segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A Salvação vem dos Judeus


    Vivendo num mundo globalizado, e enxergando as nações em igualdade de direitos, soa estranho que Deus tenha escolhido um único povo para Se dar a conhecer, ainda que tenha sido só inicialmente. Parecem descabidos privilégio e exclusividade.
    Mas esquecemos que Deus é Pessoa, e como tal quer ser conhecido e amado. É de Sua natureza de amoroso Pai, pois, que nos contacte pessoalmente, um a um, por isso não Se vale apenas da Revelação, que por ser coletiva pode parecer massificadamente fria e distante. Com efeito, Ele também vive conosco a História, para que a partir de nossas próprias experiências venhamos a dar testemunho de Seu amor e Sua Graça, como a Encarnação de Cristo foi. No Evangelho Segundo São João, Jesus mesmo disse de Si: "... Ele chama cada uma de Suas ovelhas pelo nome... e as ovelhas seguem-nO, pois conhecem Sua voz. Mas não seguem o estranho, antes fogem dele porque não conhecem a voz dos estranhos." Jo 10,3b.4b-5
    Pois, na verdade, Deus não começou por um povo, mas, de ainda mais particular modo, por um só homem: Abraão. E mesmo assim, para que tal fato não caísse em esquecimento, instantemente teve que puxar por sua memória. É do Livro de Gênesis, quando Ele Se refere à Terra Santa, Canaã, que só vai entregar, de fato, à posteridade deste patriarca: "Eu sou o Senhor, que te fiz sair de Ur de Caldeia para te dar esta terra." Gn 15,7
    E quando já estava velho, Abraão ouviu mais reveladoras e significativas palavras: "Eu sou o Deus Todo-Poderoso." Gn 17,1
    Deus também teve que Se identificar a Jacó, fazendo-lhe lembrar do que já tinha feito por seu avô, aqui chamado de pai, e por seu próprio pai, Isaque: "Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão, teu pai, e o Deus de Isaque..." Gn 28,13
    E quando o povo de Israel foi feito escravo em Egito, e quase O havia esquecido, Ele teve que Se identificar a Moisés. Mas desta vez de inequívoca forma, como o Livro de Êxodo registrou, mandando através dele um definitivo recado aos israelitas: "EU SOU AQUELE QUE SOU." Êx 3,14
    Enfim, nem assim se pode dizer que os hebreus prontamente reconheceram e abraçaram a Deus. Assim como a qualquer um de nós, e ainda hoje, Ele quase sempre teve que deixar explícito Quem Ele é, bem como Sua divina unicidade. É o que temos desde o primeiro Mandamento dado a Moisés nas Tábuas da Lei: "Eu sou o Senhor Teu Deus... Não terás outros deuses diante de Minha face." Êx 20,3
    No Livro de Deuteronômio, da mesma forma, Moisés teve muito trabalho para fazer o povo acreditar, e ainda outra vez lhes declarar a exclusividade de Deus: "Ouve, ó Israel! O Senhor, Nosso Deus, é o único Senhor." Dt 6,4
    Vemos, portanto, Deus apresentando-Se e dando-Se a conhecer em distintas manifestações, porém, como na atualidade, igualmente vemos a recorrente dificuldade humana em O acolher. E assim o povo de Israel precisou ser trabalhado por gerações e gerações, e isso é mais um dos motivos que explica porque, fiel em Seu amor bem como em Seu proceder, Ele escolheu, ao menos a princípio, apenas um povo a quem mais explicitamente Se revelar.
    E não obstante tanta relutância, sempre deixou evidente Sua afetiva personalidade, a fim de estabelecer uma amorosa relação com Seus filhos, nas capacidades com que lhes dotou: "Amarás o Senhor, Teu Deus, de todo teu coração, de toda tua alma e de toda tua força." Dt 6,5


DESDE O PRINCÍPIO, DEUS DE TODOS POVOS

    Também não resta dúvida de que a fase do "crescei e multiplicai-vos" (cf. Gn 1,28) tenha levado o ser humano a colonizar distantes terras, formando diversas nações: "Quando o Altíssimo dividia os povos e dispersava os filhos dos homens, fixou limites aos povos, segundo o número dos filhos de Deus." Dt 32,8
    Mas como aconteceu com Adão e Eva no Paraíso (cf. Gn 3,6), não era Sua vontade que os povos se voltassem contra Ele. Ora, Moisés esbraveja contra os próprios israelitas: "Pecaram contra Ele. Já não são Seus filhos, mas degenerada raça, perversa, depravada geração. É assim que agradeceis ao Senhor, frívola e insensata gente? Não é Ele Teu Pai, Teu Criador, que te fez e te estabeleceu? Lembra-te dos antigos dias, considera os anos das passadas gerações. Interroga teu pai e ele contá-te-á, teus anciãos e eles di-te-ão." Dt 32,5-7
    Entretanto, a promessa que Ele fez a Abraão foi rigorosamente mantida: "... em ti serão benditas todas famílias da Terra." Gn 12,3
    De fato, Abraão tornou-se pai carnal, embora nem todos viessem a guardar as tradições hebreias, e, pela , também pai espiritual de muita gente. Disse Nosso Criador: "... de ti farei o pai de uma multidão de povos... de ti farei nascer nações..." Gn 17,5b-6a
    Pois mesmo que a tradição só considere como hebreu o filho de uma hebreia, na ascendência do próprio Jesus há três mulheres estrangeiras. O Evangelho Segundo São Mateus apontou: "Genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara. (...) Salmon gerou Booz, de Raab. (...) Booz gerou Obed, de Rute." Mt 1,1.3a.5a
    Após alguns séculos de prática da patrilinearidade, com efeito, Moisés estabeleceu uma separação para com as pagãs nações: "Não contrairás com elas matrimônios: não darás tua filha a seus filhos, e não tomarás de suas filhas para teu filho, pois do Senhor elas afastariam teu filho, que serviria a outros deuses. A cólera do Senhor inflamar-se-ia contra ele e não tardaria a vos exterminar." Dt 7,3-4
    Portanto, tal hereditariedade é de expressivo significado porque em Cristo, Glória maior dos judeus, estava previsto que todos povos se reconciliariam com Deus. É a Eterna Aliança, prometida pelo Pai no Livro do Profeta Isaías: "Prestai-Me atenção, e vinde a Mim. Escutai, e vossa alma viverá: convosco quero concluir uma Eterna Aliança, outorgando-vos os favores prometidos a Davi. Farei de ti um testemunho para os povos, um sobreano condutor das nações. Conclamarás povos que nunca conheceste, e nações que te ignoravam acorrerão a ti por causa do Senhor Teu Deus, e do Santo de Israel que fará tua Glória." Is 55,3a.4-5
    Assim, como as profecias ditavam, em Jesus a Salvação seria anunciada não somente aos judeus, mas por toda Terra. Ainda nesse Livro, Nosso Salvador e Deus Pai conversaram: "E agora o Senhor fala, Ele que Me formou desde Meu Nascimento para ser Seu Servo, para Lhe trazer de volta Jacó e Lhe reunir Israel: 'Não basta que sejas Meu Servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os fugitivos de Israel. De Ti vou fazer a Luz das nações, para propagar Minha Salvação até os confins do mundo.'" Is 49,6
    No Livro do Profeta Miqueias, Deus predisse, em sequência, a cidade do Nascimento de Jesus, Israel transmutado na Santa Igreja Católica (cf. Gl 6,16), a divina origem de Nosso Senhor, Nossa Mãe Celeste, Seus irmãos não-judeus, Sua Paz, Seu divino poder, Seu Reino, Sua proteção e Sua universalidade: "'Mas tu, Belém-Efrata, tão pequena entre os clãs de Judá, é de ti que para Mim sairá Aquele que é chamado a governar Israel. Suas origens remontam aos antigos tempos, aos dias do longínquo passado.' Por isso, Deus deixá-los-á até o tempo em que der à luz aquela que há de dar à luz. Então o resto de Seus irmãos voltará para junto dos filhos de Israel. Ele levantar-Se-á para os apascentar com o poder do Senhor, com a majestade do Nome do Senhor, Seu Deus. Os Seus viverão em segurança, porque Ele será exaltado até os confins da Terra." Mq 5,1-3
    Ora, em oração no longínquo Segundo Livro de Reis, Ezequias, rei de Judá, já reconhecia: "... Vós sois o Deus de todos reinos da Terra." 2 Rs 19,15b
    E na visão do Livro do Profeta Daniel, propriamente, o Cristo apresenta-Se diante de Deus Pai para reinar sobre todos povos pela invencível Igreja Apostólica (cf. Mt 16,18): "Sempre olhando a noturna visão, vi um Ser, semelhante ao Filho do Homem, vir sobre as nuvens do Céu: dirigiu-Se para o lado do Ancião, diante de Quem foi conduzido. A Ele foram dados império, Glória e realeza, e todos povos, todas nações e todas línguas serviram-nO. Seu domínio será eterno, nunca cessará, e Seu Reino jamais será destruído." Dn 7,13-14
    No Evangelho Segundo São Lucas, o religioso Simão também o afirmou, durante a Apresentação do Menino Jesus no Templo de Jerusalém, pois Ele efetivamente é a Glória de Israel, mas não somente deste povo: "Agora, Senhor, deixai ir em Paz Vosso servo, segundo Vossa Palavra. Porque meus olhos viram Vossa Salvação, que preparastes diante de todos povos, como Luz para iluminar as nações, e para a Glória de Vosso povo de Israel." Lc 2,29-32
    Isso foi profetizado até por um inimigo de Nosso Senhor, o sumo sacerdote do ano em que Ele foi crucificado, afirmando que "... Jesus havia de morrer pela nação, e não somente pela nação, mas para que os dispersos filhos de Deus também fossem reconduzidos à Unidade." Jo 11,51b-52
    Entretanto, Israel vivia no Advento do Salvador um momento de extrema fragilidade, padecendo mais uma grande humilhação, agora por décadas de dominação dos romanos. Isso explica as palavras de Nossa Senhora, também celebrando na gestação de Jesus a definitiva Redenção de Seu povo: "Acolheu a Israel, Seu servo, lembrado de Sua Misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre." Lc 1,54-55
    Tal privilégio, porém, de ser chamado de povo de Deus, estava sujeito a algumas condições. Já dizia Moisés: "O Senhor confirmá-te-á como um povo consagrado a Ele, como te jurou, contanto que observes Suas ordens e andes por Seus caminhos. Todos povos da Terra verão, então, que és marcado com o Nome do Senhor..." Dt 28,9-10a
    Ou seja, os judeus deviam espelhar Sua santidade, da qual Jesus seria o ápice, pelo mundo todo, como Deus mesmo disse no Livro do Profeta Ezequiel: "'As nações então ficarão sabendo que Eu sou Javé,' Oráculo do Senhor Javé, 'quando, por meio de vós, Eu mostrar Minha santidade diante deles.'" Ez 36,23b
    Deviam espelhar Sua Sabedoria, que por eles veio a viger na Terra, como Livro do Profeta Baruc revelou: "É Ele Nosso Deus, com Ele nenhum outro se compara. Conhece a fundo os caminhos que conduzem à Sabedoria, galardoando com ela Jacó, Seu servo, e Israel, Seu favorecido. Foi então que ela apareceu sobre a Terra, onde permanece entre os homens." Br 3,36-38
    Por isso, no Livro de Atos dos Apóstolos, São Pedro exigia dos judeus, seus irmãos, o testemunho de Cristo, pregando no dia do Pentecostes: "Foi em primeiro lugar para vós que Deus suscitou Seu Servo, para vos abençoar, a fim de que cada um se aparte de sua iniquidade." At 3,26
    A Carta de São Paulo aos Romanos sustenta o mesmo argumento, dizendo do Antigo Testamento: "Em que, então, se avantaja o judeu? Ou qual é a utilidade da circuncisão? Muita, em todos aspectos. Principalmente porque lhes foram confiados os Oráculos de Deus." Rm 3,1-2
    E confirma: "Eles são os israelitas. A eles foram dadas a Adoção, a Glória, as Alianças, a Lei, o culto, as promessas e os patriarcas. Deles descende Cristo, segundo a carne, o Qual é, sobre todas coisas, Deus bendito para sempre. Amém." Rm 9,4-5
    Ele também afirma que Deus não lhes retira sua bendita herança: "... quanto à eleição, eles são muito queridos por causa de seus pais. Pois os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis." Rm 28b-29
    Aliás, até prevê a Redenção de todos judeus nos tempos finais, pois assim entendia uma profecia de Isaías: "Então, Israel em peso será salvo, como está escrito: 'Virá de Sião o Libertador, apartará de Jacó a impiedade (Is 59,20).'" Rm 11,26
    Já havia explicado, dirigindo-se aos ex-pagãos: "E eles, se não persistirem na incredulidade, serão enxertados, pois Deus é poderoso para os enxertar de novo. Se tu, cortado da oliveira de selvagem natureza, contra tua natureza foste enxertado em boa oliveira, quanto mais eles, que são naturais, poderão ser enxertados em sua própria oliveira!" Rm 11,23-24
    Motivo pelo qual o Evangelho teria que ser anunciado inicialmente aos judeus, como Jesus fez (cf. Mt 15,24): "Com efeito, não me envergonho do Evangelho, pois ele é uma força vinda de Deus para a Salvação de todo aquele que crê, em primeiro lugar ao judeu, e depois ao grego." Rm 1,16
    Após a Vinda do Espírito Santo, no entanto, e com o 'Pentecostes dos Pagãos' (cf. At 10,44), São Tiago Menor assim vai resumir os argumentos de São Pedro na defesa do ingresso dos não-judeus na Santa Madre Igreja: "Simão narrou como Deus começou a olhar para as pagãs nações, para delas tirar um povo que trouxesse Seu Nome." At 15,14
    São Mateus bem percebeu esse alcance que só o Espírito Santo daria à Palavra de Jesus, como foi profetizado: "Uma grande multidão seguiu-O, e Ele curou todos seus doentes. Severamente lhes proibia de falar disso, para que se cumprisse o anunciado pelo Profeta Isaías: 'Eis Meu Servo a Quem escolhi, Meu bem-amado em Quem Minha alma pôs toda Sua afeição. Sobre Ele Farei repousar Meu Espírito, e Ele anunciará a Justiça aos pagãos. Em Seu Nome as pagãs nações porão sua esperança (Is 42,1-4)." Mt 12,15b-18.21
    Segunda Carta de São Pedro, ao dirigir-se exclusivamente aos não-judeus, usará esses termos: "... àqueles que, pela Justiça de Nosso Deus e do Salvador Jesus Cristo, alcançaram uma fé tão preciosa quanto a nossa." 2 Pd 1,1b
    Pois houve um momento em que os Apóstolos abandonariam os esforços de lhes anunciar Cristo, como São Paulo protestou perante os judeus em Roma: "Ficai sabendo, pois, que agora aos gentios é enviada esta Salvação de Deus. E eles ouvi-la-ão." At 28,28
    Ora, Jesus mesmo havia profetizado a total aversão do 'povo de Deus' aos cristãos: "Expulsá-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que todo aquele que vos tirar a vida julgará prestar culto a Deus." Jo 16,2
    E sentenciou aos líderes judeus em Jerusalém, poucos dias antes de ser crucificado: "Por isso, digo-vos: sê-vos-á tirado o Reino de Deus, e será dado a um povo que produzirá os frutos dele." Mt 21,43
    Assim os pagãos assumiriam o protagonismo nos projetos de Deus, bem como a rejeição ao Messias perseverou entre os judeus. A Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios recorda Isaías: "Na Lei está escrito: 'Será por gente de língua estrangeira e por lábios estrangeiros que falarei a este povo. E nem assim Me ouvirão', diz o Senhor (Is 28,11s)." 1 Cor 14,21
    Também cita o Livro do Profeta Oseias: "Chamarei de Meu povo aquele que não era Meu povo, e amada aquela que não era amada. E no mesmo lugar em que lhes foi dito: 'Vós não sois Meu povo', ali serão chamados filhos de Deus Vivo (Os 2,1)." Rm 9,25-26
    Por isso, essa 'mudança de planos' não deveria causar estranheza aos judeus: havia séculos estava prescrita por Deus mesmo através de Seus mais importantes Profetas: "E ainda pergunto: Acaso Israel não o compreendeu? Moisés já lhes havia dito: 'Eu despertá-vos-ei ciúmes com um povo que não merece este nome, provocá-vos-ei a ira contra uma insensata nação (Dt 32,21).' E Isaías abalança-se a dizer: 'Fui achado pelos que não Me buscavam. Manifestei-Me àqueles que não perguntavam por Mim (Is 65,1).' Ao passo que, a respeito de Israel, Ele diz: 'Todo dia estendi Minhas mãos a um desobediente e teimoso povo (Is 65,2).'" Rm 10,19-21
    Nesse sentido, a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios diz: "Por isso, até o dia de hoje quando leem Moisés, um véu cobre-lhes o coração. Esse véu só será tirado quando se converterem ao Senhor." 2 Cor 3,15-16
    Aliás, a manifestação do Salvador, ainda que quase estritamente entre os judeus, foi tão somente o cumprimento de mais uma profecia, porque Ele também curou e exorcizou estrangeiros. Este Apóstolo segue: "Pois asseguro que Cristo exerceu Seu Ministério entre os incircuncisos para manifestar a veracidade de Deus, através da realização das promessas feitas aos patriarcas." Rm 15,8
    Ele já havia dito, ademais, mais uma vez citando palavras de Deus: "Porque nem todos que descendem de Israel são verdadeiros israelitas, como nem todos descendentes de Abraão são filhos de Abraão. Mas: 'É em Isaque que terás uma descendência que trará teu nome (Gn 21,12).' Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa é que serão considerados como descendentes." Rm 9,6b-8
    Ele questionava-se: "Ou Deus só o é dos judeus? Também não é Deus dos pagãos? Sim, Ele também o é dos pagãos." Rm 3,29


UM POVO ANDANTE COMO MENSAGEIRO

    A palavra 'hebreu' significa 'andante'. Tal característica, assim como a secular tradição de formar a família e criar os filhos fielmente transmitindo conhecimento e costumes, foram inspiradas por Deus, pois deles Se serviria para Se fazer conhecer e divulgar Sua Palavra. No Livro de Salmos, o Profeta Asaf cantou: "Ele (Deus) promulgou uma Lei para Jacó, instituiu a legislação de Israel, para que aquilo que confiara a nossos pais, eles transmitissem-no a seus filhos," Sl 77,5
    Ora, antes mesmo do primeiro filho gerado por Sara, Ele havia feito uma Aliança com Abraão e sua descendência: "Contigo e com tua posteridade faço Aliança, uma Eterna Aliança, de geração em geração, para que Eu seja Teu Deus e Deus de tua posteridade." Gn 17,7
    E ainda bem antes da Vinda do Messias, Ele também já convidava os estrangeiros para participar dessa Aliança, como primeiro vemos falar Isaías e, em seguida, o próprio Deus: "Que o estrangeiro que deseja afeiçoar-se ao Senhor não diga: 'Certamente, o Senhor vai excluir-me de Seu povo'. ... estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor, para O servir e amar Seu Nome, para serem Seus servos, se observarem o sábado sem o profanar, e '... se se afeiçoarem a Minha Aliança, Eu conduzi-los-ei a Meu santo monte e cumula-los-ei de alegria em Minha Casa de Oração. Seus holocaustos e sacrifícios serão aceitos sobre Meu altar, pois Minha Casa se chamará Casa de Orações para todos povos.'" Is 56,3.6-7
    Com efeito, desde a construção do Templo de Jerusalém, isto é, ao menos três séculos antes de Isaías, que o rei Salomão já intercedia pelos estrangeiros no Primeiro Livro de Reis: "Quanto ao estrangeiro, que não pertence a Vosso povo de Israel, quando vier de uma longínqua terra por causa de Vosso Nome, porque se ouvirá falar da grandeza de Vosso Nome, da força de Vossa mão e do poder de Vosso braço, quando vier rezar neste Templo, ouvi-o do alto dos Céus, do alto de Vossa morada, ouvi-o e fazei tudo que esse estrangeiro Vos pedir. Então todos povos da Terra conhecerão Vosso Nome, Vos temerão como Vosso povo de Israel, e saberão que Vosso Nome é invocado sobre esta Casa que edifiquei." 1 Rs 8,41-43
    Um sagrado autor de Salmo já cantava: "Tema ao Senhor toda Terra. Reverenciem-nO todos habitantes do globo." Sl 32,8
    E estimulava Seu culto: "O Senhor desfaz os planos das pagãs nações, reduz a nada os projetos dos povos. Só os desígnios do Senhor eternamente permanecem, e os pensamentos de Seu Coração, por todas gerações. Feliz a nação que tem o Senhor por Seu Deus, e o povo que Ele escolheu para Sua herança." Sl 32,10-12
    Também como posteridade de Abraão, à samaritana, que era de um povo que se afastou dos israelitas, Jesus fala do Pai, de Sua história entre o povo judeu e de Si mesmo: "Vós adorais O que não conheceis. Nós adoramos O que conhecemos, porque a Salvação vem dos judeus." Jo 4,22
    E nestes termos Ele vai justificar a Salvação de que Zaqueu, pelas promessas de Deus, é destinatário: "Disse-lhe Jesus: 'Hoje entrou a Salvação nesta casa, porquanto este também é filho de Abraão. Pois o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.'" Lc 19,9-10
    Mas nem por isso os judeus deviam bastar-se, como São João Batista advertia os fariseus e saduceus: "Não digais dentro de vós: 'Nós temos a Abraão por pai!' Pois eu vos digo: 'Deus é poderoso para destas pedras suscitar filhos a Abraão.'" Mt 3,9
    Enquanto Ser Humano, contudo, Nosso Senhor tinha uma Missão muito específica a cumprir. Era uma promessa feita aos judeus desde os tempos de Moisés, e que entre eles haveria de se realizar, embora a Boa Nova por Ele anunciada não mais tivesse que se restringir a eles. Deus expressamente Se dirigiu ao povo hebreu: "Andarei em meio a vós, serei Vosso Deus e vós sereis Meu povo." Lv 26,12
    Jesus vai declarar Sua condição a uma estrangeira, que Lhe implorava socorro à filha possessa: "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da Casa de Israel." Mt 15,24
    Mas essa mulher era bem informada sobre a Vinda do Salvador, e realmente acreditava que Jesus era Sua Encarnação. Isso verifica-se quando ela por Ele chamava, fazendo menção a Sua ascendência, que era hebreia, e a Sua tribo, conforme as profecias (cf. 1 Cr 17,4): "Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim!" Mt 15,22
    E assim, humildemente demonstrando sua fé, ela tocou Seu Sagrado Coração: "Jesus respondeu-lhe: 'Não convém jogar aos cachorrinhos o pão dos filhos.' 'Certamente, Senhor', replicou-Lhe ela, 'mas os cachorrinhos ao menos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos.' Disse-lhe, então, Jesus: 'Ó mulher, grande é tua fé! Seja-te feito como desejas.'" Mt 15,26-28
    Era tão específica Sua Humana manifestação que, ao ouvir que Seu Nome já havia chegado aos judeus que moravam nas antigas colônias gregas, Nosso Senhor percebeu que a hora de Sua Paixão estava próxima: "Havia alguns gregos entre os que subiram para adorar durante a festa. Estes aproximaram-se de Filipe, aquele de Betsaida de Galileia, e rogaram-lhe: 'Senhor, quiséramos ver Jesus.' Filipe foi e falou com André. Então André e Filipe o disseram ao Senhor. Respondeu-lhes Jesus: 'É chegada a hora para o Filho do Homem ser glorificado. Na Verdade, na Verdade, digo-vos: se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só. Se morrer, produz muito fruto.'" Jo 12,20-24
    Por isso, os Apóstolos também tiveram um rebanho delimitado para apascentar, enquanto Cristo esteve entre nós (cf. At 1,18): "Estes são os Doze que Jesus enviou em missão, após lhes ter dado as seguintes instruções: 'Não ireis ao meio dos gentios nem entrareis em Samaria. Antes ide às ovelhas que se perderam da Casa de Israel.'" Mt 10,5-6
    Tanto que, mesmo após Sua Ressurreição e momentos antes de Sua Ascensão, na última conversa os Apóstolos ainda falavam apenas na restauração do Reino de Israel, enquanto mera nação: "Assim reunidos, eles interrogavam-nO: 'Senhor, é porventura agora que ides restaurar a realeza em Israel?'" At 1,6
    De fato, após a primeira multiplicação dos pães e dos peixes, a multidão quis fazê-Lo rei de Israel, por O reconhecer como o Profeta anunciado por Moisés (cf. Dt 18,15): "À vista desse milagre de Jesus, aquela gente dizia: 'Este é verdadeiramente o Profeta que há de vir ao mundo.' Jesus, percebendo que queriam arrebatá-Lo e fazê-Lo rei, sozinho tornou a Se retirar para o monte." Jo 6,14-15
    Mas, conforme as próprias Escrituras, Suas ovelhas não seriam apenas o povo de Israel. Essa, contudo, seria outra etapa do projeto da Salvação, a ser realizado por intermédio de Sua Igreja como Ele mesmo afirmou: "Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco. Também preciso conduzi-las, e ouvirão Minha voz, e haverá um só rebanho e um só Pastor." Jo 10,16
    Por isso, ao rezar ao Pai, Ele pediu não apenas pelos Apóstolos, mas por todos fiéis que através da pregação do Doze formariam a Igreja Una, que por essa coesão é prova de Seu Advento: "Não rogo somente por eles, mas por aqueles que por sua palavra também hão de crer em Mim. Para que todos sejam Um, assim como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti, para que eles também estejam em Nós, e o mundo creia que Tu Me enviaste." Jo 17,20-21
    E assim garantiu aos Apóstolos: "Se guardaram Minha Palavra, também hão de guardar a vossa." Jo 15,20
    Carta de São Paulo aos Efésios, enfim, com maestria interpreta os desígnios de Deus realizados através de Sua Paixão: arrebatar toda humanidade: "Ele quis, assim, a partir do judeu e do pagão, em Si criar um só novo homem, estabelecendo a Paz. Quis reconciliá-los com Deus, ambos em um só Corpo, por meio da Cruz." Ef 2,15a-16b
    Ora, foi exatamente a universalidade do Evangelho que Jesus prometeu ao referir-Se a Sua Crucificação, após o Domingo de Ramos: "E quando Eu for levantado da Terra, a Mim atrairei todos homens." Jo 12,32
    São Paulo detalha: "Lendo-me, podereis entender a compreensão que me foi concedida do Mistério de Cristo, que em outras gerações não foi manifestado aos homens da maneira como agora tem sido revelado pelo Espírito a Seus santos Apóstolos e profetas. A saber: que os gentios são co-herdeiros conosco que somos judeus, são membros do mesmo Corpo e participantes da promessa em Jesus Cristo pelo Evangelho. Eu tornei-me servo deste Evangelho em virtude da Graça que pela onipotente ação divina me foi dada. A mim, o mais insignificante dentre todos santos, coube-me a Graça de anunciar a inexplorável riqueza de Cristo entre os pagãos, e a todos manifestar o salvador desígnio de Deus, mistério oculto desde a eternidade em Deus, que tudo criou." Ef 3,4-9
    E com total convicção, em sua defesa após ser preso em Jerusalém, ele vai dizer ao rei Agripa: "Mas, assistido do socorro de Deus, permaneço vivo até o dia de hoje. Dou testemunho a pequenos e a grandes, nada dizendo senão o que os Profetas e Moisés disseram que havia de acontecer, a saber: que Cristo havia de padecer e seria o primeiro que, pela Ressurreição dos Mortos, havia de anunciar a Luz ao povo judeu e aos pagãos." At 26,22-23
    Por isso, a Carta de São Paulo aos Gálatas evocou as Escrituras: "Prevendo que Deus justificaria os povos pagãos pela fé, a Escritura anunciou esta Boa Nova a Abraão: 'Em ti todos povos serão abençoados (Gn 18,18).' Assim a bênção de Abraão se estende aos gentios, em Cristo Jesus, e pela fé recebemos o prometido Espírito." Gl 3,8.14
    Ele disse aos cristãos da cidade de Éfeso, que não haviam sido judeus, referindo-se a um período por Deus estabelecido para a Salvação: "N'Ele (Jesus), depois de terdes ouvido a Palavra da Verdade, o Evangelho de vossa Salvação no qual tendes crido, vós também fostes selados com o Espírito Santo que fora prometido, que é o penhor de nossa herança, enquanto esperamos a completa Redenção daqueles que Deus adquiriu para o louvor de Sua Glória." Ef 1,13-14
    E, da mesma forma, a Segunda Carta de São Paulo aos Tessalonicenses havia-lhes garantido, embora também não fossem judeus: "... porque desde o princípio Deus vos escolheu para vos dar a Salvação, pela santificação do Espírito e pela fé na Verdade. E pelo anúncio de nosso Evangelho chamou-vos para tomardes parte na Glória de Nosso Senhor Jesus Cristo." 2 Ts 2,13-14


"IDE POR TODO O MUNDO"

    Porque se Israel foi o povo escolhido para receber a Revelação, não saberia, como visto, receber o Messias. E pelas sérias responsabilidades que tinham, desfaz-se o argumento de que teriam sido apenas privilegiados pelas manifestações de Deus. Jesus mesmo vai dizer: "Porque a quem muito se deu, muito se exigirá. Quanto mais se confiar a alguém, mais dele há de se exigir." Lc 12,48b
    Por isso, em Sua última Páscoa, ao contemplar do Monte das Oliveiras a cidade Jerusalém, Ele chorou (cf, Lc 19,41) e lamentou sua insensibilidade, falando como Deus: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os Profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes Eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne seus pintinhos debaixo de suas asas, e tu não quiseste!" Mt 23,37
    As consequências, de fato, seriam trágicas. Ele previu: "Virão sobre ti dias em que teus inimigos te cercarão de trincheiras, te sitiarão e te apertarão de todos lados. Destruí-te-ão a ti e a teus filhos que estiverem dentro de ti, e em ti não deixarão pedra sobre pedra, porque não conheceste o tempo em que foste visitada.'" Lc 19,41-44
    O Amado Discípulo, logo no início de seu Evangelho, assim resumiu esse descompasso entre Jesus e Seu povo: "Veio para o que era Seu, mas os Seus não O receberam." Jo 1,11
    E quanto à primazia dos judeus como povo de Deus, Ele próprio deixou claro que, depois de São João Batista, passava a vigorar a Nova e Eterna Aliança. Ou seja, o Antigo Testamento deixava de ser a maior expressão da Revelação, que passou a ter em Sua manifestação o principal acontecimento: "A Lei e os Profetas duraram até João. Desde então é anunciado o Reino de Deus..." Lc 16,16a
    Mas isso não significa que Ele estivesse renegando o Antigo Testamento, pois afirmou: "Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim para os abolir, mas sim para os levar à perfeição." Mt 5,17
    Segundo São Paulo, Jesus mesmo era um estrito praticante da Lei: "Mas quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho, que nasceu de uma mulher e nasceu submetido a Lei, a fim de remir aqueles que estavam sob a Lei, para que recebêssemos Sua Adoção." Gl 4,4-5
    São Lucas até registrou Sua circuncisão: "Completados que foram os oito dias para o Menino ser circuncidado, foi-Lhe posto o Nome de Jesus, como Lhe tinha chamado o anjo antes de ser concebido no seio materno." Lc 2,21
    Pois Maria Santíssima e São José eram perfeitamente obedientes a Deus, também cumprindo todos ritos: "Concluídos os dias para a purificação deles segundo a Lei de Moisés, levaram-nO a Jerusalém para O apresentar ao Senhor, conforme está escrito na Lei do Senhor: 'Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor (Êx 13,2).' E tendo os pais apresentado o Menino Jesus, para cumprirem a respeito d'Ele os preceitos da Lei..." Lc 2,22-23.27b
    E assim, em perfeita obediência ao Antigo Testamento, Nosso Senhor viveu Sua vida pública nos sagrados lugares: "Jesus percorria todas cidades e aldeias. Ensinava nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo mal e toda enfermidade." Mt 9,34
    Incluindo as Páscoas: "Todos dias ensinava no Templo. Os príncipes dos sacerdotes, porém, os escribas e os chefes do povo procuravam tirar-Lhe a vida." Lc 19,47
    Ele mesmo vai declará-lo ao sumo sacerdote durante Seu 'julgamento', deixando claro a universalidade de Sua Doutrina: "Publicamente falei ao mundo. Ensinei na sinagoga e no Templo, onde se reúnem os judeus, e nada falei às ocultas." Jo 18,20b
    E reverenciava os sacerdotes e os rituais, como disse ao leproso que curou em Galileia, no Evangelho Segundo São Marcos, ainda no início de Sua Missão: "Mas vá apresentar-se ao sacerdote e ofereça por sua purificação o que Moisés prescreveu, para que lhes sirva de testemunho.” Mc 1,44b
    Como disse aos dez leprosos de um povoado de Samaria, antes de os curar: "Ide mostrar-vos ao sacerdote!" Lc 17,14
    De fato, Ele é a própria consumação do Judaísmo. Tanto que Moisés e Elias, o Legislador e o grande Profeta, suas mais importantes figuras, solenemente Lhe apareceram. E os mais íntimos Apóstolos, que, aliás, eram todos judeus, foram testemunhas oculares, logo depois que São Pedro O declarou como o Cristo de Deus: "Passados uns oitos dias, Consigo Jesus tomou Pedro, Tiago e João, e subiu ao monte para rezar. Enquanto orava, transformou-Se Seu rosto, e Suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que com Ele falavam dois personagens: eram Moisés e Elias, que apareceram envoltos em Glória, e falavam de Sua Morte, que havia de se cumprir em Jerusalém." Lc 9,28-31
    E Ele até declarou o anátema de algumas cidades à margem do Mar de Galileia, por conta do privilégio, ao qual não corresponderam, que tiveram: "Depois, Jesus começou a censurar as cidades, onde tinha feito grande número de Seus milagres, por se terem recusado a se arrepender: 'Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas ter-se-iam arrependido sob o cilício e a cinza. Por isso, digo-vos: no Dia do Juízo, haverá menor rigor para Tiro e para Sidônia que para vós! E tu, Cafarnaum, serás elevada até o Céu? Não! Serás atirada até o inferno! Porque se Sodoma tivesse visto os milagres que foram feitos dentro de teus muros, subsistiria até este dia. Por isso, digo-te: no Dia do Juízo, haverá menor rigor para Sodoma que para ti!'" Mt 11,20-24
    Tal sentença está em perfeita concordância com Sua profecia contra o povo de Israel, quando um centurião de Cafarnaum Lhe pediu apenas uma Palavra para curar seu servo: "Ouvindo isto, cheio de admiração, disse Jesus aos presentes: 'Na Verdade, digo-vos: não encontrei semelhante fé em ninguém de Israel. Por isso, Eu declaro-vos que multidões virão do oriente e do ocidente, e sentar-se-ão no Reino dos Céus com Abraão, Isaque e Jacó, enquanto os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes.'" Mt 8,11-12
    Está em concordância com a conclusão da parábola dos arrendatários assassinos, pela qual Se referia aos líderes religiosos: "Que fará, pois, o Senhor da Vinha? Virá e exterminará os vinhateiros, e dará a vinha a outro." Mc 12,9
    Com a conclusão da parábola do Grande Banquete: "Pois, digo-vos: nenhum daqueles homens, que foram convidados, provará Minha Ceia." Lc 14,24
    Com a conclusão da parábola do Matrimônio do Filho do Rei: "Disse, depois, a Seus servos: 'O festim está pronto, mas os convidados não foram dignos. Ide às encruzilhadas e convidai para as Bodas todos quantos achardes.' Espalharam-se eles pelos caminhos e reuniram todos quantos acharam, maus e bons, de modo que a sala do Banquete ficou repleta de convidados." Mt 22,8-10
    Ou ainda com a provocação que Ele fez aos fariseus, aludindo a Sua Ressurreição, na parábola de Lázaro e do Rico: "Abraão respondeu-lhe: 'Se não ouvirem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão convencer mesmo que alguém ressuscite dos mortos.'" Lc 16,31
    Enfim, com o veredicto que deu quando expulsou os vendilhões do Templo, que contavam com a complacência dos religiosos de Jerusalém: "E ensinava-lhes nestes termos: 'Porventura não está escrito: Minha Casa chamar-se-á Casa de Oração para todas nações (Is 56,7)? Mas vós dela fizestes um covil de ladrões (Jr 7,11).'" Mc 11,15b-17
    Ora, um Salmo já pedia a Nossa Senhora, reverenciando-a como Rainha, para esquecer seu povo, pois seus prediletos filhos, os Santos e Sacerdotes, reinariam sobre toda Terra: "Vosso trono, ó Deus, é eterno. De equidade é Vosso cetro real. ... posta-se a Vossa direita a Rainha, ornada de ouro de Ofir. Ouve, filha, vê e presta atenção: esquece teu povo e a casa de teu pai. De tua beleza encantar-Se-á o Rei. Ele é Teu Senhor, rende-Lhe homenagens. Tomarão teus filhos o lugar de teus pais, tu estabelecê-lo-ás príncipes sobre toda Terra. Celebrarei teu nome através das gerações. E os povos eternamente te louvarão." Sl 44,7.10b-12.17-18
    Isso semelhantemente foi previsto no Livro do Profeta Jeremias, quando Deus também avisou do desaparecimento da própria Arca da Aliança, prefigura de Maria Santíssima, a Verdadeira Arca da Aliança (cf. Ap 11,19): "Dá-vos-ei pastores segundo Meu coração, os quais vos apascentarão com inteligência e Sabedoria. Quando vos multiplicardes e vos tornardes numerosos na Terra, naqueles dias, Oráculo do Senhor, não mais se falará da Arca da Aliança do Senhor nem mais se pensará nela, perdendo-se a lembrança e a saudade. Nem a ela há de se referir." Jr 3,15-16
    E assim, após cumprida Sua Missão e a instantes de Sua Ascensão, Jesus manda Seus Apóstolos a todos povos, seguindo o divino procedimento de Se dar a conhecer pessoa a pessoa: "Ide por todo o mundo, e pregai o Evangelho a toda criatura." Mc 16,15
    Mas ao avisar da Vinda do Espírito Paráclito, mais uma vez Jesus pede aos Apóstolos que comecem pelo povo judeu, que estava em Jerusalém e Judeia, para só depois estender a missão aos demais povos, estabelecendo a Santa Igreja (cf. Ef 5,26) como Católica, ou seja, universal. Isso bem demonstra a fidelidade de Deus a Seu povo e a Sua Palavra, empenhada desde a primeira Aliança: "... mas descerá sobre vós o Espírito Santo e dá-vos-á força. E sereis Minhas testemunhas em Jerusalém, em toda Judeia e Samaria e até os confins do mundo." At 1,8
    Por outro lado, sabemos que àquele tempo se tinha uma distinta concepção de 'mundo'. São Paulo, por exemplo, faz menção à prioridade dos judeus, mas refere-se aos demais povos da Terra simplesmente como gregos. Aí fica claro, contudo, que a primazia dos judeus implica algumas consequências também quanto às divinas punições, o que só lhes aumenta a responsabilidade: "Tribulação e angústia sobrevirão a todo aquele que pratica o mal, primeiro ao judeu e depois ao grego. Mas glória, honra e Paz a todo o que faz o bem, primeiro ao judeu e depois ao grego." Rm 2,9-10
    E essa mesma responsabilidade agora é dirigida aos católicos, como a Primeira Carta de São Pedro aponta: "Porque vem o momento em que se começará o Julgamento pela Casa de Deus. Ora, se Ele começa por nós, qual será a sorte daqueles que são infiéis ao Evangelho de Deus?" 1 Pd 4,17
    Por isso, São Paulo falava em 'vasos de barro': "Se nosso Evangelho ainda estiver encoberto, está encoberto para aqueles que se perdem, para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a Luz do Evangelho, onde resplandece a Glória de Cristo, que é a imagem de Deus. Porém, temos este tesouro em vasos de barro, para que claramente transpareça que este extraordinário poder provém de Deus e não de nós." 2 Cor 4,3-4.7
    Por fim, sabemos que foi pela Palavra anunciada por nosso Primeiro Papa que o Espírito Santo quis derramar-Se sobre os não-judeus (cf. At 10,20), no 'Pentecoste dos Gentios', confirmando o conceito de 'Casa de Oração para todos povos' que agora se aplica à Igreja Católica Apostólica Romana: "Estando Pedro ainda a falar, o Espírito Santo desceu sobre todos que ouviam a Palavra. Os judeus, que tinham vindo com Pedro, profundamente se admiravam, vendo que o dom do Espírito Santo também era derramado sobre os pagãos..." At 10,44-45
    O Príncipe dos Apóstolos mesmo atestou, durante o Primeiro Concílio da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, dado em Jerusalém: "Ao fim de uma grande discussão, Pedro levantou-se e disse-lhes: 'Irmãos, vós sabeis que já há muito tempo Deus me escolheu dentre vós, para que de minha boca os pagãos ouvissem a Palavra do Evangelho e cressem. Ora, Deus, que conhece os corações, testemunhou a seu respeito, dando-lhes o Espírito Santo da mesma forma que a nós." At 15,7-8
    Aliás, igualmente havia sido por suas mãos, junto às de São João Apóstolo, que se deu o 'Pentecoste dos Samaritanos': "Os Apóstolos que se achavam em Jerusalém, tendo ouvido que Samaria recebera a Palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João. Estes, assim que chegaram, fizeram oração pelos novos fiéis, a fim de receberem o Espírito Santo, visto que ainda não havia descido sobre nenhum deles, mas somente tinham sido batizados em Nome do Senhor Jesus. Então os dois Apóstolos lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito Santo." At 8,14-17
    Tal qual os Doze Apóstolos, São Paulo também começou seu Ministério dirigindo-se ao judeus. No entanto, como vimos no acontecido em Roma, diante da resistência que lhe faziam, já nas primeiras comunidades de Europa ele irá voltar-se essencialmente aos não-judeus: "Quando Silas e Timóteo chegaram da Macedônia, Paulo inteiramente se dedicou à pregação da Palavra, dando aos judeus testemunho de que Jesus era o Messias. Mas como esses contradissessem e injuriassem-no, ele, sacudindo as vestes, disse-lhes: 'Vosso sangue caia sobre vossa cabeça! Tenho as mãos inocentes. Desde agora vou ao meio dos não-judeus.'" At 18,5-6
    Pois assim ele pregara em Atenas, no Areópago, convidando todos povos ao Sacramento da Confissão e a uma verdadeira conversão: "Deus, porém, não levando em conta os tempos da ignorância, agora convida a todos homens de todos lugares a se arrependerem." At 17,30
    Contudo, semelhantemente lhe foi revelado que os tempos dos não-judeus, ou seja, dos demais habitantes da Terra, para com a Igreja de Deus Vivo, também estão contados: "... esta cegueira de uma parte de Israel só durará até que haja entrado a totalidade dos não-judeus." Rm 11,25
    Essa, aliás, era um previsão do Livro do Profeta Joel: "Sabereis então que Eu sou o Senhor, Vosso Deus, que habita em Sião, Minha santa montanha. E Jerusalém será um lugar sagrado onde os estrangeiros não mais tornarão a passar." Jl 4,17
    Eis porque São Paulo advertia: "Declaro-o a vós, homens de pagã origem: como Apóstolo dos pagãos, eu procuro honrar meu Ministério com o intuito de, eventualmente, excitar à imitação os homens de minha raça e assim salvar alguns deles. Se alguns dos ramos foram cortados, e se tu, selvagem oliveira, foste enxertada em seu lugar e agora recebes seiva da raiz da oliveira, não te envaideças nem menosprezes os ramos. Pois, se te gloriares, sabe que não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz a ti. Não te ensoberbeças, antes teme. Se Deus não poupou os ramos naturais, bem poderá não poupar a ti." Rm 11,13-14.17-18.20a-21

    "Santificai e reuni Vosso povo!"

domingo, 2 de agosto de 2026

O Cordeiro de Deus


    São João Batista, que segundo o próprio Jesus encerrou os tempos da Lei e dos Profetas, ou seja, do Antigo Testamento (cf. Mt 11,13), foi quem O apresentou como o Cordeiro de Deus a seus seguidores, um dia depois de O batizar. É leitura do Evangelho Segundo São João: "No dia seguinte, João viu Jesus que vinha a ele e disse: 'Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.'" Jo 1,29
    E deu esse testemunho, revelando que falava com Deus: "É este de Quem eu disse: 'Depois de mim virá um Homem que me é superior, porque existe antes de mim. Eu não O conhecia, mas, se vim batizar em água, é para que Ele se torne conhecido em Israel.' João havia declarado: 'Vi o Espírito descer do Céu em forma de uma Pomba e repousar sobre Ele. Eu não O conhecia, mas Aquele que me mandou batizar em água, disse-me: Sobre Quem vires descer e repousar o Espírito, este é Quem batiza no Espírito Santo. Eu vi-O e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus.'" Jo 1,30-34
    Ele tornou a o dizer mais uma vez diante de dois de seus seguidores, Santo André e São João Evangelista, que se tornariam Apóstolos: "No dia seguinte,  estava João outra vez com dois de seus discípulos. E avistando Jesus que ia passando, disse: 'Eis o Cordeiro de Deus.' Os dois discípulos ouviram-no falar, e seguiram Jesus." Jo 1,35-36
    De fato, era precisamente essa a missão do Batista, como havia profetizado seu pai, o sacerdote São Zacarias, no dia de seu nascimento, anunciando o Sacramento da Confissão. O Evangelho Segundo São Lucas apontou: "E tu, menino, serás chamado Profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e Lhe prepararás o Caminho, para dar a conhecer a Seu povo a Salvação pelo perdão dos pecados." Lc 1,76-77
    Aliás, como o próprio São Gabriel Arcanjo havia informado, logo que apareceu a São Zacarias no Templo de Jerusalém: "Ele será para ti motivo de gozo e alegria, e muitos alegrar-se-ão com seu nascimento, porque será grande diante do Senhor e não beberá vinho nem cerveja, e desde o ventre de sua mãe será cheio do Espírito Santo. Ele converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, Seu Deus, e irá adiante de Deus com o Espírito e poder de Elias para reconduzir os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à Sabedoria dos justos, para preparar ao Senhor um povo bem disposto." Lc 1,14-17
    A simbologia do Cordeiro, como etapa da Revelação, faz parte do patrimônio judaico desde o Livro de Gênesis, quando Deus, falando por um anjo, poupou Abraão de sacrificar seu filho Isaque, apresentando-lhe um filhote de ovelha para ser oferecido em sacrifício: "O anjo do Senhor, porém, gritou-lhe do Céu: 'Abraão! Abraão!' 'Eis-me aqui!' 'Não estendas tua mão contra o menino, e não lhe faças nada. Agora Eu sei que temes a Deus, pois não Me recusaste teu próprio filho, teu único filho.' Abraão, levantando os olhos, viu atrás dele um cordeiro preso pelos chifres entre os espinhos, e tomando-o, ofereceu-o em holocausto em lugar de seu filho." Gn 22,11-13


    Contudo, Deus não poupou os primogênitos dos egípcios, quando por meio de pragas tentava convencer o Faraó a libertar Seu povo da escravidão em Egito. Nessa ocasião, o sangue de cordeiro serviu de sinal para proteger o povo de Israel, e marcou o início do sacrifício da páscoa, que seria eternizado pela Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. É do Livro de Êxodo: "Moisés convocou todos anciãos de Israel e disse-lhes: 'Ide e escolhei um cordeiro por família, e sacrificá-lo-ás para a páscoa. Depois disso, tomareis um feixe de hissopo, ensopá-lo-eis no sangue que estiver na bacia e com esse sangue aspergireis a verga e as duas ombreiras da porta. Nenhum de vós transporá o limiar de sua casa até a manhã. Quando o Senhor passar para ferir Egito, vendo o sangue sobre a verga e as duas ombreiras da porta, passará adiante e não permitirá ao Destruidor entrar em vossas casas para vos ferir. Observareis esse costume como uma perpétua instituição para vós e vossos filhos. Quando tiverdes penetrado na terra que o Senhor vos dará, como prometeu, observareis esse rito. E quando vossos filhos vos disserem: Que significa esse rito? respondereis: É o sacrifício da páscoa, em honra do Senhor que, ferindo os egípcios, passou por cima das casas dos israelitas em Egito e preservou nossas casas.'" Êx 12,21-27
    E embora fossem os tempos da passagem pelo deserto, que durou 40 anos (cf. Js 14,10), haveria um especial lugar para esse sacrifício, que além da celebração da páscoa servia para o perdão dos pecados no Antigo Testamento. Era uma sinalização para o futuro Templo de Jerusalém, como Deus mesmo determinou a Moisés no Livro de Levítico: "O sacerdote que fez a purificação, apresentará o homem que há de ser purificado junto a todas essas coisas ao Senhor, à entrada da Tenda de Reunião. Tomará, em seguida, um dos cordeiros e oferecê-lo-á em sacrifício de reparação com a medida de óleo, e agitá-los-á como oferta diante do Senhor. Degolará o cordeiro no lugar onde se imolam as vítimas pelo pecado e o holocausto, no santo lugar, porque a vítima do sacrifício de reparação, assim como a do sacrifício pelo pecado, pertencem ao sacerdote: esta é uma santíssima coisa." Lv 14,11-13
    Em tempos de forte conversão em Israel, como se lê no Primeiro Livro de Samuel, este grande Profeta realizou este sacrifício a pedido do povo para obter proteção do Senhor: "Samuel tomou um cordeiro de leite e ofereceu-o inteiro em holocausto ao Senhor. Depois clamou ao Senhor por Israel, e o Senhor ouviu-o. Enquanto Samuel oferecia o holocausto, os filisteus começaram o combate contra Israel. O Senhor, porém, trovejou com Sua fortíssima voz sobre os filisteus naquele momento, e eles dispersaram-se, sendo batidos pelos israelitas. Samuel tomou uma pedra e pô-la entre Masfa e Sen, dando-lhe o nome de Eben-Ezer, pois disse: 'Até aqui nos socorreu o Senhor.'" 1 Sm 7,9-10.12
    Com as reformas religiosas  promovidas pelo rei Josias, após Helcias ter reencontrado o Livro da Lei no Templo, os sacerdotes judeus retomaram essa função. O Segundo Livro de Crônicas traz: "Imolaram o cordeiro pascal. Com o sangue que receberam das mão dos levitas, os sacerdotes fizeram a aspersão, enquanto os levitas esfolavam as vítimas." 2 Crô 35,11
    Séculos depois, porém, no Livro do Profeta Oseias, que será mencionado por Jesus (cf. Mt 12,7), Deus começou a contestar os sacrifícios por se terem tornado um rito banalizado, sem a devida devoção, em meio à completa corrupção de Israel: "Que te farei, Efraim? Que te farei, Judá? Vosso amor é como a nuvem da manhã, como o orvalho que logo se dissipa. Por isso, Eu os castiguei pelos Profetas, matei-os pelas palavras de Minha boca, e Meu Juízo resplandece como o relâmpago, porque Eu quero o amor mais que os sacrifícios, e o conhecimento de Deus mais que os holocaustos. Mas eles vergonhosamente violaram a Aliança e traíram-Me. Galaad é uma cidade de malfeitores, cheia de traços de sangue. Os bandidos são sua força, uma quadrilha de sacerdotes. Assassinam no caminho de Siquém, porque seu proceder é criminoso. Vi horrores na Casa de Israel: ali cresce a prostituição de Efraim, ali se mancha Israel." Os 6,4-10
    Ele também procedeu assim no Livro do Profeta Isaías, reclamando uma verdadeira conversão espiritual: "'De que Me serve a multidão de vossas vítimas?', diz o Senhor. 'Já estou farto de holocaustos de cordeiros... Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem. Respeitai o direito, protegei o oprimido. Fazei Justiça ao órfão, defendei a viúva.'" Is 1,11.17
    Aliás, o próprio Samuel alegou perante o rei Saul, que foi deposto por Deus por O desobedecer: "Samuel replicou-lhe: 'Acaso o Senhor Se compraz tanto nos holocaustos e sacrifícios como na obediência a Sua voz? A obediência é melhor que o sacrifício. e a submissão vale mais que a gordura dos carneiros. A rebelião é tão culpável quanto a superstição, a desobediência é como o pecado de idolatria. Pois que rejeitaste a Palavra do Senhor, Ele também te rejeita e te despoja da realeza!" 1 Sm 15,22-23
    E o rei Davi vai cantar no Livro de Salmos: "Vós não quisestes sacrifício nem oferenda, mas abristes meus ouvidos. Não pedistes holocausto nem vítima de expiação." Sl 39,7
    Rito realmente em descrédito, o Livro do Profeta Amós apontou esta reação de Deus antes de falar através de Oseias: "Detesto vossas festas, elas desgostam-Me. Não sinto gosto algum em vossos cultos. Quando Me ofereceis holocaustos e ofertas, não encontro neles prazer algum, e não faço caso de vossos sacrifícios e animais cevados. Longe de Mim o ruído de vossos cânticos, não quero mais ouvir a música de vossas harpas, mas, antes, que jorre a equidade como uma fonte, e a Justiça como torrente que não seca. Porventura Me oferecestes sacrifícios e oblações no deserto, durante quarenta anos, ó Casa de Israel?" Am 5,21-25
    Ora, o amor a Deus e ao próximo (cf. Lv 19,18), desde que como Jesus nos amou (cf. Jo 15,12), é mais importante que rituais. O Evangelho Segundo São Marcos registrou esse diálogo de um religioso com Nosso Senhor, que concordou com a conclusão a que ele chegou: "Disse-Lhe o escriba: 'Perfeitamente, Mestre, disseste bem que Deus é Um só e que não há outro além d'Ele. E amá-Lo de todo teu coração, de toda tua alma, de todo teu entendimento e de toda tua força, e amar o próximo como a si mesmo, excede a todos holocaustos e sacrifícios.' Vendo Jesus que ele sabiamente falara, disse-lhe: 'Não estás longe do Reino de Deus.'" Mc 12,32-33-34a


JESUS, CORDEIRO IMOLADO

    E em suas profecias, Isaías terminou por ver o próprio Messias na figura do Cordeiro Imolado: "Foi maltratado e resignou-Se. Não abriu a boca, como um cordeiro que se conduz ao matadouro, e uma muda ovelha nas mãos do tosquiador. Ele não abriu a boca. Por um iníquo julgamento foi arrebatado. Quem pensou em defender Sua causa quando foi suprimido da terra dos vivos, morto pelo pecado de meu povo? Foi-Lhe dada Sepultura ao lado de facínoras, e ao morrer achava-se entre malfeitores, se bem que não haja cometido injustiça alguma, e em Sua boca nunca tenha havido mentira." Is 53,7-9
    Na Carta aos Hebreus, de fato, os seguidores da tradição de São Paulo vão dizer de Sua Paixão: "Uma vez que os filhos participam da mesma natureza, da mesma carne e do sangue, Ele também participou, a fim de destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o Demônio, e libertar aqueles que, pelo medo da morte, por toda vida estavam sujeitos a uma verdadeira escravidão. Veio em socorro, não dos anjos, e sim da raça de Abraão, e por isso convinha que em tudo Ele Se tornasse semelhante a Seus irmãos, para ser um compassivo e fiel Sumo Sacerdote no serviço de Deus, capaz de expiar os pecados do povo. De fato, por ter Ele mesmo suportado tribulações, está em condição de vir em auxílio daqueles que são atribulados." Hb 2,14-18
    Afirmativamente, se Deus poupou Isaque, o filho de Abraão, e tão somente o fato de Ele ter cogitado tal sacrifício nos parece um absurdo, não hesitou em sacrificar Seu próprio Filho. Jesus mesmo atestou: "Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo que lhe deu Seu Único Filho, para que todo aquele que n'Ele crer não pereça, mas tenha a Vida Eterna." Jo 3,16
    A Carta de São Paulo aos Romanos semelhantemente apresentou Seu Sacrifício como uma prova do amor de Deus, e assim como garantia de tudo que d'Ele receberemos: "Aliás, sabemos que todas coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo Seus desígnios. Aquele que não poupou Seu próprio Filho, mas que por todos nós O entregou, como também não nos dará com Ele todas coisas?" Rm 8,28.32
    Todavia, prevendo que Seus seguidores igualmente seriam hostilizados, e até de brutal modo martirizados, Jesus compara-os a cordeiros prontos para um holocausto: "Ide! Eis que Eu vos envio como cordeiros entre lobos." Lc 10,3
    Por isso, evocando o Profeta Oseias no Evangelho Segundo São Mateus, Ele, mais que rituais, vai pedir compaixão aos fariseus: "Ide e aprendei o que significam estas palavras: 'Eu quero a Misericórdia e não o sacrifício (Os 6,6).'" Mt 9,13
    Ora, Ele bem sabia o que a Santa Igreja Católica sofreria, como disse a Apóstolos, discípulos e seguidores noite em que ia ser entregue, após a Santa Ceia: "Expulsá-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que todo aquele que vos tirar a vida julgará prestar culto a Deus. Procederão deste modo porque não conheceram o Pai, nem a Mim." Jo 16,2-3
    E por duas vezes pediu a nosso Primeiro Papa que cuidasse dos mais frágeis em Seu rebanho, que são os fiéis, que não recebem o Sacramento da Ordenação: "Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: 'Simão, filho de João, amas-Me mais que a estes?' Respondeu ele: 'Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo.' Disse-lhe Jesus: 'Apascenta Meus cordeiros.' Perguntou-lhe outra vez: 'Simão, filho de João, tu Me amas?' Respondeu-Lhe: 'Sim, Senhor, Tu sabes tudo, sabes que Te amo.' Disse-lhe Jesus: 'Apascenta Meus cordeiros.'" Jo 21,15-16
    Pois ele tinha bem claro que o Cordeiro havia redimido nossos pecados diante de Deus. A Primeira Carta de São Pedro vai pregar: "Porque vós sabeis que não é por perecíveis bens, como a prata e o ouro, que tendes sido resgatados de vossa vã maneira de viver, recebida por tradição de vossos pais. Mas pelo precioso Sangue de Cristo, o Cordeiro Imaculado e sem defeito algum, Aquele que foi predestinado antes da criação do mundo e nos últimos tempos foi manifestado por amor a vós." 1 Pd 1,18-20
    Explicou: "Assim, pois, como Cristo padeceu na Carne, também vos armai deste mesmo pensamento: quem padeceu na carne rompeu com o pecado, a fim de que, no tempo que lhe resta para o corpo, já não viva segundo as humanas paixões, mas segundo a vontade de Deus." 1 Pd 4,1-2
    E a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, pelo mesmo motivo, pedia uma completa renovação em nossas vidas, tomando como exemplo de pureza os pães sem fermento: "Purificai-vos do velho fermento para que sejais nova massa! Porque sois pães ázimos, porquanto Cristo, Nossa Páscoa, foi imolado." 1 Cor 5,7
    Com razão, para estabelecer a Nova Aliança prometida desde os tempos de Jeremias, em Si mesmo Jesus realizou o Sacrifício Perfeito. É o que os discípulos de São Paulo argumentam, citando um Salmo de Davi, ao referirem-se aos sacrifícios que os judeus seguiam oferecendo: "Enquanto todo sacerdote diariamente se ocupa com seu ministério, e inúmeras vezes repete os mesmos sacrifícios que, todavia, não conseguem apagar os pecados, Cristo ofereceu pelos pecados um único sacrifício, e logo em seguida tomou lugar para sempre à direita de Deus, onde de ora em diante espera que Seus inimigos sejam postos como um banquinho para Seus pés (Sl 109,1)." Hb 10,11-13
    Sem dúvida, Deus prometeu, no Livro do Profeta Jeremias, a indizível Graça do perdão que temos no Sacrifício do Sangue do Cordeiro de Deus: "Dias hão de vir, Oráculo do Senhor, em que firmarei Nova Aliança com as Casas de Israel e de Judá. Será diferente da que concluí com seus pais, no dia em que pela mão os tomei para os tirar de Egito. Aliança que violaram, embora Eu fosse o Esposo deles. Eis, então, a Aliança que farei com a Casa de Israel, Oráculo do Senhor: 'Incuti-lhe-ei Minha Lei, gravá-la-ei em seu coração. Serei Seu Deus e Israel será Meu povo. Então ninguém terá encargo de instruir seu próximo ou irmão, dizendo: 'Aprende a conhecer o Senhor', porque todos Me conhecerão, grandes e pequenos, Oráculo do Senhor, pois a todos perdoarei as faltas, sem guardar nenhuma lembrança de seus pecados." Jr 31,31-34
    E assim, pelo Espírito de Deus que nos é concedido desde o Pentecostes, sabemos que Cristo aperfeiçoou a Antiga Aliança: "Por uma só oblação, Ele realizou a definitiva perfeição daqueles que recebem a santificação. É o que nos confirma o testemunho do Espírito Santo. Ora, onde houve plena remissão dos pecados não há porque por eles oferecer sacrifício. Por esse motivo, irmãos, temos ampla confiança de poder entrar no Eterno Santuário, em virtude do Sangue de Jesus, pelo novo e vivo Caminho que nos abriu através do véu, isto é, o Caminho de Seu próprio Corpo." Hb 10,14-15a.18-20
    Por isso, o Apóstolo dos Gentios fala do Batismo do Espírito Santo, profetizado por São João Batista, distinguindo o Novo e o Antigo Testamento: "A Lei do Espírito de Vida libertou-me, em Jesus Cristo, da Lei do pecado e da morte. O que era impossível à Lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus fez. Enviando, por causa do pecado, Seu próprio Filho numa Carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na Carne a fim de que a Justiça prescrita pela Lei fosse realizada em nós, que vivemos não segundo a carne, mas segundo o espírito." Rm 8,2-4


AS NÚPCIAS DO CORDEIRO

    Mas é tão somente no Céu, onde a Esposa, a Jerusalém Celestial, perpetuação da Igreja Católica Apostólica Romana, devidamente receberá Jesus, que Deus Pai quer oferecer-nos o Eterno Banquete. Foi o texto ditado para que se registrasse no Livro de Apocalipse de São João: "Felizes os convidados para a ceia das Núpcias do Cordeiro." Ap 19,9
    Assim foi sua visão: "Nisto, ouvi como que um imenso coro, sonoro como o ruído de grandes águas e como o ribombar de possantes trovões, que cantava: 'Aleluia! Eis que o Senhor reina, Nosso Deus, o Dominador! Alegremo-nos, exultemos e demos-Lhe Glória, porque se aproximam as Núpcias do Cordeiro. Sua Esposa está preparada. Foi-lhe dado revestir-se de puríssimo e resplandecente linho. Pois o linho são as boas obras dos Santos." Ap 19,6-8
    Porque Ele, o Cordeiro de Deus, é digno de toda Glória perante todos anjos de Deus: "Eu vi no meio do trono, dos quatro seres e dos anciãos (todos anjos!) um Cordeiro, de pé, como que imolado. Tinha Ele sete chifres e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus, enviados por toda Terra. Em minha visão também ouvi, ao redor do trono, dos seres e dos anciãos, a voz de muitos anjos, em número de miríades de miríades e de milhares de milhares, bradando em alta voz: 'Digno é o Cordeiro Imolado de receber o poder, a riqueza, a Sabedoria, a força, a Glória, a honra e o louvor.'" Ap 5,6.11-12
    Lá, Santos de todas nações já proclamam Seu Sacrifício como a obra da Salvação: "Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua. Conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de brancas vestes e palmas na mão, e bradavam em alta voz: 'A Salvação é obra de Nosso Deus, que está sentado no trono, e do Cordeiro.'" Ap 7,9-10
    De fato, Jesus purifica Seu povo por Seu Sangue através do Santíssimo Sacramento, exclusivamente celebrado na Santa Missa, e sobre ele derrama Seu Divino Espírito, fonte de Água Viva. Assim se chega à santificação, como um ancião disse ainda durante essas visões: "Esses são os sobreviventes da grande tribulação. Lavaram suas vestes e alvejaram-nas no Sangue do Cordeiro, por isso estão diante do trono de Deus e dia e noite servem-nO em Seu Templo. Aquele que está sentado no trono abrigá-los-á em Sua Tenda. Já não terão fome, nem sede, nem o sol ou calor algum os abrasará, porque o Cordeiro, que está no meio do trono, será Seu Pastor e levá-los-á às fontes das Águas Vivas. E Deus enxugará toda lágrima de seus olhos." Ap 7,14-16
    E como Se disse a Luz do mundo, como tal Jesus Se apresentará ainda mais explicitamente na Cidade, na Jerusalém Celestial: "A Cidade não necessita de sol nem de lua para a iluminar, porque a Glória de Deus a ilumina e Sua luz é o Cordeiro." Ap 21,23
    Por tantas razões, durante a Santa Missa se reza o Agnus Dei, antes de se receber a Santa Eucaristia:

    Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós!
    Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós!
    Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, dai-nos a Paz!