domingo, 3 de maio de 2026

Textos para Celular

 
Anuário de Leituras Bíblicas

Acesso: dizemasescrituras.blogspot.com

São Tiago Menor, Apóstolo


    São Tiago Menor era parente próximo de Jesus, pois era filho de Maria, a esposa de Cleófas e parenta de Maria Santíssima. Essa informação vem de duas passagens. A primeira está no Evangelho Segundo São João, durante a Crucificação do Senhor: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua mãe, a irmã de Sua mãe, Maria, mulher de Cleófas, e Maria Madalena." Jo 19,25
    A segunda trata da mesma cena, mas narrada no Evangelho Segundo São Marcos. Esta Maria, "irmã de Sua mãe", na verdade apenas uma parente, claramente é identificada como a mãe Tiago e de José, dois dos chamados 'irmãos' de Jesus. Também é nessa passagem que temos o apelido que distinguiu o Apóstolo São Tiago, filho de Maria de Cleófas, do outro Apóstolo São Tiago, irmão do Apóstolo São João, mais tarde chamado de 'Maior': "Ali também se achavam umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José..." Mc 15,40
    O Evangelho Segundo São Mateus, igualmente ao relatar a Crucificação do Senhor, também apontou esta Maria como mãe de São Tiago Menor e de José: "Entre elas achavam-se Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu." Mt 24,56
    E o Evangelho Segundo São Lucas relata esta 'tia' de Jesus, e mãe de São Tiago Menor e São Judas Tadeu, como também presente na visita ao Santo Sepulcro no Domingo da Ressurreição: "No primeiro dia da semana, muito cedo, dirigiram-se ao sepulcro com os aromas que haviam preparado. Eram elas Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago. As outras suas amigas relataram aos Apóstolos a mesma coisa." Lc 24,1.10
    Uma passagem que indica São Tiago como 'irmão' de Jesus está em São Marcos. Tal registro deu-se porque o idioma aramaico não tem a palavra 'primo', aliás como o próprio inglês e o alemão que só recentemente a adotaram do francês. Assim diz: "Não é Ele o carpinteiro, o Filho de Maria, o irmão de Tiago, José, Judas e Simão?" Mc 6,3a
    Outra passagem que dá essa mesma informação está em São Mateus, provavelmente adotada de São Marcos: "Não é este o Filho do carpinteiro? Não é Maria Sua Mãe? Não são Seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas?" Mt 13,55
    Em São Marcos, por sinal, vê-se outro nome do pai de São Tiago Menor, Alfeu, ao invés de Cleófas, uma variação do grego para o aramaico. É quando ele lista os Apóstolos: "Escolheu estes Doze: Simão, a quem pôs o nome de Pedro. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer Filhos do Trovão. Ele também escolheu André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o Zelota, e Judas Iscariotes, que O entregou." Mc 3,16-19
    O mesmo acontece no Evangelho de São Mateus, que aponta São Pedro como o Príncipe dos Apóstolos: "Eis os nomes dos Doze Apóstolos: o primeiro, Simão, chamado Pedro, depois André, seu irmão. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Filipe e Bartolomeu. Tomé e Mateus, o publicano. Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, que foi o traidor." Mt 10,2-4
    São Lucas dá idêntica informação e ainda esclarece que São Judas Tadeu, outro Apóstolo, é irmão de São Tiago Menor, e assim elucida quem seria Judas, o terceiro dos 'irmãos' de Jesus apontado nas narrativas de São Marcos e São Mateus, como visto acima: "Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro, André, seu irmão, Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu. Simão, chamado Zelota, Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor." Lc 6,14-16
    E como bem convém às coisas de Deus, sempre versando pela Verdade, a Carta de São Judas, para o mais perfeito desembaraço, identifica-o como irmão de São Tiago Menor logo no início, e não como irmão de Jesus, mas Seu servo: "Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago..." Jd 1,1
    Ora, a própria Carta de São Tiago não o apresenta como irmão do Senhor, o que São Paulo faria por conveniência de autoridade da Igreja (cf. Gl 1,19), mas como Seu servo. E sim, chama de irmãos os cristãos: "Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos da dispersão, saúde! Considerai que é suma alegria, meus irmãos, quando passais por diversas provações, sabendo que a prova de vossa produz a paciência." Tg 1,1-3
    Homem de piedade, sem dúvida, foi um dos poucos parentes que não se escandalizou como a revelação de Jesus como o Cristo (cf. Mc 3,21). São João Evangelista registrou uma Festa dos Tabernáculos, onde ele e São Judas Tadeu são diferenciados de 'Seus irmãos', porque Nosso Senhor não foi à Jerusalém em Missão sem Seus Apóstolos, que seriam Suas testemunhas (cf. At 1,8): "Seus irmãos disseram-Lhe: 'Parte daqui e vai a Judeia, a fim de que Teus discípulos também vejam as obras que fazes.' Com efeito, nem mesmo Seus irmãos acreditavam n'Ele. Mas quando Seus irmãos tinham subido, então Ele também subiu à festa, não em público, mas despercebidamente. Lá pelo meio da festa, Jesus subiu ao Templo e pôs-Se a ensinar." Jo 7,3.5.10.14
    Com efeito, São Tiago Menor estava com Jesus desde as Bodas de Caná, quando se deu o milagre da transformação da água em vinho e o Colégio dos Apóstolos já parecia formado, à exceção de São Mateus: "Manifestou Sua Glória, e Seus discípulos creram n'Ele." Jo 2,11b
    E logo partiu de Nazaré com o Mestre em Suas Missões: "Depois disso, desceu para Cafarnaum com Sua mãe, Seus irmãos e Seus discípulos, e ali só demoraram poucos dias." Jo 2,12
    Por fim, o Livro de Atos dos Apóstolos mais uma vez distingue São Tiago Menor e São Judas Tadeu dos 'irmãos' de Jesus que O seguiam, porque nem todos parentes Lhe eram hostis, ao dar a lista dos Onze Apóstolos e mencionar discípulos e seguidores que foram a Jerusalém para receber a "força do alto (cf. Lc 24,49)", derramada pelo Espírito Santo no dia de Pentecostes. Note-se, também, que em todas estas listas dos Doze, São Tiago Menor é sempre o primeiro do último dos três grupos de quatro Apóstolos. Aqui, claro!, sem Judas Iscariotes: "Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelota, e Judas, irmão de Tiago. Todos eles unanimemente perseveravam na oração junto às mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos d'Ele." At 1,13-14
    Dois outros registros, ademais, desfazem estes vis ataques às Glórias de Deus (cf. 2 Pd 2,10), claramente mostrando que Nossa Mãe Celeste não teve outros filhos além de Jesus. O primeiro, do Amado Médico, que tão bem se informou do nascimento da veneração à Maria, atestando que a Sagrada Família era composta apenas de Jesus, Maria e José, e literalmente diz que eles tinham parentes em Nazaré: "Tendo Ele atingido doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa. Acabados os dias da festa, quando voltavam, ficou o Menino Jesus em Jerusalém sem que Seus pais o percebessem. Pensando que Ele estivesse com Seus companheiros de comitiva, andaram caminho de um dia e buscaram-nO entre parentes e conhecidos. Mas, não O encontrando, voltaram a Jerusalém a Sua procura. Três dias depois, acharam-nO no Templo, sentado em meio aos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. Todos que O ouviam estavam maravilhados da Sabedoria de Suas respostas. Quando eles O viram, ficaram admirados. E Sua mãe disse-Lhe: 'Meu Filho, que nos fizeste?! Eis que Teu pai e Eu andávamos à Tua procura, cheios de aflição.'" Lc 2,42-48
    O segundo foi feito pelo próprio Apóstolo São João, outro 'tardio' evangelista, cuja permeabilidade às manifestações do Divino Paráclito e à devoção a Nossa Senhora é bem maior que os dois primeiros. Aos pés da Santa Cruz, ele viu Jesus apontar Maria como a Nova Eva, mãe de todos Seus discípulos, e se a levou para sua casa foi exatamente porque ela não tinha outros filhos: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua mãe, a irmã de Sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu Sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse a Sua mãe: 'Mulher, eis aí teu filho.' Depois disse ao discípulo: 'Eis aí tua mãe.' E dessa hora em diante, o discípulo levou-a para sua casa." Jo 19,25-27
    Não por acaso, foi este evangelista e íntimo Apóstolo o agraciado com a visão da 'Mulher Vestida com o Sol' (cf. Ap 12,1), cujos verdadeiros filhos, que formam a Santa Igreja Católica, o Corpo Místico de Cristo, vão ser perseguidos pelo Demônio. O Livro de Apocalipse de São João apontou: "O Dragão, vendo que fora precipitado na Terra, perseguiu a Mulher que dera à luz o Menino. Mas à Mulher foram dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto, para o lugar de seu retiro, onde é alimentada por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente. Este, então, irritou-se contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência, àqueles que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus." Ap 12,13-14.17


    Não é São Tiago Menor, enfim, um dos três mais íntimos Apóstolos, que com frequência são convidados por Jesus para estar a Sua volta. Este é São Tiago Maior, irmão de São João Evangelista, como se vê no dia da Transfiguração do Senhor: "Seis dias depois, Consigo Jesus tomou Pedro, Tiago e João, seu irmão, e conduziu-os à parte a uma alta montanha." Mt 17,1
    São Tiago Maior, o primeiro mártir entre os Apóstolos, foi brutalmente assassinado por Herodes ainda nos primeiros anos da Igreja, após retornar de Espanha: "Por aquele mesmo tempo, o rei Herodes mandou prender alguns membros da Igreja para os maltratar. Assim foi que matou à espada Tiago, irmão de João." At 12,1-2
    São Tiago Menor, ao contrário, vai assumir uma função extremamente importante para a hierarquia e estruturação da Igreja Apostólica, para que ela pudesse avançar através dos tempos como Jesus previu, falando sobre todas nações: "Ensinai-as a observar tudo que vos ordenei. Eis que convosco estou todos dias, até a consumação dos séculos." Mt 28,20
    Pois quando São Pedro fugiu da prisão com a ajuda de seu Anjo da Guarda, é a São Tiago que ele manda avisar. Com esse gesto, definitivamente lhe entregava a liderança, o bispado da comunidade de Jerusalém: "Ele, acenando-lhes com a mão que se calassem, contou como o Senhor o havia livrado da prisão, e disse: 'Comunicai-o a Tiago e aos irmãos'. Em seguida, dali saiu e retirou-se para outro lugar." At 12,17
    O pescador já estava em vida itinerante desde a conversão da cidade da Samaria por obra do Diácono Filipe, o que se deu após o apedrejamento da Santo Estevão: "Pedro, que caminhava por toda parte, de cidade em cidade, também desceu aos fiéis que habitavam em Lida." At 9,32
    E assumindo anos de apostólicas missões fundando igrejas, ou seja, longos períodos fora de Jerusalém, é São Tiago Menor que fica à frente desta igreja, que era a comunidade-mãe, a sede da cristandade. E é ele que, claramente investido deste encargo, vai dar, após o decisivo voto de São Pedro, a palavra final no Primeiro Concílio da Igreja, não por acaso realizado na Cidade Santa, quando se decidiu pela não obrigatoriedade da circuncisão para os não judeus que se convertiam: "Depois de terminarem, Tiago tomou a palavra: 'Irmãos, ouvi-me', disse ele. 'Simão narrou como Deus começou a olhar para as pagãs nações para delas tirar um povo que trouxesse Seu Nome. Ora, com isto concordam as palavras dos Profetas, como está escrito...'" At 15,13-15
    E anos mais tarde, era em sua própria casa, o primeiro palácio episcopal, que o conselho se reunia: "No dia seguinte, Paulo dirigiu-se conosco à casa de Tiago, onde todos anciãos se reuniram." At 21,18
    Ora, a Carta de São Paulo aos Gálatas chama-o pelo nome que evidenciava sua familiar proximidade a Jesus, tanto para corroborar como judaica a autoridade da Santa Igreja frente aos judeus convertidos como para atestar aos não judeus quão concreta foi a Encarnação de Cristo: "Dos outros Apóstolos, não vi mais nenhum, a não ser Tiago, irmão do Senhor." Gl 1,19
    Também apontando o bispado de São Tiago Menor na igreja de Jerusalém, ao relatar seu encontro com as "colunas" da Igreja, o Apóstolo dos Gentios corretamente põe São Tiago à frente de São Pedro, pois já havia alguns anos que na Cidade Santa, onde a igreja essencialmente era composta de judeus convertidos, ele era respeitado com autoridade máxima, o Bispo: "Tiago, Cefas e João, que são considerados as colunas, reconhecendo a Graça que me foi dada, deram as mãos a mim e a Barnabé em sinal de pleno acordo..." Gl 2,9
    Mais séria do que parece, essa demarcação de área era muito respeitada pelos Apóstolos, como a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios disse: "Assim esperamos levar o Evangelho às nações que ficam além de vós, sem nos gloriarmos das obras realizadas por outros dentro do domínio a eles reservado." 2 Cor 10,16
    A Carta de São Tiago, enfim, é uma belíssima exortação: simples mas firmemente irredutível como deve ser a postura de um Bispo. Zeloso da fiel obediência ao Evangelho e da missão que lhe foi confiada por Jesus, ele fazia da Igreja Una sua vida. Recomendava aos cristãos que sempre se mantivessem unidos à Barca de Pedro (cf. Lc 5,3), enfrentando todas dificuldades. E como não admitia que os Sacramentos fossem ministrados por pessoas alheias à Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, expressamente dizia: "Chame os Sacerdotes da Igreja..." Tg 5,14
    Corretíssima, essa também era a postura adotada pelo Apóstolo dos Gentios. De fato, a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios não admitia nem mesmo pequenas consultas fora da Igreja Católica: "Quando algum de vós tem litígio contra outro, como é que se atreve a pedir Justiça perante os injustos, em vez de recorrer aos santos irmãos? Não sabeis que os Santos julgarão o mundo? E se o mundo há de ser julgado por vós, seríeis indignos de julgar os processos de mínima importância? Não sabeis que julgaremos os anjos? Quanto mais as pequenas questões desta vida! No entanto, quando tendes contendas desse gênero, escolheis para juízes pessoas cuja opinião é tida em nada pela Igreja." 1 Cor 6,1-4
    Verdadeiro líder espiritual, nosso Santo dava essa humilde mas séria recomendação aos candidatos ao Sacerdócio: "Meus irmãos, não haja muitos entre vós a se arvorar em mestres. Sabeis que seremos mais severamente julgados, porque todos nós caímos em muitos pontos." Tg 3,1-2a
    Sábio, ele intimava os fiéis ao exemplo de vida, vinculando Sabedoria a comportamento: "Quem dentre vós é sábio e inteligente? Mostre com um bom proceder suas obras repassadas de doçura e de Sabedoria. Onde houver ciúme e contenda, ali também há perturbação e toda espécie de vícios. A Sabedoria, porém, que vem de cima, é primeiramente pura, depois pacífica, condescendente, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, nem fingimento." Tg 3,13.16-17
    Sim, ele demonstrava conhecê-la muito bem, como garantia nas primeiras exortações: "Se alguém de vós necessita de Sabedoria, com simplicidade e sem recriminação peça-a a Deus, que a todos liberalmente a dá, e sê-lhe-á dada." Tg 1,5
    E de sua profunda espiritualidade, ensinou: "Feliz o homem que suporta a tentação. Porque, depois de sofrer a provação, receberá a coroa da vida que Deus prometeu àqueles que O amam. Ninguém, quando for tentado, diga: 'É Deus quem me tenta.' Deus é inacessível ao Mal e não tenta a ninguém. Cada um é tentado por sua própria concupiscência, que o atrai e alicia. A concupiscência, depois de conceber, dá à luz o pecado. E o pecado, uma vez consumado, gera a morte." Tg 1,12-15
    Sua carta, ademais, reafirma o Sacramento da Unção dos Enfermos, que havia sido instituído pelo próprio Jesus (cf. Mc 6,13): "Está alguém enfermo? Chame os sacerdotes da Igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo em Nome do Senhor." Tg 5,14
    Ora, São Tiago Menor foi privilegiado por uma particular aparição de Jesus antes de Sua Ascensão aos Céus. Sério e discreto, porém, nosso Apóstolo não deve ter divulgado maiores detalhes deste singular episódio, que apenas brevemente foi citado por São Paulo: "... depois apareceu a Tiago..." 1 Cor 15,7
    Certamente tratou de sua necessária permanência em Jerusalém (cf. Ap 8,1), até a completa destruição da cidade pelos romanos, o que veio a acontecer décadas depois, no ano 70 de nossa era, como Nosso Salvador mesmo profetizou (cf. Mt 24,2). É muito provável que nessa ocasião Ele também o tenha informado de seu martírio (cf. 2 Pd 1,14). Com efeito, diferente dos demais Apóstolos que partiriam em missões pelo 'mundo' de então, São Tiago Menor, servo de seu bispado, jamais deixou Jerusalém, o que vai custar-lhe a vida. Morreu espancado e apedrejado pelos judeus, após ser atirado do alto do Templo por não negar que Jesus era o Cristo, fato que significativamente evoca uma das três tentações de Nosso Senhor por Satanás (cf. Lc 4,5). E mais uma vez, e maliciosamente, o inimigo atingia o próprio Senhor, agora através de seus laços familiares.
    Seu martírio deu-se poucos anos antes da destruição de Jerusalém, quando a comunidade-mãe da Igreja, então com nova sede em Roma por São Pedro, vai desaparecer em definitivo, já sob o bispado de seu substituto, São Simão de Jerusalém, seu irmão e o quarto dos 'irmãos' de Jesus nos relatos de São Mateus e São Marcos, que também acabou martirizado.
    Suas relíquias foram transportadas para a Basílica dos Santos Apóstolos, em Roma, e depositadas junto às de São Filipe Apóstolo, um testemunho perpetuado pela Sagrada Tradição da grande amizade que entre eles havia, antes, durante e depois da passagem do Salvador entre nós.


    São Tiago Menor, rogai por nós!

São Filipe Apóstolo


    São Filipe é um dos primeiros dos Doze, que Cristo mesmo chamou de Apóstolos, e por isso dos poucos que detêm exclusividade sobre esse título, entre eles São Paulo e São Matias, também por Ele pessoalmente chamados e enviados. O Evangelho Segundo São Lucas registrou essa distinção: "Ao amanhecer, chamou Seus discípulos e escolheu Doze dentre eles, aos quais deu o nome de Apóstolos..." Lc 6,13
    No Evangelho Segundo São João, Jesus foi seguido por dois discípulos de São João Batista logo após ser batizado por ele. Um deles, não por acaso, era o irmão do Príncipe dos Apóstolos: "No dia seguinte, estava lá João outra vez com dois de seus discípulos. E ao avistar Jesus que ia passando, disse: 'Eis o Cordeiro de Deus.' Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus. André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido João e que O tinham seguido. Logo foi ele, então, à procura de seu irmão, e disse-lhe: 'Achamos o Messias (que quer dizer o Cristo).' Levou-o a Jesus, e Jesus, fixando nele o olhar, disse: 'Tu és Simão, filho de João. Serás chamado Cefas (que quer dizer pedra).'" Jo 1,35-37.40-41
    Nosso Senhor, portanto, já havia sido apresentado como o Salvador, e nomeado Simão de Pedro, quando veio a Se deparar com São Filipe no caminho de volta a Sua terra, por adoção (cf. Mt 2,1), e também deles. Além de apontar seu lugar de origem, o que lhe atesta grande intimidade com dois dos mais renomados Apóstolos, sendo um o principal deles (cf. Mt 10,2), essa cena revela nosso Apóstolo como um eremita, lentamente vagando pelas margens do rio Jordão, e também seguidor do Batista, pois ia a seu encontro, um pouco adiante de São Bartolomeu: "No dia seguinte, tinha Jesus a intenção de Se dirigir a Galileia. Encontra Filipe e diz-lhe: 'Segue-Me'. Filipe era natural de Betsaida, cidade de André e Pedro." Jo 1,43-44
    Assim este Santo é o quarto discípulo a seguir Nosso Senhor, mas nomeadamente o terceiro, pois São João Evangelista, que tudo isso testemunhou como o segundo dos discípulos de São João Batista da narrativa acima, não faz explícito registro de sua própria participação nestes eventos.
    Ao tomar o caminho de volta por força de tão arrebatador convite, afirmativamente sobrenatural, São Filipe faz o mesmo que Santo André: vai dar testemunho do Messias chamando mais um futuro Apóstolo, São Bartolomeu, em hebraico chamado de Natanael, seu companheiro de retiros em ermitério, ali em pleno exercício, e mais um seguidor do Batista: "Filipe encontra Natanael e diz-lhe: 'Achamos Aquele de Quem Moisés escreveu na Lei e que os Profetas anunciaram: é Jesus de Nazaré, filho de José'. Respondeu-lhe Natanael: 'Pode, porventura, vir coisa boa de Nazaré?' Filipe retrucou: 'Vem e vê.'" Jo 1,45-46
    Ora, assim agindo por inspiração do Espírito Santo, São Filipe estava antecipando-se ao próprio Jesus, que, por Sua Onisciência, vai dizer a São Bartolomeu: "Antes que Filipe te chamasse, Eu vi-te quando estavas debaixo da figueira." Jo 1,48
    Na convocação e instituição dos Doze Apóstolos, São Filipe é sempre o quinto, invariavelmente depois de São Pedro, Santo André, São Tiago Maior e São João, não necessariamente nesta ordem, seja nos Evangelhos Sinóticos seja no Livro de Atos dos Apóstolos. Quer dizer, é sempre o primeiro do segundo dos três grupos de quatro Apóstolos, o que significa estar à frente de São Bartolomeu, São Mateus e São Tomé, reconhecidamente homens de intelecto. Aqui citamos a lista do Evangelho Segundo São Marcos: "Escolheu estes Doze: Simão, a quem pôs o nome de Pedro. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer Filhos do Trovão. Ele também escolheu André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o Zelota, e Judas Iscariotes, que O entregou." Mc 3,16-19
    Grande estudioso das Escrituras, é a São Filipe, sempre de racional e pragmático espírito, que o Senhor vai instar antes de realizar a primeira multiplicação dos pães e dos peixes (cf. Mc 6,41): "Jesus levantou os olhos sobre aquela grande multidão que vinha ter com Ele e disse a Filipe: 'Onde compraremos pão para que todos estes tenham o que comer?' Assim falava para o experimentar, pois bem sabia o que havia de fazer. Filipe respondeu-Lhe: 'Duzentos denários de pão não lhes bastam, para que cada um receba um pedaço.'" Jo 6,5-7
    E é por intermédio de São Filipe que chegará a Nosso Salvador a notícia de que o Evangelho já havia chegado a terras muito distantes, às antigas colônias de Grécia, que para Ele foi o sinal de que Sua Paixão estava próxima: "Havia alguns gregos entre aqueles que subiram para adorar durante a festa. Estes aproximaram-se de Filipe (aquele de Betsaida de Galileia) e rogaram-lhe: 'Senhor, quiséramos ver Jesus.' Filipe foi e falou com André. Então André e Filipe disseram-no ao Senhor. Respondeu-lhes Jesus: 'É chegada a hora para o Filho do Homem ser glorificado.'" Jo 12,20-23
    Ora, era nosso Apóstolo que ansiava por ver Deus Pai, e assim vai levar Jesus a Se revelar como Sua imagem, dizendo que é impossível separar Um do Outro, ou seja, mais uma revelação da Santíssima Trindade (cf. 10,30), pois vivem em absoluta Comunhão. De fato, enquanto falava sobre o Pai, Jesus vai ser interrompido: "Disse-Lhe Filipe: 'Senhor, mostra-nos o Pai! E isso basta-nos.' Respondeu Jesus: 'Há tanto tempo que estou convosco e não Me conheceste, Filipe? Aquele que Me viu, também viu o Pai. Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai?'" Jo 14,8-9
    Apesar de não haver evidências, pois, como vimos, Nosso Senhor já o havia chamado para O seguir, e ele assim prontamente assentiu, São Clemente de Alexandria diz que São Filipe teria sido o discípulo que Lhe pediu para sepultar o pai antes de O seguir. Esse episódio está no Evangelho Segundo São Mateus: "Outra vez, um de Seus discípulos disse-Lhe: 'Senhor, deixa-me primeiro ir enterrar meu pai'. Jesus, porém, respondeu-lhe: 'Segue-Me! E deixa que os mortos enterrem seus mortos.'" Mt 8,21-22
    São João Crisóstomo relatou que São Filipe havia sido casado e tinha tido duas filhas, antes de conhecer Jesus. E Eusébio da Cesareia diz o mesmo, acrescentando ainda que ele havia deixado sua terra e pregado o Evangelho em Palestina, Grécia e outras áreas de Ásia Menor. Ainda diz que ele realizava muitos milagres, chegando a ressuscitar um morto em Hierápolis, em atual Turquia, onde, por despeito das autoridades romanas que nele viam um agitador de multidões, por volta do ano 80 de nossa era ele acabou crucificado. Perfeitamente inspirado pelo exemplo de São Pedro, porém, ele pediu que o crucificassem de cabeça para baixo.


    Contudo, como por certo o sejam estes registros, nosso Santo frequentemente tem sido confundido com São Filipe de Cesareia, um dos sete primeiros Diáconos, que teve fulguroso ministério e é citado pela primeira, vez no Livro de Atos dos Apóstolos, quando São Pedro decide uma questão de serviço vocacional, instituindo o Sacramento da Ordenação dos primeiros auxiliares dos Apóstolos: "... escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de Sabedoria, aos quais encarregaremos este ofício (distribuir o pão entre as viúvas gregas). Escolheram Estêvão, homem cheio de e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia." At 6,3.5
    Tal confusão deu-se porque este, além de Diácono, também se pôs a evangelizar, o que era tarefa do Apóstolo, e com grande sucesso como dissemos. É ele, realizando exorcismos e milagres, que vai levar muitos à conversão em Cesareia Marítima após a perseguição iniciada pelo apedrejamento de Santo Estevão, aos quais o Sacramento da Crisma seria realizada por São Pedro e São João: "Aqueles que se haviam dispersado iam por toda parte, anunciando a Palavra de Deus. Assim Filipe desceu à cidade de Samaria, pregando-lhes Cristo. A multidão estava atenta ao que Filipe lhe dizia, unanimemente o escutando e presenciando os prodígios que fazia, porque os imundos espíritos de muitos possessos saíam, dando grandes brados. Igualmente foram curados muitos paralíticos e coxos. Por esse motivo, naquela cidade reinava grande alegria. Os Apóstolos que se achavam em Jerusalém, tendo ouvido que a Samaria recebera a Palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João. Estes, assim que chegaram, fizeram oração pelos novos fiéis a fim de receberem o Espírito Santo, visto que ainda não havia descido sobre nenhum deles, mas apenas tinham sido batizados em Nome do Senhor Jesus." At 8,4-8.14-16
    Ademais, suas filhas viriam a profetizar, pois este Filipe sim era casado, como São Lucas apontou numa missão que fez em companhia de São Paulo: "Partindo no dia seguinte, chegamos a Cesareia e, entrando na casa de Filipe, o evangelista, que era um dos sete Diáconos, ficamos com ele. Ele tinha quatro filhas virgens que profetizavam." At 21,8-9
    Anos mais tarde, portanto, após velarem pelas relíquias de nosso Santo Apóstolo com todo zelo, os cristãos de Hierápolis cuidaram de lhe dar uma honrosa sepultura, em torno da qual no século V foi erguida uma imponente basílica de três naves, como recentes escavações comprovam. Apesar de ter sido destruída pelos muçulmanos em declaradas intolerância e violência, seu túmulo, que foi sutilmente disfarçado, praticamente continuou intacto.


    Seus restos mortais, no entanto, aí já não estavam mais quando da destruição. Foram previamente levados pelos cruzados a Roma e postos junto aos de São Tiago Menor, seu companheiro de missões, na Basílica dos Santos Apóstolos, motivo pelo qual são celebrados na mesma data. Ossos de um de seus braços haviam sido deixados em Constantinopla, mas no ano de 1204, também por temor à ameaça muçulmana, foram levados a Florença, Itália.


    São Filipe Apóstolo, orai por nós!

sábado, 2 de maio de 2026

Comunhão Reparadora dos Cinco Primeiros Sábados

     O primeiro sábado de cada mês é dia de comungar em desagravo às ofensas feitas ao Imaculado Coração de Maria, como o próprio Jesus revelou à Beata Lúcia de Fátima e Nossa Senhora lhe pediu por ocasião da Promessa de Fátima.

Santo Atanásio, O Grande


    Embora fosse apenas um Diácono que acompanhava Santo Alexandre, Patriarca (Bispo) de Alexandria, seu nome é o mais citado nos registros do memorável Concílio de Niceia, do ano de 325. Seu conhecimento bíblico e teológico e seus argumentos em favor da Sã Doutrina foram um deleite para os homens de boa vontade que dele participaram. Athanasius rebateu cada uma das incoerências da heresia criada por Ário, Presbítero (Padre) dos arredores de Alexandria, em Egito, que dizia que Jesus não era Deus, apenas Sua mais perfeita criatura.
    Padre Grego e um dos quatro grandes Doutores da Igreja do Oriente, nosso Santo nasceu no ano de 296, em Alexandria, cidade onde se tornaria o mais amado Bispo. Desde cedo sua inteligência se revelou superlativa. Antes mesmo de se tornar Bispo, Santo Alexandre, seu professor, percebeu que ele seria a pessoa mais requisitada pela Igreja Católica Apostólica Romana em sua nação.
    Àquela época, Ário, que era líbio, havia apoiado Melécio, Bispo sectarista da região de Alexandria, contrário ao perdão de cristãos que haviam prestado culto aos deuses pagãos quando ameaçados de morte pelos governadores romanos. Agora, mesmo tendo recebido o Sacramento da Ordenação por Santo Alexandre, que se posicionava contra o cisma de Melécio, Ário insurgia-se como teólogo, dizia que Jesus não tinha a mesma natureza do Pai e, cativando incautos, colocava-se contra a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo.
    Deu-se, então, o famoso Primeiro Concílio de Niceia, que era uma próspera cidade nos arredores de Constantinopla, terras de atual Turquia, para debater e resolver questões daquele tempo, como a promulgação das leis canônicas, a definição da data da Páscoa, e, principalmente, como mais tarde se entenderia, os assuntos relativos à natureza de Cristo. Apesar de toda sutileza de raciocínio e capacidade de persuasão, dada sua eloquência, Ário foi flagrantemente derrotado por Santo Atanásio, que com brilhantismo sustentou a Doutrina dos Apóstolos e defendeu a Unidade da Igreja. Ao final, por teimar em discordar das decisões aprovadas pela grande maioria, Ário foi afastado.
    Mesmo aclamado durante o Concílio, Santo Atanásio preferiu a meditativa vida de eremita. E foi viver no deserto, quando passou dois anos em companhia de Santo Antão, de quem aprendeu a profundamente mergulhar na alma e com quem organizou a vida monástica do primeiro grupo de eremitas católicos.
    Mas Santo Alexandre sabia que o eremitério não era seu definitivo destino. Alexandria era a maior e mais importante cidade depois de Roma, e ele, que bem conhecia as necessidades da Santa Madre Igreja, queria-o para seu sucessor, como de fato foi eleito por ampla maioria de votos em 328.
    Demoraram, no entanto, para o localizar, pois Santo Atanásio já vivia perfeitamente pelos ermos do deserto, evitando qualquer contato. Só após seis meses de buscas foi encontrado, e, acreditando poder convencer Santo Alexandre a desistir de sua convocação, foi a Alexandria, quando acabou recebido sob grande aclamação popular. Vendo-se nos braços do povo, e percebendo que não poderia declinar, começou a chorar como criança diante dessa contrariedade imposta pela vontade de Deus, porque havia encontrado a indizível Paz de Cristo como ermitão.
    Irritados e por ocuparem os mais importantes encargos, os arianos convenceram o imperador romano a interferir, e ele tentou resolver a questão enviando Alexandria Ósio de Córdoba, o mais respeitado Bispo católico de então. Mas ao entrar em contato com Santo Atanásio, Ósio não só reconheceu nele a pessoa ideal para aquele patriarcado como plenamente concordou com seus doutrinários argumentos, pois com precisão representavam o que foi decidido em Niceia. Ora, mesmo que afrontosamente desrespeitada por muitos cristãos ainda hoje, essa é uma determinação bíblica, e por isso da Igreja Católica, como vemos no Ministério de São Paulo e São Timóteo logo após o Concílio de Jerusalém: "Nas cidades pelas quais passavam, ensinavam que observassem as decisões que haviam sido tomadas pelos Apóstolos e anciãos em Jerusalém." At 16,4
    Porém, apesar da conciliadora gestão de nosso Santo, anos mais tarde os arianos insistiram com o imperador para convocar o malfadado 'concílio' de Tiro, em Líbano no ano de 335, que não foi reconhecido pela Santa Igreja e por objetivo tinha a mera destituição de Santo Atanásio. Detalhe: em 328 ele havia sido convocado para o Sínodo em Cesareia Palestina, através do qual o imperador queira readmitir Ário, mas simplesmente não compareceu.
    Desta vez, obrigado pelo imperador, com sua característica humildade presenciou à farsa armada em Tiro, onde Ário foi readmitido e Santo Atanásio, condenado. De lá, ele foi direto a Constantinopla, e, numa missão que julgava ser pessoal e pela Salvação da alma do imperador, a ele se apresentou para pormenorizadamente explicar as doutrinárias questões que estavam em debate. Convencido por seus argumentos, Constantino I inocentou-o das acusações, mas manteve as funções de Ário e não revogou o exílio imposto a Santo Atanásio, a ser cumprido na cidade de Trier, em atual Alemanha, onde ele foi muito bem acolhido por São Maximiliano.
    A população de Alexandria, entretanto, ficou muito insatisfeita com o afastamento de seu Santo Bispo e com a imposição da doutrina ariana. E sempre que podia, intercedia pelo retorno de Santo Atanásio ao imperador, que se escusava dizendo que não podia revogar a decisão do 'concílio' de Tiro. Porém, tendo morrido Ário subitamente em 335, e estando Constantino I em leito de morte no ano de 337, ao solicitar o Sacramento do Batismo resolveu atender ao clamor popular e decretou o retorno de nosso Santo a Alexandria, o que aconteceu em 338. E para mais um grande constrangimento dos arianos, ele foi recebido na cidade com grande euforia.
    Um dos filhos do imperador, Constâncio II, que havia herdado a parte do império onde ficava Alexandria, foi procurado pelos arianos para convocar um novo concílio, pois seu pai teria revogado uma decisão do 'clero'. Assim foi feito e elegeram Gregório, outro ariano, como novo patriarca de Alexandria.
    Santo Atanásio então teve que se explicar ao Papa Júlio I, que em 343 havia presidido o Concílio de Sárdica, em atual Bulgária, e participou do Sínodo realizado pelos irmãos de Constâncio II, também imperadores, Constante I e Constantino II, encontros verdadeiramente do Clero que reconheceram Santo Atanásio como o legítimo Patriarca. Constante I, que administrava a parte que abrangia Itália, escreveu uma carta em que obrigava Constâncio II a reconhecer os Concílios Católicos, o que ele finalmente acatou, restituindo a Santo Atanásio o patriarcado.
    Com a morte de Constante I, porém, os arianos tornaram a pressionar Constâncio II e conseguiram a convocação do 'concílio' de Milão, Itália, em 345, o qual mais uma vez condenou Santo Atanásio, restituiu o patriarcado de Alexandria aos hereges e, o pior, exilou todos patriarcas verdadeiramente católicos daquela região de Egito. A cidade entrou em violenta convulsão e nosso Santo, para evitar mais graves consequências, preferiu esconder-se numa cisterna seca na casa de um amigo. Foi mais uma prova de sua profunda mística e amor à vida contemplativa, porque aí ficou durante 5 anos, quando escreveu os mais belos trabalhos combatendo a heresia do arianismo.


    Contudo, após a morte de Constantino II, deu-se nova reviravolta: o imperador Juliano, que havia sido fervoroso cristão, decretou a volta de Santo Atanásio ao patriarcado e o retorno de todos patriarcas exilados. Mas as convulsões recomeçaram e nosso Santo, realmente cansado de tantos tumultos, optou pelo autoexílio. Juliano, no entanto, morreria numa batalha em 363, após apenas três anos como imperador, e com a ascensão de Joviano, ainda que também por um período de três anos, este fez questão de trazer os patriarcas católicos e com muita determinação acabou restabelecendo a paz em Alexandria.
    Com o sucessor de Joviano, Valentiniano I, que era contra a Santa Igreja, iniciou-se nova e já doentia perseguição aos religiosos católicos, e consequentemente o exílio de todos. Para evitar revolta popular, que se ensejava violenta, Santo Atanásio outra vez escolheu ocultar-se, agora junto ao túmulo de seu pai, onde viveu por quatro meses. Entretanto, finalmente reconhecendo a vontade do povo, as autoridades de Alexandria por mais uma vez concederam-lhe o retorno ao patriarcado, agora em definitivo.


    O termo 'ortodoxo', que em grego literalmente significa 'opinião correta', foi empregado pela primeira vez para designar os seguidores de nosso Santo. É conhecido pelo raro título de 'O Grande', e ainda de 'Pai da Ortodoxia' e 'Pai do Cânon'.
    Em seu livro "A Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo", oito vezes usou o termo grego 'Theotokos', que quer dizer Mãe de Deus, para se referir à Maria Santíssima.
    Em seu livro "Credo Quicumque", anos antes de Santo Agostinho, que dizia que fora de Igreja não há Salvação, ele já afirmava: "Esta é a católica, e quem nela não crer, fiel e firmemente, não poderá salvar-se."
    Tornou-se o primeiro hagiógrafo da Igreja Una, ao escrever o livro a história de seu inspirador amigo, a quem nunca mais esqueceu: "Vida de Santo Antão".
    E deixou profundas reflexões e orações:

    "Levemos em conta que a própria Tradição, ensinamento e fé da Igreja Católica, desde o princípio dados pelo Senhor, foram pregados pelos Apóstolos e preservados pelos Santos. Nisto foi fundada a Igreja. E se alguém dela se afasta, não é e nem deve mais ser chamado de cristão."
    "Ainda que os católicos fiéis à Tradição se reduzam a um punhado, são eles a Verdadeira Igreja de Jesus."
    "Tu não podes colocar corretamente nos outros aquilo que está distorcido em ti mesmo."
    "Da mesma forma, qualquer um que deseja compreender a mente dos sagrados escritores deve, primeiro, limpar sua própria vida e aproximar-se dos Santos, copiando suas ações."
    "Nenhum de nós julga pelo que não sabe, e ninguém é chamado Santo por seu aprendizado e conhecimento. Porém, cada um será chamado a Juízo nestes pontos: se manteve a fé e realmente observou os Mandamentos."
    "Se o mundo for contra a Verdade, então Atanásio será contra o mundo."
    "As sagradas e inspiradas Escrituras são suficientes para a pregação da Verdade."
    "Estas (Escrituras) são as fontes de Salvação, para que aqueles que têm sede possam ser saciados com as vivas palavras que elas contêm. Só nelas se proclama a doutrina da piedade. Que nenhum homem acrescente nem tire algo delas."
    "Tu não verás ninguém, que realmente esteja esforçando-se para seu avanço espiritual, que não seja dado à leitura espiritual."
    "Nosso inimigo é o Diabo, que sempre nos rodeia, tratando de nos tirar a semente da Palavra de Deus que foi posta dentro de nós."
    "Os filósofos gregos compilaram muitas obras com persuasão e muita habilidade em palavras. Mas que fruto eles têm para mostrar por isso, como tem a Cruz de Cristo? Seus sábios pensamentos eram bastante persuasivos até que eles morressem."
    "Porque Deus não só nos criou do nada, mas também nos garantiu, pela Graça da Palavra, viver uma vida de acordo com Deus."
    "Jesus tornou-Se o que somos para nos fazer o que Ele é."
    "Pois nós fomos o propósito de Sua Encarnação, e para nossa Salvação Ele amou os seres humanos de modo a vir a ser e aparecer em um Corpo Humano."
    "Houve, portanto, duas coisas que o Salvador fez por nós tornando-Se Homem: Ele baniu de nós a morte e fez-nos de novo. E, invisível e imperceptível, como em Si mesmo Ele é, tornou-Se visível através de Suas obras e revelou-Se enquanto a Palavra do Pai, o Governante e o Rei de toda Criação."
    "Assim, o Verbo, querendo devidamente socorrer os homens, deveria residir na Terra como Homem, tomar Corpo semelhante ao deles, e agir através das coisas terrenas, isto é, por obras corporais. Desta forma, aqueles que não haviam querido reconhecê-Lo por causa de Seus universais Providência e domínio, reconheceriam pelas obras corporais o Verbo de Deus Encarnado, e por Ele, o Pai."
    "A forma da Sabedoria foi dada às criaturas para que o mundo nelas reconhecesse o Verbo, Seu Artífice, e pelo Verbo, o Pai."
    "Pois que uso tem a existência para a criatura se não pode conhecer Seu Criador?"
    "O Pai cria todas coisas por meio do Verbo, no Espírito Santo. E deste modo afirma-se a Unidade da Santíssima Trindade."
    "A presença e o amor da Palavra chamaram-nos a sermos. Inevitavelmente, portanto, quando perderam o conhecimento de Deus, com ele perderam a existência. Pois só Deus existe, e o mal é o não-ser, a negação e a antítese do bem."
    "Pois, de fato, tudo é maravilhoso, e sempre que um homem virar o olhar, vê a divindade da Palavra e é afetado pela admiração."
    "A auto-revelação da Palavra está em todas dimensões: acima, na Criação, abaixo, na Encarnação, na profundidade, no Hades, na amplitude, em todo mundo. Todas coisas foram preenchidas com o conhecimento de Deus."
    "Porque nenhuma parte da Criação foi deixada vazia de Si: Ele encheu tudo em todos lugares..."
    "Pois o Senhor tocou todas partes da Criação, e as libertou e as desenganou de todos enganos."
    "Mesmo na Cruz, Ele não Se escondeu. Em vez disso, fez de toda Criação testemunha da presença de Seu Criador."
    "Até a própria Criação rompeu o silêncio a Seu pedido e, maravilhada por relatar, com uma só voz confessou diante da Cruz, aquele monumento da Vitória, que Aquele que sofria no Corpo não era apenas Homem, mas o Filho de Deus e Salvador de todos. O sol encobriu o rosto, a terra tremia, as montanhas racharam-se em partes, todos homens estavam assustados. Estas coisas mostraram que Cristo na Cruz era Deus, e que toda Criação era Sua serva, e testemunhava seu medo ante a presença de Seu Mestre."
    "Com Sua Ressurreição, o Senhor fez desaparecer a morte como se fosse palha entre o fogo."
    "Por natureza, os seres humanos têm medo da morte e da dissolução do corpo. Mas isso é muito surpreendente, pois aquele que colocou a fé na Cruz despreza até mesmo as coisas conforme a natureza, e não tem medo da morte por causa de Cristo."
    "Nos antigos tempos, antes da divina passagem do Salvador, até aos Santos a morte era terrível. Todos choraram pelos mortos como se eles realmente tivessem perecido. Mas agora que o Salvador ressuscitou, a morte não é mais terrível. Porque todos que creem em Cristo a desprezam como se nada fosse, e preferem morrer que negar a fé em Cristo. E o Diabo que maliciosamente exultou com a morte, agora que foram dissipadas as dores causadas por ela, permaneceu o único verdadeiramente morto."
    "Tu sabes como é quando algum grande rei entra em uma grande cidade, e habita em uma de suas casas. Por causa de sua habitação naquela única casa, toda cidade é honrada, e inimigos e ladrões deixam de molestar. Mesmo assim é com o Rei de todos. Ele entrou em nosso país e habitou em um Corpo em meio a muitos, e, em conseqüência, os projetos do inimigo contra a humanidade foram frustrados e a corrupção da morte, que antigamente os mantinha em seu poder, simplesmente deixou de ser. Pois a raça humana teria perecido completamente não tivesse o Senhor e Salvador de todo filho de Deus vindo entre nós para acabar com a morte."
    "Os Santos, enquanto viviam nesse mundo, estavam sempre alegre, como em contínua festa."
    "Assim, a pureza da alma é suficiente para refletir Deus, porquanto o Senhor também diz: 'Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus.'"
    "Os cristãos, em vez de se armarem de espadas, estendem as mãos em oração."
    "Jesus, que eu conheço como Meu Redentor, não pode ser inferior a Deus."
    "Vós, Senhor, que estás acima dos querubins, quando Vos fizestes semelhante a nós, restaurastes o mundo decaído."

    Nosso Santo ficou no patriarcado de Alexandria até 2 de maio de 373, quando faleceu aos 77 anos.
    São Gregório Nazianzeno, também Doutor da Igreja e Padre Grego, chamou-o de "Pilar da Igreja", porque todos Padres da Igreja, fundadores da Patrística, a filosofia cristã, tiveram sua obra em mais alta valia.
    Parte de suas relíquias está guardada na Catedral de São Marcos, em Cairo, capital de Egito, cujas fundações já contam 1900 anos, uma homenagem ao segundo evangelista, que foi Bispo de Alexandria por pessoal indicação de São Pedro.


     Outra parte está na igreja de São Zacarias, em Veneza, que data do século IX.


    Santo Atanásio, rogai por nós!