sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Santo André Apóstolo


    O irmão de São Pedro é considerado o 'protocletos', que em grego significa 'primeiro convocado'. Religioso e sensível, já era discípulo de São João Batista quando Jesus Se apresentou para ser batizado.
    Entre os Apóstolos, também é o primeiro a afirmar e a anunciar Jesus como o Messias, além de convocar um novo discípulo, o próprio São Pedro. São João Evangelista narrou esse episódio: "No dia seguinte, estava lá João outra vez com dois de seus discípulos. E ao avistar Jesus, que ia passando, disse: 'Eis o Cordeiro de Deus.' Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus. Voltando-Se Jesus, e vendo que O seguiam, perguntou-lhes: 'Que procurais?' Disseram-Lhe: 'Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?' 'Vinde e vede', respondeu-lhes Ele. Foram aonde Ele morava e com Ele ficaram aquele dia. Era cerca da hora décima. André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido João e que O tinham seguido. Logo foi ele, então, à procura de seu irmão e disse-lhe: 'Achamos o Messias (que quer dizer o Cristo).' Levou-o a Jesus, e Jesus, fixando nele o olhar, disse: 'Tu és Simão, filho de João. Serás chamado Cefas (que quer dizer pedra)!'" Jo 1,35-42
    Por essa frase, vemos que Jesus demonstra conhecer São Pedro e também seu pai, portanto, pai também de Santo André. Sinal de Sua clarevidência? Ele vai dar idêntica mostra ao encontrar São Bartolomeu: "Jesus vê Natanael, que Lhe vem ao encontro, e diz: 'Eis um verdadeiro israelita, no qual não há falsidade.' Natanael pergunta-Lhe: 'Donde me conheces?' Respondeu Jesus: 'Antes que Filipe te chamasse, Eu vi-te quando estavas debaixo da figueira.' Falou-Lhe Natanael: 'Mestre, Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel.'" Jo 1,47,49
    Como São Filipe, Santo André e São Pedro eram de Betsaida, nome que significa 'casa da pesca', lugar próximo a Cafarnaum e ao Mar da Galileia: "Filipe era natural de Betsaida, cidade de André e Pedro." Jo 1,44
    Sabemos que, junto ao irmão, Santo André fazia parte de uma colônia de pescadores, mas, após Se retirar para o deserto por 40 dias, Jesus retornou e convidou-os para que pescassem almas: "Desde então, Jesus começou a pregar: 'Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo!' Caminhando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão (chamado Pedro) e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores. E disse-lhes: 'Vinde após Mim, e far-vos-ei pescadores de homens.' Na mesma hora, abandonaram suas redes e seguiram-nO." Mt 4,17-20
    Santo André era solteiro e morava com São Pedro, cuja foi dote de casamento, pois morava com a sogra: "Dirigiram-se para Cafarnaum. E já no dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e pôs-Se a ensinar. Assim que saíram da sinagoga, dirigiram-se com Tiago e João à casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama, com febre, e sem tardar Lhe falaram a respeito dela. Aproximando-Se Ele, tomou-a pela mão e levantou-a. Imediatamente a febre a deixou e ela pôs-se a servi-los." Mc 1,21.29-31
    Mas São Lucas, que era médico, deu outro 'diagnóstico' para esta febre: "Saindo Jesus da sinagoga, entrou na casa de Simão. A sogra de Simão estava com febre alta, e pediram-lhe por ela. Inclinando-Se sobre ela, ordenou Ele à febre, e a febre deixou-a. Ela imediatamente levantou-se e pôs-se a servi-Los." Lc 4,38-39
    Na lista dos Apóstolos, Santo André aparece em segundo lugar nos Evangelhos de São Mateus e São Lucas, atrás apenas do irmão, o Príncipe dos Apóstolos: "Naqueles dias, Jesus retirou-Se a uma montanha para rezar, e aí passou toda a noite orando a Deus. Ao amanhecer, chamou Seus discípulos e escolheu Doze dentre eles, que chamou de Apóstolos: Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro; André, seu irmão; Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Simão, chamado Zelota; Judas, irmão de Tiago; e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor." Lc 6,12-16
    Ou na quarta posição em São Marcos e nos Atos dos Apóstolos, dando lugar a São Tiago Maior e São João, dos três mais íntimos de Jesus. Ou seja, sempre estava entre os quatro, do primeiro dos três grupos de quatro: "Designou Doze, dentre eles, para ficar em Sua companhia. Ele enviar-los-ia a pregar, com o poder de expulsar os demônios. Escolheu estes Doze: Simão, a quem pôs o nome de Pedro; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer Filhos do Trovão. Ele também escolheu André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Tadeu, Simão, o Zelador; e Judas Iscariotes, que O entregou." Mc 2,14-19
    No dia em que multiplicou pães e peixes, Jesus provocou São Filipe, mas foi Santo André quem dispôs do que os Apóstolos tinham para que o milagre da 'partilha' acontecesse: "Jesus subiu a um monte e ali Se sentou com Seus discípulos. Aproximava-se a Páscoa, festa dos judeus. Jesus levantou os olhos sobre aquela grande multidão, que vinha ter com Ele, e disse a Filipe: 'Onde compraremos pão para que todos estes tenham o que comer?' Um de Seus discípulos, chamado André, irmão de Simão Pedro, disse-Lhe: 'Está aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes... mas o que é isto para tanta gente?'" Jo 6,3-9
    E é através de Santo André que São Filipe dá um importantíssimo recado a Jesus, quando Nosso Salvador percebe que Seu Nome já havia chegado a países vizinhos, e por isso anuncia a chegada de Sua hora: "Havia alguns gregos entre os que subiram para adorar durante a festa. Estes aproximaram-se de Filipe (aquele de Betsaida da Galileia) e rogaram-lhe: 'Senhor, quiséramos ver Jesus.' Filipe foi e falou com André. Então André e Filipe o disseram ao Senhor. Respondeu-lhes Jesus: 'É chegada a hora para o Filho do Homem ser glorificado. Em verdade, em verdade, digo-vos: se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só. Se morrer, produz muito fruto.'" Jo 12,20-24
    Por essas passagens e pela seguinte, notamos que Santo André fazia parte de um grupo mais íntimo de Cristo, ainda que não tão íntimo como eram São Pedro, São Tiago Maior e São João: "Saindo Jesus do Templo, disse-Lhe um de Seus discípulos: 'Mestre, olha que pedras e que construções!' Jesus replicou-lhe: 'Vês este grande edifício? Não se deixará pedra sobre pedra que não seja demolida.' E estando sentado no monte das Oliveiras, defronte ao Templo, perguntaram-Lhe à parte Pedro, Tiago, João e André: 'Dize-nos, quando hão de suceder essas coisas? E por qual sinal se saberá que tudo isso vai realizar-se?' Jesus pôs-Se, então, a dizer-lhes: 'Cuidai que ninguém vos engane. A respeito, porém, daquele dia ou daquela hora, ninguém o sabe, nem os anjos do Céu nem mesmo o Filho, mas somente o Pai.'" Mc 13,1-7.32
    No livro dos Atos dos Apóstolos, Santo André só é mencionado na lista dos Onze e nos dias que antecede ao Pentecostes, o que indica sua intensa atividade fora de Jerusalém desde os primeiros anos da Igreja, como sustenta a Sagrada Tradição: "Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelota, e Judas, irmão de Tiago. Todos eles unanimemente perseveravam na oração, e com eles as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos d'Ele. Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar." Ap 1,13-14;2,1
    Segundo Santo Hipólito, após a Ascensão de Jesus, Santo André pregou na Trácia, hoje região da Bulgária. O livro apócrifo 'Atos de André' aponta-o como o fundador da igreja da importantíssima Bizâncio, que no século IV iria ser chamada de Constantinopla. Este fato teria acontecido no remoto ano de 38, pouquíssimo tempo, portanto, após a Paixão do Senhor. Estácio teria sido ordenado bispo por ele, e substituiu-o após nova partida sua em peregrinação. Ainda hoje ele é reconhecido como o Padroeiro de Istambul, atual nome da cidade, a mais importante da Turquia e ponto de conexão da Ásia com a Europa.
    Baseando-se em Orígenes, Eusébio de Cesareia diz que Santo André teria pregado na Ásia Menor, atual Turquia, especificamente na região da Cítia, que fica na costa do Mar Negro, peregrinado por algumas cidades ao longo do Rio Volga, e por isso é também o Padroeiro da Rússia, além de ter evangelizado Kiev, capital da atual Ucrânia. É igualmente Padroeiro da Romênia, onde também exerceu seu apostolado. Parece mesmo ter tomado todo entorno do Mar Negro como área de atuação.
    De volta a Grécia, radicou-se em Patras, na região da Acaia, terras do sudeste, onde fundou a igreja local, que viria a ser modelo para todas demais. Por sua incendiária fama, pois realizava milagres e convertia a muitos, o governador e juiz romano Egeas quis impor-lhe sua autoridade, mas nosso Apóstolo recusou-a e recomendou-lhe que ele é deveria submeter-se à autoridade de Cristo. E como mensageiro da Verdade, ainda lhe revelou que, pela patente impostura de muitos sacerdotes e pelos maus costumes do povo, os deuses pagãos haviam-se tornado anteparos de demônios, que a todos seduziam, enganavam e molestavam.
    Informados desta denúncia, e enfurecidos, os principais sacerdotes pagãos passaram a assediar Egeas, e por ilações conseguiram que ele ordenasse a crucificação de Santo André. Todos ficaram espantados, porém, quando ele, com insuspeita alegria, recebeu sua condenação. Numa atitude que vai lembrar a do próprio São Pedro, pois foi executado antes dele, Santo André apenas lhe pediu que fosse crucificado numa cruz diferente da de Jesus, porque não era digno de morrer como Seu Mestre.


    Por dois dias ficou dependurado numa cruz em forma de X, e por não ser assistidos por nenhum cristão, porque todos foram ameaçados de morte, indicou onde estavam e doou seus pertences aos carrascos, que estavam visivelmente constrangidos em cumprir aquela ordem. Agia sob inspiração, pois eles viriam a converter-se e seus parcos bens, a maior parte deles sagrados, usados para celebrar a Eucaristia, seriam devolvidos à igreja local, que sobreviveria na clandestinidade.
    Assim sua santidade, como seu especial carisma, de expressiva amabilidade, foram amplamente reconhecidos. Seu testemunho pelo sacrifício, de fato, foi marcante: não demonstrou vacilação alguma quanto à Divina Providência ou à Vida Eterna.
    Seus restos mortais ficaram em Patras até 357, quando Constantino os levou a Constantinopla. Na Quarta Cruzada, no início do século XII, os cruzados levaram-nos a Roma, por temerem as recorrentes profanações dos invasores turcos, seguidores do islamismo.
    Conforme a Tradição, ao serem levadas a Europa por cruzados, suas relíquias primeiro estiveram na Escócia, onde ficou por bom tempo numa cidade que passou a levar seu nome, Saint Andrews, e por isso a bandeira deste país traz sua cruz.


    Após a união entre a Escócia e a Inglaterra, cuja bandeira já ostentava a Cruz de Cristo, a do Reino Unido incorporou a cruz de Santo André.


    Em 1964, o Papa São Paulo VI devolveu suas relíquias a Patras, quando já eram apenas os ossos de um dedo, parte do crânio e pedaços de sua cruz.


    Santo André, rogai por nós!

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Entre o Céu e a Terra


    Por causa do pecado, vacilar na é característico da natureza humana, mas é igualmente característico que ao longo da vida cresçamos em maturidade espiritual e fidelidade a Deus.
    Seguidores muito próximos de Jesus, mesmo vendo Seus milagres e presenciando o cumprimento das profecias, também vacilaram. O maior flagrante deu-se quando Ele anunciou que Seu Sangue e Sua Carne são o alimento da Vida Eterna: "Desde então, muitos de Seus discípulos retiraram-se e já não andavam com Ele. Então Jesus perguntou aos Doze: 'Quereis vós também retirar-vos?' Respondeu-Lhe Simão Pedro: 'Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da Vida Eterna. E nós cremos e sabemos que Tu és o Santo de Deus!'" Jo 6,66-69
    Outra constatação deste fato está no episódio dos discípulos que abandonaram os Apóstolos e partiram para Emaús, no Domingo da Ressurreição, mesmo após três anos e meio de convivência com Nosso Salvador: "Nesse mesmo dia, dois discípulos caminhavam para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. Iam falando um com o outro de tudo que se tinha passado. Enquanto conversavam e discorriam entre si, o próprio Jesus aproximou-Se e caminhava com eles. Mas os olhos estavam-lhes como que vendados e não O reconheceram. Perguntou-lhes, então: 'De que estais falando pelo caminho, e por que estais tristes?' Um deles, chamado Cléofas, respondeu-Lhe: 'És Tu acaso o único forasteiro em Jerusalém que não sabe o que nela aconteceu estes dias?' Perguntou-lhes Ele: 'Que foi?' Disseram: 'A respeito de Jesus de Nazaré... Era um poderoso Profeta em obras e palavras, diante de Deus e de todo povo. Nossos sumos sacerdotes e nossos magistrados entregaram-nO para ser condenado à morte e crucificaram-nO. Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de restaurar Israel e agora, além de tudo isto, é hoje o terceiro dia que essas coisas sucederam. É verdade que algumas mulheres dentre nós nos surpreenderam. Elas foram ao Sepulcro, antes do nascer do sol, e não tendo achado Seu Corpo, voltaram, dizendo que tiveram uma visão de anjos, os quais asseguravam que Ele está vivo. Alguns dos nossos foram ao Sepulcro e acharam assim como as mulheres tinham dito, mas a Ele mesmo não viram.' Disse-lhes Jesus: 'Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo que anunciaram os Profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse em Sua Glória?' E começando por Moisés, percorrendo todos Profetas, explicava-lhes o que d'Ele se achava dito em todas Escrituras." Lc 24,13-27
    Por hesitação Jesus também repreendeu a São Pedro, justamente a quem iria prometer a chave do Reino dos Céus. Foi quando o pescador pediu para andar com o Senhor sobre as águas: "Pela quarta vigília da noite, Jesus veio a eles caminhando sobre o mar. Quando os discípulos O perceberam caminhando sobre as águas, ficaram com medo: 'É um fantasma!' disseram eles, soltando gritos de terror. Mas Jesus logo lhes disse: 'Tranquilizai-vos, sou Eu. Não tenhais medo!' Pedro tomou a palavra e falou: 'Senhor, se és Tu, manda-me ir sobre as águas até junto a Ti!' Ele disse-lhe: 'Vem!' Pedro saiu da barca e caminhava sobre as águas ao encontro de Jesus. Mas, redobrando a violência do vento, teve medo e, começando a afundar, gritou: 'Senhor, salva-me!' No mesmo instante, Jesus estendeu-lhe a mão, segurou-o e disse-lhe: 'Homem de pouca fé, por que duvidaste?'" Mt 14,25-31
    A verdade é que o materialismo e racionalismo, nos quais a vida moderna facilmente nos enreda, são uma grande fábrica de céticos aos sinais de Deus. Mas esses deslises da percepção não são nada recentes: assim como os discípulos de Emaús, os demais Apóstolos, à exceção de São Pedro que já O havia visto, também duvidaram. E isso aconteceu mesmo tendo diante de si o Cristo ressuscitado, igualmente no Domingo da Ressurreição: "Enquanto ainda falavam dessas coisas, Jesus apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: 'A Paz esteja convosco!' Perturbados e espantados, pensaram estar vendo um espírito. Mas Ele disse-lhes: 'Por que estais perturbados, e por que essas dúvidas em vossos corações? Vede Minhas mãos e Meus pés, sou Eu mesmo! Apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho!' E dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e os pés. Mas ainda vacilando eles, e estando transportados de alegria, perguntou: 'Tendes aqui alguma coisa para comer?' Então Lhe ofereceram um pedaço de peixe assado. Ele tomou e comeu à vista deles." Lc 24,36-43
    São Marcos relata a mesma cena da primeira aparição conjunta aos Apóstolos, ressaltando a repreensão que Ele lhes faz por não terem acreditado em Santa Maria Madalena, em São Pedro e nos discípulos que estavam a caminho de Emaús: "Por fim, apareceu aos Onze, quando estavam sentados à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e dureza de coração, por não acreditarem naqueles que O tinham visto ressuscitado." Mc 16,14
    São Mateus descreve idêntica hesitação entre alguns dos demais seguidores, mais de 500 segundo São Paulo (cf. 1 Cor 15,6), quando, guiados pelos Apóstolos, viram a aparição numa montanha da Galileia. Aí Jesus desfez-lhes as dúvidas proclamando Seu absoluto poder: "Os Onze discípulos foram para a Galileia, para a montanha que Jesus lhes tinha designado. Quando O viram, adoraram-nO. Entretanto, alguns ainda hesitavam, mas Jesus, aproximando-Se, disse-lhes: 'Toda autoridade foi-Me dada no Céu e na terra.'" Mt 28,16-18
    Também São Tomé, que não estava presente na primeira aparição aos 10 Apóstolos, quando ainda estavam em Jerusalém, recebeu a devida correção por sua impertinente teimosia: "Oito dias depois, estavam Seus discípulos outra vez no mesmo lugar, e Tomé com eles. Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-Se no meio deles e disse: 'A Paz esteja convosco!' Depois disse a Tomé: 'Introduz aqui teu dedo, e vê Minhas mãos. Põe tua mão em Meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé.' Respondeu-Lhe Tomé: 'Meu Senhor e Meu Deus!' Disse-lhe Jesus: 'Creste, porque Me viste. Felizes aqueles que creem sem ter visto!'" Jo 20,26-27
    Todas essas situações, exceto a de São Pedro, longe de apenas demonstrar as incertezas dos Apóstolos, discípulos e seguidores, revelam quão verdadeiros foram os fatos acerca da Ressurreição. Eles vivenciaram, sem dúvida, uma realidade absolutamente desconcertante, a qual reagiram de ordinário modo, porém espontâneo. Não fosse a mais pura Verdade, eles não a relatariam, pois em essência denuncia suas fraquezas, atesta contra suas condutas de fiéis seguidores. Ou seja, a incredulidade, que não tiveram vergonha de registrar, é um forte testemunho a favor da veracidade da Ressurreição de Cristo. É isso que São João Evangelista tenta comunicar, usando palavras que ele bem sabe que não comportam o que quer expressar: "O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com nossos olhos, o que temos contemplado e nossas mãos têm apalpado no tocante ao Verbo da Vida, porque a Vida se manifestou, e nós a temos visto, damos testemunho e anunciamo-vos a Vida Eterna, que estava no Pai e que se nos manifestou. O que vimos e ouvimos nós anunciamo-vos, para que também vós tenhais Comunhão conosco." 1 Jo 1,1-3
    Como grande mestre, São Paulo, que inicialmente também não acreditou no Cristo e até combateu a Igreja, reconhece nossas inconstâncias na Caminhada até Deus. Ele escreveu ao romanos: "Eu sei que em mim, isto é, em minha carne, não habita o bem, porque o querer o bem está em mim, mas não sou capaz de efetuá-lo. Não faço o bem que queria, mas faço o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que faço, mas sim o pecado que em mim habita. Encontro, pois, em mim esta lei: quando quero fazer o bem, o que se me depara é o mal. Deleito-me na Lei de Deus, no íntimo de meu ser. Sinto, porém, em meus membros outra lei, que luta contra a Lei de meu espírito e prende-me à lei do pecado, que está em meus membros. Infeliz homem que sou! Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte?..." Rm 7,18-24
    Mas também lembra que nossos esforços contam com os prestimosos auxílios do Espírito de Deus: "Nós que esperamos o que não vemos, é em paciência que o aguardamos. Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza. Porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com inefáveis gemidos." Rm 8,25-26
    Por isso, ao invés de alardear virtudes, ele preferia confessar suas faltas, pois já sabia que na verdadeira humildade é que encontramos fortaleza: "Ademais, para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para esbofetear-me e livrar-me do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim, mas Ele disse-me: 'Basta-te Minha Graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente Minha força.' Portanto, prefiro gloriar-me de minhas fraquezas para que em mim habite a força de Cristo. Eis porque sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo. Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte." 2 Cor 12,7-10
    E assim entre ele e Deus se interpunha outro dilema, polarizado por ele e a comunidade que servia: "Meu ardente desejo e minha esperança são que em nada serei confundido, mas que, hoje como sempre, Cristo será glorificado em meu corpo (tenho toda certeza disto), quer por minha vida quer por minha morte. Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro. Mas se o viver no corpo é útil para meu trabalho, não sei então o que devo preferir. Sinto-me pressionado dos dois lados: por uma parte, desejaria desprender-me para estar com Cristo, o que seria imensamente melhor. Porém, de outra parte, continuar a viver é mais necessário, por causa de vós..." Fl 1,20-24


CRESCER NO CONHECIMENTO DE DEUS

    Por sua vez, o Príncipe dos Apóstolos, que arrebatadamente amadureceu para a santidade, é bem específico ao dizer como recebemos as divinas unções: "... Graça e Paz sejam-vos dadas em abundância por um profundo conhecimento de Deus e de Jesus, Nosso Senhor!" 2 Pd 1,2
    Fidelíssimo pastor, ele não deixa de advertir a respeito dos deturpadores das Escrituras, que acintosamente pervertem a Sã Doutrina, pois seu desejo é que também cheguemos ao verdadeiro conhecimento de Cristo: "Reconhecei que a longa paciência de Nosso Senhor vos é salutar, como também vosso caríssimo irmão Paulo vos escreveu, segundo o dom de Sabedoria que lhe foi dado. É o que ele faz em todas suas cartas, nas quais fala nestes assuntos. Nelas há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os ignorantes ou pouco fortalecidos espíritos deturpam para sua própria ruína, como o fazem também com as demais Escrituras. Vós, pois, caríssimos, advertidos de antemão, tomai cuidado para que não caiais de vossa firmeza, levados pelo erro destes ímpios homens. Mas crescei na Graça e no conhecimento de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A Ele a Glória, agora e eternamente." 2 Pd 3,17-18
    São Tiago Menor acrescenta que a vitória frente às tentações se dá pela paciência embasada na Sabedoria, mas desde que tenazmente nos proponhamos a resistir ao Mal: "Considerai que é suma alegria, meus irmãos, quando passais por diversas provações, sabendo que a prova de vossa fé produz a paciência. Mas é preciso que a paciência efetue sua obra, a fim de serdes perfeitos e íntegros, sem fraqueza alguma. Se alguém de vós necessita de Sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, com simplicidade e sem recriminação, e ser-lhe-á dada. Mas peça-a com fé, sem nenhuma vacilação, porque o homem que vacila se assemelha à onda do mar, levantada pelo vento e agitada de um lado para o outro. Não pense tal homem, portanto, que alcançará alguma coisa do Senhor, pois é um irresoluto, inconstante em todo seu proceder." Tg 1,2-8
    Assim, diante da Revelação de Deus, o sensato ser humano só pode reagir buscando conhecê-la. Eis que São Paulo enfrentava qualquer dificuldade pensando na promoção do crescimento espiritual do fiéis, que devem ter o Cristo como modelo. Ele escreveu aos efésios: "Por isso, rogo-vos que não desfaleçais por minhas tribulações que por vós sofro: elas são vossa Glória! Por esta causa, dobro os joelhos em presença do Pai, ao Qual deve sua existência toda família no Céu e na terra, para que vos conceda, segundo Seu glorioso tesouro, que por Seu Espírito sejais poderosamente robustecidos em vista do crescimento do vosso homem interior. Que pela fé habite Cristo em vossos corações, arraigados e consolidados na caridade, a fim de que possais, com todos cristãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, isto é, conhecer a caridade de Cristo, que desafia todo conhecimento, e sejais cheios de toda plenitude de Deus." Ef 3,13-19
    Pedia empenho aos romanos, e compreensão para com os mais fracos na fé: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação de vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada e o que é perfeito. Em virtude da Graça que me foi dada, recomendo a todos e a cada um: não façam de si próprios uma opinião maior que convém, mas um razoavelmente modesto conceito, de acordo com o grau de fé que Deus lhes distribuiu." Rm 12,2-3
    Cabe a nós, então, demonstrando verdadeiro amor a Deus, vencer a incredulidade adquirindo maior conhecimento de Cristo. Ele diz aos colossenses: "Tudo sofro para que seus corações sejam reconfortados e que, estreitamente unidos pela caridade, sejam enriquecidos de uma plenitude de inteligência, para conhecerem o Mistério de Deus, isto é, Cristo, no Qual estão escondidos todos tesouros da Sabedoria e da ciência." Cl 2,2-3
    E falando da esperança, da herança e do poder de Deus, através dos quais somos capacitados para afastar qualquer hesitação, ele rezava: "Rogo ao Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da Glória, que vos dê um espírito de Sabedoria que vos revele o conhecimento d'Ele. Que ilumine os olhos do vosso coração para que compreendais a que esperança fostes chamados, quão rica e gloriosa é a herança que Ele reserva aos Santos, e qual a suprema grandeza de Seu poder para conosco, que abraçamos a fé." Ef 1,17-19
    Pois é o aperfeiçoamento do ser humano, demonstrado por Jesus através da solidez da fé e da efetiva caridade, que promove a construção da Igreja, que é Seu Corpo Místico: "A uns Ele constituiu Apóstolos; a outros, profetas; a outros, evangelistas, pastores, doutores, para o aperfeiçoamento dos cristãos, para o desempenho da tarefa que visa à construção do Corpo de Cristo, até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo. Para que não continuemos crianças ao sabor das ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da malignidade dos homens e de seus enganadores artifícios. Mas, pela sincera prática da caridade, cresçamos em todos sentidos naquele que é a Cabeça, Cristo. É por Ele que todo Corpo - coordenado e unido por conexões que estão ao Seu dispor, trabalhando cada um conforme a atividade que lhe é própria - efetua esse crescimento, visando sua plena edificação na caridade." Ef 4,11-16
    Ora, São Paulo dizia aos filipenses que conhecer a Cristo é tudo que realmente importa: "Na verdade, julgo como perda todas as coisas, em comparação com esse supremo bem: o conhecimento de Jesus Cristo, Meu Senhor. Por Ele, tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo..." Fl 3,8
    Ele demonstra humildade, apesar das grandiosas Graças que recebeu, e prega perseverança: "Anseio pelo conhecimento de Cristo, pelo conhecimento do poder de Sua Ressurreição através da participação em Seus sofrimentos, tornando-me semelhante a Ele na morte, com a esperança de conseguir a Ressurreição dentre os mortos. Não pretendo dizer que já alcancei esta meta e que cheguei à perfeição. Não. Mas empenho-me em conquistá-la, uma vez que também eu fui conquistado por Jesus Cristo. Consciente de não tê-la ainda conquistado, só procuro isto: prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para a frente, persigo o alvo rumo ao celeste prêmio ao qual Deus nos chama, em Jesus Cristo. Nós, mais aperfeiçoados que somos, ponhamos nisto nosso afeto! E se tendes outro sentir, sobre isto Deus há de esclarecer-vos. Contudo, seja qual for o grau a que chegamos, o que importa é decididamente prosseguir." Fl 3,10-16
    De fato, não buscava nenhum médio estágio, como exorta os tessalonicenses: "No mais, irmãos, aprendestes de nós a maneira como deveis proceder para agradar a Deus. E já o fazeis! Rogamo-vos, pois, e exortamos-vos no Senhor Jesus a que progridais sempre mais. Pois conheceis que preceitos vos demos da parte do Senhor Jesus. Esta é a vontade de Deus: vossa santificação..." 1 Ts 4,1-3b
    Ora, isso foi o que determinou o próprio Jesus, durante o Sermão da Montanha: "Portanto, sede perfeitos, assim como Vosso Pai Celeste é perfeito." Mt 5,48
    E São Paulo só poderia desejar o mesmo conhecimento aos colossenses: "Por isso, também nós... não cessamos de orar por vós e pedir a Deus para que vos conceda pleno conhecimento de Sua vontade, perfeita sabedoria e profundidade espiritual, para que vos comporteis de maneira digna do Senhor, em tudo procurando agradar-Lhe, em toda boa obra frutificando, e crescendo no conhecimento de Deus." Cl 1,9-10
    Plenamente inspirado, ele vê no conhecimento do Cristo a restauração da imagem de Deus que a humanidade perdeu: "Vós despistes-vos do velho homem com seus vícios, e revestistes-vos do novo, que constantemente vai restaurando-se à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento." Cl 3,9-10
    Também foi o que ele disse a São Timóteo, pois a Deus só agradamos quando vivemos a verdadeira piedade: "Acima de tudo, recomendo que se façam preces, orações, súplicas, ações de graças por todos homens, pelos reis e por todos que estão constituídos em autoridade, para que possamos viver uma calma e tranquila vida, com toda piedade e honestidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, Nosso Salvador, o Qual deseja que todos homens se salvem e cheguem ao conhecimento da Verdade." 1 Tm 2,1-4
    E mais uma vez, em outra carta, ele fala no conhecimento da Verdade: "É com brandura que deve corrigir os adversários, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento e o conhecimento da Verdade..." 2 Tm 2,25
    Os seguidores de sua tradição, porém, lamentavam-se de gente de dentro da própria Igreja: "Teríamos muita coisa a dizer sobre isso, e coisas bem difíceis de explicar, dada vossa lentidão em compreender... A julgar pelo tempo, já devíeis ser mestres! Contudo, ainda necessitais que vos ensinem os primeiros rudimentos da Palavra de Deus. E tornastes-vos tais, que precisais de leite em vez de sólido alimento! Ora, quem se alimenta de leite não é capaz de compreender uma profunda doutrina, porque é ainda criança. Mas o sólido alimento é para os adultos, para aqueles que a experiência já exercitou na distinção do bem e do mal." Hb 5,11-14
    Aliás, esse era um argumento do próprio São Paulo, denunciando invejas e intrigas: "A vós, irmãos, não vos pude falar como a homens espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo. Eu dei-vos leite a beber, e não sólido alimento, que ainda não podíeis suportar. Nem ainda agora o podeis, porque ainda sois carnais. Com efeito, enquanto entre vós houver ciúmes e contendas, não será porque sois carnais e procedeis de um modo totalmente humano?" 1 Cor 3,1-3


OS QUE RENEGAM A FÉ

    Porém, entre ocasionalmente vacilar na fé e com empenho buscar o conhecimento de Deus, pedindo-Lhe fé e Sabedoria, há muitos que optam por renegar a Deus. Mas pela simples contemplação da natureza, segundo São Paulo, eles não têm desculpa: "Porquanto o que se pode conhecer de Deus, eles leem-nos em si mesmos, pois com evidência Deus lho revelou. Desde a criação do mundo, as invisíveis perfeições de Deus, Seu sempiterno poder e divindade tornam-se visíveis à inteligência por Suas obras, de modo que não podem escusar-se." Rm 1,19-20
    E os que abraçam a depravação, ainda segundo sua carta aos romanos, já estão pagando por sua má vontade: "Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Deus entregou-os a depravados sentimentos, e daí seu indigno procedimento." Rm 1,28
    Por fim, ele também e diretamente acusa o Maligno, sedutor dos incrédulos: "Se nosso Evangelho ainda estiver encoberto, está encoberto para aqueles que se perdem, para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a Luz do Evangelho, onde resplandece a Glória de Cristo, que é a imagem de Deus." 2 Cor 4,3-4
    No entanto, deixa bem claro qual o poder da Palavra de Deus: "Não são carnais as armas com que lutamos. São poderosas, em Deus, capazes de arrasar fortificações. Nós aniquilamos todo raciocínio e todo orgulho que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento e reduzimo-lo à obediência a Cristo." 2 Cor 10,4-5
    Pelo poder de Seu Magistério, a Igreja ensina no Catecismo: "A fé é certa, mais certa que qualquer conhecimento humano, porque se funda na própria Palavra de Deus, que não pode mentir. Sem dúvida, as verdades reveladas podem parecer obscuras à razão e à experiência humanas, mas "a certeza dada pela Divina Luz é maior que a que é dada pela luz da razão natural." [São Tomás de Aquino] CIC 157
    Ainda diz: "O primeiro mandamento manda-nos alimentar e guardar com prudência e vigilância nossa fé, e rejeitar tudo que se lhe opõe. Há diversas maneiras de pecar contra a fé:
    A voluntária dúvida sobre a fé negligencia ou recusa ter como verdadeiro o que Deus revelou, e que a Igreja propõe para crer. A involuntária dúvida designa a hesitação em crer, a dificuldade de superar as objeções ligadas à fé ou, ainda, a ansiedade suscitada pela obscuridade da fé. Se for deliberadamente cultivada, a dúvida pode levar à cegueira do espírito.
    A incredulidade é a negligência da verdade revelada ou a voluntária recusa de dar-lhe o próprio assentimento. 'Chama-se heresia a pertinaz negação, após a recepção do Batismo, de qualquer verdade que se deve crer com divina e católica fé, ou a pertinaz dúvida a respeito dessa verdade; apostasia, o total repúdio da fé cristã; cisma, a recusa de sujeição ao Sumo Pontífice ou da comunhão com os membros da Igreja a ele sujeitos.'" CIC 2088-2089

    "A todos dai a Luz que não se apaga!"

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Um Retrato de São Paulo


    Foi na carta escrita à igreja de Filipos, que fica na Grécia, mas à época sob domínio dos macedônios, a primeira cidade da Europa a receber o Evangelho, que São Paulo nos deixou um claro retrato de sua santidade. Não se sabe ao certo onde estava quando a escreveu: pode ter sido em Éfeso ou em Roma. E por isso não se pode afirmar se vivia os últimos dias antes do martírio. Mas é bem provável que sim, e portanto estaria em Roma, pois, além de exalar avançada espiritualidade, ele menciona o que é considerado o primeiro registro da hierarquia da Igreja, já se consolidando após as primeiras décadas. Ele diz na saudação: "Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos em Jesus Cristo, que se acham em Filipos, com epíscopos e diáconos..." Fl l,1
    Outra frase, ao final da carta, também leva a essa hipótese: "Todos os santos vos saúdam, especialmente os da casa de César." Fl 4,22
    Ou ainda por citar o pretório, que era o tribunal romano, deixando claro que ele estava preso: "Em todo pretório e por toda parte tornou-se conhecido que é por causa de Cristo que estou preso." Fl 1,13
    Mas o que mais chama atenção é que nosso Santo não está triste, ou sequer contrariado. É a carta em que mais fala em alegria! Mais vezes até que na Segunda aos Coríntios, que é bem mais extensa. Ainda nos primeiros versículos, ele inscreve: "Em todas minhas orações, sempre rezo com alegria por todos vós, recordando-me da cooperação que haveis dado na difusão do Evangelho, desde o primeiro dia até agora." Fl 1,4-5
    No último capítulo, torna a exortar e insiste: "Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!" Fl 4,4
    E, estejamos certos, ele não falava de alegria por vão entusiasmo, pois já estamos diante de um Paulo preparado, que profetiza o próprio martírio: "Meu ardente desejo e minha esperança são que em nada serei confundido, mas que, hoje como sempre, Cristo será glorificado em meu corpo (tenho toda certeza disto), quer por minha vida quer por minha morte. Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro." Fl 1,20-21
    Mostra-se, no entanto, preocupado com o projeto da Salvação: "Sinto-me pressionado dos dois lados: por uma parte, desejaria desprender-me para estar com Cristo, o que seria imensamente melhor. Mas, de outra parte, continuar a viver é mais necessário, por causa de vós..." Fl 1,23-24
    Então pede pela união entre os discípulos e a unidade da Igreja, pois sabia que esse era o mais brilhante sinal que os seguidores do Nazareno poderiam dar: "Quer eu vá ter convosco quer permaneça ausente, desejo ouvir que estais firmes em um só espírito, unanimemente lutando pela do Evangelho..." Fl 1,27
    Na verdade, ele tão somente lembrava uma condição que Jesus havia fixado: "Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." Jo 13,35
    Porque é por sua coesão que a Igreja reflete a Glória de Deus: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim. Para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e amaste-os, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    E em tocante modéstia, o Último Apóstolo implorava por essa unidade em nome da Comunhão que com eles tinha, como uma consolação pelas tribulações que passava: "Se me é possível, pois, alguma consolação em Cristo, algum caridoso estímulo, alguma comunhão no Espírito, alguma ternura e compaixão, completai minha alegria permanecendo unidos. Tende um mesmo amor, uma só alma e os mesmos pensamentos. Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos." Fl 2,1-3
    Alertava-os, ademais, do Caminho da Cruz: "... porque a vós é dado não somente crer em Cristo, mas ainda sofrer por Ele." Fl 1,29
    E assim pedia: "Sustentais o mesmo combate que me tendes visto travar, e no qual sabeis que eu agora continuo." Fl 1,30
    Por ter entendido perfeitamente, e na própria carne, a mensagem de Jesus, ele aproveita para pregar humildade e obediência. Eis uma parte do conhecido 'Hino Cristológico': "Sendo Ele de divina condição, não Se prevaleceu de Sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-Se aos homens. E sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-Se ainda mais, tornando-Se obediente até a morte, e morte de Cruz." Fl 2,6-8
    E conclui: "E toda língua confesse, para a Glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor." Fl 2,11
    Havendo-se entregue por completo nas mãos de Deus, não tinha nenhuma dúvida de como se dava a Graça da santificação: "Estou persuadido de que Aquele, que em vós iniciou esta excelente obra, dar-lhe-á o acabamento até o Dia de Jesus Cristo. Porque é Deus, segundo Seu beneplácito, Quem em vós realiza o querer e o executar." Fl 1,6;2,13
    Por isso, recomendava: "Fazei todas as coisas sem murmurações nem críticas, a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes, íntegros filhos de Deus no meio de uma depravada e maliciosa sociedade, onde brilhais como luzeiros no mundo, a ostentar a Palavra da Vida." Fl 2,14-15
    Prometeu-lhes seu mais íntimo colaborador: "Espero no Senhor Jesus em breve enviar-vos Timóteo, para que me traga notícias vossas e eu sinta-me reconfortado. Pois não há ninguém como ele, tão unido em sentimento comigo, que com tão sincera afeição se interesse por vós." Fl 2,19-20
    Atesta o imprescindível feito do Pentecostes para a Salvação: "Porque os verdadeiros circuncisos somos nós, que prestamos culto a Deus pelo Espírito de Deus, pomos nossa Glória em Jesus Cristo, e não confiamos na carne." Fl 3,3
    De expressiva maturidade, era um Paulo que de nada se orgulhava, mas com grande amor guardava o maior tesouro que Deus já concedeu a humanidade: a Revelação do Mistério de Cristo: "Na verdade, julgo como perda todas as coisas em comparação com esse supremo bem: o conhecimento de Jesus Cristo, Meu Senhor." Fl 3,8
    E apenas nesse sentido perseverava: "Anseio pelo conhecimento de Cristo e pelo poder de Sua Ressurreição através da participação em Seus sofrimentos, tornando-me semelhante a Ele na morte, com a esperança de conseguir a Ressurreição dentre os mortos." Fl 3,10-11
    Pois apesar de todas Graças que alcançou, e não foram poucas, ele ainda não se considerava digno da Vida Eterna: "Não pretendo dizer que já alcancei a Ressurreição, ou que cheguei à perfeição. Não. Mas empenho-me em conquistá-la..." Fl 3,12
    Voltou a falar do corpo incorruptível, quando menciona a verdadeira família que se forma em torno do Pai, em oposição aos inimigos da Cruz: "Nós, porém, somos cidadãos dos Céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante a Seu corpo glorioso..." Fl 3,20-21
    Tinha plena certeza dos auxílios de Deus: "Não vos inquieteis com nada! Em todas circunstâncias apresentai a Deus vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a ação de graças." Fl 4,6
    Demonstra conhecer plenamente a Paz que Jesus nos deixou: "E a Paz de Deus, que excede toda inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos em Cristo Jesus." Fl 4,7
    E docemente sustenta o desapego material e a resignação: "Sei viver na penúria, e também sei viver na abundância. Estou acostumado a todas vicissitudes: a ter fartura e a passar fome, a ter abundância e a padecer necessidade." Fl 4,12


    Realmente tinha grande afeição para com os filipenses: "Portanto, meus muito amados e saudosos irmãos, alegria e coroa minha, assim continuai firmes no Senhor, caríssimos." Fl 4,1
    Deixou uma frase que, como afirmação da fé, é repetida em todo mundo: "Tudo posso n'Aquele que me fortalece." Fl 4,13
    E se eles seriam um povo especial para São Paulo, o Apóstolo dos não judeus, é bom lembrar que ele não foi a essa cidade por acaso, mas chamado por Deus, numa visão que teve do príncipe daquele nação como narrou São Lucas, que nessa ocasião foi seu companheiro e colaborador: "De noite, Paulo teve uma visão: um macedônio, em pé, diante dele, rogava-lhe: 'Passa à Macedônia, e vem em nosso auxílio!' Assim que teve essa visão, procuramos partir para a Macedônia, certos de que Deus nos chamava a pregar-lhes o Evangelho. Embarcados em Trôade, fomos diretamente à Samotrácia e no outro dia a Neápolis. E dali a Filipos, que é a principal cidade daquele distrito da Macedônia, uma colônia romana." At 16,9-12a
    À sua chegada, aí sequer havia uma sinagoga: "No sábado, saímos fora da porta para junto do rio, onde pensávamos haver lugar de oração. Aí nos assentamos e falávamos às mulheres que se haviam reunido." Ap 16,13
    E já aí a tocante caridade dos filipenses vai contrariar os procedimentos de São Paulo, que preferia pagar seus custos com o próprio trabalho: "Uma mulher, chamada Lídia, da cidade dos tiatirenos, vendedora de púrpura, temente a Deus, escutava-nos. O Senhor abriu-lhe o coração, para atender às coisas que Paulo dizia. Foi batizada junto à sua família, e fez-nos este pedido: 'Se julgais que tenho fé no Senhor, entrai em minha casa e ficai comigo.' E obrigou-nos a isso." At 16,14-15
    Isso se deu pouco depois do Concílio de Jerusalém, quando ele já se fazia acompanhar de outro ilustre cristão: São Timóteo: "Chegou a Derbe e depois a Listra. Ali havia um discípulo, chamado Timóteo, filho de uma judia cristã, mas de pai grego, que gozava de ótima reputação junto aos irmãos de Listra e de Icônio. Paulo quis que ele fosse em sua companhia." At 16,1-3
    E ao lado de São Silvano exorcizou uma vidente local, quando acabaram acoitados e presos: "Certo dia, quando íamos à oração, eis que nos veio ao encontro uma moça escrava que tinha o espírito de Pitão, a qual com suas adivinhações dava muito lucro a seus senhores. Pondo-se a seguir a Paulo e a nós, gritava: 'Estes homens são servos do Deus Altíssimo, que vos anunciam o Caminho da Salvação.' Repetiu isto por muitos dias. Por fim, Paulo enfadou-se. Voltou-se para ela e disse ao espírito: 'Ordeno-te em Nome de Jesus Cristo que saias dela.' E na mesma hora ele saiu. Vendo seus amos que se lhes esvaecera a esperança do lucro, pegaram Paulo e Silas e levaram-nos ao foro, à presença das autoridades. Em seguida, apresentaram-nos aos magistrados, acusando: 'Estes homens são judeus, amotinam nossa cidade. E pregam um modo de vida que nós, romanos, não podemos admitir nem seguir.' O povo insurgiu-se contra eles. Os magistrados mandaram arrancar-lhes as vestes para açoitá-los com varas. Depois de terem-lhes feito muitas chagas, meteram-nos na prisão, mandando ao carcereiro que os guardasse com segurança." Ap 16,16-23
    Ele vai dizer destas punições aos cristãos da cidade de Tessalônica, para onde partiu em seguida: "Apesar de maltratados e ultrajados em Filipos, como sabeis, ousamos, confiados em nosso Deus, pregar-vos o Evangelho de Deus em meio de muitas lutas." 1 Ts 2,2
    E para explicá-las, fez esta defesa da Verdade que anunciava: "Nossa pregação não provém de erro, nem de fraudulentas intenções, nem de engano. Mas como Deus nos julgou dignos de confiar-nos o Evangelho, falamos não para agradar aos homens, e sim a Deus, que sonda nossos corações. Com efeito, nunca usamos de adulação, como sabeis, nem fomos levados por interesseiros fins. Deus é testemunha. Não buscamos glórias humanas, nem de vós nem de outros." 1 Ts 2,3-6
    São Lucas, porém, tratou de dar detalhes dos fatos sobrenaturais que aconteceram enquanto eles estavam presos em Filipos: "Pela meia-noite, Paulo e Silas rezavam e cantavam um hino a Deus, e os prisioneiros escutavam-nos. Subitamente, sentiu-se tão grande terremoto que se abalaram até os fundamentos do cárcere. Logo se abriram todas portas e soltaram-se as algemas de todos. O carcereiro acordou e, vendo abertas as portas do cárcere, supôs que os presos haviam fugido. Tirou da espada e queria matar-se, mas Paulo bradou em alta voz: 'Não te faças nenhum mal, pois estamos todos aqui.' Então o carcereiro pediu luz, entrou e lançou-se trêmulo aos pés de Paulo e Silas. Depois os conduziu para fora e perguntou-lhes: 'Senhores, que devo fazer para salvar-me?' Disseram-lhe: 'Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua família.' Anunciaram-lhe a Palavra de Deus, a ele e a todos que estavam em sua casa. Então, naquela mesma hora da noite, ele cuidou deles e lavou-lhes as chagas. Imediatamente foi batizado, ele e toda sua família. Em seguida, ele fê-los subir para sua casa, pôs-lhes a mesa e alegrou-se com toda sua casa por haver crido em Deus." At 16,15-34
    E ao final, na Carta aos Filipenses, São Paulo registra a diferenciada acolhida que teve pelos fiéis, agradecendo pelas ofertas feitas em nome de sua missão: "Vós que sois de Filipos, bem sabeis como, no início de meu ministério evangélico, quando parti da Macedônia, nenhuma comunidade abriu comigo contas de dar e receber, senão vós somente. Já em Tessalônica, por duas vezes mandastes o que me era necessário. Tudo recebi, e em abundância. Estou bem provido depois que recebi de Epafrodito vossa oferta: foi um suave perfume, um sacrifício que Deus aceita com agrado." Fl 4,15-16.18

    São Paulo, rogai por nós!

terça-feira, 27 de novembro de 2018

A Aparição de Paris


    Em Paris, uma noviça da Companhia Filhas da Caridade, fundada por São Vicente de Paulo, foi despertada na noite da festa deste Santo, em 19 de Julho de 1830, por uma voz infantil que lhe chamava à capela do convento, pois lá Nossa Senhora estava à sua espera. A princípio, ela teve medo de desobedecer as regras de sua congregação, mas a voz garantiu-lhe que todas freiras estavam dormindo.
    Ela acreditou porque, enquanto comemoravam o dia de São Vicente, havia poucas horas, a Madre Superiora pregou sobre sua vida e a cada uma delas distribuiu um pequeno pedaço do sobrepeliz que ele usava. Santa Catarina Labouré recebeu seu fragmento com muita devoção e logo pediu a intercessão deste Santo para que pudesse ver Nossa Senhora, pois este sempre foi seu maior sonho. E ao fazer essa oração, teve a nítida sensação de que seu desejo se realizaria naquela noite.
    Embalada por essa mesma sensação, ela foi à capela, que inexplicavelmente encontrou aberta e iluminada. Ao ajoelhar-se junto ao Altar, viu a Imaculada Virgem envolta em Luz, sentada na cadeira da Madre Superiora. A voz disse-lhe: "A Santíssima Maria deseja falar-te." Ela aproximou-se, ajoelhou-se aos seus pés e colocou as mãos em seu colo. Disse-lhe então a Mãe do Céu: "Deus deseja encarregar-te de uma missão. Tu encontrarás oposição, mas não temas: terás a Graça de poder fazer todo necessário. Conta tudo a teu confessor. Os tempos estão difíceis para a França e para o mundo. Vai ao pé do Altar. Graças serão derramadas sobre todos, grandes e pequenos, e especialmente sobre os que as buscarem. Terás a proteção de Deus e de São Vicente, e meus olhos sempre estarão sobre ti. Haverá muitas perseguições, a Cruz será tratada com desprezo, será derrubada e o sangue correrá."
    Santa Catarina não comentou com ninguém sobre essa aparição até o dia 27 de novembro do mesmo ano, quando foi à capela para as orações de vésperas e mais uma vez viu a Santíssima Virgem sobre o Altar, tal qual a imagem acima, tendo num arco sobre si a luminosa frase: "Oh Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós." Então ela lhe deu essas instruções: "Faz cunhar uma medalha onde apareça minha imagem como agora a vês. Todos que a usarem receberão grandes Graças." Depois, voltando-lhe as costas, fez com que ela visse como seria o desenho no verso da medalha, hoje mundialmente conhecida.


    Era o M de Maria, a Cruz sobre o Monte Calvário, 12 estrelas que simbolizam as tribos de Israel e os Apóstolos, o Sagrado Coração de Jesus cercado de espinhos, por cuja devoção o Senhor prometeu a Graça da Vida Eterna a Santa Margarida Maria Alacoque em 1675, e, ao lado, o Imaculado Coração de Maria traspassado pela espada como havia previsto o profeta Simeão no Templo de Jerusalém, quando da Apresentação do Menino Jesus.
    Sem saber como poderia realizar tal tarefa, Santa Catarina questionou Nossa Senhora, que simplesmente mandou procurar seu confessor, o padre Jean Marie Aladel. De fato, com carinho ele escutou todos esses relatos, mas pediu que Santa Catarina guardasse tudo em silêncio.
    Só dois anos depois, após com cuidado examinar o comportamento daquela humilde freira, ele foi ao Arcebispo de Paris, Dom Quelen, que autorizou a cunhagem inicial de 2 mil medalhas, realizada em 20 de junho de 1832. Em paralelo, este bispo instaurou um inquérito para acompanhar os resultados obtidos pelos fiéis que a usavam, e sua conclusão foi essa: "A rápida propagação, o grande número de medalhas cunhadas e distribuídas, os admiráveis benefícios e singulares Graças obtidos parecem sinais do Céu, que confirmam a realidade das aparições, a verdade das narrativas da vidente e a difusão da Medalha."
    Os dizeres na medalha, '... concebida sem pecado...', confirmavam uma devoção que havia muito tempo já existia. Com efeito, desde 1476, o Papa Sisto IV tinha declarado o dia 8 de dezembro como festa universal da Imaculada Conceição. Entretanto, só na mesma data no ano de 1854, ou seja, mais de 20 anos depois da aparição a Santa Catarina, o Papa Pio IX solenemente declarou esse Dogma de , em sua bula 'Ineffabilis Deus'.
    A origem dessa fé, no entanto, remonta os tempos da tradição registrada no Evangelho de São Lucas, que atesta a saudação do Arcanjo São Gabriel à Nossa Senhora: "Ave, agraciada..." Lc 1,28
    O livro de Jó, meditando sobre a concepção do ser humano, deu-nos uma pista sobre a gestação de Jesus, que não poderia nascer de uma impura mulher: "O homem nascido da mulher vive pouco tempo e é cheio de muitas misérias. É como uma flor que germina e logo fenece, uma sombra que foge sem parar. E é sobre ele que abres os olhos, e Contigo chama-o a Juízo. Quem fará sair o puro do impuro?" Jó 14,1-4
    Isso apenas corrobora o valor que Deus dá à castidade, da qual nasceu Seu Filho segundo uma profecia: "Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um Filho, e chamá-Lo-á Deus Conosco." Is 7,14
    Também diz respeito à Palavra de Deus, no Antigo Testamento, quando Ele disse à Serpente: "Entre ti e a mulher porei ódio, entre tua descendência e a dela." Gn 3,15
    Realmente, o inimigo vai perseguir Nossa Senhora. Mas tal qual um anjo, que como disse Jesus "não se casarão nem se darão em casamento" (cf. Mc 12,25), ela voou para seu retiro em Éfeso. É quando o maligno passa a perseguir seus filhos, 'sua descendência', vale dizer, a Igreja: "O Dragão, vendo que fora precipitado na terra, perseguiu a Mulher que dera à luz o Menino. Mas à Mulher foram dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto, para o lugar de seu retiro, onde é alimentada por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente. Este, então, irritou-se contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência, aos que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus." Ap 12,13-14.17
    A Sagrada Devoção ao Imaculado Coração de Maria foi confirmada pela própria Santíssima Virgem, na Aparição de Lourdes, em 1858, quando ela se apresentou como a 'Imaculada Conceição' a uma jovem e humilde camponesa, Santa Bernadete de Lourdes, que sequer conhecia esse Dogma. Também na Aparição de Fátima, em 1917, aliás, em conformidade com a Aparição de Quito no remoto ano de 1594, ela prometeu que, após grandes heresias e tribulações, seu Imaculado Coração triunfaria. Por fim, na Aparição de Cimbres ela apresentou-se com o singelo nome de 'a Graça', inequívoca referência ao título de Nossa Senhora da Graça, no singular, como é chamada em Portugal.
    Santa Catarina Labouré faleceu em 1876, aos 70 anos. Em 1933, ao ser exumado, seu corpo estava intacto como até hoje se vê. Como as relíquias de Santa Luísa de Marilac, que está ao lado esquerdo, ele está exposto ao lado direito do Altar da capela do convento onde se deu a aparição da Santíssima Virgem, que passou a chamar-se Capela de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa.


    Nossa Senhora das Graças, rogai por nós!