domingo, 1 de março de 2026

Textos para Celular

 
Anuário de Leituras Bíblicas

Acesso: dizemasescrituras.blogspot.com

O Domingo da Transfiguração


    Pouco tempo depois de multiplicar pães e peixes para milhares de pessoas pela segunda vez, Jesus encontrava-Se com os Apóstolos nas proximidades da cidade de Cesareia de Filipe. Aí vai questioná-los, para constatar se realmente sabiam Quem Ele era. Inspirado pelo Pai (cf. Mt 16,17), São Pedro, é quase sempre ele o interlocutor entre Nosso Senhor e os demais Apóstolos, respondeu com convicção, como está no Evangelho Segundo São Mateus: "Tu és o Cristo, o Filho de Deus Vivo!" Mt 16,16
    E é então Nosso Senhor identifica São Pedro como a pedra fundamental da Igreja Viva, a única, que Ele chamou de Sua. Aí também fez dele a 'ponte', o Pontífice entre o Céu e a Terra: "E Eu declaro-te: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei Minha Igreja. As portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu dá-te-ei as chaves do Reino dos Céus: tudo que ligares na Terra será ligado nos Céus, e tudo que desligares na Terra será desligado nos Céus." Mt 16,18-19
    Identificados Criador e criatura, Nosso Salvador passou a revelar Sua Paixão: "Desde então Jesus começou a manifestar a Seus discípulos que precisava ir a Jerusalém e muito sofrer da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas. Seria morto e ressuscitaria ao terceiro dia." Mt 16,21
    Não eram tão boas notícias para aquele sofrido povo, que longamente esperou e acreditava numa imediata Salvação. Mas Ele guardava-lhes, assim como para qualquer um de nós, indizíveis consolações, e uma delas era Sua Transfiguração, que aconteceria no sexto dia após esta declaração de São Pedro, ou seja, no último dia daquela intensa semana, antes do sétimo dia, o de guarda.
    Além de um dos momentos em que Jesus Se revela Deus, pelo resplendor de Sua Glória, também é um dos poucos, nas Escrituras, de conjunta manifestação da Santíssima Trindade, na qual Deus Pai fala e o Espírito Santo assume a forma de Nuvem, uma de Suas sete:

    "Seis dias depois, Jesus tomou Consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e conduziu-os à parte, a uma alta montanha. Lá Se transfigurou em presença deles: Seu rosto brilhou como o sol, Suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que apareceram Moisés e Elias, conversando com Ele.
    Então Pedro tomou a palavra e Lhe disse:
    - Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, aqui farei três tendas: uma para Ti, uma para Moisés e outra para Elias.
    Ainda falava ele, quando veio uma luminosa Nuvem e os envolveu. E daquela Nuvem fez-se ouvir uma voz, que dizia:
    - Eis Meu Amado Filho, em Quem pus toda Minha afeição. Ouvi-O!
    Ouvindo esta voz, os discípulos caíram com a face por terra e tiveram medo.
    Mas Jesus aproximou-Se deles e tocou-os, dizendo:
    - Levantai-vos e não temais.
    Eles levantaram os olhos e não viram mais ninguém, senão Jesus.
    E quando desciam, Jesus fez-lhes esta proibição:
    - Não conteis a ninguém o que vistes, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos." 
                                                   Mt 17,1-9


"OUVI-O!"

    Quando disse 'Ouvi-O', o Pai confirmou Jesus enquanto o Profeta 'como Moisés' (cf. Dt 34,10), prometido através deste grande líder havia séculos, a Quem todos nós devemos ouvir. O Livro de Deuteronômio registrou estas palavras de Moisés aos israelitas: "O Senhor, Teu Deus, dentre teus irmãos suscitará um Profeta como eu. É a Ele que devereis ouvir. E o Senhor disse-me: '... pô-Lhe-ei Minhas Palavras em Sua boca, e Ele fá-lhes-á conhecer Minhas ordens. Caso haja alguém que não ouça Minhas Palavras, que Este Profeta pronunciar em Meu Nome, Eu mesmo irei acertar contas com ele.'" Dt 18,15.18-19
    As presenças de Moisés, que representa a Lei, e Elias, que representa os Profetas, confirmam, como síntese do Antigo Testamento, a história da Salvação iniciada por Deus através deste povo. Com efeito, no Evangelho Segundo São João, Nosso Senhor declarou a uma mulher da religião samaritanista, a Verdade que vale para todas demais religiões: "Vós adorais o que não conheceis. Nós adoramos o que conhecemos, porque a Salvação vem dos judeus." Jo 4,22
    A Transfiguração ainda confirma, também pelas presenças de Moisés e Elias, o início da Nova e Eterna Aliança na Pessoa de Jesus, uma vez que estes são os maiores personagens bíblicos judeus e vieram ter com Ele, em Quem se cumpriam as Escrituras, como Ele mesmo afirmou, falando aos líderes religiosos de Jerusalém: "Vós perscrutais as Escrituras julgando encontrar nelas a Vida Eterna. Pois bem! São elas mesmas que dão testemunho de Mim." Jo 5,39
    Disse-lhes mais: "Pois se crêsseis em Moisés, certamente creríeis em Mim, porque ele escreveu a Meu respeito." Jo 5,46
    E se Moisés e Elias vieram ter com Jesus, não menos importantes para a cristandade são São Pedro, São Tiago Maior e São João Apóstolo, que presenciaram a Transfiguração. Dos Doze, eles são os mais íntimos Apóstolos de Nosso Senhor, privilegiadas e exclusivas testemunhas de pelo menos dois outros relevantíssimos momentos, como a ressurreição da filha de Jairo, chefe da sinagoga de Cafarnaum (cf. Mc 5,37) e agonia de Jesus no Horto das Oliveiras (cf. Mc 14,33). São Tiago Maior, o São Tiago de Compostela, seria o primeiro mártir dos Apóstolos (cf. At 12,2), e São Pedro e São João, junto a São Tiago Menor, seriam chamados as "colunas" da Santa Igreja Católica (cf. Gl 2,9).
    Tão importante, esse evento também foi citado no Evangelho Segundo São Marcos, sendo muito provavelmente dele o original que nos chegou, e ainda no Evangelho Segundo São Lucas, que apontou que Jesus subiu o monte para rezar, revelou o assunto que Ele conversou com Moisés e Elias, e expressamente falou da "Glória de Jesus", ou seja, confirmou-O como Deus, pois só Deus tem a Glória (cf. Jo 5,44). Igualmente notemos que o Amado Médico apresenta, sem a segurança de São Marcos (cf. Mc 9,2), uma diferente contagem a partir da identificação de Jesus como Cristo por São Pedro:

    "Mais ou menos uns oitos dias depois dessas palavras, Jesus tomou Consigo Pedro, Tiago e João, e subiu ao monte para rezar. Enquanto rezava, o aspecto de Seu rosto alterou-se e Suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que com Ele falavam dois personagens: eram Moisés e Elias, que apareceram envoltos em Glória e falavam sobre Sua Morte, que havia de cumprir-se em Jerusalém.
    Entretanto, Pedro e seus companheiros tinham-se deixado vencer pelo sono. Ao despertarem, viram a Glória de Jesus e os dois personagens em Sua companhia. Quando estes se apartaram de Jesus, Pedro disse:
    - Mestre, é bom estarmos aqui. Podemos levantar três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias!
    Ele não sabia o que dizia.
    Enquanto assim ainda falava, veio uma Nuvem e encobriu-os com Sua sombra. E os discípulos, vendo-se desaparecer na Nuvem, tiveram um grande pavor.
    Então da Nuvem saiu uma voz:
    - Este é Meu amado Filho. Ouvi-O!
    E enquanto ainda ressoava esta voz, Jesus achou-Se sozinho." 
                                                Lc 9,28-36a

    Aliás, para melhor exprimir este glorioso fenômeno, absolutamente sobrenatural, São Marcos relatou o efeito da Transfiguração na túnica e no manto de Jesus: "Suas vestes tornaram-se resplandecentes e de uma brancura tal, que nenhum lavadeiro sobre a Terra pode fazê-las assim tão brancas." Mc 9,3
    A Transfiguração, pois, sinaliza a passageira condição da carne, que haverá de ser transformada. Sobre o Dia da Definitiva Volta de Jesus, consta da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios: "Eis que vos revelo um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta, porque a trombeta soará. Os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. É necessário que este corruptível corpo se revista da incorruptibilidade, e que este corpo mortal se revista da imortalidade." 1 Cor 15,51-53
    Ele explica, citando o Livro de Gênesis: "Assim também é a Ressurreição dos Mortos. Semeado na corrupção, o corpo ressuscita incorruptível. Semeado no desprezo, ressuscita glorioso. Semeado na fraqueza, ressuscita vigoroso. Semeado corpo animal, ressuscita corpo espiritual. Se há um corpo animal, também há um espiritual. Como está escrito: 'O primeiro homem, Adão, foi feito vivente alma (Gn 2,7)'. O Segundo Adão é Vivificante Espírito. Mas não é o espiritual que vem primeiro, e sim o animal. O espiritual vem depois. O primeiro homem, tirado da terra, é terreno, o Segundo veio do Céu. Qual o homem terreno, tais os homens terrenos; e qual o Homem Celestial, tais os homens celestiais. Assim como reproduzimos em nós as feições do homem terreno, precisamos reproduzir as feições do Homem Celestial." 1 Cor 15,42-49
    E a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios diz de nosso corpo: "Com efeito, sabemos que ao desfazer-se a 'tenda', que neste mundo habitamos, recebemos uma casa preparada por Deus e não por mãos humanas, uma eterna habitação no Céu. E por isto suspiramos e anelamos ser sobrevestidos de nossa celeste habitação, contanto que sejamos achados vestidos e não despidos. Pois, enquanto permanecemos nesta 'tenda', gememos oprimidos: desejamos ser não despojados, mas revestidos com uma nova veste por cima da outra, de modo que o que há de mortal em nós seja absorvido pela Vida. Aquele que nos formou para este destino é Deus mesmo, que por penhor nos deu Seu Espírito. Por isso estamos sempre cheios de confiança, sabendo que todo tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor. Andamos na e não na visão." 2 Cor 5,1-7
    Ora, a Carta de São Paulo aos Colossenses diz o que significa a verdadeira conversão: "Vós despiste-vos do velho homem, com seus vícios, e revestiste-vos do novo, que constantemente vai restaurando-se à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento." Cl 3,9-10
    Esse processo, portanto, de 'reproduzir as feições do Homem Celestial', deve ser ativado desde já e para tanto temos a Santa Missa, na qual nos oferecemos em sacrifício, revivendo e atualizando a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. A Carta de São Paulo aos Romanos prega, dizendo do respeito que devemos ao dom da fé de nossos irmãos: "Eu exorto-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em vivo, santo e agradável sacrifício a Deus: este é vosso culto espiritual. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação de vosso espírito para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada e o que é perfeito. Em virtude da Graça que me foi dada, recomendo a todos e a cada um: não façam de si próprios maior opinião do que convém, mas um razoavelmente modesto conceito, de acordo com o grau de fé que Deus lhes distribuiu." Rm 12,1-3
    Pois se todos ressuscitarão, nem todos terão o mesmo destino nesta nova carne, como Jesus mesmo asseverou, de Si falando em terceira Pessoa: "Não vos maravilheis disso, porque vem a hora em que todos que se acham nos sepulcros sairão deles ao som de Sua voz: aqueles que praticaram o bem irão para a Ressurreição da Vida, e aqueles que praticaram o mal ressuscitarão para serem condenados." Jo 5,28-29
    Quanto àqueles que ressuscitarem para a Vida Eterna, Ele prometeu algo como Sua Transfiguração: "Então, no Reino de Meu Pai, os justos resplandecerão como o sol. Aquele que tem ouvidos, ouça." Mt 13,43
    É o que a Carta de São Paulo aos Filipenses aspira, dando a entender que na Transfiguração Nosso Senhor Se apresentou em Corpo Glorioso: "Nós, porém, somos cidadãos dos Céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante a Seu Corpo Glorioso, em virtude do poder que tem de sujeitar a Si toda criatura." Fl 3,20-21

    "A todos saciai com Vossa Glória!"