia mas amplamente replicada pelo mundo, todas levadas a cabo pelo ateísmo militante.
    E todos mártires cristãos têm no diácono Santo Estevão o primeiríssimo exemplo, cujo sacrifício se deu ainda no tempo dos Apóstolos, pouco depois do Pentecostes, e que em breve seria seguido por São Tiago Maior, primeiro Apóstolo a ser martirizado, assim como mais tarde foram todos demais, à exceção de São João, exatamente como Jesus profetizou. De fato, no Evangelho Segundo São João, por força dos questionamentos de São Pedro a Nosso Senhor sobre o destino do Amado Discípulo, Ele também o interrogou: "Respondeu-lhe Jesus: 'Que te importa se Eu quero que ele fique até que Eu venha? Segue-Me tu.' Correu, por isso, o boato entre os irmãos de que aquele discípulo não morreria. Mas Jesus não lhe disse: 'Não morrerá', mas: 'Que te importa se quero que ele fique assim até que Eu venha?'" Jo 21,22-23
    Essa carnificina perpetrada por Nero, em específico, que durou de 64 até sua morte, em 67, explica, pelo absoluto caos que instalou entre os cristãos, os poucos registros que atestam Roma como a sede da Igreja Una, a Primazia de São Pedro como líder de todos Bispos e cristãos, além dos próprios sacrifícios dele e de São Paulo. Com efeito, como prova de um desmonte quase total do cerne da Igreja Apostólica, o Livro de Atos dos Apóstolos, escrito por São Lucas, simplesmente para no tempo, é uma obra inacabada.
    Eis porque São Clemente, que foi o quarto Papa entre os anos de 88 e 97, vai atestar o 'martírio', que é o sentido original da palavra 'testemunho' ou 'testamento', como original destino de um cristão, a própria inspiração de nossa Santa Missa: "Encontramo-nos na mesma arena e combatemos o mesmo combate. Deixemos as inúteis preocupações e os vãos cuidados e voltemo-nos para a gloriosa e venerável regra de nossa tradição. Consideremos o que é belo, o que é bom e o que é agradável a Nosso Criador."
    Ora, Santo Inácio de Antioquia, terceiro Bispo desta diocese depois de São Pedro e Evódio, e que seria martirizado no ano 100 ou 107 de nossa era, cujas cartas são preciosos registros da História da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, atestou a continuação dessas perseguições ainda a seu tempo: "Agora começo a ser discípulo. Nenhuma visível ou invisível criatura me atrai para si, até que eu esteja em Jesus Cristo. Fogo e cruz, fileiras de feras, lacerações, esquartejamento, ruptura dos ossos, mutilação dos membros, trituração de todo corpo, todos cruéis tormentos do Diabo caiam sobre mim, desde que eu chegue à posse de Jesus Cristo."
    Autêntico mártir, ele não aceitou ser poupado da boca dos leões, e, como Bispo de Roma, deu exemplo àqueles que iriam ser sacrificados no mesmo dia, para que morressem na fé. Assim se despediu: "Adeus! Sejam fortes até o fim no sofrer por Cristo."
    É a partir dos primeiros santos mártires, portanto, que surgem as catacumbas subterrâneas de Roma, muitas delas atribuídas a São Calisto, que eram construídas ao longo dos lados das estradas com objetivo de secretamente, com os devidos cerimoniais, sepultar os cristãos e mais tarde possibilitar as rezas e as Santas Missas junto a seus túmulos, práticas que se perpetraram até as primeiras décadas do século IV, quando o Catolicismo finalmente foi permitido no Império Romano. Algumas dessas catacumbas chegam a ter cinco andares e dezenas de quilômetros. São evidências de um costume judeu, que depositavam os corpos de seus mortos em largos sepulcros escavados em rochas ou encostas, com espaço para entes de toda família. Aliás, como foi o próprio Santo Sepulcro de Nosso Senhor.


    Inversamente, porém, tamanha era a crueldade de Nero, bem como o grande destemor e o exemplo de fé dos católicos ao longo daqueles anos, que terminaram por conquistar a compaixão e a alma da grande maioria dos romanos, que vieram a conhecer o Evangelho e se maravilharam com a resignação e o amor a Deus demonstrados pelos fiéis. Sem dúvida, só Deus e a firme convicção a respeito da Vida Eterna poderiam consolar e animar aquelas almas.
    Por isso, concluiu Tertuliano, historiador e apologista cristãos que viveu entre os anos de 160 e 220: "O sangue dos mártires é a semente dos cristãos."
    E o próprio Jesus havia anunciado esse 'testemunho', que se iniciaria ainda em Israel, no Evangelho Segundo São Mateus: "Cuidai-vos dos homens. Eles levá-vos-ão a seus tribunais e açoitá-vos-ão com varas em suas sinagogas. Sereis por Minha causa levados diante dos governadores e dos reis: servireis assim de testemunho para eles e para os pagãos." Mt 10,17-18
    Eram patentes sacrifícios, como se veem ainda hoje: "Então sereis entregues aos tormentos, matá-vos-ão e sereis por Minha causa objeto de ódio para todas nações." Mt 24,9
    E chegaria ao seio familiar, como flagrantemente se viu no Comunismo: "Sereis entregues até por vossos pais, vossos irmãos, vossos parentes e vossos amigos, e matarão muitos de vós. Por todos sereis odiados por causa do Meu Nome." Lc 21,16-17
    Esse era o 'batismo' que Nosso Salvador havia profetizado aos Apóstolos São Tiago Maior e São João, quando estes Lhe pediram o privilégio de se sentarem a Sua direita e a Sua esquerda em Sua Glória. Está no Evangelho Segundo São Marcos: "Vós bebereis o cálice que Eu devo beber, e sereis batizados no batismo em que Eu devo ser batizado." Mc 10,39
    Toda essa horrenda perseguição dos primeiros séculos, no entanto, sinalizava, como Jesus sentenciou, o rompimento do Cristianismo com o Judaísmo, perante o qual os Apóstolos cumpriram missão tentando reformá-lo, bem como os últimos sacrifícios das pagãs e politeístas religiões de Europa, além de, através dos séculos, os massacres perpetrados pelos muçulmanos: "Expulsá-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que todo aquele que vos tirar a vida julgará prestar culto a Deus. Procederão deste modo porque não conheceram o Pai, nem a Mim." Jo 16,2-3
    Estabelecia-se assim, a modo da própria Paixão de Cristo, por esse batismo e pelo sangue dos primeiros mártires, a gloriosa Igreja Católica Apostólica Romana, pois é edificada pelo próprio Jesus (cf. Mt 16,18), como prova de Sua passagem entre nós e do amor de Deus. Na noite em que ia ser entregue, Ele rezou ao Pai pelos Apóstolos, discípulos e seguidores, bem como por nós (cf. Jo 17,20), na Oração da Unidade: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam Um, como Nós somos Um: Eu neles e Tu em Mim. Para que sejam perfeitos na Unidade, e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,22-23

    Santos Protomártires, rogai por nós!