quinta-feira, 7 de maio de 2026

A Moralidade das Paixões


    A palavra 'paixão' é do vocabulário cristão, e significa forte emoção ou sensibilidade. É uma das mais importantes funções da psique humana, e, em muitos casos, independente da real necessidade, é ela que nos leva a agir ou a nos omitir. É, portanto, o objeto da paixão que vai determinar se ela é boa ou má, porque, como elo entre a vida sensível e a vida espiritual, seus impulsos necessariamente passam pela escolha da consciência moral, de nossa formação social, e aí, movida pela intenção, é que ela se inclina para o bem ou para o mal.
    Nestes termos, entende-se o Amor de Salvação, em seu ápice representado pela Paixão de Cristo, como o Evangelho Segundo São João registrou: "Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara Sua hora de passar deste mundo ao Pai, como amasse os Seus que estavam no mundo, amou-os até o fim." Jo 13,1
    Entende-se o próprio amor do Pai, que levou Seu Filho à Santa Cruz, nas palavras de Nosso Salvador: "Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo que lhe deu Seu único Filho, para que todo aquele que n'Ele crer não pereça, mas tenha a Vida Eterna. Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para o condenar, mas para que por Ele o mundo seja salvo." Jo 3,16-17
    E ainda o amor de Jesus ao Pai, como Ele sentenciou na noite em que ia ser entregue: "O mundo, porém, deve saber que amo o Pai, e procedo como o Pai Me ordenou." Jo 14,31a
    As paixões são muitas. Com seus correspondentes opostos, as principais são amor e ódio, desejo e medo, e alegria e tristeza. E tomando à parte o amor, por ser natural fundamento de toda vida, mais propriamente se vê que ele é a própria atração pelo bem, como valor absoluto. Quem poderia relativizar a importância da Verdade, da Paz, da Justiça, do bem-estar ou do simples alimento? O bem que atrai e provoca o amor, portanto, é o bem absoluto, que, embora possa ser representado pelos mais belos bens espirituais e materiais criados por Deus, é melhor compreendido como Ele próprio, por Suas Três Pessoas.
    O amor, de fato, quando conhecido, causa o desejo do bem e a esperança de o alcançar, e assim, se esse anseio se realiza, se experimenta os mais conhecidos prazeres e alegrias. Logo, as paixões são boas quando o bem é real, ou más quando o bem é ilusório.
    Jesus aponta o coração como fonte das paixões, pois é o exato lugar onde se combinam os elementos da sensibilidade e da consciência, e estes geram a vontade. No Evangelho Segundo São Lucas, Ele disse: "O bom homem tira boas coisas do bom tesouro de seu coração, e o mau homem tira más coisas de seu mau tesouro, porque a boca fala daquilo de que o coração está cheio." Lc 6,45
    E no Evangelho Segundo São Mateus, Ele tratou de revelar os verdadeiros tesouros, e onde nós os guardamos: "Não ajunteis para vós tesouros na Terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no Céu, onde nem as traças nem a ferrugem os consomem, e os ladrões não furtam nem roubam. Porque onde está teu tesouro, lá também está teu coração." Mt 6,19-21
    Pois assim como fonte das boas paixões, que embora mais conhecidas não sejam as mais cultuadas, Ele fazia questão de ressaltar o coração como fonte das más paixões: "Porque é do coração que provêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias." Mt 15,16
    Ele já havia exemplificado desde o Sermão da Montanha: "Ouvistes que foi dito aos antigos: 'Não cometerás adultério.' Eu, porém, digo-vos: todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou em seu coração." Mt 5,27-28
    Flagrou os escribas, que achavam que Ele estava blasfemando quando perdoou os pecados de um paralítico, antes de o curar: "Jesus, penetrando-lhes os pensamentos, perguntou-lhes: 'Por que pensais mal em vossos corações?'" Mt 9,4
    Por isso, mesmo diante de todos reais perigos que o católico vive, a Primeira Carta de São Pedro recomenda: "Antes santificai Cristo, o Senhor, em vossos corações." 1 Pd 3,13-15a
    E a Carta de São Tiago denuncia: "Lavai as mãos, pecadores, e purificai vossos corações, ó homens de dupla atitude." Tg 4,8
    Contudo, apesar de brotar no coração, a paixão inegavelmente é regulada pela razão e pela vontade, que, fora casos de enfermidades mentais, jamais são desativadas. Então ninguém se engane: quando é mau o objeto da paixão, em simultâneo vacila a natureza primeira do coração com o impulso que nele insurge, e nega-se a consentir, só se deixando vencer se for acintosa e fortemente combatida por más razões e maus exemplos, leia-se, escândalos. É nesse momento que, mesmo que de atribulado modo, o objeto da paixão invariavelmente passa pela avaliação da consciência moral, do mecanismo natural que pondera, sob os valores pessoais, as informações em questão, e que toma uma decisão.
    Em condições normais, por exemplo, não se questiona se os pais devem ou não dar alimento a um recém-nascido. Devem muito mais: devem dar amor! Mas isso só se afirma por força da apreciação moral. Por ela, nada desobriga um ser de dar amor a uma indefesa criatura fruto de sua carne, não importando em que condições se esteja ou em que condições a criança foi gerada. Isso faz parte da consciência instintiva, verificável mesmo entre os animais.
    Outro fácil exemplo: o que nos obriga a não destruir o meio ambiente? Não é apenas por razões econômicas, mas principalmente porque sabemos que estamos aniquilando nossas chances de sobrevivência e, principalmente, as de nossos descendentes. Vale dizer: só contrariando uma elementar formação moral poderíamos continuar dando continuidade a atividades ecologicamente nocivas.
    A Constituição Pastoral da Santa Igreja Católica Gaudium et Spes, título que significa alegria e esperança, inspiradamente ensina: "Na intimidade da consciência, o ser humano descobre uma lei." GS 16
    E o Livro de Sabedoria menciona esse 'freio moral' como sendo a virtude da temperança, elencando as três demais, que são as cardeias: "E se alguém ama a Justiça, seus trabalhos são virtudes. Ela (a Sabedoria) ensina a temperança e a prudência, a Justiça e a fortaleza. Não há, na vida, nada que seja mais útil aos homens." Sb 8,7
    Eis que o Livro de Eclesiástico reza a Deus: "Afastai de mim a intemperança! Que a paixão da volúpia não se apodere de mim, e não me entregueis a uma alma sem pejo e sem pudor!" Eclo 23,6
    E a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios, falando como verdadeiro Sacerdote de Cristo, diz do Evangelho como leis inscritas no coração: "Não há dúvida de que vós sois uma carta de Cristo, redigida por nosso Ministério e escrita, não com tinta, mas com o Espírito de Deus Vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, em vossos corações." 2 Cor 3,3
    Pois essa foi a promessa de Deus a se realizar em Jesus, pela Nova e Eterna Aliança, como está no Livro do Profeta Jeremias: "Dias hão de vir - Oráculo do Senhor - em que firmarei Nova Aliança com as casas de Israel e de Judá. Será diferente daquela que concluí com seus pais no dia em que pela mão os tomei para os tirar de Egito, Aliança que violaram embora Eu fosse o Esposo deles. Eis a Aliança que, então, farei com a Casa de Israel - Oráculo do Senhor: Incutir-lhe-ei Minha Lei, gravá-la-ei em seu coração. Serei Seu Deus e Israel será Meu povo." Jr 31,31-33
    Ora, é a mais pura Verdade: fazendo bom uso da consciência, não conseguimos determinar-nos a agir pelo mal. O relativismo, na melhor das hipóteses, é uma disfunção da razão, uma patologia! Bem observando, obedecemos a uma lei muito mais profunda que nossa mera formação e experiências de vida. A importância da formação moral, porém, está na consolidação dos escrúpulos, que nos ajudam a enxergar essa lei nas mais diversas situações. No Livro de Salmos, o rei Davi cantava antecipando palavras do próprio Cristo: "... fazer Vossa vontade, Meu Deus, é o que Me agrada, porque Vossa Lei está no íntimo de Meu Coração." Sl 39,9
    A Carta de São Paulo aos Romanos assim explica a existência dessa lei, dessa consciência moral, falando dos não judeus: "Os pagãos, que não têm a Lei, naturalmente fazendo as coisas que são da Lei, eles, embora não tenham a Lei, a si mesmos servem de Lei. Eles mostram que o objeto da Lei está gravado em seus corações, dando-lhes testemunho sua consciência, bem como seus raciocínios, com os quais mutuamente se acusam ou se escusam." Rm 2,14-15
    E assim também atestava a percepção de Deus pelos pagãos: "Desde a criação do mundo, as invisíveis perfeições de Deus, Seu sempiterno poder e divindade, tornam-se visíveis à inteligência por Suas obras, de modo que não podem escusar-se." Rm 1,20
    Por isso, ele reconhece, ainda que também confesse: "Sabemos que a Lei é espiritual, mas eu sou carnal, vendido como escravo ao pecado. Eu sei que em mim, isto é, em minha carne, não habita o bem, porque o querer o bem está em mim, mas não sou capaz de o efetuar. Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que faço, mas sim o pecado que em mim habita. Eu deleito-me na Lei de Deus, no íntimo de meu ser, mas em meus membros percebo outra lei que luta contra a lei de minha razão e me acorrenta à lei do pecado, que está em meus membros." Rm 7,14.18-20.22-23
    Assim claramente se tem que a paixão não é o único elemento determinante das decisões, pois ela compõe com a razão e a vontade, também chamada de intenção, a motivação de nossas boas e más ações. E, mais uma vez, a consciência moral, ou seja, a razão, é que examina e decide qual será nossa vontade diante de uma determinada paixão. Ora, os anjos que anunciaram o Nascimento de Jesus disseram aos pastores dos arredores da cidade de Belém: "... e Paz na Terra aos homens de boa vontade." Lc 2,14


SANTA OBEDIÊNCIA

    O próprio Jesus, por simples obediência, estritamente cumpriria a vontade do Pai, como explicou aos líderes judeus de Jerusalém após curar um paralítico num dia de sábado: "... porque não busco Minha vontade, mas a vontade d'Aquele que Me enviou." Jo 5,30
    É o que também vai dizer momentos antes de Sua prisão, rezando a Ele: "Pai, se é de Teu agrado, afasta de Mim este cálice! Porém não se faça Minha vontade, mas sim a Tua." Lc 22,42
    A Carta de São Paulo aos Filipenses testemunha esse feito, recitando o Hino Cristológico: "Sendo Ele de divina condição, não Se prevaleceu de Sua igualdade com Deus, mas a Si mesmo aniquilou, assumindo a condição de escravo e assemelhando-Se aos homens." Fl 2,6-7
    Por isso, a Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses já exortava: "Esta é a vontade de Deus: vossa santificação! Que eviteis a impureza, que cada um de vós santa e honestamente saiba possuir seu corpo, sem se deixar levar por desregradas paixões, como os pagãos que não conhecem a Deus." 1 Ts 4,3-5
    Diante das tentações que surgem antes da idade da razão, a Segunda Carta de São Paulo a São Timóteo dá era simples porém sábia recomendação: fugir, buscar a companhia daqueles que frequentam a Santa Missa, ou seja, daqueles que realmente são membros do Corpo Místico de Cristo: "Foge das paixões da mocidade, com empenho busca a Justiça, a , a caridade, a Paz, em companhia daqueles que invocam o Senhor com pureza de coração." 2 Tm 2,22
    De fato, a Primeira Carta de São João garante a total expiação operada pela Paixão de Cristo, que é revivida e atualizada na Igreja Una, por excelência representada pela Comunhão dos Santos: "Se dizemos ter Comunhão com Ele (Deus), mas andamos nas trevas, mentimos e não seguimos a Verdade. Se, porém, andamos na Luz como Ele mesmo está na Luz, temos Comunhão uns com os outros, e o Sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, purifica-nos de todo pecado. Se dizemos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos, e a Verdade não está em nós." 1 Jo 1,6-8
    E a Carta de São Paulo aos Gálatas explica: "Pois aqueles que são de Jesus Cristo, crucificaram a carne com as más paixões e concupiscências." Gl 5,24
    Ele revela a importância das penitências: "Portanto, irmãos, não somos devedores da carne, para que vivamos segundo a carne. De fato, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer, mas se pelo espírito mortificardes as obras da carne, vivereis, pois todos que são conduzidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus." Rm 8,12-14
    Falando a São Timóteo, com contundência critica os hedonistas, que por tal comportamento nunca conseguem perceber propriamente as santas coisas, o sagrado: "... amigos dos prazeres e não de Deus, ostentarão a aparência de piedade, mas desdenharão de sua autoridade. Dessa gente, afasta-te! Deles fazem parte aqueles que jeitosamente se insinuam pelas casas e enfeitiçam mulherzinhas carregadas de pecados, atormentadas por toda espécie de paixões, sempre a aprender sem nunca chegar ao conhecimento da Verdade." 2 Tm 3,4b-7
    Mais: profetiza que as más paixões levarão muita gente a renegar Jesus, e a buscar 'religiões' que tolerem seus pecados: "Porque virá tempo em que os homens já não suportarão a Sã Doutrina da Salvação. Levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustarão mestres para si." 2 Tm 4,3
    E a Missão de Jesus é resumida como uma exortação à religiosidade, ou seja, vida contrária à dissolução, na Carta de São Paulo a São Tito: "Veio para nos ensinar a renunciar à impiedade e às mundanas paixões, e a viver neste mundo com toda sobriedade, Justiça e piedade..." Tt 2,12
    A Segunda Carta de São Pedro, pois, denuncia os falsos mestres exatamente porque renegam a autoridade da Igreja, e, cativando imprudentes, levam a vida na prática de perversões: "... aqueles que com impuros desejos correm atrás dos prazeres da carne e desprezam a autoridade. Audaciosos, arrogantes, não temem falar injuriosamente das Glórias... quais brutos destinados pela lei natural para a presa e para a perdição, injuriam o que ignoram... Encontram suas delícias entregando-se em pleno dia às libertinagens. Pervertidos e imundos homens, sentem prazer em enganar... Têm os olhos cheios de adultério, e são insaciáveis no pecar. Por seus artifícios, seduzem as inconstantes almas, têm o coração acostumado à cobiça, são filhos da maldição. Com palavras tão vãs quanto enganadoras, pelas carnais paixões e pela devassidão atraem aqueles que mal acabam de escapar dos homens que vivem no erro. Prometem-lhes a liberdade quando eles mesmos são escravos da corrupção, pois o homem é feito escravo daquele que o venceu. Com efeito, se aqueles que renunciaram às corrupções do mundo pelo conhecimento de Jesus Cristo, Nosso Senhor e Salvador, nelas de novo deixam-se enredar e vencer, seu último estado torna-se pior que o primeiro." 2 Pd 2,10.12a.13a.14.18-20
    No comportamento desses deturpadores da Sã Doutrina, a Carta de São Judas pontualmente vai denunciar a luxúria, causada pela ausência da Unção do Espírito de Deus, e ao cabo faz uma exortação à verdadeira fé: "No fim dos tempos virão impostores, que viverão segundo suas ímpias paixões. Homens que semeiam a discórdia, homens sensuais que não têm o Espírito. Mas vós, caríssimos, mutuamente vos edificai sobre o fundamento de vossa santíssima fé. Rezai no Espírito Santo." Jd 18-20
    São Paulo registrou ainda mais graves consequências para aqueles que renegam a religiosidade, e assim ao próprio Criador, escondendo-se em religiões animistas: "A ira de Deus manifesta-se do alto do Céu contra toda impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a Verdade. Porque, conhecendo a Deus, não O glorificaram como Deus nem Lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e obscureceu-se-lhes o insensato coração. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos. Mudaram a majestade de Deus, que é incorruptível, em representações e figuras de corruptível homem, de aves, quadrúpedes e répteis. Por isso, Ele entregou-os aos desejos de seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. Trocaram a Verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém! Por isso, Deus entregou-os a vergonhosas paixões: suas mulheres mudaram as naturais relações em relações contra a natureza. Do mesmo modo, os homens, deixando o natural uso da mulher, arderam em desejos uns para com os outros, cometendo a torpeza homens com homens, e recebendo em seus corpos a paga devida a seu desvario. Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Ele entregou-os a depravados sentimentos, e daí seu indigno procedimento. São repletos de toda espécie de malícia, perversidade, cobiça, maldade. Cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade. São difamadores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, soberbos, altivos, inventores de maldades, rebeldes aos pais. São insensatos, desleais, sem coração, sem misericórdia. Apesar de conhecerem o justo decreto de Deus, que considera dignos de morte aqueles que tais coisas fazem, não somente as praticam, como também aplaudem aqueles que as cometem." Rm 1,18.21-32
    Contudo, a Carta de São Paulo aos Colossenses pede muito tato: "Procedei com Sabedoria no trato com aqueles de fora. Sabei aproveitar todas circunstâncias. Que vossas conversas sejam sempre amáveis, temperadas com sal, e a cada um sabei responder devidamente." Cl 4,5-6
    Pois ele bem sabe contra quem se está em guerra: "É com brandura que deve corrigir os adversários, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento e o conhecimento da Verdade, e voltem a si, uma vez livres das correntes do Demônio, que os mantém cativos e submetidos a seus caprichos." 2 Tm 2,25-26
    Evocando a vida passada de todo convertido, a Carta de São Paulo aos Efésios pondera: "E vós estáveis mortos por vossas faltas, pelos pecados que outrora cometestes seguindo o modo de viver deste mundo, do príncipe das potestades do ar, do espírito que agora atua nos rebeldes. Todos nós também éramos deste número quando vivíamos nos carnais desejos, fazendo a vontade da carne e da concupiscência. Éramos como os outros, por natureza, verdadeiros objetos da divina ira." Ef 2,1-3
    Falando sobre a mais crua realidade, sobre essa lei maior que encontramos em nossas consciências, ou seja, sobre a Verdade, o Príncipe dos Apóstolos coloca a obediência como bússola que deve nortear nossas vontades e nossas paixões: "Em obediência à Verdade, tendes purificado vossas almas para praticardes um sincero e fraterno amor. Amai-vos, pois, uns aos outros, ardentemente e do fundo do coração." 1 Pd 1,22
    E convida-nos ao Sacramento da Confissão, e assim às penitências, que verdadeiramente nos libertam: "Assim, pois, como Cristo padeceu na carne, também vos armai deste mesmo pensamento: quem padeceu na carne rompeu com o pecado, a fim de que, no tempo que lhe resta para o corpo, já não viva segundo as humanas paixões, mas segundo a vontade de Deus. Baste-vos que no tempo passado tenhais vivido segundo os caprichos dos pagãos, em luxúrias, concupiscências, embriaguez, orgias, bebedeiras e criminosas idolatrias." 1 Pd 4,1-3
    São Tiago Menor, por fim, denuncia as más inclinações como fonte de todo mal: "De onde vêm as lutas e as contendas entre vós? Não vêm elas de vossas paixões, que em vossos membros combatem? Cobiçais, e não recebeis. Sois invejosos e ciumentos, e não conseguis o que desejais. Litigais e fazeis guerra. Não obtendes, porque não pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, com o fim de satisfazerdes vossas paixões. Adúlteros, não sabeis que o amor ao mundo é abominado por Deus? Todo aquele que quer ser amigo do mundo, constitui-se inimigo de Deus." Tg 4,1-4
    A Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios faz o mesmo, ao acusar limitações em assuntos espirituais: "A vós, irmãos, não vos pude falar como a homens espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo. Eu dei-vos leite a beber, e não sólido alimento que ainda não podíeis suportar. Nem agora o podeis, porque ainda sois carnais. Com efeito, enquanto entre vós houver ciúmes e contendas, não será porque sois carnais e procedeis de um totalmente humano modo?" 1 Cor 3,1-3
    E os seguidores de sua tradição complementam, na Carta aos Hebreus: "Ora, quem se alimenta de leite não é capaz de compreender uma profunda doutrina, porque ainda é criança. Mas o sólido alimento é para os adultos, para aqueles que a experiência já exercitou na distinção do bem e do mal." Hb 5,13-14
    As paixões em si, portanto, enquanto sensibilidade, não são nem boas nem más. Quando motivadas por imoral razão ou má vontade, tornam-se desordenadas e pervertem-se em vícios, mas, quando motivadas para o bem, tornam-se virtudes.

    "Confirmai na caridade Vosso povo!"