quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Textos para Celular

 
Anuário de Leituras Bíblicas

Acesso: dizemasescrituras.blogspot.com

São Severino


    Nasceu em Roma, no ano de 410 da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, de família de nobres, talvez senatorial, mas, inspirado pelas vidas de São Paulo Eremita e Santo Antão, distribuiu seus bens entre os pobres (cf. Lc 14,33) e foi viver a plena Comunhão com Deus nos desertos de Egito.
    Após anos de penitências e meditações, Severinus foi conduzido por Deus para, mudando de região e dedicando sua vida também à catequização, trabalhar pela Salvação das almas dos bravios povos que viviam ao norte do Império Romano. Por lá, a maioria sequer tinha ouvido falar do Evangelho, e tudo que conheciam dos romanos era a força armada de suas legiões, em invasões, dominações e sangrentos combates.
    Tal missão também ajudaria a defender Igreja Católica Apostólica Romana, e assim toda cristandade, pois à época esses povos representavam uma grande ameaça ao Império Romano do Ocidente, como definitivamente vieram a derrubá-lo em 476. A sede do Bispo de Roma, pois, estava em perigo, e com ela alguns séculos de importantíssima História e estruturação eclesial do Catolicismo.
    Com a morte de Átila, o rei dos hunos, dada em 453, no ano seguinte, vindo de Panônia, província do Império Romano em terras de atual Hungria, São Severino chega a Ufernoricum (Ovilava), capital de Nórica, província romana hoje correspondente a uma região entre Áustria, onde ficava a maior parte, e Alemanha.
    Morando em pequenas e frágeis cabanas que construía às margens do rio Danúbio, entre as cidades de Carnuntun e Passau, respectivamente em atuais Áustria e Alemanha, dia após dia foi ao encontro do povo para cuidar de enfermos e desvalidos, e anunciar com peculiar humildade o Mistério de Cristo. Converteu muitos pagãos e, por causa da insistência, teve que se esforçar para recusar as comodidades que eles agradecidamente lhe ofereciam, sempre retornando a seus modestíssimos barracos, pois não abdicava de suas horas de penitência, recolhimento e oração.

 
    Além de inúmeras vilas, esteve nas povoações que viriam a ser as cidades de Klosterneuburg (Astúrias), Tulln (Comagena), Kuchl, (Cucullis), Salzburg (Luvavum), Mautern (Favianis) e Melk, hoje todas em terras austríacas. Nas proximidades de Passau, esteve no assentamento de Künzing (de Quintanis), Batavis, Boiotro e Joviaco. Resistiu com a população contra os ataques germânicos vindo do norte, como vândalos, ostrogodos e visigodos, mas acabou organizando um recuo para Lorch (Lauricum), base legionária romana, em seguida, por mais segurança, a Favianis, ambas hoje cidades em Áustria. Ergueu uma ermida perto de Vindobona, atual Viena, capital deste país, e, mesmo sendo um itinerante pregador da Palavra, atraiu muitas vocações para a vida de recolhimento.
    Assim fundou alguns mosteiros, preparando várias gerações para a vida religiosa, embora tenha continuado em vida de eremitério. Além de amplamente tratado como abade, por sua disciplina, era requisitado para questões de ordem pública, pelas quais muito zelava, e grande conselheiro espiritual. Entre o povo mais pobre, com frequência organizava distribuição de comida e roupas. De notória autoridade espiritual, era muito respeitado pelos líderes guerreiros dessas regiões, como o rei dos rúgios, Flaciteu, e o rei dos hérulos, Odoacro, que o procuravam para se aconselharem sobre os assuntos de seus povos. Por sua tocante misericórdia, nosso Santo conseguiu a libertação de vários soldados romanos presos por eles.


    Não se tem registros se foi ordenado Sacerdote, mas, levado por sua vida autenticamente eremítica, é sabido que tenha recusado ordenação de Bispo.
    Seus únicos pertences eram uma túnica, um cajado e as Sagradas Escrituras, que invariavelmente usava em suas reflexões e pregações. Em total negação de si mesmo, nada falava de seu passado ou de sua família, relegando sua pregressa vida ao total esquecimento, por isso tão pouco se sabe. Baseando-se em fatos que de 'bruto e não artístico' modo coletou, Santo Eugípio, seu mais próximo discípulo, escreveu sua vida e sua regra monástica. Este escritor eclesiástico, e um dos primeiros hagiógrafos cristãos, que era africano e veio a ser abade, também foi responsável pela primeira antologia de Santo Agostinho, de mais de mil páginas. Ele testemunhou que São Severino tinha poderes de cura e de profecia.


    Morreu a 8 de janeiro de 482 em Favianis, onde havia uma fortificação do Limes Noricus romano, atualmente a cidade de Mautern an der Donau, em terras de Áustria. Teria 72 anos, como Santo Eugípio deduziu. Ainda segundo ele, nosso Santo havia previsto seu próprio falecimento e o abandono de Ufernoricum, hoje cidade de Wels, em Áustria, por força de violentos ataques bárbaros. E seis anos depois seu corpo continuava incorrupto, exalando um leve e agradável perfume. Foi adotado como o Padroeiro de Áustria, Viena e Baviera, região no sudeste de Alemanha. É o Santo que ajuda os pobres e liberta os presos.


    Em 488, instado por Santo Eugípio, Onoulf, irmão de Odoacro, levou seus restos mortais à comuna de Nápoles, em Itália, onde, com a permissão do Papa São Gelásio I, lhes ergueram um mosteiro em Castellum Lucullanum. Os monges que haviam abandonado o mosteiro de Ufernoricum também se instalaram aí. Ele foi ampliado e finalizado no século X, passando à Ordem de São Bento, com uma igreja anexa, que leva o nome São Severino e São Sossio, martirizado junto a São Januário, e foi reformada em 1490. Poucas décadas mais tarde, nela edificou-se uma capela para a devoção a suas relíquias de nosso Santo.


    Em 1807, os beneditinos foram expulsos de Nápoles e o mosteiro tornou-se um arquivo público.


    Suas relíquias foram levadas à comuna vizinha de Frattamaggiore, hoje guardadas numa urna na Basílica de São Sossio.


    São Severino, rogai por nós!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Os Anjos de Jesus


    Desde os primeiros anúncios da Vinda de Jesus, Deus já indicava a presença de Seus anjos para O amparar durante Sua passagem entre nós. É o que o Evangelho Segundo São Marcos narra, citando o Livro do Profeta Malaquias e o Livro do Profeta Isaías, ainda que não se referindo propriamente a um anjo, mas a São João Batista: "Princípio da Boa Nova de Jesus Cristo, Filho de Deus. Conforme está escrito no Profeta Isaías: 'Eis que envio Meu anjo diante de Ti: ele preparará Teu caminho (cf. Ml 3,1). Voz que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor... (cf. Is 40,3)'" Mc 1,1-2
    Aliás, como perfeitos executores dos divinos projetos, a manifestação do Salvador contava com a especial participação dessas criaturas espirituais desde a miraculosa concepção do próprio São João Batista, quando seu pai, que era sacerdote, teve uma visão, anotada no Evangelho Segundo São Lucas: "Apareceu-lhe, então, um anjo do Senhor, em pé à direita do altar do incenso. Vendo-o, Zacarias ficou perturbado, e o temor assaltou-o. Mas o anjo disse-lhe: 'Não temas, Zacarias, porque tua oração foi ouvida: Isabel, tua mulher, dá-te-á um filho, e chamá-lo-ás João. Para ti, ele será motivo de júbilo e felicidade, e muitos alegrar-se-ão com seu nascimento porque será grande diante do Senhor. Não beberá vinho nem cerveja, e desde o ventre de sua mãe será cheio do Espírito Santo. Ele converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, Seu Deus, e irá adiante de Deus com o Espírito e o poder de Elias para reconduzir os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à Sabedoria dos justos, para preparar ao Senhor um povo bem disposto." Lc 1,11-17
    A criatura que apareceu a São Zacarias era um arcanjo já bem conhecido desde os tempos do Livro do Profeta Daniel, quando lhe explicava as celestiais visões: "Eu ainda falava, pedindo, confessando meu pecado e o de meu povo de Israel, depositando aos pés do Senhor, Meu Deus, minha súplica pelo Seu Monte Santo. Não havia terminado essa prece quando se aproximou de mim, num relance, à hora da oblação da noite, Gabriel, o ser que eu havia visto antes, numa aparição. Deu-me, para meu conhecimento, as seguintes explicações: 'Daniel, agora vim aqui para te informar. Apenas havias iniciado tua oração e uma palavra foi pronunciada. Eu venho desvendá-la a ti, porque és um homem de predileção.'" Dn 9,20-23a
    A São Zacarias, sempre com essa missão de esclarecer os planos de Deus, ele assim vai identificar-se: "O anjo respondeu-lhe: 'Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado para te falar e te trazer esta boa nova.'" Lc 1,19
    E sua maior obra, sem dúvida, foi a Anunciação do Senhor, que o Amado Médico datou em relação ao anúncio a São Zacarias: "No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade de Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi, e o nome da virgem era Maria." Lc 1,26-27
    Sua saudação à Santíssima Virgem tornou-se a primeira parte da Ave Maria, a mais importante oração da Santa Igreja Católica, depois do Pai Nosso, claro: "Entrando, o anjo disse-lhe: 'Ave, cheia de Graça, o Senhor é convosco.'" Lc 1,28
    Ele citou-a pelo nome, como o Pai sempre faz, e usou de uma expressão padrão das Escrituras para designar as grandes dádivas de Deus: 'encontrar Graça diante d'Ele'. Ora, Nossa Senhora estava sendo avisada que havia sido escolhida para ser a Mãe de Nosso Salvador: "O anjo disse-lhe: 'Não temas, Maria, pois encontraste Graça diante de Deus.'" Lc 1,30
    Mas essa jovem Senhora não tinha como explicar tamanha Graça a seu futuro esposo, por isso aguardou a ação da Divina Providência. E tal atitude de provocou a ação do Anjo da Guarda de São José, que não querendo cometer adultério nem cogitando denunciá-la, o que resultaria em apedrejamento (cf. Dt 22,23-24), fez planos para se ir dali. Está no Evangelho Segundo São Mateus: "Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: 'José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois Aquele que nela foi concebido vem do Espírito Santo.'" Mt 1,20
    E as primeiras testemunhas do Nascimento do Salvador foram pastores de Belém, mas levados ao lugar desse acontecimento também pelo anúncio de um anjo: "Nos arredores havia uns pastores, que nos campos vigiavam e guardavam seu rebanho durante as vigílias da noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a Glória do Senhor refulgiu ao redor deles, e tiveram grande temor. O anjo disse-lhes: 'Não temais, eis que vos anuncio uma Boa Nova que será alegria para todo povo: hoje na Cidade de Davi vos nasceu o Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto servi-vos-á de sinal: achareis um Recém-Nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura.'" Lc 2,8-12


EXÉRCITOS DE ANJOS

    Esse anjo, porém, não estava sozinho: era acompanhado de inúmeros deles: "E ao anjo subitamente juntou-se uma multidão do Celeste Exército, que louvava a Deus e dizia:' Glória a Deus no mais alto dos Céus, e Paz na Terra aos homens por Ele amados.' Depois que os anjos os deixaram e voltaram para o Céu, os pastores falaram uns aos outros: 'Vamos a Belém e vejamos o que se realizou, o que o Senhor nos manifestou.'" Lc 2,13-15
    Essa era uma antiga profecia, como os seguidores da tradição de São Paulo apontaram na Carta aos Hebreus, repetindo palavras de Deus do Livro de Deuteronômio: "E novamente, ao introduzir Seu Primogênito na Terra, diz: 'Que todos anjos de Deus O adorem (Dt 32,43)!'" Hb 1,6
    Porque assim é a louvação que se deve ao próprio Deus, como o sagrado autor cantava: "Louvai-O, todos Seus anjos. Louvai-O, todos Seus Exércitos." Sl 148,2
    A bendição que eles Lhe devem, segundo o rei Davi: "Bendizei ao Senhor todos Seus anjos, valentes heróis que cumpris Suas ordens, sempre dóceis a Sua Palavra. Bendizei ao Senhor todos Seus Exércitos, ministros que executais Sua vontade." Sl 102,20-21
    Assim, logo após a partida dos Santos Reis Magos, o Anjo da Guarda de São José avisou-o da perseguição de Herodes ao Deus Menino, a qual resultaria no massacre dos Santos Inocentes em Belém: "Depois de sua partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: 'Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe e foge para Egito. Fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o Menino para O matar.'" Mt 2,13
    E após alguns anos, como havia prometido, seu Anjo da Guarda tornou a manifestar-se a ele, para avisar do tempo propício para o retorno à Terra Santa: "Com a morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, em Egito, e disse: 'Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe e retorna à terra de Israel, porque morreram aqueles que atentavam contra a vida do Menino.' José levantou-se, tomou o Menino e Sua mãe e foi para a terra de Israel." Mt 2,19-21
     Conforme São Mateus, São José ainda considerou morar em Judeia, onde seus parentes viviam (cf. Lc 2,4), pois já tinha avançada idade e queria criar Jesus entre eles. Mas, por razões de segurança, foi reconduzido por seu anjo a Nazaré, permanecendo junto aos familiares de Nossa Senhora (cf. Lc 2,44): "Ao ouvir, porém, que Arquelau reinava em Judeia, em lugar de seu pai Herodes, não ousou ir para lá. Divinamente avisado em sonhos, retirou-se para a província de Galileia e veio habitar na cidade de Nazaré, para que se cumprisse o que foi dito pelos Profetas: 'Será chamado Nazareno. (cf. Jz 13,5; Is 46,6).'" Mt 2,22-23
    E desde o início de Sua vida pública, ao encontrar São Bartolomeu, um de Seus Apóstolos, Jesus avisou-lhes que Sua Missão seria acompanhada de uma grande manifestação de anjos, propriamente uma conexão entre o Céu e a Terra, tal qual o sonho de Jacó (cf. Gn 28,12), quando foi avisado por Deus que havia chegado à Terra Santa. É do Evangelho Segundo São João: "Jesus replicou-lhe: 'Porque Eu te disse que te vi debaixo da figueira, crês! Verás coisas maiores que esta.' E ajuntou: 'Em Verdade, em Verdade, digo-vos: vereis o Céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem.'" Jo 1,50-51
    Até o inimigo, ao tentar Jesus no deserto, mencionou os anjos de Deus, lembrando seus prestimosos e sobrenaturais socorros inscritos num Salmo: "Se Tu és Filho de Deus, joga-Te para baixo! Porque a Escritura diz: 'Deus ordenará a Seus anjos a Teu respeito, e eles levá-Te-ão nas mãos, para que não tropeces em pedra alguma (cf. Sl 91,11-12).'" Mt 4,6
    E foram exatamente eles que socorreram Jesus, ainda no deserto, depois que Satanás se foi: "Em seguida, o Demônio deixou-O, e os anjos aproximaram-se d'Ele para O servir." Mt 4,11
    Ora, como Nosso Senhor passava muitos momentos rezando ao Pai, o povo julgava que Ele falava com os anjos, a ponto de confundir a própria voz de Deus com a de algum deles. Foi o que aconteceu em Jerusalém, em pleno Domingo de Ramos: "Se alguém quer servir-Me, siga-Me. E onde Eu estiver, ali também estará Meu servo. Se alguém Me serve, Meu Pai honrá-lo-á. Presentemente, Minha alma está perturbada. Mas que direi? Pai, salva-Me desta hora? Mas é exatamente para esta hora que Eu vim. Pai, glorifica Teu Nome!' Nisto, veio do Céu uma voz: 'Já O glorifiquei, e tornarei a glorificá-Lo.' Ora, a multidão que ali estava, ao ouvir isso, dizia ter havido um trovão. Outros replicavam: 'Um anjo falou-Lhe.'" Jo 12,26-29
    O intransigente ato de renegar Jesus, contudo, tem graves consequências, automaticamente vedando os celestes auxílios. Ele mesmo asseverou: "Digo-vos: todo aquele que Me reconhecer diante dos homens, o Filho do Homem também o reconhecerá diante dos anjos de Deus. Mas quem Me negar diante dos homens, será negado diante dos anjos de Deus." Lc 12,8-9
    Pois a eles cabe a tarefa de separar o 'joio do trigo', ou seja, separar aqueles que merecerão a Vida Eterna daqueles que serão condenados. Jesus afirmou: "O Filho do Homem enviará Seus anjos, que de Seu Reino retirarão todos escândalos e todos que fazem o mal, e lançá-los-ão na ardente fornalha, onde haverá choro e ranger de dentes." Mt 13,41-42
    Essa, de fato, é uma constante em Suas prescrições sobre o Último Dia: "Logo após estes dias de tribulação, o sol escurecerá, a lua não terá claridade, as estrelas cairão do céu e as potências dos céus serão abaladas. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem. Todas tribos da Terra baterão no peito e verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do céu, cercado de Glória e de majestade. Ele enviará Seus anjos, com estridentes trombetas, que juntarão Seus escolhidos dos quatro ventos, duma extremidade do céu à outra." Mt 24,29-31
    Sem dúvida, eles trabalham com grande entusiasmo pela Salvação das almas, como Nosso Salvador revelou: "Digo-vos que haverá júbilo entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrependa." Lc 15,10
    Trabalham na proteção das crianças, que é uma das funções dos Anjos da Guarda: "Cuidem de não menosprezar um só destes pequenos, porque Eu vos digo que no Céu seus anjos contemplam sem cessar a face de Meu Pai, que está nos Céus." Mt 18,10
    Na hora de nossa morte, ainda segundo Jesus: "Ora, aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos ao seio de Abraão." Lc 16,22a
    Bem como na distribuição de extraordinárias Graças, como se via no Tanque de Betesda, próximo à Porta das Ovelhas de Jerusalém: "Pois de tempos em tempos um anjo do Senhor descia ao tanque e a água se punha em movimento. E o primeiro que entrasse no tanque, depois da agitação da água, ficava curado de qualquer doença que tivesse." Jo 5,4
    Mas eles não sabem de tudo, como o fim dos tempos, por exemplo. Nosso Senhor disse: "Quanto àquele dia e àquela hora, ninguém o sabe, nem mesmo os anjos do Céu, mas somente o Pai." Mt 24-36
    Até aprendem passo-a-passo com a Igreja Católica, como a Primeira Carta de São Pedro revela: "Esta Salvação tem sido o objeto das investigações e das meditações dos Profetas que proferiram oráculos sobre a Graça que vos era destinada. Revelações estas que os próprios anjos desejam contemplar." 1 Pd 1,10.12b
    Nominando duas ordens deles, a Carta de São Paulo aos Efésios diz o mesmo: "Assim, de ora em diante, as celestes dominações e potestades podem conhecer, por meio da Igreja, a multiforme Sabedoria de Deus, de acordo com o eterno desígnio que Ele realizou em Jesus Cristo, Nosso Senhor." Ef 3,10-11
    Cita, inclusive, outra delas, entre os anjos caídos, ao falar do espiritual combate que travamos nesse mundo: "Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste tenebroso mundo, contra as forças espirituais do mal espalhadas nos ares." Ef 6,12
    E num dos mais difíceis momentos da vida de Jesus, quando agonizava no Monte da Oliveiras, Ele teve o consolo de um de Seus anjos. Era Seu Anjo da Guarda, pois, embora enquanto Deus Ele disponha de todos, enquanto ser humano também tinha apenas o Seu: "Então Lhe apareceu um anjo do Céu para O confortar. Ele entrou em agonia e ainda com mais instância rezava, e Seu suor tornou-se como gotas de sangue a escorrer pela terra." Lc 22,43-44
    Com efeito, se fosse da vontade do Pai que eles resistissem à investida dos guardas do sumo sacerdote e dos anciãos no monte das Oliveiras, Nosso Senhor poderia ter contado com o socorro do Celestial Exército, como Ele mesmo vai dizer: "Mas um dos companheiros de Jesus desembainhou a espada e feriu um servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha. Jesus, no entanto, disse-lhe: 'Embainha tua espada, porque todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão. Não crês tu que posso invocar Meu Pai e Ele imediatamente Me enviaria mais de doze legiões de anjos?'" Mt 26,51-53
    Esse companheiro era São Pedro, como São João Apóstolo apontou: "Simão Pedro, que tinha uma espada, puxou dela e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco. Mas Jesus disse a Pedro: 'Enfia tua espada na bainha! Não hei de beber Eu o cálice que o Pai Me deu?'" Jo 18,10-11
    E, desde Sua morte, Seus anjos não deixaram de auxiliar os membros de Sua Igreja, como aquele que rolou a pedra, abrindo o Santo Sepulcro para Santa Maria Madalena e as Santas mulheres: "E eis que houve um violento tremor de terra: um anjo do Senhor desceu do Céu, rolou a pedra e sentou-se sobre ela. Resplandecia como relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve." Mt 28,2-3
    Ele também foi o primeiro a anunciar-lhes a Ressurreição do Senhor: "Mas o anjo disse às mulheres: 'Não temais! Sei que procurais Jesus, que foi crucificado. Não está aqui: ressuscitou, como disse. Vinde e vede o lugar em que Ele repousou.'" Mt 28,5-6
    Igualmente quando Jesus Se despediu dos Apóstolos, Sua Ascensão aos Céus, assim como Sua Definitiva Volta no fim dos tempos, foram anunciadas pelos anjos. O Livro de Atos dos Apóstolos diz: "Enquanto O acompanhavam com seus olhares, vendo-O afastar-Se para o Céu, eis que lhes apareceram dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: 'Homens de Galileia, por que ficais aí a olhar para o céu? Esse Jesus, que acaba de ser-vos arrebatado para o Céu, voltará do mesmo modo que O vistes subir.'" At 1,10-11
    Essa promessa foi feita pelo próprio Jesus, ao falar das celestiais recompensas, sempre mencionando a presença dessas criaturas a Seu redor: "Que servirá a um homem ganhar o mundo inteiro, se vem a prejudicar sua Vida? Ou que dará um homem em troca de sua Vida? Porque o Filho do Homem há de vir na Glória de Seu Pai com Seus anjos, e então recompensará a cada um segundo suas obras." Mt 16,27
    Esse momento também será sinalizado por um arcanjo, como a Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses afirma: "Quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o mesmo Senhor descerá do Céu, e aqueles que morreram em Cristo ressurgirão primeiro." 1 Ts 4,16
    Pois Nosso Salvador é a razão de ser de todas criaturas. A Carta de São Paulo aos Colossenses revela, nomeando quatro ordens de anjos: "N'Ele (Cristo) foram criadas todas coisas nos céus e na Terra, as visíveis e as invisíveis criaturas: tronos, dominações, principados, potestades. Tudo foi criado por Ele e para Ele." Cl 1,16
    Assim, eles intensamente colaboram com a divulgação do Evangelho, como vemos na libertação dos Apóstolos, presos pelo Sinédrio ainda nos primeiros tempos da Santa Igreja: "Levantaram-se, então, os sumos sacerdotes e seus partidários, isto é, a seita dos saduceus, cheios de inveja, e deitaram mãos sobre os Apóstolos e meteram-nos na cadeia pública. Mas, de noite, um anjo do Senhor abriu as portas do cárcere e, conduzindo-os para fora, disse-lhes: 'Ide e apresentai-vos no Templo, e pregai ao povo as palavras desta Vida.' Obedecendo a essa ordem, ao amanhecer eles entraram no Templo e puseram-se a ensinar." At 5,17-21a
    Colaboraram nas missões dos Santos Diáconos, quando da entrada do segundo não judeu na Igreja (cf. At 6,5), antes mesmo de São Pedro presidir o 'Pentecostes dos Gentios' (cf. At 10,44): "Um anjo do Senhor dirigiu-se a Filipe e disse: 'Levanta-te e vai para o sul, em direção do caminho que desce de Jerusalém a Gaza, a Deserta.' Filipe levantou-se e partiu. Ora, um etíope, eunuco, ministro da rainha Candace, de Etiópia, e superintendente de seus tesouros, tinha ido a Jerusalém para adorar. Voltava sentado em seu carro, lendo o Profeta Isaías. O espírito disse a Filipe: 'Aproxima-te deste carro.' Filipe aproximou-se e ouviu que o eunuco lia o Profeta Isaías, e perguntou-lhe: 'Porventura entendes o que estás lendo?' Respondeu-lhe: 'Como é que posso, se não há alguém que mo explique?' E rogou a Filipe que subisse e se sentasse junto a ele." At 8,26-31
    Colaboraram no próprio 'Pentecostes do Gentios': "Havia em Cesareia um homem, por nome Cornélio, centurião da coorte que se chamava Itálica. Era religioso. Ele e todos de sua casa eram tementes a Deus. Dava muitas esmolas ao povo e constantemente rezava. Este homem claramente percebeu, numa visão, pela hora nona do dia (três da tarde), aproximar-se dele o anjo de Deus e chamá-lo: 'Cornélio!' Cornélio fixou nele os olhos e, possuído de temor, perguntou: 'Que há, Senhor?' O anjo replicou: 'Tuas orações e tuas esmolas subiram à presença de Deus como uma oferta de lembrança. Agora envia homens a Jope e faze vir aqui um certo Simão, que tem por sobrenome Pedro. Ele acha-se hospedado em casa de Simão, um curtidor, cuja casa fica junto ao mar.'" At 10,1-6
    Colaboraram na libertação de São Pedro, neste caso seu Anjo da Guarda, quando foi preso por Herodes: "De repente, apresentou-se um anjo do Senhor, e uma Luz brilhou no recinto. Tocando no lado de Pedro, o anjo despertou-o: 'Levanta-te depressa', disse ele. Caíram-lhe as correntes das mãos. O anjo ordenou: 'Cinge-te e calça tuas sandálias.' Ele assim fez. O anjo acrescentou: 'Cobre-te com tua capa e segue-me.' Pedro saiu e seguiu-o, sem saber se era real o que se fazia por meio do anjo. Julgava estar sonhando. Passaram o primeiro e o segundo postos da guarda. Chegaram ao portão de ferro, que dá para a cidade, o qual se lhes abriu por si mesmo. Saíram e tomaram juntos uma rua. Em seguida, de súbito, o anjo desapareceu." At 12,7-10
    Colaboraram na punição a Herodes, que já havia mandado matar São Tiago Maior: "No dia marcado, Herodes, vestido em traje real, sentou-se no tribunal e dirigiu-lhes uma alocução. O povo aplaudia: 'É a voz de um deus, e não de um homem!' No mesmo instante, o anjo do Senhor feriu-o, por ele não haver dado honra a Deus. E roído de vermes, expirou." At 12,21-23
    E no naufrágio em que São Paulo acabou levado, pelo mar, à ilha de Malta, hoje país de mesmo nome, quando foi avisado por seu Anjo da Guarda: "Esta noite apareceu-me um anjo de Deus, a Quem pertenço e a Quem sirvo, o qual me disse: 'Não temas, Paulo. É necessário que compareças diante de César. Deus deu-te todos que contigo navegam.' Por isso, amigos, coragem! Eu confio em Deus que há de acontecer como me foi dito. Vamos dar a uma ilha." At 27,23-26
    Eles estão presentes nos momentos dos Sacramentos, como neste protótipo da renovação dos votos do Sacramento da Ordenação, da Primeira Carta de São Paulo a São Timóteo: "Eu conjuro-te, diante de Deus, de Cristo Jesus e dos anjos escolhidos, a que guardes essas regras sem prevenção, nada fazendo por espírito de parcialidade." 1 Tm 5,21
    E no dia-a-dia dos membros da Igreja, segundo seus discípulos: "Todos anjos não são espíritos a serviço de Deus, que lhes confia missões para o bem daqueles que devem herdar a Salvação?" Hb 11,4
    Pois é isso que o acolhimento da Palavra representa: "Vós, ao contrário, aproximaste-vos da Montanha de Sião, da Cidade do Deus Vivo, da Jerusalém Celestial, das miríades de anjos..." Hb 12,22
    Ora, a seu tempo, Davi já o afirmava:"Eu louvá-Vos-ei de todo coração, Senhor, porque ouvistes minhas palavras. Na presença dos anjos, eu cantá-Vos-ei. Ante Vosso santo Templo prostrar-me-ei, e louvarei Vosso Nome, por Vossa bondade e fidelidade, porque acima de todas coisas exaltastes Vosso Nome e Vossa promessa." Sl 137,1-2


MENSAGEIROS DAS REVELAÇÕES

    As visões no Livro de Apocalipse de São João também são obras do 'anjo de Jesus': "Revelação de Jesus Cristo, que Lhe foi confiada por Deus para manifestar a Seus servos o que em breve deve acontecer. Ele, por Sua vez, por intermédio de Seu anjo, comunicou a Seu servo João..." Ap 1,1
    Quando Santo Estevão denunciou o Sinédrio, disse como as Escrituras chegaram aos judeus: "Vós que recebestes a Lei pelo ministério dos anjos e não a guardastes..." Ap 7,53
    Este ensinamento também é sustentado na Carta de São Paulo aos Gálatas, que pontualmente lembra a participação de Moisés: "Então que é a Lei? É um complemento ajuntado em vista das transgressões, até que viesse a descendência a quem fora feita a promessa. Foi promulgada por anjos, passando por um intermediário." Gl 3,19
    Assim também atestam os seguidores do Apóstolo dos Gentios: "A Palavra anunciada por intermédio dos anjos era a tal ponto válida, que toda transgressão ou desobediência recebeu o justo castigo." Hb 2,2
    Todas revelações feitas aos Santos, portanto, dão-se através de anjos de Deus, como São João Evangelista diz sobre suas visões: "Estas palavras são fiéis e verdadeiras, e o Senhor, o Deus dos espíritos dos Profetas, enviou Seu anjo para mostrar a Seus servos o que em breve deve acontecer." Ap 22,6
    E através deles Jesus fala às dioceses. Aqui citamos Éfeso, uma das sete de Ásia de então, às quais Ele textualmente vai endereçar-Se: "Ao anjo da igreja de Éfeso, escreve..." Ap 2,1
    De fato, Ele mesmo faz questão de afirmar ao fim das revelações do Apocalipse: "Eu, Jesus, enviei Meu anjo para vos atestar estas coisas a respeito das igrejas." Ap 22,16

    "Poderosos Santos Anjos, que por Deus nos fostes concedidos para nossa proteção e auxílio, em Nome da Santíssima Trindade nós suplicamo-vos: Vinde depressa, socorrei-nos!"

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Santos Reis


    A visita dos Reis Magos a Jesus Recém-Nascido, que sabiam que Ele era Deus, pois vieram para O adorar, foi narrada no Evangelho Segundo São Mateus, quando se citou uma promessa de Deus feita no Livo do Profeta Miqueias:

    "Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que Magos vieram do Oriente a Jerusalém. Perguntaram eles:
    - Onde está o Rei dos judeus, que acaba de nascer? Vimos Sua Estrela no Oriente e viemos adorá-Lo!
    A esta notícia, o rei Herodes ficou perturbado, e com ele toda Jerusalém. Convocou os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo e indagou-lhes onde havia de nascer o Cristo. Disseram-lhe:
    - Em Belém de Judeia, porque assim foi escrito pelo Profeta: 'E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as cidades de Judá, porque de ti sairá o Chefe que governará Israel, Meu povo (Mq 5,2).'
    Herodes, então, secretamente chamou os Magos e perguntou-lhes sobre a exata época em que lhes tinha aparecido o Astro. E enviando-os a Belém, disse:
    - Ide e informai-vos bem a respeito do Menino. Quando O tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu também vá adorá-Lo.


    Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram.
    E eis que a Estrela, que tinham visto no Oriente, foi precedendo-os até chegar sobre o lugar onde estava o Menino e ali parou. A aparição daquela Estrela encheu-os de profunda alegria.
    Entrando na casa, acharam o Menino com Maria, Sua mãe. Prostrando-se diante d'Ele, adoraram-nO. Depois, abrindo seus tesouros, como presentes Lhe ofereceram ouro, incenso e mirra.


    Avisados em sonhos que não tornassem a Herodes, voltaram a sua terra por outro caminho." 
                                                  Mt 2,1-12

    O termo 'Mago' significa 'sábio' e é de origem persa, o que revela a procedência das honrosas visitas que Jesus recebeu. Eram religiosos, pois esse termo era exclusivamente usado para uma casta sacerdotal de Pérsia. Assim temos o atual termo 'magistério' que indica o Magistério da Santa Igreja Católica, como a Encíclica Veritatis Splendor, do saudoso Papa São João Paulo II, registra: "... o encargo de autenticamente interpretar a Palavra de Deus, escrita ou transmitida." Ele deu origem aos demais usos, como o exercício da profissão de professor, especialista em educação.
    Foi exatamente isso que Jesus prometeu a São Pedro, quando, por revelação de Deus Pai (cf. Mt 16,17), ele O proclamou o Cristo: "Eu dá-te-ei as chaves do Reino dos Céus. Tudo que ligares na Terra será ligado nos Céus, e tudo que desligares na Terra será desligado nos Céus." Mt 16,19
    Para tanto, claro, o Príncipe dos Apóstolos teria o divino auxílio do Espírito Santo, bem como seus sucessores ao longo dos séculos, como Nosso Senhor prometeu na noite em que ia ser entregue. Está no Evangelho Segundo São João: "Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensiná-vos-á toda a Verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciá-vos-á as coisas que virão." Jo 16,13
    A palavra 'Magos' constante no Evangelho Segundo São Mateus, portanto, nada tem a ver com o significado atribuído pelos gregos, ainda no século IV a.C., para designar os sacerdotes do zoroastrismo, que seriam astrólogos capazes de predizer e até manipular o futuro. Assim, a rigor, não pode ser traduzida nem como astrólogos, nem mágicos, nem ocultistas, nem bruxos, como tresloucados se arrogam.
    Na verdade, os Santos Reis respeitavam profundamente, embora não conhecessem em detalhes, a Lei e os Profetas de Israel, que hoje chamamos Antigo Testamento, pois acreditavam e esperavam pelo Salvador enquanto o Rei dos Judeus, exatamente o termo que usaram ao chegar em Jerusalém.
    Isso estava previsto no Livro do Profeta Isaías havia 700 anos: "... porque um Menino nos nasceu, um Filho nos foi dado. A soberania repousa sobre Seus ombros, e Ele chama-Se: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da Paz. Seu império será grande e a Paz, sem fim sobre o trono de Davi e em Seu reino. Ele firmá-lo-á e mantê-lo-á pelo direito e pela Justiça, desde agora e para sempre." Is 9,5-6b
    De fato, assim Nosso Senhor foi tratado por São Bartolomeu logo no primeiro encontrou, quando este Apóstolo percebeu que Ele tinha o poder da Onisciência: "Falou-lhe Natanael: 'Mestre, Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel.'" Jo 1,29
    E, sem dúvida, estes Magos foram iluminados pelo Espírito Santo, porque sabiam que aquela Nova Estrela, que lhes aparecia de sobrenatural modo, indicava o Nascimento do Messias, o que não foi revelado aos religiosos e estudiosos de Jerusalém, certamente por falta de fidelidade a Deus, como Jesus os acusou (cf. Mt 23,23), pois essa notícia os perturbou, como São Mateus disse. Outro importante indício, que confirma esta interpretação, é o fato de a Estrela só ter voltado a aparecer a eles depois que deixaram Jerusalém, quer dizer, ela não era vista por quem estava da Cidade Santa. Com efeito, essa reaparição do Astro explica a inefável alegria, como vimos, que os Reis Magos tiveram (Mt 2,10).
    Ainda sob a lógica da divina inspiração, após a visita e durante o descanso antes de começar a viagem de volta, eles foram avisados em sonhos, certamente por um anjo de Deus, como acontecia a São José por seu Anjo da Guarda, para não retornar a Jerusalém com as informações que Herodes pediu.
    A adoração do Senhor por reis de outros países e outras religiões, enfim, atestam o caráter católico, ou seja, universal da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. De fato, falando em línguas (cf. At 2,6), como se viu no Pentecostes, ela já nasceu para o mundo, para muito além das físicas e espirituais fronteiras de Israel, exatamente como Jesus garantiu a Seus seguidores, na leitura do Livro de Atos dos Apóstolos: "... mas descerá sobre vós o Espírito Santo e dá-vos-á força. E sereis Minhas testemunhas em Jerusalém, em toda Judeia e Samaria, e até os confins do mundo." At 1,8
    Aliás, assim como o próprio Jesus, embora tendo cumprido Sua Missão estritamente naquela nação (cf. Mt 15,24). Sem dúvida, mesmo ciente de Sua Paixão, Nosso Senhor disse aos religiosos de Jerusalém, referindo-Se aos não judeus: "Ainda tenho outras ovelhas, que não são deste aprisco. Também preciso conduzi-las. E ouvirão Minha voz, e haverá um só rebanho e um só Pastor." Jo 10,16
    Também disse a Pilatos quando foi julgado, referindo-Se a todo ser humano:"Todo aquele que é da Verdade ouve Minha voz." Jo 18,37b
    Ora, Deus havia dito através de Isaías: "A Verdade sai de Minha boca, Minha Palavra jamais será revogada: todo joelho deve dobrar-se diante de Mim..." Is 45,23b
    Disse mais, propriamente falando ao povo de Israel que se tornaria a Igreja Católica Apostólica Romana: "Prestai-Me atenção, e vinde a Mim. Escutai, e vossa alma viverá. Convosco quero concluir uma Eterna Aliança, outorgando-vos os favores prometidos a Davi. De ti farei um testemunho para os povos, um Soberano Condutor das nações. Conclamarás povos que nunca conheceste, e nações que te ignoravam acorrerão a ti, por causa do Senhor Teu Deus e do Santo de Israel que fará tua Glória." Is 55,3-5
    Conforme São João Apóstolo, São Pedro, sempre ele e quase sempre iluminado, também proclamou: "Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da Vida Eterna. E nós cremos e sabemos que Tu és o Santo de Deus!" Jo 6,68b-69
    E no mesmo sentido do Catolicismo em Jesus, o rei Salomão cantava no Livro de Salmos: "Seu Nome será eternamente bendito, e durará tanto quanto a luz do sol. N'Ele serão abençoadas todas tribos da Terra, Bem-Aventurado proclamá-Lo-ão todas nações." Sl 71,17
    O Livro do Profeta Daniel viu o mesmo, bem como Seu Reinado: "Sempre olhando a noturna visão, vi um Ser, semelhante ao Filho do Homem, vir sobre as nuvens do Céu. Dirigiu-Se para o lado do Ancião, diante de Quem foi conduzido. A Ele foram dados império, Glória e realeza, e todos povos, todas nações e todas línguas serviram-nO. Seu domínio será eterno, nunca cessará, e Seu Reino jamais será destruído." Dn 7,13-14


    Sabemos que os Magos eram reis pelos custos de uma expedição desse porte, pois envolvia vários camelos, além de seguranças, abrigo e provisão para muitos dias, por serem recebidos pelo rei Herodes, e pelo valor dos presentes que ofertaram, que São Mateus menciona como 'tesouros'. E aí, mais uma vez, vemos a divina inspiração que os guiava, pois são presentes de perfeita simbologia enquanto ofertas a Deus feito Homem: o ouro significa a realeza de Jesus; o incenso, Sua natureza divina; e a mirra, Sua natureza humana que sofreria o martírio. E como o Evangelho não diz, além da Sagrada Tradição que nos assegura que eram em três os Reis Magos, outra indicação nesse sentido vem do número dos presentes, que, por serem tão caros, se supõe ser um de cada rei.
    Ademais, mesmo com as reconhecidas imprecisões das profecias (cf. 1 Cor 13,9), Salomão também predizia que Jesus seria adorado por reis: "Os reis de Társis e das ilhas trá-Lhe-ão presentes, os reis da Arábia e de Sabá oferecê-Lhe-ão seus dons. Assim Ele viverá e o ouro da Arábia Lhe será ofertado. Por Ele sempre hão de rezar, e perpetuamente bendi-Lo-ão." Sl 71,10.15
    Isaías, referindo-se à chegada deles a Jerusalém, disse-o com estas palavras: "Serás invadida por uma multidão de camelos, pelos dromedários de Madiã e de Efá. Virão todos de Sabá, trazendo ouro e incenso, e publicando os louvores do Senhor." Is 60,6
    Os Santos Reis, portanto, eram prefiguras de rainhas e reis cristãos que lhes sobreviriam, ainda segundo Salomão: "Todos reis hão de adorá-Lo, hão de servi-Lo todas nações." Sl 71,11
    Ora, está escrito que Jesus é o Rei dos reis, e só poderia sê-lo de Santos reis, jamais de mundanos reis. Assim foi a visão registrada no Livro de Apocalipse de São João: "Ainda vi o Céu aberto: eis que aparece um branco cavalo. Seu Cavaleiro chama-se Fiel e Verdadeiro, e é com Justiça que Ele julga e guerreia. Está vestido com um manto tinto de sangue, e Seu Nome é Verbo de Deus. Ele traz escrito no manto e na coxa: Rei dos reis e Senhor dos senhores!" Ap 19,11.13.16


    Quanto aos reis que realmente estão reinando sobre o mundo atual, não há dúvida que são os próprios Santos, pois Jesus lhes garantiu poder igual ao d'Ele, assim como Seu símbolo: "Então, ao vencedor, ao que praticar Minhas obras até o fim, lhe darei poder sobre as pagãs nações. Ele regê-las-á com cetro de ferro, como se quebra um vaso de argila, assim como Eu mesmo recebi o poder de Meu Pai. E dá-lhe-ei a Estrela da Manhã." Ap 2,26-28
    Isso foi o que o Discípulo Amado testemunhou, noutra visão que teve dos Céus, dizendo de mártires de quem não serve ao maligno império: "Também vi tronos, sobre os quais se sentaram aqueles que receberam o poder de julgar: eram as almas daqueles que foram decapitados por causa do Testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, e todos aqueles que não tinham adorado a besta ou sua imagem, que não tinham recebido seu sinal na fronte nem nas mãos. Eles viveram uma nova vida e com Cristo reinaram por mil anos. Os outros mortos não tornaram à vida até que se completassem os mil anos. Esta é a primeira ressurreição. Feliz e Santo é aquele que toma parte na primeira ressurreição! Sobre eles a segunda morte não tem poder, mas serão Sacerdotes de Deus e de Cristo: com Ele reinarão durante os mil anos." Ap 21,4-6
    Aliás, reis também são nossos Sacerdotes, os padres e bispos da Igreja Católica Apostólica Romana como se lê nas graças que este Apóstolo rende a Jesus Cristo logo no início deste Livro: "Àquele que nos ama, que nos lavou de nossos pecados em Seu Sangue, que fez de nós um Reino de Sacerdotes para Deus e Seu Pai, Glória e poder pelos séculos dos séculos! Amém." Ap 1,5b-6
    Sim, eles são de todas nações e desde o Pentecostes reinam sobre este mundo. Assim os anjos querubins, que representam os Evangelhos, e vinte e quatro anciãos, também anjos de alta ordem, reverenciavam Jesus, o Cordeiro de Deus: "Cantavam um cântico novo, dizendo: 'Tu és digno de receber o Livro e de abrir-lhe os selos, porque foste imolado e resgataste para Deus, ao preço de Teu Sangue, homens de toda tribo, língua, povo e raça, e deles fizeste para nosso Deus um Reino de Sacerdotes, que reinam sobre a Terra.'" Ap 5,9-10
    E conforme a Tradição aponta, no século VIII a Santa Igreja reconheceu a santidade dos Reis Magos. Apesar de não termos registros de como eles, sendo persas, vieram a ser sepultados em Constantinopla, ou se suas relíquias foram para lá transportados por ter-se tornado a capital do Império Romano, reza a Tradição que elas aí estiveram até 474, quando foram levadas a Itália, mais especificamente à cidade de Milão.
    Ora, no mesmo século VIII, o Venerável São Beda, Doutor da Igreja, teve uma visão dos três Reis Magos, e assim é um trecho de seu relato: "O primeiro foi Melquior, velho, circunspecto, de barba e longos e grisalhos cabelos... O segundo tinha por nome Gaspar, e era jovem, imberbe e louro... O terceiro, preto e totalmente barbado, chamava-se Baltasar."
    Tal visão, ademais, confirma a origem deste último Rei, pois seu nome surgiu em Babilônia e foi dado ao rei à época do Profeta Daniel: "O rei Baltasar deu uma festa para seus mil nobres, em presença dos quais se pôs a beber vinho." Dn 5,1
    Aliás, foi o nome que eles atribuíram ao próprio Daniel: "O rei dirigiu a palavra a Daniel, que tinha o cognome de Baltasar..." Dn 2,26a
    Em 1164, por fim, suas relíquias foram levadas à cidade de Colônia, centro-oeste de atual Alemanha, e lá lhes foi erguida uma grande e suntuosa catedral, onde ainda são veneradas.


    Santos Reis, rogai por nós!