quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Penitências


    Qualquer sensata pessoa sabe que não há como nos aproximarmos de Deus sem que antes reconheçamos, por força de Sua plena santidade, nossos pecados, e busquemos, de fato, purificar-nos. No Livro de Salmos, o sagrado autor admitia: "Se não perdoardes nossas iniquidades, Senhor Javé, quem poderá subsistir diante de Vós?" Sl 129,3
    Noutras circunstâncias, falando do monte Sião onde ficava a Tenda da Arca da Aliança, o rei Davi já havia perguntado: "Quem será digno de subir ao monte do Senhor? Ou de permanecer em Seu santo lugar? Aquele que tem limpas mãos e puro coração, cujo espírito não busca as vaidades nem perjura para enganar seu próximo. Este terá a bênção do Senhor, e a recompensa de Deus, Seu Salvador. Tal é a geração daqueles que O procuram, daqueles que buscam a face do Deus de Jacó." Sl 23,3-6
    Por isso, na Carta aos Hebreus, os seguidores da tradição de São Paulo invocam a Graça do primeiro Sacramento: "E dado que temos um Sumo-Sacerdote (Cristo) estabelecido sobre a Casa de Deus, a Ele acheguemo-nos com sincero coração, com plena firmeza da , o mais íntimo da alma isento de toda mácula de pecado e o corpo lavado com a purificadora Água do Batismo." Hb 10,21-22
    Não por acaso, tanto pela pecaminosidade do mundo quanto pela triunfante Graça da Divina Misericórdia, é tão concreto o que a Sã Doutrina ensina sobre o Purgatório, 'lugar' da necessária purificação. A Primeira Carta de São Pedro disse da Missão de Jesus: "Pois para isto o Evangelho também foi pregado aos mortos: para que, embora sejam condenados em sua humanidade na carne, vivam segundo Deus quanto ao espírito." 1 Pd 4,6
    Porque ao iniciar Sua vida pública, as primeiras palavras de Nosso Senhor foram exatamente um convite à conversão, ou seja, a abandonar de uma vez o pecado, penitenciando-se por ele. O Evangelho Segundo São Mateus narra: "Desde então Jesus começou a pregar: "Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo." Mt 4,17
    Com idêntico propósito, Ele enviou os Apóstolos, desde a primeira missão. Está no Evangelho Segundo São Marcos: "Então chamou os Doze e começou a enviá-los, dois a dois... Eles partiram e pregaram a penitência." Mc 6,7.12
    E tal qual o batismo ministrado por São João Batista, que demandava prévia Confissão de pecados, os Apóstolos também batizavam durante as pregações de Jesus, como se lê no Evangelho Segundo São João: "Em seguida, Jesus foi com Seus discípulos para os campos de Judeia e ali Se deteve com eles, e batizava. ... se bem que não era Jesus quem batizava, mas Seus discípulos..." Jo 3,22;4,2
    Sem dúvida, a Confissão era requisito para o batismo de São João Batista: "Pessoas de Jerusalém, de toda Judeia e de toda circunvizinhança do Jordão vinham a ele. Confessavam seus pecados e eram batizados por ele nas águas do Jordão." Mt 3,5-6
    Isso permaneceu através dos tempos, como vemos São Paulo ministrando em Éfeso, na leitura do Livro de Atos dos Apóstolos: "Muitos daqueles que haviam acreditado, vinham confessar e declarar suas obras." At 19,18
    E no Evangelho Segundo São Lucas, como Jesus explicou aos Apóstolos em aparição no Domingo da Ressurreição, falando em terceira Pessoa, a missão da Santa Igreja Católica é trazer o povo de Deus à contrição espiritual: "E que em Seu Nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados a todas nações, começando por Jerusalém." Lc 24,47
    Com efeito, antes mesmo de Jesus iniciar Sua Missão, era São João Batista, o Arauto do Senhor,  que, revelando a vontade de Deus, exigia de todo povo uma sincera conversão: "Dai frutos, pois, de verdadeira penitência." Mt 3,8
    Exatamente como Jesus, pois se antecipava a Ele, foi o que fez desde o início de seu ministério: "Naqueles dias apareceu João Batista, pregando no deserto de Judeia. Dizia ele: 'Fazei penitência, porque está próximo o Reino dos Céus.'" Mt 3,1-2
    Seu pai, o sacerdote São Zacarias, profetizou quando de seu nascimento: "E tu, menino, serás chamado Profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e Lhe prepararás o Caminho, para dar a conhecer a Seu povo a Salvação, pelo perdão dos pecados." Lc 1,76-77
    Já adulto, o Amado Médico narrou seus primeiros passos: "... veio a Palavra do Senhor no deserto a João, filho de Zacarias. Ele percorria toda região do Jordão, pregando o batismo de arrependimento para remissão dos pecados..." Lc 3,2b-3
    Pois assim faziam os próprios Profetas, como está no Livro de Daniel, nos mais difíceis momentos da História de Israel: "Naquele tempo, eu, Daniel, fiz penitência durante três semanas. Não provei alimento delicado algum: não passou em minha boca nem carne nem vinho. Absolutamente não me ungi de óleo durante o transcurso dessas três semanas." Dn 10,2-3
    Conforme o Livro de Eclesiástico, essa também era a missão dos líderes de Israel, como o rei Josias, que era muito religioso: "Foi divinamente destinado a levar o povo à penitência, e robusteceu a piedade numa época de pecado." Eclo 49,1
    Nesse sentido, a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios diz dessa prática, em nome de sua própria Salvação: "Ao contrário, castigo meu corpo e mantenho-o em servidão, de medo de vir eu mesmo a ser excluído depois de ter pregado aos outros." 1 Cor 9,27
    E o próprio Jesus descreveu o que a conversão de um pecador significa para Deus: "Digo-vos que assim haverá maior júbilo no Céu por um só pecador, que fizer penitência, que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento." Lc 15,7
    O Livro de Sabedoria já dizia que Deus pacientemente espera por nosso arrependimento: "... inspirastes a Vossos filhos a boa esperança de que, após o pecado, dá-lhe-eis tempo para a penitência..." Sb 12,19
    Inclusive pelos ímpios: "Não é que Vos fosse impossível esmagar os maus por meio dos justos num combate, ou exterminar todos juntos por animais ferozes ou por uma categórica palavra, mas castigando-os pouco a pouco, dáveis tempo para o arrependimento..." Sb 12,9-10a
    E constatou: "Tendes compaixão de todos, porque Vós podeis tudo. E para que se arrependam, fechais os olhos aos pecados dos homens." Sb 11,23
    Foi o mesmo que a Segunda Carta de São Pedro ensinou: "O Senhor não retarda o cumprimento de Sua promessa, como alguns pensam, mas usa da paciência para convosco. Ele não quer que alguém pereça. Ao contrário, quer que todos se arrependam." 2 Pd 3,9
    De fato, a primeiríssima das penitências é afastar-se do pecado. A Carta de São Paulo aos Colossenses exorta, a despeito de toda privação que tal postura represente para nosso corpo: "Mortificai vossos membros, pois, no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria." Cl 3,5
    Porque é Deus mesmo que nos estimula a uma verdadeira conversão, e de idosos a crianças como no Livro do Profeta Joel exortou ante o anúncio da Grande Tribulação: "'Agora, portanto,' Oráculo do Senhor, 'voltai a Mim de todo vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos de luto. Rasgai vossos corações e não vossas vestes.' Voltai ao Senhor Vosso Deus, porque Ele é bom e compassivo, longânime e indulgente, e compadece-Se da desgraça. Tocai a trombeta em Sião: publicai o jejum, convocai a assembleia, reuni o povo. Santificai a assembleia, agrupai os anciãos, congregai as crianças e os meninos de peito. Saia o recém-casado de seus aposentos, e a esposa de sua câmara nupcial." Jl 2,12-13.15-16
    Com efeito, pela indizível dádiva do Santo Paráclito, Deus Pai colabora para a definitiva transformação de nossos corações, como prometeu no Livro do Profeta Ezequiel ainda durante a escravidão da Babilônia: "Dá-vos-ei um novo coração e em vós porei um Novo Espírito. Tirá-vos-ei do peito o coração de pedra e dá-vos-ei um coração de carne." Ez 36,26
    Assim a verdadeira penitência acontece em nosso íntimo, como Davi cantava: "Meu sacrifício, ó Senhor, é um contrito espírito. Um arrependido e humilhado coração, ó Deus, que não haveis de desprezar." Sl 50,19


ORAÇÃO, JEJUM E ESMOLA

    A Confissão, portanto, é uma das três etapas do Sacramento da Penitência, que por Jesus foi pessoalmente instituído. Por isso, é insubstituível, uma indeclinável obrigação da Igreja Católica. Ao incumbir os Apóstolos do Ministério da Reconciliação logo em Sua primeira aparição, Ele deu-lhes este poder: "Disse-lhes outra vez: 'A Paz esteja convosco! Como o Pai Me enviou, Eu também vos envio.' Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, sê-lhes-ão perdoados. Àqueles a quem os retiverdes, sê-lhes-ão retidos." Jo 20,23
    Era o que fazia São Pedro, como vemos no dia do Pentecostes, dia do nascimento da Santa Igreja, pregando a judeus de todas nações, que estavam em Jerusalém para a também chamada Festa das Semanas, quando claramente falou do Batismo das crianças: "Ao ouvirem essas coisas, ficaram compungidos no íntimo do coração e indagaram de Pedro e dos demais Apóstolos: 'Que devemos fazer, irmãos?' Pedro respondeu-lhes: 'Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em Nome de Jesus Cristo para remissão de vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vós, para vossos filhos e para todos que de longe ouvirem o apelo do Senhor, Nosso Deus." At 2,37-39
    E a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios também pregou: "Porque é Deus que, em Cristo, reconciliava Consigo o mundo, não mais levando em conta os pecados dos homens, e em nossos lábios pôs a Mensagem da Reconciliação. Portanto, desempenhamos o encargo de embaixadores em Nome de Cristo, e é Deus mesmo que por nosso intermédio exorta. Em Nome de Cristo, rogamo-vos: reconciliai-vos com Deus!" 2 Cor 5,19-20
    Há vários modos de cumprir a penitência, que é estabelecida pelo Sacerdote após a Confissão, e assim obter de Deus o perdão dos pecados. Contudo, os padres mais frequentemente determinam oração, jejum e esmola, inspirados nas palavras do próprio Jesus que recomendou desde o Sermão da Montanha:
    "Quando rezardes, não façais como os hipócritas, que gostam de rezar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas para serem vistos pelos homens. Na Verdade, digo-vos: já receberam sua recompensa. Quando rezares, entra em teu quarto, fecha a porta e reza a Teu Pai em segredo. E Teu Pai, que vê no segredo, recompensá-te-á." Mt 6,5-6
    "Quando jejuardes, não tomeis um ar triste como os hipócritas, que mostram um abatido semblante para manifestar aos homens que jejuam. Na Verdade, digo-vos: já receberam sua recompensa. Quando jejuares, perfuma tua cabeça e lava teu rosto." Mt 6,16-17
    "Quando dás esmola, pois, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Na Verdade, digo-vos: já receberam sua recompensa. Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que a direita fez." Mt 6,2-3
    Ora, o Arcanjo São Rafael já havia falado dessas práticas no Livro de Tobias, dizendo a Tobit, seu pai: "Boa coisa é a oração acompanhada de jejum, e a esmola é preferível aos escondidos tesouros de ouro. Porque a esmola livra da morte: ela apaga os pecados e faz encontrar a Misericórdia e a Vida Eterna..." Tb 12,8-9
    Foi o que Jesus recomendou aos fariseus: a caridade material como modo de purificação dos objetos de diário uso: "Antes dai em esmola o que possuís, e todas coisas sê-vos-ão limpas." Lc 11,41
    São João Batista também era exemplo nessa questão, pois a todos pregava radical partilha: "Perguntava-lhe a multidão: 'Que devemos fazer?' Ele respondia: 'Quem tem duas túnicas, dê uma ao que não tem. E quem tem o que comer, faça o mesmo.'" Lc 3,10-11
    E há vários exemplos de jejum, ou abstinência, como de carne. Por primeiro, destaca-se o próprio Batista, que foi um penitente por vida: "O menino foi crescendo e fortificava-se em espírito, e viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel. João usava uma vestimenta de pelos de camelo e um cinto de couro em volta dos rins. Alimentava-se de gafanhotos e silvestre mel." Lc 1,80; Mt 3,4
    Outro grande sinal era a profetisa do Templo de Jerusalém, que vimos no dia da Apresentação do Menino Jesus: "Também havia uma profetisa chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de avançada idade. Depois de ter vivido sete anos com seu marido desde sua virgindade, ficara viúva, e agora com oitenta e quatro anos não se apartava do Templo, servindo a Deus noite e dia em jejuns e orações. Chegando ela à mesma hora, louvava a Deus e falava de Jesus a todos aqueles que em Jerusalém esperavam a libertação." Lc 2,36-38
    E o próprio Cristo, em Sua última Páscoa, apontou o gesto de outra viúva no Templo, que fielmente cumpria os preceitos da Lei e vivia tão somente da Divina Providência: "Jesus sentou-Se defronte ao cofre de esmola e observava como o povo nele deitava dinheiro. Muitos ricos depositavam grandes quantias. Chegando uma pobre viúva, lançou duas pequenas moedas, no valor de apenas um quadrante. Ele chamou Seus discípulos e disse-lhes: 'Na Verdade, digo-vos: esta pobre viúva deitou mais que todos que lançaram no cofre, porque todos deitaram do que tinham em abundância. Esta, porém, de sua indigência, pôs tudo que tinha para seu sustento.'" Mc 12,41-44
    Mas, ainda dos ensinamentos de Jesus, como forma de penitência temos:
    Praticar efetiva Misericórdia: "Sede misericordiosos, como Vosso Pai também é misericordioso." Lc 6,36
    Ativa caridade, material ou espiritual: "... porque tive fome e Me deste de comer; tive sede e Me deste de beber; era peregrino e Me acolheste; estive nu e Me vestiste; enfermo e Me visitaste; na prisão e viestes a Mim. Na Verdade, Eu declaro-vos: todas vezes que fizestes isto a um destes meus pequeninos irmãos, foi a Mim mesmo que o fizestes." Mt 25,35-36.40b
    Ouvir piamente a Palavra: "Se vos falo a Verdade, por que Me não credes?" Jo 8,46b
    E guardar oportuno silêncio, como fez perante o Sinédrio, o conselho dos judeus em na Cidade Santa, quando foi 'julgado': "O sumo sacerdote levantou-se em meio à assembleia e perguntou a Jesus: 'Nada respondes? O que é isto que dizem contra Ti?' Mas Jesus calava-Se e nada respondia." Mc 14,60-61a
    Com efeito, Ele não precisava penitenciar-Se de nada, mas, também quando foi 'julgado' pelo governador romano, adotou o silêncio contra a mera falação, o abuso das palavras em vãos conversas e debates, e ainda torpe, em mentiras e falsos testemunhos: "E os chefes dos sacerdotes acusavam-nO de muitas coisas. Pilatos interrogou-O de novo: 'Nada respondes? Vê de quanto Te acusam!' Jesus, porém, já nada mais respondeu, de sorte que Pilatos ficou impressionado." Mc 15,3-5
    O Livro de Lamentações havia registrado essa penitência durante o exílio em Babilônia: "Sentados no chão, em silêncio, jazem os anciãos da filha de Sião. Jogaram pó sobre suas cabeças, vestiram-se com sacos..." Lm 2,10a
    E recomendou: "Bom é esperar em silêncio o socorro do Senhor." Lm 3,26
    O Livro de Provérbios também apontou: "Quem despreza seu próximo demonstra falta de senso. O sábio homem guarda silêncio." Pr 11,12
    Assim como o Eclesiástico: "O sábio permanece em silêncio até o oportuno momento, mas o leviano e imprudente não espera a ocasião. Aquele que se expande em palavras prejudica a si mesmo..." Eclo 20,7-8a
    Por isso, o Livro do Profeta Sofonias, que bem atinava para a gravidade do Juízo, com veemência exortava a todos: "Silêncio diante do Senhor Javé! Curvai-vos, curvai-vos, gente sem pudor, antes que nasça a sentença e o dia passe como a palha, antes que caia sobre vós o ardor da ira do Senhor, antes que caia sobre vós o Dia da indignação do Senhor! Buscai o Senhor, todos vós, humildes da Terra, que observais Sua Lei. Buscai a Justiça e a humildade. Talvez assim estareis ao abrigo no Dia da cólera do Senhor." Sf 1,7a;2,1-3
    Ora, grande exemplo da guarda do silêncio foi Nossa Mãe Maria Santíssima. Apesar de sua autoridade como Mãe do Salvador (cf. Jo 5,2), ela quase nada falava, como os Evangelhos mostram. É o que vemos quando os pastores dos arredores de Belém viram anjos, anunciando o Nascimento de Jesus, e foram até a casa dos familiares de São José (cf. Lc 2,7): "Todos aqueles que os ouviam, admiravam-se das coisas que os pastores lhes contavam. Maria conservava todas estas palavras, meditando-as em seu coração." Lc 2,18-19

PEDIR E OFERECER PERDÃO

    Jesus demonstrou que nossas devoções nada representam para Deus sem que tenhamos a humildade de pedir desculpas a quem ofendemos, ou simplesmente a quem quer que se sinta ofendido por nós: "Se estás, portanto, para fazer tua oferta diante do altar e lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá tua oferta diante do altar e primeiro vai reconciliar-te com teu irmão. Só então vem fazer tua oferta." Mt 5,23-24
    Na parábola do filho pródigo, quando de seu retorno à casa do pai, vemos uma sincera confissão de arrependimento, expressando o pecado em toda sua dimensão: "Meu pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho." Lc 15,21
    De mesmo modo, destaca-se a importância do perdão oferecido ao próximo, que, aliás, igualmente ensinado pelo próprio Jesus e logo após o Pai Nosso, é uma obrigação e também um modo de penitenciar-se: "Porque se perdoardes aos homens suas ofensas, Vosso Pai Celeste também vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens, Vosso Pai tampouco vos perdoará." Mt 6,14-15
    Ele ainda ensinou que nosso perdão não pode ter limites: "Então Pedro se aproximou d'Ele e disse: 'Senhor, quantas vezes devo perdoar a meu irmão, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?' Respondeu Jesus: 'Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.'" Mt 18,21-22
    E deve ser oferecido antes de qualquer oração: "E quando vos puserdes de pé para rezar, perdoai, se tiverdes algum ressentimento contra alguém, para que Vosso Pai, que está nos Céus, também perdoe vossos pecados. Mas se não perdoardes, Vosso Pai que está nos Céus tampouco perdoará vossos pecados." Mc 11,25-26


VIGÍLIA DE ORAÇÃO

    A vigília é mais um modo de estreitar nossa relação com Deus. Jesus usou-a, por exemplo, antes de convocar Seus principais seguidores: "Naqueles dias, Jesus retirou-Se a uma montanha para rezar, e aí passou toda noite rezando a Deus. Ao amanhecer, chamou Seus discípulos e dentre eles escolheu Doze, que chamou de Apóstolos..." Lc 6,12-13
    Logo também é uma forma de penitência. Nosso Salvador, embora não tivesse de que Se penitenciar, entrou em vigília momentos antes de ser preso no Jardim das Oliveiras, e convidou São Pedro, São Tiago Maior e São João Apóstolo para O acompanhar: "Minha alma está numa tristeza mortal. Ficai aqui e vigiai." Mc 14,34
    E quando viu que não era auxiliado nem mesmo por São Pedro, reclamou de sua sonolência: "Simão, dormes? Não pudeste vigiar uma hora?" Mc 14,37
    Por fim, abertamente recomendou aos três, e a todos demais católicos, a vigília de oração contra as tentações: "Vigiai e rezai, para que não entreis em tentação. Pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca." Mc 14,38

INTERCESSÃO PELO PRÓXIMO

    Rezar pela Salvação do próximo é outra maneira de penitenciar-se, agora em conjunto, com todo Corpo da Igreja de Jesus, isto é, o Corpo Místico de Cristo. A Carta de São Paulo aos Efésios exorta: "Intensificai vossas invocações e súplicas. Rezai em toda circunstância, pelo Espírito, no Qual perseverai em intensa vigília de súplica por todos cristãos." Ef 6,18
    Com efeito, Jesus pediu que rezássemos até mesmo por aqueles que nos perseguem: "Eu, porém, digo-vos: amai vossos inimigos, fazei o bem àqueles que vos odeiam e rezai por aqueles que vos maltratam e perseguem." Mt 5,44
    O Príncipe dos Apóstolos, por sua vez, lembrando os Provérbios, exalta a excelência do amor (cf. 1 Cor 13,13): "Antes de tudo, mantende entre vós um ardente amor, porque ele cobre uma multidão de pecados. (Pr 10,12)" 1 Pd 4,8

COMPAIXÃO PELOS QUE SOFREM

    Nosso Salvador bem percebia as aflições do povo, principalmente a carência de esperança, causada por inúmeros pecados daqueles que lideram Israel: "Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-Se dela, porque era como ovelhas que não têm pastor. E começou a ensinar-lhes muitas coisas." Mc 6,34
    Por isso, mais que sacrifícios, Ele pedia misericórdia, e que a Ele nos juntássemos em busca das ovelhas perdidas. Perdição que às vezes se dá por falta de condescendência, de solidariedade espiritual, como Ele apontou cintando o Livro do Profeta Oseias: "Ide e aprendei o que significam estas palavras: 'Eu quero a misericórdia e não o sacrifício' (Os 6,6). Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores." Mt 9,13

ACEITAR OS SOFRIMENTOS

    Muitos pecam, enfim, por imaturas tentativas de fugir dos sofrimentos. Mas Jesus propôs exatamente o contrário, e segui-Lo com sinceridade é a maior das penitências: "Se alguém quer seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-Me." Mc 8,34
    Pois mesmo nas mais difíceis situações, Ele cumpriu os desígnios de Deus: "Pai, se é de Teu agrado, afasta de Mim este cálice! Não se faça, porém, Minha vontade, mas sim a Tua." Lc 22,42


ENFRENTAR AS INJUSTIÇAS

    Além de ícone de vida penitente, São João Batista igualmente foi um poderoso Profeta, como visto acima, e assim denunciou a situação de adultério em que vivia o rei Herodes, razão pela qual foi martirizado. Jesus destacou essa bem-aventurança, que é igualmente uma penitência: "Bem-aventurados aqueles que são perseguidos por causa da Justiça, porque deles é o Reino dos Céus!" Mt 5,10

PEREGRINAÇÕES

    Viagens por devoção semelhantemente são obrigação religiosa e uma maneira de expiar pecados. É da tradição dos judeus, e Nosso Senhor vai cumpri-la mesmo sabendo que seria sacrificado: "Estava próxima a Páscoa dos judeus, e de todo país muita gente subia a Jerusalém antes da Páscoa para se purificar. Procuravam Jesus e falavam uns com os outros no Templo: 'Que vos parece? Achais que Ele não virá à festa?' Mas os sumos sacerdotes e os fariseus tinham dado ordem para que todo aquele que soubesse onde Ele estava, que O denunciasse, para O prenderem." Jo 11,55-57
    Esse preceito São José e Nossa Senhora também cumpriam: "Seus pais iam todos anos a Jerusalém para a festa da Páscoa." Lc 2,41
    E assim o próprio Jesus, mesmo depois de iniciada Sua vida pública: "Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém." Jo 2,13

QUARESMA

    Os 40 dias que antecedem a Páscoa, pois, é o tempo mais apropriado para as penitências, e a Igreja Católica Apostólica Romana estabelece através de Seu quarto Mandamento: "Jejuar e abster-se de carne, conforme manda a Santa Mãe Igreja." Em Brasil, isso aplica-se a todas sextas-feiras da quaresma, à Quarta-Feira de Cinzas e à Sexta-Feira Santa.

CINZAS E TRADIÇÕES JUDAICAS

    No Antigo Testamento, vemos outras formas de penitência além de pôr cinzas sobre a cabeça, como fazemos na Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma. É o rasgar as vestes e vestir-se de saco, que foi a penitência do líder religioso israelita Mardoqueu, conforme o Livro de Ester, sua prima, ao saber que o rei Assuero havia dado a Amã permissão para exterminar o povo hebreu, que havia sido deportado a Pérsia: "Quando Mardoqueu soube o que se tinha passado, rasgou suas vestes, cobriu-se de saco e cinza, e percorreu a cidade, dando gritos de dor." Est 4,1
    A filha de Davi também rasgou as vestes ao ser violentada e, em seguida, desprezada por Amnon, seu meio irmão. É do Segundo Livro de Samuel: "Tamar então derramou cinza sobre a cabeça, rasgou seu longo vestido e, pondo a mão sobre a cabeça, afastou-se gritando." 2 Sm 13,19
    Esses costumes foram confirmados por Jesus, que disse das cidades do Mar de Galileia que não se converteram mesmo vendo Seus milagres: "Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se em Tiro e Sidônia tivessem sido feitos os prodígios que foram realizados em vosso meio, há muito tempo teriam feito penitência, cobrindo-se de saco e cinza." Lc 10,13

O CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA ENSINA:

    "A penitência interior é uma reorientação radical de toda a vida, um retorno, uma conversão para Deus de todo nosso coração, uma ruptura com o pecado, uma aversão ao mal e repugnância às más obras que cometemos. Ao mesmo tempo, é o desejo e a resolução de mudar de vida com a esperança da Divina Misericórdia e a confiança na ajuda de Sua Graça. Esta conversão do coração vem acompanhada de uma dor e uma tristeza salutares, chamadas pelos Padres de 'animi cruciatus (aflição do espírito)', 'compunctio cordis (arrependimento do coração)'." CIC § 1431
    "O pecado é antes de tudo uma ofensa a Deus, uma ruptura da Comunhão com Ele. Ao mesmo tempo é um atentado à Comunhão com a Igreja. Por isso, a conversão simultaneamente traz o perdão de Deus e a reconciliação com a Igreja, que é liturgicamente expresso e realizado pelo Sacramento da Penitência e da Reconciliação." CIC § 1440
    "O Sacramento da Penitência é constituído de três atos do penitente e da absolvição dada pelo Sacerdote. Os atos do penitente são o arrependimento, a Confissão ou manifestação dos pecados ao Sacerdote, e o propósito de cumprir a penitência e as obras de reparação." CIC § 1491
    "Se alguém tem consciência de ter pecado mortalmente, não deve comungar a Eucaristia sem previamente ter recebido a absolvição pelo Sacramento da Penitência." CIC § 1415

    "Recebe, ó Senhor, por Tuas mãos este sacrifício, para a Glória de Teu Nome, para nosso bem e de toda a Santa Igreja!"