quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

São Silvestre


    São muitas as razões pelas quais a Igreja Católica Apostólica Romana celebra a santidade do Papa São Silvestre I desde o ano de 336, apenas um ano após sua morte. Era a esse cristão que Constantino I ouvia, e a ele devemos o fato de este imperador ter publicado no ano de 314, poucos dias antes de São Silvestre ser eleito papa, o Édito de Milão, concedendo ao Catolicismo liberdade de culto em terras do Império Romano.
    Não se pode esquecer, porém, que para esse feito também contribuíram a influência de Santa Helena, mãe do imperador e de família fortemente cristã, e o sonho que ele próprio teve, na noite anterior a uma decisiva batalha em 312, quando viu uma Cruz na qual estava escrito: "Sob este símbolo vencerás." De fato, na manhã seguinte ele mandou que pintassem a Santa Cruz nos escudos de seus soldados, e assim obteve uma grande vitória na Batalha de Ponte Milvio, uma das mais importantes sobre o Rio Tibre, localizada em Saxa Rubra, arredores de Roma.


    Filho de Rufino e Justa, nascido em Roma no ano de 280, Silvester foi ordenado bispo após a morte do Papa São Melquíades. É ele o paciente conversor de Constantino, de forte personalidade, que só em seus últimos dias pediu o Batismo, quando já estava com a sede do Império Romano em Bizâncio, que chamou de Constantinopla. Não obstante, levou tão correta vida aos olhos de Deus, graças aos frequentes conselhos de sua mãe e de nosso Santo Papa, que também chegou a ser tratado como Santo.
    Foi igualmente por velada sugestão de São Silvestre que Constantino I convocou o Primeiro Concílio de Niceia em 325, o primeiro ecumênico da História, onde foi debatida e afastada, entre outras, a heresia do arianismo, de sede em Alexandria, Egito, e depois expandida ao Oriente. É deste Concílio que temos o Símbolo, ou Credo Niceno-Constantinopolitano. Nosso Santo não pôde estar presente por condições da idade, mas tomou parte nas tratativas por meio de Legados Papais, os presbíteros Vito e Vicente, pessoalmente por ele instruídos.
    Sábio, nosso Santo tudo fazia com humilde discrição para não dar ocasião à discórdia. Soube ser o Papa dos primeiros anos da Igreja Católica livre, após, como romano, por algumas décadas ter sido testemunha ocular de brutais perseguições e martírios. Ora, o próprio Pilatos, por força da religião pagã que praticava, já usava de extrema violência para com os judeus. O Evangelho Segundo São Lucas registrou: "Neste mesmo tempo, contavam alguns o que tinha acontecido a certos galileus, cujo sangue Pilatos misturara a seus sacrifícios." Lc 13,1
    Com efeito, Silvester havia convocado o Primeiro Sínodo de Arles, em 314, no qual se examinou e foi banida a heresia criada por Donato, chamada donatismo, muito atuante no norte de África, que não admitia que a Santa Igreja perdoasse pecados cometidos após o Batismo no caso de adultos. Mas esse Sínodo terminou provocando uma das primeiras divisões da Igreja, levando São Silvestre a provocar Constantino para que convocasse o referido Concílio de Niceia, que seguiu debelando outras heresias.
    É de seu tempo, e com uma grande ajuda do imperador, a construção da primeira Basílica de São Pedro, no mesmo lugar da atual, sobre o monte Vaticano, onde o Príncipe dos Apóstolos foi crucificado e sepultado, pois era lugar de um antigo cemitério pagão. Nessa ocasião, nosso Santo Papa tratou de dar aos restos do Príncipe dos Apóstolos uma sarcófago de bronze.
    Ainda de seu tempo é a construção da Basílica de São João de Latrão, a Catedral do Papa, e a Basílica de São Paulo (Extra-Muros). que também contaram com prestimosos auxílios de Constantino I. E Santa Helena teve seu pleno apoio para construir em Roma a Basílica da Santa Cruz, como abrigo da terça parte das relíquias do Santo Madeiro encontradas em Jerusalém, a Basílica do Santo Sepulcro na Cidade Santa, bem como a Basílica dos Santos Apóstolos em Constantinopla. Enfim, várias igrejas sobre túmulos de mártires na Via Salária, próximas às Catacumbas de Santa Priscila, também são obras suas.


    Entre outras coisas de grande valor, como a estátua de Roma Eterna, o imperador ainda doou o Palácio Lateranense para servir de moradia ao clero. Com todos esses monumentos, os cristãos saíram de pequenas e escondidas 'capelas' espalhadas por toda Roma, assim como das catacumbas, para abertamente viver a em edificações dignas de louvor a Deus.
    Apesar de a mãe do imperador ser católica, era São Silvestre quem pregava e dava teológicos embasamentos que cada vez mais convenciam Constantino I da Verdade da manifestação de Cristo, através da inspiração e do poder de oratória que o Espírito Santo lhe concedia, além de seu testemunho de vida, de evidente e tocante simplicidade.


    Teve um longo papado, de 21 anos, entrando para a História da Igreja como um homem de profunda espiritualidade e hábil conciliador, apesar de todos heréticos movimentos que surgiram durante os anos em que esteve na Cátedra de São Pedro. Expressivamente contribuiu para o desenvolvimento da Liturgia, inclusive criando a escola romana de Canto Litúrgico, e é de seu papado o primeiro martirológio romano. Tão exemplarmente Santo, é o primeiro Papa venerado sem ter sofrido martírio. Foi o Padroeiro da Ordem de Cavalaria Milícia Dourada, criada por Constantino, até 1841, quando dela foi separada a Ordem do Papa São Silvestre. Também é venerado como Santo pelas igrejas 'ortodoxa', luterana e anglicana.
    Foi sepultado numa basílica que passou a levar seu nome, construção iniciada por ele mesmo a partir da casa de uma família cristã, cujos subterrâneos foram escavados para abrigar um oratório devotado aos primeiros mártires da Igreja e usado por muitos cristãos que, às escondidas, aí se encontravam para reviver e atualizar a Paixão de Cristo, celebrando o Santíssimo Sacramento no rito da Santa Missa. O primeiro altar dedicado a nosso Santo ainda pode ser visto.


    A atual construção é do Império Carolíngio, ou seja, do século IX, mas suas colunas são originais, do século V, quando foi concluída. Nela também foram depositados os restos mortais do venerado Papa São Martinho I, e no século XVI foi concluída pelo padre São Carlos, que ativamente trabalhou em suas feitorias, melhoramentos e adornos.


    São Silvestre, rogai por nós!

Santa Catarina Labouré


    Freira vicentina, foi agraciada com cinco aparições da Virgem Maria, que aconteceram entre julho e dezembro de 1830, ainda durante seu noviciado, sendo a mais importante a de 27 de novembro, quando ela se apresentou como Nossa Senhora das Graças e mandou cunhar a medalha milagrosa, pela qual tem derramado grandes bênçãos àqueles que se mostram fiéis usuários.
    Zoe Labouré, seu nome de Batismo, nasceu a 2 de maio de 1806 na comuna de Fain-lès-Moutiers, na região de Borgonha, centro-leste de França. Filha de Pierre Labouré e Madeleine Gontard, família de onze filhos, ainda criança se tornou órfã de mãe e, por inspiração do Espírito de Deus, adotou Nossa Senhora, que lhe foi de indizível valia. Aos 18 anos pediu ao pai para ser freira, mas ele não lhe permitiu, alegando que precisava de ajuda para criar seus irmãos. Viviam numa fazenda, e ela cuidava dos trabalhos domésticos, da cozinha e dos animais, ordenhando vacas e alimentando porcos e um grande viveiro de pombos.
    Aos 23 anos, após todos criados, ela voltou a insistir com o pai por sua vocação religiosa, e em 21 de abril de 1830, ao obter seu consentimento, entrou como postulante no internato de Châtillon-sur-Seine, comuna de Borgonha, para a Congregação Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, ordem fundada por este Santo.
    Ele relata que aos 18 anos teve um sonho com idoso Padre celebrando a Santa Missa, e que a chamou e disse: "Minha filha, é bom cuidar dos doentes. Tu estás fugindo de mim agora, mas um dia tu ficarás feliz em vir a mim. Deus tem planos para ti. Não te esqueças disso!" E quando foi levada ao internato de Châtillon-sur-Seine para estudar, porque até então não tinha tido nenhuma escolarização, viu uma pintura de São Vicente de Paulo e o reconheceu como o Padre com o qual sonhara.
    Foi enviada para o noviciado em Paris, e escolheu o nome de Catarina, em homenagem a Santa Catarina de Sena. Era exemplo de devoção e dedicação aos pacientes no hospital da congregação. As visões que tinha de São Vicente, porém, tornaram-se muito frequentes, e ela sentiu-se na obrigação de relatá-las ao confessor espiritual, que apenas lhe pedia que escrevesse todos detalhes. Então passou a ter visões de Jesus Eucarístico e, em seguida, de Cristo Rei, no início de junho do mesmo ano, o que deixou seu confessor em alerta.
    E na noite do dia 18 de julho de 1830, uma criança, certamente um anjo (seu Anjo da Guarda?), apareceu para a conduzir à Capela do Convento, onde Nossa Mãe Celestial por ela esperava para uma aparição de mais de duas horas. Santa Catarina, ajoelhando-se a seus pés e apoiando os braços a seu colo, buscou os afagos daquela que havia adotado como mãe e recebeu a Consolação pela qual todas almas anseiam. Mas também ouviu que Deus queria encarregar-lhe de uma difícil missão, e iria demandar toda sua , sem hesitação.
    

    Entretanto, de tão impressionada com aquela aparição, Santa Catarina resolveu nada dizer a pessoa alguma, nem mesmo a seu confessor. E comedidamente aguardou a indicação de sua missão, confiante nas palavras de Nossa Senhora que lhe havia garantido: "Terás a proteção de Deus e de São Vicente, e meus olhos sempre estarão sobre ti."
    Sua incumbência finalmente foi revelada quando a Mãe do Salvador lhe apareceu em 27 de novembro de 1830, tendo a Serpente esmagada sob seu pé (cf. Gn 3,15). Nossa Santa assim escreveu em diário:

    "A Santíssima Virgem apareceu ao lado do altar, de pé sobre um globo, com o semblante de uma Senhora de indizível beleza. De veste branca, manto azul, tinha as mãos elevadas até à cintura e sustentava um globo figurando o mundo, encimado por uma cruzinha. A Senhora era toda rodeada de tal esplendor que era impossível fitá-la. O radiante rosto de celestial claridade conservava os olhos elevados ao Céu, como para oferecer o globo a Deus. A Santíssima Virgem baixou para mim os olhos e disse-me no íntimo de meu coração:
    'Este globo que vês representa o mundo inteiro... e cada pessoa em particular... Eis o símbolo das Graças que derramo sobre as pessoas que pedem.'
    Desapareceu, então, o globo que tinha nas mãos e, como se estas já não pudessem com o peso das Graças, voltaram-se à Terra em amorosa atitude. Formou-se em volta da Santíssima Virgem uma figura oval, na qual em letras de ouro se liam estas palavras que por cima cercavam a Senhora: 'Ó MARIA CONCEBIDA SEM PECADO, ROGAI POR NÓS QUE RECORREMOS A VÓS.'
    Ouvi, então, uma voz que me dizia:
    'Faze cunhar uma medalha por este modelo. Todas pessoas que a trouxerem receberão grandes Graças, sobretudo se a trouxerem no pescoço. As Graças serão abundantes, especialmente para aqueles que a usarem com confiança.'
    Então se virou o quadro, e no verso apareceu a letra M, monograma de Maria, com uma Cruz em cima, tendo um Terço na base. Por baixo do M, os dois Corações, de Jesus e de Maria. O de Jesus, com uma coroa de espinhos e o de Maria atravessado por uma espada. Uma coroa de doze estrelas contornava o quadro."

    Não era fácil tarefa. Onde cunharia medalhas? Quem a ajudaria? Seu confessor creria nela? E de imediato perguntou a Imaculada Virgem como poderia realizar sua missão, e ela simplesmente indicou-lhe o Padre Jean-Marie Aladel, que pertencia à Congregação da Missão, também conhecida como os Padres e Irmãos Vicentinos ou mais popularmente como os Lazaristas.


    De fato, seu confessor ouviu-a com muita atenção, mas ainda passou dois anos observando seu comportamento para ter certeza de que se tratava de uma verdadeira aparição. Nesse período Santa Catarina manteve sua rotina, entregando-se com a costumeira dedicação às orações e ao trabalho, que, aliás, executou por 45 anos no mesmo hospital, desde que entrou no convento até o dia de sua morte em 1876, aos 70 anos.


    Uma vez cunhadas, através das medalhas realizavam-se muitíssimos milagres, que rapidamente as fizeram conhecidas e desejadas por toda população.
    Exceto ao confessor e a seu bispo, Santa Catarina não divulgava essas aparições. Elas fazem parte de uma importantíssima série que culminaria em Fátima, e inclui as Aparições de Quito, de Lourdes, de Salette e de Akita. De fato, a Santíssima Mãe avisou que se iniciavam "difíceis tempos para França e para o mundo", e nossa Santa publicou-as apenas pouco antes de morrer, e por expressa autorização da própria Senhora Imaculada.
    Trabalhava como a camponesa que era, rude na opinião de algumas irmãs, mas isso muito ajudou-lhe a manter-se em anonimato. Plenamente ciente de sua relação com Deus e Nossa Senhora, era da mais simples santidade. Guardou profundo silêncio. E em autêntica humildade declarou ao confessor, ao final de sua vida: "Eu era apenas um instrumento. Não foi para mim que a Virgem Santíssima apareceu. Se ela me escolheu, sem que eu nada soubesse, foi para que ninguém pudesse duvidar dela." E consolou suas irmãs pouco antes de morrer, com estas últimas palavras: "Por que temer ir ver Nosso Senhor, Sua Mãe e São Vicente?"
    Durante seu funeral, uma multidão ouviu falar que a freira da medalha milagrosa tinha falecido e aglomerou-se em volta do caixão. Uma pobre senhora trouxe seu filho deficiente num caixote de rodas, pedindo para aproximar-se do esquife. E logo que conseguiu, seu filho subitamente levantou-se. Foi o primeiro milagre que constou para a canonização de nossa Santa. 
    Nossa Senhora também lhe havia pedido que reunisse uma confraria de filhos de Maria, o que levou as Filhas da Caridade e a Congregação da Missão a fundarem a Associação dos Filhos e das Filhas de Maria Imaculada em 1837.
    Em 1947, Santa Catarina foi canonizada pelo Venerável Papa Pio XII, profícuo escritor e de heroicas virtudes. Como relíquias, pertences seus são venerados na Catedral de Notre-Dame de Paris.


    Ao ser beatificada em 1933, seu corpo foi exumado e encontrava-se absolutamente incorrupto, como ainda se vê em exposição na capela do convento, ao lado direito do Altar.


    Santa Catarina Labouré, rogai por nós!

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

As Bem-Aventuranças


    No Sermão da Montanha, ainda no início de Sua Missão, Jesus apresentou o Caminho a ser seguido por quem não se ilude com esse mundo. E tudo que Ele recomenda é verdadeira caridade pela Salvação das almas, que é a essência de Sua Doutrina. Está no Evangelho Segundo São Mateus, e no núcleo desse 'discurso da instauração do Reino de Deus', Ele fez a proclamação das bem-aventuranças: a síntese da felicidade maior.

    "Bem-aventurados aqueles que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!" Mt 5,3

    Seja em meio à pobreza ou à riqueza material (cf. Fl 4,12), quem tem um humilde coração já vivencia o Reino de Deus. Reconhece suas próprias limitações e sabe que os bens materiais não levam a paraíso algum. Não pensa em si mesmo, mas procura ajudar onde pode, como pode e a quem pode. Entrega-se nas mãos de Deus e confia em Sua Providência. Ao calar-se, é capaz de ouvir mais e melhor. Ao sentir o que os outros sentem, torna-se mais próximo de todos. Quem tem coração de pobre é simples, e, por ater-se à essência das coisas, mais profundamente conhece-as, desliga-se de ilusões, e assim reage com maior resignação diante de dificuldades, aflições e tribulações. Está bem perto de Deus.

    "Bem-aventurados aqueles que choram, porque serão consolados!" Mt 5,4

    Chorar diante de uma grande contrariedade não é fraqueza. É sincera demonstração de sentimentos, aversão aos desenganos, natural lamentação de infortúnios. Destes compadece-Se Deus. Quem pacientemente sofre injustiças, sem se permitir perturbar a paz alheia, comove o Sofredor Coração de Jesus. Deus é Consolador, dá forças para enfrentar os mais angustiantes momentos e recompensa com a maior e mais verdadeira felicidade que se pode experimentar. A ilusória e fútil alegria é a causa das maiores tristezas, pois não sacia a alma e só aumenta o vazio espiritual, não raro levando ao desespero.

    "Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a Terra!" Mt 5,5

    A mansidão permite mais claramente conhecer a Verdade, é reconfortante e perpetua a Paz de Cristo. A sua volta, o ambiente faz-se efetivamente presente, pois sem personalismos se tem melhor percepção da própria natureza e dos acontecimentos em curso. As obras de Deus só chegam plenamente aos sentidos através da porta da serenidade, e só por ela é possível a contemplação e a inspiração. A inquietude causa e aumenta as tensões. Jesus ofereceu Sua Paz (cf. Jo 14,27) para que nela vivamos. Com ela devemos tocar as pessoas por nossas palavras, nossos gestos, nosso trabalho. E nas situações em que afloram a aflição e a violência, é quando se faz perceber a verdadeira mansidão. Mas ela não se confunde com a covardia, porque também sabe perceber a hora de reagir diante do intolerável.

    "Bem-aventurados aqueles que têm fome e sede de Justiça, porque serão saciados!" Mt 5,6

    Trabalhar pelo bem do próximo, não se deixar levar por rancor ou pessimismo e purificar o próprio coração são provas de , esperança e amor (cf. 1 Cor 13,13). Sutilmente, Deus vai enchendo as mãos e o coração de quem pede Seus socorros contra injustiças. A silente aversão ao mundo é uma sóbria e resistente atitude, cardeal virtude da fortaleza. Quem compactua com a corrupção, ou dela foge buscando falsos prazeres, está colocando sua esperança noutra fonte que não é Deus. Nunca encontrará a Paz. Suportar humilhação, e a aparente vitória do mal (cf. 2 Ts 2,7), é sinal da presença do Espírito Santo e a certeza do futuro triunfo. Por sua própria fraqueza, enquanto reação humana, ou por força de Deus, o mal sempre se destina à ruína.

    "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão Misericórdia!" Mt 5,7

    Dados tão frequentes desacertos da natureza meramente carnal, por excelência a compaixão é a marca de Deus. Perceber e tratar a dor alheia com delicadeza e respeito, faz despertar o amor que se deve ao semelhante e a Deus (cf. Mc 12,29s). É impossível ser feliz virando o rosto àqueles que sofrem. O coração realmente misericordioso aflige-se até mesmo vendo a tristeza dos maus. A indiferença e o ódio, então, são perigosos venenos, podem matar; provocam o afastamento das pessoas e o vazio na alma, impossíveis de serem desfeitos sem o retorno à natural afeição, à solidariedade humana e ao bem querer. Quem não tem misericórdia, não encontra consolação, e sofre maiores dramas de consciência por só tardiamente vir a reconhecer o sofrimento dos outros.

    "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus!" Mt 5,8

    A pureza, a gratuidade e as boas intenções são as autênticas expressões de amor. Não há como amar competindo, negociando, buscando vantagens, vivendo de aparências e de valores materiais. Não há como perceber o amor de Deus quando se cultua fugazes prazeres, guardando supostos tesouros, agindo por escusos interesses, sustentando embustes, colecionando 'glórias' de injustiça e ilusão, usando e menosprezando o próximo. As mãos limpas de quem trabalha e oferece do que é seu, o coração sem malícia, o corpo depurado de vícios e compulsões são a verdadeira beleza da alma, e a Paz que se pode viver na Terra. Assim se pode ver Deus em Suas obras e na pessoa dos outros, e na Vida Eterna vê-Lo face-a-face.

    "Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus!" Mt 5,9

    Obter e trazer em si a Paz de Cristo pela vida a fora, é uma das maiores bençãos. Depois do amor, ela deve ser o maior objetivo do cristão, até mesmo uma obrigação, porque Ele no-la ofereceu. Aqueles ativisticamente combativos e rebeldes, na grande maioria das vezes, mais atrapalham que ajudam. Salvo raras exceções, pelo bem deve-se buscar as metas do bem. O mundo é carente de consolação e de reconciliação com Deus, e os pacificadores são Seus enviados para cumprir esse papel, para promover a fé, a esperança e o amor que levam ao Céu. Jesus deu-nos Sua Paz. Aqueles que a recebem, portanto, têm a Graça e o compromisso de partilhá-la. É através dessas pessoas que Deus quer fazer-Se conhecido.

    "Bem-aventurados aqueles que são perseguidos por causa da Justiça, porque deles é o Reino dos Céus!" Mt 5,10

    Enquanto se multiplicam as iniquidades, os justos nadam contra a corrente defendendo os mais sofridos e os mais pobres. Enquanto o mundo insiste em ostentar suas efêmeras e vãs conquistas, centenas de milhões de pessoas são massacradas pela pobreza, pela enfermidade, pela fome, pela guerra e pela morte. Uma pequena parte faz festas com as riquezas da injustiça, enquanto a maioria esmola a saciação das mais elementares necessidades. As causas das maiores tribulações são sempre as mesmas: a falta de partilha, a usurpação e, mil vezes pior, a diabólica manipulação de direitos de desinformados e indefesos, orquestrada pelo Comunismo e suas muitas e sutis variantes, como o Socialismo. Quem levanta a voz contra essa vil insensibilidade, portanto, estará incomodando, e certamente será chamado de radical, sofrerá ridicularização e ameaças até que se cale ou morra.

    "Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, perseguirem e falsamente disserem todo mal contra vós por causa de Mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande vossa recompensa nos Céus, pois assim perseguiram os Profetas que vieram antes de vós." Mt 5,11-12

    Hoje, em vários segmentos sociais, falar de fé, de religião ou mesmo de Deus tornou-se sinônimo de ridículo. Tem-se como dever, em nome de uma suposta boa convivência, escolher em que ambiente falar sobre o bem-estar da alma. O mundo dos instantâneos prazeres nada quer ouvir sobre o verdadeiro amor, o Cristo, a Santa Igreja, a adoração a Deus, a contemplação, a reflexão, o crescimento espiritual, a oração, a vigília, o jejum e outras penitências. Para muitos, os bens materiais são os mais claros sinais de felicidade. Humildade, resignação, tolerância, pacifismo, castidade, pregação de amor ao próximo, oferecer a vida para servir aos necessitados, enfim, parecem fraquezas, achaques emocionais, coisa de gente alienada ou que se 'acostumou com o sofrimento'. No máximo, alguns vão achar bonito 'tanta' dedicação, 'tanto' altruísmo, 'tanta' abnegação. Aqueles mais amadurecidos, porém, já sabem: as verdadeiras alegrias e vitórias experimentam-se nos afagos da presença de Deus.


    No Sermão da Planície, Nosso Senhor fez análoga pregação logo que desceu da montanha após escolher os Doze Apóstolos. Um numeroso grupo de discípulos e uma multidão vinda de Judeia, Jerusalém e do litoral das cidades de Tiro e Sidônia aguardavam-nO para O ouvir e serem curados de suas enfermidades (cf. Lc 6,17s). É leitura do Evangelho Segundo São Lucas

    "Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o Reino de Deus!" Lc 6,20b

    Voluntariamente, em Nome de Deus, viver a pobreza material, a evangélica pobreza, é uma grande virtude. É ter consciência do que verdadeiramente importa, que sem dúvida, como Jesus mandou, é buscar "o Reino de Deus e Sua Justiça (Mt 6,33)". Tudo mais é secundário, ou propriamente esterco nas palavras de São Paulo (cf. Fl 3,8). Viver só para Deus, como Maria Santíssima fez, construindo Seu Reino, é o único sentido da vida, é possuir os Céus 

    "Bem-aventurados vós que agora tendes fome, porque sereis saciados!" Lc 6,21a

    Enfrentar a maior das necessidades humanas sem se permitir roubar e sem se rebelar é prova de temperança, outra grande e cardeal virtude. Se viver a evangélica pobreza é sinal de amor a Deus, aceitar a fome que nessa condição se tenha que passar é ainda maior sinal. E por isso Ele não esquece a estes. Ao contrário, guarda-lhes grandes tesouros nos Céus, em tudo serão plenamente saciados. Pelo Pão da Vida Eterna, o Santíssimo Sacramento, jamais terão fome, jamais terão sede (cf. Jo 6,35).

    "Bem-aventurados vós que agora chorais, porque haveis de rir!" Lc 6,21b

    Dependendo das razões pelas quais que se chore, chorar não é necessariamente desventura. Jesus abertamente avisou que, para o cristão, esse mundo é de aflições (cf. Jo 16,33), perseguições e martírios (cf. Lc 21,16), e Ele mesmo chorou pela morte de São Lázaro (cf. Jo 11,35) e por Jerusalém (cf. Lc 19,41), que não Lhe deu ouvidos. Por isso, prometeu Sua própria alegria, a plena alegria (cf. Jo 15,11), justamente porque a verdadeira alegria não pode ser encontrada no mundo

    "Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos rejeitarem, vos insultarem e proscreverem vosso nome como infame por causa do Filho do Homem! Alegrai-vos naquele dia e exultai, porque grande será vossa recompensa no Céu. Pois do mesmo modo seus pais tratavam os Profetas." Lc 6,22-23

    Aqueles adotados como filhos de Deus (cf. Rm 8,15) não devem estranhar se forem odiados ou banidos. Essa é uma constante e grande verdade para quem realmente ama Jesus, assim como foi com os grandes Profetas de Israel. Todos eles, sem exceção. E essas macabras tradições do mundo vão aumentar cada vez mais, segundo Nosso Senhor mesmo (cf. Lc 18,8). Se o aborto hoje parece algo banal, Ele até avisou de filhos matando os próprios pais (cf. Mt 10,21)


JESUS É NOSSA BEM-AVENTURANÇA

    Em face da Vinda do Salvador, e de tantos e tão grandiosos milagres que fez, Ele deu-nos uma advertência quando foi interrogado pelos discípulos de São João Batista, conforme o Amado Médico: "E João chamou dois de seus discípulos e enviou-os a Jesus, perguntando: 'És Tu Aquele que há de vir ou devemos esperar por outro?' Ora, naquele momento Jesus havia curado muitas pessoas de doenças, enfermidades e de malignos espíritos, e dado a vista a muitos cegos. Respondeu-lhes Ele: 'Ide anunciar a João o que tendes visto e ouvido: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, aos pobres é anunciado o Evangelho. E bem-aventurado é aquele para quem Eu não for ocasião de queda!'" Lc 7,19.21-23
    Ora, quantas pessoas, ao tempo do Antigo Testamento, desejaram ver e ouvir o Messias em Sua Vinda? Presenciar Sua derrama de Graças? Nosso Senhor mesmo vai dizer a Apóstolos, discípulos e seguidores: "Mas, quanto a vós, bem-aventurados vossos olhos, porque veem! Ditosos vossos ouvidos, porque ouvem! Eu declaro-vos, em Verdade: muitos Profetas e justos desejaram ver o que vedes e não viram, ouvir o que ouvis e não ouviram." Mt 13,16-17
    De fato, no Evangelho Segundo São JoãoJesus foi bem explícito perante os líderes judeus de Jerusalém: "Ele disse-lhes: 'Vós sois cá de baixo, Eu sou lá de cima. Vós sois deste mundo, Eu não sou deste mundo. Por isso, disse-vos: morrereis em vosso pecado. Porque se não crerdes que EU SOU, morrereis em vosso pecado.'" Jo 8,23-24
    E como acabou mesmo sendo rejeitado pelos religiosos, explicou aos Apóstolos na noite em que ia ser entregue: "Se Eu não viesse e não lhes tivesse falado, não teriam pecado. Ms agora não há desculpa para seu pecado. Se Eu não tivesse feito entre eles obras, como nenhum outro fez, não teriam pecado. Mas agora as viram e odiaram a Mim e a Meu Pai." Jo 15,22.24
    Falava, portanto, de verdadeira e cristã perseverança na condução dos bens que Deus nos concede, pois sabia das contrariedades e, principalmente, das tentações que o cristão padece nesse mundo. Em específico, referiu-Se a São Pedro e a Sua Ressurreição: "Quem é, pois, o fiel e prudente servo que o Senhor constituiu sobre aqueles de Sua família, para no oportuno momento dar-lhes o alimento? Bem-aventurado aquele servo a quem Seu Senhor, em Sua volta, assim encontrar procedendo!" Mt 24,45-46
    Em outras palavras, numa parábola falou de vigilância, prometendo o Eterno Banquete: "Bem-aventurados os servos a quem o Senhor achar vigiando, quando vier! Em Verdade, digo-vos: cingir-Se-á, fá-los-á sentar à mesa e servi-los-á." Lc 12,37
    No mesmo sentido, a a Primeira Carta de São Pedro vai dizer: "Caríssimos, não vos perturbeis no fogo da provação, como se vos acontecesse algo extraordinário. Pelo contrário, alegrai-vos em ser participantes dos sofrimentos de Cristo, para que possais alegrar-vos e exultar no Dia em que for manifestada Sua Glória. Se fordes ultrajados pelo Nome de Cristo, bem-aventurados sois vós, porque o Espírito de Glória, o Espírito de Deus repousa sobre vós." 1 Pd 4,12-14
    Quanto a nossas próprias faltas, que nos afastam de Deus, a Carta de São Paulo aos Romanos faz lembrar a importância da Confissão, invocando palavras do rei Davi no Livro de Salmos: "Assim é que Davi proclama bem-aventurado o homem a quem Deus atribui Justiça, independentemente das obras: 'Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades foram perdoadas, e cujos pecados foram cobertos! Bem-aventurado o homem ao qual o Senhor não imputou seu pecado (Sl 31,1s).'" Rm 4,6-7
    Na missão que a Igreja Católica tem de pacificar o rebanho de Cristo, essa é a mais importante atribuição que Ele deu, e logo em Sua primeira aparição ao Colégio dos Apóstolos: "Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, sê-lhes-ão perdoados. Àqueles a quem os retiverdes, sê-lhes-ão retidos.'" Jo 20,22-23
    Aliás, ser corrigido por Deus não é nenhuma desgraça. Ao contrário, como lemos no Livro de Jó, um de seus amigos, Elifaz de Temã, diz: "Bem-aventurado o homem a quem Deus corrige! Não desprezes a lição do Todo-Poderoso, pois Ele fere e cuida. Se golpeia, Sua mão cura." Jó 5,17-18
    No lado oposto, o Livro de Eclesiástico diz daqueles que não se deixam enredar pela riqueza: "Bem-aventurado o rico que foi achado sem mácula, que não correu atrás do ouro, que não colocou sua esperança no dinheiro e nos tesouros!" Eclo 31,8
    Ora, se conhecer Elias era considerado uma bem-aventurança, que grande dádiva foi conhecer Jesus? Este sagrado autor dirige-se ao insigne Profeta: "Bem-aventurados aqueles que te conheceram, e foram honrados com tua amizade!" Eclo 48,11
    E na certeza de que no ventre trazia o Redentor, Nossa Senhora bem sabia a indizível Graça que lhe foi concedida. Em visita a Santa Isabel, ela cantou o Magnificat, e a Igreja Católica Apostólica Romana tratou de guardar a memória desse feito: "E Maria disse: 'Minha alma engrandece o Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, Meu Salvador, porque olhou para Sua pobre serva. Por isto, desde agora, todas gerações proclamá-me-ão bem-aventurada, porque em mim realizou maravilhas Aquele que é poderoso, e Cujo Nome é Santo.'" Lc 1,46-49
    Com efeito, assim era uma profecia do Livro de Cântico dos Cânticos, quando o Amado, representando Deus, diz da Amada, que viria a ser a Santíssima Virgem, a Rainha entre as rainhas: "Há sessenta rainhas, oitenta concubinas e inumeráveis jovens mulheres. Uma, porém, é Minha pomba, uma só Minha perfeita. Ela é a única de sua mãe, a predileta daquela que a deu à luz. Ao vê-la, as donzelas proclamam-na bem-aventurada, rainhas e concubinas a louvam." Ct 6,8-9
    Santa Isabel, ademais, já a havia proclamado logo que recebeu sua saudação, pois só de ouvi-la ficou cheia do Espírito Santo. Ela e seu filho São João Batista, em seu ventre (cf. Lc 1,44): "Bem-aventurada és tu que creste, pois da parte do Senhor hão de cumprir-se as coisas que te foram ditas!" Lc 1,45
    Ora, o próprio Cristo, após a multiplicação dos pães e dos peixes, iria dizer à multidão às margens do Mar de Galileia: "A obra de Deus é esta: que creiais n'Aquele que Ele enviou." Jo 6,29
    E vai dizer especificamente de sua bem-aventurança, quando uma mulher assim a via tão somente por gerá-Lo e amamentá-Lo, o que não seria pouco, mas Ele vai corrigi-la, declarando que ela já o era por ouvir e praticar a Palavra de Deus (cf. Lc 2,19.51): "Enquanto Ele assim falava, uma mulher levantou a voz do meio do povo e disse-Lhe: 'Bem-aventurado o ventre que Te trouxe, e os seios que Te amamentaram!' Mas Jesus replicou: 'Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a observam!'" Lc 11,27-28

    "Caminhamos na estrada de Jesus!"

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

São Tomás Becket


    Foi amigo de adolescência e juventude de Henrique II, rei de Inglaterra no século XII, mas não pensou duas vezes antes de oferecer-lhe declarada resistência quando ele quis usurpar direitos da Igreja Católica Apostólica Romana, através das leis chamadas 'Constituições de Clarendon'. Era, na ocasião, o Arcebispo de Canterbury, principal diocese britânica, atual sede da igreja anglicana, mas de início teve que fugir para França porque sua vida realmente estava em risco.
    Thomas Becket nasceu na rua Cheapside em Londres, a 21 de dezembro de 1128, filho de Gilbert de Thierville e Matilde de Caen, ambos de Normandia, hoje região no noroeste de França. De algum status, ele foi xerife da cidade, foram enterrados na antiga Catedral de São Paulo, em Londres, que sofreu devastador incêndio em 1666.
    Durante a mocidade, nosso Santo viveu como nobre e era amante da mundana vida, desfrutando de todas regalias de um cortesão em palácios, festas, cavalgadas, falcoaria e caçadas. Foi educado nas melhores escolas, concluindo os tradicionais trivium e quadrivium, e estudou em Paris, na comuna de Auxerre, no sudeste de França, e Bolonha, Itália, a primeira universidade do mundo ocidental. Ao retornar a Londres, por sua inteligência e sensibilidade foi convidado por Teobaldo, Arcebispo da Cantuária, para o representar em importantes missões em Roma. Demonstrou, nesses tempos, um profundo apreço pela Santa Igreja Católica, e tornou-se arcediácono dessa diocese, além de reitor da renomada Escola de Beverly.
    Destacou-se de tal modo por seu brilhantismo nessas funções que foi nomeado por seu amigo, e então rei, Henrique II, para o cargo de Chanceler de Inglaterra. Carisma de muitos papas, seus dons de conciliador fizeram-lhe um excelente diplomata, cargo que exerceu por sete anos. As pretensões de poder do rei, entretanto, afastaram São Tomás da Igreja, levando-o a participar de cobranças de antigos impostos que visavam retirar a autonomia e direitos dos bispos. Evidentemente, o clero ressentiu-se da nova postura assumida por São Tomás, que também havia retornado ao convívio dos nobres e do rei em suas festas, assim como ao mundano comportamento.
    Tão íntimo estava da família real que o próprio rei lhe confiou a educação de seu filho. Mais tarde, ele iria dizer que havia recebido mais amor de São Tomás Becket que do próprio pai.
    Morto Teobaldo, o rei obteve do Papa Alexandre III a concessão para indicar o novo arcebispo, pois Roma tentava melhorar as relações com a corte inglesa. O Papa, porém, bem sabia que seu indicado seria São Tomás, e acreditava, como suscitou João de Salisbury, Bispo de Chartres, França, em sua definitiva conversão quando assumisse as funções do arcebispado, mesmo sob fortes protestos que viriam do clero de Inglaterra.


    O Bispo de Chartres estava certo: os desígnios de Deus cumpriram-se exatamente como o Espírito Santo havia inspirado a Igreja Católica. E frustraram as ambições do rei, que não esperava tamanha transformação como a que se deu em São Tomás. Ele fielmente abraçou a vida de virtudes, praticando a evangélica pobreza e, para se penitenciar, passou a usar grosseiras e desconfortáveis roupas por baixo dos paramentos. Sua ordenação para o sacerdócio e, no dia seguinte, para o arcebispado, no ano de 1162, alguns meses após a morte de Teobaldo, foram as centelhas que fizeram seu coração verdadeiramente arder de amor ao Evangelho.


    Não demorou para que ele pedisse afastamento do cargo de chanceler, e começasse a sonegar os impostos que ele mesmo vinha ajudando a arrecadar em nome do rei. Mas, em outubro de 1163, Henrique II tentou isolar São Tomás, colocando outros bispos ingleses contra ele numa reunião em Westminster, porém sem sucesso, pois ele resistiu com serenidade. Em janeiro de 1164, bastante irritado e sentindo-se traído, o rei convocou uma assembleia no Palácio de Clarendon e apresentou 16 'constituições', que retiravam a independência do clero em Inglaterra e reduzia a autoridade de Roma. Todos bispos, que já vinham sendo pressionados, concordaram e assinaram, exceto São Tomás Becket.
    Sob intensa perseguição por éditos que alcançavam também seus aliados, e até por caluniosos processos a respeito de seus anos como chanceler, São Tomás fugiu para França, onde por seis anos esteve sob a proteção do rei Luís VII, quase dois anos na abadia beneditina cisterciense de Pontigny, comuna no sudeste de Paris. De lá, ele pediu ao Papa a excomunhão de Henrique II e o Interdicto de Inglaterra, ou seja, a excomunhão de todo país por causa do apoio que os bispos lhe davam. Em 1167, por fim, o Papa enviou representantes para resolver o conflito, mas São Tomás recusou-os sob argumento que eles lhe tiravam a autoridade, e que negociar com o rei, sob as condições que ele impunha, ofendia os princípios da Igreja.
    Em 1170, quando o Papa estava prestes a adotar o Intedicto, Henrique II nomeou seu filho como rei de Inglaterra e proclamou-se imperador. São Tomás condenou seu antigo amigo pela dissimulação e contestou a coroação realizada pelo Bispo de York, que só ele, Arcebispo da Cantuária, poderia ter realizado. Acuado, Henrique II propôs-lhe a paz, convidando-o a coroar o príncipe. O Papa Alexandre III instou que São Tomás retornasse e reabrisse as tratativas de paz a partir do território inglês.
    Obediente, ele voltou aclamado pelos fiéis, mas, conhecendo a índole do ex-amigo, bem sabia o que lhe esperava. Dizia a todos: "Voltei para morrer em meio a vós!"


    Contudo, usando de firmeza e em respeito às leis da Igreja, logo ao desembarcar em Kent excomungou todos bispos que haviam pactuado com as 'constituições' do rei, bem como os que haviam tomado parte na coroação do príncipe. Essa atitude foi usada com a gota d'água por Henrique II, que, como já havia planejado, lhe ordenou a morte. No entanto, mesmo sabendo que seria assassinado, São Tomás Becket não quis fugir. Disse: "O medo da morte não deve fazer-nos perder de vista a Justiça."
    Monges da Catedral de Canterbury chegaram a fechar as portas, mas ele mandou que as abrissem: "Não é certo fazer da casa de oração uma fortaleza!"


    Vestiu sua casula e foi para os degraus do altar, cantar as vésperas do Ofício das Horas, quando recebeu quatro violentos golpes de espada de quatro cavaleiros do rei, sem opor resistência. Ao vê-los invadindo, havia-lhes dito: "Pelo Nome de Jesus e pela proteção da Igreja, estou pronto para abraçar a morte." Monges e um visitante, que testemunharam o ataque, também foram feridos.


    Foi nesta ocasião que se descobriu que ele usava um cilício, camisa de rude e incômodo tecido, como um modo de penitência. Tinha 52 anos.
    Em 1173, pouco mais de dois anos depois, portanto em rápida canonização, foi declarado Santo e Mártir pelo Papa Alexandre III. É o Padroeiro do clero secular e da Universidade de Oxford.
    Em 1174, após a rebelião de seus três filhos, inclusive Ricardo, que se tornaria o cruzado cognominado Coração de Leão, Henrique II, tomado de arrependimento, foi a seu túmulo para se penitenciar, porque já se havia tornado lugar de intensa peregrinação por tantíssimas Graças alcançadas. Então levou suas relíquias para a cripta da Catedral da Cantuária, e em 1220 elas foram expostas para veneração na Capela da Trindade, proeminente parte da Catedral, por trás do principal altar.
    Inspirada em sua história, em 1191 foi fundada os Hospitalários de São Tomás de Cantuária em Acre, portuária cidade de Israel, mais conhecidos como Cavaleiros de São Tomás, uma Ordem militar da Igreja Católica, restrita a ingleses, para cuidar de doentes e feridos e sepultar cavaleiros cristãos caídos em batalha na Terra Santa, durante as Cruzadas. Este ativa até 1538, quando foi dissolvida por Henrique VIII, que fundou a igreja anglicana.
    Além de preservar o lugar de seu martírio, há na Catedral da Cantuária uma capela dedicada a sua homenagem, onde a parte de cima de seu crânio, brutalmente decepada durante o assassinato, com muito carinho foi venerada até a 'Reforma' Protestante, quando seu túmulo foi destruído e removido por vândalos.


    A urna que guardou suas relíquias na Capela da Trindade, encontra-se no Museu Victoria e Albert, em Londres.


    Uma relíquia, fragmento de osso seu que estava em Hungria, recentemente foi devolvido a Inglaterra.


    Mas a maior parte delas, corajosamente defendidas por fiéis católicos, seguem sendo veneradas e levadas em procissão durante seu dia pela famosa ponte de Londres e ruas da área.


    São Tomás Becket, rogai por nós!