segunda-feira, 31 de março de 2025

O Exorcismo


    Tanto o generalizado decaimento da quanto a intensa atividade de Satanás e seus anjos nos tempos atuais, já eram profetizados na Segunda Carta de São Paulo aos Tessalonicenses. À época, ele dizia que o inimigo estava momentaneamente detido por alguém, provavelmente referindo-se ao Arcanjo São Rafael (cf. Tb 8,3): "Porque primeiro deve vir a apostasia, e deve manifestar-se o homem da iniquidade, o filho da perdição, o adversário, aquele que se levanta contra tudo que é divino e sagrado, a ponto de tomar lugar no Templo de Deus e apresentar-se como se fosse Deus. Agora, perfeitamente sabeis o que o detém, de modo que ele só se manifestará a seu tempo, pois o mistério da iniquidade já está em ação, apenas esperando que seja afastado aquele que o detém." 2 Ts 2,3b-4.6-7
    De fato, o Livro de Apocalipse de São João, referindo-se a um simbólico período designado por Deus, este Apóstolo fala de uma temporária prisão do inimigo: "Depois de completarem-se mil anos, Satanás será solto da prisão. Dela sairá para seduzir as nações dos quatro cantos da Terra..." Ap 20,7-8
    Essa condenação do inimigo foi decretada pelo próprio Cristo em Jerusalém durante Sua última Páscoa, no Evangelho segundo São João: "Agora é o Juízo deste mundo. Agora será lançado fora o príncipe deste mundo." Jo 12,31
    Sem dúvida, ainda segundo Jesus neste mesmo dia, o veredicto contra Satanás já foi proferido: "... o príncipe deste mundo já está julgado e condenado." Jo 16,11
    No Evangelho segundo São Mateus, também em últimas pregações, Ele descreveu a prisão nestes termos: "... o fogo eterno, destinado ao Demônio e aos seus anjos." Mt 25,41
    A Segunda Carta de São Pedro igualmente fez menção a ela: "Pois se Deus não poupou os anjos que pecaram, mas precipitou-os nos tenebrosos abismos do inferno, onde os reserva para o Julgamento..." 2 Pd 2,4
    Assim como a Carta de São Judas: "Os anjos que não tinham guardado a dignidade de sua classe, mas abandonado seus tronos, Ele prendeu-os com eternas correntes nas trevas, para o Julgamento do Grande Dia." Jd 6
    Mas essa prisão nem sempre é representada de sobrenatural modo. De fato, não é um lugar físico, de delimitação espacial. Antes é um estado de cobiça e luxúria, por exemplo, como São João Evangelista aponta, nesta passagem, para a sede de um império de então, que se tornou símbolo de perversão: "Caiu, caiu Babilônia, a Grande. Tornou-se morada dos demônios, prisão dos imundos espíritos..." Ap 18,2
    Ou a cidade de Pérgamo, em ruínas de atual Turquia, que o próprio Jesus indica como sede das maiores heresias ao tempo do Apocalipse, sabidamente a idolatria em combinação com outros ritos do paganismo: "Ao anjo da igreja de Pérgamo, escreve: Eis o que diz Aquele que tem a afiada espada de dois gumes. 'Sei onde habitas: aí se acha o trono de Satanás.'" Ap 2,12-13a
    Ou ainda todo Israel mesmo, quando do Livro do Profeta Oseias, segundo o próprio Deus: "Conheço Efraim, e Israel não Me é oculto. Ora, Efraim transviou-se e Israel maculou-se. Seu proceder não lhes permite voltar a Seu Deus, porque um espírito de prostituição os possui. Eles desconhecem o Senhor." Os 5,3-4
    São Rafael Arcanjo, no mesmo sentido, disse no Livro de Tobias, falando a este protagonista, o que acontece aos adúlteros: "Ouve-me, e eu mostrá-te-ei sobre quem o Demônio tem poder: são os que se casam, banindo Deus de seu coração e de seu pensamento, e entregam-se à sua paixão como um cavalo e um burro, que não têm entendimento. Sobre estes o Demônio tem poder." Tb 6,16-17
    Nosso Senhor, no entanto, capacitou, além dos Apóstolos (cf. Mc 6,7), outros discípulos para derrotar o inimigo, como se vê no Evangelho segundo São Lucas. Eram as primícias da invencível Santa Igreja (cf. Mt 16,18): "Voltaram alegres os setenta e dois, dizendo: 'Senhor, até os demônios submetem-se-nos em Teu Nome!' Jesus disse-lhes: 'Vi Satanás cair do Céu como um raio. Eis que vos dei poder para pisar serpentes, escorpiões e todo poder do inimigo.'" Lc 10,17-19
    Mas, imediatamente, também os advertiu da vã glória: "Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos estão sujeitos, mas alegrai-vos de que vossos nomes estejam escritos nos Céus." Lc 10,20
    Pois através do anúncio do Evangelho e da Vinda do Espírito Santo, Ele havia declarado o fim do império de Satanás, bem como a instauração de Seu Reino de Sacerdotes: "Apresentaram-Lhe, depois, um possesso cego e mudo. Jesus curou-o de tal modo que de pronto ele falava e via. A multidão, admirada, dizia: 'Não será este o Filho de Davi?' Mas, ouvindo isto, os fariseus responderam: 'É por Beelzebul, chefe dos demônios, que Ele os expulsa.' Jesus, porém, penetrando em seus pensamentos, disse: 'Todo reino dividido contra si mesmo será destruído. Toda cidade, toda casa dividida contra si mesma não pode subsistir. Se Satanás expele Satanás, está dividido contra si mesmo. Como, pois, subsistirá seu reino? E se Eu expulso os demônios por Beelzebul, por quem é que vossos filhos os expulsam? Por isso, eles mesmos serão vossos juízes. Mas se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus.'" Mt 12,22-28
    E esta não foi a única vez que O acusaram de possessão. Isso também se deu no Templo de Jerusalém, quando Ele Se disse maior que Abraão: "Responderam então os judeus: 'Não dizemos com razão que és samaritano, e que estás possesso de um demônio?'" Jo 8,48
    Mas com Sua Vitória sobre o mundo e Sua Ascensão ao Céu, o inimigo foi definitivamente expulso da presença de Deus. Assim foram as visões de São João Apóstolo: "Eu ouvi no Céu uma voz forte que dizia: 'Agora chegou a Salvação, o poder e a realeza de Nosso Deus, assim como a autoridade de Seu Cristo, porque foi precipitado o acusador de nossos irmãos, que dia e noite os acusava diante do Nosso Deus. Por isso, alegrai-vos, ó Céus, e todos que aí habitais. Mas, ó terra e mar, cuidado! Porque o Demônio desceu para vós cheio de grande ira, sabendo que pouco tempo lhe resta.'" Ap 12,10-12
    Após essa expulsão, na Terra ele voltou-se contra Maria Santíssima, mas, impotente contra ela, que de Deus obteve 'angelical condição', voltou-se contra seus filhos, ou seja, a Igreja Católica: "O Dragão, vendo que fora precipitado na Terra, perseguiu a Mulher que dera à luz o Menino. Mas à Mulher foram dadas duas asas de grande águia (cf. Is 40,31), a fim de voar para o deserto, para o lugar de seu retiro, onde é alimentada por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente. A Serpente vomitou contra a Mulher um rio de água, para fazê-la submergir. A Terra, porém, acudiu à Mulher, abrindo a boca para engolir o rio que o Dragão vomitara. Este, então, irritou-se contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência, aos que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus." Ap 12,13-17
    Contudo, mesmo em sua fragilidade, a Igreja já tinha recebido de Jesus a garantia de proteção: "E Eu declaro-te: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei Minha Igreja. As portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18
    Na última noite entre os Apóstolos, Ele rezou ao Pai por todos aqueles que O seguiam, pois só Seus protegidos conseguem perseverar na Comunhão: "Pai Santo, guarda-os em Teu Nome, que Me encarregaste de fazer conhecer, a fim de que sejam Um como Nós. Enquanto Eu estava com eles, Eu guardava-os em Teu Nome... Conservei os que Me deste, e nenhum deles se perdeu exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura." Jo 17,11b-12a.c
    Arrematou: "Não peço que os tires do mundo, mas sim que os preserves do Mal." Jo 17,15
    E assim havia garantido a guarda de Suas ovelhas: "... ninguém as roubará de Minha mão. ... ninguém pode arrebatá-las da mão de Meu Pai." Jo 10,27a.28b.29b
    A Primeira Carta de São Pedro confirma: "Porque éreis como desgarradas ovelhas, mas agora retornastes ao Pastor e Guarda de vossas almas." 1 Pd 2,25
    E diz: "... vós que, por causa de vossa fé, sois guardados pelo poder de Deus..." 1 Pd 1,5a
    Enquanto houver verdadeira fidelidade à Igreja, portanto, estaremos sob o escudo de Sua Graça, como Jesus mesmo prometeu a instantes de Sua Ascensão: "Ide, pois, e ensinai a todas nações. Batizai-as em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo que vos prescrevi. Eis que convosco estou todos dias, até o fim do mundo." Mt 28,19-20
     Contudo, se mandou "observar tudo que vos prescrevi", também já havia falado de verdadeira obediência: "Minhas ovelhas ouvem Minha voz, Eu conheço-as e elas seguem-Me." Jo 10,27
     A Primeira Carta de São João, pois, assim explica a proteção da Graça e nossa vitória sobre os maus espíritos: "Vós, filhinhos, sois de Deus, e venceste-los, porque Aquele (Deus) que está em vós é maior que aquele que está no mundo." 1 Jo 4,4
     Assim, apontando nossa única opção e único modo de combater, a Carta de São Tiago garante: "Sede submissos a Deus. Resisti ao demônio, e ele fugirá para longe de vós." Tg 4,7
    Já a Carta de São Paulo aos Romanos exalta o grande diferencial que é a unção do Espírito de Cristo, que é derramado sobre a Igreja desde o Pentecostes: "O pecado já não vos dominará, porque agora não mais estais sob a Lei, e sim sob a Graça." Rm 6,14
    Foi ainda mais clara a Carta de São Paulo aos Gálatas, ao demonstrar a superioridade do Novo Testamento: "Se, porém, deixai-vos guiar pelo Espírito, não estais sob a Lei." Gl 5,18
    E a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios diz do poder de Jesus, presente nos Sacramentos: "Ele há de confirmar-vos até o fim... " 1 Cor 1,8a


JESUS EXORCIZOU

    Mas enquanto se espera o Juízo Final, por conta de desobediência muitos são atormentados por maus espíritos, e isso será ainda mais claro durante a Grande Tribulação: "O quinto anjo tocou a trombeta. Então vi uma estrela cair do Céu na Terra, e foi-lhe dada a chave do poço do abismo. Ela abriu-o e saiu do poço uma fumaça como a de uma grande fornalha. Da fumaça saíram gafanhotos pela Terra, e foi-lhes dado poder semelhante ao dos escorpiões da Terra. Mas foi-lhes dito que não causassem dano à erva, verdura, ou árvore alguma, mas somente aos homens que não têm o selo de Deus na fronte. Foi-lhes ordenado que não os matassem, mas por cinco meses afligissem-nos. Naqueles dias, os homens buscarão a morte e não a conseguirão, desejarão morrer, e a morte fugirá deles." Ap 9,1-2.4-6
    O Amado Discípulo descreveu-os: "O aspecto desses gafanhotos era o de cavalos aparelhados para a guerra: em suas cabeças havia uma espécie de coroa com dourados reflexos; seus rostos eram como rostos de homem, seus cabelos como os de mulher, e seus dentes como os dentes de leão; seus tórax pareciam envoltos em ferro, e o ruído de suas asas era como o ruído de carros de muitos cavalos, correndo para a guerra. Tinham caudas semelhantes à do escorpião, com ferrões..." Ap 9,7-10a
    Satanás, de fato, mesmo enquanto anjo caído continua sendo um querubim (cf. Ez 28,14), ou seja, tem grande poder, como se vê naqueles que personificam suas maiores maquinações: os perseguidores da Igreja e o falso profeta: "A fera que eu vi era semelhante a uma pantera: os pés como de urso, e as fauces como de leão. O Dragão deu-lhe seu poder, seu trono e grande autoridade. Vi, então, outra fera subir da Terra. Tinha dois chifres como um cordeiro, mas falava como um dragão. Ela exercia todo poder da primeira fera, sob a vigilância desta, e fez com que a Terra e seus habitantes adorassem a primeira fera, cuja ferida de morte havia sido curada. Realizou grandes prodígios, de modo que até do céu fez descer fogo sobre a Terra, à vista dos homens." Ap 13,2.11-13
    Ele já se manifestou de várias formas: "... o Dragão, a primitiva Serpente, que é o Demônio e Satanás..." Ap 20,2a
    E como uma das formas de afligir, seus demônios apossam-se de seres humanos, como Jesus explicou, dizendo do grave pecado que cometiam aqueles que O conheceram mas não O acolheram: "Quando o impuro espírito sai de um homem, ei-lo errante por áridos lugares à procura de um repouso que não acha. Diz ele, então: 'Voltarei para a casa donde saí.' E, voltando, encontra-a vazia, limpa e enfeitada. Então vai buscar sete outros espíritos piores que ele, e entram nessa casa e aí se estabelecem. E o último estado daquele homem torna-se pior que o primeiro. Tal será a sorte desta perversa geração." Mt 12,43-45
    A Segunda Carta de São Paulo a São Timóteo também falou da dominação que acontece àqueles que caem nos "... laços do Demônio, que a seus caprichos os mantém cativos e submetidos." 2 Tm 2,26b
    Ora, que nós enfrentamos poderosas classes de anjos caídos, é o alerta da Carta de São Paulo aos Efésios, citando duas delas: "Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste tenebroso mundo, contra as forças espirituais do Mal espalhadas nos ares." Ef 6,10-12
    Ele assim explicou a rebeldia que desde então se vê, apontando: "... o modo de viver deste mundo, do príncipe das potestades do ar, do espírito que agora atua nos rebeldes." Ef 2,2b
    Já a Carta de São Paulo aos Colossenses mencionou a própria Vitória de Jesus, resgatando muitas almas do domínio de maus espíritos: "Espoliou os principados e potestades e expô-los ao ridículo, deles triunfando pela Cruz." Cl 2,15
    E a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios diz do poder da Igreja, lembrando a queda das muralhas de Jericó (cf. Js 6,20): "Não são carnais as armas com que lutamos. São poderosas, em Deus, capazes de arrasar fortificações. Nós aniquilamos todo raciocínio e todo orgulho que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento e reduzimo-lo à obediência a Cristo." 2 Cor 10,4-5
    Por isso, desde o início, boa parte do Ministério de Cristo consiste em exorcizar endemoniados: "Sua fama espalhou-se por toda Síria. Traziam-Lhe os doentes e os enfermos, os possessos, os lunáticos, os paralíticos. E Ele curava a todos." Mt 4,24
    Foi o que Ele fez logo nos primeiros dias de vida pública em Cafarnaum (cf. Jo 2,12), quando Se instalou na casa de São Pedro: "Pela tarde, apresentaram-Lhe muitos possessos de demônios. Com uma Palavra, expulsou Ele os espíritos e curou todos enfermos." Mt 8,16
    E não só aí, como o Evangelho segundo São Marcos aponta: "Ele retirou-Se dali, pregando em todas sinagogas e por toda Galileia, e expulsando os demônios." Mc 1,39
    Antes mesmo de começar a pregar, enquanto esteve no deserto, o próprio Jesus foi tentado, pois Satanás dominava os poderosos da Terra: "Em seguida, o Demônio levou-O a um alto monte e num só momento mostrou-Lhe todos reinos da Terra, e disse-Lhe: 'Dá-Te-ei todo este poder e a glória desses reinos, porque me foram dados, e dou-os a quem quero.'" Lc 4,6
    De fato, é comum que os maus espíritos seduzam a humanidade, prometendo e concedendo riquezas como o Amado Médico narrou um episódio na cidade de Filipos, no Livro de Atos dos Apóstolos: "Certo dia, quando íamos à oração, eis que nos veio ao encontro uma escrava moça que tinha o espírito de Pitão, a qual com suas adivinhações dava muito lucro a seus senhores. Pondo-se a seguir a Paulo e a nós, gritava: 'Estes homens são servos do Altíssimo Deus, que vos anunciam o Caminho da Salvação.' Repetiu isto por muitos dias. Por fim, Paulo enfadou-se. Voltou-se para ela e disse ao espírito: 'Ordeno-te em Nome de Jesus Cristo que saias dela.' E na mesma hora ele saiu." At 16,16-18
    Do mesmo modo, e contrariando os planos de Jesus de manter-Se não declarado, desde que começou a pregar em Cafarnaum demônios procuravam identificá-Lo, para contra Ele atrair a ira dos judeus e dos que vivem em pecado. Eles manisfestavam-se só de ouvi-Lo anunciar o Evangelho: "Ora, na sinagoga deles achava-se um homem possesso de um imundo espírito, que gritou: 'Que tens Tu conosco, Jesus de Nazaré? Vieste perder-nos? Sei Quem és: o Santo de Deus!' Mas Jesus intimou-o, dizendo: 'Cala-te, sai deste homem!' O imundo espírito violentamente agitou-o e, dando um grande grito, saiu. Ficaram todos tão admirados que perguntavam uns aos outros: 'Que é isto? Eis um Novo Ensinamento, e feito com autoridade. Além disso, Ele manda até nos espíritos imundos e eles obedecem-Lhe!'" Mc 1,23-28
    Isso continuou acontecendo durante todo Seu Ministério: "Quando os espíritos imundos O viam, prostravam-se diante d'Ele e gritavam: 'Tu és o Filho de Deus!' E Ele severamente proibia-os que O dessem a conhecer." Mc 3,11-12
    São Lucas também registrou essa constante: "De muitos saíam os demônios, aos gritos, dizendo: 'Tu és o Filho de Deus.' Mas Ele severamente repreendia-os, não lhes permitindo falar, porque sabiam que Ele era o Cristo." Lc 4,41
    Havia, porém, gravíssimos casos de possessão: "Mal saltou em terra, veio-Lhe ao encontro um homem dessa região, possuído de muitos demônios. Há muito tempo não se vestia nem parava em casa, mas habitava no cemitério. Ao ver Jesus, prostrou-se diante d'Ele e gritou em alta voz: 'Por que Te ocupas de mim, Jesus, Filho do Altíssimo Deus? Rogo-Te, não me atormentes!' Porque Jesus ordenara ao espírito imundo que saísse do homem, pois há muito tempo que se apoderara dele e guardavam-no preso em cadeias e com grilhões nos pés, mas ele rompia as cadeias e era impelido pelo Demônio para os desertos. Jesus perguntou-lhe: 'Qual é teu nome?' Ele respondeu: 'Legião!' Porque eram muitos os demônios que nele se ocultavam. E pediam-Lhe que não os mandasse ir para o abismo. Ora, ali no monte andava pastando uma grande manada de porcos. Rogaram-Lhe os demônios que lhes permitisse entrar neles. Ele permitiu. Saíram, pois, os demônios do homem e entraram nos porcos, e a manada de porcos impetuosamente precipitou-se no lago, pelo despenhadeiro, e afogou-se." Lc 8,27-33
    Mas Nosso Salvador mesmo explicou que uma completa dominação não acontece de súbito. Há etapas, pelas quais ela avança certamente sobre concupiscências: "Como pode alguém penetrar na casa de um homem forte e roubar-lhe os bens, sem ter primeiro amarrado este homem forte? Só então pode roubar sua casa." Mt 12,29
    Com efeito, como não ver nos pecados capitais uma demoníaca possessão, 'um verme' que, aparentemente inofensivo, não morre e arrasta as almas para o inferno? Sobre o que fazemos, por onde andamos e nossos planos, Jesus afirmou: "Se tua mão for para ti ocasião de queda, corta-a! Melhor é entrares aleijado na Vida que, tendo duas mãos, ires para a geena, para o fogo inextinguível, onde seu verme não morre e o fogo não se apaga. Se teu pé for para ti ocasião de queda, corta-o fora! Melhor é entrares coxo na Vida Eterna que, tendo dois pés, seres lançado à geena do fogo inextinguível, onde seu verme não morre e o fogo não se apaga. Se teu olho for para ti ocasião de queda, arranca-o! Melhor é entrares com um olho de menos no Reino de Deus que, tendo dois olhos, seres lançado à geena do fogo, onde seu verme não morre e o fogo não se apaga." Mc 9,43-48
    E Ele nem sempre Se dispunha, senão diante de verdadeira fé, a resolver qualquer vexação: "Jesus partiu dali e retirou-Se para os arredores de Tiro e Sidônia. E eis que uma cananeia, originária daquela terra, gritava: 'Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim! Minha filha está cruelmente atormentada por um demônio.' Jesus não lhe respondeu palavra alguma. Seus discípulos vieram a Ele e com insistência disseram-Lhe: 'Despede-a, ela persegue-nos com seus gritos.' Jesus respondeu-lhes: 'Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da Casa de Israel.' Mas aquela mulher veio prostrar-se diante d'Ele, dizendo: 'Senhor, ajuda-me!' Jesus respondeu-lhe: 'Não convém jogar aos cachorrinhos o pão dos filhos.' 'Certamente, Senhor', replicou-Lhe ela, 'mas os cachorrinhos ao menos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos...' Disse-lhe, então, Jesus: 'Ó mulher, grande é tua fé! Seja-te feito como desejas.' E na mesma hora sua filha ficou curada."Mt 15,21-28
    Vexações, obsessões e possessões, com efeito, quase sempre são acompanhadas de doenças. E elas podem ser resultar do pecado, como Nosso Senhor viu uma paralisia: "Eis que Lhe apresentaram um paralítico estendido numa padiola. Jesus, vendo a fé daquela gente, disse ao paralítico: 'Meu filho, coragem! Teus pecados são-te perdoados.' Ouvindo isto, alguns escribas murmuraram entre si: 'Este homem blasfema.' Jesus, penetrando-lhes os pensamentos, perguntou-lhes: 'Por que pensais mal em vossos corações? Que é mais fácil dizer: Teus pecados são-te perdoados, ou: Levanta-te e anda? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem na Terra o poder de perdoar os pecados: Levanta-te', disse Ele ao paralítico, 'toma tua maca e volta para tua casa.'" Mt 9,2-6
    Há casos, porém, em que ocorre o inverso: a possessão dá-se por conta da enfermidade: "... apresentaram-Lhe um mudo, possuído do Demônio. O Demônio foi expulso, o mudo falou e a multidão exclamava com admiração: 'Jamais se viu algo semelhante em Israel.'" Mt 9,32b-33
    Contudo, na casa do centurião, onde o primeiro grupo de não judeus receberia o Divino Paráclito, no chamado 'Pentecostes dos Gentios', São Pedro tão somente falou em casos de opressão, uma genérica forma destes assédios: "Vós sabeis como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com o poder, como Ele andou fazendo o bem e curando todos oprimidos do Demônio, porque Deus estava com Ele." At 10,38
    E o próprio Jesus apontou, ao menos uma vez, uma enfermidade como ação direta de Satanás: "Ali vivia uma mulher que, havia dezoito anos, era possessa de um espírito que a detinha doente: andava curvada e absolutamente não podia erguer-se. Ao vê-la, Jesus chamou-a e disse-lhe: 'Estás livre de tua doença.' Impôs-lhe as mãos e no mesmo instante ela endireitou-se, glorificando a Deus. 'Esta filha de Abraão, que Satanás paralisava há dezoito anos, não devia ser livre desta prisão, em dia de sábado?'" Lc 13,11-13.16
    Ademais, mesmo gente que viria a ser Santa havia-se tornado refém de maus espíritos: "Os Doze estavam com Ele, como também algumas mulheres que tinham sido livradas de malignos espíritos e curadas de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios..." Lc 8,2
    Por isso, após alguns tempos de vida pública, Jesus já não mais ocultava nem Sua missão nem Seu tempo aqui na Terra: "... eis que expulso demônios, e faço curas hoje e amanhã..." Lc 13,32
    E assim o Amado Discípulo resumiu Sua passagem entre nós: "Eis porque o Filho de Deus Se manifestou: para destruir as obras do Demônio." 1 Jo 3,8b
    Nesse sentido, a escolha dos Apóstolos foi acompanhada da dotação destes específicos poderes, como dissemos, mas acrescentou-lhes o poder de curar enfermidades: "Reunindo Jesus os Doze Apóstolos, deu-lhes poder e autoridade sobre todos demônios, e para curar enfermidades." Lc 9,1
    São Marcos sintetizou a instituição dos Doze, mas não deixou de ressaltar este poder: "Ele enviá-los-ia a pregar, com o poder de expulsar os demônios." Mc 3,15
    Aliás, conforme São Mateus, Ele também lhes deu o poder de restituir a vida: "Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. Recebestes de graça, de graça dai!" Mt 10,8
     E, de fato, eles tiveram muito trabalho desde a primeira missão que Ele lhes deu: "Expeliam numerosos demônios, ungiam com óleo a muitos enfermos e curavam-nos." Mc 6,13
    Mas nem sempre eles o conseguiam, como Jesus teve que ensinar: "Quanto a esta espécie de demônio, só se pode expulsar à força de oração e de jejum." Mt 17,20
    Até mesmo um de Seus Apóstolos tornou-se vítima do inimigo, como se viu noite da Santa Ceia: "Em seguida, Jesus molhou o pão e deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. Logo que ele o engoliu, Satanás entrou nele." Jo 13,26-27
    Porém, como Nosso Senhor ensinou, não foi de súbito. São João narrou uma etapa anterior: "Durante a Ceia, quando o Demônio já tinha lançado no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de traí-Lo..." Jo 13,2
    E se Satanás entrou nele, tal 'espaço' havia sido reservado por um mal espírito, como Jesus já tinha percebido desde que ofereceu Seu Corpo e Seu Sangue como o Pão do Céu: "Não vos escolhi Eu todos Doze? Contudo, um de vós é um demônio!" Jo 6,70b
    Ora, assim continua acontecendo com membros da Igreja desde seus primeiríssimos anos: "Pedro, porém, disse: 'Ananias, por que Satanás tomou conta de teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo e enganasses acerca do valor do campo? Não foi aos homens que mentiste, mas a Deus!'" At 5,3.4b
    E nem todos que dizem realizar exorcismos estão servindo a Jesus, como Ele mesmo sentenciou referindo-Se ao Juízo, quer o Particular, quer o Final: "Muitos di-Me-ão naquele Dia: 'Senhor, Senhor, não pregamos nós em Vosso Nome, e não foi em Vosso Nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres?' E, no entanto, Eu di-lhes-ei: 'Nunca vos conheci. Retirai-vos de Mim, maus operários!'" Mt 7,22-23
    Alguns que se julgam capacitados passam por maus momentos, como esta passagem dada em Éfeso: "Alguns exorcistas judeus, que percorriam vários lugares, inventaram de invocar o Nome do Senhor Jesus sobre aqueles que se achavam possessos de malignos espíritos, com estas palavras: 'Esconjuro-vos por Jesus, a Quem Paulo prega.' Assim procediam os sete filhos de um judeu chamado Cevas, sumo sacerdote. Mas o espírito maligno replicou-lhes: 'Conheço Jesus e sei quem é Paulo. Mas vós, quem sois?' Nisto, saltando sobre eles o homem possuído do maligno espírito, apoderou-se de dois deles e subjugou-os de tal maneira que tiveram que fugir daquela casa feridos e com as roupas estraçalhadas." At 19,13-16
    Ao passo que aqueles que realmente receberam esse dom de Deus, são verdadeiros seguidores do Cristo: "João disse-Lhe: 'Mestre, vimos alguém, que não nos segue, expulsar demônios em Teu Nome, e proibimo-lho.' Jesus, porém, disse-lhe: 'Não lho proibais, porque ninguém há que faça um prodígio em Meu Nome e em seguida possa falar mal de Mim. Pois quem não é contra nós, é a Nosso favor." Mc 9,38-40


PELO PODER DO ESPÍRITO SANTO

    Foi, pois, pela ostensiva manifestação do Espírito Santo que Jesus exorcizou, e assim, como visto, Ele instaurou o Reino dos Céus entre nós: "Mas se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus." Mt 12,28
    De fato, Ele declarou-o desde Seu 'discurso inaugural' na sinagoga de Nazaré, quando abertamente proclamou a libertação dos cativos (cf. Lc 4,18), lendo uma profecia que falava por Ele, no Livro do Profeta Isaías: "O Espírito do Senhor repousa sobre Mim, porque o Senhor consagrou-Me pela Unção. Ele enviou-Me a levar a Boa Nova aos humildes, curar os corações doloridos, anunciar aos cativos a Redenção, e aos prisioneiros a liberdade..." Is 61,1
    Esse foi o poder dado por Jesus aos Apóstolos, e assim à Igreja, quando os ungiu com o Divino Paráclito para reconciliar o povo com Deus, através do Sacramento da Confissão: "'Como o Pai Me enviou, Eu também vos envio.' Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, sê-lhes-ão perdoados. Àqueles a quem os retiverdes, sê-lhes-ão retidos.'" Jo 20,21-23
    Os fieis, no entanto, d'Ele não receberam poder para expulsar maus espíritos, como Jesus deu aos Apóstolos e assim foi retransmitido aos Seus Sacerdotes. Eles receberam, na verdade, o Espírito Santo para obedecer à Sã Doutrina, como São Pedro diz logo no início de sua epístola primeira: "... eleitos segundo a presciência de Deus Pai, e santificados pelo Espírito para obedecer a Jesus Cristo..." 1 Pd 1,2a
    Sem dúvida, mais que tudo São Paulo vai exaltar, por força do Pentecostes, nossa mera libertação do pecado, o que absolutamente leva à Salvação. Ele diz do Novo em contraponto ao Antigo Testamento: "A Lei do Espírito de Vida libertou-me, em Jesus Cristo, da Lei do pecado e da morte. O que era impossível à Lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus fez! Enviando, por causa do pecado, Seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne, a fim de que a justiça prescrita pela Lei fosse realizada em nós que vivemos não segundo a carne, mas segundo o espírito. Ora, a aspiração da carne é a morte, enquanto a aspiração do espírito é a Vida e a Paz. Porque o desejo da carne é hostil a Deus, pois a carne não se submete à Lei de Deus, e nem o pode. Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus. Se alguém não possui o Espírito de Cristo, este não é d'Ele." Rm 8,2-4.6-8.9b
    E fala de nossa obrigatória resistência ao Mal: "Ademais, para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para esbofetear-me e livrar-me do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim, mas Ele disse-me: 'Basta-te Minha Graça, porque é na fraqueza que plenamente se revela Minha força.' Portanto, prefiro gloriar-me de minhas fraquezas, para que em mim habite a força de Cristo." 2 Cor 12,7-9
    Assim, a despeito de casos realmente urgentes, nos quais se recomenda a intensa leitura dos primeiros Salmos e a evocação da proteção da Santíssima Virgem, o Catecismo da Igreja Católica ensina: "Quando a Igreja publicamente e com autoridade exige, em Nome de Jesus Cristo, que uma pessoa ou objeto seja protegido contra a influência do Maligno e subtraído a seu domínio, fala-se de exorcismo. Jesus praticou-o. É d'Ele que a Igreja recebeu o poder e o encargo de exorcizar. Sob uma simples forma, o exorcismo é praticado durante a celebração do Batismo. O exorcismo solene, chamado 'grande exorcismo', só pode ser praticado por um Sacerdote, com a permissão do bispo. Nele é necessário proceder com prudência, estritamente observando as regras estabelecidas pela Igreja. O exorcismo visa expulsar os demônios ou livrar da influência demoníaca, e isto pela autoridade espiritual que Jesus confiou a Sua Igreja. Bem diferente é o caso de doenças, sobretudo psíquicas, cujo tratamento depende da ciência médica. É importante, pois, antes de celebrar o exorcismo, verificar se se trata de uma presença do Maligno ou de uma doença." CIC § 1673
    Por fim, temos esta séria revelação de Nosso Senhor Jesus Cristo a Santa Brígida: "O Demônio sai de algumas pessoas por próprias vontade e disposição, mas de outras sai tão somente pela resistência e sob coação. Entretanto, entra em algumas pessoas devido ao pecado de seus pais ou por algum oculto desígnio de Deus, como, por exemplo, em crianças ou naqueles que carecem de inteligência, e em outras entra por sua infidelidade e pelo pecado alheio. Desses últimos, o Demônio sai quando é expulso por pessoas que conhecem exorcismo ou a arte de expulsar demônios, sempre que o façam sem vã glória ou por algum tipo de benefício temporal, pois o Demônio tem poder para entrar naquele que o expulsa ou para voltar de novo para a mesma pessoa da qual tenha sido expulso, se não houver amor de Deus em nenhum deles. Nunca sai do corpo ou da alma daqueles a quem possui completamente, exceto mediante Meu poder." (Livro I, Capítulo XXXII)

    "Socorrei, com bondade, os que Vos buscam!"

domingo, 30 de março de 2025

A Comunhão


A UNIDADE EM CRISTO

    O quarto Domingo da Quaresma ficou conhecido como o Domingo 'Laetare', que em latim significa 'alegra-te', nome dado por causa do secular hino e muito usado nessa data, versando sobre a alegria de poder participar da Comunhão Eucarística, isto é, do Sacramento da Eucaristia. De fato, nesta vida não há maior alegria que se sentar à mesa com Jesus e comer do Pão da Vida Eterna. No Livro do Apocalipse de São João, uma voz lhe mandou escrever: "Felizes os convidados para a Ceia das Núpcias do Cordeiro." Ap 19,9b
    E no Evangelho segundo São João, na última noite entre os Apóstolos, em oração que fez ao Pai pela Unidade da Igreja, quer dizer, pela plena comunhão, entre os homens, dos valores da Revelação, Nosso Senhor pediu Seus auxílios para que os Apóstolos permanecem em perfeita União entre si, tal qual a União da Santíssima Trindade: "Manifestei Teu Nome aos homens que do mundo Me deste. Eram Teus e deste-Mos, e guardaram Tua Palavra. Por eles é que Eu rogo. Pai Santo, guarda-os em Teu Nome, que Me encarregaste de fazer conhecer, a fim de que sejam Um como Nós." Jo 17,6.9a.11
    Em seguida, pediu pelos fiéis, ou seja, por nós, por todos aqueles que seguiriam os ensinamentos dos Apóstolos: "Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que pela palavra deles hão de crer em Mim." Jo 17,20
    E enfim pediu pelo dom maior: pela comunhão espiritual entre os membros da Igreja, sejam Sacerdotes ou fiéis, e Deus, União que é a própria prova da Vinda de Nosso Salvador ao mundo: "Para que todos sejam Um, assim como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti. Para que eles também estejam em Nós e o mundo creia que Tu Me enviaste." Jo 17,21
    Ora, Revelando-Se Deus nessa mesma ocasião, momentos antes Ele havia afirmado que essa Unidade com Ele, o que inclui o Pai e o Divino Espirito Santo, pela indivisibilidade da Trindade Santa, é imprescindível à efetiva vida espiritual: "Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanecer em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto..." Jo 15,5a
    E sempre dizendo-Se essencial, sentenciou: "... porque sem Mim nada podeis fazer." Jo 15,5b
    De fato, Jesus revelava-Se essencial a toda humanidade, como já havia dito aos líderes judeus em Jerusalém: "Porque se não crerdes que EU SOU, morrereis em vosso pecado." Jo 8,24b
    Por isso, pouco depois da Santa Ceia, Ele disse sobre o dia de Sua Ressurreição, afirmando a Comunhão dos Santos: "Naquele dia, conhecereis que estou em Meu Pai, vós em Mim e Eu em vós." Jo 14,20
    E falou da consequência do verdadeiro amor à Revelação: "Se alguém Me ama, guardará Minha Palavra e Meu Pai amá-lo-á, e Nós viremos a ele e nele faremos Nossa morada." Jo 14,23a
    Garantia, ainda em Sua pregações, que sempre que estivermos unidos, e realmente em Seu Nome, ou seja, obedecendo a tudo que Ele ensinou, teremos Sua presença para além de Sua Onipresença. Está no Evangelho segundo São Mateus: "Porque onde dois ou três estão reunidos em Meu Nome, aí estou Eu em meio a eles." Mt 18,20
     Porque onde a Sã Doutrina for respeitada em sua integridade, aí está a Verdadeira Igreja, aí está Jesus, como Ele determinou, e prometeu, instantes antes de Sua Ascensão aos Céus: "Ensinai-as (as nações) a observar tudo que vos prescrevi. Eis que convosco estou todos dias, até o fim do mundo." Mt 28,20
    Por fim, sabendo que o mundo só acreditaria na Manifestação do Cristo se enxergasse uma verdadeira União entre os cristãos, na noite do início de Sua Paixão, Jesus derramou Sua Glória sobre os Apóstolos, porque a Santa Igreja.Católica é a marca de Sua passagem entre nós e do amor do Deus. Ele rezou ao Pai nessa mesma Oração da Unidade, enquanto Se despedia dos Apóstolos: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam Um, como Nós somos Um: Eu neles e Tu em Mim. Para que sejam perfeitos na Unidade, e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    Por isso, também nesta noite tinha pedido aos Apóstolos por este símbolo maior de Sua Igreja: "Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos: se vos amardes uns aos outros." Jo 13,35
    Deixando claro, no entanto, o parâmetro desse amor que deveremos viver: Seu amor por nós: "Dou-vos um novo Mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como Eu vos tenho amado, também vós deveis amar-vos uns aos outros." Jo 13,34
    Assim Ele pedia perseverança e prometia a verdadeira alegria: "Como o Pai Me ama, Eu também vos amo. Perseverai em Meu amor. Se guardardes Meus Mandamentos, sereis constantes em Meu amor, como Eu também guardei os mandamentos de Meu Pai e persisto em Seu amor. Disse-vos essas coisas para que Minha alegria esteja em vós, e vossa alegria seja completa." Jo 15,9-11
    E explicitou: "Ninguém tem maior amor que aquele que dá sua vida por seus amigos." Jo 15,13
    Não por acaso, a Primeira Carta de São João prescreve a verdadeira conversão: "Nisto temos conhecido o amor: Jesus deu Sua Vida por nós. Nós também devemos dar nossa vida por nossos irmãos." 1 Jo 3,16


O PÃO DO CÉU

    Jesus já havia falado sobre o Pão do Céu, essencial para a comunhão espiritual. Ele ofereceria Seu Corpo e Seu Sangue em sacrifício por amor à humanidade, para a Redenção de nossos pecados e para que Se tornasse o alimento da Vida Eterna. Portanto, o Corpo de Cristo, isto é, a Comunhão Eucarística, é o verdadeiro maná (cf. Êx 16,14) oferecido pelo Pai, como Ele disse aos judeus em Cafarnaum, depois que multiplicou pães e peixes numa região desértica: "Então lhes disse Jesus: 'Em Verdade, em Verdade, digo-vos: se não comerdes a Carne do Filho do Homem, e não beberdes Seu Sangue, não tereis a Vida em vós mesmos. Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue tem a Vida Eterna, e Eu ressuscitá-lo-ei no Último Dia. Pois Minha Carne é verdadeiramente comida e Meu Sangue, verdadeiramente bebida. Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue permanece em Mim e Eu nele. Este é o Pão que desceu do Céu. Não como o maná que vossos pais comeram e morreram. Quem come deste Pão viverá eternamente.'" Jo 6,53-56.58
    Realmente falava de outra Vida: "Assim como vive o Pai que Me enviou, e Eu vivo pelo Pai, aquele que comer Minha Carne também viverá por Mim." Jo 6,57
    O Rito Eucarístico, pois, tornou-se prática entre os Apóstolos e os fiéis desde os primeiríssimos dias da Igreja, como vemos logo após o Pentecostes, no Livro de Atos dos Apóstolos: "Eles (os fiéis) eram perseverantes na Doutrina dos Apóstolos, na fraterna Comunhão, na fração do Pão e nas orações." At 2,42
    E desde sempre reverenciando o dia da Ressurreição de Jesus, ele era celebrado no Domingo, como vemos da prática de São Paulo, aqui na cidade de Trôade: "No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para partir o pão, Paulo, que havia de viajar no dia seguinte, conversava com os discípulos e prolongou a palestra até a meia-noite." At 20,7
    A Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios ensina que no Sacrifício oferecido por Jesus, mistério ao qual somos chamados a participar, está a prova da fidelidade de Deus, que nos oferece a Vida Eterna: "Fiel é Deus, por Quem fostes chamados à Comunhão em Seu Filho Jesus Cristo, Nosso Senhor." 1 Cor 1,9
    Ferrenho defensor da Unidade, ele diz que os membros da Igreja, ao participar do Rito Eucarístico, entram em perfeita Comunhão com Cristo, quer dizer, vivem em verdadeira Unidade com Ele e tornam-se um só Corpo: "O Cálice de bênção, que benzemos, não é a Comunhão do Sangue de Cristo? E o Pão, que partimos, não é a Comunhão do Corpo de Cristo? E como há um único Pão, nós, embora muitos, somos um só Corpo, pois todos participamos desse único Pão." 1 Cor 10,16-17
    Mas alerta que nem todos ritos religiosos, que dizem oferecer a Comunhão, devidamente respeitam o Sacrifício de Cristo. E proibia quem os frequentasse de participar do verdadeiro altar do Senhor: "Digo o contrário: é aos demônios e não a Deus que os pagãos oferecem sacrifícios. Não quero que entreis em comunhão com os demônios. Não podeis beber do Cálice do Senhor e do cálice dos demônios. Não podeis participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios." 1 Cor 10,20-21
    Ele bem sabia que nem todo pão honra a Igreja de Cristo: "Pois Nossa Páscoa, Cristo, foi imolada. Celebremos a festa, pois, não com o velho fermento nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os pães sem fermento, de pureza e de Verdade." 1 Cor 5,8
    Com veemência, a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios pedia que usássemos de discernimento, porque respeitar é diferente de participar: "Não vos atreleis ao mesmo jugo que os infiéis! Pois que afinidade poderia existir entre a justiça e a iniquidade? Ou que comunhão entre a Luz e as trevas?" 2 Cor 6,14
    E ele alerta, quem está em pecado grave, da necessária Confissão antes de comungar: "Portanto, todo aquele que indignamente comer o Pão ou beber o Cálice do Senhor será culpável do Corpo e do Sangue do Senhor. Que cada um examine a si mesmo, e assim coma desse Pão e beba desse Cálice. Aquele que o come e o bebe sem distinguir o Corpo do Senhor, come e bebe sua própria condenação. Esta é a razão porque entre vós há muitos adoentados e fracos, e muitos mortos." 1 Cor 11,27-30
    Mencionando a Graça Sacramental, enfim, enquanto Sacerdote da Igreja, pedia o devido respeito a todos Sacramentos: "Na qualidade de colaboradores de Deus, exortamo-vos a que não recebais Sua Graça em vão." 2 Cor 6,1


A COMUNHÃO DO ESPÍRITO SANTO

    E como o Amado Discípulo bem disse, só o Espírito de Deus, que conduz a Santa Igreja (cf. Jo 16,13), pode levar-nos à verdadeira Comunhão: "Quem observa Seus (Jesus) Mandamentos permanece em Deus, e Deus permanece nele. E que Ele permanece em nós, sabemos pelo Espírito que nos deu." 1 Jo 3,24
    Mas o Espírito de Deus, afirmou Jesus, não pode ser recebido por qualquer pessoa. Ele é exclusivamente derramado sobre Sua Igreja: "É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber porque não O vê nem O conhece. Mas vós conhecê-Lo-eis, porque convosco permanecerá e em vós estará." Jo 14,17
    São Pedro, quando foi preso pelos judeus com todos Apóstolos depois do Pentecostes, disse no Sinédrio a quem Deus O concede: "Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem." At 5,32
    Ora, falando dessa Comunhão, São Paulo concebeu esta belíssima frase que é usada no início da Santa Missa: "Que a Graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a Comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!" 2 Cor 13,13
    Ele reclamou dos cristãos da cidade de Corinto: "Nós somos cooperadores de Deus. Vós, o campo de Deus, o edifício de Deus. Não sabeis que sois o Templo de Deus, e que o Espírito de Deus em vós habita?" 1 Cor 3,9.16
    Peremptoriamente afirmou: "... quem se une ao Senhor, com Ele torna-se um só Espírito." 1 Cor 6,17
    E a Carta de São Paulo aos Filipenses exalta a unidade entre eles, agradecendo a Deus em suas orações: "... por causa de vossa Comunhão no anúncio do Evangelho, desde o primeiro dia até agora." Fl 1,5
    Em nome da Comunhão no Espírito Santo, carinhosamente pedia a todos que mantivessem essa indefectível união: "Se me é possível, pois, alguma consolação em Cristo, algum caridoso estímulo, alguma Comunhão no Espírito, alguma ternura e compaixão, completai minha alegria deixando-vos guiar pelos mesmos propósitos e pelo mesmo amor, em harmonia buscando a unidade." Fl 2,1

POR CRISTO, PARA O BEM DA IGREJA

    Ora, o Apóstolo dos Gentios tinha-se despojado de tudo para buscar a total comunhão com Cristo: "E assim quero conhecer a Cristo, o poder de Sua Ressurreição e a comunhão em Seus sofrimentos, para tornar-me semelhante a Ele em Sua Morte..." Fl 3,10
    E a Carta de São Paulo aos Romanos, com esse mesmo argumento, explicou o sentido da Santa Missa, onde revivemos e atualizamos a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo: "Eu exorto-vos, pois, irmãos, pelas Misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em vivo, santo e agradável sacrifício a Deus: é este vosso culto espiritual!" Rm 12,1
    Afirma que comungar é capacitar-se para ser instrumento do Sumo Bem, como está na Carta de São Paulo a Filêmon: "Que tua comunhão na seja eficaz, fazendo-te conhecer todo bem que somos capazes de realizar para Cristo." Fm 1,6
    No mesmo sentido, São João Evangelista diz que o anúncio do Evangelho tem como evidente finalidade a comunhão, com Deus e com os irmãos na Igreja: "O que vimos e ouvimos, isso agora vos anunciamos para que estejais em comunhão conosco. Nossa comunhão é com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo." 1 Jo 1,3
    Pede amor ao Verdadeiro Evangelho: "Que permaneça em vós o que tendes ouvido desde o princípio. Se permanecer em vós o que ouvistes desde o princípio, também permanecereis vós no Filho e no Pai." 1 Jo 2,24
    Lembrando o purificador poder do Sangue de Cristo, ele também pediu discernimento aos que participam da Santa Ceia: "Se dizemos que estamos em comunhão com Deus, e no entanto andamos em trevas, somos mentirosos e não praticamos a Verdade. Mas se caminhamos na Luz, como Ele está na Luz, então estamos em comunhão uns com os outros, e o Sangue de Jesus, Seu Filho, purifica-nos de todo pecado." 1 Jo 1,6-7
    E os Apóstolos, mesmo diante de ocasionais divergências, buscaram viver a perfeita comunhão. É o que a Carta de São Paulo aos Gálatas atesta: "Por isso, Tiago, Pedro e João, considerados como colunas, reconheceram a Graça que me fora concedida, e a mim e a Barnabé estenderam a mão em sinal de comunhão. Assim ficou confirmado que nós trabalharíamos com os não judeus, e eles com os judeus." Gl 2,9
    Por isso, ele vai reclamar dos coríntios: "Rogo-vos, irmãos, em Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que todos estejais em pleno acordo e que entre vós não haja divisões. Vivei em boa harmonia, no mesmo Espírito e no mesmo sentimento. Pois acerca de vós, irmãos meus, fui informado pelos que são da casa de Cloé que há contendas entre vós. Refiro-me ao fato de que entre vós se usa esta linguagem: 'Eu sou discípulo de Paulo'; 'eu, de Apolo'; 'eu, de Cefas'; 'eu, de Cristo'. Então estaria Cristo dividido? É Paulo quem foi crucificado por vós? É em nome de Paulo que fostes batizados?" 1 Cor 1,10-13


     Há mais um importantíssimo capítulo sobre esse tema, chamado a Comunhão dos Santos. Para que tenhamos mais acabada ideia do que ela significa, Jesus rezou ao Pai para que Sua Unidade com os Seus, quer estejam nos Céus ou na Terra, jamais fosse interrompida: "Pai, aqueles que Tu Me deste, quero que eles estejam Comigo, onde Eu estiver, para que eles contemplem a Glória que Me deste, pois Me amaste antes da criação do mundo." Jo 17,24
    A Carta de São Paulo aos Efésios também mencionou essa família que se encontra 'no Céu e na Terra': "Por esta causa dobro os joelhos em presença do Pai, ao Qual deve sua existência toda família no Céu e na Terra..." Ef 3,14-15
    E completou: "Consequentemente, já não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois concidadãos dos Santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos Apóstolos e Profetas, tendo por Pedra Angular o próprio Cristo Jesus. É n'Ele que todo edifício se levanta, harmonicamente disposto, até formar um santo Templo no Senhor. É n'Ele que vós conjuntamente também entrais, pelo Espírito, na estrutura do edifício que se torna a habitação de Deus." Ef 2,19-22
    Quando escreveu aos cristãos da cidade de Filipo, referindo-se agora à razão dessa comunhão, outra vez ele disse: "Nós, porém, somos cidadãos dos Céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante ao Seu Corpo Glorioso, em virtude do poder que tem de sujeitar a Si toda criatura." Fl 3,20-21
    Ora, na revelações do Apocalipse, São João Apóstolo teve uma visão das almas dos Santos no Céu, enquanto intercediam a Deus, quando lhes foi informado que outras almas ainda deveriam dar seus testemunhos: "Quando abriu o quinto selo, debaixo do altar vi as almas dos homens imolados por causa da Palavra de Deus e do testemunho de que eram depositários. E clamavam em alta voz, dizendo: 'Até quando Tu, que és o Senhor, o Santo, o Verdadeiro, ficarás sem fazer justiça e sem vingar nosso sangue contra os habitantes da Terra?' Então foi dada a cada um deles uma branca veste, e lhes foi dito que ainda aguardassem um pouco, até que se completasse o número dos companheiros de serviço e irmãos que como eles estavam para ser mortos." Ap 6,9-11
    Mas também viu o cumprimento da profecia de Jesus (cf. Mt 8,11), apontando que os Santos já reinam sobre este mundo. Os anjos cantaram-Lhe: "Vós (Cordeiro de Deus) sois digno de receber o Livro e de abrir-lhe os selos, porque fostes imolado, e com Vosso Sangue adquiristes para Deus gente de toda tribo, língua, povo e nação. Deles fizestes para Nosso Deus um Reino de Sacerdotes, e eles reinarão sobre a Terra." Ap 5,9-10


A INSTITUIÇÃO DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO POR JESUS

    Por isso, temos como a maior das alegrias a Comunhão com Cristo. Com efeito, Ele mesmo instituiu-a e claramente pediu que a celebrássemos. O Evangelho segundo São Lucas assim narrou:

    "Chegada que foi a hora, Jesus pôs-Se à mesa, e com Ele os Apóstolos. Disse-lhes:
    - Muito tenho desejado convosco comer esta Páscoa, antes de sofrer. Pois, digo-vos: não tornarei a comê-la, até que ela se cumpra no Reino de Deus.
    Pegando o cálice, deu graças e disse:
    - Tomai este cálice e distribuí-o entre vós. Pois, digo-vos: já não tornarei a beber do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus.
    Em seguida, tomou o pão e depois de ter dado graças, partiu-O e deu-lhO, dizendo: 
    - Isto é Meu Corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de Mim.
    Do mesmo modo tomou o cálice, depois de cear, dizendo:
    - Este Cálice é a Nova Aliança em Meu Sangue, que é derramado por vós..." 
                                               Lc 22,14-20

    De fato, em revelação, Ele prometeu que estaria à porta da casa de nosso coração: "Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir Minha voz e Me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, Eu com ele e ele Comigo." Ap 3,20

    "Em comunhão com toda a Igreja aqui estamos!"

sábado, 29 de março de 2025

O Antigo Testamento


    A História da Salvação desenvolveu-se em paralelo à evolução de nossas organizações sociais, e assim até a plenitude dos tempos, quando, no Evangelho segundo São Mateus, Jesus diz do Antigo Testamento: "Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim para aboli-los, mas sim para levá-los à perfeição." Mt 5,17
    E a Carta de São Paulo aos Efésios diz o que representa a Boa Nova: "Ele (Deus) manifestou-nos o misterioso desígnio de Sua vontade que em Sua benevolência formara desde sempre, para realizá-lo na plenitude dos tempos: desígnio de em Cristo reunir todas coisas, as que estão nos Céus e as que estão na Terra." Ef 1,9-10
    Já a Carta de São Paulo aos Gálatas fala das grandes dádivas que foram o Advento e o Pentecostes: "Mas quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho, que nasceu de uma mulher e nasceu submetido a uma lei, a fim de remir os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos Sua adoção. A prova de que sois filhos é que, aos vossos corações, Deus enviou o Espírito de Seu Filho, que clama: Aba, Pai!" Gl 4,4-6
    Deve-se lembrar, porém, que a Lei nem sempre existiu entre os israelitas, e quando foi anunciada por Moisés se vivia o tempo da promessa feita a Abraão. O Apóstolo dos Gentios explica, declinando a Revelação feita por Deus, em Pessoa (cf. Êx 34,10), para atribuí-la a anjos, como se convencionou à sua época (cf. At 7,53): "Afirmo, portanto: a Lei, que veio quatrocentos e trinta anos mais tarde, não pode anular o Testamento em boa e devida forma feito por Deus, e não pode tornar sem efeito a promessa. Porque se a herança fosse obtida pela Lei, já não proviria da promessa. Ora, pela promessa é que Deus deu Seu favor a Abraão. Então que é a Lei? Foi acrescentada em vista das transgressões, até que viesse a descendência a quem fora feita a promessa. Foi promulgada por anjos, passando por um intermediário. Assim, a Lei tornou-se um pedagogo encarregado de levar-nos a Cristo, para sermos justificados pela ." Gl 3,17-19.24
    E foi Jesus mesmo Quem dividiu os tempos da Revelação. No Evangelho segundo São Lucas, Ele apontou São João Batista como o último marco da Antiga Aliança: "A Lei e os Profetas duraram até João." Lc 16,16
    Porque, como veio para aperfeiçoá-la, também determinou sua perenidade até a Recriação do céu e da Terra: "Pois em Verdade, digo-vos: passará o céu e a Terra antes que desapareça um jota, um traço da Lei." Mt 5,18
    Com constância, pois, Ele vai invocá-la. Sobre os Mandamentos, cita o Livro de Deuteronômio e o Livro de Levítico: "'Mestre, qual é o maior Mandamento da Lei?' Respondeu Jesus: 'Amarás o Senhor Teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu entendimento (Dt 6,5). Este é o maior e o primeiro Mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18). Nesses dois Mandamentos resumem-se toda a Lei e os Profetas.'" Mt 22,37-40
    Assim ensinou a 'lei de ouro': "Tudo que quereis que os homens vos façam, fazei vós a eles. Esta é a Lei e os Profetas." Mt 7,12
    Valendo-Se dela, questionava seus opositores:
    "Jesus respondeu-lhes: 'Não lestes o que fez Davi num dia em que teve fome, ele e seus companheiros, como entrou na Casa de Deus e comeu os pães da proposição?'" Mt 12,3-4a
    "Respondeu-lhes Jesus: 'Não lestes que o Criador, no começo, fez o homem e a mulher e disse: Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e unir-se-á à sua mulher. E os dois formarão uma só carne?'" Mt 19,4
    "Não lestes na Lei que, nos dias de sábado, os sacerdotes transgridem no Templo o descanso do sábado e não se tornam culpados?" Mt 12,5
    "Mas quanto à Ressurreição dos Mortos, não lestes no Livro de Moisés como Deus lhe falou da sarça, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó (Êx 3, 6)? Ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos." Mc 12,26-27a
    A Segunda Carta de São Pedro, por sua vez, exalta as profecias pelo cumprimento da passagem de Cristo, que confirma os projetos de Deus: "Assim demos ainda maior crédito à Palavra dos Profetas, à qual bem fazeis em atender como a uma lâmpada que brilha em um tenebroso lugar, até que desponte o dia e a Estrela da Manhã Se levante em vossos corações." 2 Pd 1,19
    Pois, desde o início, o Catolicismo preservou a importância do Antigo Testamento. Quando ouviram os relatos de sucesso da pregação de São Paulo, São Tiago Menor, então bispo de Jerusalém, e os anciãos reafirmaram esse vínculo. É o que se lê no Livro de Atos dos Apóstolos: "Ouvindo isso, glorificaram a Deus e disseram a Paulo: 'Bem vês, irmão, quantos milhares de judeus abraçaram a sem abandonar seu zelo pela Lei.'" At 21,20
    Até mesmo sacerdotes do judaísmo, sem nenhum embaraço, tornaram-se cristãos, como se viu depois do Sacramento da Ordenação dos primeiros diáconos da Santa Igreja: "Divulgou-se sempre mais a Palavra de Deus. Multiplicava-se consideravelmente o número dos discípulos em Jerusalém. Também grande número de sacerdotes aderia à fé." At 6,7
    De fato, no Evangelho segundo São João, Jesus havia afirmado perante os líderes judeus de Jerusalém: "Vós perscrutais as Escrituras, nelas julgando encontrar a Vida Eterna. Pois bem! São elas mesmas que dão testemunho de Mim. Pois se crêsseis em Moisés, certamente creríeis em Mim, porque ele escreveu a Meu respeito. Mas se não acreditais em seus escritos, como acreditareis em Minhas palavras?" Jo 5,39.46-47
    Explanou aos discípulos que partiram para Emaús no Domingo da Ressurreição, sem acreditar nos testemunhos de Sua Ressurreição: "E começando por Moisés, percorrendo todos Profetas, explicava-lhes o que d'Ele se achava dito em todas Escrituras." Lc 24,27
    E aos próprios Apóstolos, em Sua primeira aparição ao Colégio: "Isto é o que Eu vos dizia quando ainda estava convosco: era necessário que se cumprisse tudo que de Mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.' Abriu-lhes então o espírito, para que compreendessem as Escrituras..." Lc 24,44b-45a
    Ora, assim os primeiros Apóstolos O identificaram, logo após Seu Batismo no rio Jordão por São João Batista: "Filipe encontra Natanael e diz-lhe: 'Achamos Aquele de Quem Moisés escreveu na Lei e que os Profetas anunciaram: é Jesus de Nazaré, Filho de José." Jo 1,45
    E o Amado Discípulo atestou em primeiras linhas de seu Evangelho: "Pois a Lei foi dada por Moisés, mas a Graça e a Verdade vieram por Jesus Cristo." Jo 1,17
    Com efeito, ainda no Antigo Testamento, Deus mesmo havia-Se pronunciado no Livro do Profeta Jeremias, prometendo a Nova Aliança. Ou seja, haveria uma renovação, mesmo que seguisse chamando o novo povo de Deus de 'Israel': "Dias hão de vir', Oráculo do Senhor, 'em que firmarei Nova Aliança com as casas de Israel e de Judá. Será diferente da que concluí com seus pais, no dia em que pela mão os tomei para tirá-los de Egito, Aliança que violaram embora Eu fosse o Esposo deles. Eis a Aliança que, então, farei com a Casa de Israel', Oráculo do Senhor: 'Incutir-lhe-ei Minha Lei, gravá-la-ei em seu coração. Serei Seu Deus e Israel será Meu povo. Então ninguém terá encargo de instruir seu próximo ou irmão, dizendo: Aprende a conhecer o Senhor!, porque todos Me conhecerão, grandes e pequenos', Oráculo do Senhor." Jr 31,31-34a
    Promessa que se cumpriu em Cristo, que, referindo-Se a Si Mesmo como o Esposo e falando sobre Sua presença entre os Apóstolos, explicou sobre as penitências: "Jesus respondeu: 'Podem os amigos do Esposo afligir-se enquanto o Esposo está com eles? Dias virão em que lhes será tirado o Esposo. Então eles jejuarão.'" Mt 9,15
    E no Livro do Profeta Ezequiel, Deus falou em Eterna Aliança: "Pois eis o que diz o Senhor Javé: 'Eu farei a ti conforme tu fizeste, que desprezaste tua origem violando o Pacto. Mas recordar-Me-ei da Aliança que contigo celebrei no tempo de tua juventude, e contigo farei uma Eterna Aliança. Então te lembrarás de teu procedimento e terás vergonha, quando Eu tomar tuas mais velhas irmãs, junto às mais novas, e dá-te-las por filhas, mas isso não em virtude de tua Aliança. Sou Eu que contigo hei de restabelecer Minha Aliança, e tu saberás que sou Eu o Senhor, a fim de que te recordes do passado e te envergonhes, e que, em tua vergonha, não tenhas mais a audácia de abrir a boca quando Eu houver perdoado teus delitos', Oráculo do Senhor Javé." Ez 16,59-63
    Também prometeu o Espírito Santo, dizendo a este Profeta: "Por isso, declara à Casa de Israel o que segue: eis o que diz o Senhor Javé: 'Não é por vós que faço isto, ó israelitas, mas por honra de Meu Santo Nome que profanastes entre pagãos, aonde tínheis ido. Quero manifestar a santidade de Meu Augusto Nome que aviltastes, profanando-O entre as pagãs nações, a fim de que conheçam que Eu sou o Senhor', Oráculo do Senhor Javé, 'quando sob seus olhares Eu houver manifestado Minha santidade por Meu proceder em relação a vós. Eu retirá-vos-ei do meio das nações, Eu reuni-vos-ei de todos lugares e conduzi-vos-ei a vosso solo. Sobre vós derramarei Água, que vos purificará de todas vossas imundícies e de todas vossas abominações. Dá-vos-ei um novo coração, e em vós porei um Novo Espírito. Tirá-vos-ei do peito o coração de pedra e dá-vos-ei um coração de carne. Dentro de vós porei Meu Espírito, fazendo com que obedeçais às Minhas leis, e sigais e observeis Meus preceitos.'" Ez 36,22-27
    Porque é isso que a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios diz da anunciação do Evangelho: "Vós mesmos sois nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos homens. Não há dúvida de que vós sois uma carta de Cristo, redigida por nosso Ministério e escrita, não com tinta, mas com o Espírito de Deus Vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, em vossos corações. Ele é que nos fez aptos para ser Ministros da Nova Aliança, não a da letra, e sim a do Espírito. Porque a letra mata, mas o Espírito vivifica." 2 Cor 3,2-3.6
    A Carta de São Paulo aos Romanos, pois, resume: "Porque a finalidade da Lei é Cristo, para justificar todo aquele que crê." Rm 10,4
    Dá a mesma explicação quanto aos não judeus: "Porque diante de Deus não são justos os que ouvem a Lei, mas serão tidos por justos aqueles que praticam a Lei. Os pagãos, que não têm a Lei, naturalmente fazendo as coisas que são da Lei, embora não tenham a Lei, a si mesmos servem de Lei. Eles mostram que o objeto da Lei está gravado em seus corações, dando-lhes testemunho sua consciência, bem como seus raciocínios com os quais mutuamente se acusam ou se escusam." Rm 2,13-16
    Porém, seguindo a lógica de São Pedro em valorização do Antigo Testamento, ele argumenta: "Ou Deus só o é dos judeus? Também não o é Deus dos pagãos? Sim, Ele também o é dos pagãos. Porque não há mais que um só Deus, o Qual pela fé justificará os circuncisos e, também pela fé, os incircuncisos. Destruímos então a Lei pela fé? De modo algum. Pelo contrário, damos-lhe toda sua força." Rm 3,29-31
    E arremata: "Em que, então, se avantaja o judeu? Ou qual é a utilidade da circuncisão? Muita, em todos aspectos. Principalmente porque lhes foram confiados os Oráculos de Deus." Rm 3,1-2
    Jesus mesmo vai arguir os religiosos de Jerusalém, quando lhes desvelou da pretensa condição de filhos de Abraão (cf. Jo 8,39): "Acaso não foi Moisés quem vos deu a Lei? No entanto, ninguém de vós cumpre a Lei!..." Jo 7,19
    Ele afirmou-lhes: "Não julgueis que Eu hei de acusar-vos diante do Pai. Há quem vos acusa: Moisés, em quem colocais vossa esperança." Jo 5,45


O MINISTÉRIO DA JUSTIFICAÇÃO

    São Paulo, portanto, em contraponto ao Antigo Testamento, exalta o Glorioso Ministério do Espírito Santo: "Ora, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, se revestiu de tal Glória que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos no rosto de Moisés, por causa do resplendor de sua face, embora transitório, quanto mais glorioso não será o Ministério do Espírito? Se o ministério da condenação já foi glorioso, muito mais há de sobrepujá-lo em Glória o Ministério da Justificação! Aliás, sob esse aspecto e em comparação desta eminentemente superior Glória, empalidece a Glória do primeiro Ministério. Se o transitório era glorioso, muito mais glorioso é o que permanece!" 2 Cor 3,7-11
    E os seguidores da tradição deste Apóstolo, na Carta aos Hebreus, detalham o que significam a Paixão de Cristo e o juramento da Nova Aliança: "Além disso, os primeiros sacerdotes deviam suceder-se em grande número, porquanto a morte não permitia que permanecessem sempre, mas Este (Jesus), porque vive para sempre, possui um Eterno Sacerdócio. É por isso que lhe é possível levar a termo a Salvação daqueles que por Ele vão a Deus, porque para sempre vive de modo a interceder em seu favor. Tal é, com efeito, o Pontífice que nos convinha: Santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e elevado além dos Céus, que não tem necessidade, como os outros sumos sacerdotes, de todos dias oferecer sacrifícios, primeiro pelos próprios pecados, depois pelos do povo, pois isto fez de uma só vez para sempre, oferecendo-Se a Si mesmo. Enquanto a Lei elevava ao sacerdócio homens sujeitos às fraquezas, o juramento, que sucedeu à Lei, constitui o Filho, que é eternamente perfeito." Hb 7,23-28
    Sem dúvida, assim São João Batista, Arauto do Altíssimo, apresentou Jesus: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo." Jo 1,29b
    Isso deu-se, ainda segundo os seguidores de São Paulo, por uma superior ordenação, feita pelo próprio Pai. Eles invocam profecias do Livro de Salmos: "Ninguém se apropria desta honra, senão somente aquele que por Deus é chamado, como Aarão. Assim Cristo também não Se atribuiu a Si mesmo a Glória de ser Pontífice. Esta foi-Lhe dada por Aquele que Lhe disse: 'Tu és Meu Filho, hoje Eu Te gerei (Sl 2,7)! Como também diz em outra passagem: 'Tu és eternamente Sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque (Sl 109,4)." Hb 5,4-6
    Fato esse que justifica a mudança dos rituais: "Se a perfeição tivesse sido realizada pelo levítico sacerdócio, porque é sobre este que se funda a legislação dada ao povo, que necessidade ainda havia de que surgisse Outro Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, e não segundo a ordem de Aarão? Pois, transferido o sacerdócio, forçoso é que também se faça a mudança da Lei." Hb 7,11-12
    Porque a Lei, como diz o próprio Apóstolo, não tem o poder de redimir, mas tão somente de dar ciência do erro: "Ora, sabemos que tudo que a Lei diz, di-lo aos que estão sujeitos à Lei, para que toda boca fique fechada e o mundo inteiro reconheça-se culpado diante de Deus. Porquanto, pela observância da Lei nenhum homem será justificado diante d'Ele, porque a Lei se limita a dar o conhecimento do pecado. Mas, agora, sem o concurso da Lei, manifestou-se a justiça de Deus, atestada pela Lei e pelos Profetas. Esta é a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos fiéis, pois não há distinção. Com efeito, todos pecaram e todos estão privados da Glória de Deus, e livremente são justificados por Sua Graça. Tal é a obra da Redenção realizada em Jesus Cristo. Deus destinou-O para ser, por Seu Sangue, vítima de propiciação mediante a fé. Assim Ele manifesta Sua justiça. Porque, no tempo de Sua paciência, Ele havia deixado sem castigo os pecados anteriores. Desta forma, digo eu, Ele manifesta Sua justiça em presente tempo, exercendo a justiça e justificando aquele que tem fé em Jesus." Rm 3,19-26
    Com efeito, se bem examinarmos o efeito de conhecer a vontade de Deus, vemos que a Lei claramente leva à consciência do pecado, como aconteceu com este grande Santo, que cita o Livro de Êxodo: "Mas eu não conheci o pecado, senão pela Lei. Porque não teria ideia da concupiscência se a Lei não dissesse: Não cobiçarás (Êx 20,17). Por conseguinte, a Lei é santa e o Mandamento é santo, e justo, e bom..." Rm 7,7b.12
    E, por consequência, o arrependimento do pecado leva à Graça: "Sobreveio a Lei para que abundasse o pecado. Mas onde abundou o pecado, superabundou a Graça. Assim como o pecado reinou para a morte, a Graça também reinaria pela justiça para a Vida Eterna, por meio de Jesus Cristo, Nosso Senhor." Rm 5,20-21
    A Primeira Carta de São Paulo a São Timóteo comenta: "Sabemos que a Lei é boa, contanto que dela se faça legítimo uso e se tenha em conta que não foi feita para o justo, mas para os transgressores e os rebeldes, para os ímpios e os pecadores, para os irreligiosos e os profanadores, para os que ultrajam pai e mãe, os homicidas, os impudicos, os infames, os traficantes de homens, os mentirosos, os perjuros e para tudo que se opõe à Sã Doutrina e ao glorioso Evangelho de Deus Bendito, que me foi confiado." 1 Tm 1,8-11
    Ele alegra-se com o feito da Vinda do Santo Paráclito, Terceira Pessoa de Deus, o Espírito do Novo Testamento: "A Lei do Espírito de Vida libertou-me, em Jesus Cristo, da Lei do pecado e da morte. O que era impossível à Lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus fez. Enviando, por causa do pecado, Seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne a fim de que a justiça prescrita pela Lei fosse realizada em nós, que vivemos não segundo a carne, mas segundo o espírito." Rm 8,2-4
    E como o próprio Cristo, ele também se diz crucificado: "Na realidade, pela fé eu morri para a Lei, a fim de viver para Deus. Estou pregado à Cruz de Cristo." Gl 2,19
    Igualmente diz dos cristãos: "Assim, meus irmãos, vós também estais mortos para a Lei, pelo Sacrifício do Corpo de Cristo, para pertencerdes a Outrem, Àquele que dentre os mortos ressuscitou, a fim de que demos frutos para Deus." Rm 7,4
    Fala, portanto, de um novo modo servir a Deus, ou seja, da Santa Missa: "Agora, mortos para essa Lei que nos mantinha sujeitos, dela temo-nos libertado e nosso serviço realiza-se conforme a renovação do Espírito, e não mais sob a envelhecida autoridade da letra." Rm 7,6
    Exatamente como o sacerdote Zacarias havia profetizado no dia do nascimento de seu filho, São João Batista, referindo-se à promessa de Deus a Abraão: "... de conceder-nos que, sem temor, libertados de mãos inimigas, possamos servi-Lo em santidade e justiça, em Sua presença, todos dias de nossa vida." Lc 1,73b-75
    Fala de um novo ritual de purificação, feito de Batismo e Crisma, para que formemos o Corpo Místico de Cristo: "Em um só Espírito fomos batizados todos nós, para formar um só Corpo, judeus ou gregos, escravos ou livres. E todos fomos impregnados do mesmo Espírito." 1 Cor 12,13
    Fala de um novo povo de Deus, tratando da 'supressão' da Lei na Carta de São Paulo aos Efésios: "Porque Ele (Jesus) é nossa Paz, Ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro que os separava, suprimindo na própria carne a inimizade, a Lei dos Mandamentos expressa em preceitos. Desse modo, em Si Mesmo quis Ele fazer dos dois povos uma única e nova humanidade pelo restabelecimento da Paz, e ambos reconciliá-los com Deus, reunidos num só Corpo pela virtude da Cruz, nela aniquilando a inimizade." Ef 2,14-16
    Referia-se, pois, à exclusão dos estrangeiros, que consta do Livro de Êxodo: "O Senhor disse a Moisés e a Aarão: 'Eis a regra relativa à Páscoa: nenhum estrangeiro comerá dela. Todo escravo adquirido a preço de dinheiro, e que tiver sido circuncidado, dela comerá, mas nem o estrangeiro nem o mercenário comerão dela.'" Êx 12,43-45
    De fato, a Carta de São Paulo aos Colossenses 'corrigiu': "N'Ele (Jesus) também fostes circuncidados com circuncisão não feita por mão de homem, mas com a circuncisão de Cristo, que consiste no despojamento de nosso ser carnal. Sepultados com Ele no Batismo, com Ele também ressuscitastes por vossa fé no poder de Deus, que O ressuscitou dos mortos. Mortos pelos vossos pecados e pela incircuncisão de vossa carne, chamou-vos novamente à Vida em companhia d'Ele. É Ele que nos perdoou todos pecados, cancelando o documento escrito contra nós, cujas prescrições nos condenavam. Definitivamente aboliu-o, ao cravá-lo na Cruz." Cl 2,11-14
    Fala, portanto, em sombra: "Ninguém, pois, vos critique por causa de comida ou bebida, ou espécies de festas ou de luas novas ou de sábados. Tudo isto não é mais que sombra do que devia vir. A realidade é o Corpo de Cristo." Cl 2,16-17
    Garantindo a Guia do Santo Espírito, até afasta-a: "Se vos deixai guiar, porém, pelo Espírito, não estais sob a Lei." Gl 5,18
    Pois garante a força da Graça: "O pecado já não vos dominará, porque agora não mais estais sob a Lei, e sim sob a Graça." Rm 6,14
    Diz aos que teimam em ater-se a antigos preceitos: "Já estais separados de Cristo, vós que procurais a justificação pela Lei. Decaístes da Graça." Gl 5,4
    Diz, a Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses, da autoridade da Igreja Católica: "Por conseguinte, desprezar estes preceitos é desprezar não a um homem, mas a Deus, que nos infundiu Seu Santo Espírito." 1 Ts 4,8
    E seus seguidores, também falando em sombra, fixam os olhos na santidade: "A Lei, por ser apenas a sombra dos futuros bens, não sua real expressão, é de todo impotente para aperfeiçoar aqueles que assistem aos sacrifícios que indefinidamente se renovam a cada ano." Hb 10,1
    Em contraste com a grandiosidade da manifestação de Cristo, portanto, no Antigo Testamento eles apenas veem esperança: "Pois a Lei nada levou à perfeição. Apenas foi portadora de uma melhor esperança que nos leva a Deus." Hb 7,19
    São Paulo, pois, faz simplificação idêntica a que Jesus fez: "... porque toda Lei se encerra num só preceito: 'Amarás teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18).'" Gl 5,14
    E exalta o amor: "A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, a não ser o recíproco amor. Porque aquele que ama seu próximo cumpriu toda Lei. O amor não pratica o mal contra o próximo, portanto o amor é o pleno cumprimento da Lei." Rm 13,8.10
    Contudo, o próprio Jesus exortou a Igreja a 'garimpar' o Antigo Testamento, dizendo de verdadeiros estudiosos entre os judeus: "Por isso, todo escriba instruído nas coisas do Reino dos Céus é comparado a um pai de família, que de seu tesouro tira novas e velhas coisas." Mt 13,52
    E o Apóstolo dos Gentios aponta em Cristo a Unidade de todo povo de Deus, isto é, da Igreja, pedaço do Céu: "Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da Terra. Porque estais mortos e vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Vós despiste-vos do velho homem com seus vícios, e revestiste-vos do novo, que constantemente vai restaurando-se à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento. Aí não mais haverá nem grego nem judeu, nem bárbaro nem cita, nem escravo nem livre, mas somente Cristo, que será tudo em todos." Cl 3,1-3.9b-11
    A Primeira Carta de São Pedro, por fim, fala da proteção que temos na Igreja: "Em Sua grande Misericórdia, Ele (Deus) fez-nos renascer pela Ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma viva esperança, para uma incorruptível, incontaminável e imarcescível herança, reservada para vós nos Céus. Para vós que sois guardados pelo poder de Deus, por causa da vossa fé... " 1 Pd 1,3b-5a


A NOVA E ETERNA ALIANÇA

    E o próprio Jesus também anunciou o início da Nova Aliança, durante a Santa Ceia, na noite em que iniciaria Sua Paixão: "Depois tomou o cálice, rendeu graças e deu-lhO, dizendo: 'Bebei d'Ele todos, porque isto é Meu Sangue, o Sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados." Mt 26,27-28
    Com efeito, em Sua última semana em Jerusalém, Ele havia dito aos chefes dos sacerdotes e fariseus sobre o fim da proeminência dos judeus enquanto povo escolhido: "Por isso, digo-vos: de vós será tirado o Reino de Deus, e será dado a um povo que produzirá os frutos dele." Mt 21,43
    Mesmo nos primeiros tempos de Sua Missão, disse em Cafarnaum: "Por isso, Eu declaro-vos que virão multidões do Oriente e do Ocidente e se assentarão no Reino dos Céus com Abraão, Isaac e Jacó, enquanto os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes." Mt 8,11-12
    Para tanto, Ele estabeleceu os Apóstolos como testemunhas, após ressuscitar, ditando-lhes a missão da Igreja e revestindo-os com o poder do Espírito Santo: "Assim é que está escrito, e assim era necessário que Cristo padecesse, mas que dos mortos ressurgisse ao terceiro dia. E que em Seu Nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados a todas nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas de tudo isso. Eu mandá-vos-ei o Prometido de Meu Pai. Entretanto, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto." Lc 24,26-29
    E testemunhar foi o que São Pedro fez diante do Sinédrio após ser preso com todos Apóstolos, mencionando o poderoso auxílio do Divino Guia: "O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, que vós matastes, suspendendo-O num madeiro. Deus elevou-O pela mão direita como Príncipe e Salvador, a fim de dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados. Deste fato, nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem." At 5,30-32
    O Divino Paráclito, portanto, desde então está com a Igreja, e assim será pela eternidade, como Jesus prometeu em despedida dos Apóstolos: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele dá-vos-á outro Paráclito, para que convosco fique eternamente." Jo 14,16
    Aliás, Ele disse de Si mesmo pouco antes de Ascender aos Céus: "Eis que estou convosco todos dias, até o fim do mundo." Mt 28,20b
    Porque já lhes havia dado poder para realizar a reconciliação com Deus, por unção do Divino Paráclito para o Sacramento da Confissão, logo em Sua primeira aparição aos Dez, pois São Tomé não estava: "Como o Pai Me enviou, Eu também vos envio.' Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, sê-lhes-ão perdoados. Àqueles a quem os retiverdes, sê-lhes-ão retidos.'" Jo 20,21b-23
    De fato, eis que séculos antes o salmista já pedia: "Ó Meu Deus, criai em mim um puro coração, e renovai-me com o Espírito de firmeza. De Vossa face não me rejeiteis, e nem me priveis de Vosso Santo Espírito."Sl 50,12-13
    Pois o Pai, falando sobre o Cristo, havia prometido "aos arrependidos"no Livro do Profeta Isaías: "'Mas virá como Redentor a Sião e aos arrependidos filhos de Jacó', Oráculo do Senhor. 'Eis Minha Aliança com eles', diz o Senhor: 'Meu Espírito repousa sobre ti, e Minhas palavras que coloquei em tua boca não deixarão teus lábios nem os de teus filhos, nem os de seus descendentes', diz o Senhor, 'desde agora e para sempre.'" Is 59,20-21
    E antes mesmo de falar pelo Profeta Ezequiel, como vimos, falou por Isaías de Eterna Aliança, e que valeria para o mundo todo: "Prestai-Me atenção e vinde a Mim. Escutai e vossa alma viverá: convosco quero concluir uma Eterna Aliança, outorgando-vos os favores prometidos a Davi. De ti farei um testemunho para os povos, um soberano condutor das nações. Conclamarás povos que nunca conheceste e nações que te ignoravam acorrerão a ti, por causa do Senhor Teu Deus e do Santo de Israel que fará tua Glória." Is 55,3-5
    Garantiu: "'Vou fazer hoje como no tempo de Noé: tal como jurei então, que o dilúvio de Noé não mais se abateria sobre a Terra, do mesmo modo faço juramento de não mais Me irritar contra ti, e de nunca mais te atemorizar. Mesmo que as montanhas oscilem e as colinas se abalem, Meu amor jamais te abandonará e Meu Pacto de Paz jamais vacilará', diz o Senhor que Se compadeceu de ti." Is 54,9-10
    E assim, como Jesus iria afirmar, a Salvação vem dos judeus. Disse o Pai: "Porque Eu, o Senhor, amo a equidade e detesto o fruto da rapina. Por isso, fielmente vou dá-lhes sua recompensa, e com eles concluir uma Eterna Aliança. Sua raça tornar-se-á célebre entre as nações, e sua descendência, entre os povos. Vendo-os, todos reconhecerão que são a raça que o Senhor abençoou." Is 61,8-9
    A Glória de Deus, pois, está sobre a Igreja, sobre os seguidores de Cristo, o Redentor de Sião: "O que restar de Sião, os sobreviventes de Jerusalém serão chamados Santos, e todos que estiverem computados entre os vivos em Jerusalém. Quando o Senhor tiver lavado a imundície das filhas de Sião, e apagado as manchas de sangue de Jerusalém pelo sopro do direito e pelo vento devastador, o Senhor virá estabelecer-Se sobre todo Monte Sião e em Suas assembleias: de dia como uma nuvem de fumaça, e de noite como um flamejante fogo. Porque sobre todos se estenderá a Glória do Senhor." Is 4,3-5
    De fato, tratando da Unidade da Igreja, da prova da passagem do Cristo entre nós e do amor de Deus por nós, Jesus rezou ao Pai pelos Apóstolos em Sua última noite: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam Um, como Nós somos Um: Eu neles e Tu em Mim. Para que sejam perfeitos na Unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    E através do Profeta Jeremias, Deus havia dito estas palavras, que prometia tal Comunhão na Santa Igreja: "Serão eles Meu povo, e Eu Seu Deus. Dá-lhes-ei um só coração e um mesmo destino, a fim de que sempre Me reverenciem para seu próprio bem e de seus descendentes. Com eles firmarei Eterno Pacto, por cujos termos não mais cessarei de proporcionar-lhes o bem, e no coração infundi-lhes-ei o temor para que de Mim não venham a afastar-se." Jr 32,38-40
    Os seguidores de São Paulo, enfim, dizem de Jesus: "Por isso, Ele é mediador do Novo Testamento. Por Sua Morte expiou os pecados cometidos no decorrer do Primeiro Testamento, para que os eleitos recebam a eterna herança que lhes foi prometida. Porque onde há testamento, é necessário que sobrevenha a morte do testador. Um testamento só entra em vigor depois da morte do testador. Permanece sem efeito enquanto ele vive." Hb 9,15-17
    E dizem de Sua Paixão: "Moisés, ao concluir a proclamação de todos Mandamentos da Lei em presença de todo povo reunido, tomou o sangue dos touros e dos cabritos imolados, bem como água, lã escarlate e hissopo, e com sangue aspergiu não só o próprio Livro mas todo povo, dizendo: 'Este é o sangue da Aliança que Deus contraiu convosco (Êx 24,8).' E da mesma maneira aspergiu o tabernáculo e todos objetos do culto. Aliás, conforme a Lei, o sangue é utilizado para quase todas purificações, e sem efusão de sangue não há perdão. Se os meros símbolos das celestes realidades exigiam uma tal purificação, necessário tornava-se que as mesmas realidades fossem purificadas por ainda superiores sacrifícios. Eis porque Cristo entrou, não em santuário feito por mãos de homens, que fosse apenas figura do verdadeiro santuário, mas no próprio Céu, para agora Se apresentar intercessor nosso ante a face de Deus." Hb 9,19-24
    Já São Paulo, sempre exaltando o Ministério do Santo Espírito, diz do véu, seja de Moisés seja do Templo, e do que desde então compete aos judeus: "Ainda agora, quando leem o Antigo Testamento, esse mesmo véu permanece abaixado, porque é só em Cristo que ele deve ser levantado. Por isso, até o dia de hoje, quando leem Moisés, um véu cobre-lhes o coração. Esse véu só será tirado quando se converterem ao Senhor. Ora, o Senhor é o Espírito, e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade." 2 Cor 3,14-17
    E a Primeira Carta de São João assegura aos fiéis: "Sabemos que o Filho de Deus veio e nos deu entendimento para conhecermos o Verdadeiro. E estamos no Verdadeiro, nós que estamos em Seu Filho Jesus Cristo. Este é o Verdadeiro Deus e a Vida Eterna." 1 Jo 5,20

    "Concedei-nos o convívio dos eleitos!"