sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Santa Margarida da Escócia


    Era sobrinha de Santo Estevão, que foi rei da Hungria, além de neta de Edmundo II, filha de Eduardo, o exilado, e irmã de Edgar Atheling, todos reis da Inglaterra.
    Sua mãe, Ágata, era sobrinha do sacro imperador romano-germânico Santo Henrique II e irmã da rainha Gisela, esposa do rei Santo Estevão.
    Nasceu em 1045, na Hungria, para onde seu pai e seu tio, Edmundo III, fugiram para proteger-se dos normandos. Retornaram a Inglaterra em 1054, durante o reinado de Santo Eduardo III, que mandou chamá-los. Criada à sombra de Santo Estêvão, desde cedo Santa Margarida já mostrava sua forte vocação religiosa através de frequentes orações, de assiduidade à Santa Missa e de compaixão pelos pobres.
    Com o falecimento de seu pai, seu irmão passou a ser o primeiro da linha de sucessão para o trono da Inglaterra. Dez anos depois, porém, os normandos, liderados por Guilherme, o conquistador, invadiram o país, e Santa Margarida, seu irmão e sua mãe tiveram que fugir.
    O navio, porém, levado por uma tempestade, rumou para as terras da Escócia, onde foram muito bem acolhidos pelo rei Malcon III. Santa Margarida queria ser freira, vocação que havia sido abraçada por sua irmã, Cristina, mas, convencida por seus familiares, terminou casando-se com o rei escocês aos 23 anos, mesmo contra sua mais íntima vontade. Era considerada a princesa mais bonita da Europa.


    Viu naquele Matrimônio, contudo, a vontade de Deus: era uma privilegiada oportunidade para evangelizar o povo escocês. Percebeu que poderia contar com ajuda do marido, pois realmente tinha muito boa índole. E de fato, sob a influência de nossa Santa, ele tornou-se um dos mais virtuosos reis da Escócia.
    Santa Margarida viveu seu reinado em profunda religiosidade, pois por exemplo seu e do marido sabia que poderia transformar os costumes daquela nação. E assim o fez: proibiu a exagerada distribuição de bebida na corte, reeducando ou afastando os nobres beberrões, estimulou as forças de trabalho e o comércio com outros países, e, sua principal marca, trabalhou ativamente pelos mais pobres, abrindo hospitais, visitando-os com frequência e dando-lhes comida e abrigo em situações de necessidade.
    Tinha especial cuidado para com os órfãos, viúvas e idosos, que levava para sua mesa e com eles ceava. Estimulou todo país ao hábito de participar da Santa Missa. Mandou construir muitas igrejas e mosteiros, entre eles a Abadia da Ilha de Iona, cuja fundação por São Columba data do século VI, e a famosa Abadia de Dunfermline, que vieram a abrigar relíquias da Santa Cruz.


    Dedicou muito especial atenção aos sacerdotes e religiosos de seu país. Criou dioceses, convocou sínodos, proibiu ilícitos casamentos e instituiu os jejuns na Quaresma e a Santíssima Comunhão na Páscoa. E como era de esperar, converteu o marido e sobremaneira refinou seus modos, pois era analfabeto e um tanto rude. Teve 8 filhos e instruiu-os nas leis de Deus, afastando-os da vaidade e dos pecados mortais.
    Sua filha, também chamada Margarida, casada com o rei da Inglaterra, e seu filho Davi I, rei da Escócia, também são venerados pela Igreja. Ela mesma manteve por toda vida suas práticas de penitências, no que terminou sendo seguida pelo marido. O próprio povo chamava-a de 'Rainha Santa'.


    Seu reinado nunca mais foi esquecido. Foi um tempo de justiça e felicidade para toda gente, e ela procurava servir a todos segmentos sociais. Dizia-se que era uma rainha "piedosa e de forte pulso ao mesmo tempo. Cavalgava gentilmente entre os magnatas, tecia e bordava entre as damas, rezava entre os monges, discutia entre os sábios, e entre os artistas planejava projetos de catedrais e de mosteiros."
    Aos 46 anos contraiu um grave enfermidade, mas procurava resistir com todas forças. Contudo, enfraqueceu ainda mais com a notícia da morte de seu marido e de seu filho mais velho, numa batalha para libertar a Inglaterra. Foram 6 meses de sofrimentos, que enfrentava com grande resignação, até sua morte em 1093, aos 48 anos.
     Sua capela, no castelo de Edimburgo, ainda pode ser vista.



    Seu corpo foi sepultado na Abadia de Dunfermline, até a heresia protestante varrer o país.



    Antes que suas relíquias fossem violadas, porém, zelosos cristãos trataram de recolhê-las e enviá-las a Felipe II, rei da Espanha, que era católico e depositou-as no mosteiro que ele havia recém-construído, El Escorial, em homenagem a São Raimundo Nonato.
    Conforme registros, tempos mais tarde seu crânio encontrava-se em Douai, na França, onde no início de 1600 São João Roberts, que era inglês e tentava retornar a Inglaterra, havia fundado um mosteiro beneditino.


    Santa Margarida da Escócia, rogai por nós!

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Santo Alberto Magno


    Natural de Lauingen, na Baviera, terras da atual Alemanha, nascido em 1206 da família Bolsadt, cristã e de nobres militares, Albert era muito afável e preferia entregar-se aos estudos e à leitura às diversões. Foi o professor e o inspirador do grande monge dominicano, talvez o maior Doutor da Igreja, São Tomás de Aquino.
    Grande estudioso de quase todas ciências de seu tempo, além de magistral conhecedor de Teologia e Filosofia, em 1222, aos 16 anos, foi enviado para estudar na Universidade de Pádua, na Itália, e aí, pelos desígnios de Deus, conheceu o bem-aventurado Jordão da Saxônia, Supervisor Geral da recém-fundada Ordem de São Domingos, cujo carisma é anunciar o Messias peregrinando em mendicância.
    Encantado com tal missão, de mesma e humilde motivação das também nascentes ordens de São Francisco e de São Pedro Nolasco, quis ser Sacerdote e em 1223 entrou para a Ordem Dominicana. Sempre de grande dedicação, foi ordenado em 1229. Estudou na Universidade de Paris, onde foi o mais ilustre catedrático em Teologia de 1245 a 1248, quando foi professor de São Tomás de Aquino.
    Cativava tão grande multidão de alunos que várias vezes precisou ir à praça pública para ser ouvido por todos. Ainda hoje é preservada no centro de Paris, próximo a Universidade de Sorbonne, a praça Maubert, abreviação de 'Magnus Aubert'. 
    Muito requisitado, lecionou em várias cidades da França, da Alemanha e da Itália. Em 1248 foi nomeado dirigente do Studium Generale, em Colônia, Alemanha, o mais importante centro de estudos da Ordem Dominicana, e consigo levou São Tomás, que aproveitava cada instante de sua agraciada companhia.
    Em 1254 foi indicado Superior Provincial na Alemanha, mas procurou exercer tal função como um simples monge. Assim se distanciou um pouco do meio acadêmico e foi viver intensamente a piedade e o carisma dominicano: visitava os mosteiros viajando a pé, pregando e mendigando pelo país. Extremamente zeloso das regras da Ordem, fez-se um exemplar. Com seu vasto conhecimento, fazia belíssimas pregações e facilmente cativava novas vocações. Fundou vários mosteiros e reformou outros.


    Em 1260 foi nomeado Bispo de Regensburgo pelo próprio Papa, cargo que obedientemente ocupou por dois anos. Porém, como não era de sua vocação cuidar de assuntos administrativos, após algum tempo pediu ao Papa que lhe dispensasse destas funções e foi atendido. Voltou ao Convento de Colônia, que havia fundado, e a lecionar na universidade de lá.
    Imbatível em suas explanações, Santo Alberto foi o maior filósofo alemão da Idade Média. Exímio conhecedor de Aristóteles, soube descontar o que foi acrescentado pelos pensadores árabes, sem, no entanto, deixar de estudá-los, de onde sempre obtinha mais conhecimento. Para dedicar-se ainda mais aos estudos, pensou em abandonar a vida religiosa, mas em aparição que lhe fez Nossa Senhora, de quem era fervoroso devoto, mostrou-lhe que a ciência não tem sentido sem a orientação da .
    E ao recompilar tanto conhecimento à luz da Sã Doutrina, escreveu, com títulos que parafraseavam os de Aristóteles, quatro excelentes livros: 'Metafísica', 'Ética', 'Física' e 'Política'. Realizou a mais importante síntese de toda cultura filosófica existente até então. Via na filosofia de Aristóteles centelhas que culminavam nas divinas revelações constantes no Antigo Testamento, e que seriam aperfeiçoadas por Jesus. Enxergava harmonia entre ciência e religião, entre razão e fé.
    Era um perfeito contemplador de toda obra de Deus. Além de Filosofia, escreveu sobre Antropologia, Lógica, Psicologia, Botânica, Zoologia, Mineralogia, Meteorologia, Química, Física, Navegação e Artes Práticas. Ao todo são 22 volumosos livros, entre os quais se destacam 'Sobre os Vegetais e as Plantas', 'Sobre os Minerais' e 'Sobre os Animais'.
    Já era chamado de Magno pelos seus contemporâneos.
    Para ele, todo puro conhecimento revela e leva à santidade.
    Disse: "Minha intenção última está na ciência de Deus."


    E sem jamais esquecer a mensagem que recebera da Santíssima Virgem, rezava: "Senhor Jesus, imploramos tua ajuda para não nos deixar seduzir pelas tentadoras palavras sobre a nobreza da família, sobre o prestígio da Ordem, sobre o que a ciência tem de atrativo."
    Já em avançada idade, mas ainda lembrado por sua família de militares, o Papa Urbano IV indicou-o para pregar a Cruzada que estava para ser organizada a partir da Germânia e da Boêmia, tendo por objetivo retomar pelo menos a Diocese de Jerusalém, onde este Papa havia sido Bispo. Claro, dada a capacidade de argumentação deste Santo mestre, bem como seu obediente empenho, a convocação foi um sucesso.
    Em 1274 participou, de decisivo modo, no Segundo Concílio de Lyon, no qual a igreja ortodoxa, após a separação chamada Cisma do Oriente, voltou a unir-se à Igreja, embora não tenha honrado esse compromisso por muito tempo.
    Além de Magno, Santo Alberto também recebeu, e merecidamente, o título Doutor da Igreja. Por óbvias razões, é o padroeiro dos estudiosos das ciências naturais. E como se todas essas qualidades não lhe bastassem, também era um excelente pregador. O título de Magno, portanto, é realmente muito justo.
    Cunhou luminosas frases:
    "Eu confio a Ti, ó Adorável Sangue, nossa Redenção, nossa regeneração. Cai, gota a gota, nos corações que se separaram de Ti e amacie a dureza deles."
    "Senhor, lavados e purificados no mais profundo de nós mesmos, vivificados por Teu Espírito Santo, saciados por Tua Eucaristia, faz com que tenhamos parte na Graça que tiveram os Santos Apóstolos e os discípulos, que receberam o Sacramento de Tuas mãos."
   "Senhor, desenvolve em nós o zelo de Pedro, para destruirmos toda vontade que seja contrária à Tua (Jo 18,10)."
    "Senhor, desenvolve em nós a Paz interior, a determinação e a alegria que foram saboreadas por São João, quando se reclinou sobre Teu peito (Jo 13,25); que assim possamos usufruir de Tua Sabedoria, que tomemos o gosto de Tua doçura, de Tua bondade."
    "Senhor, desenvolve em nós a retidão da fé, uma firme esperança e uma perfeita caridade."

    "Senhor, inspira ao nosso espírito o que Teu Espírito inspirou aos Santos, que já estão no Céu, realizando em si mesmos a perfeição da beatitude."
    
"Desejar tudo aquilo que eu quero para a Glória de Deus, como Deus deseja para Sua Glória tudo que Ele quer."
    "É pelo caminho do amor, que é a caridade, que Deus Se aproxima do homem e o homem de Deus. Mas onde a caridade não é encontrada, Deus não pode habitar. Se, então, possuímos a caridade, possuímos a Deus, pois 'Deus é Caridade (1 Jo 4, 8).'"
    "As nações que não te servirem (Maria), perecerão!"
    "Tomo a vós, estrelas, em minhas mãos, e tremendo na unidade de meu ser, elevo-vos acima de vós mesmas, e em oração apresento-vos ao Criador, que somente através de mim, vós estrelas, podeis adorar."
    "Não esconderei uma ciência que havia antes de mim, revelada pela Graça de Deus. Eu não vou guardá-la para mim mesmo, por ter medo de atrair sua maldição. De que vale uma ciência escondida? De que vale um tesouro escondido? A ciência que aprendi sem ficção, eu transmito sem arrependimento. A inveja tudo perturba; um invejoso não pode ser justo diante de Deus. Toda ciência e conhecimento procedem de Deus. Dizer que ela procede do Espírito Santo é uma maneira simples de expressar-se. Ninguém pode, portanto, dizer Nosso Senhor Jesus Cristo, sem implicar Filho de Deus, Nosso Pai, por obra e Graça do Espírito Santo. Da mesma forma, essa ciência não pode ser separada d'Aquele que ma comunicou."
    "A evidência disto (transformação de animais em fósseis) é que partes de animais aquáticos, e talvez de engrenagens navais, são encontradas em rochas nas cavidades das montanhas, as quais a água sem dúvida ali depositou envolvidas em pegajosa lama, e que foram impedidas pela frieza e secura da rocha de petrificar completamente. Uma evidência muito impressionante desse tipo é encontrada nas pedras de Paris, nas quais muitas vezes se encontram conchas redondas na forma da lua."
    "A natureza deve ser o fundamento e o modelo da ciência. Assim, a arte funciona de acordo com a natureza em tudo que pode. Portanto, é necessário que o artista siga a natureza e opere de acordo com ela."
    "Ache a Verdade, porque a Verdade te liberta (Jo 8,32)."
    "Trabalhe para simplificar o coração, que sendo imovível e em paz contra qualquer vã e invasora fantasia, tu sempre possas assim permanecer firme no Senhor dentro de ti, naquele nível como se tua alma já tivesse entrado no sempre presente agora da eternidade."
    "Desta forma, se tu continuares todo tempo da maneira que descrevemos desde o início, ficará tão fácil e claro para ti permanecer em contemplação em teu estado interior e recolhido como para viver no estado natural."
    "Acima de tudo, deve-se tudo aceitar, em geral e individualmente, em si mesmo ou nos outros, agradável ou desagradável, com um rápido e confiante espírito, como vindo da mão de Sua infalível Providência ou de ordem por Ele dada."
    "Quanto maior e mais persistente tua confiança em Deus, mais abundantemente tu receberás tudo que tu pedes."
    "O olhar é a vitrine do sentimento."
    "Bani, portanto, de vosso coração as distrações da terra, e transformem vossos olhos em alegrias espirituais, para que finalmente aprendam a descansar à Luz da contemplação de Deus."
    "Eu nunca saí para misturar-me com o mundo sem perder algo de mim mesmo."

    "É ensinado pelos demônios, portanto ensina sobre demônios e leva a demônios."
    "Da mesma forma que não há mal sem punição, não há bem sem recompensa."

    Ao perceber que estava perdendo a memória, pediu que começassem a construir sua sepultura e passou a rezar diariamente o Ofício dos Mortos. Morreu em Colônia, santamente, no ano de 1280. Suas relíquias encontram-se na Basílica de Santo André, nessa mesma cidade, onde lhe dedicaram a cripta.


    Santo Alberto Magno, rogai por nós!

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Os Milagres de Cristo


    Os milagres realizados por Jesus foram tão verazes e evidentes que, aparentemente, ocorreriam até mesmo sem Sua ciência, como que por mera propriedade de Sua natureza divina. Contudo, por Sua Onisciência, Ele sabia muito bem o que estava acontecendo, e consentia nessas Graças.
    No caso da mulher hemorroíssa, porém, esperando que ela testemunhasse a Graça alcançada, Jesus quis ver quem O havia tocado, não escondendo que d'Ele saía 'uma força' quando operava milagres: "Ora, uma mulher que padecia de fluxo de sangue havia doze anos, e com médicos tinha gasto todos seus bens, sem que nenhum a pudesse curar, aproximou-se d'Ele por detrás e tocou-Lhe a orla do manto. E no mesmo instante parou-lhe o fluxo de sangue. Jesus perguntou: 'Quem Me tocou?' Como todos negassem, Pedro e os que com Ele estavam disseram: 'Mestre, a multidão aperta-Te por todos lados...' Jesus replicou: 'Alguém Me tocou, porque percebi que de Mim saiu uma força!' A mulher viu-se descoberta e foi tremendo, e prostrou-se a Seus pés. E declarou diante de todo povo o motivo porque O havia tocado, e como logo ficara curada. Jesus disse-lhe: 'Minha filha, tua te salvou. Vai em Paz.'" Lc 8,43-48
    Mas essa mulher não foi a única que tentou alcançar uma Graça dessa maneira, como registrou São Lucas: "Descendo com eles, parou numa planície. Aí se achava um grande número de Seus discípulos e uma grande multidão de pessoas vindas da Judeia, de Jerusalém, da região marítima, de Tiro e Sidônia, que tinham vindo para ouvi-Lo e ser curadas das suas enfermidades. E os que eram atormentados dos espíritos imundos ficavam livres.Todo povo procurava tocá-Lo, pois d'Ele saía uma força que a todos curava." Lc 6,19
    São Marcos fez outro registro: "Navegaram para o outro lado e chegaram à região de Genesaré, onde aportaram. Assim que saíram da barca, o povo reconheceu-O. Percorrendo toda aquela região, começaram a levar, em leitos, os que padeciam de algum mal, para o lugar onde ouviam dizer que Ele Se encontrava. Onde quer que Ele entrasse, fosse nas aldeias ou nos povoados, ou nas cidades, punham os enfermos nas ruas e pediam-Lhe que ao menos deixassem tocar na orla de Suas vestes. E todos que tocavam em Jesus ficavam sãos." Mc 6,53-56
    E desde o início, depois que partiu da Cafarnaum, já não podia entrar em cidades ou aldeias: "Ele retirou-Se dali, pregando em todas sinagogas e por toda Galileia, e expulsando demônios. D'Ele aproximou-se um leproso, suplicando-Lhe de joelhos: 'Se queres, podes limpar-me.' Jesus compadeceu-Se dele, estendeu a mão, tocou-o e disse-lhe: 'Eu quero, sê curado.' E imediatamente dele desapareceu a lepra, e foi purificado. Jesus despediu-o com esta severa admoestação: 'Vê que não o digas a ninguém. Mas vai, mostra-te ao sacerdote, e pela tua purificação apresenta a oferenda prescrita por Moisés, para servir-lhe de testemunho.' Este homem, porém, logo que se foi, começou a propagar e divulgar o acontecido, de modo que Jesus publicamente não podia entrar numa cidade. Conservava-Se fora, em despovoados lugares, e de toda parte vinham ter com Ele." Mc 1,40-45
    Até em Sua terra, onde não foi acolhido em vida pública, Jesus era reconhecido como um realizador de desconcertantes milagres: "Foi para Sua cidade e ensinava na sinagoga, de modo que todos diziam admirados: 'Donde Lhe vem esta Sabedoria e esta miraculosa força?' E não sabiam o que d'Ele dizer. Disse-lhes, porém, Jesus: 'É só em sua pátria e em sua família que um Profeta é menosprezado.' E por causa da falta de confiança deles, ali operou poucos milagres." Mt 13,54.57-58


A INVEJA DOS 'RELIGIOSOS' E A DOS PAGÃOS

    Os prodígios de Jesus eram tão frequentes e impactantes que os fariseus se recorriam de supostas prescrições da Lei para acusá-Lo. Tudo por inveja de Sua autoridade e despeito de Sua humilde origem, mas Ele desmascarava-os e o povo embevecia-se com o triunfo da Verdade: "Jesus ensinava na sinagoga num sábado. Ali estava uma mulher que, havia dezoito anos, era possessa de um espírito que a detinha doente: andava curvada e absolutamente não podia erguer-se. Ao vê-la, Jesus chamou-a e disse-lhe: 'Estás livre de tua doença.' Impôs-lhe as mãos e no mesmo instante ela endireitou-se, glorificando a Deus. Mas o chefe da sinagoga, indignado de ver que Jesus curava no sábado, disse ao povo: 'São seis os dias em que se deve trabalhar. Vinde, pois, nestes dias para curar-vos, mas não em dia de sábado.' 'Hipócritas!', disse-lhes o Senhor. 'Não desamarra cada um de vós no sábado seu boi ou seu jumento da manjedoura, para levá-los a beber? Esta filha de Abraão, que Satanás paralisava há dezoito anos, não devia ser livre desta prisão, em dia de sábado?' Ao proferir estas palavras, todos Seus adversários encheram-se de confusão, ao passo que todo povo, à vista de todos milagres que Ele realizava, entusiasmava-se." Lc 13,10-17
    Mas nem todos religiosos eram insensíveis às demonstrações de Seus poderes. Um chefe dos fariseus, que eram Seus principais opositores, logo na primeira Páscoa em vida pública reconheceu Suas maravilhas, assim como Sua origem divina: "Havia um homem entre os fariseus, chamado Nicodemos, príncipe dos judeus. Este foi ter com Jesus à noite, e disse-Lhe: 'Rabi, sabemos que és Mestre vindo de Deus, pois ninguém pode fazer esses milagres que fazes se Deus não estiver com ele.'" Jo 3,1-2
    A alguns religiosos, porém, por causa de suas tacanhas e materialistas visões, Jesus prometeu que não veriam sinal algum a não ser Sua Ressurreição: "Então alguns escribas e fariseus tomaram a palavra: 'Mestre, quiséramos ver-Te fazer um milagre.' Respondeu-lhes Jesus: 'Esta adúltera e perversa geração pede um sinal, mas não lhe será dado outro sinal que aquele do Profeta Jonas: do mesmo modo que Jonas esteve três dias e três noites no ventre do peixe, assim o Filho do Homem ficará três dias e três noites no seio da terra.'" Mt 12,38-40
    Entretanto, até entre os soldados romanos Sua fama já arrebatava corações, que viam Seus poderes como última esperança. Jesus ainda chegou a argumentar com um oficial que a Salvação é mais importante que a saúde do corpo, mas, diante do desespero de um pai, curou seu filho mesmo sem ir ao seu encontro: "Ele voltou, pois, a Caná da Galileia, onde transformara água em vinho. Havia então em Cafarnaum um oficial do rei, cujo filho estava doente. Ao ouvir que Jesus vinha da Judeia para a Galileia, foi a Ele e rogou-Lhe que descesse e curasse seu filho, que estava prestes a morrer. Disse-lhe Jesus: 'Se não virdes milagres e prodígios, não credes...' Pediu-Lhe o oficial: 'Senhor, desce antes que meu filho morra!' 'Vai', disse-lhe Jesus, 'teu filho está passando bem!' O homem acreditou na Palavra de Jesus e partiu. Enquanto ia descendo, os criados vieram-lhe ao encontro e disseram-lhe: 'Teu filho está passando bem.'" Jo 4,46-51
    E foi de um estrangeiro que Ele viu das maiores manifestações de fé: "Entrou Jesus em Cafarnaum. Um centurião veio a Ele e fez-lhe esta súplica: 'Senhor, meu servo está em casa, de cama, paralítico, e sofre muito.' Disse-lhe Jesus: 'Eu irei e curar-lo-ei.' Respondeu o centurião: 'Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. Dizei uma só palavra e meu servo será curado. Pois eu também sou um subordinado, e tenho soldados às minhas ordens. Eu digo a um: Vai, e ele vai; a outro: Vem, e ele vem; e a meu servo: Faze isto, e ele o faz...' Ouvindo isto, cheio de admiração, disse Jesus aos presentes: 'Em verdade, digo-vos: não encontrei semelhante fé em ninguém de Israel." Mt 8,5,10
    O próprio Herodes, apesar de seus poderes de rei, com a consciência pesada por ter ordenado a decapitação de São João Batista, tinha medo de Jesus: "O rei Herodes ouviu falar de Jesus, cujo Nome Se tornara célebre. Dizia-se: 'João Batista ressurgiu dos mortos, e por isso o poder de fazer milagres opera n'Ele.'" Mc 16,14


A REPERCUSSÃO EM JERUSALÉM

    As grandes festas judaicas em Jerusalém, por aqueles tempos, já não eram mais as mesmas sem Jesus. Tanto que, em Sua última Páscoa, sabendo que Ele era perseguido pelos religiosos, o povo perguntava-se se Ele viria ou não: "Estava próxima a Páscoa dos judeus, e muita gente de todo país subia a Jerusalém antes da Páscoa para purificar-se. Procuravam Jesus e falavam uns com os outros no Templo: 'Que vos parece? Achais que Ele não virá à festa?' Mas os sumos sacerdotes e os fariseus tinham dado ordem para que O denunciasse todo aquele que soubesse onde Ele estava, para prenderem-nO." Jo 11,55-57
    Realmente, desde a primeira Páscoa que lá esteve em Sua vida pública, o povo, por causa de Seus milagres, já O tinha em conta de um enviado de Deus: "Enquanto Jesus celebrava em Jerusalém a festa da Páscoa, muitos creram no Seu Nome, à vista dos milagres que fazia." Jo 2,23
    E sempre se criava uma grande expectativa a cada nova festa em Jerusalém, como na das Tendas: "Mas quando Seus irmãos tinham subido, então também subiu Ele à festa, não em público, mas ocultamente. Buscavam-nO os judeus durante a festa e perguntavam: 'Onde está Ele?' E na multidão só se discutia a Seu respeito. Uns diziam: 'É homem de bem.' Outros, porém, diziam: 'Não é! Ele seduz o povo.' Ninguém, contudo, ousava d'Ele livremente falar com medo dos judeus." Jo 7,10-13
    Pois muita gente, profundamente impressionada com tantas maravilhas que viam, ficava divagando sobre Sua Pessoa: "Muitos do povo, porém, creram n'Ele e perguntavam: 'Quando vier o Cristo, fará mais milagres que Este faz?'" Jo 7,31
    Mas não somente Jesus realizava milagres, como também Seus Apóstolos, após serem nominalmente por Ele chamados e investidos de autoridade: "Reunindo Jesus os Doze Apóstolos, deu-lhes poder e autoridade sobre todos demônios, e para curar enfermidades. Enviou-os a pregar o Reino de Deus e a curar os enfermos. Partiram, pois, e percorriam as aldeias, pregando o Evangelho e fazendo curas por toda parte." Lc 9,1-2.6
    E a multidão, que se formou ao Seu redor pouco antes do episódio da multiplicação dos pães e dos peixes, também O buscava com expectativa de curar seus enfermos: "Depois disso, atravessou Jesus o lago da Galileia, que é o de Tiberíades. Seguia-O uma grande multidão, porque via os milagres que fazia em beneficio dos enfermos. Jesus subiu a um monte e ali Se sentou com Seus discípulos." Jo 6,1-3
    Mas alguns na multidão ainda O procuravam por razões meramente materiais, como pelo pão e o peixe multiplicado, ou por curiosidades, como andar sobre as águas. E Ele aproveitava para falar-lhes do Pão da Vida Eterna: "À vista desse milagre de Jesus, aquela gente dizia: 'Este verdadeiramente é o Profeta que há de vir ao mundo.' Encontrando-O na outra margem do lago, perguntaram-Lhe: 'Mestre, quando chegaste aqui?' Respondeu-lhes Jesus: 'Em verdade, em verdade, digo-vos: buscais-Me, não porque vistes os milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes fartos. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até a Vida Eterna, que o Filho do Homem vos dará. Pois n'Ele imprimiu Deus Pai Seu sinal.'" Jo 6,14.25-27
    Com efeito, isso havia sido previsto pelo Profeta Isaías: "Naquele tempo, o Rebento de Jessé, que Se ergue como um sinal para os povos, será procurado pelas nações e gloriosa será Sua morada." Is 11,10
    A ressurreição de Lázaro também foi um grande acontecimento entre o povo de Israel, e motivou o evento que ficou conhecido como o Domingo de Ramos: "A multidão, pois, que se achava com Ele quando chamara Lázaro do sepulcro e ressuscitara-o, aclamava-O. Por isso, o povo saía-Lhe ao encontro, porque tinha ouvido que Jesus fizera aquele milagre." Jo 12,17-18
    Mas para os líderes religiosos de Israel a situação estaria fugindo ao controle. Temiam que os romanos vissem em Jesus o início de uma rebelião, da qual seriam cúmplices. E mais uma vez eram os milagres de Jesus que incendiavam a multidão: "Os pontífices e os fariseus convocaram o conselho e disseram: 'Que faremos? Esse homem multiplica os milagres. Se o deixarmos proceder assim, todos crerão n'Ele, e os romanos virão e arruinarão nossa cidade e toda nação.'" Jo 11,47-48
    No entanto, mesmo entre os principais sacerdotes muitos acreditavam n'Ele: "Embora tivesse feito tantos milagres na presença deles, não acreditavam n'Ele. Não obstante, muitos dos chefes também creram n'Ele, mas por causa dos fariseus não o manifestavam, para não serem expulsos da sinagoga." Jo 12,37.42
    Pode-se imaginar, assim, uma grande incerteza que havia muito pairava entre Seus mais ferrenhos inimigos: "Celebrava-se em Jerusalém a festa da Dedicação. Era inverno. Jesus passeava no Templo, no pórtico de Salomão. Os judeus rodearam-nO e perguntaram-Lhe: 'Até quando nos deixarás na incerteza? Se Tu és o Cristo, dize-nos claramente.'" Jo 10,22-24
    E na Páscoa em que foi crucificado, viu-se uma calorosa aclamação a Jesus também no Templo: "Quando Ele entrou em Jerusalém, alvoroçou-se toda cidade, perguntando: 'Quem é Este?' A multidão respondia: 'É Jesus, o Profeta de Nazaré da Galileia.' Os cegos e os coxos vieram a Ele no Templo e Ele curou-os, com grande indignação dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas que assistiam a Seus milagres e ouviam os meninos gritar no Templo: 'Hosana ao filho de Davi!' Disseram-Lhe eles: 'Ouves o que dizem eles?' 'Perfeitamente', respondeu-lhes Jesus. 'Nunca lestes estas palavras: Da boca dos meninos e das crianças de peito tirastes Vosso louvor (Sl 8,3)?'" Mt 21,10-11.14-16
    Tantos foram Seus prodígios que São João Evangelista viu-se obrigado a registrar: "Fez Jesus, na presença de Seus discípulos, ainda muitos outros milagres que não estão escritos neste livro. Jesus fez muitas outras coisas. Se fossem escritas uma por uma, penso que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se deveriam escrever." Jo 20,30; 21,25
    A intenção de Jesus com esses milagres, porém, era demonstrar a origem divina de Seus ensinamentos. Tanto que Ele vai propôr: "Se alguém quiser cumprir a vontade de Deus, distinguirá se Minha Doutrina é de Deus ou se falo de Mim mesmo." Jo 7,17
    Por isso, pedia aos judeus: "Se Eu não faço as obras de Meu Pai, não Me creiais. Mas se as faço, e se não quiserdes crer em Mim, crede em Minhas obras, para que saibais e reconheçais que o Pai está em Mim e Eu no Pai." Jo 10,37-38
    Pedido, aliás, que fez até mesmo a São Filipe Apóstolo, ao falar-lhe de Sua Comunhão com o Pai: "Crede-Me: estou no Pai, e o Pai em Mim. Crede-o ao menos por causa destas obras." Jo 14,11
    Com efeito, quando interrogado, Ele assim resumiu a Missão que Lhe foi dada pelo Pai: "Perguntaram-Lhe: 'Que faremos para praticar as obras de Deus?' Respondeu-lhes Jesus: 'A obra de Deus é esta: que creiais n'Aquele que Ele enviou.'" Jo 6,28-29
    O próprio São João Evangelista assim vai justificar o registro que fez de Seus milagres: "Mas estes foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e crendo tenhais a Vida em Seu Nome." Jo 20,31


O PODER DA IGREJA

    E mais uma vez, após ressuscitar, Jesus investiu Seus Apóstolos e discípulos com autoridade e poder. Essa é Sua força que permanece entre os homens para a edificação de Sua Igreja, que tem a notória função de confirmação: "Estes milagres acompanharão os que crerem: expulsarão demônios em Meu Nome, falarão novas línguas, manusearão serpentes e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal. Imporão as mãos aos enfermos e eles ficarão curados. Os discípulos partiram e pregaram por toda parte. O Senhor cooperava com eles, e confirmava Sua Palavra com os milagres que a acompanhavam." Mc 16,17-18.20
    Com efeito, como Ele mesmo afirmou, a Igreja é invencível: "As portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18b
    De maior importância, porém, foi o poder de perdoar os pecados que Ele deu aos Seus Sacerdotes, Graça que nos é concedida pelo Sacramento da Reconciliação com Deus: "Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos." Jo 20,23
    Pois assim temos a Redenção, que é a Missão de Jesus: "... para dar a Seu povo conhecer a Salvação, pelo perdão dos pecados." Lc 1,77
    De fato, Ele colocava o perdão dos pecados como muito mais importante que uma cura: "Alguns dias depois, Jesus entrou novamente em Cafarnaum e souberam que Ele estava em casa. Reuniu-se uma tal multidão, que não podiam encontrar lugar nem mesmo junto à porta. E Ele instruía-os. Trouxeram-Lhe um paralítico, carregado por quatro homens. Como não pudessem apresentar-lhO por causa da multidão, descobriram o teto acima do lugar onde Jesus Se achava e, por uma abertura, desceram o leito em que jazia o paralítico. Jesus, vendo-lhes a fé, disse ao paralítico: 'Filho, perdoados são-te os pecados.'" Mc 2,1-5
    E aí está o poder do Santíssimo Sacramento, pois por Seu Sacrifício que nos é concedida esta redenção: "Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lhO, dizendo: 'Dele bebei todos, porque isto é Meu Sangue, o Sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados.'" Mt 26,27-28
    Bem como comungar dos bens celestiais e divinos: "Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue tem a Vida Eterna. E Eu ressuscitá-lo-rei no Último Dia." Jo 6,54
    Nem toda manifestação de poder, contudo, tem por intenção fazer-nos participar do Reino de Deus. O inimigo realiza espetáculos que enganam os olhos e a muitos afastam da Sã Doutrina, como o próprio Jesus avisou: "Porque se levantarão falsos cristos e falsos profetas, que farão milagres a ponto de seduzir, se possível fosse, até mesmo os escolhidos." Mt 24,24
    De fato, falando de um tempo em que muitos abandonariam a fé, esse também foi um aviso de São Paulo: "A manifestação do ímpio será acompanhada, graças ao poder de Satanás, de toda sorte de enganadores portentos, sinais e prodígios." 2 Ts 2,9
    Apesar da ousadia de insurgir-se em combate contra o próprio Deus, porém, não resta dúvida que o poder do inimigo jamais prosperará, como atestam as visões de São João Evangelista: "Combaterão contra o Cordeiro, mas o Cordeiro vencê-los-á, porque é Senhor dos senhores e Rei dos reis." Ap 17,14a
    Absolutamente convicto, ao narrar essa batalha final São Paulo vai ser bem sucinto: "Então o tal ímpio se manifestará. Mas o Senhor Jesus destruir-lo-á com o sopro de Sua boca, e aniquilar-lo-á com o resplendor de Sua Vinda." 2 Ts 2,8
    Até lá, o Último Apóstolo assim descreve o poder da Igreja, que é Seu Reino de Sacerdotes: "Depois virá o fim, quando entregar o Reino a Deus, ao Pai, depois de haver destruído todo principado, toda potestade e toda dominação. Porque é necessário que Ele reine, até que ponha todos inimigos debaixo de Seus pés. O último inimigo a derrotar será a morte, porque Deus tudo sujeitou debaixo de Seus pés. E quando tudo Lhe estiver sujeito, então o próprio Filho também renderá homenagem Àquele que Lhe sujeitou todas as coisas, a fim de que Deus seja tudo em todos." 1 Cor 15,24.26-28
    Quanto aos Santos, cujas almas alcançam a santidade e são a verdadeira face da Igreja, Jesus prometeu-lhes grande poder ainda sobre este mundo: "Então ao vencedor, ao que praticar Minhas obras até o fim, dar-lhe-ei poder sobre as nações pagãs. Ele as regerá com cetro de ferro, como se quebra um vaso de argila, assim como Eu mesmo recebi o poder de Meu Pai. E dar-lhe-ei a Estrela da manhã." Ap 2,26-28
    É nestes termos que se compreende Sua Palavra: "Em verdade, em verdade, digo-vos: aquele que crê em Mim, fará também as obras que Eu faço e ainda maiores que estas, porque vou para junto do Pai. E tudo que pedirdes ao Pai em Meu Nome, vo-lo farei, para que o Pai seja glorificado no Filho." Jo 14,12-13
    São João Evangelista rejubila-se: "Àquele que nos ama, que em Seu Sangue nos lavou de nossos pecados e de nós fez um Reino de Sacerdotes para Deus e Seu Pai, Glória e poder pelos séculos dos séculos! Amém." Ap 1,5b-6

    "Salvador do mundo, salvai-nos, Vós que nos libertastes pela Cruz e Ressurreição."

terça-feira, 13 de novembro de 2018

São Nicolau Magno


    Para que se tenha ideia de sua importância para a Igreja, depois dele, que viveu no século IX, nenhum outro Papa recebeu o título de Magno.
    Nascido em Roma em 815, de nobre e influente família, seu pai era Defensor romano. Foi educado no mosteiro beneditino de Latrão, e é tido pela Igreja e pela História como um personagem de conduta moralmente irretocável. Era um intransigente defensor da primazia do Bispado de Roma, fundado por São Pedro, e da autonomia da Igreja, que jamais pode submeter-se a qualquer poder mundano.
    Dedicadamente serviu à Cúria Romana por 15 anos, sendo indicado subdiácono pelo Papa Sérgio II, e diácono, pelo Papa Leão IV. Foi conselheiro do Papa Bento III e, após sua morte em 858, aclamado seu sucessor. Já então era muito estimado pelo francês Luís II, sacro imperador romano-germânico, que foi coroado pelas mãos do Papa Sérgio II.
    Mas desde a total derrocada de Roma como capital do Império, em 476, em contraposição à ascensão de Bizâncio, também chamada de Constantinopla, atual Istambul, vez e outra viu-se fragilizada a unidade da Igreja, pois, entre líderes políticos e heresiarcas, muitos questionaram e até puseram em cheque a autoridade do Papa.
    Em 860, no Sínodo de Milão, São Nicolau teve que convencer algumas autoridades eclesiásticas a reconhecer a supremacia do Bispado Roma. João, o Arcebispo de Ravena, Itália, ainda resistiu, e São Nicolau Magno teve que o obrigar, sob pena de excomunhão.
    Em 861, também teve que fazer Incmar, o Arcebispo de Reims, França, desistir de suas ideias de que a igreja naquele país tinha total poder sobre seus fiéis, ou seja, independente das diretrizes de Roma.
    O Bispo de Soissons, na França, aliado de Incmar, foi igualmente persuadido a reconhecer a autoridade de nosso Santo, enquanto Papa, como absoluto superior da Igreja. Em 865, no entanto, em mais uma rigorosa medida disciplinar, São Nicolau resolveu depô-lo, levando de volta a este posto o bispo Rothad II, que havia sido afastado por influência de Incmar.
    Sua influência também era luminosa entre nobres e reis. Em 863, por exemplo, com a ajuda de São Cirilo e São Metódio, missionários gregos, São Nicolau converteu Bóris, rei da Bulgária, que mais tarde abandonaria o poder para tornar-se monge e adotaria outro nome, Miguel. Décadas depois, seria reconhecido como São Miguel da Bulgária, e seu filho, que tinha sido enviado a Roma para maior aproximação diplomática e acabou recebendo de São Nicolau um valioso tesouro em Sabedoria, conselhos e sugestões de leis para bem governar, por muitos anos promoveu boas relações internacionais e a prosperidade entre seu povo.


CONTRA REIS E IMPERADORES

    Não bastantes os frequentes problemas no seio da Igreja, São Nicolau teve que enfrentar o próprio imperador bizantino Miguel III, o ébrio, que num convento queria internar suas filhas e sua mãe Teodora, mesmo contra suas vontades.
    Em 858, este imperador havia desposto Inácio, Patriarca de Constantinopla, posto equivalente ao Bispado, apesar de ser muito estimado por sua mãe, Teodora, uma autêntica devota cristã. Inácio entrara em conflito com o clero de Constantinopla, pois posicionou-se contra vários religiosos que haviam apoiado uma massiva destruição de imagens. Para seu posto foi indicado Fócio, um leigo erudito que, graças às inspiradas missões de São Cirilo e São Metódio, havia ajudado o imperador a suplantar o crescimento do judaísmo em regiões hoje correspondentes a partes da Rússia e da Chéquia.
    Fócio foi elevado patriarca principalmente pelas manipulações de Bardas, irmão de Teodora, portanto tio do imperador Miguel. Ele estava enfurecido e envergonhado porque o Patriarca Inácio lhe havia repreendido e proibido de entrar na Catedral de Santa Sofia, em Constantinopla, por viver um incestuoso relacionamento com sua nora, Eudóxia, após ela ter enviuvado.
    Aí começava um lamentável capítulo que em 1054 culminaria no Cisma do Oriente, ou seja, parte da Igreja vai afastar-se de Roma e intitular-se 'ortodoxa'. Apesar de toda habilidade de São Nicolau, desses movimentos políticos que acintosamente afrontavam a Sã Doutrina, e assim o próprio Papa, surgiria a primeira das grandes rupturas: o Cisma de Fócio.
    São Nicolau Magno inicialmente enviou seus emissários para convencer Fócio a renunciar, e reconduzir Inácio ao Patriarcado, mas esses emissários, seduzidos pela riqueza e pelo poder de Constantinopla, terminaram aderindo às suas tresloucadas ideias, verdadeiras heresias. Foi quando em 863, no Sínodo de Latrão, em Roma, após vários debates e unânime decisão, mais uma vez São Nicolau mostrou a virtude da fortaleza ao abertamente enfrentar o ébrio mas poderoso imperador bizantino, e proclamou Inácio como o legítimo Patriarca de Constantinopla. Também declarou, nesta ocasião, a excomunhão dos emissários que haviam abraçado a heresia de Fócio.
    Noutra questão, ainda em 855, Lotário II, rei da região que equivale a atual Lorena, na França, havia abandonado a esposa para casar-se como a amante. Quando assumiu o papado, em 858, São Nicolau não reconheceu o Matrimônio. Entretanto, em 862, bispos reunidos no Sínodo de Aachem, na atual Alemanha, validaram o 'novo' casamento do rei.
    Descontente, porém prudenteem julho 863 São Nicolau convocou o Sínodo de Metz, França, para tratar do assunto. Lotário II, porém, sabendo que sua situação era insustentável, com subornos e ameaças subverteu os legados papais e conseguiu a confirmação do Sínodo de Aachem. Com muitas razões para desconfiar, São Nicolau habilidosamente convocou um novo Sínodo de Metz, em outubro do mesmo ano, e nele o Sínodo de Aachem foi dissolvido, destituindo os 3 bispos que participaram dele e do de julho, em Metz, entre eles João de Ravena, aos quais ordenou penitência sob pena de excomunhão.
    Revoltado, o rei Lotário II pediu os auxílios de seu irmão Luís II, sacro imperador romano-germânico, e saíram em defesa dos bispos destituídos desafiando diretamente São Nicolau, usando seus exércitos para sitiar Roma e confinando o papa na sede do pontificado. São Nicolau Magno, porém, corajosamente resistiu e não cedeu em nada, nem resposta lhe enviou. Ao fim de dois dias, sem nenhum apoio do povo cristão, o imperador e seu irmão caíram em si, suspenderam o cerco e retiraram suas tropas.
    Mas, por essa vitória, restou a São Nicolau um preço a pagar: teve que resistir aos provocativos e sistemáticos levantes de insatisfação dos membros da corte carolíngia, ou seja, francesa, que por espúrios interesses manifestamente visavam minar seu prestígio. Ao final de algum tempo, com serenidade e imbatíveis argumentos de razão e de fé, São Nicolau Magno soube conquistar o apoio dos bispos da França e desarticular a querela. Prova disso é que pouco mais tarde nosso papa organizaria a defesa de Roma contra a invasão dos sarracenos, e para tanto conseguiria ajuda dos exércitos do próprio sacro imperador Luís II.


A QUESTÃO TEOLOGAL DO CISMA DO ORIENTE

    Apoiado pelo imperador bizantino e ignorando a ordem papal, Fócio manteve-se no Patriarcado de Constantinopla e em 867 'excomungou' São Nicolau, acusando-o de defender, como acreditava a grande maioria dos teólogos e bispos da Igreja, que o Espírito Santo procedia do Pai e do Filho. Para Fócio e alguns teólogos orientais, o Espírito Santo não procederia do Filho, mas apenas do Pai. Era a subjacente, e viria a ser ruinosa, Questão 'Filioque', termo que em latim quer dizer 'e (do) Filho'. Os argumentos iam radicalizar-se, causando acirrado afastamento entre religiosos do Oriente e a Igreja, e, pouco mais de um século depois, consolidariam o Cisma do Oriente, dando origem à igreja ortodoxa.
    Para ainda mais agravar a situação, cedendo às seduções da corte local e arrogando-se maiores poderes por intenções notoriamente políticas, Fócio também declarou a independência do Patriarcado de Constantinopla frente à Igreja, atacando com malícia o ponto central de todo trabalho de São Nicolau Magno. Nunca buscou, de fato, alguma Comunhão. Apenas perniciosamente arrancava para si, valendo-se de apoio político, uma considerável extensão do rebanho do Cristo.
    Contudo, Basílio I, o Macedônio, que em 866 assassinaria Miguel III, assumindo o poder do Império Bizantino, definitivamente afastou Fócio em 867, devolvendo a Inácio a sede do Patriarcado. Tal decisão foi ratificada no IV Concílio Ecumênico de Constantinopla, em 869, que foi convocado por São Nicolau, mas ao qual não chegou a estar presente, pois, extenuado pelo zelo da Igreja e por práticas de rigoroso ascetismo, veio a falecer.
    Uma frase sua, porém, repercute pelos séculos: "Desde o momento em que a religião cristã começou a espalhar-se, ela manteve-se imutável e incorruptamente ensinou em todo mundo as doutrinas que recebeu de uma vez por todas de seu patrono e fundador, São Pedro."
    Entre os papas, São Nicolau Magno é considerado um dos mais vigorosos guardiões da Igreja na Idade Média. Com destemor e desvelo de si, defendeu a moralidadeas leis e as tradições da Igreja. Exemplo de vigilância também pela oração, de todo clero exigia séria, íntegra e inatacável conduta. Era muito amado pelas pessoas que o cercavam, e muito estimado por todos cidadãos de Roma.
    Pessoalmente era um asceta, vivia para a devoção e para rigorosas virtudes do auto-abandono. Reformou várias igrejas e fundou mosteiros e conventos. Era um grande incentivador da vida religiosa.
    Depois do Papa São Gelásio, que também fervorosamente havia defendido a superioridade da Sé de Roma sobre os demais bispados pelo mundo, bem como sua autonomia frente a todos mundanos poderes, São Nicolau foi o principal articulador dessa causa, consolidando a autoridade da Cátedra de São Pedro e vedando por completo qualquer ingerência de imperadores, reis e qualquer poder temporal dentro da Igreja. Graças a papas com ele, a Igreja só deve obediência a Deus.
    A bela e milenar igreja de Salve, em Lecce, no extremo leste da Itália, é dedicada a nosso grande Santo.


    São Nicolau Magno, rogai por nós!

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

As Heresias


    "Chama-se heresia a pertinaz negação, após a recepção do Batismo, de qualquer verdade que se deve crer com divina e católica fé, ou a pertinaz dúvida a respeito dessa verdade...'" CIC 2089
    Desde o tempo dos Apóstolos, a Igreja enfrenta movimentos e correntes de pensamento que renegam partes da Verdade revelada pelo Velho Testamento e pelo próprio Jesus. O próprio São Pedro já apontava: "Reconhecei que a longa paciência de Nosso Senhor vos é salutar, como vosso caríssimo irmão Paulo também vos escreveu, segundo o dom de Sabedoria que lhe foi dado. É o que ele faz em todas suas cartas, nas quais fala nestes assuntos. Nelas há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido deturpam os ignorantes ou pouco fortalecidos espíritos, para sua própria ruína, como o fazem com as demais Escrituras." 2 Pd 3,15-16.
    Foram várias heresias, muitas das quais ainda hoje estão presentes em 'igrejas' e 'opiniões' que tentam se impor sem o devido estudo ou esclarecimento. Abaixo estão as históricas e mais frequentes.
    - Docetismo: alguns cristãos do século II acreditavam e divulgavam que Jesus nunca teria vivido num corpo humano, mas tão somente num corpo espiritual, e que a crucificação foi só um fenômeno aparente. Não chegaram a ser uma seita ou religião, apenas uma corrente de pensamento e que atingiu alguns estratos da Igreja.
    Está na Bíblia - No Domingo da Ressurreição, Jesus apareceu aos Apóstolos e disse-lhes: "Vede Minhas mãos e Meus pés, sou Eu mesmo. Apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho." Lc 24,39
    Gnosticismo: de antiga prática, muitas correntes filosófica-religiosas sincretizavam nomes e conceitos, pagãos e sagrados, e estiveram mais ativas no século II. Podemos dizer que houve um gnosticismo cristão, posto que uma dessas correntes chegou a camuflar-se usando o cristianismo, e obteve a adesão de vários intelectuais que se diziam da Igreja. Mas a corrente majoritária era de um gnosticismo pagão, adotando apenas alguns conceitos do cristianismo.
    Valentin, que se dizia um gnóstico cristão, na verdade um neoplatônico, pregava que o Cristo era um ser celestial que se uniu a Jesus, um ser meramente humano. Cristo seria apenas parte de um conhecimento de que precisamos para saber quem realmente somos, e assim nos salvarmos.
    Está na Bíblia - Pouco antes de ser preso, Jesus disse aos Apóstolos: "Presentemente, Minha alma está perturbada. Mas que direi?... Pai, salva-Me desta hora?... Mas é exatamente para isso que vim." Jo 12,27
    - Sabelianismo: no fim do século II, Sabélio, padre e teólogo, negava o conceito da Santíssima Trindade, pois, para ele, Pai, Filho e Espírito Santo seriam exatamente a mesma Pessoa de Deus, apresentando-Se de diferentes 'modos'. Por isso, essa heresia também foi chamada de Modalismo. Seus seguidores ainda eram chamados de noecianos, porque Noeto havia sido o mestre de Sabélio e o verdadeiro mentor dessa teoria. Os fundamentos desse entendimento, contudo, continham grosseiros erros. Por exemplo: como Deus poderia ter morrido na Cruz? Em 220, depois de muito teimar, Sabélio foi excomungado pelo Papa São Calixto I.
    Está na Bíblia - São Marcos narrou assim o Batismo de Jesus: "No momento em que Jesus saía da água, João viu os Céus abertos e sobre Ele descer o Espírito em forma de pomba. E ouviu-se dos Céus uma voz: 'Tu és Meu amado Filho. Em Ti ponho Minha afeição.'" Mc 1,10-11
    - Adocionismo: no século III, Paulo de Samósata, eleito Bispo de Antioquia através de apoio político, difundia que Jesus nasceu humano e só Se teria tornado divino ao ser batizado por São João Batista, momento em que teria sido 'adotado' como Filho de Deus, daí o termo adocionismo. No Concílio de Antioquia, em 268, ele foi fragorosamente derrotado por Málquio de Antioquia, mas, como tinha o apoio da rainha, só anos mais tarde foi expulso à força do edifício de onde chefiava a igreja local.
    Está na Bíblia - Aos doze anos, Jesus disse a Nossa Senhora e a São José: "Por que Me procuráveis? Não sabíeis que devo estar na Casa de Meu Pai?" Lc 2,49
    - Maniqueísmo: Mani, profeta da Assíria no século III, apresentou-se como inspirado pelo Espírito Santo para depurar as grandes religiões: hinduísmo, zoroastrismo, budismo, judaísmo e cristianismo. As mensagens dos líderes religiosos, 'pais da justiça', segundo ele teriam sido corrompidas. Delas criou uma sincrética filosofia, na qual a realidade seria dualista e estaria dividida entre Deus e o Diabo, Luz e Trevas. A matéria seria essencialmente má, e o espírito, essencialmente bom. Só os escolhidos, submetidos a rigorosas práticas de ascetismo, compreenderiam os segredos da 'purificação da luz'.
    Santo Agostinho, que inicialmente foi influenciado por essa heresia, após se converter, tornou-se seu maior opositor. Ela será condenada em vários Sínodos da Igreja ainda no século IV, e mais uma vez no século XII, no Concílio de Latrão IV.
    Está na Bíblia - Jesus ofereceu-nos Seu Sangue e Sua Carne e prometeu ressuscitar nossos corpos: "Então Jesus lhes disse: 'Em verdade, em verdade, digo-vos: se não comerdes a Carne do Filho do Homem, e não beberdes Seu Sangue, não tereis a Vida em vós mesmos. Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue tem a Vida Eterna. E Eu ressuscitá-lo-ei no Último Dia." Jo 6,53-54
    São Paulo escreveu a São Timóteo: "Pois tudo que Deus criou é bom, e nada há de reprovável quando se usa com ação de graças. Porque se torna santificado pela Palavra de Deus e pela oração." 1 Tm 4,4-5
    - Novacianismo: na metade do século III, Novaciano, padre romano, opôs-se a eleição do Papa Cornélio. Acusava-o de afrontar a Doutrina da Igreja por perdoar os cristãos batizados que, durante a perseguição do Imperador Décio, foram capturados e, sob ameaças de morte, tinham renegado a e oferecido sacrifícios a deuses pagãos. Para ele, tal atitude havia sido uma traição ao sangue dos mártires da Igreja. Novaciano e seus seguidores foram declarados hereges em 251, mas, mesmo após sua morte, muitos deles ainda eram encontrados em várias cidades e intitulavam-se 'puritanos', pois não admitiam misturar-se com a 'igreja corrompida', chegando ao ponto de rebatizarem-se.
    Está na Bíblia - Jesus ensinou aos Apóstolos: "Se teu irmão pecar, repreende-o. Se se arrepender, perdoa-lhe. Se pecar sete vezes no dia contra ti, e sete vezes no dia vier procurar-te, dizendo: 'Estou arrependido', perdoar-lhe-ás." Lc 17,3-4
    - Arianismo: no século IV, Ário, Bispo de Alexandria, negava que Jesus fosse consubstancial ao Pai, ou seja, Ele não seria Deus, mas tão somente um subordinado a Ele. Dizia, entretanto, que o Cristo era uma criatura pré-existente, "criada do nada", "a primeira e mais excelsa criatura de Deus" e que Ele havia encarnado em Jesus. Deus, portanto, seria apenas uma Pessoa, e Jesus apenas Seu filho. Deus seria um eterno mistério, e assim nunca Se teria revelado. Ele não respondia, porém, uma simples pergunta: Como poderíamos, então, saber alguma coisa sobre Deus?
    Em 325, o I Concílio Ecumênico de Niceia, convocado pelo Imperador Constantino I, afirmou em seu Credo que o Filho de Deus é "... gerado, não criado, consubstancial ao Pai..." E como Ário seguia resistindo, ainda durante o Concílio foi excomungado.
    Está na Bíblia - Jesus disse: "Eu e o Pai somos um." Jo 10,30


    Macedonianismo: na segunda metade do século IV, o Patriarca de Constantinopla, Macedônio I, negava que o Espírito Santo fosse Deus, o que fez com que ele e seus seguidores recebessem a alcunha de 'adversários do Espírito'. Acreditavam que o Divino Paráclito era uma criatura do Filho, para servir a Ele e ao Pai. Também pregavam que o Filho não tinha a mesma natureza que o Pai, mas apenas naturezas parecidas. Os antigos arianos, claro, trataram de segui-los.
    Em 381, o II Concílio Ecumênico de Constantinopla pôs fim a essa corrente de pensamento e afirmou que o Espírito Santo é "... o Senhor, o Doador da vida, que procede do Pai, com o Pai e o Filho é adorado e glorificado." Assim ficou confirmado que o Paráclito era consubstancial ao Pai e ao Filho, e com isso foi corroborado o conceito da Santíssima Trindade.
    Está na Bíblia - Em conversa com Nicodemos, Jesus testemunhou a unicidade e a divina autonomia do Espírito Santo: "O vento sopra onde quer. Ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito." Jo 3,8
    E prometeu aos Apóstolos: "É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece. Mas vós conhecê-Lo-eis, porque convosco permanecerá e em vós estará." Jo 14,17
    Apolinarianismo: no fim do século IV, Apolinário de Laodiceia explicava a natureza de Jesus como um corpo humano com mente divina. Seu espírito teria sido substituído pelo Verbo, ou seja, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Negava, portanto, a humanidade de Cristo, cujo Corpo seria apenas um veículo. Por essa afirmação, porém, Cristo, que não teve um corpo próprio, poderia incorporar em qualquer homem.
    Em 381, no mesmo I Concílio de Constantinopla, sua teoria foi amplamente rejeitada e confirmou-se que Jesus era totalmente homem, ao mesmo tempo que, por mistério, totalmente Deus. São Gregório Nazianzeno foi um dos presidente do Concílio e por sua brilhante argumentação aí seria reconhecido como o 'Teólogo da Trindade'.
    Está na Bíblia - Jesus disse ao instituir a Eucaristia: "Tomou em seguida o Pão e depois de ter dado graças, partiu-O e deu-lhO, dizendo: 'Isto é Meu Corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de Mim.'" Lc 22,19
    Pelagianismo - no início do século V, Pelágio da Bretanha, monge ascético, defendia que o homem não depende de Deus para ser salvo, ou seja, não precisaria da Divina Graça. Para ele o ser humano nasce 'moralmente neutro', e assim renegava o conceito do pecado original. Seus argumentos foram luminosamente desarticulados por São Jerônimo, tradutor e comentarista da Bíblia, e também por Santo Agostinho, que sustentava que toda humanidade estava sob o pecado e que só com o auxílio da Graça poderia salvar-se.
    Para Pelágio, a habilidade moral dada por Deus era o bastante para a Salvação, embora mais tarde ele tenha admitido que a Graça facilitasse a obediência. Segundo ele, o papel de Jesus era ser 'um bom exemplo fixo' para a humanidade, além de proporcionar a expiação dos pecados. Foi condenado como herege em 417 pelo Papa Inocêncio I, decisão que foi ratificada em 418 pelo Papa Zósimo, e mais uma vez no I Concílio de Éfeso, em 431.
    Está na Bíblia - Jesus pregava: "Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanecer em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto. Porque sem Mim nada podeis fazer." Jo 15,5
    - Nestorianismo: Nestório, monge e Patriarca de Constantinopla do século V, ensinava que a natureza humana de Jesus não se unia à Sua natureza divina, e por isso Maria não poderia ser chamada de Mãe de Deus. Em 431, no I Concílio de Éfeso, ele viu suas ideias derrotadas por São Cirilo de Alexandria e, por não reconhecer as decisões, foi condenado como herege. Foi-lhe concedido, porém, viver num mosteiro, pois esperava-se que se arrependesse, mas ele morreu sem voltar atrás.
    Como seus seguidores continuavam divulgando tais ensinamentos, em 451, no Concílio de Calcedônia, eles foram novamente declarados heréticos, mas, com apoio dos governantes da Pérsia, decidiram aí formar a Igreja Assíria do Oriente. Essa ruptura ficou conhecida como o Cisma Nestoriano.
    Está na Bíblia - Santa Isabel disse à Nossa Senhora, por ocasião de sua visita: "Donde me vem esta honra de vir a mim a Mãe de Meu Senhor?" Lc 1,43
    E Jesus disse aos judeus: "... reconheçais que o Pai está em Mim, e Eu no Pai." Jo 10,38
    - Monofisismo: era uma teoria cristológica que afirmava que Jesus tinha apenas a natureza divina, portanto, nada de humano. Eutiques, celibatário sacerdote muito respeitado em Constantinopla, levantou imprudentemente essa ideia logo depois da condenação de Nestório. Não demorou, portanto, e em 448 também foi condenado por heresia. Mas em 449, no controverso II Concílio de Éfeso, que foi revogado pelo Papa São Leão Magno, Eutiques foi reconduzido ao posto, graças a apoio político, e seus oponentes foram depostos.
    Em 451, porém, no Concílio da Calcedônia, suas ideias foram amplamente rejeitadas e de novo ele foi condenado por heresia, sendo em definitivo deposto.
    Está na Bíblia - Jesus morreu na Cruz: "Chegando, porém, a Jesus, como O vissem já morto, não Lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados abriu-Lhe o lado com uma lança e imediatamente saiu Sangue e Água." Jo 19,33-34
    - Cisma do Oriente: no século XI, os Patriarcas vinculados a Constantinopla proclamaram definitivamente não reconhecer a supremacia do Papa sobre a Igreja. No século IX, o Imperador Bizantino, Miguel III, o Ébrio, havia deposto Inácio, o Patriarca de Constantinopla, e nomeado Fócio, mas o Papa São Nicolau Magno não reconheceu nem a destituição nem o novo patriarca. Muito ambicioso, para acirrar a intriga e provocar a ruptura com o Papado, Fócio insidiosamente invocou a questão 'Filioque', até então uma irresoluta divergência doutrinária entre Roma e Constantinopla sobre a procedência do Espírito Santo, que o Oriente dizia proceder apenas do Pai, e não do Filho.
    Em 1054, Miguel Cerulário, Patriarca de Constantinopla, por meses recusou-se a receber o Cardeal enviado pelo Papa Leão IX, que ali estava para informar-lhe que o Bispo de Roma era o 'Patriarca Ecumênico'. Como realmente não o recebia, Miguel terminou sendo excomungado. Ele reagiu 'excomungando' o Cardeal e o Papa, de oficial modo iniciando o desligamento.
    Está na Bíblia - Jesus disse aos Apóstolos: "Entretanto, digo-vos a verdade: convém a vós que Eu vá! Porque, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós. Mas se Eu for, vo-Lo enviarei." Jo 6,7
    - Valdenses e albigenses: no fim do século XII, Pedro Valdo, um comerciante de Lyon que havia renunciado à sua fortuna, dizia que os cristãos não precisavam dos Sacerdotes da Igreja para salvarem-se, mas tão somente de oração e dos ensinamentos de Jesus. Os 'pastores', homens comuns que não precisariam deixar suas famílias nem seus trabalhos, poderiam ler a Bíblia, comentá-la e ser conselheiros morais do povo.
    Eles influenciaram outro movimento no sul da França, os albigenses, que se dividiam entre os 'perfeitos', pessoas que viviam em constante penitência, e os 'crentes', que acreditavam que só havia uma única absolvição dos pecados por toda vida, não podendo o cristão tornar a pecar. Os praticantes dessas correntes viviam esmolando, levando uma vida extremamente austera, e recusavam qualquer autoridade da Igreja.
    Em 1209, o Papa Inocêncio III contou com a santidade de São Domingos para pôr fim a essas heresias, mas eles ainda resistiram até 1229.
    Está na Bíblia - Jesus disse aos Apóstolos: "Quem vos ouve, a Mim ouve. E quem vos rejeita, a Mim rejeita. E quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou." Lc 10,16

    Sempre muito salutares, portanto, são as palavras de São Paulo, fervoroso defensor da Sã Doutrina. Ele escreveu a São Timóteo: "Empenha-te em apresentar-te diante de Deus como homem digno de aprovação, operário que não tem de que se envergonhar, íntegro distribuidor da Palavra da Verdade. Procura esquivar-te das frívolas conversas dos mundanos, que só contribuem para a impiedade. As palavras dessa gente destroem como a gangrena. Quem, portanto, conservar-se puro e isento dessas doutrinas, será um nobre, santificado, útil instrumento a Seu Possuidor, preparado para todo benéfico uso." 2 Tm 2,15-17a.21
    Recomendou-lhe mais: "Vigia a ti e a Doutrina. E persevera nestas coisas. Se isto fizeres, salvar-te-ás a ti mesmo e aos que te ouvirem." 1 Tm 4,16
    E exaltando a Comunhão que só em Cristo é promovida pelo Santo Paráclito, ele escreveu aos efésios: "N'Ele também vós, depois de terdes ouvido a Palavra da Verdade, o Evangelho de vossa Salvação no qual tendes crido, fostes selados com o Espírito Santo que fora prometido, que é o penhor de nossa herança, enquanto esperamos a completa Redenção daqueles que Deus adquiriu para o louvor de Sua Glória." Ef 1,13-14
    Sinal da Glória de Deus, da Comunhão da Santíssima Trindade e da passagem de Jesus entre nós, a Unidade da Igreja foi objeto de oração de Jesus ao Pai, quando rezou pelos Apóstolos e por todos que os ouviriam: "Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que, pela palavra deles, hão de crer em Mim. Para que todos sejam um, assim como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti, para que também eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu Me enviaste. Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em mim. Para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e amaste-os, como amaste a Mim." Jo 17,20-23
    E como ensinava o amor ao próximo, Ele pedia essencialmente amor entre Seus representantes: "Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." Jo 13,35

    "Em Comunhão com toda a Igreja aqui estamos!"