quinta-feira, 5 de março de 2026

A Ira


    No Evangelho Segundo São Mateus, que apontou o Sermão da Montanha, ao tratar da violência contida na Lei, ou seja, do Antigo Testamento, Jesus ensinou:

    "Tendes ouvido o que foi dito: 'Olho por olho, dente por dente.' Eu, porém, digo-vos: não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, também lhe oferece a outra. Se alguém te citar em justiça para te tirar a túnica, também lhe cede a capa. Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, anda dois mil. Dá a quem te pede e não te desvies daquele que quer pedir-te emprestado.
    Tendes ouvido o que foi dito: 'Amarás teu próximo e poderás odiar teu inimigo.' Eu, porém, digo-vos: amai vossos inimigos, fazei o bem àqueles que vos odeiam, rezai por aqueles que vos maltratam e perseguem.
    Deste modo sereis filhos de Vosso Pai do Céu, pois Ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos? Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Também não fazem isto os pagãos?
    Portanto, sede perfeitos, assim como Vosso Pai Celeste é perfeito."
                                                 Mt 5,38-48

    Assim, se algumas passagens do Antigo Testamento parecem absurdas, ou se as palavras de Jesus parecem revogar as sagradas prescrições, deve-se levar em conta os diferentes estágios de civilização, e assim as etapas da Revelação, observando o que Ele havia anunciado pouco antes. De fato, como no último versículo acima, Jesus falava de perfeição: "Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim para os abolir, mas sim para os levar à perfeição." Mt 5,17
    Nesse sentido, diante de uma revelação maior que é o Novo Testamento, a ira passou a ser um grave pecado, mesmo quando sua motivação parece justa. Jesus vai ampliar o alcance dessa prescrição: "Ouvistes o que foi dito aos antigos: 'Não matarás, mas quem matar será castigado pelo Juízo do Tribunal.' Eu, porém, digo-vos: todo aquele que se irar contra seu irmão será castigado pelos juízes." Mt 5,21-22a
    Demonstrou, portanto, ser muito mais exigente, de modo a condenar toda e qualquer palavra de ofensa que fique sem arrependimento: "Aquele que disser a seu irmão: 'Idiota', será castigado pelo Grande Conselho. Aquele que lhe disser: 'Louco', será condenado ao fogo da geena." Mt 5,22b
    Realmente falava de algo muito sério: "Eu digo-vos: no Dia do Juízo os homens prestarão contas de toda vã palavra que tiverem proferido." Mt 12,36
    Pedia toda iniciativa e diligência em busca da Paz, principalmente durante a Santa Missa: "Se estás, portanto, para fazer tua oferta diante do altar e lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá tua oferta diante do altar e primeiro vai reconciliar-te com teu irmão. Só então vem fazer tua oferta." Mt 5,23-24
    Em caso contrário, Ele alerta para o Purgatório: "Sem demora, entra em acordo com teu adversário enquanto estás em caminho com ele, para que não suceda que ele te entregue ao juiz, e o juiz te entregue a seu oficial de justiça e sejas posto em prisão. Na Verdade, digo-te: dali não sairás antes de pagares até o último centavo." Mt 5,25-26
    E é simples de entender o porquê de tanta 'exigência': em Cristo dispomos de uma inestimável dádiva, vivemos o tempo dos portentosos auxílios do Santo Paráclito! Ele diz do precioso recurso de que dispomos em caso de testemunho, o qual não podemos trair: "... naquele momento sê-vos-á inspirado o que haveis de dizer. Porque não sereis vós que falareis, mas é o Espírito de Vosso Pai que falará em vós." Mt 10,19a-20
    Ora, no Evangelho Segundo São João, Nosso Senhor prometeu que pelo Santo Paráclito nós conheceríamos toda a Verdade, e sempre seríamos assessorados: "É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece. Mas vós conhecê-Lo-eis, porque convosco permanecerá e em vós estará." Jo 16,13
    A Carta de São Paulo a São Tito, no mesmo sentido, lembra o Sacramento do Batismo e alegra-se com o "... Espírito Santo, que em profusão nos foi concedido por meio de Cristo, Nosso Salvador..." Tt 3,5b-6
    Já a Carta de São Paulo aos Romanos afirma quão reconfortante é essa nova condição: "Nós que esperamos o que não vemos, é em paciência que o aguardamos. Outrossim, o Espírito vem em auxílio a nossa fraqueza..." Rm 8,25-26a
    E a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios não tinha dúvida quanto aos dons do Santo Paráclito, por Ele distribuídos para o bem da Santa Igreja Católica, jamais contra ela: "A cada um é dada a manifestação do Espírito para comum proveito." 1 Cor 12,7
    Garantia: "N'Ele (Cristo) fostes ricamente contemplados com todos dons, com os da Palavra e os da ciência..." 1 Cor 1,5
    Por isso, a Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses pede que perseveremos sob Sua Graça: "Em todas circunstâncias dai graças, porque esta é a vontade de Deus, em Jesus Cristo, a vosso respeito. Não extingais o Espírito." 1 Ts 5,18-19
    E a Carta de São Paulo aos Efésios exorta: "Nenhuma má palavra saia de vossa boca, mas só a que for útil para a edificação, sempre que for possível, e benfazeja àqueles que ouvem. Não contristeis o Espírito Santo de Deus, com o Qual estais selados para o Dia da Redenção. Toda amargura, ira, indignação, gritaria e calúnia sejam desterradas de vosso meio, bem como toda malícia. Antes, sede bondosos e compassivos uns com os outros. Perdoai-vos uns aos outros, como Deus também vos perdoou, em Cristo." Ef 4,29-32
    A Carta de São Tiago, portanto, ensina sobre nossas palavras: "A língua está entre nossos membros e contamina todo corpo e sendo inflamada pelo inferno, incendeia o curso de nossa vida. Com ela bendizemos o Senhor, Nosso Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. De uma mesma boca procede a bênção e a maldição. Não convém, meus irmãos, que seja assim. Porventura lança uma fonte, por uma mesma bica, doce água e amargosa água?" Tg 3,6b.9-11
    Pois mesmo a ira de Deus, embora real, pouco diz, principalmente aos insensatos, de Sua imensa paciência e MisericórdiaSão Tiago Menor havia afirmado nossas imperfeições em comparação ao Divino Juízo: "Já o sabei, meus diletíssimos irmãos: todo homem deve ser pronto para ouvir, porém tardo para falar e tardo para se irar. Porque a ira do homem não cumpre a Justiça de Deus." Tg 1,19-20
    De fato, havia muito tempo, desde o Livro de Deuteronômio, que a justiça feita pelas próprias mãos já vinha sendo contestada por Deus: "... a Mim pertencem a vingança e as represálias..." Dt 32,35
    E no Livro de Salmos, o rei Davi canta o exemplo do Pai: "O Senhor é bom e misericordioso, lento para a cólera e cheio de clemência." Sl 102,8
    Mas não foi só com os Salmos e com Jesus que vimos um abrandamento dos rigores da lei mosaica. O Livro de Provérbios, como São Pedro vai mencionar (cf. 1 Pd 4,8), também já desaconselhava o ódio e exaltava o amor: "O ódio desperta rixas. O amor, porém, cobre uma multidão de pecados." Pr 10,12
    Este sagrado autor afirmava que a divina Justiça era melhor caminho que o ódio: "A vida está na vereda da Justiça. O caminho do ódio, porém, conduz à morte." Pr 12,28
    Ele via insanidade na violência, e grandes problemas no cinismo: "O homem violento comete loucura, o dissimulado atrai a si o ódio." Pr 14,17
    Recomendava a mansidão: "Uma branda resposta aplaca o furor, uma dura palavra excita a cólera." Pr 15,1
    Louvava o autocontrole: "Um sábio sabe conter sua cólera, e tem por honra passar por cima de uma ofensa." Pr 19,11
    E via no culto ao ódio uma porta aberta para todos pecados: "Aquele que odeia, fala com dissimulação, em seu interior projeta a fraude. Quando falar com amabilidade, não te fies nele porque há sete abominações em seu coração. Pode dissimular seu ódio sob aparências, e sua malícia acabará por ser revelada em público." Pr 26,24-26
    O Livro de Eclesiástico, aliás, não viu violência na pessoa de Moisés, apesar do assassinato que havia cometido (cf. Êx 2,12): "... foi amado por Deus e pelos homens: sua memória é abençoada. O Senhor deu-lhe uma glória semelhante à dos Santos... Santificou-o por sua e mansidão, escolheu-o entre todos homens." Eclo 45,1-2.4
    Certamente baseando-se no Livro de Números, que dizia: "Ora, Moisés era muito humilde homem, o mais humilde dos homens que havia na Terra." Nm 12,3
    O Eclesiástico via mais valor na serenidade que na própria caridade: "Filho, realiza teus trabalhos com mansidão e serás mais amado que um generoso homem." Eclo 3,19
    E também apontava a estultice da ira: "Cólera e furor são ambos execráveis. O homem pecador alimenta-os em si mesmo." Eclo 27,33
    A oração do Livro de Judite, por sinal, revelava um Deus mais afeito àqueles que primam pela mansidão: "... os soberbos nunca Vos agradaram, mas sempre Vos foram aceitas as preces dos mansos e humildes." Jt 9,16
    Assim também o Eclesiástico: "A oração do humilde penetra as nuvens." Eclo 35,21a
    E ainda um Salmo de Davi: "Sim, excelso é o Senhor! Ele vê o humilde, e de longe percebe os soberbos." Sl 137,6
    Eis que Jesus anunciou, e também desde o Sermão da Montanha, ou seja, desde o início de Sua Missão: "Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a Terra!" Mt 5,5
    Ele estava fazendo menção a outro Salmo de Davi, que havia muito já ensinava: "Quanto aos mansos, possuirão a Terra, e nela gozarão de imensa Paz." Sl 36,11
    Nosso Salvador também disse, no Evangelho Segundo São Marcos: "Amarás teu próximo como a ti mesmo." Mc 12,31
    E mais uma vez estava ressaltando um antigo ensinamento, do Livro de Levítico, quando Deus aplacava o ódio ao menos entre o povo de Israel: "Não odiarás teu irmão em teu coração. Repreenderás teu próximo para que não incorras em pecado por sua causa. Não te vingarás; não guardarás rancor contra os filhos de teu povo. Amarás teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor." Lv 19,17-18
    Essa importante revelação, portanto, foi reafirmada e amplificada por Jesus, pois ela precisava assumir seu devido lugar. A Primeira Carta de São João cravou: "Quem não ama, permanece na morte. Quem odeia seu irmão, é assassino. E sabeis que a Vida Eterna não permanece em nenhum assassino." 1 Jo 3,14a-15
    A Carta de São Paulo aos Gálatas até alertava para o risco que há nas situações de pecado, que, dependendo de nossas concupiscências, podem envolver-nos: "Irmãos, se alguém for surpreendido numa falta, vós, que sois animados pelo Espírito, admoestai-o em espírito de mansidão. E tem cuidado de ti mesmo, para que também não caias em tentação!" Gl 6,1
    A Primeira Carta de São Paulo a São Timóteo vai pedir: "Quero, pois, que os homens rezem em todo lugar, levantando limpas mãos, superando todo ódio e ressentimento." 1 Tm 2,8
    E a Segunda Carta de São Paulo a São Timóteo recomendou-lhe que ficasse longe de vãos debates: "Rejeita as tolas e absurdas discussões, visto que geram contendas. A um servo do Senhor não convém altercar. Bem ao contrário, seja ele condescendente com todos, capaz de ensinar, paciente em suportar os males. É com brandura que deve corrigir os adversários, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento e o conhecimento da Verdade, e voltem a si, uma vez livres dos laços do Demônio, que a seus caprichos os mantém cativos e submetidos." 2 Tm 2, 23-26
    Porque lhe havia indicado o caminho da Paz, em oposição ao da cobiça e suas sequelas: "Acossados pela cobiça, alguns desviaram-se da fé e enredaram-se em muitas aflições. Mas tu, ó homem de Deus, foge desses vícios e com todo empenho procura a piedade, a fé, a caridade, o amor, a mansidão." 1 Tm 6,10b-11
    Reclamava da fraca espiritualidade dos cristãos da cidade de Corinto: "A vós, irmãos, não vos pude falar como a homens espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo. Eu dei-vos a beber leite e não sólido alimento, que ainda não podíeis suportar. Nem agora o podeis, porque ainda sois carnais. Com efeito, enquanto entre vós houver ciúmes e contendas, não será porque sois carnais e procedeis de meramente humano modo?" 1 Cor 3,1-3
    A Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios tornou a reclamar: "Temo que, quando for, não vos ache quais eu quisera, e que vós me acheis qual não quereríeis. Receio encontrar entre vós contendas, invejas, rixas, dissensões, calúnias, murmurações, arrogâncias e desordens. Receio que a minha chegada entre vós Deus ainda me humilhe a vosso respeito, e tenha de chorar por muitos daqueles que pecaram e não fizeram penitência da impureza, da fornicação e da dissolução que cometeram." 2 Cor 12,20-21
    Em prevenção a estes erros, ele exortava São Timóteo à religiosidade: "Exercita-te na piedade. Se o corporal exercício traz algum pequeno proveito, a piedade, esta sim, é útil para tudo, porque tem a promessa da presente e da futura Vida. Eis uma verdade absolutamente certa e digna de fé: se nos afadigamos e sofremos ultrajes, é porque pusemos nossa esperança em Deus Vivo, que é o Salvador de todos homens, sobretudo dos fiéis. Seja este o objeto de tuas prescrições e de teus ensinamentos." 1 Tm 4,8-11
    Daqueles que caem na irreligiosidade, ele dizia: "Porque, conhecendo a Deus, não O glorificaram como Deus nem Lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos e obscureceu-se-lhes o insensato coração. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos. Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Deus entregou-os a depravados sentimentos, e daí seu indigno procedimento. São repletos de toda espécie de malícia, perversidade, cobiça, maldade. Cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade. São difamadores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, soberbos, altivos, inventores de maldades, rebeldes aos pais. São insensatos, desleais, sem coração, sem Misericórdia. Apesar de conhecerem o justo decreto de Deus que considera dignos de morte aqueles que fazem tais coisas, não somente as praticam, como também aplaudem aqueles que as praticam." Rm 1,21-22.28-32
    E até para com mundanas autoridades, ele pedia aos católicos que praticassem obediência, como escreveu a São Tito, seu grande colaborador: "Admoesta-os a que sejam submissos aos magistrados e às autoridades, sejam obedientes, estejam prontos para qualquer boa obra, não falem mal dos outros, sejam pacíficos, afáveis e saibam dar provas de toda mansidão para com todos homens." Tt 3,1-2
    Foi mais detalhado ao escrever a São Timóteo, justificando: "Acima de tudo, recomendo que se façam preces, orações, súplicas, ações de graças por todos homens, pelos reis e por todos que estão constituídos em autoridade, para que possamos viver uma calma e tranquila vida, com toda piedade e honestidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, Nosso Salvador..." 1 Tm 2,1-3
    Era o mesmo que São Tiago Menor dizia sobre como devemos receber a Palavra de Deus: "Rejeitai, pois, toda impureza e todo vestígio de malícia, e com mansidão recebei a Palavra em vós semeada, que pode salvar vossas almas." Tg 1,21
    Ele pregava: "Quem dentre vós é sábio e inteligente? Mostre com um bom proceder suas obras perpassadas de doçura e de Sabedoria. Mas se no coração tendes um amargo ciúme e gosto por contendas, não vos glorieis, nem mintais contra a Verdade. Esta não é a Sabedoria que vem do alto, mas terrena, humana e diabólica sabedoria. Onde houver ciúme e contenda, também há perturbação e toda espécie de vícios. A Sabedoria, porém, que vem de cima, é primeiramente pura, depois pacífica, condescendente, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, nem fingimento." Tg 3,13-17


A SUPERIORIDADE DO AMOR

    Se Jesus cabalmente refutou a ira, e mandou que amássemos até mesmo nossos inimigos, seria ainda mais contundente ao enunciar, como Deus que é, Seu amor como medida: "Dou-vos um Novo Mandamento: amai-vos uns aos outros. Como Eu vos tenho amado, assim vós também deveis amar-vos uns aos outros. Este é Meu Mandamento..." Jo 13,34;15,12a
    E esse é o maior sinal de Sua Igreja: "Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." Jo 11,35
    São Paulo, portanto, não exagera ao falar do amor como o pleno cumprimento de todos Mandamentos: "A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, a não ser recíproco amor, porque aquele que ama seu próximo cumpriu toda Lei." Rm 13,8
    São João Evangelista confirma: "Quem ama seu irmão permanece na Luz, e não se expõe a tropeçar." 1 Jo 2,10
    E avisa: "Mas quem odeia seu irmão está nas trevas e anda nas trevas, sem saber para onde dirige os passos. As trevas cegaram seus olhos." 1 Jo 2,11
    Falando dos relatos de Epafras, um de seus colaboradores, a Carta de São Paulo aos Filipenses diz Quem nos faz amar: "Foi ele que nos informou do amor com que o Espírito vos anima." Fl 1,8
    Aos cristãos de Roma, ele revelou a origem de nossa capacidade para o verdadeiro amor: "Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado." Rm 5,5b
    A Segunda Carta de São Paulo aos Tessalonicenses, pois, reza pelos divinos amor e paciência: "Que o Senhor dirija vossos corações para o amor de Deus e a paciência de Cristo." 2 Ts 3,5
    O Amado Discípulo chega a ser bem simples, mas deixou-nos um dos mais belos conceitos de Deus: "Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor." 1 Jo 4,8
    Para ele, o verdadeiro amor traz tanta Paz e segurança que é desprovido de qualquer medo: "No amor não há temor. Antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve castigo, e quem teme não é perfeito no amor." 1 Jo 4,18
    Em consonância com o que foi dito por São Paulo, ele afirma que o amor está na observância dos Mandamentos: "Eis o amor de Deus: que guardemos Seus Mandamentos." 1 Jo 5,3
    E Seu amor induz-nos não a ira, mas ao perdão, como Jesus mandou rezar no Pai Nosso, pedindo um perdão na proporção daquele que oferecemos: "... perdoai nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido." Mt 6,12
    Porém não só nessa oração, mas em todas: "E quando vos puserdes de pé para rezar, perdoai, se tiverdes algum ressentimento contra alguém, para que Vosso Pai, que está nos Céus, também perdoe vossos pecados. Mas se não perdoardes, tampouco Vosso Pai que está nos Céus perdoará vossos pecados." Mc 11,25-26
    Enfim, o Apóstolo dos Gentios pede temperança e lembra nosso dever de não guardar rancor por nem um dia: "Mesmo em cólera, não pequeis. Não se ponha o sol sobre vosso ressentimento." Ef 4,26

A GRAÇA DA PAZ

    A Paz de Cristo, pois, é nossa maior conquista nesse mundo, principalmente para quem já foi atormentado pela ira. Por isso, Davi recomenda num Salmo que a busquemos com pertinácia: "Aparta-te do mal e faze o bem, busca a Paz e vai a seu encalço." Sl 33,15
    Os Provérbios colocam-na como mais valiosa que o mais saboroso alimento: "Mais vale um bocado de pão seco, com a Paz, que uma casa cheia de carnes, com a discórdia." Pr 17,1
    O Livro do Profeta Isaías também declamou sobre a excelência da Paz, revelando o caminho para alcançá-la: "A Justiça produzirá a Paz, e o direito assegurará a tranquilidade..." Is 32,17
    São Tiago Menor tem parecida receita: "O fruto da Justiça semeia-se na Paz, para aqueles que praticam a Paz." Tg 3,18
    E denunciava nas desregradas paixões a fonte das intrigas, que prenunciam a ira: "De onde vêm as lutas e as contendas entre vós? Não vêm elas de vossas paixões, que combatem em vossos membros?" Tg 4,1
    Pois a Paz não está disponível para todos, como Isaías revelou: "'Mas não há Paz para os maus', diz o Senhor." Is 48,22
    São Paulo também apontava os pecados como o principal obstáculo à Paz: "Ora, a aspiração da carne é a morte, enquanto a aspiração do espírito é a Vida e a Paz." Rm 8,6
    Ele aponta em Deus essa marcante característica: "E o Deus da Paz esteja com todos vós." Rm 15,33
    E diz que a Sagrada Tradição ensina como podemos ter Deus sempre por perto: "O que aprendestes, recebestes, ouvistes e observastes em mim, isto praticai, e o Deus da Paz estará convosco." Fl 4,9
    Pois só Ele pode fazer-nos conhecer a perfeição dos Santos: "O Deus da Paz conceda-vos perfeita santidade. Que todo vosso ser, a saber, espírito, alma e corpo, seja conservado irrepreensível para a Vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo!" 1 Ts 5,23
    E só Sua Paz mantem-nos longe das propensões para o mal, como está na Segunda Carta de São Pedro: "Portanto, caríssimos, esperando estas coisas, esforçai-vos em ser por Ele (Deus) achados sem mácula e irrepreensíveis na Paz." 2 Pd 3,14
    São Paulo assim apresenta Jesus: "Porque é Ele nossa Paz... Veio para anunciar a Paz a vós que estáveis longe, e a Paz também àqueles que estavam perto..." Ef 2,14.17
    O Evangelho, nas palavras dele, também tem essa específica marca: "... e os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da Paz." Ef 6,15
    E nem tentava explicar essa Paz: "E a Paz de Deus, que a toda inteligência excede, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus." Fl 4,7
    Na Carta de São Paulo aos Colossenses, portanto, vemos que ele só aguardava a vitória do Corpo Místico de Cristo: "Em vossos corações triunfe a Paz de Cristo, para a qual fostes chamados a fim de formar um único Corpo. E sede agradecidos." Cl 3,15
    Pregava que permanecêssemos entre os membros da Igreja Católica, celebrando a Santa Missa, como exortou São Timóteo: "Foge das paixões da mocidade, com empenho busca a Justiça, a fé, a caridade, a Paz, em companhia daqueles que invocam o Senhor com pureza de coração." 2 Tm 2,22
    Pediu mais que amor por nossos Sacerdotes: "Assim, pois, mutuamente vos consolai e vos edificai, como já fazeis. Suplicamo-vos, irmãos, que reconheçais aqueles que entre vós arduamente trabalham para vos dirigir no Senhor e vos admoestar. Tende para com eles singular amor, em vista do cargo que exercem. Conservai a Paz entre vós." 1 Ts 5,11-13
    E rezava para que nós a mantivéssemos por todos instantes: "O Senhor da Paz conceda-vos a Paz em todo tempo e em todas circunstâncias. O Senhor esteja com todos vós." 2 Ts 3,16
    Pois só conseguimos viver a Unidade da fé, que é proporcionada pelo Espírito Santo, se tivermos a Paz de Cristo: "Exorto-vos, pois, prisioneiro que sou pela causa do Senhor, que leveis uma vida digna da vocação à qual fostes chamados, com toda humildade e amabilidade, com grandeza de alma, mutuamente suportando-vos com caridade. Sede solícitos em conservar a Unidade do Espírito pelo vínculo da Paz." Ef 4,1-3
    Esta, portanto, é a missão da Igreja Una, como Ele mesmo determinou a São Pedro, o Príncipe dos Apóstolos (cf. Mt 10,2), após ressuscitar: "Apascenta Meus cordeiros. Apascenta Minhas ovelhas." Jo 21,15b.17b
    E na Primeira Carta de São Pedro pediu a todos Presbíteros, que vieram a ser chamados de padres: "Apascentai o rebanho de Deus, que vos é confiado. Dele tende cuidado, não constrangidos, mas espontaneamente; não por amor de sórdido interesse, mas com dedicação. Não como absolutos dominadores sobre as comunidades que vos são confiadas, mas como modelos de vosso rebanho." 1 Pd 5,2-3


A PAZ DE CRISTO

    Em oposição ao terrível pecado da ira, pois, o maior presente que Jesus nos concede nesse mundo, depois de Seu infinito amor, é Sua indizível Paz. Na noite em que ia ser entregue, Ele disse a Apóstolos, discípulos e seguidores: "Deixo-vos a Paz, dou-vos Minha Paz. Não a dou como o mundo a dá. Não se perturbe vosso coração, nem se atemorize!" Jo 14,27
    Portanto, não podemos hesitar em abraçar Seus ensinamentos. Porque, se bem examinarmos, só na mansidão de Cristo encontraremos o sossego que buscamos: "Tomai Meu jugo sobre vós e recebei Minha Doutrina, porque Eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para vossas almas." Mt 11,29

    "Fazei-nos, ó Pai, instrumentos de Vossa Paz!"