sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Santo André Apóstolo


    O irmão de São Pedro é considerado o 'protocletos', que em grego significa 'primeiro convocado'. Religioso e sensível, já era discípulo de São João Batista quando Jesus Se apresentou para ser batizado.
    Entre os Apóstolos, também é o primeiro a afirmar e a anunciar Jesus como o Messias, além de convocar um novo discípulo, o próprio São Pedro. São João Evangelista narrou esse episódio: "No dia seguinte, estava lá João outra vez com dois de seus discípulos. E ao avistar Jesus, que ia passando, disse: 'Eis o Cordeiro de Deus.' Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus. Voltando-Se Jesus, e vendo que O seguiam, perguntou-lhes: 'Que procurais?' Disseram-Lhe: 'Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?' 'Vinde e vede', respondeu-lhes Ele. Foram aonde Ele morava e com Ele ficaram aquele dia. Era cerca da hora décima. André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido João e que O tinham seguido. Logo foi ele, então, à procura de seu irmão e disse-lhe: 'Achamos o Messias (que quer dizer o Cristo).' Levou-o a Jesus, e Jesus, fixando nele o olhar, disse: 'Tu és Simão, filho de João. Serás chamado Cefas (que quer dizer pedra)!'" Jo 1,35-42
    Por essa frase, vemos que Jesus demonstra conhecer São Pedro e também seu pai, portanto, pai também de Santo André. Sinal de Sua clarevidência? Ele vai dar idêntica mostra ao encontrar São Bartolomeu: "Jesus vê Natanael, que Lhe vem ao encontro, e diz: 'Eis um verdadeiro israelita, no qual não há falsidade.' Natanael pergunta-Lhe: 'Donde me conheces?' Respondeu Jesus: 'Antes que Filipe te chamasse, Eu vi-te quando estavas debaixo da figueira.' Falou-Lhe Natanael: 'Mestre, Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel.'" Jo 1,47,49
    Como São Filipe, Santo André e São Pedro eram de Betsaida, nome que significa 'casa da pesca', lugar próximo a Cafarnaum e ao Mar da Galileia: "Filipe era natural de Betsaida, cidade de André e Pedro." Jo 1,44
    Sabemos que, junto ao irmão, Santo André fazia parte de uma colônia de pescadores, mas, após Se retirar para o deserto por 40 dias, Jesus retornou e convidou-os para que pescassem almas: "Desde então, Jesus começou a pregar: 'Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo!' Caminhando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão (chamado Pedro) e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores. E disse-lhes: 'Vinde após Mim, e far-vos-ei pescadores de homens.' Na mesma hora, abandonaram suas redes e seguiram-nO." Mt 4,17-20
    Santo André era solteiro e morava com São Pedro, cuja foi dote de casamento, pois morava com a sogra: "Dirigiram-se para Cafarnaum. E já no dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e pôs-Se a ensinar. Assim que saíram da sinagoga, dirigiram-se com Tiago e João à casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama, com febre, e sem tardar Lhe falaram a respeito dela. Aproximando-Se Ele, tomou-a pela mão e levantou-a. Imediatamente a febre a deixou e ela pôs-se a servi-los." Mc 1,21.29-31
    Mas São Lucas, que era médico, deu outro 'diagnóstico' para esta febre: "Saindo Jesus da sinagoga, entrou na casa de Simão. A sogra de Simão estava com febre alta, e pediram-lhe por ela. Inclinando-Se sobre ela, ordenou Ele à febre, e a febre deixou-a. Ela imediatamente levantou-se e pôs-se a servi-Los." Lc 4,38-39
    Na lista dos Apóstolos, Santo André aparece em segundo lugar nos Evangelhos de São Mateus e São Lucas, atrás apenas do irmão, o Príncipe dos Apóstolos: "Naqueles dias, Jesus retirou-Se a uma montanha para rezar, e aí passou toda a noite orando a Deus. Ao amanhecer, chamou Seus discípulos e escolheu Doze dentre eles, que chamou de Apóstolos: Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro; André, seu irmão; Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Simão, chamado Zelota; Judas, irmão de Tiago; e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor." Lc 6,12-16
    Ou na quarta posição em São Marcos e nos Atos dos Apóstolos, dando lugar a São Tiago Maior e São João, dos três mais íntimos de Jesus. Ou seja, sempre estava entre os quatro, do primeiro dos três grupos de quatro: "Designou Doze, dentre eles, para ficar em Sua companhia. Ele enviar-los-ia a pregar, com o poder de expulsar os demônios. Escolheu estes Doze: Simão, a quem pôs o nome de Pedro; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer Filhos do Trovão. Ele também escolheu André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Tadeu, Simão, o Zelador; e Judas Iscariotes, que O entregou." Mc 2,14-19
    No dia em que multiplicou pães e peixes, Jesus provocou São Filipe, mas foi Santo André quem dispôs do que os Apóstolos tinham para que o milagre da 'partilha' acontecesse: "Jesus subiu a um monte e ali Se sentou com Seus discípulos. Aproximava-se a Páscoa, festa dos judeus. Jesus levantou os olhos sobre aquela grande multidão, que vinha ter com Ele, e disse a Filipe: 'Onde compraremos pão para que todos estes tenham o que comer?' Um de Seus discípulos, chamado André, irmão de Simão Pedro, disse-Lhe: 'Está aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes... mas o que é isto para tanta gente?'" Jo 6,3-9
    E é através de Santo André que São Filipe dá um importantíssimo recado a Jesus, quando Nosso Salvador percebe que Seu Nome já havia chegado a países vizinhos, e por isso anuncia a chegada de Sua hora: "Havia alguns gregos entre os que subiram para adorar durante a festa. Estes aproximaram-se de Filipe (aquele de Betsaida da Galileia) e rogaram-lhe: 'Senhor, quiséramos ver Jesus.' Filipe foi e falou com André. Então André e Filipe o disseram ao Senhor. Respondeu-lhes Jesus: 'É chegada a hora para o Filho do Homem ser glorificado. Em verdade, em verdade, digo-vos: se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só. Se morrer, produz muito fruto.'" Jo 12,20-24
    Por essas passagens e pela seguinte, notamos que Santo André fazia parte de um grupo mais íntimo de Cristo, ainda que não tão íntimo como eram São Pedro, São Tiago Maior e São João: "Saindo Jesus do Templo, disse-Lhe um de Seus discípulos: 'Mestre, olha que pedras e que construções!' Jesus replicou-lhe: 'Vês este grande edifício? Não se deixará pedra sobre pedra que não seja demolida.' E estando sentado no monte das Oliveiras, defronte ao Templo, perguntaram-Lhe à parte Pedro, Tiago, João e André: 'Dize-nos, quando hão de suceder essas coisas? E por qual sinal se saberá que tudo isso vai realizar-se?' Jesus pôs-Se, então, a dizer-lhes: 'Cuidai que ninguém vos engane. A respeito, porém, daquele dia ou daquela hora, ninguém o sabe, nem os anjos do Céu nem mesmo o Filho, mas somente o Pai.'" Mc 13,1-7.32
    No livro dos Atos dos Apóstolos, Santo André só é mencionado na lista dos Onze e nos dias que antecede ao Pentecostes, o que indica sua intensa atividade fora de Jerusalém desde os primeiros anos da Igreja, como sustenta a Sagrada Tradição: "Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelota, e Judas, irmão de Tiago. Todos eles unanimemente perseveravam na oração, e com eles as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos d'Ele. Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar." Ap 1,13-14;2,1
    Segundo Santo Hipólito, após a Ascensão de Jesus, Santo André pregou na Trácia, hoje região da Bulgária. O livro apócrifo 'Atos de André' aponta-o como o fundador da igreja da importantíssima Bizâncio, que no século IV iria ser chamada de Constantinopla. Este fato teria acontecido no remoto ano de 38, pouquíssimo tempo, portanto, após a Paixão do Senhor. Estácio teria sido ordenado bispo por ele, e substituiu-o após nova partida sua em peregrinação. Ainda hoje ele é reconhecido como o Padroeiro de Istambul, atual nome da cidade, a mais importante da Turquia e ponto de conexão da Ásia com a Europa.
    Baseando-se em Orígenes, Eusébio de Cesareia diz que Santo André teria pregado na Ásia Menor, atual Turquia, especificamente na região da Cítia, que fica na costa do Mar Negro, peregrinado por algumas cidades ao longo do Rio Volga, e por isso é também o Padroeiro da Rússia, além de ter evangelizado Kiev, capital da atual Ucrânia. É igualmente Padroeiro da Romênia, onde também exerceu seu apostolado. Parece mesmo ter tomado todo entorno do Mar Negro como área de atuação.
    De volta a Grécia, radicou-se em Patras, na região da Acaia, terras do sudeste, onde fundou a igreja local, que viria a ser modelo para todas demais. Por sua incendiária fama, pois realizava milagres e convertia a muitos, o governador e juiz romano Egeas quis impor-lhe sua autoridade, mas nosso Apóstolo recusou-a e recomendou-lhe que ele é deveria submeter-se à autoridade de Cristo. E como mensageiro da Verdade, ainda lhe revelou que, pela patente impostura de muitos sacerdotes e pelos maus costumes do povo, os deuses pagãos haviam-se tornado anteparos de demônios, que a todos seduziam, enganavam e molestavam.
    Informados desta denúncia, e enfurecidos, os principais sacerdotes pagãos passaram a assediar Egeas, e por ilações conseguiram que ele ordenasse a crucificação de Santo André. Todos ficaram espantados, porém, quando ele, com insuspeita alegria, recebeu sua condenação. Numa atitude que vai lembrar a do próprio São Pedro, pois foi executado antes dele, Santo André apenas lhe pediu que fosse crucificado numa cruz diferente da de Jesus, porque não era digno de morrer como Seu Mestre.


    Por dois dias ficou dependurado numa cruz em forma de X, e por não ser assistidos por nenhum cristão, porque todos foram ameaçados de morte, indicou onde estavam e doou seus pertences aos carrascos, que estavam visivelmente constrangidos em cumprir aquela ordem. Agia sob inspiração, pois eles viriam a converter-se e seus parcos bens, a maior parte deles sagrados, usados para celebrar a Eucaristia, seriam devolvidos à igreja local, que sobreviveria na clandestinidade.
    Assim sua santidade, como seu especial carisma, de expressiva amabilidade, foram amplamente reconhecidos. Seu testemunho pelo sacrifício, de fato, foi marcante: não demonstrou vacilação alguma quanto à Divina Providência ou à Vida Eterna.
    Seus restos mortais ficaram em Patras até 357, quando Constantino os levou a Constantinopla. Na Quarta Cruzada, no início do século XII, os cruzados levaram-nos a Roma, por temerem as recorrentes profanações dos invasores turcos, seguidores do islamismo.
    Conforme a Tradição, ao serem levadas a Europa por cruzados, suas relíquias primeiro estiveram na Escócia, onde ficou por bom tempo numa cidade que passou a levar seu nome, Saint Andrews, e por isso a bandeira deste país traz sua cruz.


    Após a união entre a Escócia e a Inglaterra, cuja bandeira já ostentava a Cruz de Cristo, a do Reino Unido incorporou a cruz de Santo André.


    Em 1964, o Papa São Paulo VI devolveu suas relíquias a Patras, quando já eram apenas os ossos de um dedo, parte do crânio e pedaços de sua cruz.


    Santo André, rogai por nós!

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Entre o Céu e a Terra


    Por causa do pecado, vacilar na é característico da natureza humana, mas é igualmente característico que ao longo da vida cresçamos em maturidade espiritual e fidelidade a Deus.
    Seguidores muito próximos de Jesus, mesmo vendo Seus milagres e presenciando o cumprimento das profecias, também vacilaram. O maior flagrante deu-se quando Ele anunciou que Seu Sangue e Sua Carne são o alimento da Vida Eterna: "Desde então, muitos de Seus discípulos retiraram-se e já não andavam com Ele. Então Jesus perguntou aos Doze: 'Quereis vós também retirar-vos?' Respondeu-Lhe Simão Pedro: 'Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da Vida Eterna. E nós cremos e sabemos que Tu és o Santo de Deus!'" Jo 6,66-69
    Outra constatação deste fato está no episódio dos discípulos que abandonaram os Apóstolos e partiram para Emaús, no Domingo da Ressurreição, mesmo após três anos e meio de convivência com Nosso Salvador: "Nesse mesmo dia, dois discípulos caminhavam para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. Iam falando um com o outro de tudo que se tinha passado. Enquanto conversavam e discorriam entre si, o próprio Jesus aproximou-Se e caminhava com eles. Mas os olhos estavam-lhes como que vendados e não O reconheceram. Perguntou-lhes, então: 'De que estais falando pelo caminho, e por que estais tristes?' Um deles, chamado Cléofas, respondeu-Lhe: 'És Tu acaso o único forasteiro em Jerusalém que não sabe o que nela aconteceu estes dias?' Perguntou-lhes Ele: 'Que foi?' Disseram: 'A respeito de Jesus de Nazaré... Era um poderoso Profeta em obras e palavras, diante de Deus e de todo povo. Nossos sumos sacerdotes e nossos magistrados entregaram-nO para ser condenado à morte e crucificaram-nO. Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de restaurar Israel e agora, além de tudo isto, é hoje o terceiro dia que essas coisas sucederam. É verdade que algumas mulheres dentre nós nos surpreenderam. Elas foram ao Sepulcro, antes do nascer do sol, e não tendo achado Seu Corpo, voltaram, dizendo que tiveram uma visão de anjos, os quais asseguravam que Ele está vivo. Alguns dos nossos foram ao Sepulcro e acharam assim como as mulheres tinham dito, mas a Ele mesmo não viram.' Disse-lhes Jesus: 'Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo que anunciaram os Profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse em Sua Glória?' E começando por Moisés, percorrendo todos Profetas, explicava-lhes o que d'Ele se achava dito em todas Escrituras." Lc 24,13-27
    Por hesitação Jesus também repreendeu a São Pedro, justamente a quem iria prometer a chave do Reino dos Céus. Foi quando o pescador pediu para andar com o Senhor sobre as águas: "Pela quarta vigília da noite, Jesus veio a eles caminhando sobre o mar. Quando os discípulos O perceberam caminhando sobre as águas, ficaram com medo: 'É um fantasma!' disseram eles, soltando gritos de terror. Mas Jesus logo lhes disse: 'Tranquilizai-vos, sou Eu. Não tenhais medo!' Pedro tomou a palavra e falou: 'Senhor, se és Tu, manda-me ir sobre as águas até junto a Ti!' Ele disse-lhe: 'Vem!' Pedro saiu da barca e caminhava sobre as águas ao encontro de Jesus. Mas, redobrando a violência do vento, teve medo e, começando a afundar, gritou: 'Senhor, salva-me!' No mesmo instante, Jesus estendeu-lhe a mão, segurou-o e disse-lhe: 'Homem de pouca fé, por que duvidaste?'" Mt 14,25-31
    A verdade é que o materialismo e racionalismo, nos quais a vida moderna facilmente nos enreda, são uma grande fábrica de céticos aos sinais de Deus. Mas esses deslises da percepção não são nada recentes: assim como os discípulos de Emaús, os demais Apóstolos, à exceção de São Pedro que já O havia visto, também duvidaram. E isso aconteceu mesmo tendo diante de si o Cristo ressuscitado, igualmente no Domingo da Ressurreição: "Enquanto ainda falavam dessas coisas, Jesus apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: 'A Paz esteja convosco!' Perturbados e espantados, pensaram estar vendo um espírito. Mas Ele disse-lhes: 'Por que estais perturbados, e por que essas dúvidas em vossos corações? Vede Minhas mãos e Meus pés, sou Eu mesmo! Apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho!' E dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e os pés. Mas ainda vacilando eles, e estando transportados de alegria, perguntou: 'Tendes aqui alguma coisa para comer?' Então Lhe ofereceram um pedaço de peixe assado. Ele tomou e comeu à vista deles." Lc 24,36-43
    São Marcos relata a mesma cena da primeira aparição conjunta aos Apóstolos, ressaltando a repreensão que Ele lhes faz por não terem acreditado em Santa Maria Madalena, em São Pedro e nos discípulos que estavam a caminho de Emaús: "Por fim, apareceu aos Onze, quando estavam sentados à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e dureza de coração, por não acreditarem naqueles que O tinham visto ressuscitado." Mc 16,14
    São Mateus descreve idêntica hesitação entre alguns dos demais seguidores, mais de 500 segundo São Paulo (cf. 1 Cor 15,6), quando, guiados pelos Apóstolos, viram a aparição numa montanha da Galileia. Aí Jesus desfez-lhes as dúvidas proclamando Seu absoluto poder: "Os Onze discípulos foram para a Galileia, para a montanha que Jesus lhes tinha designado. Quando O viram, adoraram-nO. Entretanto, alguns ainda hesitavam, mas Jesus, aproximando-Se, disse-lhes: 'Toda autoridade foi-Me dada no Céu e na terra.'" Mt 28,16-18
    Também São Tomé, que não estava presente na primeira aparição aos 10 Apóstolos, quando ainda estavam em Jerusalém, recebeu a devida correção por sua impertinente teimosia: "Oito dias depois, estavam Seus discípulos outra vez no mesmo lugar, e Tomé com eles. Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-Se no meio deles e disse: 'A Paz esteja convosco!' Depois disse a Tomé: 'Introduz aqui teu dedo, e vê Minhas mãos. Põe tua mão em Meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé.' Respondeu-Lhe Tomé: 'Meu Senhor e Meu Deus!' Disse-lhe Jesus: 'Creste, porque Me viste. Felizes aqueles que creem sem ter visto!'" Jo 20,26-27
    Todas essas situações, exceto a de São Pedro, longe de apenas demonstrar as incertezas dos Apóstolos, discípulos e seguidores, revelam quão verdadeiros foram os fatos acerca da Ressurreição. Eles vivenciaram, sem dúvida, uma realidade absolutamente desconcertante, a qual reagiram de ordinário modo, porém espontâneo. Não fosse a mais pura Verdade, eles não a relatariam, pois em essência denuncia suas fraquezas, atesta contra suas condutas de fiéis seguidores. Ou seja, a incredulidade, que não tiveram vergonha de registrar, é um forte testemunho a favor da veracidade da Ressurreição de Cristo. É isso que São João Evangelista tenta comunicar, usando palavras que ele bem sabe que não comportam o que quer expressar: "O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com nossos olhos, o que temos contemplado e nossas mãos têm apalpado no tocante ao Verbo da Vida, porque a Vida se manifestou, e nós a temos visto, damos testemunho e anunciamo-vos a Vida Eterna, que estava no Pai e que se nos manifestou. O que vimos e ouvimos nós anunciamo-vos, para que também vós tenhais Comunhão conosco." 1 Jo 1,1-3
    Como grande mestre, São Paulo, que inicialmente também não acreditou no Cristo e até combateu a Igreja, reconhece nossas inconstâncias na Caminhada até Deus. Ele escreveu ao romanos: "Eu sei que em mim, isto é, em minha carne, não habita o bem, porque o querer o bem está em mim, mas não sou capaz de efetuá-lo. Não faço o bem que queria, mas faço o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que faço, mas sim o pecado que em mim habita. Encontro, pois, em mim esta lei: quando quero fazer o bem, o que se me depara é o mal. Deleito-me na Lei de Deus, no íntimo de meu ser. Sinto, porém, em meus membros outra lei, que luta contra a Lei de meu espírito e prende-me à lei do pecado, que está em meus membros. Infeliz homem que sou! Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte?..." Rm 7,18-24
    Mas também lembra que nossos esforços contam com os prestimosos auxílios do Espírito de Deus: "Nós que esperamos o que não vemos, é em paciência que o aguardamos. Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza. Porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com inefáveis gemidos." Rm 8,25-26
    Por isso, ao invés de alardear virtudes, ele preferia confessar suas faltas, pois já sabia que na verdadeira humildade é que encontramos fortaleza: "Ademais, para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para esbofetear-me e livrar-me do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim, mas Ele disse-me: 'Basta-te Minha Graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente Minha força.' Portanto, prefiro gloriar-me de minhas fraquezas para que em mim habite a força de Cristo. Eis porque sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo. Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte." 2 Cor 12,7-10
    E assim entre ele e Deus se interpunha outro dilema, polarizado por ele e a comunidade que servia: "Meu ardente desejo e minha esperança são que em nada serei confundido, mas que, hoje como sempre, Cristo será glorificado em meu corpo (tenho toda certeza disto), quer por minha vida quer por minha morte. Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro. Mas se o viver no corpo é útil para meu trabalho, não sei então o que devo preferir. Sinto-me pressionado dos dois lados: por uma parte, desejaria desprender-me para estar com Cristo, o que seria imensamente melhor. Porém, de outra parte, continuar a viver é mais necessário, por causa de vós..." Fl 1,20-24


CRESCER NO CONHECIMENTO DE DEUS

    Por sua vez, o Príncipe dos Apóstolos, que arrebatadamente amadureceu para a santidade, é bem específico ao dizer como recebemos as divinas unções: "... Graça e Paz sejam-vos dadas em abundância por um profundo conhecimento de Deus e de Jesus, Nosso Senhor!" 2 Pd 1,2
    Fidelíssimo pastor, ele não deixa de advertir a respeito dos deturpadores das Escrituras, que acintosamente pervertem a Sã Doutrina, pois seu desejo é que também cheguemos ao verdadeiro conhecimento de Cristo: "Reconhecei que a longa paciência de Nosso Senhor vos é salutar, como também vosso caríssimo irmão Paulo vos escreveu, segundo o dom de Sabedoria que lhe foi dado. É o que ele faz em todas suas cartas, nas quais fala nestes assuntos. Nelas há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os ignorantes ou pouco fortalecidos espíritos deturpam para sua própria ruína, como o fazem também com as demais Escrituras. Vós, pois, caríssimos, advertidos de antemão, tomai cuidado para que não caiais de vossa firmeza, levados pelo erro destes ímpios homens. Mas crescei na Graça e no conhecimento de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A Ele a Glória, agora e eternamente." 2 Pd 3,17-18
    São Tiago Menor acrescenta que a vitória frente às tentações se dá pela paciência embasada na Sabedoria, mas desde que tenazmente nos proponhamos a resistir ao Mal: "Considerai que é suma alegria, meus irmãos, quando passais por diversas provações, sabendo que a prova de vossa fé produz a paciência. Mas é preciso que a paciência efetue sua obra, a fim de serdes perfeitos e íntegros, sem fraqueza alguma. Se alguém de vós necessita de Sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, com simplicidade e sem recriminação, e ser-lhe-á dada. Mas peça-a com fé, sem nenhuma vacilação, porque o homem que vacila se assemelha à onda do mar, levantada pelo vento e agitada de um lado para o outro. Não pense tal homem, portanto, que alcançará alguma coisa do Senhor, pois é um irresoluto, inconstante em todo seu proceder." Tg 1,2-8
    Assim, diante da Revelação de Deus, o sensato ser humano só pode reagir buscando conhecê-la. Eis que São Paulo enfrentava qualquer dificuldade pensando na promoção do crescimento espiritual do fiéis, que devem ter o Cristo como modelo. Ele escreveu aos efésios: "Por isso, rogo-vos que não desfaleçais por minhas tribulações que por vós sofro: elas são vossa Glória! Por esta causa, dobro os joelhos em presença do Pai, ao Qual deve sua existência toda família no Céu e na terra, para que vos conceda, segundo Seu glorioso tesouro, que por Seu Espírito sejais poderosamente robustecidos em vista do crescimento do vosso homem interior. Que pela fé habite Cristo em vossos corações, arraigados e consolidados na caridade, a fim de que possais, com todos cristãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, isto é, conhecer a caridade de Cristo, que desafia todo conhecimento, e sejais cheios de toda plenitude de Deus." Ef 3,13-19
    Pedia empenho aos romanos, e compreensão para com os mais fracos na fé: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação de vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada e o que é perfeito. Em virtude da Graça que me foi dada, recomendo a todos e a cada um: não façam de si próprios uma opinião maior que convém, mas um razoavelmente modesto conceito, de acordo com o grau de fé que Deus lhes distribuiu." Rm 12,2-3
    Cabe a nós, então, demonstrando verdadeiro amor a Deus, vencer a incredulidade adquirindo maior conhecimento de Cristo. Ele diz aos colossenses: "Tudo sofro para que seus corações sejam reconfortados e que, estreitamente unidos pela caridade, sejam enriquecidos de uma plenitude de inteligência, para conhecerem o Mistério de Deus, isto é, Cristo, no Qual estão escondidos todos tesouros da Sabedoria e da ciência." Cl 2,2-3
    E falando da esperança, da herança e do poder de Deus, através dos quais somos capacitados para afastar qualquer hesitação, ele rezava: "Rogo ao Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da Glória, que vos dê um espírito de Sabedoria que vos revele o conhecimento d'Ele. Que ilumine os olhos do vosso coração para que compreendais a que esperança fostes chamados, quão rica e gloriosa é a herança que Ele reserva aos Santos, e qual a suprema grandeza de Seu poder para conosco, que abraçamos a fé." Ef 1,17-19
    Pois é o aperfeiçoamento do ser humano, demonstrado por Jesus através da solidez da fé e da efetiva caridade, que promove a construção da Igreja, que é Seu Corpo Místico: "A uns Ele constituiu Apóstolos; a outros, profetas; a outros, evangelistas, pastores, doutores, para o aperfeiçoamento dos cristãos, para o desempenho da tarefa que visa à construção do Corpo de Cristo, até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo. Para que não continuemos crianças ao sabor das ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da malignidade dos homens e de seus enganadores artifícios. Mas, pela sincera prática da caridade, cresçamos em todos sentidos naquele que é a Cabeça, Cristo. É por Ele que todo Corpo - coordenado e unido por conexões que estão ao Seu dispor, trabalhando cada um conforme a atividade que lhe é própria - efetua esse crescimento, visando sua plena edificação na caridade." Ef 4,11-16
    Ora, São Paulo dizia aos filipenses que conhecer a Cristo é tudo que realmente importa: "Na verdade, julgo como perda todas as coisas, em comparação com esse supremo bem: o conhecimento de Jesus Cristo, Meu Senhor. Por Ele, tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo..." Fl 3,8
    Ele demonstra humildade, apesar das grandiosas Graças que recebeu, e prega perseverança: "Anseio pelo conhecimento de Cristo, pelo conhecimento do poder de Sua Ressurreição através da participação em Seus sofrimentos, tornando-me semelhante a Ele na morte, com a esperança de conseguir a Ressurreição dentre os mortos. Não pretendo dizer que já alcancei esta meta e que cheguei à perfeição. Não. Mas empenho-me em conquistá-la, uma vez que também eu fui conquistado por Jesus Cristo. Consciente de não tê-la ainda conquistado, só procuro isto: prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para a frente, persigo o alvo rumo ao celeste prêmio ao qual Deus nos chama, em Jesus Cristo. Nós, mais aperfeiçoados que somos, ponhamos nisto nosso afeto! E se tendes outro sentir, sobre isto Deus há de esclarecer-vos. Contudo, seja qual for o grau a que chegamos, o que importa é decididamente prosseguir." Fl 3,10-16
    De fato, não buscava nenhum médio estágio, como exorta os tessalonicenses: "No mais, irmãos, aprendestes de nós a maneira como deveis proceder para agradar a Deus. E já o fazeis! Rogamo-vos, pois, e exortamos-vos no Senhor Jesus a que progridais sempre mais. Pois conheceis que preceitos vos demos da parte do Senhor Jesus. Esta é a vontade de Deus: vossa santificação..." 1 Ts 4,1-3b
    Ora, isso foi o que determinou o próprio Jesus, durante o Sermão da Montanha: "Portanto, sede perfeitos, assim como Vosso Pai Celeste é perfeito." Mt 5,48
    E São Paulo só poderia desejar o mesmo conhecimento aos colossenses: "Por isso, também nós... não cessamos de orar por vós e pedir a Deus para que vos conceda pleno conhecimento de Sua vontade, perfeita sabedoria e profundidade espiritual, para que vos comporteis de maneira digna do Senhor, em tudo procurando agradar-Lhe, em toda boa obra frutificando, e crescendo no conhecimento de Deus." Cl 1,9-10
    Plenamente inspirado, ele vê no conhecimento do Cristo a restauração da imagem de Deus que a humanidade perdeu: "Vós despistes-vos do velho homem com seus vícios, e revestistes-vos do novo, que constantemente vai restaurando-se à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento." Cl 3,9-10
    Também foi o que ele disse a São Timóteo, pois a Deus só agradamos quando vivemos a verdadeira piedade: "Acima de tudo, recomendo que se façam preces, orações, súplicas, ações de graças por todos homens, pelos reis e por todos que estão constituídos em autoridade, para que possamos viver uma calma e tranquila vida, com toda piedade e honestidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, Nosso Salvador, o Qual deseja que todos homens se salvem e cheguem ao conhecimento da Verdade." 1 Tm 2,1-4
    E mais uma vez, em outra carta, ele fala no conhecimento da Verdade: "É com brandura que deve corrigir os adversários, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento e o conhecimento da Verdade..." 2 Tm 2,25
    Os seguidores de sua tradição, porém, lamentavam-se de gente de dentro da própria Igreja: "Teríamos muita coisa a dizer sobre isso, e coisas bem difíceis de explicar, dada vossa lentidão em compreender... A julgar pelo tempo, já devíeis ser mestres! Contudo, ainda necessitais que vos ensinem os primeiros rudimentos da Palavra de Deus. E tornastes-vos tais, que precisais de leite em vez de sólido alimento! Ora, quem se alimenta de leite não é capaz de compreender uma profunda doutrina, porque é ainda criança. Mas o sólido alimento é para os adultos, para aqueles que a experiência já exercitou na distinção do bem e do mal." Hb 5,11-14
    Aliás, esse era um argumento do próprio São Paulo, denunciando invejas e intrigas: "A vós, irmãos, não vos pude falar como a homens espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo. Eu dei-vos leite a beber, e não sólido alimento, que ainda não podíeis suportar. Nem ainda agora o podeis, porque ainda sois carnais. Com efeito, enquanto entre vós houver ciúmes e contendas, não será porque sois carnais e procedeis de um modo totalmente humano?" 1 Cor 3,1-3


OS QUE RENEGAM A FÉ

    Porém, entre ocasionalmente vacilar na fé e com empenho buscar o conhecimento de Deus, pedindo-Lhe fé e Sabedoria, há muitos que optam por renegar a Deus. Mas pela simples contemplação da natureza, segundo São Paulo, eles não têm desculpa: "Porquanto o que se pode conhecer de Deus, eles leem-nos em si mesmos, pois com evidência Deus lho revelou. Desde a criação do mundo, as invisíveis perfeições de Deus, Seu sempiterno poder e divindade tornam-se visíveis à inteligência por Suas obras, de modo que não podem escusar-se." Rm 1,19-20
    E os que abraçam a depravação, ainda segundo sua carta aos romanos, já estão pagando por sua má vontade: "Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Deus entregou-os a depravados sentimentos, e daí seu indigno procedimento." Rm 1,28
    Por fim, ele também e diretamente acusa o Maligno, sedutor dos incrédulos: "Se nosso Evangelho ainda estiver encoberto, está encoberto para aqueles que se perdem, para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a Luz do Evangelho, onde resplandece a Glória de Cristo, que é a imagem de Deus." 2 Cor 4,3-4
    No entanto, deixa bem claro qual o poder da Palavra de Deus: "Não são carnais as armas com que lutamos. São poderosas, em Deus, capazes de arrasar fortificações. Nós aniquilamos todo raciocínio e todo orgulho que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento e reduzimo-lo à obediência a Cristo." 2 Cor 10,4-5
    Pelo poder de Seu Magistério, a Igreja ensina no Catecismo: "A fé é certa, mais certa que qualquer conhecimento humano, porque se funda na própria Palavra de Deus, que não pode mentir. Sem dúvida, as verdades reveladas podem parecer obscuras à razão e à experiência humanas, mas "a certeza dada pela Divina Luz é maior que a que é dada pela luz da razão natural." [São Tomás de Aquino] CIC 157
    Ainda diz: "O primeiro mandamento manda-nos alimentar e guardar com prudência e vigilância nossa fé, e rejeitar tudo que se lhe opõe. Há diversas maneiras de pecar contra a fé:
    A voluntária dúvida sobre a fé negligencia ou recusa ter como verdadeiro o que Deus revelou, e que a Igreja propõe para crer. A involuntária dúvida designa a hesitação em crer, a dificuldade de superar as objeções ligadas à fé ou, ainda, a ansiedade suscitada pela obscuridade da fé. Se for deliberadamente cultivada, a dúvida pode levar à cegueira do espírito.
    A incredulidade é a negligência da verdade revelada ou a voluntária recusa de dar-lhe o próprio assentimento. 'Chama-se heresia a pertinaz negação, após a recepção do Batismo, de qualquer verdade que se deve crer com divina e católica fé, ou a pertinaz dúvida a respeito dessa verdade; apostasia, o total repúdio da fé cristã; cisma, a recusa de sujeição ao Sumo Pontífice ou da comunhão com os membros da Igreja a ele sujeitos.'" CIC 2088-2089

    "A todos dai a Luz que não se apaga!"

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

A Aparição de Kibeho


    No dia 28 de novembro de 1981, na localidade de Kibeho, em Ruanda, país africano, às 12:35 no refeitório de uma secundária escola católica, Alphonsine Mumureke, de 17 anos, ao dia encarregada de conduzir as orações, ouviu uma voz:
    - Minha filha!
    Ela dirigiu-se ao corredor do edifício, de onde vinha a voz, e encontrou uma Linda Senhora toda de branco, com um véu em torno do pescoço, e as mãos juntas sobre o peito em oração. Maravilhada, Alphonsine perguntou-lhe:
    - Quem é a Senhora?
    - Sou a Mãe do Verbo, respondeu ela na língua nativa.
    Em seguida, a Santíssima Virgem perguntou a Alphonsine:
    - O que tu procuras na religião?
    Alphonsine respondeu com sinceridade e simplicidade, mas em memorável testemunho:
    - Amo a Deus e Sua Mãe, que nos deu um Filho que nos salva!
    - É por isso, disse Nossa Senhora, que venho tranquilizar-te, pois ouvi tuas preces. Eu gostaria que tuas colegas tivessem mais , pois elas não creem o bastante.
    - Mãe do Salvador!, exclamou Alphonsine, que só então reconheceu que se tratava de Maria Santíssima. Se verdadeiramente é a Senhora, e a Senhora que vem dizer que em nossa escola temos pouca fé, é porque nos ama!


    E assim várias outras aparições ocorreram na escola, despertando diversas reações, favoráveis e contrárias. Muitas pessoas zombavam de Alphonsine, mas ela manteve-se firme. E com o tempo, manifestou e realizou o desejo de tornar-se freira, vendo numerosas aparições até 1989.


    Em 12 de Janeiro de 1982, Nathalie Mukamazinpaka também teve a Graça de ver as aparições. E delas participou até 3 de dezembro de 1983. Mas através desta vidente as mensagens da Rainha do Céu já eram uma queixa à comunidade católica, que apenas se mostrava curiosa para com as visões: "Eu falo convosco, mas vós não Me ouvis. Eu quero levantar-vos, mas vós permaneceis caídos. Eu chamo-vos, mas vós fazeis moucos ouvidos. Quando vós ireis fazer o que vos peço? Vós ficais indiferente a todos meus apelos. Quando ireis entender? Quando ireis vos interessar pelo o que eu quero dizer-vos? Eu dou-vos sinais, mas vós permaneceis incrédulos. Quanto tempo vós ireis fazer moucos ouvidos aos meus Apelos?"


    Em 2 de março, Marie-Claire Mukangango, uma auxiliar do Bispo de Butare que perseguia as duas videntes, igualmente foi favorecida com as aparições da Mãe do Céu, e viu várias até 15 de setembro de 1982. Numa destas, Nossa Senhora disse-lhe: "Quando falo contigo, não estou dirigindo-me só a ti. Mas estou fazendo um apelo a todo o mundo." Ela narrou que Maria descrevia o mundo como estando 'em revolta' contra Deus, e ouviu essa recomendação: "O que Eu vos peço é arrependimento. Se vós recitardes este Terço, meditando-o, então tereis a força para arrependerdes-vos. Hoje, muitas pessoas não mais sabem como pedir perdão. Pregam novamente o Filho de Deus na Cruz. Por isso, eu queria vir e relembrar-vos, especialmente em Ruanda, porque aqui ainda encontrei humilde gente, que não está ligada à riqueza e ao dinheiro."


    Em 4 de agosto, Agnès Kamagaju, mais jovem de oito irmãos, à época aos 22 anos de idade, do mesmo modo passou a ver as aparições, privilégio que teve até 29 de agosto de 1983, incluindo aparições do próprio Senhor Jesus.
    E assim, com tantos testemunhos, tantas conversões e tantas Graças alcançadas, a aceitação do fato sobrenatural era quase total na região.


    Ao final, em Kibeho vinte pessoas disseram ter visto a Mãe de Jesus, e ao menos mais dez em outras partes do país. Os principais videntes, porém, foram: Alphonsine, Nathalie, Marie-Claire, Agnès, Emmanuel Segatashaya, Vestine Salima, Stéphanie Mukamurenzi, Valentine Nyiramukiza, Bernadette Mukantabana e Elisabeth Yankurije.
    A capital de Ruanda, Kigali, fica a 50 quilômetros de Butare, que é a segunda maior cidade e sede da arquidiocese católica do povoado de Kibeho, onde as irmãs de caridade ruandesas Benebekira têm vários prédios escolares.
    Mais densamente povoado país da África em 1978, metade dos ruandeses era fiel às suas antigas crenças animistas. Na outra metade, a maioria era de cristãos, 52% católicos, e os demais se dividiam entre protestantes, boa parte adventista, e muçulmanos.
    Não era uma nação pacificada antes das aparições, nem mesmo em questões religiosas. Pouco antes, houve uma onda de destruições de imagens, insuflada por protestantes e muçulmanos. Por isso, Nossa Senhora pedia orações, a renúncia ao pecado, o arrependimento e Confissão. E entre as revelações que fazia, em terríveis visões mostrou as consequências do pecado.
    Na aparição ocorrida em 15 de agosto de 1982, que durou oito horas, Nossa Senhora estava chorando, o que muito comoveu as videntes. E por tão assombrosas revelações que fez, por mais de uma vez as videntes desmaiaram. Segundo as jovens, entre vários assuntos que tratou, a Santíssima Virgem também mostrou-se triste, contrariada, e até verdadeiramente encolerizada.


    Particularmente, Alphonsine contou que a Nossa Senhora chorava pela iminência de um terrível castigo, àquela data quase impossível evitar. Com ela, Agnès e Nathalie, além de caírem por terra como mortas, foram vistas tremendo e batendo os dentes de pavor. Disseram ter visto 'um rio de sangue, pessoas que se matavam umas às outras, cadáveres abandonados sem alguém que os enterrasse, uma árvore toda em fogo, um abismo escancarado, um monstro, cabeças decapitadas'. E contaram ter ouvido dos lábios da Mãe de Deus: "Os pecados são mais numerosos que as gotas do mar. O mundo corre em direção à ruína. O mundo está cada vez pior."
    Nesse dia, aproximadamente 15 mil de pessoas estavam no local da aparição. Todos viram um sinal que se movia no céu: estrelas ao meio-dia no céu africano, como se fosse noite, quando estava plenamente iluminado pelo sol. E todos daí saíram com uma grande sensação de medo e tristeza.


    Emmanuel Segatashaya, em resumo, disse Nossa Senhora falava de arrependimento e preparação para a Definitiva Volta de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele não era cristão quando, num campo de feijão, viu uma aparição de Jesus, que entre várias outras aparições lhe ensinou o Pai Nosso, como rezar o Santo Rosário e muitos outros detalhes sobre a Sã Doutrina, uma completa e privilegiadíssima catequese. Ele testemunhou: "O Senhor ensinou-me o valor do sofrimento, unido à Sua dor, para oferecer pela Salvação do mundo. Jesus disse-me que devemos mudar nossas vidas e não pecar. Orar, preparando-nos para nossa própria morte e para o fim do mundo. Todos nós devemos purificar nossos corações do ódio e do pecado, rezando sinceramente o Ato de Contrição. Confessar nossos pecados é um bom caminho para começar a limpar nossas almas, e prepararmo-nos para o encontro com Cristo."
    A última aparição de Kibeho, em 28 de novembro de 1989, ocorreu exatamente oito anos após a primeira. E como os desentendimentos políticos não diminuíam, Nossa Senhora mandou um recado aos líderes da nação através de Marie-Claire: "Eu falo a vós que sois os detentores do poder, e que representais a nação: salvem o povo, em vez de serem seus algozes. Não roubem o povo; compartilhai com os outros. Tende cuidado para não perseguirdes, para não amordaçardes aqueles que querem denunciar vossos erros. Eu digo-vos, eu repito, façais o que fizerdes, mesmo que vós tenteis de tudo para prejudicar alguém, vós nada podeis fazer contra Jesus. Porque Ele ama seus semelhantes, defende os direitos humanos, luta pelo respeito da vida dos outros, pela Verdade e por tudo que é bom, e também porque Ele luta para que Deus possa ser amado e respeitado."
    Providente, o Bispo de Butare, sede da diocese, constituiu duas comissões para monitorar os acontecimentos que envolviam as aparições: médica, para acompanhar os videntes, e teológica, para analisar as mensagens. Uma igreja maior até foi construída no local das aparições, tornando-se ponto de peregrinações. Preocupado com os avisos e as visões que Nossa Senhora manifestou, o próprio Papa São João Paulo II visitou Ruanda em 1990, quando exortou o país a voltar-se à Virgem Maria como uma "simples e segura Guia", bem como a orar com maior empenho e penitenciar-se contra divisões locais, políticas e étnicas.
    Mas infelizmente não se viu a conversão que Nossa Senhora pedia, e menos de cinco anos depois veio o castigo, Entre abril e junho de 1994, uma onda de massacres varreu o país. Explodiu o ódio que era cultivado entre as principais tribos: os hutus e os tutsis. Com a morte do presidente em um atentado, 30 mil membros de seu partido iniciaram uma brutal perseguição. A meta, na prática, era o extermínio dos tutsis: cada hutus deveria matar pelo menos um tutsis do sexo masculino de 6 a 90 anos, e depois exibir a cabeça como prova.
    Aldeias inteiras foram massacradas, a maioria das vítimas mortas a machadadas. O rio Kagera, onde os corpos eram lançados, ficou conhecido como o rio de sangue. Tão grande era a poluição de cadáveres de tutsis, mas também de hutus, que veio a dizimar os peixes na margem ruandense do grande lago de Kivu. Centenas de milhares de refugiados fugiram para países vizinhos.
    Cidades, povoados e aldeias viraram terra arrasada, pois suas casas, plantações e árvores eram queimadas. Dezenas de milhares de corpos restaram insepultos. Todos principais rios ficaram fétidos com a quantidade de corpos jogados ao leito. Quem, sem opção, bebia da água, morria de febre.
    O maior acampamento de refugiados estava na própria Kibeho, pois numa terra já traumatizada por muitas matanças, as igrejas eram consideradas refúgios, onde as pessoas se protegiam das carnificinas. Mas a ira que se viu nada tinha de normal: no dia 14 de abril de 1994, 4 mil tutsis que se abrigavam na igreja de dedicada à aparição Nossa Senhora foram cercados por milicianos hutus e assassinados por explosões de granadas. Os sobreviventes eram mortos a machadadas no interior do edifício, cujos escombros em seguida foram incendiados. Como consolação, os videntes que sobreviveram evocaram as palavras de ouviram da Mãe do Céu: "Aqueles que me procuram, encontrar-me-ão! Eu venho não somente para Kibeho, nem apenas para o diocese de Butare ou somente para Ruanda... mas para o mundo inteiro."
    No decorrer de três meses, centenas de milhares de pessoas foram brutalmente assassinadas. O exato número ainda é controverso. Fala-se em 250 mil, mas há levantamentos que chegam a 1 milhão, o que seria quase um quarto da população. A mais provável cifra está em torno de 800 mil mortos. Uma absurda carnificina, de longe classificada como o maior genocídio africano dos últimos tempos.
    Muitos países e as Nações Unidas enviaram socorro e enorme quantidade de alimentos e remédios, embora sempre insuficientes para um hecatombe daquelas proporções. Milhares de feridos viriam a morrer nos próprios campos de refugiados, principalmente crianças que aí já chegavam em avançado quadro de desnutrição ou desidratação.
    Mas, como visto, os avisos de Maria Santíssima não se encerraram nos acontecimentos de Kibeho. A Grande Tribulação, por incrível que pareça, ainda parece estar por vir: "Venho ao mundo para preparar o caminho de Meu Filho, pelo bem de vós, mas vós não quereis entender. Pois o tempo que temos é muito curto e vós estais distraídos com as coisas desse mundo, que são passageiras. Tenho visto extraviarem-se muitos de meus filhos, e por isso vim para ensinar-lhes o verdadeiro caminho!"
    De fato, a pergunta que fica é: só em Ruanda se cometia pecados? Estavam lá os mais graves de então? Que dizer da pedofilia e da cultura gay dentro da própria Igreja? Que dizer das legislações abortistas e do 'casamento' homossexual por todo mundo? Até quando poderemos contar com a Divina Misericórdia? Até quando será aplacada a ira de Deus? Com que rigor essas abominações serão punidas?
    Ainda em Kibeho, a Imaculada Virgem advertiu de outro calamitoso desastre: a promiscuidade sexual. Sem dúvida, em 1994 a África possuía 70% das vítimas de AIDS de todo mundo, com 25 milhões de infectados. Vilas inteiras desapareceriam. Nossa Senhora pedia a Marie-Claire: "Arrependei-vos! Arrependei-vos! Arrependei-vos! Os homens dessa época esvaziaram cada coisa de seu verdadeiro sentido. Pecam, porém não mais reconhecem que agem injustamente."


    A Virgem Santíssima aconselhou Alphonsine e demais videntes a saírem de Ruanda antes do início dos massacres. Mas Emmanuel morreu, mesmo longe de Kigali, e Marie-Claire foi morta com o marido no povoado de Byumba. Em aparição de fevereiro de 1994, Nossa Senhora preparou Agnès, em particular, para os dolorosos eventos que estavam por vir: seus pais seriam assassinados em Kibeho, como posteriormente ocorreu. Alphonsine, Nathalie e Agnès sobreviveram.
    Em Medjugorje, outra vidente de Maria Santíssima, Ivanka, nas visões do dia 25 de junho de 1993 relatou os horríveis eventos que aconteceriam em Ruanda. Nossa Senhora havia-lhe dito que logo começariam, mas ainda então poderiam ser evitados ou ao menos amenizados com as orações de pessoas de todo mundo. Não foi o que se viu, porém.
    Absolutamente chocadas, uma das razões que fizeram as autoridades eclesiásticas reconhecerem as aparições de Kibeho foi a antecipação, em visões, do genocídio em Ruanda, dadas em 19 de agosto de 1982.


    Como em todas aparições, em Kibeho mostrou Nossa Senhora sobrenaturais eventos:
    - Os milagres solares, como vistos na Aparição de Fátima, aconteceram algumas vezes: o sol deslocava-se para os lados e também na vertical; listras vermelhas e brancas surgiam em sua superfície; ficava azulado e era possível fitá-la por longos minutos, a olho nu.
    - O céu do povoado pintava-se de coloridos raios. À noite, as estrelas também moviam-se com rapidez, como se dançassem, desapareciam, e no lugar delas viam-se luminosas cruzes.
    - A região de Kibeho não possuía vegetação, o solo era quase deserto, porém rochoso e pedregoso. Muito quente, seco e com pouquíssima chuva. Em uma das aparições de agosto de 1982, Nossa Senhora perguntou:
    - Porque não me pediram chuva?
    Nathalie respondeu:
    - A senhora disse que daria conforme sua vontade e quando quisesse.
    Nossa Mãe concluiu:
    - E agora vou lhes dar uma chuva de consagração!
    Algum tempo depois choveu torrencialmente, e as milhares de pessoas presente caíam de joelhos agradecendo e louvando a Deus por tão grande Graça.
    Em agosto dificilmente chovia. A água de tão inesperada chuva foi prontamente armazenada em todo tipo de vasilhame disponível. Com o passar do tempo essa água foi sendo utilizada e realizou muitas curas.

    De Nossa Senhora, conta-se mais de 400 aparições no século passado, mas apenas 12 delas foram reconhecidas pelo Vaticano ou por bispos locais. O reconhecimento de Kibeho deu-se em 29 de junho de 2001 pelo Bispo Augustine Misago, em missa na Catedral de Gikongoro, onde estavam os demais bispos do país e o Núncio Apostólico em Kigali, Mons. Salvatore Pennacchio. No mesmo dia, o Vaticano publicou a notícia da aprovação.
    Em 2006, doze anos após o genocídio que se deu no país, 56,5% da população diziam-se católicos, 37,1% protestantes, 11,3% deles adventista, e 4,6% muçulmanos.
    A igreja em que aconteceu o massacre foi reconstruída.


    E em honra das aparições e das vítimas, foi erguido o Santuário de Nossa Senhora das Dores.



    "Nossa Senhora de Kibeho, rogai por nós!"