sábado, 4 de abril de 2026

A Ressurreição da Carne


    Em Seu imenso amor por nós, o Eterno Pai não poderia deixar de oferecer-nos a própria eternidade. No Evangelho Segundo São João, referindo-Se a Sua condição humana, portanto mortal, Jesus disse: "Na Verdade, não falei por Mim mesmo, mas o Pai, que Me enviou, Ele mesmo prescreveu-Me o que devo dizer e o que devo ensinar. E Eu sei que Seu Mandamento é Vida Eterna." Jo 12,49-50a
    Realmente falava de uma grandessíssima dádiva: a infusão do Santo Paráclito em nós. Está no Evangelho Segundo São Lucas: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Vosso Pai Celestial dará o Espírito Santo àqueles que LhO pedirem." Lc 11,13
    Chegávamos à plenitude dos tempos (cf. Gl 4,4), e assim ao cumprimento de mais uma etapa do projeto de Salvação: a reconciliação com Deus, prometida por Ele mesmo desde o Livro do Profeta Joel: "Depois disso, acontecerá que derramarei Meu Espírito sobre todo ser vivo: vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos anciãos terão sonhos, e vossos jovens terão visões." Jl 3,1
    Isso realizou-se com a Vinda de Cristo, que pouco antes de Sua Ascensão aos Céus disse à Embrionária Igreja: "Eu mandá-vos-ei o Prometido de Meu Pai. Entretanto, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto." Lc 24,49
    Pois antes do dilúvio, como está no Livro de Gênesis, diante da grande pecaminosidade que tomou a Terra, Deus havia determinado: "Meu Espírito não permanecerá para sempre no homem, porque todo ele é carne, e a duração de sua vida será de cento e vinte anos." Gn 6,3b
    E a Carta de São Paulo aos Romanos disse o que o Pentecostes, a Vinda do Santo Paráclito, representa para essa vida e para a futura: "Ora, a aspiração da carne é a morte, enquanto a aspiração do espírito é a Vida e a Paz. Porque o desejo da carne é hostil a Deus, pois a carne não se submete à Lei de Deus, e nem o pode. Vós, porém, não viveis segundo a carne, mas segundo o espírito, se o Espírito de Deus realmente habita em vós. Se alguém não possui o Espírito de Cristo, este não é d'Ele. Se o Espírito d'Aquele que ressuscitou Jesus dos mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Jesus Cristo dos mortos, também dará a Vida a vossos corpos mortais, por Seu Espírito que em vós habita." Rm 8,6-7.11
    Deus, de fato, havia feito essa promessa no Livro do Profeta Ezequiel: "Eis o que diz o Senhor Javé: 'Ó Meu povo, vou abrir vossos túmulos. Eu fá-vos-ei sair deles... Então sabereis que Eu é que sou o Senhor, ó Meu povo... quando Eu pôr em vós Meu Espírito para vos fazer voltar à vida...'" Ez 37,12a.13a.14a
    Assim, além de explicitar Sua divindade, Jesus, quando Se transfigurou, deu um grande sinal do que aconteceria em Sua Ressurreição. Apresentou-Se, ainda na semana em que foi identificado como o Cristo por São Pedro, em corpo glorioso, como se lê no Evangelho Segundo São Mateus: "Seis dias depois, Consigo Jesus tomou Pedro, Tiago e João, seu irmão, e à parte conduziu-os a uma alta montanha. Lá Se transfigurou em presença deles: Seu rosto brilhou como o sol, Suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que apareceram Moisés e Elias, conversando com Ele." Mt 17,1-3
    Ora, o rosto de Moisés, após receber de Deus as Tábuas da Lei, também brilhava a ponto de ter que usar um véu. Mas era apenas seu rosto, como sinal da proximidade que ele tinha com Deus (cf. Êx 33,11). O Livro de Êxodo diz: "E Aarão e todos israelitas, tendo-o visto, notaram que a pele de seu rosto se tornara brilhante e não ousaram aproximar-se dele." Êx 34,30
    Esse corpo que pode apresentar-se brilhante como o sol, sem necessariamente ofuscar a vista, foi predito bem antes do Advento e aconteceria com Maria Santíssima, quando foi assunta ao Céu. O Livro de Cântico dos Cânticos prenunciava: "Quem é esta que surge como a aurora, bela como a lua, brilhante como o sol, temível como um exército em ordem de batalha?" Ct 6,10
    De fato, no Livro de Apocalipse de São João, o Apóstolo que cuidou de Nossa Mãe Celeste após a Paixão de Cristo, foi-nos concedido ver sua Coroação no Céu, exatamente como havia sido profetizado: "Em seguida apareceu um grande sinal no Céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo de seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Ela deu à luz um Filho, um Menino, Aquele que deve reger todas pagãs nações com cetro de ferro. Mas Seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e de Seu trono." Ap 12,1.5


MULTIFORME, MATERIAL E IMATERIAL

    Logo ao ressuscitar, na manhã do primeiro dia da semana, Jesus não Se apresentou de modo a ser reconhecido por Santa Maria Madalena: "... voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não O reconheceu." Jo 20,14
    E instantes depois, quando permitiu ser reconhecido, ela quis abraçá-Lo, mas Ele não o permitiu, por alguma especial condição de Seu Corpo: "Disse-lhe Jesus: 'Não Me retenhas, porque ainda não subi a Meu Pai.'" Jo 20,17a
    Sua simples reaparição sem feridas e hematomas já era um estrondoso milagre, pois Seu Corpo foi impiedosamente massacrado durante a flagelação ordenada por Pilatos, pelas quedas na subida ao Calvário (teve que ser ajudado!) e pela brutalidade da morte na Cruz, quando Sua aparência nem lembrava a de um ser humano, como o Livro do Profeta Isaías previu: "Assim como, a Sua vista, muitos ficaram embaraçados, tão desfigurado estava que havia perdido a aparência humana...” Is 52,14
    Dois de Seus discípulos, que caminhavam para Emaús no Domingo da Ressurreição, também não puderam reconhecê-Lo, pois inicialmente Ele assim não o quis. Aí demonstrou como eles eram frágeis na , e não guardavam Sua Palavra. Ele não avisou que ressuscitaria? "Enquanto iam conversando e discorrendo entre si, o próprio Jesus aproximou-Se deles e caminhava com eles. Mas seus olhos estavam-lhes como que vendados, e não O reconheceram." Lc 24,15-16
    Narrando o mesmo episódio, o Evangelho Segundo São Marcos deu esta explicação: "Mais tarde, Ele apareceu sob outra forma a dois deles que iam para o campo." Mc 16,12
    Pois Sua transfiguração já teria demonstrado essa possibilidade: "Enquanto Ele rezava, o aspecto de Seu rosto alterou-se..." Lc 9,29
    Mas nem sempre assim Ele Se manifestava. Ainda entre os discípulos de Emaús, aliás, apresentou-Se com Sua conhecida aparência, e exatamente durante o ritual do Santíssimo Sacramento, como pediu para ser celebrado (cf. Lc 22,19), embora logo em seguida tenha demonstrado mais um poder de Sua Divindade: "Aproximaram-se da aldeia para onde iam e Ele fez como se quisesse passar adiante. Mas eles forçaram-nO a parar: 'Fica conosco, já é tarde e o dia declina.' Então entrou com eles. Aconteceu que, estando conjuntamente sentados à mesa, Ele tomou o pão, abençoou-O, partiu-O e serviu-lhO. Então se lhes abriram os olhos e O reconheceram... mas Ele desapareceu." Lc 24,28-31
    E no mesmo domingo, momentos depois, também apareceu ao Colégio dos Apóstolos de modo a ser prontamente reconhecido. E para tirar qualquer dúvida, disse-lhes: "Vede Minhas mãos e Meus pés, sou Eu mesmo. Apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho." Lc 24,39
    Chegou a comer diante deles, porque demoraram a acreditar: "Mas, ainda vacilando eles e estando transportados de alegria, perguntou: 'Tendes aqui alguma coisa para comer?' Então Lhe ofereceram um pedaço de peixe assado. Ele tomou e comeu à vista deles." Lc 24,41,43
    E São Pedro atestava-o, como disse perante Cornélio e sua família pouco antes do 'Pentecostes dos Gentios', no Livro de Atos dos Apóstolos: "Mas Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu que aparecesse, não a todo povo, mas às testemunhas que Deus havia predestinado, a nós que com Ele comemos e bebemos depois que ressuscitou." At 10,40-41
    Contudo, eram verdadeiramente aparições, pois 'atravessavam paredes' como São João Evangelista descreveu: "Na tarde do mesmo dia, que era o primeiro da semana, os discípulos tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus. Jesus veio e pôs-Se em meio a eles. Disse-lhes Ele: 'A Paz esteja convosco!'" Jo 20,19
    Na segunda aparição aos Apóstolos, não por acaso igualmente num domingo, também Se apresentou para ser imediatamente reconhecido: "Oito dias depois, estavam Seus discípulos outra vez no mesmo lugar e Tomé com eles. Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-Se em meio a eles e disse: 'A Paz esteja convosco!'" Jo 20,26
    E logo ofereceu Suas feridas para que São Tomé as tocasse: "Põe aqui teu dedo e olha Minhas mãos. Estende tua mão e coloca-a em Meu lado. E não sejas incrédulo, mas crê!" Jo 20,27
    Na terceira aparição a Apóstolos colegiados, já em Galileia, de novo Se apresentou irreconhecível, mas só por um momento: "Chegada a manhã, Jesus estava na praia. Todavia, os discípulos não O reconheceram. Perguntou-lhes Jesus: 'Amigos, não tendes acaso alguma coisa para comer?' 'Não', responderam-Lhe. Disse-lhes Ele: 'Lançai a rede ao lado direito da barca e achareis.' Lançaram-na, e já não podiam arrastá-la por causa da grande quantidade de peixes. Então aquele discípulo, que Jesus amava, disse a Pedro: 'É o Senhor!' Quando Simão Pedro ouviu dizer que era o Senhor, cingiu-se com a túnica, porque estava nu, e lançou-se às águas." Jo 21,4-7
    E logo em seguida Ele comeu Pão e peixe diante eles. Tinha Seu próprio alimento, mas fez questão de comer do peixe que os Apóstolos haviam recém-pescado: "Ao saltarem em terra, viram umas brasas preparadas e um peixe em cima delas, e Pão. Disse-lhes Jesus: 'Trazei aqui alguns dos peixes que agora apanhastes.' Depois de haverem comido..." Jo 21,9-10.15
    Eram todas essas aparições, porém, a realização de uma promessa do próprio Jesus, pois assim avisava aos Apóstolos de Sua Paixão e Ascensão aos Céus: "Ainda um pouco de tempo, e já não Me vereis. Depois, mais um pouco de tempo, e tornareis a Me ver, porque vou para junto do Pai." Jo 16,16
    Ele assegurou mesmo que muitos veriam Sua Glória: "Na Verdade, declaro-vos: muitos destes que aqui estão não verão a morte, sem que tenham visto o Filho do Homem voltar na majestade de Seu Reino." Mt 16,28
    De fato, da aparição numa montanha em Galileia, a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios anotou um expressivo números de videntes: "Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte ainda vive e alguns já são mortos." 1 Cor 15,6
    E embora Se tenha apresentado de nodo a ser reconhecido, teve quem vacilasse, certamente por fraqueza de fé. A maioria, porém, logo O trataram como Deus, pois só a Deus se pode adorar: "Os onze discípulos foram para Galileia, para a montanha que Jesus lhes tinha designado. Quando O viram, adoraram-nO. Entretanto, alguns ainda hesitavam." Mt 28,26-17
    Mas bem antes disso, enquanto Jesus apenas anunciava Sua Paixão e Ressurreição aos Apóstolos, eles não tinha a menor ideia do que a Ressurreição significava: "Mas não entendiam estas palavras e tinham medo de Lho perguntar." Mc 9,32
    Chegaram a questionar uns aos outros, quando Ele Se transfigurou no Monte Tabor e lhes pediu que nada falassem sobre esse episódio até que Ele ressuscitasse: "E guardaram consigo esta recomendação, perguntando entre si o que significaria: ser ressuscitado dentre os mortos." Mc 9,10


A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS

    Nosso Senhor, porém, não ressuscitou sozinho, mas com vários Santos: "Os sepulcros abriram-se e muitos corpos de Santos ressuscitaram. Saindo de suas sepulturas, entraram na Cidade Santa depois da Ressurreição de Jesus e apareceram a muitas pessoas." Mt 27,53
    Isso também não deveria ser surpresa, pois o próprio Jesus havia dito: "Na Verdade, na Verdade, digo-vos: vem a hora, e já está aí, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e aqueles que a ouvirem viverão. Pois como o Pai tem a Vida em Si mesmo, assim também deu ao Filho ter a Vida em Si mesmo... Não fiqueis admirados com isso, pois vem a hora em que todos que estão nos túmulos ouvirão Sua voz e sairão." Jo 5,25-26.28
    E disse como Suas ovelhas, especificamente os Santos, disporão dos Céus: "EU SOU a Porta! Se alguém entrar por Mim, será salvo. Tanto entrará como sairá, e encontrará pastagem." Jo 10,9
    A Primeira Carta de São Pedro, com efeito, mais tarde iria atestar Sua descida à mansão dos mortos. Mas também registraria que nem todos participam da 'primeira ressurreição', que só cabe aos Santos. Ou seja, as penas do Purgatório haverão de ser cumpridas: "Pois, para isto, o Evangelho também foi pregado aos mortos. Para que, embora sejam condenados em sua humanidade de carne, vivam segundo Deus quanto ao espírito." 1 Pd 4,6
    Como anunciava a Ressurreição da Carne, Jesus, em debate com saduceus, teve que dar explicações desta doutrina que havia alguns séculos fora revelada e já estava sendo corretamente observada e divulgada: "Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento, mas aqueles que serão julgados dignos do futuro século e da Ressurreição dos Mortos, não terão mulher nem marido. Eles jamais poderão morrer, porque são iguais aos anjos e são filhos de Deus, porque são ressuscitados. Por outra parte, que os mortos hão de ressuscitar é o que Moisés revelou na passagem da ardente sarça (Êx 3,6), chamando ao Senhor: Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó. Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos, porque para Ele todos vivem." Lc 20,34-38
    Pois sabemos que todos vão ressuscitar, é fato, mas nem todos terão o mesmo destino, ainda conforme Nosso Senhor: "Aqueles que praticaram o bem irão para a Ressurreição da Vida, e aqueles que praticaram o mal ressuscitarão para serem condenados." Jo 5,29
    Isso já estava no Livro do Profeta Daniel, quando Deus avisou que para os ressuscitados haveria dois destinos: "Muitos daqueles que dormem no pó da terra despertarão, uns para uma Vida Eterna, outros para a ignomínia, a eterna infâmia." Dn 12,2
    E no Livro de Salmos, o rei Davi já dizia daqueles que ressuscitarão para a Vida Eterna: "Todos que dormem no seio da Terra adorá-Lo-ão, diante d'Ele prostrar-se-ão aqueles que retornam ao pó." Sl 21,30
    O que São Paulo vai reafirmar: "Com efeito, se por um homem veio a morte, por um Homem vem a Ressurreição dos Mortos. Assim como em Adão todos morrem, em Cristo todos reviverão." 1 Cor 15,21-22
    Disse que era igualmente isso que os judeus acreditavam: "Tenho esperança em Deus, como eles também esperam, de que há de haver a Ressurreição dos justos e dos pecadores." At 24,15
    E havia lamentado por aqueles cuja esperança só está voltada para este mundo: "Se é só para esta vida que temos colocado nossa esperança em Cristo, somos, de todos homens, os mais dignos de lástima." 1 Cor 15,19
    Por isso, Jesus alertava nestes termos para o castigo maior, o inferno, que também punirá a carne ressuscitada: "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes temei Aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena." Mt 10,28
    E avisou que nem laços conjugais nem laços de trabalho evitarão a separação, por força do Juízo Final: "Eu digo-vos: naquela noite, dois estarão na mesma cama, um será tomado e o outro será deixado. Duas mulheres estarão juntas moendo farinha, uma será tomada e a outra será deixada. Dois homens estarão no campo, um será levado e o outro será deixado." Lc 17,34-35
    A Segunda Carta de São Paulo aos Tessalonicenses reafirma esta separação: "Com os mensageiros de Seu poder, Ele (Jesus) descerá do Céu por entre chamas de fogo para fazer Justiça àqueles que não reconhecem a Deus e àqueles que não obedecem ao Evangelho de Nosso Senhor Jesus. Como castigo, eles sofrerão a eterna perdição, longe da face do Senhor e de Sua Suprema Glória. Naquele Dia, Ele virá e será a Glória de Seus Santos e a admiração de todos fiéis, e também vossa, porque crestes no testemunho que vos demos." 2 Ts 1,7b-10
    Ora, quanto à Ressurreição da Carne, Ezequiel foi arrebatado e testemunhou a grandiosa visão do Vale dos Ossos Secos: "Profetizei, pois, assim como tinha recebido ordem. No momento em que comecei, um barulho fez-se ouvir e, em seguida, um ensurdecedor ruído enquanto os ossos vinham unir-se aos outros. Prestando atenção, vi que músculos se formavam sobre eles, que carne neles nascia e que uma pele os recobria. Todavia, não tinham espírito. 'Profetiza ao Espírito!', disse-me o Senhor. 'Profetiza, filho do homem, e dirige-te ao Espírito.' Eis o que diz o Senhor Javé: 'Vem, Espírito, dos quatro cantos do Céu, sopra sobre esses mortos para que revivam.' Proferi o Oráculo que Ele me havia ditado, e daí a pouco o Espírito penetrou neles. Retornando à vida, eles levantaram-se sobre seus pés: um grande, um imenso exército." Ez 37,7-10
    E as exortações de uma heroica mãe, no Segundo Livro de Macabeus, também sustentaram essa fé perante seus sete filhos que estavam para ser martirizados, por não tocarem em carne de porco como o rei Antíoco IV, do Império Selêucida, os obrigava: "Mas o Criador do mundo, que formou o homem em sua origem e a todas coisas deu existência, restituí-vos-á, em Sua Misericórdia, tanto o espírito como a Vida, se agora fizerdes pouco-caso de vós mesmos por amor a Suas leis." 2 Mc 7,23
    O segundo deles reafirmou essa fé perante a seu algoz: "Prestes a dar o último suspiro, disse ele: 'Maldito, tu arrebata-nos a presente vida, mas o Rei do universo ressuscitá-nos-á para a Vida Eterna, se morrermos por fidelidade a Suas leis." 2 Mc 7,9
    Foi, pois, por amor a São Lázaro (cf. Jo 11,3) e para dar outro sinal da Ressurreição da Carne que Jesus lhe devolveu a vida. Não era, entretanto, a definitiva Ressurreição, que ao ressuscitado para ao Vida Eterna concede um incorruptível e glorioso corpo. Sem dúvida, São Lázaro, como a dos demais a quem Jesus e os Apóstolos ressuscitaram, anos mais tarde 'tornariam' a morrer. Essas ressurreições, porém, são uma prova de nossa vocação para a eternidade, sinais que confirmam a Palavra e o poder de Jesus, pois como um dos momentos em que Se revelou Deus, Ele disse a Santa Marta, irmã de São Lázaro, pouco antes de o ressuscitar: "Eu sou a Ressurreição e a Vida. Aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá." Jo 11,25
    Ele havia-o dito ainda de mais explícito modo, garantindo que Ele mesmo, e não Deus Pai, ressuscitaria quem n'Ele cresse: "Esta é a vontade de Meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e n'Ele crê, tenha a Vida Eterna. E Eu ressuscitá-lo-ei no Último Dia." Jo 6,40
    E deixou claro que tal Graça se daria pelo poder do Santíssimo Sacramento, celebrado na Santa Missa: "Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue tem a Vida Eterna. E Eu ressuscitá-lo-ei no Último Dia." Jo 6,54
    Por tão Divino Sacramento, portanto, temos nessa vida o início da eternidade: "Assim como o Pai, que Me enviou, vive, e Eu vivo pelo Pai, aquele que comer Minha Carne também viverá por Mim." Jo 6,57
    Aliás, Ele disse sobre Sua própria Ressurreição: "... dou Minha Vida para a retomar. Ninguém a tira de Mim, mas dou-a de Mim mesmo porque tenho o poder para a dar como tenho o poder para a reassumir." Jo 10,18
    E através dela garantia a Comunhão dos Santos, iniciada com aos Apóstolos: "Naquele dia conhecereis que estou em Meu Pai, e vós em Mim e Eu em vós." Jo 14,20


O CORPO GLORIOSO

    Na Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios, ele, que era fabricante de tendas por profissão (cf. At 18,3), chama de tenda a carne em que vivemos e fala de uma nova vestimenta: "Pois enquanto permanecemos nesta tenda, gememos oprimidos: desejamos ser não despojados, mas revestidos com uma nova veste por cima da outra, de modo que o que há de mortal em nós seja absorvido pela Vida." 2 Cor 5,4
    Já havia dado esta explanação, citando, entre outros, o Livro do Profeta Oseias, quando tratou da transformação daqueles que estiverem vivos ao tempo da Definitiva Volta de Cristo: "Assim também é a Ressurreição dos Mortos. Semeado na corrupção, o corpo ressuscita incorruptível, semeado no desprezo, ressuscita glorioso, semeado na fraqueza, ressuscita vigoroso, semeado corpo animal, ressuscita corpo espiritual. Se há um corpo animal, também há um espiritual. Como está escrito: 'O primeiro homem, Adão, foi feito vivente alma (Gn 2,7).' O Segundo Adão é Vivificante Espírito. Mas não é o espiritual que vem primeiro, e sim o animal. O espiritual vem depois. O primeiro homem, tirado da Terra, é terreno, o Segundo veio do Céu. Qual o homem terreno, tais os homens terrenos, e qual o Homem Celestial, tais os homens celestiais. Assim como reproduzimos em nós as feições do homem terreno, precisamos reproduzir as feições do Homem Celestial. O que afirmo, irmãos, é que nem a carne nem o sangue podem participar do Reino de Deus, e que a corrupção não participará da incorruptibilidade. Eis que vos revelo um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta, porque a trombeta soará. Os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. É necessário que este corpo corruptível se revista de incorruptibilidade, e que este corpo mortal se revista de imortalidade. Quando este corpo corruptível estiver revestido de incorruptibilidade, e quando este corpo mortal estiver revestido de imortalidade, então se cumprirá a palavra da Escritura: 'A morte foi tragada pela Vitória' (Is 25,8). 'Onde está, ó morte, tua vitória? Onde está, ó morte, teu aguilhão (Os 13,14)?'" 1 Cor 15,42-55
    O Profeta Daniel já havia dito: "Aqueles que tiverem sido inteligentes, fulgirão como o brilho do firmamento, e aqueles que a muitos tiverem introduzido nos Caminhos da Justiça, luzirão como as estrelas, com um perpétuo resplendor." Dn 12,3
    O que Jesus confirmou, quando voltou a falar de dois bem diferentes destinos: "O Filho do Homem enviará Seus anjos, que retirarão de Seu Reino todos escândalos e todos que fazem o mal, e lançá-los-ão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes. Então, no Reino de Seu Pai, os justos resplandecerão como o sol. Aquele que tem ouvidos, ouça." Mt 13,41-43
    E esse também é um suspiro da Carta de São Paulo aos Filipenses: "Nós, porém, somos cidadãos dos Céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante a Seu Corpo glorioso..." Fl 3,20-21
    A Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses também deu detalhes das últimas horas do fim dos tempos: "Eis o que vos declaramos, conforme a Palavra do Senhor: por ocasião da Vinda do Senhor, nós que estivermos ainda vivos não precederemos os mortos. Quando for dado o sinal, à voz do Arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o mesmo Senhor descerá do Céu e aqueles que morreram em Cristo ressurgirão primeiro. Depois nós, os vivos, aqueles que ainda estamos na Terra, seremos arrebatados juntamente a eles sobre nuvens ao encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor." 1 Ts 4,15-17
    São João Apóstolo, pelas revelações que teve, também deu detalhes da nova condição da carne ressuscitada: "Já não terão fome, nem sede, nem o sol ou calor algum abrasá-los-á, porque o Cordeiro, que está no meio do trono, será Seu Pastor e levá-los-á às fontes das Águas Vivas..." Ap 7,15b-16a
    
Indicou que aí não haverá sofrimento algum, por consolação de Deus: "Ele enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição." Ap 21,4
    São Paulo, porém, teve que deixar claro que nada era para aqueles tempos: "No que diz respeito à Vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo e nossa reunião com Ele, rogamo-vos, irmãos, não vos deixeis facilmente perturbar o espírito e alarmar, nem por alguma pretensa revelação nem por palavra ou carta tidas como procedentes de nós, e que vos afirmassem estar iminente o Dia do Senhor." 2 Ts 2,1-2
    De toda forma, tanto falando do Juízo Particular como do Final, a Segunda Carta de São Pedro explica: "O Senhor não tarda a cumprir Sua promessa, como alguns interpretam a demora. É que Ele está usando de paciência para convosco, pois não deseja que ninguém se perca. Ao contrário, quer que todos venham a se converter. Considerai como a paciência do Senhor vos é salutar." 2 Pd 3,9.15a
    Ademais, mesmo aqui na Terra, corpos de muitos Santos ainda não se decompuseram. O corpo de Santa Luzia já tem 1700 anos e ainda pode ser visto, não se corrompeu por completo. São grandes sinais que Deus nos dá da futura e definitiva Ressurreição da Carne.


RESSURREIÇÃO DE CRISTO: ESSÊNCIA DA DOUTRINA

    Logo no Livro de Atos dos Apóstolos, São Lucas tratou de registrar, referindo-se a Apóstolos, discípulos e seguidores: "E a eles manifestou-Se Vivo depois de Sua Paixão, com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas do Reino de Deus. E comendo com eles..." At 1,3-4a
    Como Ele prometeu: "Ainda um pouco de tempo e o mundo já não Me verá. Vós, porém, tornareis a Me ver, porque Eu vivo e vós vivereis." Jo 14,19
    Segundo São Paulo, conhecer o Mistério de Cristo é conhecer o poder que há em Sua Ressurreição, e este é obtido oferecendo-se com Ele em sacrifício: "Anseio pelo conhecimento, de Cristo e do poder de Sua Ressurreição, pela participação em Seus sofrimentos, tornando-me semelhante a Ele na morte, com a esperança de conseguir a Ressurreição dentre os mortos." Fl 3,10-11
    Os seguidores de sua tradição afirmam na Carta aos Hebreus: "Foi por sua fé que Abraão, submetido à prova, ofereceu Isaac, seu único filho, depois de ter recebido a promessa e ouvido as palavras: 'Uma posteridade com teu nome sê-te-á dada em Isaac (Gn 21,12).' Estava ciente de que Deus é poderoso até para ressuscitar alguém dentre os mortos. Assim ele conseguiu que seu filho lhe fosse devolvido, e isso é um ensinamento para nós!" Hb 11,17-19
    E evocando já tantos testemunhos de tantos Santos, eles exortam à perseverança em Cristo: "Desse modo, cercados como estamos de uma tal nuvem de testemunhas, desvencilhemo-nos das correntes do pecado. Com perseverança corramos ao proposto combate, com o olhar fixo no Autor e Consumador de nossa fé, Jesus. Em vez de gozo que se Lhe oferecera, Ele suportou a Cruz e está sentado à direita do trono de Deus." Hb 12,1-2
    O Príncipe dos Apóstolos igualmente diz que a Ressurreição de Cristo é a fonte de nossa esperança, o impulso da Nova Vida: "Bendito seja Deus, o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo! Em Sua grande Misericórdia, Ele fez-nos renascer pela Ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma viva esperança..." 1 Pd 1,3
    Testemunhar Sua Ressurreição, de fato, era o tema central das primeiras pregações dos Apóstolos, que só depois divulgariam Seus Ensinamentos e, ainda mais tarde, Sua História. Ora, por ser absolutamente marcante e reveladora, foi o testemunho de Sua Ressurreição que se exigiu de São Matias, que substituiu Judas Iscariotes. Disse São Pedro em reunião com os Dez, antes do Pentecostes: "Convém que destes homens, que em nossa companhia têm estado todo tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, a começar do Batismo de João até o dia em que de nosso meio foi arrebatado, um deles se torne conosco testemunha de Sua Ressurreição." At 1,21-22
    E foi o que eles apaixonadamente fizeram depois do Pentecostes: "Com grande coragem, os Apóstolos davam testemunho da Ressurreição do Senhor Jesus. Em todos eles era grande a Graça." At 4,33
    Com efeito, mesmo anos depois de sua conversão, São Paulo trata de lembrar esse capítulo da Sã Doutrina: "Eu lembro-vos, irmãos, o Evangelho que vos preguei e que tendes acolhido, no qual estais firmes. Por ele sereis salvos, se o conservardes como vo-lo preguei. De outra forma, em vão teríeis abraçado a fé. Eu primeiramente transmiti-vos o que eu mesmo havia recebido: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressurgiu ao terceiro dia..." 1 Cor 15,1-4a
    Ele também menciona a Ressurreição da Carne como o feito central do Ministério de Jesus: "Dou testemunho a pequenos e a grandes, nada dizendo senão o que os Profetas e Moisés disseram que havia de acontecer, a saber: que Cristo havia de padecer e seria o primeiro que, pela Ressurreição dos Mortos, havia de anunciar a Luz ao povo judeu e aos pagãos." At 26,22b-23
    Foi o que ele pregou aos gregos em Atenas: "Alguns filósofos epicureus e estoicos conversaram com ele. Diziam uns: 'Que quer dizer esse tagarela?' Outros: 'Parece que é pregador de novos deuses.' Pois lhes anunciava Jesus e a Ressurreição. Tomaram-no consigo e levaram-no ao Areópago, e perguntaram-lhe: 'Podemos saber que nova doutrina é essa que pregas?'" At 17,18-19
    E ele ensinou-lhes, explicando ao final: "Deus, porém, não levando em conta os tempos da ignorância, agora convida a todos homens de todos lugares a se arrependerem. Porquanto fixou o dia em que com Justiça há de julgar o mundo, pelo ministério de um Homem que para isso destinou. Como garantia disso, deu a todos o fato de O ter ressuscitado dentre os mortos." At 17,30-31
    Também argumentou com os cristãos da cidade de Corinto, em respostas àqueles que renegavam a Ressurreição: "Ora, se se prega que Jesus ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns de vós que não há Ressurreição dos Mortos? Se não há Ressurreição dos Mortos, nem Cristo ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, é vã nossa pregação, e também é vã vossa fé. Pois se os mortos não ressuscitam, Cristo também não ressuscitou." 1 Cor 15,12-14.16
    Quando foi preso em Jerusalém, ele usou deste argumento perante o Sinédrio, o conselho dos judeus, para envolver em sua defesa os fariseus, que concordavam com essa doutrina: "Por causa de minha esperança na Ressurreição dos Mortos é que sou julgado." At 23,6
    E São João Evangelista, no Apocalipse, assim avisa da Definitiva Volta de Jesus, reafirmando que que haverá Ressurreição, seja para a Vida Eterna, seja para os castigos do inferno: "Ei-Lo que vem com as nuvens. Todos olhos vê-Lo-ão, mesmo aqueles que O traspassaram." Ap 1,7a
    A ressurreição, portanto, é basilar capítulo do Catolicismo, como o Credo diz e os discípulos de São Paulo ensinam: "Pelo que, transpondo os elementares ensinamentos da Doutrina de Cristo, procuremos alcançar-lhe a plenitude. Não queremos agora insistir nas fundamentais noções da conversão, da renúncia ao pecado, da fé em Deus, a doutrina dos vários batismos, da imposição das mãos, da Ressurreição dos Mortos e do Eterno Julgamento." Hb 6,1-2
    Aliás, nosso Batismo consiste numa súplica a Deus, para que Ele nos mantenha vigilantes e no correto Caminho em nome da Ressurreição de Seu Filho. São Pedro diz: "Esta água prefigurava o Batismo de agora, que também salva a vós, não pela purificação das impurezas do corpo, mas pela que consiste em pedir a Deus uma boa consciência, pela Ressurreição de Jesus Cristo." 1 Pd 3,21
    Porque Sua Ressurreição é a grande força do Evangelho. Foi por ela que Deus O consagrou, como o Apóstolo dos Gentios prega aos cristãos de Roma: "... em poder foi estabelecido Filho de Deus por Sua Ressurreição dos Mortos..." Rm 1,4
    Ora, a Ressurreição do Senhor havia sido profetizada pelo rei Davi, como São Pedro explicou citando um Salmo seu: "É, portanto, a Ressurreição de Cristo que ele previu e anunciou por estas palavras: 'Ele não foi abandonado na região dos mortos, e Sua Carne não conheceu a corrupção (Sl 15,10).'" At 2,31
    Sim, falando através de Davi num Salmo, era o próprio Jesus que rezava a Deus: "Por isso, Meu Coração alegra-se e Minha alma exulta. Até Meu Corpo descansará seguro, porque Vós não abandonareis Minha alma na habitação dos mortos, nem permitireis que Vosso Santo conheça a corrupção." Sl 15,9-10
    Essa é a Glória do 'Filho de Maria (cf. Mc 6,3)', como outro salmista prossegue cantando por Jesus: "Senhor, Eu sou Vosso Servo. Vosso Servo, Filho de Vossa Serva. Quebrastes Meus grilhões." Sl 115,7
    Essa certeza, portanto, já era proclamada por este mesmo salmista: "Na presença do Senhor continuarei Meu caminho, na terra dos vivos." Sl 114,8
    Pois a partir da Ressurreição, como vimos Jesus afirmar, os seres humanos havidos por filhos de Deus alcançarão a angelical condição: "Na Ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos, mas serão como os anjos de Deus no Céu." Mt 22,30
    É lá que nosso amor a Deus, e por consequência a nossos semelhantes, será recompensado. Jesus disse sobre a caridade que se faz aos mais necessitados: "Serás feliz porque eles não têm com que te retribuir, mas sê-te-á retribuído na Ressurreição dos justos." Lc 14,14
    Os Santos, por sinal, para si asseguram a Vida Eterna já durante a passagem terrena, sem que suas almas passem pelo Purgatório. Neste mundo mesmo eles alcançam a perfeita Comunhão com Deus, e após um glorioso Juízo Particular, o Juízo Final não os assusta, pois já estão reinando com Cristo: "Feliz e Santo é aquele que toma parte na primeira ressurreição! Sobre eles a segunda morte não tem poder, mas serão Sacerdotes de Deus e de Cristo: com Ele reinarão durante os mil anos." Ap 20,6
    O Livro de Sabedoria já dizia: "Mas as almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento tocá-los-á. Aparentemente estão mortos, aos olhos dos insensatos. Seu desenlace é julgado como uma desgraça, e sua morte, como uma destruição, quando na verdade estão na Paz! Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, a esperança deles era portadora de imortalidade, e, por terem sofrido um pouco, receberão grandes bens, porque Deus, que os provou, os achou dignos de Si. Ele provou-os como ouro na fornalha, e acolheu-os como holocausto." Sb 3,1-6
    Contudo, na parábola do pobre Lázaro e o rico, Jesus afirmou, atestando a descrença já de então, que nem mesmo Sua Ressurreição levaria todos à fé: "Se não ouvirem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que algum dos mortos ressuscite." Lc 16,31b

    "Anunciamos, Senhor, Vossa Morte, e proclamamos Vossa Ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!"

sexta-feira, 3 de abril de 2026

A Sexta-Feira Santa

    O Evangelho Segundo São Mateus assim descreve os últimos momentos de Jesus:

'PERANTE PILATOS'


    "Chegando a manhã, todos príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo reuniram-se no Sinédrio para entregar Jesus à morte. Ligaram-nO e levaram-nO ao governador Pilatos. Judas, o traidor, vendo-O então condenado, tomado de remorsos, foi devolver aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos as trinta moedas de prata, dizendo-lhes:
    - Pequei, entregando o Sangue de um Justo.
    Responderam-lhe:
    - Que nos importa? Isto é contigo!
    Então ele jogou no Templo as moedas de prata, saiu e foi enforcar-se.
    Os príncipes dos sacerdotes tomaram o dinheiro e disseram:
    - Não é permitido lançá-lo no sagrado tesouro, porque se trata de preço de Sangue.
    Depois de haverem deliberado, com aquela soma compraram o campo do Oleiro, para que ali se fizesse um cemitério de estrangeiros. Esta é a razão porque aquele terreno é chamado, ainda hoje, Campo de Sangue. Assim se cumpriu a profecia do Profeta Jeremias (Zc 11,12-13): 'Eles receberam trinta moedas de prata, preço d'Aquele Cujo valor foi estimado pelos filhos de Israel. E deram-no pelo campo do Oleiro, como o Senhor me havia prescrito.'

    Jesus compareceu diante do governador, que O interrogou:
    - És o Rei dos judeus?
    - Tu o dizes, respondeu-lhe Jesus.
    Ele, porém, nada respondia às acusações dos príncipes dos sacerdotes e dos anciãos. Perguntou-Lhe Pilatos:
    - Não ouves todos testemunhos que levantam contra Ti?
    Mas para grande admiração do governador, Ele não quis responder acusação alguma.
    Era costume que o governador soltasse um preso a pedido do povo em cada festa de Páscoa. Ora, havia naquela ocasião um famoso prisioneiro, chamado Barrabás. Pilatos dirigiu-se ao povo reunido:
    - Qual quereis que eu vos solte: Barrabás ou Jesus, que chamam de Cristo?
    Ele sabia que tinham entregue Jesus por inveja. Enquanto estava sentado no tribunal, sua mulher mandou dizer-lhe:
    - Nada faças a esse Justo! Hoje fui atormentada por um sonho que Lhe diz respeito.
    Mas os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram o povo que pedisse a libertação de Barrabás, e que fizesse morrer Jesus. O governador então tomou a palavra:
    - Qual dos dois quereis que eu vos solte?
    Responderam:
    - Barrabás!
    Pilatos perguntou:
    - Que farei então de Jesus, que chamam de Cristo?
    Todos responderam:
    - Seja crucificado!
    O governador tornou a perguntar:
    - Mas que mal fez Ele?
    E gritavam ainda mais forte:
    - Seja crucificado!
    Pilatos viu que nada adiantava, mas que, ao contrário, o tumulto crescia. Fez com que lhe trouxessem água, lavou as mãos diante do povo e disse:
    - Sou inocente do Sangue deste Homem. Isto é convosco!
    E todo povo respondeu:
    - Que Seu Sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos!
    Assim, ele libertou Barrabás, mandou açoitar Jesus e entregou-O para ser crucificado.

'A FLAGELAÇÃO'


    Os soldados do governador conduziram Jesus para o pretório e rodearam-nO com todo pelotão. Arrancaram-Lhe as vestes e colocaram-Lhe um manto escarlate. Depois, trançaram uma coroa de espinhos, meteram-Lha na cabeça e puseram-Lhe na mão uma vara. Dobrando os joelhos diante d'Ele, diziam com escárnio:
    - Salve, Rei dos judeus!
    Cuspiam-Lhe no rosto e, tomando da vara, davam-Lhe golpes na cabeça. Depois de escarnecerem d'Ele, tiraram-Lhe o manto e entregaram-Lhe as vestes. Em seguida, levaram-nO para O crucificar.

'A CRUCIFICAÇÃO'


    Saindo, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, a quem obrigaram a levar a Cruz de Jesus. Chegaram ao lugar chamado Gólgota, isto é, lugar do 'crânio'. Deram-Lhe de beber vinho misturado com fel. Ele provou, mas recusou-Se a beber.
    Depois de O haverem crucificado, dividiram Suas vestes entre si, tirando a sorte. Cumpriu-se assim a profecia do Profeta: 'Repartiram entre si Minhas vestes, e sobre Meu manto lançaram a sorte' (Sl 21,19).
    Sentaram-se e montaram guarda. Por cima de Sua cabeça penduraram um escrito, trazendo o motivo de Sua Crucificação: 'Este é Jesus, o Rei dos judeus'. Ao mesmo tempo, com Ele foram crucificados dois ladrões, um a Sua direita e outro a Sua esquerda.
    Aqueles que passavam, injuriavam-nO, sacudiam a cabeça e diziam:
    - Tu, que destróis o Templo e o reconstróis em três dias, salva a Ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da Cruz!
    Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos também zombavam d'Ele:
    - Ele salvou a outros e não pode salvar a Si mesmo! Se é Rei de Israel, que desça agora da Cruz e nós creremos n'Ele!
    - Confiou em Deus, Deus livre-O agora se O ama, porque Ele disse: 'Eu sou o Filho de Deus!'
    E os ladrões, com Ele crucificados, também O ultrajavam.
    Desde o meio-dia até às três da tarde, cobriu-se de trevas toda Terra.

'A MORTE'


    Próximo das três da tarde, Jesus exclamou em forte voz:
    - Eli, Eli, lammá sabactáni? - que quer dizer: Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonaste (Sl 21,2)?
    A estas palavras, alguns daqueles que lá estavam diziam:
    - Ele chama por Elias.
    Um deles imediatamente tomou uma esponja, embebeu-a em vinagre e apresentou-Lha na ponta de uma vara, para que bebesse. Os outros diziam:
    - Deixa! Vejamos se Elias virá socorrê-Lo.
    Jesus de novo lançou um grande brado, e entregou o espírito.
    E eis que o véu do Templo se rasgou em duas partes, de alto a baixo, a terra tremeu, fenderam-se as rochas. Os sepulcros abriram-se e os corpos de muitos justos ressuscitaram. Saindo de suas sepulturas, entraram na Cidade Santa depois da Ressurreição de Jesus e apareceram a muitas pessoas.
    O centurião e seus homens, que montavam guarda a Jesus, diante do estremecimento da terra e de tudo que se passava, disseram entre si, possuídos de grande temor:
    - Verdadeiramente, este Homem era Filho de Deus!
    Ali também havia algumas mulheres que de longe olhavam. Tinham seguido Jesus desde Galileia para O servir. Entre elas achavam-se Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.

'O SEPULTAMENTO'


    Ao entardecer, um rico homem de Arimateia, chamado José, que também era discípulo de Jesus, foi procurar Pilatos e pediu-lhe o Corpo de Jesus. Pilatos cedeu-O. José tomou o Corpo, envolveu-O num branco lençol e depositou-O num novo sepulcro, que para si tinha mandado talhar na rocha. Depois rolou uma grande pedra à entrada do sepulcro, e foi-se embora.
    Maria Madalena e a outra Maria ficaram lá, sentadas defronte do túmulo."
                                              Mt 27,1-61

    O Evangelho Segundo São Lucas deu-nos mais estes detalhes:

    "Pilatos declarou aos príncipes dos sacerdotes e ao povo:
    - Eu não acho culpa alguma n'Este Homem.
    Mas eles fortemente insistiam:
    - Ele revoluciona o povo ensinando por toda Judeia, a começar de Galileia até aqui.
    A estas palavras, Pilatos perguntou se Ele era galileu. E quando soube que era da jurisdição de Herodes, enviou-O a Herodes, pois justamente naqueles dias se achava em Jerusalém.
    Herodes alegrou-se muito em ver Jesus, pois de longo tempo desejava vê-Lo por ter ouvido falar d'Ele muitas coisas, e esperava presenciar algum milagre operado por Ele. Dirigiu-Lhe muitas perguntas, mas Jesus nada respondeu.
    Ali estavam os príncipes dos sacerdotes e os escribas, acusando-O com violência. Herodes, com sua guarda, tratou-O com desprezo, d'Ele escarneceu, mandou revesti-Lo de uma branca túnica e reenviou-O a Pilatos. Naquele mesmo dia, Pilatos e Herodes fizeram as pazes, pois antes eram inimigos um do outro.
    Pilatos então convocou os príncipes dos sacerdotes, os magistrados e o povo, e disse-lhes:
    - Apresentaste-me Este Homem como agitador do povo, mas, interrogando-O eu diante de vós, não O achei culpado de nenhum dos crimes de que O acusais. Nem tampouco Herodes, pois no-Lo devolveu. Portanto, Ele nada fez que mereça a morte. Por isso, soltá-Lo-ei depois de O castigar.
    Acontecia que em cada festa ele era obrigado a lhes soltar um preso. Todo povo gritou a uma voz:
    - À morte com Este, e solta-nos Barrabás.
    Este homem fora lançado ao cárcere devido a uma revolta levantada na cidade, por causa de um homicídio. Pilatos, porém, querendo soltar Jesus, falou-lhes de novo, mas eles vociferavam:
    - Crucifica-O! Crucifica-O!
    Pela terceira vez, Pilatos ainda interveio:
    - Mas que mal fez Ele, então? Não achei n'Ele nada que mereça a morte. Irei, portanto, castigá-Lo e, depois, soltá-Lo-ei.
    Mas eles instavam, reclamando em altas vozes que fosse crucificado, e seus clamores recrudesciam. Pilatos pronunciou, então, a sentença que lhes satisfazia o desejo. Soltou-lhes aquele que eles reclamavam e que havia sido lançado ao cárcere por causa do homicídio e da revolta, e entregou Jesus à vontade deles."
                                              Lc 23,4-25

    Diferente de São Mateus (cf. Mt 27,44), o Amado Médico apontou que um dos ladrões não O insultava. Ao contrário, defendeu-O dos ultrajes do outro e, realmente arrependido, fez-Lhe um sincero e tocante pedido por sua alma. Certamente sabia da história e dos milagres de Nosso Senhor, e talvez até tenha sido tocado por alguma de Suas pregações, ainda que não tenha abandonado a vida no crime. Contudo, ouviu esta redentora Palavra:

    "Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra Ele:
    - Se és o Cristo, salva a Ti mesmo e a nós!
    Mas o outro repreendeu-o:
    - Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? Para nós, isto é justo: recebemos o que nossos crimes mereceram, mas Este não fez mal algum.
    E acrescentou:
    - Jesus, lembra-Te de mim quando tiveres entrado em Teu Reino!
    Jesus respondeu-lhe:
    - Na Verdade, digo-te: hoje estarás Comigo no Paraíso."
                                              Lc 23,39-43

    E o Evangelho Segundo São João apontou este revelador diálogo entre Jesus e Pilatos, a respeito do Reino dos Céus e da Verdade:

    "Pilatos entrou no pretório, chamou Jesus e perguntou-Lhe:
    - És tu o Rei dos judeus?
    Jesus respondeu:
    - Dizes isso por ti mesmo, ou foram outros que to disseram de Mim?
    Disse Pilatos:
    - Acaso sou eu judeu? Tua nação e os sumos sacerdotes entregaram-Te a mim. Que fizeste?
    Respondeu Jesus:
    - Meu Reino não é deste mundo. Se Meu Reino fosse deste mundo, Meus súditos certamente teriam combatido para que Eu não fosse entregue aos judeus. Mas Meu Reino não é deste mundo.
    Então Lhe perguntou Pilatos:
    - És, portanto, Rei?
    Respondeu Jesus:
    - Tu o dizes: Eu sou Rei. É para dar testemunho da Verdade que nasci e vim ao mundo. Todo aquele que é da Verdade ouve Minha voz.
    Disse-Lhe Pilatos:
    - O que é a Verdade?
    Falando isso, saiu de novo, foi ter com os judeus e disse-lhes:
    - Não acho n'Ele crime algum."
                                            Jo 18,33-38

    Ele também anotou a violenta flagelação que Jesus sofreu, mencionada como açoitamento na narrativa de São Mateus (cf. Mt 27,26), como os romanos sempre faziam antes de toda crucificação: "Então Pilatos tomou Jesus e mandou flagelá-Lo." Jo 19,1
    E assim registrou a grande hesitação deste governador, enquanto O julgava:

    "Falou-lhes Pilatos:
    - Tomai-O vós e crucificai-O, pois n'Ele eu não acho culpa alguma.
    Responderam-lhe os judeus:
    - Nós temos uma lei, e segundo essa lei Ele deve morrer porque Se declarou Filho de Deus.
    Estas palavras impressionaram Pilatos. Novamente entrou no pretório e perguntou a Jesus:
    - De onde és Tu?
    Mas Jesus não lhe respondeu. Pilatos então Lhe disse:
    - Tu não me respondes? Não sabes que tanto tenho poder para Te soltar como para Te crucificar?
    Respondeu Jesus:
    - Não terias poder algum sobre Mim, se de cima não te fora dado. Por isso, quem Me entregou a ti tem maior pecado.
    Desde então Pilatos procurava soltá-Lo. Mas os judeus gritavam:
    - Se O soltares, não és amigo do imperador, porque todo aquele que se faz rei se declara contra o imperador."
                                              Jo 19,6b-12

    Ele registrou outras importantíssimas informações sobre este dia, como o nome de uma prima de Nossa Senhora, que também se chamava Maria e era a verdeira mãe dos chamados 'irmãos' de Jesus (cf. Mc 6,3), bem como o momento em que Nosso Salvador fez da Santíssima Virgem Nossa Mãe, representados que fomos por este Amado Discípulo, e desde então ela foi morar com ele porque simplesmente não tinha outros filhos que dela cuidassem. Ora, o Quarto Mandamento de Deus determina exatamente honrar pai e mãe (cf. Êx 20,12), e 'Seus irmãos', se Jesus realmente os tivesse, não poderiam escusar-se:

    "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena.
    Quando Jesus viu Sua mãe, e perto dela o discípulo que amava, disse a Sua mãe:
    - Mulher, eis aí teu filho.
    Depois disse ao discípulo:
    - Eis aí tua mãe.
    E dessa hora em diante, o discípulo levou-a para sua casa."
                                             Jo 19,25-27

    Ao narrar esta mesma cena, o Evangelho Segundo São Marcos, tal qual o de São Mateus acima (cf. Mt 27,56), nomina dois dos chamados 'irmãos' de Jesus como filhos desta senhora: "Ali também se achavam umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé, que O tinham seguido e O haviam assistido quando Ele estava em Galileia. E muitas outras que junto a Ele haviam subido a Jerusalém." Mc 15,40-41
    O mais teológico dentre os evangelista, pois, São João assim descreveu os últimos instantes de Jesus:

    Em seguida, sabendo Jesus que tudo estava consumado, para se cumprir plenamente a Escritura, disse:
    - Tenho sede.
    Havia ali um vaso cheio de vinagre. Os soldados encheram de vinagre uma esponja e, fixando-a numa vara de hissopo, chegaram-Lhe à boca.
    Havendo Jesus tomado do vinagre, disse:
    - Tudo está consumado.
    Inclinou a cabeça e entregou o espírito.
                                             Jo 19,28-30

    São Lucas ainda registrou a compaixão do Senhor pelos soldados romanos, enquanto era crucificado: "E Jesus dizia: 'Pai, perdoa-lhes. Porque não sabem o que fazem.'" Lc 23,34a
    E a despeito do escárnio dos religiosos judeus, também atestou a generalizada comoção entre todos demais presentes, que se viu na dispersão após Sua Morte: "E toda multidão daqueles que assistiam a este espetáculo e viam o que se passava, voltou batendo no peito." Lc 23,48
    Ele fala do tradicional funeral judeu que as seguidoras de Jesus pretendiam dar a Seu Corpo após o sábado, pois pela Lei não podiam, depois do pôr do sol, tocar em cadáver nem trabalhar no novo dia que começava, e acabou sendo sepultado às pressas: "Elas viram o túmulo e o modo como o Corpo de Jesus ali fora depositado. Elas voltaram e prepararam aromas e bálsamos. No dia de sábado, observaram o preceito do repouso." Lc 23,55b-56
    E também relatou as palavras de São Pedro, no Livro de Atos dos Apóstolos, que dizem o fim de Judas Iscariotes após se enforcar: "Depois, tombando para a frente, arrebentou-se pelo meio e todas suas entranhas derramaram-se." At 1,18b
    Sem dúvida, foi o castigo em face dos indizíveis privilégios que teve, presenciando tantos sinais e ouvindo o Verbo do próprio Deus Encarnado. Jesus havia-o advertido durante a Santa Ceia: "O Filho do Homem vai, segundo o que d'Ele está escrito, mas ai daquele homem por quem o Filho do Homem for traído! Melhor lhe seria que nunca tivesse nascido..." Mc 14,21
    Detalhes da infame flagelação de Jesus, porém, foram profetizados haviam vários séculos. No Livro do Profeta Isaías, o próprio Cristo dizia: "Ofereci as costas para Me baterem, e as faces para Me arrancarem a barba. Não desviei o rosto de bofetões e cusparadas. Mas o Senhor Deus é Meu Auxiliador, por isso não Me deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não serei confundido." Is 50,6-7
    O próprio Pai também falou através deste Profeta: "Eis que Meu Servo há de prosperar. Ele elevar-Se-á, será exaltado, será posto nas alturas. Assim como muitos ficaram pasmados ao vê-Lo, tão desfigurado Ele estava que não parecia ser um homem ou ter aspecto humano, assim numerosas nações ficarão estupefatas a Seu respeito, reis manter-se-ão em silêncio, vendo coisas que não lhes haviam sido contadas, e ao tomarem consciência de coisas que não tinham ouvido." Is 52,13-15
    Disse, enfim, nos versículos do 'Servo Sofredor': "Na verdade, Ele tomou sobre Si nossas enfermidades, e carregou nossos sofrimentos. E nós O reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado. Mas Ele foi trespassado por causa de nossos pecados, esmagado por causa de nossas iniquidades. O castigo que havia de nos trazer a Paz, caiu sobre Ele. Sim, por Suas feridas fomos curados. Foi maltratado, mas livremente Se humilhou e não abriu a boca, como um cordeiro conduzido ao matadouro, como uma ovelha que permanece muda na presença de seus tosquiadores. Ele não abriu a boca. Porém, se Ele oferece Sua vida como sacrifício pelo pecado, por meio d'Ele o desígnio de Deus há de triunfar." Is 53,4-5.7.10b
    São profecias de impressionante precisão: "Mas aprouve ao Senhor esmagá-Lo pelo sofrimento... a vontade do Senhor será realizada por Ele. Após suportar em Sua Pessoa os tormentos, alegrar-Se-á de O conhecer até o enlevo. 'O Justo, Meu Servo, justificará muitos homens, e tomará sobre Si suas iniquidades. ... porque Ele próprio deu Sua vida e Se deixou colocar entre os criminosos, tomando sobre Si os pecados de muitos homens, e intercedendo pelos culpados.'" Is 53,10a.c-11,12b
    E no Livro de Salmos, no mesmo canto que o rei Davi prenunciava a repartição de Suas vestes, já estavam as zombarias que Ele ouviu enquanto estava crucificado, como São Mateus registrou (cf. Mt 27,43): "Todos que Me veem, zombam de Mim. Dizem, meneando a cabeça: 'Esperou no Senhor, pois Ele O livre, O salve, se O ama.'" Sl 21,8-9
    Falando por Ele, também expressava vívidos detalhes de Sua Paixão: "Minha garganta está seca qual barro cozido, pega-se no paladar Minha língua: Vós reduziste-Me ao pó da morte. Sim, rodeia-Me uma malta de cães, cerca-Me um bando de malfeitores. Traspassaram Minhas mãos e Meus pés: poderia contar todos Meus ossos." Sl 21,16-18a
    Em outro deles, também de Davi, surpreendentemente consta: "... em Minha sede, deram-Me vinagre para beber." Sl 68,22
    Enfim, o motivo que levaria à Crucificação de Jesus já havia sido exposto por São João Evangelista, desde Sua segunda festa na Cidade Santa em vida pública, após a cura do paralítico no Tanque de Betesda e ser recriminado por 'trabalhar' num sábado, quando respondeu: "'Meu Pai trabalha até agora e Eu também trabalho.' Por esta razão os judeus, com maior ardor, procuravam tirar-Lhe a vida, porque não somente violava o repouso do sábado, mas ainda afirmava que Deus era Seu Pai, e assim Se fazia igual a Deus." Jo 5,17b-18
    Os chefes dos sacerdotes mesmos vão alegá-lo durante o julgamento de Pilatos, como visto acima, quando ele lhes ofereceu Jesus de volta, dizendo que eles mesmo O crucificassem, porque n'Ele não via culpa alguma: "Nós temos uma lei e, segundo essa lei, Ele deve morrer, porque Se declarou Filho de Deus." Jo 19,7
    Outro esclarecedor detalhes é que São Paulo, em pregação aos judeus na sinagoga de Antioquia de Pisídia, afirma que a multidão que pedia a Pilatos para condenar Jesus e libertar Barrabás, além de insuflada pelos líderes religiosos, como São Mateus diz (cf. Mt 27,20), era feita apenas de gente de Jerusalém. Os peregrinos, que aclamaram Jesus no Domingo de Ramos, não se interessavam por esse 'juri popular' promovido pelos romanos (cf. Mt 27,15; Lc 23,17): "Com efeito, os habitantes de Jerusalém e seus magistrados não conheceram Jesus, e, sentenciando-O, cumpriram os oráculos dos Profetas, que cada sábado são lidos." At 13,27
    De fato, apesar de todas Suas manifestações na Cidade Santa, em geral em festas judaicas, o povo daí não O conhecia, como se vê no Domingo de Ramos: "Quando Ele entrou em Jerusalém, alvoroçou-se toda a cidade, perguntando: 'Quem é Este?' A multidão respondia: 'É Jesus, o Profeta de Nazaré de Galileia.'" Mt 21,10
    O próprio Jesus havia profetizado essa rejeição, momentos antes de entrar em Jerusalém neste triunfal domingo: "Aproximando-Se ainda mais, Jesus contemplou Jerusalém e chorou sobre ela, dizendo: 'Oh! Se tu, ao menos neste dia que te é dado, também conhecesses Aquele que pode trazer-te a Paz! Mas não, isso está oculto a teus olhos.'" Lc 19,41-42
    E na última semana, acusou-os, não Se referindo apenas aos líderes religiosos: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os Profetas e apedrejas aqueles que te são enviados!" Mt 23,37a
    De toda forma, muito antes, desde que soube pelos próprios fariseus que Herodes queria matá-Lo, já dizia: "... devo seguir Meu Caminho, porque não convém que um Profeta morra fora de Jerusalém." Lc 13,33b
    Ora, isso também já estava previsto desde o Profeta Isaías, que disse: "Ele será a pedra de escândalo e a pedra de tropeço para as duas casas de Israel, o laço e a cilada para os habitantes de Jerusalém." Is 8,14
    E por fim, a Carta de São Paulo aos Gálatas faz recordar o que significa a crucificação segundo o Antigo Testamento, citando o Livro de Deuteronômio: "Cristo remiu-nos da maldição da Lei, fazendo-Se maldição por nós, pois está escrito: Maldito todo aquele que é suspenso no madeiro (cf. Dt 21,23)." Gl 3,13


    São João Apóstolo todavia aponta uma querela sobre o Titulus Crucis, que São Mateus registrou como "um escrito" acima de Sua cabeça no Santo Madeiro (cf. Mt 27,37): "Pilatos, ademais, redigiu uma inscrição e fixou-a por cima da Cruz. Nela estava escrito: 'Jesus de Nazaré, Rei dos judeus.' Muitos dos judeus leram essa inscrição, porque Jesus foi crucificado perto da cidade e a inscrição era redigida em hebraico, em latim e em grego. Os sumos sacerdotes dos judeus disseram a Pilatos: 'Não escrevas: Rei dos judeus, mas sim: Este Homem disse ser o Rei dos judeus.' Respondeu Pilatos: 'O que escrevi, escrevi.'" Jo 19,19-22
    E narrou mais estes detalhes da Crucificação: é o mais importante capítulo da história de São Longuinho, por este evangelista tratado como um soldado, mas que seria o centurião romano encarregado da Crucificação segundo São Marcos (cf. Mc 15,39), São Mateus (cf. Mt 27,54) e São Lucas (cf. Lc 23,47), e que reconheceu Jesus como o Filho de Deus, no texto visto acima (cf. Mt 27,54): "Os judeus temeram que os corpos ficassem nas cruzes durante o sábado, porque já era a Preparação e esse sábado era particularmente solene. Rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados. Vieram os soldados e quebraram as pernas do primeiro e do outro, que com Ele foram crucificados. Chegando, porém, a Jesus, como O vissem já morto, não Lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados abriu-Lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu Sangue e Água." Jo 19,31-34
    Ora, isso também foi profetizado noutro Salmo do rei Davi, em que diz do Pai sobre Cristo: "Ele protege cada um de Seus ossos, nem um só deles será quebrado." Sl 33,21
    A estátua de São Longuinho, como testemunha da Crucificação e do grande sinal do Sangue e Água de Cristo, é uma das quatro, junto às de Santa Helena, Santa Verônica e Santo André, que ficam ao redor do Altar Papal na Basílica de São Pedro.


    Segundo a Sagrada Tradição, ele tinha uma grave enfermidade num dos olhos, que foi imediatamente curada por respingos do Sangue e da Água que saíram do lado de Cristo Crucificado (cf. Gl 3,1). Convertido, ele abandonou o exército romano e tornou-se evangelista em Cesareia Marítima, na região da então Samaria, e em Capadócia, que fica em atual Turquia. Aí, por seu constante e destemido testemunho, ele foi torturado, teve os dentes arrancados e a língua cortada, e assim assassinado, portanto mais um mártir da Santa Igreja Católica.
    A lança usada por São Longuinho, séculos mais tarde revestida com uma lâmina de ouro, é venerada em Viena, capital de Áustria. É mais uma relíquia que prova que Jesus não foi mitificado, processo que certamente teria que levar pelo menos algumas décadas, mas foi prontamente reconhecido como o Messias, pois a este artefato desde sempre foi dado a devida importância.


    As pedras que sustentaram a Santa Cruz, assim como a lápide sobre a qual o Corpo de Cristo foi apressadamente ungido antes de ser posto no túmulo, são veneradas na Basílica do Santo Sepulcro, em Jerusalém, que foi construída por ordem e sob os cuidados de Santa Helena, sobre o local de Seu sepultamento.


    Enfim, temos esse expressivo desabafo de Nosso Senhor Jesus Cristo, feito em aparição a Santa Faustina, que Ele chamou de 'Apóstola de Minha Misericórdia' (Diário, 1142): "São poucas as almas que contemplam Minha Paixão com um verdadeiro afeto. Concedo as mais abundantes Graças às almas que piedosamente meditam sobre Minha Paixão." (Diário, 737)
    Já lhe havia revelado sobre penitências: "Uma hora de reflexão sobre Minha Dolorosa Paixão tem maior mérito que um ano inteiro de flagelação até o sangue..." (Diário, 369)
    Rezemos então ao Pai essa oração que Jesus mesmo ensinou para ser recitada todo dia às três da tarde:

    "Por Sua Dolorosa Paixão, tende Misericórdia de nós e do mundo inteiro!"