domingo, 20 de setembro de 2026

Santo André Taegon, São Paulo Hasang e Mártires


    Coreia começou a ser catequizada nos anos de 1700, por simples leigos. Em visitas a Pequim, na época um grande centro de estudos e divulgação de conhecimento, o coreano Yi Byuk conheceu o livro 'A Verdadeira Doutrina de Deus', do Padre jesuíta italiano Venerável Matteo Ricci, que morreu no ano de 1610 em China como grande missionário.
    Essa simples centelha incendiou sua alma: era o miraculoso nascimento da Santa Igreja Católica em Coréia, evidentemente sob a mais pura ação do Espírito Santo por meio de singelas e orantes comunidades, mesmo sem a presença de nenhum Sacerdote. Também impressiona a força da fé que animava essa gente, pois as autoridades eram extremamente intolerantes ao Catolicismo, e o primeiro Padre, o chinês Zhu Wen Miao, só pisaria nessas terras em 1795.
    Em 1784, o Padre Jean-Baptiste-Joseph de Grammont, missionário francês, batizou Yi Sung-Hun, filho do embaixador coreano em China. Yi Sung-Hun havia conhecido Yi Byuk em 1779 e através de seu testemunho imediatamente foi arrebatado a Cristo. Sob a Graça desse Sacramento, ele retornou a Coreia, começou a anunciar Jesus e, por si mesmo, teve a iniciativa de 'ministrar' o Sacramento do Batismo e da Ordenação a líderes leigos como 'Clérigos temporários'.
    Mas, informados pelo Bispo de Pequim que tal procedimento era contrário às normas da Igreja Apostólica, eles corrigiram-se e aguardaram a vinda de um Sacerdote, pois, apesar de seus frequentes pedidos, os números e as condições de atuação do Clero em Ásia eram muito limitados.
    De fato, nos séculos XVI e XVII, São Francisco Xavier, o Apóstolo do Oriente, havia estado em Índia, China e Japão, contudo a resistência dos reis e de autoridades locais não lhe permitiu fundar nada mais que isoladas comunidades, embora firmes na fé, e que só clandestinamente sobreviveriam. Em Coreia, especificamente, de estritas práticas confucionistas, no ano de 1802 foi promulgado um édito estatal que proibia a fé cristã e ordenava a sumária exterminação de todo cristão.
    Quando o Padre Zhu Wen Miao chegou, porém, a igreja coreana já contava mais de 4 mil membros. E em Dangjin, a 21 de agosto de 1821, nascia Jaebok Jisik, que viria a ser Kim Dae-geon, após batizado como o equivalente coreano do nome de André, em homenagem a Santo André, e para nós seria André Kim Taegon. Seu pai, Inácio Kim Je-jun, assim batizado em homenagem a Santo Inácio de Loyola, era um desses heroicos e pioneiros cristãos de Ásia, que fizera de sua própria casa uma igreja: difundia-se, catequizava-se e celebrava-se o Verbo da Vida. Mas em 1836, por força da repercussão da chegada dos membros da Sociedade para Missões Estrangeiras de Paris, feita de leigos e Padres, ao serem descobertos, seu pai, o irmão mais velho, tios e avós foi brutalmente assassinados.
    Sua mãe e demais irmãos foram poupados, sob ameaças para que abandonassem a fé. Mas Santo André Taegon, na época aos 15 anos, aceitou ser enviado por esses missionários franceses para estudar Teologia em Macau, então importante centro de formação e partida de Sacerdotes para Ásia. Nessa cidade se vivia sob o domínio português, e os jesuítas haviam fundado em 1565 a Igreja de Santo Antônio, que ele veio a frequentar.


    Atualmente, num jardim próximo a essa igreja, há uma estátua em sua homenagem.


    Aí Santo André Taegon se preparou para ser Sacerdote, também estudando em Filipinas nas cidades de Lolomboy, Bocaue e Bulacan, que guardam sua veneração, em especial no grande santuário desta última. 


    E em 1844, ao ser ordenado Diácono, sempre muito solícito para com as condições espirituais das comunidades de seu povo, decidiu-se por imediatamente retornar a Coreia, e com fervor se pôs a trabalhar pela Salvação das almas.
    Reconhecido por seu valoroso zelo pela Igreja de Deus Vivo (cf. 1 Tm 3,15), no mesmo ano foi convidado a Xangai, em China, a fim de receber a ordenação sacerdotal do Bispo francês Jean-Joseph-Jean-Baptiste Ferréol, para onde prontamente viajou enfrentando todos perigos da clandestinidade. Aí se tornou o primeiro Sacerdote de origem coreana.
    A viagem de regresso igualmente foi temerária, evitando ser identificado como Clérigo, fato que colocava sua vida em risco. Mas tão logo pisou em terra, começou a evangelizar, batizar, ministrar o Sacramento da Confissão, celebrar o Santíssimo Sacramento e presidir o Sacramento do Matrimônio, exatamente como a Igreja fundada por Jesus Cristo manda. A consolidação da paróquia, no entanto, demandava trânsito de documentos, e logo Santo André Taegon foi chamado mais uma vez a China, desta vez a Pequim.
    Nesta viagem em 1846, ele não teve a mesma ventura. Foi descoberto ainda em seu país. Levado à presença do rei em Seul, a capital da nação, dada a condição de respeitável por sua erudição, foi interrogado e obrigado a renegar a fé católica. Mas ele luminosamente respondeu: "Dado que o Senhor do Céu é o Pai de toda humanidade e o Senhor de toda Criação, como podeis pedir-me para O trair? Se neste mundo aquele que trair o pai ou a mãe não é perdoado, com maior razão jamais posso trair Aquele que é o Pai de todos nós!"
    O rei, mudando de estratégia, perguntou pelas pessoas que comungavam de sua fé, mas Santo André Taegon, sabendo de suas intenções, negou-se a os nominar. O perverso regente, porém, que já havia prendido seus familiares e cristãos mais próximos, reuniu todos, torturou-os e mandou decapitá-los junto ao rio Han, nas proximidades de Seul.
    Autorizado a dizer suas últimas palavras, nosso Santo, sempre zeloso de sua missão, diligentemente aproveitou para exortar: "Esta é minha última hora de vida. Ouçam-me, atentamente: se me comuniquei com estrangeiros, foi por causa de minha religião e de Meu Deus. É por Ele que eu morro. Minha vida imortal está prestes a começar. Tornem-se cristãos se quiserem ser felizes após a morte, porque Deus tem eternos castigos reservados para aqueles que se recusarem a O conhecer."
    Mesmo durante a tortura, nenhum deles fez menção em abandonar a fé em Cristo.
    Antes de morrer de velho em 3 de fevereiro de 1853, Jean-Joseph-Jean-Baptiste Ferréol, que foi transferido de Xangai para ser o primeiro Bispo de Coreia, pediu para ser enterrado ao lado de Santo André Taegon, dizendo: "Vós nunca sabereis o quão triste fiquei por perder este jovem Padre nativo. Eu amei-o como um pai amou seu filho. É um consolo para mim pensar em sua eterna felicidade."


    Seu grande colaborador era o leigo catequista São Paulo Chŏng Hasang, filho do também mártir Agostinho Chŏng Yakjong, executado em 1801, e seu tio era o cientista e filósofo Jeong Yakjong, escritor do primeiro Catecismo Católico em alfabeto coreano. As homenagens a Santo Agostinho e a São Paulo em seus nomes são evidentes. São Paulo Chŏng Hasang foi um incansável e iluminado pregador do Evangelho, responsável por um expressivo número de conversões. Era visivelmente movido pelo Espírito de Cristo.
    Enquanto servo de um intérprete do governo, diversas vezes viajou à pé em peregrinação a Pequim, onde ia implorar ao Bispo que enviasse Padres a Coreia e até escreveu ao Papa Gregório XVI, por meio deste Bispo, pedindo a criação de uma diocese em Coreia, o que veio a acontecer em 1825.
    O Bispo Laurent-Marie-Joseph Imbert, enviado dois anos depois junto a dois Padres, secretamente entrou e estabeleceu-se no país graças a ajuda de São Paulo Hasang, em quem via talento, zelo e virtude. Celebravam a Santa Missa nas comunidades durante a madrugada. A pedido de Nosso Santo, este Bispo ensinou-lhe latim e Teologia e estava prestes a o ordenar quando eclodiu uma perseguição. Capturado, São Paulo Hasang entregou ao juiz uma declaração escrita defendendo o Catolicismo. Apesar de impressionado, o juiz disse-lhe: "Tu tens razão no que escreveste, mas o rei proíbe esta religião. É teu dever renunciá-la." Nosso Santo respondeu: "Eu disse-te que sou cristão, e serei até minha morte."
    Para evitar um massacre, pois havia aproximadamente 9 mil cristãos no país, os três missionários franceses entregaram-se, e foram executados. Torturado de várias formas, embora permanecesse tranquilo, São Paulo Hasang foi amarrado a uma cruz e decapitado no Pequeno Portão Ocidental de Seul, a 22 de setembro de 1839.


    Antes de ser sacrificado, conseguiu deixar uma mensagem escrita para os fiéis que não haviam sido capturados: "Eu peço-vos: não deixeis de lado o fraterno amor, mas ajudai-vos uns aos outros, perseverando até que o Senhor tenha piedade de nós e afaste a tribulação."
    O Papa São João Paulo II canonizou os 103 mártires em Seul, na viagem apostólica de 1984. A primeira canonização fora de Roma havia séculos. Foram 47 mulheres e 45 homens leigos, 8 Padres e 3 Bispos da Sociedade para Missões Estrangeiras de Paris.


    Para que se tenha um ideia da dificuldade da divulgação da Palavra de Deus em Coreia, bem como em Ásia, mas principalmente do heroísmo da fé e do perfeito amor a Deus que aí se viram, dignos dos próprios Mártires de Roma dos primeiros séculos e dos maiores Santos, entre 1785 e 1882 mais de 10 mil fiéis foram martirizados.
    Hoje, absolutamente vitoriosos e em virtuoso crescimento, os católicos em Coréia do Sul são cerca de 6 milhões, em 14 Dioceses, com 5 mil Sacerdotes e 3,5 mil religiosos. E como não poderia deixar de ser, Santo André Taegon é o Padroeiro do Clero de Coreia.
    Seu lugar do nascimento, onde sua família havia vivido desde o bisavô, tornou-se um belíssimo santuário, conhecido como o berço do Catolicismo em Coreia. Sua casa foi especialmente preservada. Muitos dos atuais Padres e Freiras coreanos são dessa região.


    Sua fíbula, osso mais fino da canela, encontra-se bem preservada.


    Santo André Taegon, São Paulo Hasang e Mártires, rogai por nós!